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quinta-feira, 21 de junho de 2018

O AMANTE DUPLO

Tatiana Babadobulos



O AMANTE DUPLO.  França, Alemanha e Bélgica, 2017.  Direção e roteiro: François Ozon. Com Marine Vacth, Jerémie Renier, Jacqueline Bisset. 119 min.


Somatizar dores, resposta inconsciente do organismo, é bastante comum e, muitas vezes, pode ser resolvido com sessões de psicoterapia. Assim, descobrindo a raiz do problema, fica mais fácil de fazer a dor passar.

Em "O Amante Duplo" ("L'Amant Double"), a jovem Chloé (Marina Vacht, de "Jovem e Bela") vai procurar um psicanalista porque sente dores no ventre. A recomendação foi feita depois de ela passar por exames ginecológicos. No consultório, quem a atende é Paul Meyer (Jérémie Renier, que viveu Pierre Bergé, em "Saint Laurent"), um jovem profissional que está disposto a descobrir, junto com ela, o que causa o tal desconforto.

Porém, o que também não é incomum, com o andar das sessões de terapia, eles acabam se apaixonando. Diante da situação, Paul deixa de atendê-la e pede que ela procure outro profissional para seguir com o tratamento

O longa-metragem, dirigido e escrito pelo francês François Ozon ("Potiche: Esposa Troféu"), começa com cenas bastante realistas, com situações comuns do dia a dia, além de imagens ousadas, com cenas de sexo e quando Chloé faz ultrassom e exame ginecológico.

A paixão dos dois, paciente e terapeuta, também é comum. No entanto, depois que ela começa a frequentar a nova terapia, feita, aliás, de maneira bastante controversa, o filme começa, digamos, a desandar.


Chloé conhece Louis Delord, que seria o irmão gêmeo de Paul, embora ele nunca tenha falado sobre isso com ela. As fantasias vão aumentando a cada sessão e as mentiras também. A duplicidade não está presente apenas na figura dos homens na tela (os irmãos gêmeos). A própria Chloé tem um quê de ambiguidade no seu comportamento, retratada pelo autor com um jogo de espelhos sem fim. Fica bastante claro quando ela chega a um dos consultórios e a imagem mostra ela multiplicada diversas vezes.

Esta é a terceira vez que o diretor trabalha com Renier. Os outros filmes são “Criminal Lovers” e “Potiche: Esposa Troféu”.

Ozon repete a fórmula usada em “Dentro de Casa”, filme no qual o espectador se confunde e não sabe exatamente o que faz parte da trama e o que é fantasia.

Como um perfeito realizador e autor francês, François Ozon segue pela linha do final sem fim certo, ou seja, um desfecho que não é taxativo e deixa o espectador pensar e viver o seu próprio fim. Daí, gostar ou não do método adotado por ele, depende de cada um.

Com estreia apontada para o dia 21 de junho, o longa foi um dos escolhidos para o Festival Varilux de Cinema Francês, além de ter participado da competição oficial do Festival de Cannes 2017.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

O Reencontro


TATIANA BABADOBULOS


O REENCONTRO (La Sage Femme). França, 2017. Direção: Martin Provost. Roteiro: Martin Provost e Céline Breuil-Japy. Com: Catherine Frot, Catherine Deneuve e Olivier Gourmet. 117 min.




É com uma sequência de um parto que inicia "O Reencontro" ("La Sage Femme"), longa-metragem francês que traz duas Catherine no elenco: a Frot e a Deneuve. Outros partos estarão na tela para ilustrar a profissão de Claire, a parteira vivida por Frot. Ela ama o que faz e ajuda, de forma maternal e ao mesmo tempo profissional, as mulheres grávidas darem à luz.

Porém, a satisfação na clínica em que atua chega ao fim quando recebe a notícia de que ela vai fechar e ceder o espaço aos "hospitais modernos", que pouco se importam com a natureza do parto e estão mais preocupados com o dinheiro que eles rendem.

O nome original do longa, “La Sage Femme”, significa “obstetriz”, mas também pode ser um trocadilho no idioma de Molière. “Sage femme” quer dizer mulher sábia, o que cai perfeitamente para a personagem criada pelo diretor e autor do roteiro Martin Provost.



Não é sempre que o distribuidor brasileiro acerta no nome da adaptação, principalmente quando resolve mudar completamente o nome e não apenas traduzi-lo literalmente –caso deste longa. No Brasil, não funcionaria um filme com o título "Obstetriz". Nada contra o ofício, ao contrário, mas não é um nome forte o bastante para despertar interesse do público –talvez o fosse caso se tratasse de um documentário sobre a jornada de uma parteira, sei lá.

Mas não é o caso e aqui a adaptação do nome é feliz. O longa trata justamente do reencontro das duas personagens centrais, vividas pelas duas Catherine. Claire (Frot), a parteira, ao chegar em casa após mais um dia exaustivo de trabalho, recebe a ligação de Béatrice (Deneuve), ex-mulher de seu pai, que desapareceu havia 30 anos, pedindo para se verem. A contragosto, Claire vai ao seu encontro e recebe uma péssima notícia.



Enquanto Claire é organizada e responsável, Béatrice, que tem um diagnóstico de saúde nada bom, fuma, bebe e joga (e perde) rios de dinheiro. Comportamentos contrários tão previsíveis como a fábula da "Formiga e da Cigarra".

E é enquanto tenta se entender e ajudar a ex-madrasta que Claire conhece Paul (Olivier Gourmet), um caminhoneiro internacional, capaz de despertar os desejos da mulher que estavam enterrados há muito. É quando ela deixa um pouco de lado sua vida de "caxias" para aproveitar e brindar "à la vie".

