quarta-feira, 12 de agosto de 2026

HONESTINO + QUINTA

 Antonio Carlos Egypto

 


HONESTINO.  Brasil, 2025.  Direção: Aurélio Michiles.  Elenco: Bruno Gagliasso.  85 min.

 

“Honestino”, mistura de documentário e encenações ficcionais, é mais um trabalho importante de resgate dos tempos de chumbo da ditadura civil-militar, que durou 21 anos no Brasil.

 

Trata da vida do estudante Honestino Guimarães, sequestrado e desaparecido em 1973, aos 26 anos de idade, após ter sido preso cinco vezes pela ditadura.  Estudante da Universidade de Brasília, com atuação no Rio de Janeiro e no Brasil como presidente da UNE, membro ativo da geração de 1968, que é representado nas cenas ficcionais por Bruno Gagliasso.

 

A narrativa do filme, dirigido por Aurélio Michiles, inclui cartas, poemas, imagens de arquivo e depoimentos de gente como Almino Afonso, Franklin Martins, Jorge Bodanski, Betty Almeida (biógrafa do líder estudantil), familiares, amigos e militantes que com ele conviveram.

 

Uma das maiores tragédias de um país é o esquecimento de seus problemas, suas chagas, seu passado.  Negar, varrer para debaixo do tapete, cultivar a impunidade em nada ajuda a superar os traumas vividos.  Na verdade, dificulta, impede nosso avanço civilizatório.  Filmes como esse nos ajudam a refletir sobre o que buscamos para o país e nos permitem reavaliar a importância da democracia para o enfrentamento real das questões nacionais.

 



A QUINTA PORTUGUESA (Una Quinta Portuguesa).  Espanha/Portugal, 2025.  Direção: Avelina Prat.  Elenco: Manolo Solo, Maria de Medeiros, Branca Katic, Rita Cabaço.  114 min.

 

“A Quinta Portuguesa” conta uma história que remete à discussão do significado da própria identidade humana e o que a determinaria.  O lugar, os costumes, experiências, desejos?  A geografia?  Certamente isso tudo tem muita importância. 

 

Será tratado na narrativa por meio de dois personagens.  O central, Fernando, papel de Manolo Solo, não por acaso professor de geografia.  O outro, Amália, papel de Maria de Medeiros, a dona da quinta, que acolherá Fernando como se se chamasse e fosse Manuel.

 

Isso se dá porque Fernando, devastado pelo desaparecimento repentino da esposa, que volta para a Sérvia sem qualquer aviso, vaga um pouco pelo mundo e conhece um jardineiro português idoso de quem vai se tornando amigo. As circunstâncias da morte de Manuel, lhe darão uma oportunidade para que ele assuma uma nova identidade e deixe todo o resto no passado.

 

Fernando/Manuel acaba encontrando na jardinagem um novo emprego e uma nova vida, aproximando-se da charmosa e elegante Amália, o que lhe abre novas possibilidades.

 

Só que o passado não some só porque a gente quer.  É mister enfrentá-lo em algum momento, mesmo contra a vontade.  É essa transição de vida que dá margem às reflexões que a história do filme nos propõe.

 

Os atores são brilhantes.  Maria de Medeiros, um talento português que reconhecemos por aqui há décadas, inclusive como cineasta e cantora, e o espanhol Manolo Solo, falecido recentemente aos 62 anos, que está sensacional em seu desempenho no filme.

 

Avelina Prat, a diretora espanhola, natural de Valência, tem mão segura e sensibilidade para lidar com o tema e nos oferece um filme intrigante, bom de se ver.




segunda-feira, 3 de agosto de 2026

2 DOCS e MOSTRAS

Antonio Carlos Egypto

 


O documentário ANATOMIA DO CAOS dedica-se a nos relembrar de um período recente dolorido da história nacional.  O período da pandemia no Brasil.  Mais precisamente, da CPI da Covid-19, realizada pelo Senado Federal para investigar o que se passava naquele momento do governo Jair Bolsonaro, onde as coisas não andavam bem por conta do negacionismo e da corrupção envolvidos na questão das vacinas, do atendimento hospitalar, da ausência de campanhas oficiais e das disputas políticas.

 

Com acesso aos bastidores da Comissão do Senado, a diretora Dandara Ferreira conseguiu fazer um retrato adequado daquele sofrido processo e das repercussões que ele produziu.  E que infelizmente resultaram num relatório importante arquivado pela PGR (Procuradoria Geral da República)  sob o comando de Augusto Aras e que resultou numa impunidade absurda.  Por isso é bom que isso tudo seja relembrado agora.

 

Citando Dandara Ferreira: “o que me movia naquele momento era a percepção de que o país atravessava algo maior do que uma crise sanitária.  Havia a disputa brutal em torno da própria realidade”. E mais: “Senti que o cinema podia dar voz ao povo”.  88 minutos.

 


Já o documentário brasileiro de 2025, A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO, investe na brincadeira.  A diretora Eliza Capai deu vez e voz às meninas de uma pequena cidade do interior do Piauí, que aos 10, 11 anos, pensam sobre as questões femininas e a chegada da adolescência.  Seus pensamentos refletem ainda uma ideia do homem como o gigante da mulher, mas suas reflexões divertidas trazem muita verdade sobre o machismo estrutural, a saída da miséria, Deus, o medo da morte e muito mais.  70 minutos.

 

MOSTRAS EM SÃO PAULO

 

Até o dia 12 de agosto, o Cinesesc apresenta a retrospectiva do cineasta Aki Kaurismaki, o mais importante diretor e roteirista de cinema da Finlândia.  Seus filmes tratam do cotidiano de pessoas simples, em geral derrotadas em muitos aspectos da vida, com um jeito peculiar de abordá-las, sem moralismos, julgamentos, pieguismo ou falsa valorização.  Ele o faz de forma seca, direta, bem humorada e com comportamentos inusitados e surpreendentes.  Além disso, abordando sinteticamente as coisas.  Sem rodeios. Um belo trabalho autoral que merece uma visão ou revisão de seus filmes, como o Cinesesc está fazendo com 18 obras de Kaurismaki sendo exibidas na telona.

 

Aki Kaurismaki

Vale destacar também que, até 12 de agosto, está em cartaz o 3º. Festival de Filmes Incríveis, no cine Belas Artes, na sala Luiz Carlos Merten.  São filmes do chamado cinema periférico, exibidos em festivais internacionais que têm pouco apelo comercial. Mas há dois grandes cineastas incluídos nessa seleção:  o mexicano Carlos Reygadas e  o estadunidense Gus Van Sant em novos filmes.

 

E nesse mesmo período, até o dia 14 de agosto, está em cartaz a 5ª. Mostra de Cinema Coreano, no Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro.  São filmes recentes da Coreia do Sul, que tem apresentado uma filmografia bem significativa na atualidade.