terça-feira, 26 de julho de 2022

BOA SORTE, LEO GRANDE

   Antonio Carlos Egypto


 


 

BOA SORTE, LEO GRANDE (Good luck to you, Leo Grande), Reino Unido, 2022.  Direção: Sophie Hyde.  Elenco: Emma Thompson, Daryl McCormack, Isabella Laughland.  97 min.

 

Dois personagens compõem a trama de “Boa Sorte, Leo Grande”.  Nancy (Emma Thompson), viúva na casa dos 60 anos, foi professora de religião no ensino médio. Está aposentada, e em busca do orgasmo, faz uma aposta arriscada.  Contrata, por meio de firma na Internet, um garoto de programas.  O profissional do sexo, entre 20 e 30 anos, é Leo Grande (Daryl McCormack), habituado a atender parceiros de todas as idades e disposto a satisfazer seus desejos e fantasias, sem drama.

 

O que para Leo é uma rotina conhecida para Nancy é um tabu, uma situação embaraçosa, que ela quer viver, mas sente culpa e tem medo.  Para ambos, trata-se de uma situação protegida pela impessoalidade de um quarto de hotel e de identidades verdadeiras não reveladas.  Uma atuação, enfim. Como sempre, porém, nos relacionamentos humanos, eróticos ou não, as coisas sempre tomam rumos não previstos.  E será preciso lidar com isso, de alguma forma.

 

O filme inteiro é a relação desses dois personagens em quatro encontros, no mesmo espaço, o mesmo quarto de hotel.  Exceto em uma das sequências em que a ação se dá no café do mesmo hotel, envolvendo uma garçonete, tudo se passa no contexto de uma peça teatral, num único cenário com uma atriz e um ator.  Uma peça fácil de montar, por sinal.


 



Busquei nas informações sobre o filme se sua origem era mesmo uma peça teatral, mas isso aparentemente não se confirmou.  O texto e roteiro do filme foram escritos por Katy Brand, atriz e escritora britânica ligada à comédia, principalmente.  É fato que o filme explora o humor da situação, de forma comedida e com leveza.  Mas não há como evitar o drama presente naquele contexto, à medida em que a relação se desenvolve.

 

A diretora é a australiana Sophie Hyde, que mostra sensibilidade para as questões da personagem feminina, sem julgá-la ou caricaturizá-la.  Tal como o personagem Leo Grande, que se surpreende com algumas coisas, mas cumpre seu papel e até projeta suas próprias questões no que Nancy poderia representar para ele, assim como sua mãe e sua história de vida oculta.

 

É, portanto, um filme de mulheres, da concepção às tomadas de cena.  E, apesar da sua evidente teatralidade, os diálogos e a forma como a narrativa avança mantêm o interesse e trazem vários aspectos de reflexão relacionados ao assunto escolhido, que o extrapolam e o enriquecem.

 

Claro que as atuações de Emma Thompson, talentosa e experiente atriz, e a boa química que se estabeleceu com o jovem e bom ator Daryl McCormack são fundamentais para que “Boa Sorte, Leo Grande” funcione bem.  Tal como acontece no teatro, depende muito dos atores e atrizes o êxito de uma apresentação.  É o que se dá, aqui, no cinema.






 

quarta-feira, 20 de julho de 2022

MEMÓRIA

Antonio Carlos Egypto

 



MEMÓRIA (Memoria).  Colômbia/Reino Unido, 2022.  Direção e roteiro: Apichatpong Weerasethakul.  Elenco: Tilda Swinton, Juan Pablo Urrego, Elkin Diaz, Jeanne Balibar, Daniel Giménez.  136 min.

 

O conceituado diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, também conhecido por Joe, por sugestão dele mesmo, já que seu nome é impronunciável, lança agora pela primeira vez uma produção fora da Tailândia.  O filme “Memória” é uma realização da Colômbia e do Reino Unido.  Seu universo, que compreende drama e ficção científica, no entanto, é marcadamente uma obra pessoal do diretor.  Tem os elementos inusitados que caracterizam, desde sempre, o seu trabalho e deixam um sentido, digamos, oculto.  Misterioso em sua narrativa, que não chega a se revelar por inteiro, mesmo ao final do filme.  É o espectador que fará sua síntese, após ter sido provocado por estímulos diversos e, quiçá, contraditórios.  Inteligentemente explorados em diversas dimensões.

 

Vamos tentar dizer, então, de um modo mais compreensível aquilo que as imagens mostram.  E, no caso desse filme, sobretudo, o que os sons expressam.  O trabalho de som é um dos grandes trunfos do filme.  Melhor assisti-lo num cinema com ótima qualidade de som, para desfrutar do impacto.

 

A memória pode trilhar caminhos que passam de uma pessoa a outra e ao longo da história de um indivíduo ou de um povo, ou de uma interação entre os indivíduos, suas histórias pessoais, a cultura e as tradições de seu ambiente, natural e histórico.

