sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Amizade Colorida


Tatiana Babadobulos


Amizade Colorida (Friends With Benefits). Estados Unidos, 2011. Direção: Will Gluck. Roteiro: Keith Merryman. Com: Mila Kurtis, Justin Timberlake, Patricia Clarkson e Richard Jenkins. 109 minutos

Temas para os filmes de Hollywood são cíclicos. A bola da vez são os relacionamentos sem compromisso entre os jovens casais de 30 anos. Veja o exemplo de “Sexo Sem Compromisso” (“No Strings Attached”), comédia romântica com Natalie Portman e Ashton Kutcher no elenco.

Nesta sexta-feira, 30, estreia "Amizade Colorida" (Friends With Benefits") e mostra ao espectador um perfeito e completo déjà vu, não fosse, caro leitor, o fato de os protagonistas interpretados por Justin Timberlake (de “A Rede Social”) e Mila Kunis (de “Cisne Negro”) terem uma química e um timing muito melhor que os dois anteriores.



Na fita, Jamie (Mila) é uma head­hunter (caça-talentos) que convoca Dylan (Timberlake), um excelente diretor de arte de Los Angeles, a viajar até Nova York para entrevista em uma revista de sucesso. Além de trocar o emprego, o rapaz vai precisar mudar de cidade e de estilo de vida. E é aí que Nova York passa a ser mais um protagonista do longa-metragem dirigido, escrito e produzido por Will Gluck.

Como a própria personagem diz, ela vai tentar convencer o candidato a aceitar sua proposta por causa da cidade. A partir de então, os dois, que a princípio se tornam bons amigos, vão passear pela Big Apple, frequentar os restaurantes da moda e deslumbrar a paisagem do alto de um dos prédios. Lá pelas tantas, porém, os dois, que terminaram relacionamentos sérios recentemente, decidem que podem fazer sexo pelo sexo, e não por amor, e juram, com ajuda de uma Bíblia conseguida no iPad (santa modernidade!), que não vão se apaixonar. E daí entra a máxima: “não vamos ficar para não estragar a amizade”.


Mila Kunis, que viveu a arquir­rival de Natalie Portman em “Cisne Negro”, empresta sua sensualidade à personagem para seduzir não apenas o rapaz, mas também o espectador, que torce para que eles fiquem juntos, já que parecem ter nascido um para o outro. Entre encontros de amizade, ela acaba conhecendo aquele que poderia ser o seu príncipe encantado, mas também conhece a família de Dylan, como o seu pai (Richard Jenkins, ótimo!), um ex-jornalista que atualmente sofre de Alzhei­mer. No aeroporto, pai e filho protagonizam uma das cenas mais comoventes do longa.

Com toque de humor, situações provocantes e personagens problemáticos, o filme remete, como o próprio diretor cita no material divulgado para a imprensa, aos protagonizados por Audrey Hepburn (a eterna “bonequinha de luxo”), em uma versão moderna. Fácil lembrar também da personagem de Renée Zellwegger em “Abai­xo o Amor”, quando escreve um livro, nos anos 1960, tentando convencer que mulher deve ser independente e não ficar esperando o príncipe de cavalo branco chegar.


“Amizade Colorida” é um déjà vu, sim, não traz nada de novo à cinematografia, mas há algo a mais além das conquistas de corações arrasados e do incremento da cidade onde se passa.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

TRABALHAR CANSA

Antonio Carlos Egypto



TRABALHAR CANSA. Brasil, 2011. Direção e roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra. Com Helena Albergaria, Marat Descartes, Naloana Lima, Marina Flores, Lilian Blanc. 99 min.

Que trabalhar cansa não há a menor dúvida. Que o mundo do trabalho pode trazer muitas angústias, incertezas e frustrações, também é fato. Pode, ainda, elevar muito as tensões e o estresse da vida cotidiana. E o tal do mercado, em que os trabalhadores de todos os tipos têm de se inserir, é um desafio permanente e potencialmente destruidor.

