segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O ÍDOLO


Antonio Carlos Egypto





O ÍDOLO (Ya Tayr El Tayer).  Palestina, 2015.  Direção: Hany Abu-Assad.  Com Tawfeek Barhorn, Kais Attalah, Hiba Attalah.  100 min.



“O Ídolo” é uma produção palestina que conta com o apoio de vários outros países, como Reino Unido, Holanda, Catar e Emirados Árabes.  O diretor Hany Abu-Assad, palestino da cidade de Nazaré, já realizou um belíssimo trabalho que foi exibido por aqui: o filme “Paradise Now”, de 2005, vencedor do Globo de Ouro de filme estrangeiro e premiado em Berlim.  Mostra os preparativos que realizam dois “homens-bomba” suicidas palestinos, com suas convicções e suas dúvidas.  Um libelo pela paz, um trabalho que provoca, incomoda e tenta entender e explicar o que parece incompreensível.

“O Ídolo” é um filme mais simples, mais singelo.  Mas muito capaz de nos envolver na improvável, mas verídica, história do cantor Mohammed Assaf, morador da Faixa de Gaza, que venceu o concurso Arab Idol, em 2013, o equivalente árabe do American Idol, copiado também por aqui.




Parece pouco para provocar em nós emoções intensas.  No entanto, o que o cineasta nos mostra é a opressão que atinge os palestinos em Gaza, dependendo das permissões israelenses para se locomover e convivendo com os verdadeiros escombros em que se transforma o seu ambiente bombardeado, semidestruído.

Crianças e jovens, mesmo vivendo em condições adversas e de restrição de liberdade, se encantam com a música, formam bandas, cantam e têm sonhos que ultrapassam em muito a restritiva vida que levam. Quando alguém se distingue por um talento especial, como uma rara habilidade vocal para o canto, um concurso como o Arab Idol pode funcionar como saída para voos antes inimagináveis. 




De fato, Mohammed Assaf passará a brilhar com a música no mundo árabe e se tornará um ídolo real, não apenas de um programa televisivo.  Grande parte do seu sucesso virá da necessidade de um povo oprimido ser ouvido, mostrar que existe, que pode vencer, triunfar.  É isso que faz dessa uma história cativante, não tanto a batalha pela superação das dificuldades, o que vem sendo muito explorado pelo cinema.

A arte como meio de expressão, no caso, a música, que transcende o cotidiano e alcança repercussão inesperada e significados surpreendentes, é o que “O Ídolo” mostra melhor.  Ir ao Egito, chegar às finais do tal programa no Líbano, receber uma torcida entusiasmada, tomando as ruas na Palestina e em outras partes do mundo árabe, gerou uma expectativa inusitada de que a bela voz de um jovem que canta possa transformar o mundo.  Ainda que seja uma grande ilusão, é bonito poder acreditar nisso.

O filme tem um bom elenco, além de boa música, um pouco diferente do que estamos acostumados a ouvir, mas bem bonita. 



            

sábado, 28 de janeiro de 2017

MISTÉRIO NA COSTA CHANEL


Antonio Carlos Egypto





MISTÉRIO NA COSTA CHANEL (Ma Loute).  França, 2016.  Direção e roteiro: Bruno Dumont.  Com Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi, Jean-Luc Vincent, Brandon Lavieville, Ralph, Didier Despres.  123 min.



Uma comédia surrealista é o que o diretor Bruno Dumont, também roteirista e montador do seu filme “Mistério na Costa Chanel”, nos oferece.  Um elenco estelar, de grandes atores e atrizes, constrói personagens insanos, estranhos, exagerados, ambíguos ou que se inspiram em clichês, e tipos familiares à história do cinema.




Ma Loute (Brandon Lavieville), que dá o nome original ao filme, é uma figura bizarra.  Ele transporta pessoas de um lado ao outro da água, carregando-as nos braços, mas também levando-as, junto com o pai, por meio de um barco, para mais longe.  As pessoas que vão podem não voltar mais e esse é o mistério que se passa, no começo do século XX, numa pequena cidade costeira, no litoral norte da França. 

