Antonio Carlos Egypto
DIÁRIOS
DE OTSOGA, direção de
Miguel Gomes (de “Tabu” e a trilogia “Mil de Uma Noites”) e Maureen Fazendeiro. No elenco, Crista Alfaiate, Carloto Cotta,
João Nunes Monteiro. 102 min.
De Miguel Gomes a gente espera
originalidade e alguma surpresa. Desta
vez, é um diário contado de trás para frente.
O filme começa no dia 21 e vai retornando, dia a dia, até o dia 1º. Um pequeno grupo se utiliza de um
borboletário, que será construído pouco a pouco, à medida que voltarmos no
tempo. Aos poucos também vai ficando
claro que os diários são da própria filmagem.
Entramos no filme dentro do filme e acabamos na pandemia, que deu origem
a toda essa experiência, misturando ficção e documentário. Uma realização que, com todas as limitações
sanitárias e de grana, tem muito brilho.
Vale a pena usufruir desse belo filme.
Fique atento aos detalhes das situações em que aparentemente nada
acontece, mas que passam muita coisa e dão margem à discussão de muitas
questões relevantes. Garimpar é preciso.
Também estão na Mostra 45 três bons
documentários vindos de Portugal, todos dirigidos por mulheres.
AMOR
FATI, 102 min., de
Cláudia Varejão, é um filme de afetos e alegria. Mostra, por meio de muitas pessoas e
famílias, o que une uns a outros, o que une também pessoas a animais, de
cachorros e cavalos até uma ave de rapina.
Ou o que une as pessoas a seus instrumentos musicais. E como a música une uma família. Sabemos todos que o afeto é uma grande força
unificadora, que permite que gente viva ao lado de gente por uma vida
inteira. Dedique uma existência à música
ou aos animais. Muitos não se separam
nunca de seus objetos amorosos, arriscando-se a não realizar plenamente
objetivos particulares. O amor fala mais
alto até nesse caso. Casais, mãe e filhas, irmãs, crianças jovens e
idosas, gêmeas ou não, compartilhando casa, negócio, atividades religiosas,
nutrem-se mutuamente de afeto, sempre.
Percebam que eu coloquei a frase no feminino, homens parecer ter maior
dificuldade de exprimir emoções desse modo.
Já com os animais parece mais fácil para eles.
VISÕES
DO IMPÉRIO, de Joana
Pontes, 93 min., revisita a história do império colonial português, por meio do
registro fotográfico. Portanto, a partir
da própria existência da fotografia.
Partindo de fotos das colônias de Angola, Moçambique, São Tomé e
Príncipe, tiradas por gente que viveu lá ou registrou eventos e podem ser
encontradas em feiras de rua e em grandes acervos de Lisboa, Coimbra e até de
Fátima, que permitem reconstruir uma história vendida como de pacificação e
harmonia com Portugal, especialmente nas fotos oficiais, que na verdade foi uma
perspectiva de opressão e domínio violento.
Desde o século XIX, com a agravante do período ditatorial salazarista e
a guerra de Angola, em 1961, até a chegada da Revolução dos Cravos, de 1974,
que pôs fim ao regime autoritário. Um
dos lemas do período colonial era este: “Conhecer para dominar, dominar para
explorar”.
NO
TÁXI DO JACK, de
Susana Nobre, 70 min., se vale de um personagem muito interessante, Joaquim,
que deixou Portugal para acabar trabalhando de taxista em Nova York, com êxito,
domínio da língua e dos caminhos da cidade, e fez seu pé de meia. Ao voltar para Portugal, aos 63 anos, já
próximo da aposentadoria, não se interessava em procurar emprego, mas, para
usufruir de seus direitos trabalhistas até lá, está obrigado a ir a visitas de
emprego regularmente e obter o visto patronal de que procurou e não
encontrou. Mesmo que encontrasse, ele
não queria. Enquanto o vemos visitando
os possíveis empregadores, ele narra sua história no exterior. Não chega a ser muito dinâmico, mas que o
personagem é interessante, isso é.
@mostrasp
Nenhum comentário:
Postar um comentário