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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

CASTIGO e MILONGA

Antonio Carlos Egypto

 

 


O CASTIGO (El Castigo). Chile, Argentina, 2022.  Direção: Matías Bize.  Elenco: Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Catalina Saavedra, Yair Juri.  88 min.

 

“O Castigo”, dirigido pelo cineasta chileno Matías Bize, é um drama psicológico que envolve suspense e mistério numa questão aparentemente prosaica.  Que casal não aplicou um castigo desproporcional a um filho de 7 anos de idade e não se arrependeu do que fez?  Mas parece que aqui não é bem o caso.  O menino foi abandonado na estrada, perto da floresta, pelos pais durante apenas alguns minutos, mas quando eles retornaram ele havia sumido.  No entanto, ambos admitem que o que a criança fez foi muito sério, muito grave e teria até justificado a ação.  A mãe acredita, o pai concorda em parte, acha que exageraram na dose, o que não foi legal.  Mas, afinal, o que de tão grave um menino poderia ter feito para que os pais pensassem assim?  O mistério vai se ampliando, quando ao chamarem a polícia mentem sobre o fato.  Estabelece-se um conflito muito forte dentro do casal, que também revela uma questão de gênero: as renúncias que às mulheres acabam sendo impostas socialmente.  E como os homens lidam com elas. O confronto que vive o casal com seus desdobramentos, mágoas e acontecimentos do passado, ocupa o centro da narrativa dramática.  O suspense se mantém, devido à insegurança da situação e à perda que se deu.  E, claro, à culpa que corrói pai e mãe.  Após essa experiência traumática, não se pode voltar ao que se era.  Tudo mudou e algo novo terá de surgir.  Por alguma razão, aconteceu e, pode-se dizer, talvez fosse mesmo inevitável que acontecesse.  O filme mantém a tensão psicológica e o suspense na ação por conta de sua narrativa enxuta, dos silêncios, das introspecções, do diálogo escasso e do turbilhão emocional que precisa ser contido.  O que nem sempre é possível.  Os dois atores chilenos que protagonizam o filme, Antonia Zegers e Néstor Cantillana, dão densidade aos seus personagens e mantêm a situação com brilho. 


 

 


MILONGA (Milonga).  Uruguai, Argentina, 2023.  Direção e roteiro: Laura González.  Elenco: Paulina García, César Trancoso, Laila Reys, Paolo Venditto, Jean Pierre Noher.  106 min.

 

“Milonga”, da diretora uruguaia Laura González em seu primeiro longa-metragem, é um drama psicológico centrado na personagem Rosa, interpretada pela ótima atriz chilena Paulina García.  Rosa é uma mulher aprisionada pela vida e por sua história familiar. É viúva, perdeu o marido, mas a sombra dele está presente em tudo o que ela pensa e faz.  Percebemos o que há de doentio nessa fixação no marido morto, mas o filme não dá pistas sobre isso.  Da mesma forma que não entendemos o que acontece na sua relação com a nora, de quem ela procura se aproximar e a rejeita, afastando o neto.  Sabemos também que seu filho está preso e ela não consegue vê-lo há tempos.  Tudo parece desmoronar à sua volta, mas ela não busca reconstruir sua vida, nem suas relações.  Está presa ao passado nostalgicamente.  No entanto, coisas começam a acontecer, quando ela recebe, com relutância, uma antiga amiga que mostra vigor e entusiasmo, frequentando uma academia de danças de tango.  E a estimula a buscar novos ares.  A venda de um carro que foi do marido também acaba pondo-a em contato com um homem ativo e produtivo, Juan, papel do grande ator uruguaio César Trancoso.  Ele vai pintar um muro da casa dela, aceita sua comida e se interessa pelo apelo do tango.  O que poderia representar um novo sopro em sua vida e nas relações afetivas e amorosas, no entanto, parece um estorvo, que ela rejeita.  E se refugia dentro de casa, como numa prisão.  A sequência em que ela assiste escondida Juan circular o jardim da residência cortando a grama é muito marcante para representar isso.  O que ela faz é olhar para trás e tentar restaurar as relações familiares, fazendo bolos e levando presentes que não reconstróem nada.  Os mistérios da história se revelarão de forma pouco sutil, com a evolução das situações.  Fundamentalmente, numa conversa em que os fatos e os sentimentos são explicados verbalmente.  O mais importante, porém, é o processo que vive Rosa, o labirinto sem saída em que ela se coloca.  E se o tango costuma ser a expressão da tragédia, sua dança também poderia ser uma porta de saída da depressão.



sábado, 11 de outubro de 2025

BUGONIA E OUTROS NA MOSTRA 49

  Antonio Carlos Egypto

 

Bugonia

BUGONIA.  Reino Unido.  Direção: Yorgos Lanthimos.   Com Emma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis, Stavros Halkias, Alicia Silverstone.