Há muitos desaparecidos por lá, mas uma dupla de detetives desastrada, inspirada em o Gordo e o Magro do cinema, não percebe nada.  Nem mesmo a existência de uma família de canibais da qual Ma Loute faz parte.  O Gordo (Didier Despres) rola morro abaixo, enquanto a família Van Peteghem: André (Fabrice Luchini), Isabelle (Valeria Bruni Tedeschi) e dois filhos utilizam uma enorme e confortável casa com uma vista privilegiada do local.  Receberão a visita de Aude (Juliette Binoche) e sua filha/filho Billie (Ralph).  A ambiguidade de gênero do personagem Billie percorre todo o filme: será uma menina que gosta de se vestir de menino ou um menino feminino?  Androginia, transexualidade, travestismo ou caso de intersexo?  Também não importa muito.  Quem disse que os mistérios existem para serem solucionados?




Ali  ninguém se entende ou se comunica para alcançar algo, muito menos qualquer tipo de racionalidade.  Reações histéricas para fatos corriqueiros convivem com uma placidez diante de coisas muito graves que estão acontecendo.  As reações não combinam com os fatos.  E, naturalmente, o amor que se estabelece entre Ma Loute e Billie pode ser um problema.

Há um contexto de luta de classes implícito na trama que contrapõe a alta burguesia esnobe aos pescadores pobres que com eles convivem.  Mas ninguém se salva no exagero da caricatura e da farsa.  Não há bem e mal, embora estejam caracterizadas diferenças sociais extremas.  A maldade e a loucura dominam a cena e detonam tudo.




É preciso, evidentemente, entrar na onda do filme, surfar no non sense e rir do besteirol que ele traz.  Mas não é uma bobagem qualquer.  Trata-se de um diretor talentoso, capaz de criar sequências muito bem feitas e de um elenco magnífico que atrai todo o interesse. As locações são muito bonitas. Não é só na Baía de Slack, na França, em 1910, que a insanidade se instala.  Ela parece estar à nossa volta o tempo inteiro.  O mundo é uma loucura só.  E sempre foi, parece nos dizer Bruno Dumont.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

MOONLIGHT - SOB A LUZ DO LUAR

  
Antonio Carlos Egypto





MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR (Moonlight).  Estados Unidos, 2016.  Direção: Barry Jenkins.  Com Alex Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Naomie Harris, André Holland, Mahershala Ali.  111 min.



“Moonlight” entra na corrida para o Oscar com a vantagem de ter sido escolhido como melhor filme na categoria drama, no Globo de Ouro.  E tem uma história envolvente e emocionalmente forte, capaz de tocar a sensibilidade das pessoas.

O personagem central, um afro-americano vivendo num bairro violento, em Miami, será mostrado em três etapas fundamentais da vida: a infância, a adolescência e a vida de jovem adulto, de modo a compor a trajetória de uma tragédia que envolve raça, sexualidade, masculinidade e o mundo das drogas que a circunda. 




Chiron, esse é o nome do personagem, primeiro é Little (Alex Hibbert), um garoto inseguro, largado, sem o necessário apoio familiar e com poucas chances de encontrar seu lugar no mundo, vivendo com Paula (Naomie Harris), mãe solteira, dependente de drogas, mais perdida do que ele próprio.  Poderá encontrar uma figura paterna, acolhedora e provedora, em um amigo da mãe, que é fornecedor de drogas.  Esse personagem, Juan (Mahershala Ali), é uma bela figura humana, mas não pode ostentar a dignidade, que na realidade ele tem, em função de sua atividade danosa e ilegal.