As interpretações são um verdadeiro deleite. Embora as personagens estejam se reencontrando, este foi o primeiro encontro das duas atrizes: elas nunca haviam trabalhado juntas. Provost explica, no material de divulgação para a imprensa, que escreveu os papéis pensando nas respectivas atrizes. E elas responderam muito bem a missão.


A trama, inspirada no nascimento do realizador (não por completo, mas apenas alguns detalhes), vai bem e é capaz de emocionar o espectador. O fim, porém, é um tanto moralista, segue a fábula e não surpreende. De qualquer maneira, “O Reencontro” é um filme que homenageia as parteiras e inspira o espectador a valorizar cada vez mais a vida, dia após dia.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Tal Mãe, Tal Filha

Tatiana Babadobulos


 TAL MÃE, TAL FILHA (Telle Mère, Telle Fille). França, 2017. Direção: Noémie Saglio. Roteiro: Agathe Pastorino e Noémie Saglio. Com Juliette Binoche, Camille Cottin e Lambert Wilson.  94 min.



Tem cara de pastelão o início do longa-metragem "Tal Mãe, Tal Filha" ("Telle Mère, Telle Fille"), de Noémie Saglio. E é. O pôster de divulgação do filme já dá uma ideia do que vem pela frente: duas personagens grávidas.

A mãe, Mado, vivida por Juliette Binoche, praticamente troca de papel com a filha, Avril (Camille Cottin). Enquanto a moça, aos 30 anos, é casada, tem emprego fixo e é responsável, por outro lado a mãe vive de favor na casa da filha, é bagunceira e tem comportamento de adolescente no modo de se vestir e de agir. A cena dela mascando chiclete no supermercado mostra bem isso.


Até que um dia Avril anuncia que está grávida e Mado alega que não está pronta para ser avó.

Em cena também está o pai de Avril e ex-marido de Mado, personagem vivido por Lambert Wilson, de "Sobre Amigos, Amor e Vinho" e "Homens e Deuses".


Também autora do roteiro ao lado de Agathe Pastorino, a diretora Noémie Saglio teve a ideia da trama lendo revistas femininas, nas quais haviam histórias sobre mães e filhas engravidando ao mesmo tempo. Ou seja, embora pareça surreal, o comportamento é mais comum (e real) do que parece. O que não me parece comum, porém, é a maneira de agir da mãe. Mas daí vai parecer moralismo...

Binoche, uma das atrizes francesas mais cobiçadas por renomados diretores --ela já filmou, por exemplo, com o iraniano Abbas Kiarostami-- parece um pouco desconfortável no papel da mãe bancando a adolescente. A plateia, assim, não compra a personagem de primeira. É preciso insistência pra ir se convencendo aos poucos.

É difícil, mas rir de comédias pastelões --principalmente quando já se é mãe, no caso desta trama-- não faz mal a ninguém.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Café Society

Tatiana Babadobulos


CAFÉ SOCIETY. EUA, 2016. Direção e roteiro: Woody Allen. Com: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carell, Jeannie Berlin, Ken Stott. 96 min.

É na crítica ao oba-oba de Hollywood que Woody Allen enfoca seu mais recente longa-metragem. “Café Society” se passa nos áureos anos 1930, na costa oeste dos Estados Unidos, quando o cinema sonoro estava começando.
É tempo dos musicais e de muito dinheiro na América, haja vista que a Europa ainda se recuperava da Primeira Guerra Mundial.
O personagem central é Bobby (Jesse Eisenberg) que, em busca de um novo trabalho, se muda de Nova York para Los Angeles. Ele vive com a família, no Bronx, em Nova York, um bairro típico da periferia, longe do glamour de Manhattan.
Seu pai, Marty (Ken Stott), é do tipo brutamontes, e sua mãe, Rose (Jeannie Berlin), está sempre pronta a fazer comentários maldosos do marido. Seu irmão mais velho, Ben (Corey Stoll), é um gângster –e daí saem histórias ótimas que lembram os filmes de máfia.
Em busca de uma oportunidade, Bobby larga a joalheria do pai na costa leste e vai atrás do tio Phil (Steve Carell).
Phil é daqueles descolados que trabalham na indústria do cinema, vive com a casa cheia de artistas e não tem tempo para a família. De qualquer maneira, se prontifica a ajudar o sobrinho e, para isso, pede auxílio de sua assistente, Vonnie (Kristen Stewart), para que ela lhe mostre a cidade e arrume coisas para ele fazer no escritório.

Woody Allen participa do longa não apenas como diretor e roteirista, mas também como narrador. É ele quem conta a história que vai se desenrolando na tela. Uma forma sutil de mostrar as idas e vindas dos personagens.
“Eu mesmo quis fazer isso, porque eu sabia exatamente como queria que as palavras fossem ditas”, diz o diretor no material de divulgação para a imprensa. “Pensei que como eu mesmo havia escrito o livro, seria como se eu estivesse lendo o meu próprio romance.”
Eisenberg e Carell têm uma veia cômica que é respeita por Allen. O primeiro, aliás, já tinha trabalhado com o realizador em “Para Roma Com Amor” e, de certo modo, é como um alter ego de Woody Allen, que muito já interpretou tipos assim em filmes seus.
A atriz Kristen Stewart, que ficou conhecida no cinema por sua atuação na saga “Crepúsculo” (todo mundo tem um passado que lhe condena), atua de forma austera, tal como o fez em “Acima das Nuvens”, ao lado de Juliette Binoche.
E é nesse clima de socialites, aristocratas, artistas e celebridades que se desenrola o longa. Quando o personagem volta para Nova York em busca de suas raízes, é como uma metáfora comparando a vida do diretor, que prefere filmar na cidade onde mora, mas que ultimamente tem realizado filmes em outros lugares do mundo como uma maneira de viabilizar seus projetos, dizendo de maneira prática.
Ele mesmo já afirmou isso, quando fora convidado para filmes no Reino Unido. Fora três filmes seguidos: “Match Point”, “Scoop” e “O Sonho de Cassandra”. Sem contar nas homenagens feitas a outras cidades, como “Vicky Cristina Barcelona”, “Meia-Noite em Paris” e “Para Roma com Amor”.