 Quem conhece algum dos filmes do cineasta grego Yorgos Lanthimos, como “Pobres Criaturas” (2023) ou “Dente Canino” (2009), sabe que o cinema que ele cultiva é insólito.  Situações, conceitos, comportamentos improváveis, constituem as sequências que compõem o filme, não necessariamente encadeadas.  Mas cujo sentido revela-se no conjunto.  “Bugonia”, em especial, é um filme bem estruturado e organizado dentro desse caráter insólito.  Ao mesmo tempo em que nos provoca e nos deixa confusos e perdidos em relação ao que se passa, fica muito claro qual seja sua pauta.  A história da CEO de uma grande empresa que é sequestrada por dois personagens estranhos que acreditam, firmemente, que ela é uma alienígena, nos remete a teorias da conspiração, fake news, crenças fanáticas e mirabolantes, mas também à sensação de finitude da humanidade no planeta Terra.  De maluca esta questão não tem nada.  De fato, estamos cavando nosso fim e isso é assustador.  As abelhas, que estão sendo exterminadas, são um elemento central dessa história e ocupam um papel importante na trama de destruição a que estamos submetidos.  Será pura incompetência dos humanos ou envolveria ações decisivas vindas de fora do planeta?  Parece apenas delirante, mas tem tudo a ver com o que estamos vivenciando na contemporaneidade.  E dá muito o que pensar.  O roteiro é divertido, criativo e bem concebido, em que pese toda a estranheza.  O elenco é muito eficaz para criar o clima do filme.  Especialmente Emma Stone, que já trabalhou com o diretor e levou o Oscar de atriz, mostrando seu enorme talento em “Pobres Criaturas”.  Aqui ela está ótima também.  Para curtir e gostar de “Bugonia” é preciso entrar no clima, sem preconceito.  O resultado compensará o espectador.  120 min.

 

Cabelo, Papel, Água

CABELO, PAPEL, ÁGUA é um documentário poético vietnamita.  Dirigido por Nicolas Graux e Truong Minh Quy.  Coprodução belga e francesa.  Focaliza uma mulher septuagenária que nasceu numa caverna e vive num vilarejo envolta pela natureza, pelos elementos básicos da existência e da sobrevivência, mas sai para ir a Hanói ajudar sua filha no parto e com o bebê.  Descobre uma cidade imensa, que a confunde, onde as pessoas têm dificuldade para lidar com necessidades básicas, como a alimentação e o trabalho.  Isso a faz sonhar com suas origens e voltar a elas em busca de paz e felicidade, enquanto seu idioma natal, o ruc, está em vias de se extinguir.  Filme bonito, contemplativo, que explora não uma trama, mas uma realidade sensorial.  71 min.

 

Duas Vezes João Liberada

DUAS VEZES JOÃO LIBERADA, da diretora portuguesa Paula Tomás Marques, trata da realização de um filme sobre uma figura perseguida pela Inquisição no século XVIII, por sua inadequação de gênero.  Ou seja, um caso de transexualidade, quando esse conceito ainda não existia.  Nem o de gênero.  Mas o que se tem de registro oficial sobre a personagem real Liberada é aberto e incompleto, dando margem a que essa biografia possa ser contada de muitas formas, enfoques, representações.  É sobre a construção da personagem, as filmagens, as diferenças entre a concepção do diretor e da atriz lisboeta João que a representa, as escolhas que vão sendo feitas, os conflitos.  A própria mistura entre o que se filma e o que se vive, os impasses que paralisam o filme põem em evidência concepções de mundo, percepções distintas e a técnica cinematográfica intermediando a expressão de tudo isso.  O ato de fazer cinema é explicitado de forma bem interessante, como algo sempre in progress.  Inseguro, incerto, aberto sempre. Com perguntas sem respostas.  Um constante vir a ser.  70 min.   (Da Competição Novos Diretores, para aqueles que estão no primeiro ou segundo longa-metragens.)

 

Corpo Celeste

CORPO CELESTE, produção do Chile, dirigida por Nayra Ilic García, focaliza a figura da jovem Celeste, de 15 anos, em bela viagem a uma praia próxima do icônico deserto de Atacama, cuja experiência virá a tornar-se traumática para ela e para a família.  Quando retorna ao Atacama, atraída por um eclipse solar, tudo já está mudado nela, nas pessoas com quem ela conviveu e no lugar.  A ditadura de Pinochet já terminou, mas suas marcas afetam tanto esse lugar e o país como as vidas, entre elas, a de Celeste, em busca de se encontrar.  Belas locações, mas uma narrativa algo dispersa e fria, que não chega a envolver os espectadores. 97 min. (Também faz parte da Competição Novos Diretores).