Chiron  adolescente (Ashton Sanders) não tem coragem para enfrentar o bullying que sofre, se sente covarde, desencontrado dos outros, subjugado e agredido.  A cena em que ele mergulha o rosto numa banheira de gelo, para se recuperar de agressões, é muito bonita e tocante.  A revelação do desejo homossexual é um grande complicador a mais, algo marcante e, ao mesmo tempo, fonte de rejeição e opressão social.




Que alternativas teria Chiron, também conhecido como Black, já adulto (Trevante Rhodes), senão  impor-se pela violência, que é o que ele sempre conheceu,  valendo-se do caminho do tráfico?  Uma fileira de dentes de ouro simboliza esse rumo, fonte de dinheiro e de algum poder num mundo de pobreza e ausência de perspectivas dignas de vida.

Uma história que nos traz uma reflexão social e poética sobre a questão da identidade, que o diretor Barry Jenkins conduz com sensibilidade, colocando ênfase nas emoções.  Sua câmera se nutre de cada situação, sofrimento ou esperança, nos levando para dentro dos personagens, que se dirigem ao espectador para mostrar o que é a vida que eles vivem.  Impossível ficar indiferente.





Um filme que exala a negritude como uma força e um drama.  Que denuncia a violência, mas reconhece a beleza.  Afinal, “sob a luz da lua, garotos negros parecem azuis”.  De um conto que tinha esse título, acabou saindo esse trabalho, que foi sendo composto ao longo dos anos.  Um elenco muito talentoso deu vida a essa trama.  E com os três atores que representam Chiron, consegue-se compor a continuidade de um personagem, de uma trajetória de vida, de forma coerente.



domingo, 22 de janeiro de 2017

MANCHESTER À BEIRA-MAR


Antonio Carlos Egypto




MANCHESTER À BEIRA-MAR (Manchester By The Sea).  Estados Unidos, 2016.  Direção: Kenneth Lonergan.  Com Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges, C. J. Wilson.  138 min.



“Manchester à Beira-Mar” é um filme estadunidense que não trata de heróis em quadrinhos, seres fantásticos ou de outro planeta.  Aborda gente de verdade, seres humanos.  Ou seja, conversa com um público adulto, interessado em refletir sobre a vida cotidiana e o ser humano, como ele é.

Esclarecido isso, dá para dizer que o filme trata de um tema psicologicamente muito relevante e que pesa fortemente na vida das pessoas: a culpa.  A culpa não trabalhada, não elaborada, que faz com que os comportamentos inadequados e destrutivos se repitam e acaba por não conduzir a lugar nenhum.




Lee (Casey Affleck) é uma figura humana desencontrada de si mesma, consumida pela culpa.  O alcoolismo, que está na origem do seu problema, se acentua, passando da irresponsabilidade alegre para uma tristeza taciturna.  Ele se torna muito agressivo, antissocial e utiliza seu potencial no grau mínimo, contentando-se com uma ocupação manual que o dispensa de pensar.  Mas não de se indispor com os clientes.

Esse homem terá de enfrentar um desafio para o qual, evidentemente, não está preparado: cuidar de um sobrinho adolescente que perdeu o pai e que não pode viver com uma mãe distante, descontrolada, que oscila entre a dependência do álcool e a de uma religião e de um novo casamento, que possam freá-la.

O convívio entre o tio e o sobrinho, sua problemática, nuances e impasses, ocupam grande parte da trama.  O centro disso é a preocupação com a caracterização do personagem protagonista, os desacertos e descaminhos que ele produz, seu despreparo, seu modo infantil de negar as coisas que se lhe apresentam, suas reações tardias, quando ocorrem.  Como se chega a isso?  Na origem e na base de tudo, a culpa, que corrói.




A relação com a ex-esposa se torna impossível para ele, em qualquer circunstância.  Está consumida pelo fogo, que destruiu aquele casamento e os filhos.  E destruiu a vida dela pós-separação, também, pelo que se vê.  Não há espaço para nenhuma reparação, pelo menos da parte dele.