 

Tudo começa com um som estrondoso na cabeça de Jéssica (Tilda Swinton), que a faz levantar na noite escura e daí para a frente dificultará permanentemente seu sono.  Sentir-se acordada, mas não conseguir se mexer, associado ao som explosivo, é a doença que acomete a personagem.  Acompanhamos Jéssica em seu périplo por diferentes lugares e situações, na cidade de Bogotá e na floresta, em busca de alcançar domínio sobre o que está lhe acontecendo.

 

Apichatpong Weerasethakul


Diante de uma mesa de som, um engenheiro a ajuda a encontrar o som preciso que a acomete, algo como uma bola de concreto batendo numa parede de metal, cercada por água do mar.  Mas é também um estrondo vindo do centro da terra.  Que tal?

 

E se ela descobrir depois que o engenheiro de som já estava morto, ou melhor, que ele pode reaparecer no futuro sem memória?  Entenderam?  Provavelmente não.  No entanto, deixem-se levar pela onda dos acontecimentos, curtam a eficiência da imagem, a onipresença de um som que praticamente conduz a trama e apreciem o talento inquestionável da atriz Tilda Swinton, em mais um grande trabalho, em que ela também aparece como produtora do filme.

 

O nosso grande Joe é um dos cineastas mais criativos e inventivos do cinema mundial atual.  Mistura questões ancestrais, etnográficas, culturais, a elementos científicos atuais e futuristas, mergulhando num terreno espiritual que incorpora visões e fantasmas de vidas passadas e projeções futuras.  É muito rico vivenciar o que seus filmes têm a nos mostrar, mas é preciso mergulhar num terreno pantanoso que não traz perigo nem violência.  Ao contrário, traz um mundo mental amoroso e delicado.  Só que não é fácil de decifrar ou de andar nele.  É caminhar no pântano.  Às vezes não dá para chegar a lugar nenhum.  Em todo caso, depende de cada um essa caminhada.

 

Para quem não entrou em contato com outros filmes do diretor, recomendo “Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas” (2010) e “Cemitério do Esplendor” (2015), que têm críticas postadas aqui no Cinema com Recheio.

 

 

 

 

domingo, 17 de julho de 2022

ELA E EU

Antonio Carlos Egypto

 


 


ELA E EU.  Brasil, 2021.  Direção: Gustavo Rosa.  Elenco: Andrea Beltrão, Eduardo Moscovis, Mariana Lima, Lara Tremouroux, Karine Teles, Jéssica Ellem.  101 min.

 

“Ela e Eu” nos fala da adaptação a eventos inesperados e raros sobre os quais não temos controle ou possibilidade de prever ou fazer planos, segundo o diretor Gustavo Rosa.

 

Que situação é a que se apresenta no filme?  É a condição de Bia (Andrea Beltrão), que no parto de sua filha entrou em coma, por vinte anos, fazendo parte da família como uma bela adormecida, cuidada por todos, inclusive por uma cuidadora profissional, Sandra (Karine Teles).  Consta que ela seria uma ex-roqueira, o que tem pouca relevância no caso.  Seu marido, Carlos (Eduardo Moscovis), sua nova mulher, Renata (Mariana Lima) e Carol (Lara Tremouroux), a filha que cresceu vendo a mãe sempre dormindo, compõem esse núcleo familiar que teve de se organizar de um modo que permitisse conviver com Bia no estado passivo e lhe devotando os devidos cuidados.  Também faz parte da história a namorada de Carol, Giovana (Jéssica Ellem), caracterizando uma relação amorosa de uma universitária branca com uma mulher negra, a mostrar que essa família não cultiva preconceitos.  No entanto, a importância desse vínculo na narrativa é quase nula.  Funciona como símbolo de modernidade.  Assim como um médico negro que surge numa única cena, que parece existir apenas para ressaltar uma mensagem antirracista do filme.

 

Penduricalhos à parte, a questão maior se coloca quando Bia sai do coma, volta à vida ativa, vinte anos depois.  Isso vai exigir uma nova adaptação a uma realidade inesperada ou, pelo menos, imprevista quanto ao tempo.  Todos, de alguma forma, terão de se reinventar e Bia, reaprender a viver, redescobrindo sensações, situações, sentimentos, palavras e expressões, numa constante de novas descobertas, das coisas mais simples às mais estranhas para suas possibilidades atuais.  Tudo vai mudar novamente, na vida de todos.  Não é fácil!

 




“Ela e Eu”, porém, não acentua o que seria dramático.  Todos parecem excessivamente controlados, civilizados, em um tom abaixo do que se poderia esperar.  Exceto, naturalmente, Renata, que se vê frente ao confronto com o passado amoroso de Carlos com Bia.  O estilo low profile  do filme não chega a convencer, embora o desempenho do ótimo elenco seja digno de elogios.