@mostrasp

#49mostra



quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

PEPE e CANAL 100

Antonio Carlos Egypto

 



OS SONHOS DE PEPE (Los Sueños de Pepe).  Uruguai, 2024.  Direção: Pablo Trobo.  Documentário.  86 min.

 

José (Pepe) Mujica, ex-presidente do Uruguai, 89 anos, é uma liderança global das mais importantes na atualidade.  Suas palavras calam fundo em todas as partes do mundo, já que são simples, profundas e honestas.  E tratam do que importa e do que incomoda o mundo.  É um estadista global, mas não parece um político.  Descarta os símbolos do poder e suas representações.

 

O que dizer de um presidente que, no exercício do cargo, se utiliza de um Fusca antigo para se locomover até sua casa, uma chácara na zona rural, nos arredores de Montevidéo?

 

Seu périplo pelo mundo combate o modelo predatório de desenvolvimento capitalista à base do consumo e da acumulação.  Alerta para os grandes problemas ambientais que podem inviabilizar um planeta melhor para as gerações futuras. 

 

Ex-guerrilheiro Tupamaro, que ficou 12 anos na prisão, tornou-se um paladino da democracia e da justiça social. Na presidência do Uruguai, de 2010 a 2015, o país avançou na igualdade de gênero, na legislação sobre o aborto, no casamento entre pessoas do mesmo sexo e na legalização da maconha, que visava a combater o narcotráfico e dar segurança aos consumidores, mesmo reconhecendo o malefício desse consumo.

 

Seu modo tranquilo e afetivo de se relacionar com as pessoas encanta por toda parte.  No caso do documentário “Os Sonhos de Pepe”, de Pablo Trobo, que o acompanhou por muitas viagens, destacou-se o Japão, entre tantos países visitados na Europa e nas Américas, e um discurso importante na ONU. 

 

Enfim, o registro de um incansável comunicador, que fala sobre a felicidade humana e a crença num mundo melhor de forma concreta, como a luta social que ele nunca relegou.  Sua mulher, que o acompanha nas viagens e é senadora, quando perguntada sobre sua atuação, recorda a todos que o que ela é e sempre foi é lutadora social, no Senado ou fora dele.

 

Pepe Mujica, sua figura rara e norteadora para todos nós, está nesse documentário com sua sabedoria e generosidade tão evidentes, estabelecendo um contraste com tão poucas lideranças mundiais do seu porte nos dias atuais.

 

Um comentário dele que me chamou a atenção.  Ao dizer que é preciso evitar a acumulação e ficar com o que é essencial, ele se lembrou de sua experiência de guerrilheiro, aprendendo que cada coisa que se leva na mochila a mais tira a mobilidade, impede de correr e sobreviver.  Ou, em frase mais elaborada, “eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve, vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade”.

 



CANAL 100

A Cinemateca Brasileira está em grande atividade em sua sede, no largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, São Paulo, sob a direção geral de Maria Doura Mourão, direção técnica de Gabriela Queiroz e uma equipe muito dedicada.  Lança agora o “Projeto Canal 100”, de recuperação, catalogação e digitalização do acerto adquirido pela Cinemateca em 2011.  As crises por que passou a instituição inviabilizaram o trabalho que agora é assumido, contabilizando muitas perdas, mas com muito empenho em recuperar tudo o que for possível, mesmo que em fragmentos.  O Canal 100 foi um cinejornal inovador, de Carlos Niemeyer, narrado por Cid Moreira e Corrêa Araújo, que existiu de 1959 a 1986, exibido semanalmente no circuito cinematográfico do país.  Renovou o tratamento dos fatos sociais, culturais e esportivos de sua época, com destaque para o futebol, tratado como um grande épico do cinema.  “Que bonito é a torcida delirando, vendo a rede balançar...”, cantava a música que marcava a cobertura esportiva.  Que bonito era ver como as câmeras faziam do futebol uma das coisas mais empolgantes do mundo.  O Canal 100 vai voltar a nos encantar, graças a esse projeto da Cinemateca, digno de todos os aplausos e apoios.