Estamos diante de um drama?  Mais do que isso, de uma tragédia.  Que se manifesta de muitas formas, ao longo da narrativa.  O espectador tende a pedir: menos, menos.  É tragédia demais nessa vida.

Apesar disso, o tom do filme não é trágico.  É mais um relato triste, desesperançado, sem saída.  Mas também sem exageros, arroubos interpretativos, escândalos.  As coisas se colocam em tom baixo.  Desanimador, não histérico.  Para isso contribuem os desempenhos dos atores, em especial, o de Casey Affleck.  Ele dá o tom certo, minimalista, ao personagem Lee.  O elenco todo compõe bem o clima da história.




O vai-e-vem da narrativa no tempo e as cenas que vão se apresentando, exigindo que a plateia fique atenta e monte, pouco a pouco, o quebra-cabeça de quem é quem e o que está fazendo aqui, também colabora para esfriar as emoções, evitando o envolvimento intenso com o drama que está sendo mostrado.  Isso dá margem ao distanciamento necessário para se refletir sobre o que se vê.  O resultado é muito bom, talvez com menor apelo comercial.  Mas como o filme deve figurar na lista do Oscar, isso vai ser compensado.



            

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A MORTE DE LUÍS XIV


Antonio Carlos Egypto





A MORTE DE LUÍS XIV (La Mort de Louis XIV).  França, 2016.  Direção: Albert Serra.  Com Jean-Pierre Léaud, Patrick d’Assumçao, Marc Susini, Irene Silvagni.  105 min.



Os últimos dias de Luís XIV (1638-1715), o rei Sol, não foram alegres, iluminados ou ostentatórios.  Foram deprimentes.  Mas como poderia deixar de ser deprimente a agonia da morte?  Principalmente numa época em que a medicina sabia muito pouco, quase nada, sobre o corpo humano e tudo se esvaía sem esperança.

O filme do cineasta catalão Albert Serra, “A Morte de Luís XIV”, procura reconstruir os momentos finais da vida de um rei que marcou enormemente a história da França, num reinado de 72 anos.

Tudo começa com uma dor na perna, depois de uma caminhada.  A partir daí, a febre, a fraqueza, a inapetência e o sono intranquilo, vão nos mostrando a agonia do monarca, cercado por seus serviçais, fiéis seguidores e médicos, que pouco sabiam fazer além das tradicionais sangrias.  O quadro evolui para uma gangrena fatal.




Acompanhamos todos esse processo, passo a passo, no leito de morte real.  É duro, traz desconforto ao espectador, mas é muito realista.  Vale para todo mundo, não só para as figuras reais, ou famosas.  Estar cercado de pessoas e cuidados, como o filme mostra, acaba ajudando pouco, porque as agruras da morte têm de ser enfrentadas por cada um consigo mesmo.

A pessoa responde ao desafio da morte com suas características próprias e as das doenças que adquiriu.  As dores variam, os cuidados, também.  Melhor para quem tem processos rápidos, fulminantes.  Não foi o caso de Luís XIV, que sofreu, irremediavelmente, em função dos parcos recursos de seu tempo, mesmo sendo o que teve acesso a tudo o que era possível na época.

O grande ator Jean-Pierre Léaud, que conhecemos desde menino, em função dos filmes de François Truffaut (1932-1984), que ele protagonizou com brilhantismo em várias fases da vida, tem agora a oportunidade de novo grande desempenho no ocaso da vida do rei Sol, aos 77 anos de idade.




Vê-lo sofrer o tempo todo do filme, nesse papel, incomoda.  Desejaríamos tanto ao rei,  quanto ao ator, que é muito exigido nessa atuação, melhor sorte.  Ou, quem sabe, é do espelho da nossa morte que se trata.  O cineasta Ingmar Bergman (1918-2007) dizia com todas as letras que tinha muito medo da morte, não exatamente de morrer, mas da agonia que a morte pode trazer.  A julgar pelo filme “A Morte de Luís XIV”, o rei Sol não foi poupado dessa exasperante agonia.  