Bem, o mundo do trabalho pode não ser só isso, mas também uma fonte de realizações e sucesso, sem grandes traumas para alguns. Pode ser. Mas, certamente, esse não é o caso dos personagens de “Trabalhar Cansa”.

Helena (Helena Albergaria), dona de casa, resolve contratar uma empregada que possa cuidar da casa e ajudar a cuidar da filha Vanessa (Marina Flores), ainda pequena, e alugar um local para tocar um modesto supermercado. Vai enfrentar todo tipo de dificuldades, desde a reforma, montagem e adaptação da loja, que já havia sido mercado há algum tempo, até a contratação de empregados, pagamento de despesas e o risco natural do negócio. No caso, agravado por suspeitas diversas, entre elas, a do roubo de mercadorias pelos próprios funcionários.

Enquanto isso, Paula (Naloana Lima), a empregada, enfrenta uma situação bem difícil, tendo de morar num cubículo, onde a única distração possível é um radinho de pilha, ganhando salário mínimo, sem registro. E, ainda, ouvir reclamações a respeito do seu trabalho, apesar do esforço que faz para deixar tudo impecável e o esmero no cuidado com a menina.


Em paralelo a isso, Otávio, vivido pelo ator Marat Descartes, fica desempregado após dez anos de trabalho numa empresa, numa idade que já não lhe favorece a conquista de um novo emprego. Tem de se submeter a entrevistas,estranhas dinâmicas de seleção de pessoal e negativas de todo tipo, capazes de abalar seriamente sua autoestima e complicar seu casamento com Helena. Até tentar o indefectível trabalho de telemarketing sobra para ele. Afinal, há muita gente disputando cada vaga no mercado de trabalho e os jovens levam vantagem.

Essa história toda, contada de forma realista e muito concreta, constrói um painel bastante nítido das agruras do mundo do trabalho na classe média e nos que a servem. Mas há algo mais e esse não é um ingrediente realista. Há algo de muito primitivo permeando tudo isso.

É por aí que o filme vai caminhar também, sem nunca perder o fio condutor, tal como o exposto até aqui. Esse elemento permitirá aos diretores explorar uma dimensão de estranhamento e de suspense, numa trama colada ao cotidiano mais reconhecível por todo mundo. É uma boa solução, que dá um sentido forte a tudo o que vai sendo mostrado ao longo da fita. E o filme não cansa, apesar de tratar de trabalho o tempo todo.

Trata-se de um filme brasileiro de produção paulista, tendo a cidade de São Paulo e sua tradicional vinculação ao trabalho como referência da ação dos personagens. As cenas foram filmadas não só em São Paulo, mas também em Paulínia e Campinas. O filme participa da mostra competitiva do 44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, foi exibido na mostra “Um Certo Olhar”, no Festival de Cannes, e ganhou o prêmio especial do júri do Paulínia Festival de Cinema.

CONTRA O TEMPO

Antonio Carlos Egypto

CONTRA O TEMPO (Source code).  Estados Unidos, 2011.  Direção: Duncan Jones.  Com Jake Gyllenhall, Michelle Monaghan, Vera Farmiga.  93 min.


"Contra o Tempo", estreia desta semana nos cinemas de São Paulo e outras praças, já foi objeto de crítica e postagem aqui, no "cinema com recheio", no mês de julho de 2011. É que sua estreia, inicialmente prevista para final de julho ou início de agosto, acabou ficando só para outubro.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Um Conto Chinês

Tatiana Babadobulos


“Um Conto Chinês” (“Un Cuento Chino”). Argentina, 2010. Direção e roteiro: Sebastian Borensztein. Com Ricardo Darín, Huang Sheng Huang, Muriel Santa Ana. 100 minutos

“Um Conto Chinês” traz um dos mais conhecidos atores argentinos, Ricardo Darín (de “Abutres”, “O Segredo dos Seus Olhos”, que ganhou o Oscar), no papel de Roberto, um veterano da Guerra das Malvinas e que atual­mente possui uma loja de ferramentas. Além de ser obsessivo e metódico na vida (vide as cenas nas quais aparece contando a quantidade de pregos que vem na caixa e o horário em que dorme todas as noites), tem uma mania estranha de colecionar notícias de horror que são pu­blicadas em jornais do mundo todo e que os consegue por intermédio de um amigo. E, ao acompanhar as reportagens, imagina a si mesmo como protagonista da tragédia.