 

terça-feira, 15 de outubro de 2024

PRIMEIROS FILMES DA MOSTRA 48

Antonio Carlos Egypto

 

ANORA

ANORA, produção estadunidense, dirigida por Sean Baker, chega à Mostra 48 com a chancela da Palma de Ouro no Festival de Cannes.  Mas a gente se surpreende com essa escolha.  A história envolve uma prostituta do Brooklin que vê a chance de mudar de vida ao se casar em Las Vegas com o filho de um oligarca russo, totalmente sem noção, que queima dinheiro nos Estados Unidos em sua temporada por lá, e se comporta como um tresloucado, obcecado pelos prazeres do sexo, recém descobertos.  Claro que seu “casamento” será posto à prova pela família do “noivo”.  E a profissional do sexo, naturalmente, lutará para mantê-lo.  O filme é uma comédia amalucada, em que os excessos estão visíveis: quebradeiras, gritarias, xingamentos, vômitos, destruições.  Há que se reconhecer que a comédia funciona, produz risadas, tem sacadas interessantes aqui e ali, mas, no conjunto, beira o nada.  O que terá acontecido com o Festival de Cannes?  Não tinha nada melhor para premiar?   138 min.

 

O PIOR HOMEM DE LONDRES é uma produção portuguesa, dirigida por Rodrigo Areias, que tem outros filmes na Mostra, falada em inglês e também em francês, italiano e até português.  Passa-se na Londres vitoriana, ao tempo de Napoleão III, e retrata o que poderíamos chamar de um vilão perfeito.  Charles Augustus Howell, português radicado em Londres, agenciador de artistas, negociante de arte, agente secreto, chantagista, escroque, trapaceiro.  Merece muitos adjetivos na sua arte de envolver, manipular, roubar com sagacidade, mentir, destruir pessoas e reputações. Enfim, o tipo é tão execrável que Arthur Conan Doyle o chamou conforme o título do filme e fez dele personagem nas histórias de Sherlock Holmes.  Quanto ao filme, demora para engrenar, ao mostrar as aparências, as filigranas, mesuras e falsidades do comportamento das elites, até chegar à essência do vilão.  A direção de arte fez uma boa caracterização de época e o filme vai ganhando interesse aos poucos.   Por vezes, perde o foco, mereceria uma edição mais enxuta.  A narrativa é linear, clássica.  130 min.

 

O PIOR HOMEM DE LONDRES

VOCÊ ME QUEIMA (Tú Me Abrasas), dirigido por Matias Piñero, da Argentina, é um filme pretensioso e intelectualizado. A antiga poeta grega Safo e a ninfa Britomartis conversam à beira-mar sobre amor e morte, a partir da adaptação de um capítulo do livro “Diálogo com Leucó”, de Cesare Pavese.  São citadas inúmeras vezes frases com fragmentos dos poemas de Safo, que foram recuperados, para além da única poesia que se conhece dela.  O filme trabalha manipulando o livro e fazendo anotações nele, reproduzindo também imagens, com destaque para o mar, alternando com o texto.  Literário demais, acadêmico, sem ritmo.  Vai interessar a muito pouca gente, creio eu.  64 min.

 

HANAMI é também uma produção portuguesa (e de Cabo Verde), dirigida por Denise Fernandes.  Leva-nos a uma ilha vulcânica distante, de onde todos querem partir, como Nia, a mãe de Nana, o fez, por exemplo.  Quando ela retorna, vários anos depois, com Nana já adolescente, esta prefere ficar, demonstrando ter aprendido a amar a ilha, mesmo sem conseguir expressar isso emocionalmente.  O filme vai mostrando o ambiente, as características,   objetos e elementos culturais do lugar, sem se deter muito no foco principal da história. Que, na verdade, é apenas um fio de história.  A locação de natureza é bonita, atraente, já o filme flui vagarosamente, sem conseguir envolver muito o espectador.  Competição Novos Diretores.  96 min.

 

QUANDO A LUZ ARREBENTA

QUANDO A LUZ ARREBENTA (When the Light Breaks), produção da Islândia, dirigida por Rúnar Rúnarsson, focaliza os sentimentos profundos que não podem ser expressos por circunstâncias que estão acima de uma decisão pessoal.  Os jovens Una e Diddi estão secretamente apaixonados e se encontram sem que Klara, a namorada dele e amiga de ambos, saiba disso.  Diddi está disposto a resolver esta questão, rompendo com Klara, e promete isso a Una.  Mas um acidente terrível impedirá que isso aconteça, tirando-lhe a vida.  Para Una, as consequências irão muito além da dor e do luto, alcançando todo o grupo de amigos com quem ela convive, sem permissão para expressar o que sente, consolar e ser consolada, na dimensão do que seria necessário.  O filme expõe essa condição de opressão interior de Una o tempo todo, sem nunca perder o foco.  Talvez pudesse ampliar a compreensão do problema, superando a questão individual, relacionando-o à sociedade e à vida dos jovens, num sentido mas geral.  Mas é um trabalho honesto e envolvente.  82 min.


