quarta-feira, 31 de outubro de 2012

ENTRE O AMOR E A PAIXÃO


  Antonio Carlos Egypto

ENTRE O AMOR E A PAIXÃO (Take This Waltz).  Canadá, 2011.  Direção e roteiro: Sarah Polley.  Com Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirly, Sarah Silverman.  116 min. 

A atriz canadense Sarah Polley, de filmes como “O Doce Amanhã”, de Atom Egoyan, de 1997, ou “eXistenZ”, de David Cronemberg, de 1999, vem se revelando uma diretora de cinema sensível para a discussão de questões ligadas ao relacionamento humano no terreno amoroso.

Seu primeiro trabalho como cineasta em longas foi “Longe Dela”, de 2006, em que um casal de idosos, apaixonado por toda a vida, tem de enfrentar a dura realidade da doença de Alzheimer, que acomete a mulher, papel de Julie Christie no filme.  Quem não conhece, vale ver em DVD.  É um trabalho de grande sensibilidade e humanismo, que não se envergonha de ser romântico.  Mas, em momento nenhum, se afasta do realismo, muito apropriado à abordagem desse tema sofrido.




“Entre o Amor e a Paixão” olha para a questão amorosa em outra faixa de idade: a dos 30 anos.  O foco da narrativa está em Margot (Michelle Williams), bem casada com Lou (Seth Rogen), ótima pessoa, dedicado escritor de livros culinários, que testa suas receitas de frango diariamente em casa.

Numa viagem, e sem estar em busca de nada, Margot conhece casualmente Daniel (Luke Kirly) e rola uma química inesperada entre eles.  Tudo ficaria numa paquera passageira de viagem, não fosse que Daniel acabou de se mudar para a casa em frente à de Margot e Lou.  Assim, fica impossível não vê-lo, não se lembrar dele, ignorá-lo.  Ou mesmo impedir que Lou conheça Daniel e comece a conviver com ele.  E aí como é que fica?

A questão do desejo, ou da paixão, ou de duas formas de manifestação amorosa que não se excluem, vai povoar o mundo interno de Margot.  A ambiguidade será a tônica do filme.  Como a mostrar que na vida amorosa tudo pode acontecer e lidar com o que pintar pode envolver uma grande dificuldade, uma divisão interna, a tortura da decisão.  E que decisão seria a mais importante?




“Entre o Amor e a Paixão” é menos forte e brilhante do que “Longe Dela” e, como este, segue uma narrativa clássica.  É um bom filme, que merece ser visto.  Seu público alvo é o feminino, claramente.  Mas, para os homens, o interesse estará em entender melhor as ambiguidades femininas, por meio do olhar da jovem Margot.  Bem, e afinal, apesar das negativas peremptórias, há homens dispostos a discutir a relação, como é o caso do personagem Lou.  E há homens sensíveis e especialmente afetivos.  Ou não?

O filme foi exibido na 36ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e entra agora em circuito comercial.



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

007 - Operação Skyfall



Tatiana Babadobulos


007 – Operação Skyfall (Skyfall). Reino Unidos e Estados Unidos, 2012. Direção: Sam Mendes. Roteiro: Neal Purvis e Robert Wade. Com: Daniel Craig, Helen McCrory, Judi Dench e Bérénice Marlohe. 143 minutos


Foi em 2006 que Daniel Craig, em “007 – Cassino Royale” mostrou ao mundo que poderia viver James Bond, o agente 007, ainda que, vá lá, não seja exatamente um Sean Connery. Em 2008, foi a vez de “007 – Quantum of Solace” perder a mão do herói.


A partir de sexta-feira, 26, ele poderá ser visto novamente como o personagem que tanto mexe com a imaginação dos amantes do cinema em uma nova missão no longa-metragem “007 – Operação Skyfall” (“Skyfall”), baseado nos personagens idealizados por Ian Fleming.



