sexta-feira, 1 de maio de 2026

NINO

 

      Antonio Carlos Egypto

 



NINO, DE SEXTA A SEGUNDA (Nino).  França, 2025.  Direção: Pauline Loquès.  Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, participação Mathieu Amalric.  96 min.

 

Nino, o personagem central do filme homônimo de Pauline Loquès, é o que se poderia caracterizar como uma personalidade fleumática.  Ou seja, uma pessoa que, pelo menos aparentemente, se comporta como calma, serena, impassível e que pode ser vista como apática, sem reação ou lenta nas reações.  É com essas características que o excelente jovem ator Théodore Pellerin compõe Nino, que viverá uma experiência avassaladora no final de semana em que completa 29 anos de idade.

 

Tudo acontece com ele, sem que ele desabe nem resolva adequadamente as questões que lhe aparecem.  Nino não consegue pedir ajuda, abrir o coração, não quer incomodar ninguém, e diante das dificuldades nega ou contorna a situação.  Ou simplesmente espera e suporta.

 

É o tipo que não se surpreende nem com uma festa surpresa no seu aniversário.  Também, pudera, foi nessa data que ele, ao buscar o resultado de exames de rotina, descobre que está com câncer na garganta, decorrente de uma doença sexualmente transmissível, o HPV, contaminado anos atrás.  Bom cidadão, ele não esquece de deixar um recado escrito num cartão para sua ex-companheira sexual, mas quando se encontra pessoalmente com ela, nada diz a respeito da doença, nem do cartão que já lhe deixou.

 


Nino demonstra ser tímido, porém, sociável, tem muitos amigos que acabam por ajudá-lo sem que ele peça.  Trata todo mundo bem, tem carinho com a mãe, mas também não se abre com ela.  Do pai tem lembranças e dúvidas quanto à sua morte (a dele), tentando se entender melhor nesse momento difícil pelo qual passa. 

 

Um dos gargalos do seu fim-de-semana em meio aos problemas é que perdeu a chave do apartamento, ou fechou-o com ela dentro.  Isso determina muito do que acontece de sexta até a segunda, quando Nino deve iniciar seu tratamento oncológico.  Fiquei me perguntando se em Paris no fim-de-semana não há chaveiros disponíveis, já que o zelador não estava e provavelmente nem teria essa chave.  Se existia, ele não foi atrás.

 

Enfim, são muitos contratempos e situações inesperadas que vão transformar a vida de Nino por inteiro.  Com seu jeito pacífico, afetivo e caloroso, sua vida poderá resistir aos problemas de saúde tão graves que o aguardam?  Ser uma figura fleumática pode fazê-lo viver melhor a situação e sofrer menos? 

 

Nino é um personagem que produz uma identificação muito fácil com o espectador.  Que pode se incomodar com o seu jeito de ser, mas torce por ele (como os personagens que com ele convivem no filme).  Mérito de uma direção leve e sutil, ancorada num ator surpreendentemente bom, que recebeu vários prêmios de revelação e que, de fato, segura o filme muito bem.

 


A narrativa de “Nino” foi inspirada pela realidade de um bom número de jovens que passam por circunstâncias semelhantes sem terem noção do que pode estar acontecendo e sem sintomas suficientes para servirem de alerta.  E foca no momento em que a realidade se impõe e é preciso lidar com ela.  Cada qual o fará de acordo com sua personalidade, seus recursos e o atendimento que políticas públicas de saúde oferecem à população.