Mas o filme dirigido por Sebastian Borenstein só tem início, de fato, quando ele conhece Jun (Huang Sheng Huang), um chinês que não fala uma só pa­lavra em espanhol e não consegue dizer o que está fazendo sozinho em Buenos Ai­res, já que fora roubado e arremessado de um táxi. A única pista é o endereço tatua­do em seu braço. E, assim, os dois vão começar a peregrinação e uma amizade.

Há ainda o toque político e as cutucadas, como quando diz ao policial que não gosta de ser desrespeitado por uma pessoa só porque ela vestindo um uniforme.

As cenas que incluem a comunicação são engraçadas, já que cada um fala sua própria língua, mas os dois se entendem por meio dos gestos. Engraçadas no ponto de provocarem um riso leve e não gargalhadas. São cenas simples, que convencem o espectador, independentemente de o episódio contado a res­peito de uma tragédia na China tenha sido verdadeiro, ou não. Mas isso é o que menos importa.

“Um Conto Chi­nês” é daqueles longas argentinos de fazer o cinema brasileiro morrer de inveja, tamanha perfeição. Nesta área, aliás, os vi­zinhos portenhos têm marcado de goleada e merecem ser prestigiados, já que mais de um milhão de pessoas assistiram à trama nos cinemas argentinos.

sábado, 24 de setembro de 2011

CONFIAR

Antonio Carlos Egypto



CONFIAR (Trust). Estados Unidos, 2011. Direção: David Schwimmer. Com Clive Owen, Catherine Keener, Viola Davis.105 min.

Relacionamentos virtuais abrem novas e interessantes perspectivas na comunicação de ideias, de interesses, nas transações comerciais, na atuação profissional ou política e na vida sexual e afetiva. Muitos relacionamentos amorosos via Internet dão certo, se efetivam, geram casamentos que, muitas vezes, unem pessoas de países distantes. São novas oportunidades e possibilidades que se colocam para muita gente.

Existe, porém, o reverso da medalha: os falsos perfis, as mentiras, a caçada a crianças e jovens para exploração sexual. A pedofilia – a busca de um objeto de desejo infantilizado – encontra campo fértil para suas pesquisas e para a cavação de imagens eróticas infanto-juvenis em chats de relacionamento, salas de bate-papo, blogs, sites, redes sociais. Basta lembrar que crianças e jovens são os maiores usuários da Internet e os que melhor e com mais desenvoltura se adaptam ao meio virtual.

Annie (Catherine Keener), uma garota de 14 anos, se encanta com seu novo amigo virtual, supostamente um garoto pouco mais velho do que ela, e acaba caindo nas redes de um pedófilo. Em busca de ser valorizada e desejada, o que é mais do que esperado nessa idade, ela custa a perceber a diferença entre ser amada e ser simplesmente explorada sexualmente. Mesmo que as evidências se apresentem com a entrada em cena da polícia, do FBI, pode ser complicado decifrar essa charada para uma adolescente. Por definição, para os mais jovens, os pais e outros adultos não entendem o que se passa. A questão é: como protegê-los, então? Ou, ainda, como controlar o que fazem com um computador na mão, em que fria podem se meter?


O desespero do pai (Clive Owen) pode não ajudar, nessas horas, e até complicar mais as coisas. Mas o fato é que a família toda tende a se desestruturar, diante da evidência de um crime de abuso sexual, na forma de pedofilia, que entra por uma janela de computador não de forma agressiva, mas, sedutora.

Uma trama que trate desse tipo de assunto com seriedade, como é o caso de “Confiar”, é sempre bem-vinda. Ainda há muito que debater, numa questão como essa, e o cinema, pela sua capacidade de provocar identificações e envolvimento emocional com personagens, é um bom veículo para mostrar a dimensão e a importância do que se está observando em suas imagens e na história construída para apresentar o assunto.