Albert Serra dirigiu e roteirizou com Terry Lounas uma obra detalhista e desconcertante sobre o fim da vida, tirando o espectador da zona de conforto.  É muito pesado, mas é um belo trabalho cinematográfico.


Aproveito para lembrar que o filme de Roberto Rossellini (1906-1977) “A Tomada do Poder por Luís 14”, de 1966, que retrata a ascensão do rei, foi relançado recentemente na coleção da Folha, “Grandes Biografias no Cinema”, concebida e coordenada pelo crítico Cássio Starling Carlos, o livro-DVD ainda pode ser encontrado nas bancas de jornais.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CINEMA: HISTÓRIA E LINGUAGEM


Gostaria de recomendar a todos os interessados em entender mais sobre cinema o curso do grande crítico INÁCIO ARAUJO que eu fiz há alguns anos e gostei muito: CINEMA - HISTÓRIA E LINGUAGEM, com início agora no mês de fevereiro.
Antonio Carlos Egypto


O curso Cinema: História e Linguagem já está com inscrições abertas. Trata-se de um curso anual ministrado pelo crítico de cinema Inácio Araujo, que se realiza há 18 anos, abordando a formação e o desenvolvimento da linguagem cinematográfica, ao mesmo tempo em que acompanha sua história desde os Irmãos Lumière até os cineastas contemporâneos.
Como todos os anos, haverá duas turmas: na segunda-feira de 19h30 às 23h e na terça das 9h30 às 13h.

Informações detalhadas encontram-se no site

Podem ser obtidas também pelo telefone 3825.8141 ou pelos emails cinegrafia99@gmail.com ou cinegrafia@uol.com.br


PRÊMIO ABRACCINE 2016





Associação Brasileira de Críticos de Cinema divulga os vencedores do 6º Prêmio Abraccine.

A Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Abraccine, acaba de anunciar nesta segunda-feira, (16/01) os ganhadores de seu quinto  prêmio anual, relativo aos Melhores Filmes de 2016.

Na categoria Longa Metragem concorreram todos os filmes lançados em circuito comercial no Brasil, tanto brasileiros como estrangeiros, entre 17 de dezembro de 2015 e 29 de dezembro de 2016, totalizando mais de 400 produções.

Na categoria Curta Metragem concorreram somente filmes brasileiros exibidos durante o ano de 2016 em mostras, festivais e demais eventos cinematográficos.

Os vencedores do Prêmio Abraccine 2016 foram:

MELHOR LONGA METRAGEM BRASILEIRO:
“Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho.

MELHOR LONGA METRAGEM ESTRANGEIRO:
“Elle”, de Paul Verhoeven.

MELHOR CURTA METRAGEM:
“Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares.

Paulo Henrique Silva, Presidente da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, afirma que “chegando agora à sua sexta edição consecutiva, e pelo fato da Associação ter forte atuação em todo o território nacional, o Prêmio Abraccine se consolida cada vez mais como o Grande Prêmio representativo do pensamento crítico brasileiro”.

Diferente da maioria das premiações cinematográficas, o Prêmio Abraccine não é apenas uma enquete numérica entre os votantes, mas sim o resultado de um rigoroso processo seletivo realizado a partir de uma intensa discussão e troca de ideias, via internet, de seus associados em todo o Brasil.

Fundada em julho de 2011, a Abraccine tem hoje cerca de uma centena de associados em praticamente todos os estados brasileiros. Sua missão é promover formas de pensamento crítico, reflexão e debate sobre o Cinema.

ABRACCINE
Associação Brasileira de Críticos de Cinema





Veja a crítica de AQUARIUS
https://cinemacomrecheio.blogspot.com.br/2016/09/aquarius.html



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

LA LA LAND


Antonio Carlos Egypto




LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES (La La Land).  Estados Unidos, 2016.  Direção: Damien Chazelle.  Com Ryan Gosling, Emma Stone, Amiée Conn, Terry Walters, J. K. Simmons.  128 min.