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quarta-feira, 25 de setembro de 2024

PINOCHET 2

Antonio Carlos Egypto

 

Dois filmes em cartaz nos cinemas refletem o que foi a sangrenta ditadura militar chilena, comandada pelo general Augusto Pinochet, de 1973 a 1990, enquanto o Brasil enfrentava sua longa, e também sangrenta, ditadura militar, de 1964 até 1985.

 


Em PRISÃO NOS ANDES (Penal Cordillera), produção chilena de 2023, o diretor Felipe Carmona mostra uma prisão especial a céu aberto, na Cordilheira dos Andes, que abrigava cinco oficiais militares julgados e condenados por crimes de lesa humanidade como cruéis torturadores do regime de Pinochet, que censurou, perseguiu, torturou e matou militantes de esquerda, participantes e simpatizantes do governo de Salvador Allende, artistas e outros.  Lá eles estão “vigiados” por guardas que, na prática, estão tão presos quanto eles e que acabam funcionando até como empregados deles.  Porque os antigos chefões continuam se sentindo e agindo como se pudessem contar com o mesmo poder de que dispunham até a queda do regime e esperando voltar a qualquer momento.  Ou seja, na base do quem foi rei nunca perde a majestade.  Ou, melhor dizendo, opressores cruéis serão sempre opressores cruéis, se assim puderem agir, mesmo na cadeia.  O mérito de Felipe Carmona é mostrar o cotidiano dessa prisão “especial” injustificada, depois de tudo o que o Chile viveu com essas figuras.  Além de privilégios e benesses inaceitáveis da tal prisão.  No entanto, a exploração dessa questão não é aprofundada no filme, os personagens militares não são bem desenvolvidos, algumas situações soam artificiais, gratuitas ou sem relação direta com o tema.  Faltou amarrar as pontas, integrar a narrativa.  No elenco: Andrew Bargsted, Hugo Medina, Bastián Bodenhöfer.  104 min.

 



Em AINDA SOMOS OS MESMOS, produção brasileira de 2024, dirigida por Paulo Nascimento, rodada no Chile e no Brasil, utilizam-se relatos reais como o de um militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), que ficou 42 dias abrigado na Embaixada da Argentina, em Santiago, para poder sobreviver naquele momento em que, em qualquer lugar do país, no ano de 1973, quando se passa a ação, o perigo era total e a morte política estava à espreita.  O jovem Gabriel (Lucas Zaffari) vai ao Chile, como muitos brasileiros na época, incluindo exilados, buscar a democracia e a liberdade do governo popular de Allende e encontrará lá, um pouco depois, uma repressão monstruosa.  O pai Fernando (Edson Celulari) empresário figurão e colaborador do regime brasileiro até ajuda o filho, a contragosto, a sair do país, mas sobrará para ele a missão de resgatar Gabriel em plena Embaixada Argentina em Santiago, negociando com os militares daqui e de lá.  A situação é toda tensa e dramática, mas o filme não consegue atingir tal nível emocional, exceto em alguns poucos momentos.  A centralidade do papel do empresário, numa história vivida e manejada pelo jovem filho militante da esquerda, não contribuiu para isso.  Se a intenção era destacar, explicar, o papel da sociedade civil na ditadura militar, não funcionou.  O papel de Fernando, embora bem interpretado por Edson Celulari, não dá conta disso.  Deixa, inclusive, confuso esse papel e as relações que sustentam esses vínculos, tanto internos quanto externos. 90 min.

 

É importante resgatar essas histórias do período das ditaduras latino-americanas.  Um pouco depois, essa Argentina acolhedora da Embaixada viveria drama idêntico e maior, até, com seus militares, as Madres de Mayo  em busca de desaparecidos e tudo o que sabemos.  A guerra fria mostrou-se bem quente e coordenada por aqui. Muito já se falou e ainda há muito a dizer, compreender e reparar, sobre esse período histórico.  Mas isso não basta, precisamos de filmes intensos, emocionantes, bem elaborados, criativos, para contribuir para que essa história, de fato, nunca mais se repita.  




terça-feira, 16 de julho de 2024

TRANSEXUAIS NO CINEMA

Antonio Carlos Egypto

 

A questão transexual adquiriu importância e relevância maior nos últimos tempos, com a derrocada de tabus e o reconhecimento do valor da diversidade, pela maioria das pessoas.  O cinema tem refletido muito isso, com filmes que destacam personagens trans na ficção e dando voz e vez às pessoas chamadas não-binárias no registro documental.  Três filmes, que estão em cartaz nos cinemas, têm a questão transexual no centro de suas narrativas. 