Nas primeiras cenas, o espectador já terá uma boa amostra do que vem pela frente, nos mais de 140 minutos de projeção do filme. É que é logo no início, durante um trabalho de campo, que Bond vai levar um tiro sem querer e colocar à prova a lealdade de M (Judi Dench sempre ótima).


Em um filme repleto de ação e emoção como os de 007, melhor mesmo é o mistério sobre o que vem pela frente.


A trilha sonora sublinha durante as cenas de perseguição, mas não para durante o filme todo, e vez ou outra a canção que marcou a franquia aparece para lembrar o espectador sobre o que está assistindo.

Mas esta memória é desnecessária. O filme trata logo de ele mesmo trazer à tona lembranças que fizeram do personagem, um sucesso, como as mirabolantes maneiras como ele se arranja para se livrar de um problema, as armas que aparecem com mil e uma utilidades, ou até mesmo os seus carros incríveis, que sempre foram muito adorados pelos fãs.


Aqui, além de um Land Rover, há as estripulias dentro de um autêntico Jaguar e um dos carros antigos que já fizeram parte da filmografia do personagem em um momento crucial da fita.


Além de se passar em Londres, com ótimas cenas filmadas dentro do metrô, a história se passa também em Xangai e os personagens citam Hong Kong várias vezes. É a poderosa China tomando conta também das locações cinematográficas.


Sob a batuta de Sam Mendes (“Beleza America”), o longa-metragem tem menos cenas de ação e mais drama, mais diálogos, principalmente com a presença do novo vilão, que protagoniza cenas repletas de bom humor, ainda que com boa dose de ironia.



Outra diferença é que, ao con­trário das outras fitas, aqui a mulher bonita ao lado do protagonista não é o primordial, ainda que em uma pequena sequência a Bond Girl aparece para dar uma trégua na correria. A personagem é vivida pela atriz francesa Bérénice Marlohe.


“007 – Operação Skyfall” é um tanto previsível, até porque trata-se de um personagem conhecido, mas a trama é boa e bem contada. Ainda que o protagonista não diga à agente em campo Eve (Naomie Harris) qual é o seu nome daquele jeito que só ele sabe contar.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Os Candidatos


Tatiana Babadobulos

Os Candidatos (The Campaign). Estados Unidos, 2012. Direção: Jay Roach. Roteiro: Chris Henchy e Shawn Harwell. Com: Will Ferrell, Zach Galifianakis, Jason Sudeikis. 85 minutos



Em época de eleição no Brasil e também nos Estados Unidos, “Os Candidatos” (“The Campaign”), longa-metragem que estreia nesta sexta-feira, 19, oferece ao espectador uma boa dose de leveza, ao contrário dos debates e do próprio horário eleitoral.

Principalmente por conta do bom humor, o filme dirigido por Jay Roach (“Entrando numa Fria”) tira a plateia do sério e mostra o “lado B” de uma campanha política.

Na fita, depois que o congressista veterano Cam Brady (Will Ferrell, de “Pronto para Recomeçar”) comete uma gafe pública antes de uma eleição, dois lobistas planejam lançar um candidato rival a fim de ganhar influência sobre o seu distrito, na Carolina do Norte. Marty Huggins (Zach Galifianakis, de “Se Beber, Não Case” e “Se Beber, Não Case II”) nunca pensou em ser candidato – até porque ele não leva jeito nem tem as qualidades que um congressista deveria ter –, mas é influenciado a concorrer ao cargo público.

Nada como um bom marqueteiro para fazer o seu candidato aparecer. E daí ele entra no esquema no qual vale tudo: mudança de roupas, de comportamento familiar, até a decoração da casa é alterada para parecer mais “descolado” e atual. Os filhos de um dos candidatos confessam o que fizeram e vira uma espécie de “jogo da verdade”. Hilário!




Os investidores apostam alto em sua candidatura e até se torna carismático aos olhos do povo. Afinal de contas, tal como um dos personagens diz, “quando se tem dinheiro, nada é imprevisível”. A questão é que os tais investidores são inescrepulosos, mudam a origem de produtos vindos da China para convencer os consumidores norte-americanos que estão investindo alto na indústria do seu país.