A primeira sequência de “La La Land” se passa num congestionamento. As pessoas vão saindo dos carros e começam a cantar e dançar, numa coreografia coletiva.  Isso remete a e promete um grande musical, como nos velhos tempos em que Hollywood arrasava, com Fred Astaire, Gene Kelly, Ginger Rogers, Cyd Charisse, Debbie Reynolds, Donald O’Connor, June Allyson e muitos mais.  Mas não é o que acontece. 




“La La Land” tem mesmo um bom score musical jazzístico e uma bela canção, já premiada no Globo de Ouro e que deve levar o Oscar, “City of Stars”.  O diretor Damien Chazelle já fez um bom filme sobre músicos tentando alcançar alta performance, “Whiplash – Em Busca da Perfeição”, em 2014.  No entanto, não há bons cantores em cena, ninguém dança quase nada, as coreografias são de uma simplicidade incrível.  Tudo muito modesto.

Apesar disso, o filme se sustenta como um musical romântico, porque tem um bom roteiro, bem melhor do que os que envolviam a maioria dos musicais clássicos.

Em “La La Land”, também aparece a manjada história do músico e da atriz tentando sobreviver e alcançar sucesso numa Los Angeles atual, em que é difícil alimentar esperanças e vencer as barreiras.  Desbravar os caminhos pode ser muito complicado, não importa o maior ou menor talento envolvido.  E há os sonhos e o mercado, que direciona o gosto popular.  No desenvolvimento da trama, o que se passa aqui é mais realista, tem um tom crítico e procura valorizar as escolhas artísticas, em detrimento das fórmulas de sucesso fácil.




A história é envolvente, os protagonistas são bons, em especial, Emma Stone (premiada no Festival de Veneza e no Globo de Ouro), há glamour, romance e música.  Alguma ingenuidade permanece, lembrando os musicais antigos.  Enfatiza-se a dureza do mundo do espetáculo e o que ele exige de renúncia da própria vida pessoal e amorosa.  Isso num musical romântico!


O entretenimento está garantido, daí o êxito da empreitada, amplamente premiada.  O filme levou sete prêmios no Globo de Ouro: melhor filme (na categoria comédia ou musical), direção, roteiro, ator, atriz, trilha sonora original e canção.  Ou seja, ganhou em todas as categorias em que havia sido indicado.  Os correspondentes estrangeiros que atuam em Hollywood amaram o filme.  Espera-se algo semelhante, no Oscar.  Será que “La La Land” merece tudo isso?  Ou um filme com essas características serve de escape para momentos duros, de crise, de radicalismo e intolerância, como os que vivemos?  Em tempos de Trump e Temer, melhor sonhar, não é?



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

OS MELHORES DE 2016

    
Antonio Carlos Egypto


Houve, mais ou menos, uns 30 filmes que mereceriam estar numa lista de melhores do ano, entre os que passaram no circuito exibidor dos cinemas, ao longo de 2016, tomando São Paulo, capital, como base.  Não estão consideradas as mostras, festivais, eventos especiais.  Alguns filmes já foram feitos há alguns anos, mas só foram lançados agora.  Procurei chegar a uma lista mais enxuta, como se costuma fazer, os 10 mais.  Ou, macaqueando, os top ten.  Ficou difícil.  Tive que deixar de fora filmes de que eu gosto muito.  Mas aí vai o que eu vi de melhor, entre os lançamentos do ano que recém findou. Ano que foi lamentável, mas não para o cinema.