Assim como em Match Point, que aparecem os pontos turísticos de Londres como coadjuvantes, aqui Hollywood se destaca como cenário, pano de fundo para o desenrolar da história, mesmo que haja momentos de contemplação e turístico com os passeios ao redor das casas dos artistas, um passeio muito comum a todos que visitam Los Angeles pela primeira vez.
“Café Society” tem bons personagens e roteiro encantador, além de fazer homenagem ao cinema. A trilha sonora é o ponto alto que não vai deixar você sair do cinema antes de terminarem os créditos.
Cumprindo à risca de ter um lançamento no cinema por ano, Woody Allen apresentou sua obra durante o Festival de Cannes, em maio. No Brasil, poderá ser visto a partir de 25 de agosto.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Uma Juíza Sem Juízo

Tatiana Babadobulos



Uma Juíza Sem Juízo (9 Mois Ferme). França, 2013. Direção e roteiro: Albert Dupontel. Com: Albert Dupontel, Sandrine Kiberlain, Jean Dujardin e Nicolas Marié. 82 minutos

Um dos grandes sucessos na França no ano passado, chega aos cinemas brasileiros a comédia “Uma Juíza Sem Juízo” (“9 Mois Ferme”). O filme, cuja estreia está prevista para quinta, 26, recebeu seis indicações ao César 2014 e venceu em duas: melhor roteiro original e melhor atriz.

Na trama, Ariane Felder (a ganhadora do César Sandrine Kiberlain, de “Mademoiselle Chambon“), 40, é juíza da vara familiar da Corte francesa e, principalmente por conta dos casos que recebe, é convictamente solteira.

Na festa de Ano-Novo, porém, ela bebe demais e as consequências de seus atos daquela noite vão aparecer da pior maneira possível. É na ocasião que a juíza conhece Bob (Albert Dupontel), um fugitivo da polícia que está sendo acusado de comer (literalmente) os olhos do dono da casa que ele efetuou um grande roubo.

As cenas que mostram como supostamente isso pode ter acontecido são hilárias!


Além de atuar, Dupontel também é diretor e roteirista do filme. Ao lado de Sandrine, ele conta ainda com Jean Dujardin (“O Artista“), que faz uma participação especial. Ele faz o papel de intérprete, responsável por traduzir para a língua dos surdos o que diz o telejornal de maneira muito engraçada!

Entre os pontos baixos, o longa é inverossímil, trata-se de uma história boba e não conclui o suspense que ele mesmo criou, como o autor do crime julgado. Os óculos na ponta do nariz da personagem de 40 não combinam.

Mas “Uma Juíza Sem Juízo” tem seus momentos: é despretensioso, ri de si mesmo e, até certo ponto, diverte a plateia que está ali para dar risada.



Parte das cenas se passa na Corte francesa e a produção obteve permissão de filmar no seu interior. No material de divulgação para a imprensa, o diretor conta que “o interior não se parece com nenhum outro lugar no planeta. O paradoxo está no contraste entre a beleza do prédio e os acontecimentos dramáticos que ocorrem lá diariamente… É um lugar muito imponente”.

E os pontos altos continuam: na trilha sonora, a cantora francesa Camille; e são apenas 82 minutos de projeção.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Eu, Mamãe e os Meninos

Tatiana Babadobulos


Eu, Mamãe e os Meninos (Les Garçons et Guillaume, à Table!). França e Bélgica, 2013. Direção e roteiro: Guillaume Gallienne. Com: Guillaume Gallienne, André Marcon, Françoise Fabian. 85 minutos


Vencedor de cinco prêmios César 2014, incluindo melhor filme e melhor ator, para Guillaume Gallienne ("Maria Antonieta", o recente "Yves Saint Laurent"), também diretor e autor do roteiro, "Eu, Mamãe e os Meninos" ("Les Garçons et Guillaume, à Table!") lembra a comédia brasileira de grande sucesso "Minha Mãe É Uma Peça", na qual Paulo Gustavo interpreta a sua própria mãe. Os dois, aliás, viraram filmes depois de terem feito sucesso no teatro. Na França, o filme vendeu três milhões de ingressos.
No filme francês, Gallienne interpreta dois papéis: o da mãe e o do filho, ou seja, ele mesmo. E, lá pelas tantas, ambas produções homenageiam as respectivas mães.

As semelhanças entre os dois filmes terminam aqui, já que Gustavo faz comédia com as imitações da mãe e o francês faz um dramalhão intercalando cenas de teatro e do cinema. Vale lembrar que Gallienne é ator da Comédie Française, a mais importante instituição de artes cênicas naquele país.