Quando os dois estão empatados, a campanha se torna uma chuva de insultos e agressões e o circo está armado. Para disputar a atenção dos eleitores, eis que cometem as piores gafes, como bater em bebê, chutar o cachorro que foi astro do filme francês “O Artista” e toda sorte de esquisitices.
Qualquer semelhança com as campanhas atuais, aliás, não terá sido mera coincidência.

Além do tema, são os atores que fazem o filme valerem o ingresso. Ferrell e Galifianakis, que também são produtores, têm timing perfeito e trabalham bem neste gênero cômico, sem ser pastelão, mas de modo inteligente e que consegue agradar o espectador com ironia e piadas atuais. Embora o tema seja sério e deva ser discutido, aqui os personagens  comentam de maneira engraçada, sem perder o tom da crítica. Os diálogos e os acontecimentos fazem o espectador pensar sobre como as coisas funcionam na política. E que realmente não é simples separar o joio do trigo, principalmente quando se tem a “maquiagem” para disfarçar ao eleitor a personalidade e o caráter de cada candidato.

"Os Candidatos" oferece oportunidade de olhar com visão crítica e ao mesmo tempo engraçada para pontos que realmente importam dentro de uma eleição.

sábado, 20 de outubro de 2012

TABU

                                      
Antonio Carlos Egypto

TABU.  Portugal, 2012.  Direção: Miguel Gomes.  Com Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira.  119 min.
“Tabu” é uma história contada em duas partes distintas.  Na primeira, vê-se o ocaso de uma senhora idosa, temperamental, que se comporta de modo estranho e faz referência a coisas incompreensíveis que remetem ao seu passado.  Convive com uma empregada caboverdiana, seca e lacônica, que ela crê que a persegue, e com uma vizinha dedicada a causas sociais.  Até que ficamos sabendo de um seu antigo amor, que será o narrador da segunda parte.  E aí o filme cresce, mostrando uma história de amor e traição, que nos leva à África e remete ao clássico do cinema mudo “Tabu”, de F. W. Murnau ,de 1930 .
A fotografia, em preto e branco, é esmerada e merece destaque.  Mas é o modo como Miguel Gomes conduz sua narrativa e inova ao filmar o que mais interessa no filme.  Há, por exemplo, cenas em que os personagens estão em ação e falando uns com os outros, mas os sons que ouvimos são apenas ruídos de casa ou uma pedra que cai na água.  Músicas modernas contrastam com o que se está vivendo em cena, encobrindo eventos da narrativa ou tornando-a francamente estranha e dissonante.  Mas o sentido não se perde, nem se confunde.  A lente da câmera recebe as gotas da chuva, o que transforma a imagem em algo irreal, que se dissolve em desejo ou sonho.


Um jacaré recém-nascido é um presente exótico dado à personagem Aurora (Murnau sendo lembrado outra vez) pelo marido.  Sua fuga e consequente procura nos revela a atração sexual e a traição.  Aliás, um jacaré sempre estará à espreita, com seus olhos arregalados.
Como se pode ver, é um filme especial.  Pode não agradar ao público em geral, mas deve interessar aos cinéfilos.  E a quem conseguir se despir de conceitos estabelecidos e se abrir à novidade.  Quem assistiu e gostou de “Aquele Querido Mês de Agosto”, o filme do diretor, de 2008, que foi um dos destaques da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo daquele ano, certamente vai curtir o novo filme de Miguel Gomes.  Quem não gostou, ou não gostou tanto, pode dar uma nova chance ao cineasta, agora.  Ele é daqueles talentos que o cinema mundial revela, de tempos em tempos, nos festivais, que tem tudo para permanecer.