O CAVALO DE TURIM

1. O CAVALO DE TURIM, de Béla Tärr (Hungria).
2. OS CAMPOS VOLTARÃO, de Ermanno Olmi (Itália).
3. NA VENTANIA, de Martti Helde (Estônia).
4. BOTÃO DE PÉROLA, de Patrício Guzmán (Chile).
5. CEMITÉRIO DO ESPLENDOR, de Apichatpong Weerasetakul (Tailândia).
6. AQUARIUS, de Kléber Mendonça Filho (Brasil).
7. ELLE, de Paul Verhoeven (França).
8. BELOS SONHOS, de Marco Bellocchio (Itália).
9. ANIMAIS NOTURNOS, de Tom Ford (Estados Unidos).
10.O ABRAÇO DA SERPENTE, de Ciro Guerra (Colômbia).





sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Elle

Tatiana Babadobulos



ELLE (Elle). França, Alemanha e Bélgica, 2016. Direção: Paul Verhoeven. Com Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny. 130 min.



“Elle”, de Paul Verhoeven, é um filme perturbador. Não convém falar da história, pois pode perder o impacto. Mas alguma coisa é possível dizer sem estragar…
O longa-metragem é estrelado pela atriz francesa Isabelle Huppert. Ela vive Michèle, uma mulher empoderada que sabe o que quer. Nos negócios, comanda uma empresa de videogames. Trabalha com jovens e não tem receio de dizer o que vale e o que não vale no desenho de um novo jogo.
Na vida pessoal, Michèle é separada, mas tem ciúme do ex-marido, Rochard (Charles Berling), com quem tem um filho adulto. O filho, aliás, é o que mais dá dor de cabeça no dia a dia. Namora uma moça que está prestes a ter um filho, mas ele não tem um bom emprego que poderá dar sustento à família. Depende, pois, da ajuda da mãe.
Por falar em mãe, Michèle implica com a sua própria mãe, que tem um relacionamento com uma rapaz muitos e muitos anos mais jovem…
Os relacionamentos, pessoal e empresarial, não são o foco do longa dirigido por Verhoeven, que ficou bastante conhecido por seu filme “Instinto Selvagem”. Sim, aquela produção norte-americana dos anos 1990 no qual Sharon Stone faz aquela sensual cruzada de pernas que ficou marcada na história do cinema…


O mote de “Elle” é o que acontece na primeira cena: Michèle, deitada no chão de sua casa, em Paris, acaba de ser violentada por um homem mascarado. A cena do seu gato observando o ato é o suficiente para o espectador entender o que está acontecendo.

O que vai prender a plateia do início ao fim da produção é a maneira como a personagem encara o estupro e como ela lida com essa violência, na ânsia de descobrir quem é o agressor.
As cenas fortes do estupro são tratadas com maestria por Verhoeven. Além de “Instinto Selvagem”, o realizador holandês, que viveu muitos anos nos Estados Unidos, dirigiu longas de ação e de ficção científica como “Robocop” (1987) e “O Vingador do Futuro” (1990). Ele aplica, de certa maneira, o aprendizado anterior na obra atual, mesmo que o longa seja mais intimista e não tenha nada de ação.



Seja na música que sobe no momento do ataque, seja no movimento de câmera quando Michèle começa a lutar contra o agressor. Sua impressão está lá. E Isabelle Huppert dá conta do recado, supera a demanda quando interpreta uma mulher madura, empoderada, que não se acovarda nem quando há medição de força física.
“Elle” é um filme feminino, provocador e imperdível.
Depois de receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2016, o longa é o representante da França no Oscar de melhor filme estrangeiro. E Isabelle Huppert concorre ao prêmio de melhor atriz dramática no Globo de Ouro, cuja entrega será feita no domingo, dia 8 de janeiro de 2017.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Sully


Tatiana Babadobulos




SULLY - O HERÓI DO RIO HUDSON (Sully). Estados Unidos, 2016. Direção: Clint Eastwood. Com Tom Hanks e Aaron Eckhart. 96 min.


Em 15 janeiro de 2009, o noticiário mundial acompanhou a notícia de que um avião com 155 pessoas (entre passageiros e tripulantes) realizou um pouso forçado no rio Hudson, em Nova York.