 


ORLANDO, MINHA BIOGRAFIA POLÍTICA (Orlando ma biographie politique), documentário francês, de 2023, dirigido pelo filósofo, ativista e escritor trans, Paul B. Preciado, que agora é também cineasta, homenageia o personagem Orlando, de Virginia Woolf, de 1928.  Esse romance teve o primeiro personagem mudando de sexo no meio da história.  Preciado apresenta no filme 26 pessoas trans ou não-binárias, de 8 a 70 anos de idade, que se apresentam como representando o papel de Orlando.  Na verdade, estão falando de si próprias, se dando a conhecer, atuando no cotidiano de suas vidas e interagindo com suas vivências, o que não deixa de ser representação.  O filme é um documentário, poético e visual, muito interessante de se ver e que consegue até mesmo esclarecer didaticamente aqueles que ainda não se situam direito nesses novos conceitos.  E o faz sem restringir. Ao contrário, amplia as perspectivas de compreensão social e política desse universo, digamos, queer.  Seria interessante que justamente as pessoas com mais dúvidas ou resistências fossem ver o filme, para entender melhor o que se passa nessa realidade ainda desafiadora para nós, para eles, para todos.  98 min.

 


CAMINHOS CRUZADOS (Crossing) é um filme da Georgia e Turquia, de 2023, dirigido pelo georgiano radicado na Suécia, Levan Akin (de “E Então Nós Dançamos”, 2019).  No elenco: Mzia Anabuli, Lucas Kankava, Deniz Dumanli.  105 min.  A narrativa do filme foca na figura da senhora Lia, que está em busca de sua sobrinha Tekla, que ela não vê há muito, mas que prometeu à irmã falecida, mãe de Tekla, resgatá-la e trazê-la de volta.  Para isso, tem de, partindo da Georgia, ir à vizinha Istambul, onde presumivelmente a sobrinha estaria.  Sem falar turco ou inglês, aceita a companhia de um jovem para ajudá-la.  Nessa viagem, vão ficando claras as coisas.  Tekla está ligada ao mundo transexual da cidade, o que tenderia a aproximá-la da prostituição e das drogas.  Mas nesse meio há também sucessos, como o da trans Evram, advogada e defensora dos direitos humanos, que vai colaborar nessa busca.  Enfim, trata-se de penetrar no submundo de Istambul, para conhecer a realidade dos transexuais, suas rejeições, sofrimentos, abandonos, transgressões e fantasias.  Ao mesmo tempo, Lia estabelece uma relação difícil com seu acompanhante, que poderia ser seu filho e que está bem necessitado de apoio e de afeto.  A jornada de Lia levará a uma compreensão mais profunda desse universo tão palpável e tão desconhecido da transição de gênero, ou da eliminação da necessidade dessa escolha.  Uma mensagem escrita na abertura do filme informa que em georgiano e em turco não existe uma palavra diferenciadora de gênero para pessoas.  Destaque para a trilha sonora com canções locais muito bonitas.

 


A FILHA DO PESCADOR (La estrategia del Mero) é um filme da Colômbia, de 2023, dirigido por Edgar De Luque Jácome, filmado na República Dominicana, que conta, além desses dois países, com Porto Rico e o Brasil, na produção e distribuição.  É o primeiro longa do diretor colombiano.  No elenco: Roamir Pineda, Nathalia Rincón, Henry Barrios, Jesús Romero, Modesto Lácen.  78 min.  Numa ilha isolada do mar do Caribe, numa aldeia, vive um pescador tarimbado na pesca submarina em mergulho livre.  Convive com as alterações do mar e com ele tem uma relação de amor e domínio em sua solidão.  Até que aparece na ilha seu filho Samuelito, uma mulher trans, renomeada de Priscila, que está fugindo de uma confusão em que se meteu e que resultou numa morte.  Ela e o pai pescador são água e vinho, ele a hostiliza e rejeita, do mesmo modo que ela não o aceita por conta do passado, das relações rompidas dele com a mãe.  Será preciso que o pescador adoeça e se torne vulnerável para que as relações possam tomar outras proporções e caminhos.  Assim como o mar, os relacionamentos e emoções são sujeitos a ondas, revoluções, tempestades, furacões.  O filme é um tanto esquemático, nessa evolução narrativa, falta um tempo de elaboração para que os fatos se processassem como acontece.  Algumas mudanças de atitude são bruscas e inconvincentes.  No entanto, o conjunto se sustenta e as filmagens no mar dão um toque de beleza à realidade dura da transexualidade num ambiente conservador, que o filme mostra com clareza.




sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

ANATOMIA E COLONOS

 Antonio Carlos Egypto

 

 


 

ANATOMIA DE UMA QUEDA (Anatomie d’une chute).  França, 2023.  Direção: Justine Triet.  Elenco: Sandra Huller, Swann Arland, Milo Machado Graner, Antoine Reinartz.  150 min.