É verdade que “Confiar” diversas vezes exagera na dramaticidade das cenas ou dos comportamentos mostrados, no afã de expor essa dura realidade. Se conseguisse ser mais sutil, alcançaria um patamar superior. Se conseguisse trabalhar mais com o subentendido, com a ambiguidade, poderia ter conseguido, por meio do suspense, um espetáculo mais envolvente e atraente. E, quem sabe, mais inteligente, também. Não importa. “Confiar” merece ser visto, debatido, divulgado, porque mostra uma realidade que precisa ser muito melhor percebida e enfrentada na atualidade.

Quero também chamar a atenção para o fato de que a explicação sobre o tipo de pessoa que comete esses crimes só aparece em imagens complementares, após o filme, como se fossem extras, concomitantemente com os créditos finais. Uma ideia não muito adequada, já que as pessoas já estarão levantando de suas cadeiras, se dispersando, e podem perder essa informação importante. Portanto, aguarde um pouco mais, antes de sair do cinema. É relevante o que estará sendo mostrado ali. Assim como é relevante tudo o que é abordado em “Confiar”.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Pronta para Amar

Tatiana Babadobulos

Pronta para Amar (A Little Bit of Hea­ven). Estados Unidos, 2011, Direção: Nicole Kassell. Roteiro: Gren Wells. Com: Kate Hudson, Gael García Bernal, Romany Malco, Rosemarie DeWitt, Lucy Punch. 106 minutos


O que você faria se estivesse com os dias contados? “Pronta para Amar” (“A Little Bit of Hea­ven”), história de uma publicitária, Marley Corbett (Kate Hudson, de “Como Perder Um Ho­mem em 10 Dias”), que se apai­xona por seu médico, o charmoso Julian Goldstein (Gael García Bernal, de “Diários de Motocicleta”). Os dois se conhe­cem depois de ela saber que tem uma doença irreversível.

Porém, até que o amor che­gue (daí o nome do filme em portu­guês, ou seja, até que ela esteja pron­ta para amar), Marley vai fa­zer o discurso que está em moda em Hollywood (vide “Amor Sem Compromisso”, “Amor e Outras Drogas” e “Amizade Co­lo­rida”, que estreia dia 30): “não pre­­ciso de nin­guém para ser feliz”, “posso fa­zer sexo casual sem me apaixonar”, “não me vejo ca­sa­da, principalmente do modo tra­dicional”, tal como diz, no iní­cio da fita, em narração em off, por­que não quer o matrimônio tal como acontece nos contos de fada.

Isso porque ela tem um amigo gay, Peter (Romany Malco), com quem pode sair para dar risada, conversar e, quando tem vontade de transar, seu celular tem o nome de alguns parceiros, ainda que uma de suas amigas, Renee (Rosemarie DeWitt), que é casada, tem uma filha e está a espera de outro, torça para que ela se apaixone de verdade. Já a outra amiga, Sarah (Lucy Punch), que é artista plástica e colega na agên­cia de propaganda, dá a força que ela precisa, deixando-a ser ela mesma.

Marley faz reflexões sobre a vida, discute sobre o fato de não acreditar em Deus, por exem­plo, e, por isso, sentir inveja das pessoas que acreditam, “pois essas não têm medo de as coisas acontecerem”. De­us, pra ela, aliás, é representado pela atriz Whoopi Goldberg, que faz o papel dela mesma.


E é quando sente uma dor no corpo que a comédia ro­mântica vira drama. É aí que ela vai procurar o médico e o longa-metragem começa a ter outro rumo, pois é por ele que ela virá a se apaixonar (e isso não é segredo, já que o pôster do filme já re­vela…).

No quesito drama, este filme remete a dois outros: “Doce Novembro” (“Sweet November”, 2001), no qual a protagonista, Charlize Theron, vai contando os dias para morrer enquanto vive o amor juntamente com o personagem vivido por Keanu Reeves, e “Lado a Lado” (“Stepmom”, 1998), com Julia Roberts e Susan Sarandon nos papéis principais, também lutando contra o câncer.