36ª. MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO


Antonio Carlos Egypto
Já está em andamento a 36ª. edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a primeira sem seu idealizador -- Leon Cakoff -– mas mantendo o mesmo espírito.  E continuando a contar com a direção de Renata de Almeida.
Há muito para destacar, mas eu chamaria a atenção para a diversidade cultural, marca indiscutível da Mostra de São Paulo.  O cinema autoral de todo o mundo está presente, e garimpar os mais diversos títulos de novos diretores, em primeiro ou segundo filme, que entram em competição, é um prazer especial.  O prazer da descoberta daquele novo diretor da Indonésia, de Filipinas ou do Cazaquistão, pode envolver muitas novidades e surpresas.  É o que dá sabor especial à Mostra.
Há quem prefira ver os novos filmes de cineastas já conhecidos e alguns até consagrados.  Já posso indicar, por exemplo, “A Bela que Dorme”, de Marco Bellochio, que trata da questão da eutanásia num belo filme.  Ou o novo título do dinamarquês Thomas Vintenberg, “A Caça”, o reverso de “Festa de Família”, o abuso sexual imputado a um inocente.  Drama denso e muito bem conduzido.  “Entre o Amor e a Paixão” é o novo trabalho de Sarah Polley, depois do sensível “Longe Dela”, e que merece atenção.
Do novo filme de Manoel de Oliveira, o mestre português ainda em franca atividade, aos 104 anos de idade, nem é preciso recomendar: “O Gebo e a Sombra” é, naturalmente, um programa imperdível.  A nova fita do romeno Cristian Mungiu, “Além das Montanhas”, também parece ser uma sessão indispensável.  O diretor é um talento já bem reconhecido.  Tem também o novo filme do diretor alemão Volker Schlondorff (de “O Tambor”, lembram-se?), chamado “Mar Calmo’.
Entre os brasileiros, destaco “Era uma Vez eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, depois dos ótimos “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”.  Seu novo trabalho tem a mesma qualidade dos anteriores.  “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho, é quase uma unanimidade entre críticos e cinéfilos.  Melhor não deixar passar a oportunidade de ver logo.  E há muito mais do cinema nacional na Mostra.

Não poderia deixar de citar a retrospectiva da obra completa de Andrei Tarkóvski (1932-1986), com todos os seus filmes, a exposição “Luz Instantânea: Polaróides de Andrei Tarkóvski” e a publicação do livro “Tarkóvski – Instantâneos”, pela Cosac-Naif.
O japonês Minoru Shibuya (1907-1980) também tem uma retrospectiva em sua homenagem.  E o russo Sergei Loznitsa virá a São Paulo apresentar seus filmes e participar de debates.O jovem diretor português Miguel Gomes terá seus filmes exibidos na Mostra: “A Casa que Mereces”, de 2004, e “Aquele Querido Mês de Agosto”, de 2008, que agradou público e crítica quando participou da Mostra, e vem com seu novo filme “Tabu”, premiado e elogiado.
Opções é que não faltam, mas quem preferir rever filmes famosos em cópias restauradas pode se deliciar com o “Nosferatu”, de Murnau, de 1922, “Lawrence da Arábia”, de David Lean, de 1962, ou “Tubarão”, de Steven Spielberg, de 1975, entre outros.
O filme que abriu a Mostra foi o chileno “No”, sobre o plebiscito que colocou fim à ditadura de Pinochet e, claro, está na programação.  Como diz a propaganda do evento, vamos lá, já que o filme da sua vida pode estar aqui.  Por que não?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MOONRISE KINGDOM


Antonio Carlos Egypto





MOONRISE KINGDOM.  Estados Unidos, 2011.  Direção: Wes Anderson.  Com Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Frances Mc Dormand, Tilda Swinton.  94 min.

Tudo se passa num acampamento de escoteiros, com seus uniformes característicos, suas regras bem intencionadas, mas rígidas e o desenvolvimento das habilidades para conviver com a natureza e sobreviver nela.  Tudo um tanto surreal, um pouco fora do tempo, para produzir um estranhamento constante.  Tudo bem esquisito, infantilizado, e, consequentemente, engraçado.