 

O destaque maior vai, com certeza, para a atuação de Andrea Beltrão que, ao longo do filme, mas especialmente na primeira parte, tem de representar inerte, muda, pelo olhar, pelo piscar dos olhos, por pequenos movimentos.  E depois ser uma espécie de adulta-bebê ou adulta-criança.  Um papel que exige muito dela e que ela realiza com talento admirável.

 

A trilha sonora do filme é bem elegante e charmosa, a cargo de Lucas Santanna e de canções de Chico Buarque, Caetano Veloso, que canta a música título Ela e Eu, entre outros.

 

Entre os destaques da filmagem, os momentos do acordar de Bia, com imagens que oscilam em nitidez e falta de foco e o uso do som, reverberando sem clareza, merecem atenção.  E as imagens do filme nos reafirmam que o Rio de Janeiro continua lindo, apesar dos enormes problemas que o cercam.




 

sábado, 9 de julho de 2022

OS PRIMEIROS SOLDADOS

                                          Antonio Carlos Egypto               

 

 



OS PRIMEIROS SOLDADOS.  Brasil, 2019. Direção e roteiro: Rodrigo de Oliveira.  Elenco: Johnny Massaro, Renata Carvalho, Vitor Camilo, Clara Choveaux, Alex Bonini.  107 min.

 

“Os Primeiros Soldados” começa por mostrar um grupo de jovens homossexuais masculinos, incluindo uma travesti, em Vitória, no Espírito Santo, na chegada do ano de 1983, entusiasmados e em festa.  Primeiro, o filme de Rodrigo Oliveira nos leva a conhecê-los mais de perto, um pouco antes do advento da primeira onda de epidemia de Aids, que seria alcunhada de peste gay.

 

A partir desse ano fatídico, tudo muda na vida deles, repentinamente.  Então, assistimos ao que acontece com o jovem biólogo Suzano (Johnny Massaro), Rose (Renata Carvalho), a mulher trans, e Humberto (Vitor Camilo), videomaker, que estava realizando filmagens sobre Rose.

 

Naquele momento, sintomas como o do raro Sarcoma de Kaposi, revelado por manchas que se espalham pelo corpo, trazem surpresa e desespero, porque não se sabe o que está acontecendo e por que os atingidos são somente os rapazes gays.  Se já havia muito preconceito, a coisa só se complicou com as primeiras descobertas de um tal de vírus gay, mortal, o hoje nosso conhecido HIV.

 

Sem saber nada da doença que os acometia, sem possibilidades de encarar qualquer tratamento efetivo e sem saber como se prevenir, os fatos tomam a dimensão de uma tragédia.  Advém o medo, a vergonha, o isolamento, a discriminação mais aguda e um vale-tudo para tentar descobrir, na prática, alguma coisa que pudesse fazer algum efeito.  Em vão, naturalmente.

 




Esses primeiros soldados capixabas na guerra contra a Aids são os personagens que resgatam a memória desses primeiros tempos, que ceifaram tantas vidas no Brasil e no mundo, trouxeram tanto sofrimento e produziram um retrocesso inicial no processo evolutivo comportamental que se seguiu à revolução sexual dos anos 1960 e 1970.

 

A própria evidência da Aids, em seguida, possibilitou uma discussão mais aberta sobre a sexualidade, em especial, o uso da camisinha, que seria o único meio concreto de prevenir uma doença que se transmitia pelas relações sexuais.  Todas, não só aquelas que se referiam aos gays.  Trabalhei bastante no terreno da educação e da psicologia com o tema da prevenção da Aids, por muitos anos na minha vida.  Posso atestar que avançamos muito e o Brasil serviu até de exemplo para a comunidade internacional, não só na prevenção, na educação e nas campanhas massivas avançadas, mas também na disponibilidade de medicamentos e serviços de saúde à população.

 

Voltar aos primeiros tempos, como faz o filme, é muito interessante já que, com o avanço no conhecimento, na prevenção e no tratamento das infecções pelo HIV, a Aids se tornou administrável, as mortes decaíram fortemente e as novas gerações já não viveram a tragédia que os personagens capixabas experimentaram no filme.  Obviamente, a consequência disso é o relaxamento da prevenção e o refluxo da doença a níveis preocupantes em relação aos jovens, inclusive às pessoas LGBTQIA+, que deixaram de ser alvo preferencial das ações.

 

Desde que se estabeleceu o dia 1º. de dezembro como dia mundial de luta contra a Aids, o último mês do ano tem servido para a difusão de informações, notícias, avanços na área médica, compartilhamento de textos científicos, literários, peças teatrais e filmes, para que não se perca o que foi conquistado.  “Os Primeiros Soldados” faz parte desse esforço e é bem-vindo.  É uma boa produção, bem dirigida, com bom elenco e um trabalho honesto, que foi lançado no Festival do Rio, após obter prêmios em festivais de Mannheim-Heidelberg e na Índia. 