Na trama, o rapaz, desde pequeno, acredita que não é um menino tal como os seus irmãos. Isso porque a mãe faz questão de tratá-lo diferente. Mais próxima de Guillaume, a mãe confidencia a ele suas preocupações, ele copia seus trejeitos, mas a mãe faz, conscientemente, diferença no tratamento. Talvez tenha a ver com a vontade de ela ter tido uma filha e só gerou meninos, mas isso é problema para ser discutido no divã, com psicólogos, e não vou entrar na seara alheia.

A mãe tem o hábito de separar o garoto dos demais filhos. Quando chama todo mundo para a refeição, chama à mesa os meninos e Guillaume, como se esse também não pudesse entrar no plural de "meninos". É daí, aliás, que sai o nome original do filme: Les garçons et Guillaume, à table! (Em tradução e adaptação livre: "meninos e Guillaume, a comida está na mesa").

Fazendo assim, a mãe faz o rapaz acreditar que ele, na verdade, tem porte de moça, se comporta como tal e, portanto, deveria amar homens. Mas, durante a vida escolar, ele vai para internatos em outros países, obrigado pelo pai.

O ator Guillaume Gallienne mostra versatilidade ao atuar e interpretar o homem e a mulher, se sente à vontade no papel, e o espectador, como consequência, se convence tanto do papel da mãe como do próprio garoto.


"Eu, Mamãe e os Meninos" fala não apenas de preconceito, mas também trata da responsabilidade que os pais têm na criação dos filhos. É preciso respeitar a natureza de cada um e não impor qualquer opção, seja ela homo ou heterossexual.

O longa-metragem, que passou pelo Festival Varilux de Cinema Francês que aconteceu este mês em 45 cidades brasileiras e está em pré-estreia nos cinemas de São Paulo. A estreia nas demais cidades do país e também na capital está apontada para quinta-feira, 1º de maio.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Noé

Tatiana Babadobulos



Noé (Noah). Estados Unidos, 2014. Direção: Darren Aronfsky. Roteiro: Darren Aronofsky e Ari Handel. Com: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Anthony Hopkins. 138 minutos 



Existe uma teoria (dita por um professor durante o curso de crítica de cinema na pós-graduação) de que todos os roteiros de filmes podem ser lidos na Bíblia, independentemente de a história ser acerca de temas bíblicos ou não. Não sei se TO-DOS estão lá, mas tenho certeza de que “Noé” (“Noah”) está.
O longa-metragem, que estreia nesta quinta-feira, 3, conta a história do homem (Russell Crowe) escolhido pelo Criador para salvar a vida dos inocentes, visto que um dilúvio – quando a água do céu encontrará a água da terra – está prestes a acontecer e acabar com o mundo.
Diferentemente de outras versões do filme, cuja primeira foi “A Arca de Noé”, de Michael Curtiz, mostrada em 1928, ou até mesmo da paródia estrelada por Steve Carrell, em “Todo Poderoso”, aqui a trama é levada a sério pelo diretor Darren Aronofsky (“Cisne Negro”), com roteiro escrito por ele e por Ari Handel (“A Fonte da Vida”), inspirados nas páginas do livro de Gênesis.
Quando se fala em Noé, as pessoas, obviamente, o associam à arca que ele constrói. O filme, porém, conta a história desde o início, desde quando não existia nada, e o Criador fez Adão, Eva, a maçã que eles comeram e foram expulsos do paraíso. Adão e Eva comeram o fruto do pecado e tiveram três filhos: Caim, Abel e Set. Caim matou Abel e se separou de Set, dando origem a outra linhagem e à eterna briga entre o bem e o mal.
Noé, neto de Matusalém (Anthony Hopkins, de “O Silêncio dos Inocentes”), pertence à linhagem de Set e é o escolhido para construir uma arca e salvar os animais, sempre aos pares,a fim de perpetuar a espécie após o dilúvio. Os homens (e as mulheres) estão descartados dessa salvação. Matusalém, neste filme, é retratado como mentor de Noé. É dele as ações que vão encontrar muitos desdobramentos ao longo da trama.
Religioso, Noé acredita que o Criador não quer que a humanidade seja salva. Para construir a arca, recebe ajuda dos Guardiões, anjos de luz que ganharam a forma de pedra (e lembra os personagens de “Transformers”…) como castigo para fincarem no pé na Terra por ter desobedecido a uma ordem.
Mas como existe a luta do bem contra o mal, Noé será confrontado por uma legião de humanos que também querem subir na arca. Os humanos são liderados por Tubal Caim (Ray Winstone, “Os Infiltrados”), descendente de Caim. Daí nasce o confronto e a maldade.

A construção da família perfeita de Noé é composta por sua mulher, Naameh (Jennifer Connelly, com quem Russell formou par romântico em “Uma Mente Brilhante”), e três filhos: Sem (Douglas Booth), Ham (Logan Lerman) e Jafé (Leo Carroll ). Emma Watson (a Hermione da série “Harry Potter”) é Ila, mulher de Sem. Lá pelas tantas, é ela quem protagoniza sequências dramáticas do filme, que tinha ares de, vá lá, ficção científica com um tema bíblico – com, por exemplo, a presença dos Guardiões.

Na visão de Aronofsky, Noé é religioso, segue à risca a missão que lhe foi passada e não tem compaixão, além de ser extremamente prático e confiante. “Noé” preza pelo cinema de espetáculo, com efeitos especiais, barulho e três dimensões. Erra, por exemplo, ao se levar a sério e ao fazer dramalhão quando questiona sobre “fazer justiça com as próprias mãos”.