“Moonrise Kingdom”, assim mesmo, sem título em português, é o novo filme de Wes Anderson, o diretor das situações surreais extraídas de um cotidiano banal.  Era assim em “Os Excêntricos Tenenbaums”, de 2001, ou “Viagem a Darjeeling”, de 2007.  Ele nos leva a uma ambientação curiosa, diferente, que, no entanto, nos parece muito familiar.  Algo como a loucura do conhecido, que a gente desconhece.




O clima do filme é sensacional, tudo tão organizado que, é óbvio, tudo está fora do lugar.  No ambiente infantilizado, caberá às crianças viver experiências de adulto.  Isso acontecerá com o casalzinho de 12 anos de idade, que fugirá de casa ou do acampamento para viver uma inusitada fantasia amorosa.  Claro, recheada de aventuras perigosas.  Afinal, escoteiros existem para se embrenhar pelo mato e mostrar que são capazes de sobreviver.  Não é assim?

Mas se crianças querem ter sua própria vida, os adultos são apegados a seus códigos, incapazes de compreender o que se passa bem diante de seu nariz. Esse imbróglio acaba produzindo um ótimo filme, que faz da brincadeira uma oportunidade para revelar a nós mesmos o imponderável da vida cotidiana mais corriqueira.  Sabemos muito pouco a respeito de quem está ao nosso lado, podemos ser surpreendidos em qualquer momento da vida e por parte de quem menos se espera.



Um elenco estelar sustenta essa brincadeira.  Edward Norton, sempre muito bom, monitor de acampamento, de calças curtas, está bem divertido.  Bruce Willis, Bill Murray, Tilda Swinton e Frances Mc Dormand são os outros adultos que participam da aventura e muito bem.  Mas o casal de crianças, Jared Gilman e Kara Hayward, é quem vai dar o tom da comédia.  E eles são também muito apropriados para o que lhes coube.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

E SE VIVÊSSEMOS TODOS JUNTOS?


Antonio Carlos Egypto

 
 
 
E SE VIVÊSSEMOS TODOS JUNTOS? (Et Si On Vivait Tous Ensemble?).  França, 2011. Direção: Stéphane Robelin.  Com Jane Fonda, Pierre Richard, Geraldine Chaplin, Claude Rich, Guy Bedos, Daniel Brühl.  96 min.

 

Com os avanços da medicina, hoje em dia as pessoas estão vivendo cada vez mais e geralmente melhor.  Quando bem assistidas, naturalmente.  Ao mesmo tempo, a tendência da maior parte do mundo, Brasil incluído, é a do declínio da taxa de natalidade.  Conclusão: a população de idosos é cada vez maior, em relação ao conjunto populacional.  Isso evidencia o foco no envelhecimento.

 

Na chamada Terceira Idade, ironicamente também chamada de Melhor Idade, muitos problemas aparecem.  Inevitavelmente.  Dores, falta de memória, solidão, perda de parceiro, dificuldades para usufruir da vida sexual plenamente, doenças que podem evoluir, abreviando o fim da vida e outras coisas mais.  Faz parte do círculo vital.  Os idosos têm que se virar como podem, ou depender da família ou, ainda, serem obrigados a encarar as chamadas “casas de repouso”.  Soluções sempre complicadas e, muitas vezes, insatisfatórias.
 
 
 

Um grupo de amigos, quando chega nessa fase, decide encarar um novo desafio, que pode ser uma solução para os seus problemas: viver em comunidade.  Essa é a situação dos personagens de “E se vivêssemos todos juntos?”.  Um pessoal que resolve montar uma “república” para maiores de 75 anos.  Não será uma boa ideia?  Mas pode ser difícil, ninguém pode ignorar isso, sobretudo nessa idade.  O que a história dos personagens desse filme trata é da questão do envelhecimento, algo que ainda se discute pouco.  E que cada vez é mais necessário que se discuta.
  