É com bom humor que a personagem de Kate vai enfrentar seu diagnóstico, embora o espectador possa não entender sua reação, já que trata-se de uma situação extremamente delicada. Seria o fato de encarar as más notícias com felicidade, já que não há meio de revertê-las. Talvez seja uma maneira parti­cular de enfrentar a vida, e de fa­zer cada um aprender a viver a seu modo.

Dirigido por Nicole Kassell (“O Lenhador”) e baseado em roteiro original de Gren Wells, “Pronta para Amar” não mede as consequências que os atos terão em cada personagem e também quanto a reação do público. Até porque o choro vem fácil e é inevitável. Portanto, cada um deve ter em mente seu nível de sensibilidade para o dia da sessão, pois há cenas realmente incontroláveis.

BORBOLETAS NEGRAS

Antonio Carlos Egypto

BORBOLETAS NEGRAS (Black Butterflies).  Holanda, 2010.  Direção: Paula van der Oest.  Com Carice van Houten, Rutger Hauer, Liam Cunningham, Grant Swanly.  100 min.

“Borboletas negras” retrata a vida da poetisa Ingrid Jonker, na África do Sul, durante a década de 1960, em pleno Apartheid.

Ela, artista precoce, começa a escrever poemas aos 6 anos de idade e não para mais.  Desorganizada e muito instável emocionalmente, seus poemas estão dispersos por todos os lados.  No filme, eles aparecem em múltiplos papéis, escritos nas paredes, nos vidros.  Uma criatividade que tinha de se expressar a qualquer preço.

Evidentemente, uma pessoa com essa característica criativa e a sensibilidade à flor da pele não poderia deixar de resistir, de alguma forma, ao ignominioso regime do Apartheid.  

Ocorre que o pai dela era ninguém menos do que o chefe do departamento de censura do governo.  Vai daí que as relações dela com ele só poderiam ser conturbadas.  Mas uma filha sempre busca o reconhecimento do pai, o que torna tudo ainda mais complexo.

Ingrid, sua poesia, seus amores e seus desencontros pela vida, formam a matéria-prima de “Borboletas negras”.  A protagonista que vive a poetisa é a ótima atriz Carice van Houten.  Liam Cunningham está no papel do escritor Jack Cope, um desses amores, o mais central deles, na realidade.  E o veterano e talentoso ator  Rutger Hauer encarna com dureza e alguma crueldade o pai de Ingrid.

A diretora holandesa Paula van der Oest realiza um filme que envolve, pela intensidade do drama da protagonista, pelos fortes e competentes desempenhos do elenco e pela beleza das locações na cidade do Cabo e as lindas praias em que se desenvolve boa parte das cenas.

A questão política da África do Sul desse período, embora já bastante conhecida, sempre mexe com as emoções de quem quer que, como Ingrid, ame a liberdade.  Mesmo reconhecendo que o jeito atabalhoado com que a personagem lida com a sua vida não ajude muito.

Seus poemas, no entanto, estão lá, sobreviveram a todo o drama e um deles foi citado no primeiro discurso ao parlamento, proferido por Nelson Mandela: “A criança que foi assassinada pelos soldados de Nyanga”.  É a partir daí que se dá o amplo reconhecimento artístico de Ingrid Jonker como um símbolo da África livre.

O filme foi selecionado para o Tribeca Film Festival 2011, que conferiu a Carice van Houten o prêmio de melhor atriz, merecidíssimo.

domingo, 18 de setembro de 2011

ALÉM DA ESTRADA

Antonio Carlos Egypto



ALÉM DA ESTRADA (Por el camino). Brasil, Uruguai, 2010. Direção: Charly Braun. Com Esteban Feune de Colombi, Jill Melleady e participações de Guilhermina Guinle e Naomi Campbell. 86 min.