A maior bilheteria do fim de semana passado nos Estados Unidos, “Noé” poderá ser visto no Brasil em 2D e 3D e na versão Imax. Embora a tridimensional coloque o espectador dentro da tela, não é indispensável para o espetáculo conseguido, em sua maior parte, com a ajuda da computação gráfica.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Belém, Zona de Conflito

Tatiana Babadobulos


Belém, Zona de Conflito (Bethlehem). Israel, Alemanha e Bélgica, 2013. Direção e roteiro: yuval Adler. Roteiro: Ali Waked. Com: Shadi Mar'i, Tsahi Halevy, Tarek Copti. 99 minutos

A briga que não tem fim no mundo, entre judeus e palestinos, pode ser entendida de maneira bastante estreita e pessoal no longa-metragem israelense “Belém, Zona de Conflito” (“Bethlehem”). A fita tem estreia apontada para o dia 3 de abril, mas já está em pré-estreia paga em algumas salas paulistanas.

A história é contada a partir de Sanfur (Shadi Mar’i), um adolescente palestino que tem uma relação quase paternal com Razi (Tsahi Halevy). Sua família é próxima, embora o pai esteja sempre cobrando que ele faça mais. O problema do envolvimento é que Razi é agente do serviço secreto israelense. Como tem experiência, ele usa sua influência sobre o garoto para obter informações que precisa, uma vez que Sanfur é o irmão mais novo de Ibrahim (Tarek Copti), militante palestino muito procurado pelos israelenses.


Quando completa 17 anos, Sanfur se divide entre as exigências de Razi e a lealdade a seu irmão. Neste meio tempo, o rapaz faz uma aposta com os amigos da sua idade de que pode ser baleado usando um colete, pois não será atingido.


Este é o primeiro longa que Yuval Adler, um judeu israelense, dirige e escreve. Para o roteiro, aliás, teve a colaboração de Ali Waked, jornalista árabe que passou anos na Faixa de Gaza e em Ramallah. Os dois levaram muito tempo para escrever a história uma vez que, segundo o material de informação para a imprensa, não foi fácil fazer militantes palestinos das Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa e do Hamas se abrirem, nem entender sobre o Shabak, o serviço secreto. 


Com este ponto de vista, “Belém, Zona de Conflito” consegue mostrar características de ambos os povos que não estamos acostumados a conhecer, a não ser em notícias trágicas de jornais, quando se tem a guerra instalada. O cenário é basicamente Belém, cidade localizada na Palestina, mas que vive cercada por um muro de segurança israelense, país que controla as entradas e as saídas na cidade.


O thriller nasceu justamente da conversa do diretor com um agente do serviço secreto israelense que disse que “a chave para recrutar e cultivar informantes não é a violência ou a intimidação ou o dinheiro; a chave é desenvolver uma relação íntima com o informante, num nível bem humano”. E é esta a proposta de “Belém, Zona de Conflito”. Quando os dois “amigos” desenvolvem a cumplicidade durante anos, não se sabe quem está enganando quem. À medida dos acontecimentos, o espectador vai acompanhando o drama e torcendo para que algum dos dois não traia o outro.


O cenário escolhido contribui para o desenvolvimento da trama, assim como os atores conseguem transmitir a paixão pela qual cada um luta e defende, como quando um dos personagens morre e os líderes de cada grupo escolhem, em detrimento da família, como vai ser o velório.

Com a câmera, Adler se aventura no meio da discussão, dos conflitos e insere o espectador neste ambiente, que pode vivenciar cada passo dado por cada um dos lados.

“Belém, Zona de Conflito” não é tendencioso, quando se trata do conflito árabe-israelense; a ideia aqui é mostrar os dois lados e o que cada um acredita e defende. Cada um defende a sua verdade. E quem vai mudar isso?

O longa-metragem chega aos cinemas brasileiros após receber 12 indicações para o Israel Film Academy, ser selecionado para os festivais de Toronto, Veneza e do Rio de Janeiro.

terça-feira, 25 de março de 2014

Rio 2

Tatiana Babadobulos


Rio 2. Estados Unidos, 2014. Direção: Carlos Saldanha. Roteiro: Carlos Saldanha e Don Rhymer. Com vozes (na versão original) de: Jesse eisenberg, Anne Hathaway, Rodrigo Santoro, Leslie Mann, Jamie Foxx. 101 minutos.