 

Os avanços da ciência prosseguem e oferecem respostas e soluções inimagináveis naqueles anos 1980 e 1990, em que o medo e o desespero ocupavam lugar de destaque. Hoje a doença que nos apavora é a Covid19, que nos levou de volta para casa (para quem pôde, naturalmente) e graças à mesma evolução científica foi capaz de produzir, em tempo recorde, vacinas, que estão começando a nos libertar.  O mais importante é não negar a doença ou a gravidade dela.  Só é possível vencer aquilo que se conhece e que se reconhece como problema.  Pois é daí que vem a luta e a persistência no combate.  Os primeiros soldados foram abatidos, mas fizeram história na questão da Aids.  Que as mais de 670 mil mortes pelo novo coronavírus, da Covid19, no Brasil, nos alertem para que possamos não mais repetir os enormes erros praticados ao longo dessa pandemia.

 



  

quinta-feira, 7 de julho de 2022

ELVIS

Antonio Carlos Egypto

 

 



ELVIS (Elvis).  Estados Unidos, 2022.  Direção: Baz Luhrmann.  Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia De Jonge, Helen Thomson, Richard Roxburg.  160 min.

 

A cinebiografia de Elvis Presley (1935-1977), dirigida por Baz Luhrmann, certamente terá um apelo comercial expressivo.  Afinal, trata-se do chamado Rei do Rock, uma figura lendária da cultura norte-americana e mundial, lembrada e cultivada até hoje.  Suas músicas, sua voz, sua capacidade interpretativa e seu desempenho nos palcos seguirão sendo revisitados e relembrados de forma saudosa.

 

O filme de Baz Luhrmann faz jus à importância desse talento, mostrando alguns de seus principais sucessos musicais e recriando as performances que marcaram o ídolo.  O principal destaque está no desempenho fantástico de Austin Butler, que emula a vibração inigualável que Elvis tinha nos palcos.  Ele nos leva a reviver a sua figura, a sua dança ousada, extravagante, carregada de movimentos pélvicos, viris, que acabaram forjando a expressão pejorativa Elvis the pelvis, indicativa do incômodo que causava aos moralistas.

 

O filme também destaca o legado da música negra na criação de Elvis.  Ele explorava um timbre e estilo vocal dos negros que conhecia e admirava, num tempo de fortes tensões raciais.  Isso, aliado à sua origem simples e a seu jeito contestador e provocador, produziu muitos conflitos na carreira do cantor.  Crítica, perseguição, censura.  Plano de controlar sua energia revolucionária com a criação de um novo Elvis, mais domesticado, que não vingou.

 




Todos esses elementos são trabalhados no filme, mas dentro de um foco específico: o da relação de 20 anos de convívio de Presley com seu empresário, o coronel Parker, papel vivido por Tom Hanks, em alguns momentos quase irreconhecível.  Ambos viveram um conturbado, tumultuado, mas afetivamente forte, relacionamento profissional, que envolvia também a família do cantor.  O sucesso e os problemas que Elvis viveu estão intimamente ligados a essa relação, o que explica, por exemplo, por que ele não se apresentava em shows fora dos Estados Unidos, embora fosse um astro global.

 

O desgaste a que Elvis foi submetido, em maratonas incríveis de apresentações, não respeitou limites ou os devidos cuidados, o que muito teve a ver com o seu declínio.  Houve alguns outros condicionantes nessa história, inclusive questões econômicas graves.  Se Elvis vivia à custa de pílulas e sua mãe mergulhou no alcoolismo, Parker era um jogador inveterado.  São elementos de um drama que se potencializou.

 

O diretor Baz Luhrmann tem um estilo um tanto exagerado de expor as situações, que sempre me incomodou nos seus filmes.  Neste trabalho não é diferente, porém, as apresentações reboladas e sensualizadas de Elvis certamente combinam com esse estilo over de filmar.  O filme também embola situações, uma entrando na outra, em momentos em que coisas simultâneas, ou próximas no tempo, estão ocorrendo.  Em outros momentos, há divisão da tela, para que acompanhemos cenas diferentes.  Enfim, ritmo não falta.  É uma produção grandiosa, cinemão hollywoodiano.




quarta-feira, 6 de julho de 2022

O ACONTECIMENTO

                   Antonio Carlos Egypto

 




O ACONTECIMENTO (L’événement).  França, 2021.  Direção: Audrey Diwan.  Elenco: Anamaria Vartolomei, Luana Bajrani, Louise Orry-Diquero, Kacey Mottet Klein, Sandrine Bonaire.  100 min,

 

A questão do aborto envolve muita polêmica e quando se discute em tese, a discussão se torna abstrata, deixando de levar em conta os muitos sofrimentos, a angústia, o desespero que podem estar presentes na decisão de interromper voluntariamente uma gravidez que não foi planejada.