No meio do inverno norte-americano, aquela tinha sido uma notícia boa, principalmente porque o capitão da aeronave, Chesley “Sully” Sullenberger, salvou todas as pessoas que estavam a bordo.


A história do triunfo e outra nem tão bonita assim é contada no longa-metragem “Sully – O Herói do Rio Hudson” (“Sully”). Sob a batuta de Clint Eastwood (“Jersey Boys”, “Menina de Ouro”), o ator Tom Hanks (“Capitão Phillips”) vive o papel-título, com cabelos e bigode descoloridos.
Mas nem tudo foram glórias. Isso porque Sully começou a viver um verdadeiro “caça às bruxas” com acusações de ter feito um procedimento errado ao pousar o Airbus no rio, ao invés de voltar para o aeroporto mais próximo, como mostra a cena na qual ele questiona a torre de controle.
Com detalhes, é possível reviver, a partir do longa, o drama vivido na ocasião pelo piloto e pelo copiloto Jeff Skiles, aqui estrelado por Aaron Eckhart (“Batman – O Cavaleiro das Trevas”).

Dramas que se passam dentro de um avião são corriqueiros desde que o cinema existe… Mas, ultimamente, são lembrados os filmes dramáticos pós-11 de setembro, com o ataque às Torres Gêmeas, na mesma Nova York do filme de Eastwood. Um episódio que jamais será esquecido.
“Voo United 93” (“United 93”), dirigido por Paul Greengrass em 2006, revela os momentos finais de uma das aeronaves que colidiu com a torre do World Trade Center, durante o ataque terrorista de 2001.
Sem relação com os ataques, um dos filmes mais recentes sobre voos foi “O Voo” (“Flight”), de 2012, com Denzel Washington no papel principal, no qual vive um piloto atolado em bebida e em drogas depois de ter feito um pouso forçado com centenas de passageiros a bordo.
Há ainda as comédias, como “Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu” (1980), e a obra do espanhol Pedro Almodóvar, “Amantes Passageiros”, de 2013. Mistura de drama com romance é “Top Gun – Asas Indomáveis” (1986), longa que consolidou o sucesso de Tom Cruise nos cinemas. Um remake do longa, aliás, está programado para 2018.

O roteiro de “Sully”, escrito por Todd Komarnicki tendo como base o livro “Highest Duty”, de Sullenberger e Jeffrey Zaslow, fica ainda mais interessante porque não se prende às cenas a que todos acompanhamos no noticiário mundial. O longa traz à tela os momentos a que não tivemos acesso –os bastidores do processo e do julgamento pelo qual o capitão passou e que foi bastante estressante para ele e para sua família.
Ter 208 segundos para tomar uma decisão crucial não é pouca coisa. E fica mais reconfortante quando a perda foi apenas material (a aeronave). O verdadeiro capitão Sully pode deitar a cabeça no travesseiro e lembrar, todos os dias, que salvou 155 vidas em 15 de janeiro de 2009.
Sua história, nas mãos do experiente Eastwood, faz a plateia aplaudir e chorar de emoção ao sentir sua agonia na pele. 
No Brasil, o longa teria estreado no Brasil no dia 2 de dezembro. Porém, com o acidente de avião da Chapecoense, no dia 29, a Warner optou por adiar a estreia do filme sobre um desastre aéreo –ainda que o do filme tenha final feliz, diferente dos 70 mortos. A estreia se deu no dia 15 de dezembro, em cerca de 10% salas a menos do que o previsto no início.
Em tempo: mesmo que os funcionários do cinema invadam a sala e acendam as luzes da sala antes dos créditos finais (como fizeram os da sala a que assisti ao filme), não levante. Há cenas com o capitão Sully original e todas aquelas pessoas que ainda enviam cartões de Feliz Natal e ele e a sua família todos os anos.