Com a nítida proposta de fazer propaganda para o mundo do Brasil e, principalmente, do Rio de Janeiro, em 2011 o diretor Carlos Saldanha lançou “Rio”, longa-metragem de animação sobre duas ararinhas azuis que se encontraram depois de o macho ter sido levado para os Estados Unidos.
Um dos diretores de “A Era do Gelo” e “A Era do Gelo 3”, Saldanha fez um belíssimo filme, colorido, com a cara de sua terra natal, cheio de samba e bossa nova. Na ocasião do lançamento, o longa ficou em primeiro lugar na bilheteria em pelo menos três semanas seguidas.
A fita tratava das belezas brasileiras, mas com ênfase no tráfico de animais e sem se esquecer da alegria do povo e das belezas naturais. Em ano de Copa do Mundo no Brasil, o realizador aproveita para surfar nesta onda e traz “Rio 2”, longa-metragem que entra em cartaz nesta, quinta, 27.
Embora o filme se chame “Rio 2”, o enredo se passa bem longe dali. O novo cenário explorado por Saldanha é a Amazônia.
A fita começa na noite de Ano-Novo, com as pessoas vestidas de branco e comemorando na praia de Copacabana, assistindo aos fogos de artifício.
As ararinhas azuis ameaçadas de extinção, Blu e Jade, têm três filhos: Tiago, Carla e Bia. Enquanto Jade, criada na natureza, tem hábitos da sua espécie, Blu, que era uma ararinha de estimação criada nos Estados Unidos, tem hábitos humanos. Jade sai para caçar o alimento, enquanto Blu abre a lata de castanha com o bico.
Durante um café da manhã, eles ouvem uma notícia na televisão: seus antigos donos, Linda e Tulio Monteiro (com voz de Rodrigo Santoro nas versões original e em português), descobriram outras ararinhas azuis na floresta amazônica, provando que a espécie está salva da extinção. Jade, a aventureira, diz que quer atravessar o país e conhecer o seu bando.
Mais urbano, Blu luta contra, mas cede às vontades da amada. Então, a família toda segue em direção à Amazônia. Blu se agarra ao GPS e à pochete que carrega na cintura com canivete, escova de dentes e papel higiênico e vai.
“Rio 2” continua lindo, tal como o primeiro, cheio de cores, movimento perfeito dos animais, que até parecem reais, além da reprodução dos locais por onde passam ser fiel à realidade. Mas “Rio 2” se vale de muitos clichês para contar uma história que nem se passa na Cidade Maravilhosa.
Antes de chegarem ao destino final, o mapa mostra onde estão e passam por Ouro Preto (MG), Salvador (BA) e Brasília (DF).
As canções, a cargo de Carlinhos Brown e Sérgio Mendes, não param, cansam o espectador do início ao fim. Todos os filmes da Disney, por exemplo, têm cantoria, mas este repete a fórmula à exaustão.
Desta vez, nem só de samba e bossa nova vive a trilha sonora. Há influências do Norte e do Nordeste do país, além de ópera. Há ainda referências à obra “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, protagonizadas pela cacatua do mal, Nigel, e pela rã rosa (e venenosa) Gabi, personagem que chegou neste filme. Eles, aliás, só pensam em vingança e perseguem as ararinhas durante a viagem.
Continuações de filmes geralmente são difíceis de seguirem o sucesso do antecessor. Há exceções, como o caso da franquia “Toy Story” e do próprio “A Era do Gelo”, do mesmo estúdio, dois exemplos para ficar na animação. Não é o caso, infelizmente, de “Rio”, cuja primeira parte é muito mais empolgante do que este que chega aos cinemas, inclusive em 3-D.
De acordo com o material de divulgação para a imprensa, o primeiro filme foi exibido em 120 países, para mais de 70 milhões de pessoas. A bilheteria rendeu 486 milhões de dólares.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Need for Speed

Tatiana Babadobulos



Need for Speed. Estados Unidos, 2014. Direção: Scott Waugh. Roteiro: George Gatins. Com: Aaron Paul, Dominic Cooper, Scott Mescudi. 130 minutos.

Nem só de livros vivem os roteiros dos filmes. Videogame também é fonte de inspiração para a criação de longas-metragens homônimos. É o caso, por exemplo, de “Need for Speed”, que estreia nesta quinta, 13, e foi inspirado em jogo que, embora não tenha história alguma, foi feito aos fãs de velocidade. Ao todo, foram vendidas 140 milhões de cópias.

A trama gira em torno de Tobey Marshall (Aaron Paul), dono de uma oficina de carros que herdou do pai, morto há pouco tempo. Mas Tobey, apaixonado pelas supermáquinas, não pode viver apenas de sua paixão – as corridas de rua não oficiais –, pois tem contas a pagar no final do mês. Eis, então, que surge uma solução para este problema.

Seu arquirrival, ex-piloto da Nascar, Dino Brewster (Dominic Cooper), saiu da pequena cidade onde vivem para ganhar as pitas de corrida do mundo todo. Agora, ele oferece um bom dinheiro para que a equipe de Marshall lhe arrume um carro.

Trata-se de um modelo que precisa ganhar um motor mais potente. Os funcionários de Marshall são contra ajudar o rival, mas ele não tem escolha, precisa do dinheiro. No meio do caminho, um problema acontece e o mecânico vai parar na cadeia.


Segundo o material de divulgação para a imprensa, sete Mustangs foram construídos para o filme. Aparecem em cena no desfile dos carrões também os modelos Koenigsegg Agera R, Lamborghini Elemento, Spano GTA, Saleen S-7, Bugatti Veyron e McLaren P-1.

“Need for Speed” tem começo, meio e fim e conta uma história instigante sobre o mundo da velocidade. Tem a participação da inglesa Julia Bonet (Imogen Poots, de “V de Vingança”), que vai acompanhar a turma em uma viagem, de modo que o longa dirigido por Scott Waugh (em sua estreia solo em longa de ficção) se transforma em um verdadeiro road movie cheio de aventura, embora algumas cenas sejam bastante previsíveis.

Embora o diretor coloque o espectador dentro da pista para acompanhar cada detalhe da corrida, há momentos em que não se sabe quem está batendo e quem está vencendo a corrida.

Diferentemente da franquia “Velozes e Furiosos”, que já possui seis sequências, este longa não tem humor, é muito mais baseado no drama e na aventura do que na parte cômica.


Aos amantes da velocidade e de modelos de carros modernos e potentes, “Need for Speed” é um prato cheio de diversão. E detalhe: não é preciso conhecer o jogo que inspirou a trama para se entreter.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Os Belos Dias

Tatiana Babadobulos

 
Os Belos Dias (Les Beaux Jours). França, 2013. Direção: Marion Vernoux. Com: Fanny Ardant, Laurent Lafitte, Patrick Chesnais, Jean-François Stévenin, Fanny Cottençon. 94 minutos

Talvez porque a expectativa de vida da população tenha aumentado, talvez porque a população esteja envelhecendo, já que as pessoas estão tendo menos filhos. Há vários motivos para se falar, cada vez mais, na Terceira Idade. Aliás, há cada vez mais motivos para se falar com a Terceira Idade.