 

Quando, por força de lei, esse procedimento é considerado proibido, a alternativa para a mulher se resume à busca de soluções arriscadas por conta própria, à prática clandestina perigosa, tanto para a saúde quanto pela possibilidade de levar à prisão a grávida e quem a atendeu na ilegalidade.

 

O filme “O Acontecimento”, de Audrey Diwan, focaliza de forma absolutamente realista, a experiência concreta do aborto numa jovem prestes a entrar na universidade que, numa única relação sexual, fortuita, engravidou e se viu sozinha para enfrentar a situação.  A decisão de abortar seria um imperativo para ela, dadas as suas circunstâncias de vida, com moradia num centro estudantil, tendo que se dedicar muito aos estudos.  Sua família, que poderia ser considerada de classe média baixa, não disporia de recursos para ajudá-la e, se informada, provavelmente não aceitaria a situação.

 

O filme é baseado no livro de Annie Ernaux, que relata sua própria experiência, quando engravidou e praticou o aborto, em 1963, numa época em que a França ainda não legalizava esse direito às mulheres.

 

“O Acontecimento” apresenta, passo a passo, a dinâmica desse processo angustiante e solitário, como uma experiência física, carnal.  O que exige da atriz Anamaria Vartolomei, como protagonista no papel de Anne, uma exposição e dedicação extremas.  E ela se sai muito bem.

 



A narrativa, esturricada de realismo, incomoda, mas também sensibiliza.  É muito fácil se identificar com essa jovem e sua busca labiríntica de uma solução para um problema para o qual a sociedade dá as costas e ainda criminaliza.

 

Se na França a questão, tal como aparece no filme, é passado, isso não está superado num grande número de países pelo mundo, incluindo o Brasil.  Por aqui, o aborto legal é restrito à gravidez por estupro, que envolva risco de vida para a mãe ou em casos de anencefalia do feto.  Mesmo nesses casos, como temos visto no noticiário e nas declarações públicas de autoridades, a sua prática tem exigido enormes esforços para acontecer.

 

Quando “O Acontecimento” nos põe frente a frente com a realidade nua e crua do aborto clandestino, expõe com clareza que a questão não se resume à moral, à religião ou às preferências políticas.  É mesmo uma questão de saúde pública e envolve sofrimento, traumas, sequelas e mortes que podem ser evitadas.  “L’événement” dialoga, nesse sentido, com o belo filme romeno, de Cristian Mungiu, “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de 2007.

 

Vencedor do Leão de Ouro de Veneza 2021, “O Acontecimento” é um filme de mulheres na sua concepção, na direção, no elenco, reflete o ponto de vista feminino sobre o tema.  E quem melhor do que elas para tratar desse assunto, ainda tabu em tantos aspectos, e que merece ser discutido?  O cinema traz a possibilidade de conhecê-lo também por meio das emoções que o envolvem, o que pode nos ajudar a tomar posições com mais clareza e conhecimento de causa.



quarta-feira, 29 de junho de 2022

A COLMEIA

 Antonio Carlos Egypto

 

 


A COLMEIA.  Brasil, 2019.  Direção: Gilson Vargas.  Elenco: Andressa Matos, João Pedro Prates, Rafael Franskowiak, Janaína Pelizzon.  110 min.

 

“A Colmeia”, realização gaúcha, dirigida por Gilson Vargas, tem uma atmosfera pesada, em perfeita sintonia com o drama humano que apresenta.  Utiliza-se de cores esmaecidas, cinzentas como o clima, com um verde acinzentado, revelador de uma natureza mais opressiva do que acolhedora.  A trilha sonora de Léo Henkin acentua o peso da situação vivida pelos colonos alemães nos interiores do sul do Brasil, em meio à Segunda Guerra Mundial.

 

Naquele momento, havia a proibição de falar alemão ou cultivar hábitos e costumes de origem alemã.  Mais do que isso, havia uma franca hostilidade no entorno desse ambiente rural já isolado e quase nada integrado ao novo meio para esses imigrantes.  O clima é de permanente desconfiança e medo.  E, apesar do isolamento, o eventual contágio com o ambiente de fora traz piolhos para o grupo de colonos: várias sequências de cortes de cabelo, marcados pela dor de fisionomias dilaceradas e choro, indicam a vulnerabilidade do grupo.  Como se não bastasse, a realidade maior deles é a da fome permanente.