 
                                   
 
 

Stéphane Robelin dirige a película com sensibilidade para o tema, ao mesmo tempo, com muito realismo e honestidade, tentando injetar boas doses de humor.  Afinal, seria muito depressivo tratar da velhice só focando nos problemas e dificuldades, e ainda de forma sizuda.  Aqui, não, o filme encontra a medida correta para produzir reflexão no público, mas com leveza.  Até onde isso for possível, naturalmente.

 

Um ótimo elenco de atores dessa faixa de idade garante um espetáculo de ótimo nível.  A começar por Jane Fonda e Geraldine Chaplin, as mulheres da trama.  Pierre Richard, Claude Rich, Guy Bedos compõem o elenco, que tem ainda a participação do jovem ator alemão Daniel Brühl, que faz o único papel que destoa da Terceira Idade, entre os protagonistas.  Ele é o cuidador da turma, passeia os cachorros e, enquanto estudante, pesquisa o envelhecimento, convivendo com eles.  E, nas horas vagas, pode até providenciar um viagra para alguém.  Essa é apenas uma das muitas preocupações que surgem nesse grupo de idosos, para quem pode ser um problema de igual importância revirar o baú do passado e lidar com uma infidelidade ocorrida há 40 anos.  Ou, no presente, ter a urgência de construir uma piscina, única forma de atrair os netos para o convívio com eles.



 

Vale a pena acompanhar a vida dessa turma da república da Terceira Idade e, quem sabe, entender melhor o que é esse fantasma do envelhecimento.  Que, afinal, pode ser bem menos assustador do que parece, sobretudo, se há amizade genuína em jogo.  E, em qualquer idade, todo mundo sabe: a união faz a força.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ROTA IRLANDESA


Antonio Carlos Egypto


 

ROTA IRLANDESA (Route Irish). Inglaterra, 2011.  Direção: Ken Loach.  Com Mark Womack, Andrea Lowe, John Bishop, Jack Fortune.  109 min.

O diretor britânico Ken Loach tem como característica temática as questões política e ideológica.  Costuma tratar de temas como a pobreza, a imigração, as etnias, os preconceitos, os conflitos religiosos armados da Irlanda, outros conflitos históricos e assuntos correlatos.

 

As escolhas dos personagens sempre envolvem decisões de caráter político, seja em situações de guerra, seja em relações de vizinhança.  Claro, há política em tudo, é algo muito importante mesmo.  Desta vez, o enfoque foi um pouco diferente.  Trata-se da guerra do Iraque, mas não como uma questão ideológica e, sim, como um negócio.
 
 
 

Fergus e Frankie, amigos de infância, se ajudam mutuamente, costumam trabalhar juntos.  Vemos Fergus convencer Frankie a ir com ele para o Iraque.  O pagamento é ótimo, 10 mil libras ao mês, sem taxas.  É a guerra privatizada, virando emprego atraente para alguns.  Sem considerações de ordem política ou ideológica, em princípio.

 

Acontece que o tal emprego é perigosíssimo.  Frankie acaba morto na chamada Rota Irlandesa, estrada iraquiana identificada como a mais perigosa do mundo.  O filme se centra na ação de Fergus em busca de encontrar o que está por trás da morte do amigo.  Essa investigação trará muitas revelações, novos perigos e vingança.
 

 

“Rota Irlandesa” é, nesse sentido, um enredo policial, como tantos outros.  A questão política, aqui, aparece de uma forma diferente.  O foco da denúncia é a privatização e o negócio das guerras.  Vale para qualquer guerra, a rigor.  Tendem a cair por terra os argumentos que justificariam ações armadas, invasões de territórios, tiroteios em terrenos fronteiriços, coisas desse tipo. E, menos ainda, o resgate de tiranos pela democracia.  Basta ver no que virou essa história.
 