O cinema encontrou o foco e aborda o modo como essas pessoas vivem. Os realizadores retratam os idosos na tela grande de diversas maneiras, seja provando o romance, tal como fez Michael Haneke, em “Amor”, seja mostrando como eles vivem, como se relacionam com a família.

Baseado no romance “Une jeune fille aux cheveux blancs’’ (“Uma jovem mulher de cabelos brancos”), de Fanny Chesnel, “Os Belos Dias” (“Les Beaux Jours”) traz a musa do cinema francês, Fanny Ardant, no papel de Caroline, uma mulher de 60 anos, casada, com duas filhas, e recém-aposentada.

Enquanto sofre com a morte de sua melhor amiga, e também por ter deixado de trabalhar como dentista ao lado do marido, ganha das filhas a matrícula em um clube de aposentados e idosos chamado Les Beaux Jours, título original do longa-metragem.





O problema é que Caroline não está interessada em frequentar cursos de ioga, de computação ou até mesmo de degustação de vinho e cerâmica. Mas é dentro do tal clube que ela redescobre o romance. Ela se envolve com um dos professores, que tem a idade de suas filhas.

O longa dirigido por Marion Vernoux traz imagens belíssimas, como a sequência que se passa dentro do carro. “Os Belos Dias” retrata uma típica família francesa, mas que poderia ser uma brasileira.

Tem também sensibilidade de comunicar como os idosos vivem de maneira original. E traz ainda a reflexão sobre a tal Terceira Idade, sem ser tabu. Afinal de contas, nem sempre as pessoas se preparam psicologicamente para viver com tanto tempo livre.

As filhas da protagonista nem perguntaram se a mãe gostaria de frequentar o tal clube, ou se ele preferiria ficar em casa sem fazer nada, ou simplesmente assistindo a filmes na televisão. Acham que é preciso se ocupar.


“Os Belos Dias” dialoga não apenas com os idosos, mas também com aqueles que, quem sabe, um dia chegarão lá. É uma ótima reflexão para se ter sobre o que fazer no dia depois de amanhã. Discute também sobre o fato de o jovem, ao contrário, não fazer absolutamente nada de útil, só pensar no aqui e agora.

No final de semana de estreia na França, o filme levou mais de 200 mil pessoas aos cinemas, arrancando elogios de público e crítica.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A Filha do Meu Melhor Amigo

Tatiana Babadobulos


A Filha do Meu Melhor Amigo (The Oranges). Estados Unidos, 2011. Direção: Julian Farino. Roteiro: Ian Helfer e Jay Reiss. Com: Leighton Meester, Hugh Laurie, Catherine Keener. 90 minutos


Não seria novidade nenhuma uma garota de 24 anos se apaixonar por um homem que tem o dobro de sua idade. A questão é que, no caso de Nina (Leighton Meester), no filme “A Filha do Meu Melhor Amigo” (“The Oranges”), o tal homem de 50 anos é o melhor amigo do seu pai e de sua família.

Na trama, dirigida por Julian Farino em sua estreia com longas-metragens, as famílias Walling e Ostroff são vizinhas de frente na rua Oranges (daí o nome original) e compartilham da amizade há vários anos. Os homens, David (Hugh Laurie) e Terry (Oliver Platt), gostam de correr pelas ruas do bairro calmo, cujas casas não possuem muros ou portões, onde vivem em Nova Jérsei. Suas filhas, Nina e Vanessa (Alia Shawkat), já foram amigas no colégio – mas seus caminhos se tornaram diferentes com o passar dos anos.

O longa-metragem é contado sob o ponto de vista de Vanessa, filha de David. A moça é designer de móveis e, enquanto junta dinheiro para alugar um apartamento em Manhattan, trabalha em uma loja de móveis na cidade. Ela conta a história de seu pai com sua ex-amiga ao mesmo tempo que desenha incansavelmente em suas folhas os sofás e luminárias que poderiam enfeitar as vitrines das lojas mais descoladas da ilha.



Depois de cinco anos longe, Nina viaja de São Francisco para a casa dos pais a fim de comemorar o Dia de Ação de Graças – data que antecede o Natal – depois de tomar um pé na bunda do namorado. Em meio à confraternização, uma paixão desperta entre o experiente David e a sedutora Nina, já que seu casamento com a organizadora do coral da cidade já não está lá grande coisa.

O desenrolar da história é previsível e não poderia ser diferente, quando se sabe do que se trata a trama. De qualquer maneira, o jeitão sarcástico e irônico de Hugh Laurie, características que o tornaram famoso como Dr. House, na série de televisão, reforça o possível interesse para o desenrolar do filme.

Lançado em 2011, a fita estreia nesta sexta-feira, 6, no Brasil. Com tema natalino, a distribuidora perdeu o timing. Era para ter estreado em junho, junto dos blockbusters do verão norte-americano, como “Além da Escuridão – Star Trek”, “Universidade Monstros”, “Se Beber, Não Case! Parte III”, “Velozes e Furiosos 6”. Esse é o tipo de filme que dá pra esperar passar na “Sessão da Tarde” e ver se não tiver nada melhor que fazer.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Os Sabores do Palácio


Tatiana Babadobulos




Os Sabores do Palácio (Les Saveurs du Palais). França, 2012. Direção e roteiro: Christian Vincent. Com: Catherine Frot, Jean d'Ormesson, Hippolyte Girardot, Arthur Dupont. 95 minutos


Filme integrante do Festival Varilux de Cinema Francês, evento que aconteceu em maio em São Paulo e em outras cidades brasileiras, “Os Sabores do Palácio” (“Les Saveurs du Palais”) estreia esta semana nos cinemas.