 

Os personagens que compõem o grupo de colonos alemães não são explicitados, nem  desenvolvidos, pela narrativa.  Mas são oito pessoas, os adultos Werner (Rafael Franskowiak) e Bertha (Janaína Pelizzon) detêm maior poder.  Especialmente Werner, num contexto machista.  Os demais adultos enfrentam o trabalho igualmente, Kasper, Uli, Liila e Erika.  Com outra perspectiva e desejo de mudar ou sair dali, está um casal de adolescentes gêmeos: Mayla (Andressa Matos) e Christoffer (João Pedro Prates), na verdade, os protagonistas da história.

 

                                                                      Bruno Polidoro   
  

É apenas um fio de história, mesmo sendo uma situação forte e intensa.  Daí a ideia dos favos da colmeia, os elementos definidores daquele mundo, daquele momento, que também podem dialogar com questões contemporâneas.

 

O bullying  que Christoffer sofre na escola e o grupo todo sofre pela pichação na casa e pelos eventuais encontros nos campos e floresta, o preconceito que faz com que se atribuam as culpas de tudo aos bugres, demonizando os povos originários vistos como impuros e selvagens, o machismo em que os homens, embora em tudo iguais no trabalho com as mulheres, continuam dando a última palavra, são exemplos desses favos.  A desconhecida Sndrome do Pânico também está presente e o canibalismo entra na história como elemento simbólico, mas também de sobrevivência.

 

O filme se desenvolve em ritmo bem lento, com muito poucos diálogos e desempenhos contidos dos atores e atrizes em todos os papéis.  Os personagens aguentam, engolem tudo em silêncio, até que a pressão se torne insuportável e, então, o grito de desespero ou o descontrole inevitavelmente ocorram.

 

“A Colmeia” realiza um trabalho artístico de qualidade num produto sem qualquer concessão.  Dirige-se, é claro, a um público menor, já acostumado a valorizar este tipo de approach  estóico e minimalista.



quarta-feira, 22 de junho de 2022

A JANGADA DE WELLES

Antonio Carlos Egypto

 

 



A JANGADA DE WELLES.  Brasil, 2019.  Documentário.  Direção: Firmino Holanda e Petrus Cariry.  75 min.

 

 

O documentário “A Jangada de Welles” dos cineastas cearenses Firmino Holanda e Petrus Cariry revisita a fantástica história da vinda de Orson Welles ao Brasil para filmar “It’s All True” (É Tudo Verdade), em junho de 1942, como parte da política de Boa Vizinhança dos Estados Unidos com a América do Sul, nesse período da Segunda Guerra Mundial.  Orson Welles já tinha feito um ano antes um filme prá lá de polêmico, que até hoje figura na lista dos melhores do mundo de todos os tempos: “Cidadão Kane”.  Estava filmando “Soberba”, tendo vindo ao Brasil antes de sua finalização, também complicada.

 

“É Tudo Verdade” foi concebido como um filme em episódios.  Welles foi encomendado a filmar o Carnaval no Rio, com acordo do governo brasileiro de então, de Getúlio Vargas, que, na condição de ditador, conduzia o Estado Novo, a quem interessava uma boa imagem do Brasil lá fora e estava em negociação com os Estados Unidos, além de nutrir  claras simpatias pelo nazifascismo, inspirador do próprio Estado Novo.  Welles não tinha especial interesse no Carnaval até desembarcar por aqui e se encantar com o samba, seu ritmo intenso, esse povo que dança como louco, Grande Otelo e outras coisas mais.

 

Outro episódio seria no México e mais um ele concebeu para o Brasil, antes que aportasse aqui.  Orson Welles soube, pela revista Time, de uma travessia de 61 dias em jangada pelo Atlântico, realizada em novembro de 1941, por jangadeiros que embarcaram em Fortaleza e foram ao Rio de Janeiro, ao Catete, falar com o presidente Vargas.  O objetivo do encontro foi reivindicar direitos trabalhistas, aposentadoria para os pescadores que, com suas jangadas, arriscavam a vida sem nenhum tipo de vínculo ou direitos, exceto a entrega de 50% de cada pesca ao dono do barco de que se utilizavam.  A jornada dessa travessia, realizada por Manuel Jacaré, Jerônimo, Mané Pedro e Tatá, os jangadeiros heróicos, foi escolhido como um tema de “It’s All True”.

 

A tragédia da morte de Jacaré nas filmagens do Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, marcou para sempre o filme, embora Welles tenha prosseguido mesmo assim.  Até em homenagem póstuma a Jacaré.  Entretanto, o filme nunca foi concluído, porque houve mudanças no estúdio hollywoodiano, que passou a não se interessar mais pelo projeto, considerando que teria consumido todo o dinheiro previsto, sem caminhar como se pretendia.