  

É um filme menor do grande diretor Ken Loach.  Dele sempre se espera mais.  Pela lucidez que demonstra, pela coragem de tocar em feridas e fazer denúncias.  Não que isso esteja ausente aqui.  O negócio da guerra é algo que deve, mesmo, ser tratado, apontado com clareza.  A banalização da violência que transforma absurdos em coisas admissíveis é um ponto importante também.  O problema é que o filme mantém o espectador um tanto confuso ao longo da narrativa.  Isso acaba atrapalhando o envolvimento emocional que se espera desse tipo de película, que tem algo a demonstrar.  O cinema de Ken Loach costuma ser bem mais claro e até didático, no tratamento dos temas engajados que sempre o interessaram.  Neste filme, ele se desvia um pouco da rota, faz uma digressão.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Intocáveis




Tatiana Babadobulos

Intocáveis (Intouchables). França, 2011. Direção e roteiro: Olivier Nakache e Eric Toledano. Com: François Cluzet, Omar Sy e Anne Le Ny. 112 minutos


Dirigido e escrito a quatro mãos por Olivier Nakache e Éric Toledano, o longa-metragem francês “Intocáveis” (“Intouchables”) obteve grande sucesso de público e crítica no seu país, e foi capaz de levar aos cinemas mais de 23 milhões de pessoas. Como a obra teve baixo orçamento (menos de 10 milhões de euros), o público que prestigiou a produção fez dela um fenômeno nas bilheterias.

Com François Cluzet e Omar Sy, a comédia é baseada no livro autobiográfico de Philippe Pozzo di Borgo (“O Segundo Suspiro”) e conta a história de Philippe (Cluzet), um multimilionário que, após ficar paraplégico, precisa de um enfermeiro para ajudá-lo nas tarefas simples do dia a dia.

Depois de várias entrevistas, ele contrata Driss (Sy), negro ex-presidiário que não tem qualquer formação para o cargo, mas se deslumbra com o estilo de vida do milionário. Além de ajudá-lo a tomar banho e se a trocar, já que possui força e disposição, o cuidador leva o patrão para se divertir com mulheres e outras coisas que ele não fazia há muito tempo.




O longa, baseado no livro “O Segundo Suspiro”, escrito pelo próprio Phillippe Pozzo di Borgo, e no “Você Mudou a Minha Vida”, versão da história do enfermeiro argelino Abdel Sellou, não foca muito nas passagens tristes da vida do personagem; prefere mudar o olhar para a comédia, ao contrário, por exemplo, de “O Escafandro e a Borboleta”. E é sobre a amizade improvável entre duas pessoas que o longa foca: um pobre e um milionário, um negro e um branco, além da diferença de idade.

Destaque para a interpretação de Omar Sy, vencedor do Cesar 2012 de Melhor Ator, principalmente em uma das cenas mais interessantes que é o seu solo da dança.

“Intocáveis” garante boas gargalhadas, mas também doses extras de emoção.


Sucesso
No Brasil, o longa-metragem, que estreou em 30 de agosto, já foi visto por mais de 500 mil pessoas. E, ao invés de diminuir a cada semana, o filme faz o caminho inverso: apresenta um aumento semanal na bilheteria. Segundo a California Filmes, distribuidor da fita no país, em sua quarta semana em cartaz, o filme teve crescimento de 23% e subiu uma posição no ranking, terminando em quarto lugar. No acumulado, o filme arrecadou R$ 5,6 milhões.

Entre as causas possíveis do sucesso pode ser o fato de se abordar o tema delicado sem ser triste e depressivo e de ter a capacidade de falar com todos os públicos.

Filmes franceses, de uma maneira geral, são considerados cult, muitas pessoas não entendem, principalmente pelo fato de muitos não terem um final explícito (vide “Caché”, de Michael Haneke).

Quando se trata de um assunto delicado, como é o caso do milionário tetraplégico que procura um enfermeiro para ajudá-lo nas tarefas diárias, a tendência é que a trama seja dramática, triste, pra baixo.

“Intocáveis” vai ao contrário desse “padrão”. Isso porque o filme trata dessa temática teoricamente triste, de uma maneira inteligente e engraçada, eleva o espírito de qualquer espectador ao ver o desejo de viver que tem o cadeirante. E  não é só: tem começo, meio e fim, mas não é contado de maneira linear. Existe uma volta no tempo logo no início.