 

Filme de abertura da  47ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo , “Anatomia de uma Queda” vem com a chancela da Palma de Ouro no Festival de Cannes e concorre ao Oscar.  Em essência, trata-se de um filme de tribunal, que é onde ocorre a grande maioria das sequências.  E o assunto é o esclarecimento de uma queda que resultou em morte.  Homicídio?  Suicídio? A investigação adentra a vida do casal Sandra e Samuel e de seu filho de 11 anos, que passou por um acidente aos 4 anos e deixou marcas profundas na relação do casal.  Essa relação sempre foi difícil, conturbada.  Sem escarafunchá-la, não se chegará a nada.  A questão é que a verdade, mesmo a factual, está sempre sujeita à subjetividade, aos sentimentos, aos desejos e às preferências.  O filme da já experiente diretora Justine Triet explora bem os meandros dessa relação e o contexto dessa morte.  Dela também fazem parte importante o garoto e seu cachorro.  Está menos preocupada em definir o caso do que em explorar seus meandros.  A narrativa é clássica, valendo-se de gravações de som e vídeos exibidas, para ir além do espaço formal do tribunal.   Por sinal, as formalidades conhecidas e esperadas acontecem bem pouco.  Como se já fosse possível uma conversa coloquial, com a participação dos envolvidos, réplica e tréplica de forma relativamente independente da acusação e da defesa.  Até a juíza é informal no modo de botar ordem na discussão.  Parece bem melhor assim do que aquilo a que estamos acostumados a ver, pelo menos nos filmes de tribunal.  Mas tem acontecido na prática, no século XXI, ao menos na França?  Não tenho notícia.  No fim das contas, um filme centrado muito mais nas questões psicológicas do que nas jurídicas, mas usando uma forma tradicional que o cinema já utilizou largamente.

 



 

OS COLONOS (Los Colonos) indicado chileno ao Oscar 2024 de filme internacional, dirigido por Felipe Gálvez Haberle, é um western.  O gênero sempre marcado pela ação e aventura aqui tem uma inflexão mais crítica e social. Mostra que as incursões civilizadoras do país no começo do século XX incluíam a matança indiscriminada dos indígenas, apenas imaginados como ameaçadores. Um autêntico genocídio estava em curso.  Além disso, a vida humana em geral valia muito pouco. Para o patrão, um braço perdido do empregado podia justificar o sacrifício imediato da vida, como acontece aos animais.  Os personagens da viagem pelas belas paisagens da cordilheira dos Andes: um jovem mestiço chileno, um mercenário americano e um tenente britânico entrarão em conflito.

Elenco : Camilo Arancibia, Mark Stanley, Benjamin Westfall, Alfredo Castro, Marcelo Alonso. 97 minutos.

 

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

PUAN

Antonio Carlos Egypto

 

 


PUAN (Puan), Argentina, 2023.  Direção: Maria Alché e Benjamin Naishtat.  Elenco: Marcelo Subiotto, Leonardo Sbaraglia, Julieta Zylberberg, Alejandra Flechner.  109 min.

 

“Puan” nos coloca no ambiente acadêmico, da Universidade de Buenos Aires, em que a morte inesperada do chefe do Departamento de Filosofia engendra uma disputa de poder entre dois docentes. 

 

O primeiro, e personagem central do filme, é Marcelo (Marcelo Subiotto), que trabalhou muitos anos ao lado do antigo e respeitado chefe Caselli e espera ser seu sucessor no cargo.

 

O segundo é um professor que volta da Europa, da Alemanha, e para surpresa de Marcelo disputa o cargo.  É Rafael (Leonardo Sbaraglia), que esbanja extroversão e charme, enquanto Marcelo é preparado, mas tímido.

 

Nessa disputa de poder, entram Rousseau, Hobbes, Platão, Spinoza e outros mais.  Mas entra também um fator totalmente alheio à academia (ou assim se esperava que fosse), Rafael conquistou uma bela e famosa atriz de cinema, Vera Motta (Lali Espósito) e isso lhe dá um status especial.  É o moderno, o que vem para mudar.

 

Enquanto isso se desenvolve, o país entra em colapso com seus problemas econômicos (inflação, fuga de dólares, etc.) e a Universidade sente as consequências.  Os estudantes lutam com as suas possibilidades e isso é evidenciado pelo que se vê no campus e na própria sala-de-aula.

 


A disputa acadêmica terá de ser confrontada com a realidade que invade o mundo universitário.  Mas o filme não se furta de mostrar ideias e frases dos filósofos, que orientam o método pedagógico das aulas dos professores, ilustrando a beleza do conhecimento e da razão.  Já a práxis parece um pouco distante.