O longa-metragem conta a história real (mas com boa dose de ficção) de Hortense Laborie (Catherine Frot), renomada chef de cozinha que mora no interior da França, na cidade de Périgord, e é nomeada pelo presidente da República a ser a sua cozinheira no Palácio do Élysée, em Paris.

A história é contada em flashback quando Hortense está executando um trabalho na Antártica e uma equipe da televisão australiana descobre que a chef passou dois anos trabalhando no palácio, enquanto François Mitterrand era presidente. Por trabalhar diretamente com o presidente, e ter algumas audiências com ele para conhecer o seu gosto, ela precisa enfrentar a inveja e o machismo dos chefs da cozinha central. Mas ela se impõe e seus pratos coloridos e saborosos logo o seduzem.

Entre pratos salgados e doces de encher os olhos, “Os Sabores do Palácio” conta uma história de bastidores da presidência, com interpretações bem humoradas, além do lado jovial, que conta com a atuação de Arthur Dupont, no papel do confeiteiro.


Hortense não era uma pessoa fácil de lidar e a atriz Catherine Frot sabe exatamente como dosar mau humor e rispidez necessários para se manter no comando. A intimidade com Mitterrand é retratada com cuidado e, entre uma taça de vinho e outra, chef e presidente conversam sobre os sabores da infância.

A direção de Christian Vincent foca na cozinha, mas o realizador não se esquece da elegância que o palácio possui. Para as filmagens, ele conseguiu autorização especial enquanto o presidente Nicolas Sarkozy (então presidente durante as  filmagens) estava fora, mas a maioria das cenas foi feita longe do Élysée. Já as cenas geladas da Antártica foram filmadas na Islândia.

“Os Sabores do Palácio” é daqueles filmes para assistir e encher os olhos. O caminho após a sessão de cinema pode ser o restaurante francês mais próximo!

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Por Que Você Partiu?



Tatiana Babadobulos


Brasil, 2013. Documentário. Direção: Eric Belhassen. Com: Emmanuel Bassoleil, Erick Jacquin, Laurent Suaudeau, Frédéric Monnier, Alain Uzan, Roland Villard. 94 minutos

O que seis chefs de cozinha selecionados e o documentarista Eric Belhassen têm em comum? Todos saíram da França e vieram para São Paulo e Rio de Janeiro. O diretor questiona a si mesmo o motivo de sua viagem, mas faz a mesma pergunta aos renomados chefs: “Por Que Você Partiu?” 

Este é o nome do documentário de longa-metragem falado em português e francês que está em cartaz em pequeno circuito em São Paulo e Rio de Janeiro. A obra desvenda os diferentes motivos pelos quais as pessoas deixam as suas casas e suas famílias em busca de um objetivo às vezes nem sempre traçado.

Emmanuel Bassoleil, do restaurante Skye (localizado no alto do Hotel Unique, em São Paulo), adorava viajar e é ele quem começa com a sua história, abre a porta de sua casa e conta, de frente para a câmera de Belhassen, por que saiu de casa e decidiu ser cozinheiro do outro lado do oceano Atlântico.

Já Frédéric Monnier, da Brasserie Rosário no Rio de Janeiro, teve uma desilusão amorosa e decidiu sair de onde estava. Erick Jacquin, de La Brasserie Erick Jacquin também em São Paulo, recebeu uma proposta e veio ao Brasil. Aqui, descobriu muitas coisas agradáveis e a plateia confere traços de sua personalidade forte. “Me mostrei [no filme] do jeito que eu sou. Eu bebo, eu fumo, eu xingo. Se bem que o filme foi feito em 2009 e eu já parei de fumar”, disse Jacquin em entrevista concedida à imprensa.

Há ainda as histórias de cortar o coração de Alain Uzan, do restaurante Avek, Laurent Suaudeau, da Escola de Arte Culinária Laurent, e Roland Villard, do Sofitel.

 
Entre talheres e panelas, o espectador desvenda o que há por trás dos sabores que eles preparam em suas cozinhas, muitas vezes local solitário para um chef. Além dos depoimentos deles, o realizador percorre dois mil quilômetros por estradas francesas atrás de repostas de suas famílias. Belhassen quer saber não apenas da mãe de Jacquin o motivo pelo qual ela acredita que ele tenha partido, mas também de seus próprios pais, que lamentam a sua fuga e sentem saudades. “Por Que Você Partiu?” é um filme que desvenda os mistérios de seis personagens, mas é também um documentário de autoconhecimento. Ao mesmo tempo, o diretor ainda faz o espectador refletir e se fazer a mesma pergunta – caso seja pertinente, claro.

“Por Que Você Partiu” fala de gastronomia, de sabores, apresenta pratos de dar água na boca, mas fala principalmente de família, de separação, de despedida, de reencontro. Há momentos em que é fácil perder as estribeiras e sentir aquele nó na garganta. Há também momentos em que não é possível se policiar... quando se dá conta, há lágrimas escorrendo dos olhos.

Em seu filme de estreia que não teve qualquer patrocínio, Eric Belhassen participou do Festival do Rio e foi convidado para a abertura do 30th Miami International Film Festival, na categoria culinária. O diretor afirmou que pretende ainda fazer mais dois documentários para formar uma trilogia. Um será sobre a separação amorosa e o outro, sobre a última separação – a morte.