François Clerc, dos estúdios Gaumont, produtor do longa-metragem, indica que o sucesso se deve ao fato de o filme falar de heróis comuns. “O filme fala de pessoas que são rejeitadas – os cadeirantes e aqueles que vivem na periferia. E também porque é uma história real.”

Depois do sucesso na França, o longa-metragem ganhou prêmios, veio para o Brasil e, graças à distribuição, que não o isolou no “circuito de arte”, outras pessoas tiveram a chance de assisti-lo. Assim, muitos podem comprovar que filme francês não precisa ser, necessariamente, restrito aos intelectuais de plantão.

O boca a boca também ajudou bastante. Com as performances do atores, muitas pessoas comentaram não apenas na saída do cinema (assisti ao filme em uma sessão lotada, em pleno domingo), mas também nas redes sociais. Na semana de estreia, choveram comentários no Facebook e no Twitter de pessoas que assistiram ao filme, gostaram e contaram aos seus amigos.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Looper – Assassinos do Futuro


 Tatiana Babadobulos

Looper - Assassinos do Futuro (Looper). Estados Unidos e China, 2012. Direção e roteiro:
Rian Johnson. Com: Joseph Gordon-Levitt, Bruce Willis e Emily Blunt. 118 minutos

Uma das coisas que mais confundem o espectador dentro da sala escura é o longa-metragem que trata de viagens no tem­po. Um dos mais recentes, “A Origem” (2010), de Christopher Nolan, deixa a plateia se perguntando o que está acontecendo durante boa parte da projeção. É comum, aliás, as pessoas assitirem ao filme mais de uma vez para entender os detalhes.

Em “Looper – Assassinos do Futuro” (“Looper”), a situação não é diferente. A trama se passa em um futuro próximo, no qual um grupo de assassinos (os tais Loopers) são enviados do futuro para o presente a fim de matarem criminosos antes que os crimes sejam cometidos.

O problema é que, um deles, Joe (Joseph Gordon-Levitt, de “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”), descobre que foi enviado para o passado para matar a si mesmo, em uma versão mais velha (Bruce Willis).



Até que o espectador entenda o que está se passando na tela, porém, já é quase o fim do filme. Aos cinéfilos mais ansiosos, existe uma dificuldade maior de acompanhar a trama, cheia de narrações em off para que cada personagem explique o que está fazendo. Logo no início, uma dessas narrações traduz o que são os loopers.

Na verdade, eles precisam encontrar quem são os loopers e dar o fim. Caso o seu looper fuja, a pessoa passa a ser o procurado. Por conta disso, o longa é violento, cheio de tiros e perseguições.
Depois de mostrar o seu talento em diferentes longas, Joseph Gordon-Levitt comprova que é mesmo um bom ator – ainda que seus traços tenham sido modificados com a maquiagem – e consegue transitar em diferentes gêneros.

Neste filme, seu personagem é viciado em drogas, entrega seu amigo em troca de prata, mas precisa solucionar um problema ainda maior no decorrer da trama. É neste ponto que entra em cena a personagem feminina do filme: Sara (Emily Blunt).


A trama de “Looper – Assassinos do Futuro” é tão confusa, que é provável que até mesmo o diretor e roteirista, Rian Johnson (de “Os Vigaristas”), não saiba ao certo o que está se passando. Quando entra em cena uma criança, filho de Sara, é que o espectador vai entender menos ainda a trama.

Acostumado a filmes de ação, Bruce Willis, aplica toda a sua malemolência e seu jeito de canastrão no seu personagem e dá ritmo ao filme. Os diálogos, embora tentem explicar o que se passa na tela, não têm bom humor, e talvez seja esse o elemento que falta na trama, para que dê mais leveza e conquiste o espectador de uma vez por todas no meio do filme. Sendo assim, é bem provável que muitos saiam da sala do cinema sem entender o que acabou de acompanhar na tela grande.