 

É uma narrativa interessante, inteligente, que se vale de dois grandes atores nos desempenhos principais.  Marcelo Subiotto, perfeito na caracterização e tipologia de seu papel.  O ótimo Leonardo Sbaraglia, no entanto, me parece inadequado enquanto figura, ele não sugere o charme e o encanto que o personagem precisa ter.  Sua interpretação é muito boa, mas sua aparência não casa bem com o personagem.  É preciso desviar disso para embarcar na história.

 

O filme é dirigido por Maria Alché e por Benjamin Naishtat, que é o realizador de “Vermelho Sol”, de 2018, um belo trabalho.  “Puan” foi exibido na 47ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e entra agora em cartaz no circuito comercial.  Mais um bom produto do cinema argentino, tão bem recebido pelos brasileiros e pelo mundo, e que corre sérios riscos de perder força diante do novo governo eleito pelos hermanos, que não pretende dar nenhum apoio à cultura.  Deve deixá-la à sua própria sorte ou se entendendo com os interesses da chamada iniciativa privada.




sábado, 28 de outubro de 2023

MAIS 5 FILMES DA # 47 MOSTRA

Antonio Carlos Egypto

 

Alguns comentários sobre outros filmes da # 47 Mostra, já vistos.


O filme polonês MULHER DE ... (Kobieta Z...), dirigido por Malgorzata Szumowska e Michal Englert, está centrado num personagem transexual, uma mulher trans.  Ao abordar a história e o modo como o homem que se sente no corpo errado vai caminhando para viver a experiência de ser mulher, o filme mostra com clareza o processo, assim como as dificuldades familiares, no casamento heterossexual e no contexto social mais conservador da Polônia, que não contempla o casamento homossexual.  E deixa claro que o mais importante não é o desejo, mas a identidade de gênero, destacando os sacrifícios envolvidos nessa escolha. 132 minutos.

 


LOS COLONOS, o indicado chileno ao Oscar de filme internacional, dirigido por Felipe Gálvez Haberle, é um western.  O gênero sempre marcado pela ação e aventura aqui tem uma inflexão mais crítica e social. Mostra que as incursões civilizadoras do país no começo do século XX incluíam a matança indiscriminada dos indígenas, apenas imaginados como ameaçadores. Um autêntico genocídio estava em curso.  Além disso, a vida humana em geral valia muito pouco. Para o patrão, um braço perdido do empregado podia justificar o sacrifício imediato da vida, como acontece aos animais.  Os personagens da viagem pelas belas paisagens da cordilheira dos Andes: um jovem mestiço chileno, um mercenário americano e um tenente britânico entrarão em conflito.  97 minutos.

 


Dizer que A EREÇÃO DE TORÍBIO BARDELLI (La Erección de Toribio Bardelli) vem do Peru parece piada pronta de José Simão. Mas não, o filme de Adrián Saba é sério.  Tem humor também, mas é basicamente uma abordagem da frustração humana, não só no sexo, do personagem do ator Gustavo Bueno, que contracena também com Lucélia Santos, mas dos demais personagens, seus filhos. Eles falham na vida por conta do alcoolismo, da deficiência visual, das limitadas e restritivas possibilidades de uma carreira literária e na própria relação entre todos eles, uma grande frustração.  A reação priápica que o filme mostra é o aspecto mais evidente dessa frustração geral. É o indicado do Peru ao Oscar de filme internacional.  82 minutos.

 


O filme turco QUASE TOTALMENTE UM PEQUENO DESASTRE (Sanki Her Sey Biraz Felaket), do diretor Umut Subasi, também trata de frustração, a dos jovens no mundo de hoje em que tudo parece difícil, sufocante, sem futuro, numa cidade como Istambul.  O problema é que cada um deles tem seu modo de jogar, mentir, omitir, e não parecem ser capazes de lutar por seus anseios.  As sequências são marcadas pelos jovens, cada um à sua vez, chorando copiosamente. E uma música ritmada repetitivamente entra junto.  Uma ideia nada feliz, além de óbvia.  88 minutos.

 


O LIVRO DAS SOLUÇÕES (Le Livre des Solutions), da França, do bastante conhecido diretor Michel Gondry, vai para o registro da comédia, tendo como base o fazer cinematográfico. No caso, o personagem é um diretor de cinema enlouquecido e que quer fazer tudo do seu jeito, rejeitando todas as técnicas conhecidas do cinema.  Com isso, tudo vai acontecer de forma caótica, deixando a equipe tensa e desequilibrada.  O diretor confia no livro das soluções que ele mesmo preenche, a partir de páginas em branco, criando um “método” próprio para resolver as coisas.  Na contramão de tudo, algo acaba dando certo.  Será que esse filme vai sair?  Vai haver um modo de montá-lo?  Apesar dos excessos, é divertido.  102 minutos.

@mostrasp