Antonio Carlos Egypto
HONESTINO. Brasil, 2025. Direção: Aurélio Michiles. Elenco: Bruno Gagliasso. 85 min.
“Honestino”, mistura de documentário e encenações ficcionais, é mais um
trabalho importante de resgate dos tempos de chumbo da ditadura civil-militar,
que durou 21 anos no Brasil.
Trata da vida do estudante Honestino Guimarães, sequestrado e
desaparecido em 1973, aos 26 anos de idade, após ter sido preso cinco vezes
pela ditadura. Estudante da Universidade
de Brasília, com atuação no Rio de Janeiro e no Brasil como presidente da UNE,
membro ativo da geração de 1968, que é representado nas cenas ficcionais por
Bruno Gagliasso.
A narrativa do filme, dirigido por Aurélio Michiles, inclui cartas,
poemas, imagens de arquivo e depoimentos de gente como Almino Afonso, Franklin
Martins, Jorge Bodanski, Betty Almeida (biógrafa do líder estudantil),
familiares, amigos e militantes que com ele conviveram.
Uma das maiores tragédias de um país é o esquecimento de seus problemas,
suas chagas, seu passado. Negar, varrer
para debaixo do tapete, cultivar a impunidade em nada ajuda a superar os
traumas vividos. Na verdade, dificulta,
impede nosso avanço civilizatório.
Filmes como esse nos ajudam a refletir sobre o que buscamos para o país
e nos permitem reavaliar a importância da democracia para o enfrentamento real
das questões nacionais.
A QUINTA PORTUGUESA (Una Quinta
Portuguesa). Espanha/Portugal,
2025. Direção: Avelina Prat. Elenco: Manolo Solo, Maria de Medeiros,
Branca Katic, Rita Cabaço. 114 min.
“A Quinta Portuguesa” conta uma história que remete à discussão do
significado da própria identidade humana e o que a determinaria. O lugar, os costumes, experiências,
desejos? A geografia? Certamente isso tudo tem muita
importância.
Será tratado na narrativa por meio de dois personagens. O central, Fernando, papel de Manolo Solo,
não por acaso professor de geografia. O
outro, Amália, papel de Maria de Medeiros, a dona da quinta, que acolherá
Fernando como se se chamasse e fosse Manuel.
Isso se dá porque Fernando, devastado pelo desaparecimento repentino da
esposa, que volta para a Sérvia sem qualquer aviso, vaga um pouco pelo mundo e
conhece um jardineiro português idoso de quem vai se tornando amigo. As
circunstâncias da morte de Manuel, lhe darão uma oportunidade para que ele
assuma uma nova identidade e deixe todo o resto no passado.
Fernando/Manuel acaba encontrando na jardinagem um novo emprego e uma
nova vida, aproximando-se da charmosa e elegante Amália, o que lhe abre novas
possibilidades.
Só que o passado não some só porque a gente quer. É mister enfrentá-lo em algum momento, mesmo
contra a vontade. É essa transição de
vida que dá margem às reflexões que a história do filme nos propõe.
Os atores são brilhantes. Maria de
Medeiros, um talento português que reconhecemos por aqui há décadas, inclusive
como cineasta e cantora, e o espanhol Manolo Solo, falecido recentemente aos 62
anos, que está sensacional em seu desempenho no filme.
Avelina Prat, a diretora espanhola, natural de Valência, tem mão segura e
sensibilidade para lidar com o tema e nos oferece um filme intrigante, bom de
se ver.
