 



A abordagem do documentário “A Jangada de Welles”, que retoma essa história, tem como foco o cineasta em Fortaleza, na praia de Iracema e, principalmente, nas dunas do Mucuripe.  Além do registro das imagens da época, depoimentos de colaboradores e participantes originais do trabalho do diretor norte-americano por lá são colhidos e mostram a importância que ainda tem para aquelas pessoas, aí incluídas parentes de Jacaré, como seu irmão, que chegou a participar das filmagens posteriores à tragédia.  Destaque para a participação de uma equipe de apoio local ao projeto de Welles, dedicada e extremamente colaborativa, cedendo até mesmo a câmera principal para as filmagens e uma, que acabou se perdendo no mar.  Pioneiros do cinema cearense fazem parte desse périplo histórico.

 

O confronto entre as imagens daquele período, o que se viu depois e o que se vê hoje dá a dimensão das mudanças que transformaram tudo, mas muito pouco a vida dos humildes pescadores.  O contraste gritante entre uma praia deserta cercada por palhoças de pescadores e os imensos edifícios que ocuparam seu lugar, expulsando os pescadores que dependem do mar para as periferias da cidade, fala por si.

 

A história do cinema passa por Fortaleza, Mucuripe, Jacaré e seus companheiros, em 1942, que acabaram por contribuir para tornar a trajetória do gênio de Welles um embate constante e malsucedido entre o trabalho autoral e as imposições dos estúdios.  Não que Orson Welles não tenha realizado outros importantes filmes para a história do cinema, porém, foi tudo sempre muito difícil e complicado.  Como continua difícil e muito complicada a vida do pescador nordestino, cearense, de Mucuripe, de todos os cantos desse Brasil.  De “É Tudo Verdade” sobraram imagens bonitas do nosso país na época, mas quedou inconcluso.  Como seguem inconclusas as nossas buscas por desenvolvimento sustentável, justiça social, liberdade e democracia.




quinta-feira, 16 de junho de 2022

AMIGO SECRETO

Antonio Carlos Egypto

 

 



AMIGO SECRETO.  Brasil, 2022.  Documentário.  Direção e roteiro: Maria Augusta Ramos.  Com os jornalistas Leandro Demori, Carla Jimenez, Regiane Oliveira e Marina Rossi.  130 min.

 

“Amigo Secreto”, o novo documentário de Maria Augusta Ramos, que já nos dera “O Processo”, em 2018, busca uma síntese de fatos e situações que resultaram na crise que estamos vivendo.  O recorte que ela escolheu para essa abordagem foi a Lava Jato, a operação de combate à corrupção largamente apoiada e promovida pela grande mídia, que fez do juiz Sérgio Moro uma espécie de herói.

 

Não se viam, então, os estragos causados pela operação, judicializando e criminalizando a política e as consequências econômicas gravíssimas da quebra de grandes empreiteiras de atuação internacional.  A injustiça que se praticava por meio de ilegalidades jurídicas, manipulação de informações e o direcionamento do foco das investigações para aceleradamente condenar, prender e excluir Lula da disputa eleitoral de 2018.  Torna-se evidente a politização da força-tarefa de Curitiba e os seus anseios por mais poder e pelo controle dos mecanismos do Estado.

 

Mas, se houve a Lava Jato, também houve a Vaza Jato, com a divulgação de milhares de mensagens entre o então juiz e os procuradores e entre eles, o que fez cair a máscara e escancarou os métodos desse pessoal.  Não era uma coisa bonita, digna, legal.  Evidenciou-se o  lawfare , a perseguição articulada que atendia aos mais diversos interesses, de dentro e de fora do Brasil.

 

Um escândalo que abriu caminho para a conquista do poder pela extrema direita, em nome de “mudar tudo o que está aí”, acabar com a velha política, destruir os avanços civilizatórios e, hipocritamente, dizer que combatia a corrupção.  Foi esse poder, do qual Sérgio Moro participou como ministro, que acabou enterrando de vez a Lava Jato, na prática.

 

Essa síntese, que tentei relatar aqui, está mostrada no documentário por meio dos fatos, de registros, de imagens de arquivo e do trabalho dos jornalistas que participam do filme.  Leandro Demori, do Intercept Brasil, que coordenou o trabalho da Vaza Jato (com Glenn Greenwald) e o compartilhou com veículos importantes da imprensa.  Pelo El País Brasil, participam Carla Jimenez, Regiane Oliveira e Marina Rossi.  Os jornalistas, em suas ações, comentários e análises, expõem o processo todo dessa grande crise nacional, política, econômica, social e jurídica, de uma forma clara, cristalina e a quente, com a emoção que o contexto produz.

 




Depoimentos importantes também fazem parte do filme.  O mais significativo deles, o de Alexandrino Alencar, delator da Odebrecht, que diz com todas as letras que, para que aceitassem sua delação premiada, quando já estava preso, os procuradores da força-tarefa exigiam que ele envolvesse Lula, seus filhos, suas palestras, no acordo de colaboração, sem o que nada feito.

 

“Amigo Secreto” vai incomodar muita gente que ainda resiste em perceber o que se passou de fato, porque simpatiza ou apoia ainda alguns dos personagens dessa trama.  Ou acredita piamente no que lhe foi inculcado como verdade absoluta, desprezando a evolução dos fatos e a revisão das situações, inclusive aquelas processadas pela própria Justiça.

 

As opiniões, evidentemente, podem e devem variar.  Contanto que os fatos sejam conhecidos e respeitados como são, inventar, negar evidências, não resiste ao crivo da história.  E, como Maria Augusta Ramos tem mostrado nos seus trabalhos, nem é preciso de muito tempo para que a roda da história gire em outra direção e jogue luz sobre o que se pretendeu esconder do público.

 

 

terça-feira, 14 de junho de 2022

ILUSÕES PERDIDAS

Antonio Carlos Egypto

 

 



ILUSÕES PERDIDAS (Illusions Perdues).  França, 2021.  Direção: Xavier Giannoli.  Elenco: Benjamin Voisin, Cécile de France, Vincent Lacoste, Salomé Dewaels, Xavier Dolan, Gérard Depardieu.  149 min.

 

O filme “Ilusões Perdidas”, dirigido por Xavier Giannoli, adaptando importante romance de Honoré de Balzac (1799-1850), é uma bela produção cinematográfica em estilo de cinemão clássico.  Tem uma reconstituição de época caprichadíssima, bela fotografia, um elenco de primeira e uma história portentosa de Balzac, que fala muito aos dias atuais, embora se refira ao século XIX.

 

Balzac, um dos maiores escritores franceses, é conhecido por retratar a sociedade francesa de sua época, nos seus vários aspectos.  Como o contraste entre a vida na província e em Paris, os jogos de poder, intriga e falsidades da aristocracia, da monarquia e dos que ostentam o que não têm.  O destaque que o filme imprime é para o mundo das letras e, especialmente, do jornalismo, de importância crescente em termos de força política, com os avanços das técnicas de impressão e reprodução.  E é principalmente aí que o tema respira atualidade.

 

Num mundo onde absolutamente tudo se compra e se vende, os jornais podem elevar ou destruir obras literárias, peças de teatro, reputações de membros de destaque da sociedade.  Tudo depende de quem paga, ou de quem paga mais.  O dinheiro, o lucro, é o que conta o tempo todo.  Consequentemente, o que se publica, desde fatos a opiniões e críticas de arte, é frequentemente uma completa mentira, a ponto de as críticas serem feitas sem a leitura dos livros supostamente analisados.  Inventa-se, utilizando recursos estilísticos de linguagem: frases de efeito, mordazes, destruidoras, ou valorizadoras de mediocridades, como se fossem grandes obras de arte.  O que é isso senão mentiras, o que hoje chamamos   fake news  e que tanto nos incomodam?

 




Essas mentiras, na época e hoje, existem para atender interesses.  E esses interesses podem ser regiamente pagos, tudo depende do mercado de notícias.  Essa expressão nos remete ao ótimo filme de Jorge Furtado, que tem esse título e fala justamente da produção e venda, com todos os interesses envolvidos, sendo regulados pelo mercado, pela oferta e procura.  Nada a ver com ideais de cidadania, busca da verdade, projetos sociais e políticos.

 

“Ilusões Perdidas” trabalha essas questões a partir da história pessoal de Lucien de Rubempré (Benjamin Voisin), que deixa sua província em que trabalhava numa gráfica e tinha, surpreendentemente, como amante a aristocrática Louise de Bargeton (Cécile de France).  Como poeta, ele espera alcançar sucesso, ser publicado e reconhecido em Paris.  Mas lá ele encontrará a realidade da imprensa cínica e movida pelo dinheiro, pelas mãos de Etienne Lousteau (Vincent Lacoste), percebe quem é o grande editor de literatura Dauriat (Gérard Depardieu), e entra no jogo, o que inclui seu amor, a atriz Coralie (Salomé Dewaels), uma relação de amizade e coleguismo literários bem ambígua, na figura de Nathan (Xavier Dolan), entre outros novos vínculos.

 

Como Lucien descobre o caminho das pedras, a ambição o leva a cruzar para o lado oposto ao da imprensa de oposição à monarquia, em busca de um título de nobreza, e aí sua vida vai se complicar bastante.  Ou seja, as ilusões se mostrarão com toda a clareza.

 

Enfim, a história é rica em detalhes e situações, que o filme consegue mostrar de modo muito claro, embalado por uma trilha sonora de música clássica de excelente qualidade.  O que é mais um refresco que torna a sessão cinematográfica especialmente agradável de ser curtida.  Um filme rico, importante, que tem muito a nos dizer hoje, numa embalagem sob todos os aspectos atraente