Charly Braun é um ator brasileiro, cujo nome tem sonoridade igual à do famoso personagem de história em quadrinhos de Charles Schulz. Em seu primeiro longa como diretor, “Além da Estrada”, ele faz um road-movie inteiramente rodado no Uruguai, recheado de locações que revelam belezas do país pouco conhecidas, lugares surpreendentes, comunidades rurais e de natureza ao estilo hippie, que compõem um belo e cativante painel visual.

O cinema é uma oportunidade de viajar no espaço, no tempo, na vida interior de personagens, no sonho e na fantasia. A viagem de “Além da Estrada” revela não só belas paisagens como também lugares estranhos e personagens se conhecendo e se envolvendo, numa riqueza de detalhes impressionante. Onde aparentemente nada está acontecendo, uma imagem capta um instante revelador de um elemento da natureza, algo pequeno mas inesperado que acontece, um gesto, um olhar. Por exemplo, o cachorro sedento que ronda uma pequena piscina abandonada, com água pela metade e cheia de folhas, que, de repente, entra nela para beber da água e precisa ser puxado para fora, do contrário não conseguiria sair. Há muito o que observar nesses detalhes, nessas pequenas coisas que essa viagem pelo Uruguai traz ao espectador.

Os personagens são um rapaz argentino (Esteban Feune de Colombi), que vai em busca de uma propriedade de seus pais recentemente falecidos num acidente, e uma moça belga (Jill Melleadi), que vai ao encontro de um antigo amor. Eles se encontram no Uruguai, ele oferece uma carona e os dois acabam protagonizando uma viagem de descobertas, troca e envolvimento afetivo e, como seria de se esperar, uma jornada de autoconhecimento e de conhecimento mútuo.






Personagens que vagam pelo pequeno país vizinho se comunicando, ora, em espanhol, ora, em inglês,ora, em francês, entre si e com as pessoas que encontram, ou vão em sua busca, ao longo do trajeto.

Nessa jornada, também se revelam detalhes de um jeito de viver e de estar no campo, de usufruir da natureza, de trabalhar em fazenda. Um estilo de vida tradicional, por um lado, sábio, por outro.

É nesse mundo cercado de gente que vive em ritmo próprio, lento e artesanal, em torno do verde, de animais, de lagoas naturais e largos espaços, que o filme nos faz penetrar. O efeito é de uma paz e beleza reconfortantes, que oferece uma trégua ao cotidiano urbano e agitado em que está metida a maior parte das pessoas. Pelo menos, aquelas que vão ao cinema.



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

CONAN, O BÁRBARO

Antonio Carlos Egypto


CONAN, O BÁRBARO (Conan, the Barbarian). Estados Unidos, 2011. Direção: Marcus Nispel. Com Jason Momoa, Rachel Nichols, Stephen Lang, Rose McGowan, Ron Perlman, Leo Howard. 113 min.


“Conan, o bárbaro” é daqueles super-heróis que, sozinhos, dizimam um exército, se arrebentam mas não sentem dor e, é claro, matam muitos, mas não morrem. Além disso, não sentem nenhum medo, mesmo diante dos maiores perigos, o que os distancia dos seres humanos, por definição.

“Conan, o bárbaro”, o novo filme, é uma aventura com tanta ação, mas tanta ação, que mal permite qualquer respiro ao espectador. É efeito especial pra todo lado, brigas e mais brigas, porradas em profusão, espadas que perpassam corpos e se enfrentam o tempo todo, flechas que voam, sangue jorrando à vontade, explosões e desmoronamentos. Isso acontece praticamente em toda a duração do filme: uma hora e quarenta minutos.

Durante algum tempo, a diversão é boa, apesar dos exageros, do mau gosto de algumas situações e da violência constante que dá tom à película. Depois de mais ou menos uma hora, não sei como as pessoas aguentam isso e ainda acham muito divertido. É uma repetição sem fim que, para mim, deixou de ter qualquer interesse. E perde qualquer sentido: é a luta pela luta, a batalha pela batalha, sendo que todo mundo já sabe como vai ser o final. É tudo muito previsível, até para crianças pequenas.

Excessivo é um adjetivo adequado para classificar “Conan”. Tudo que acontece ali é demais, desproporcional, fantástico além da conta, consumindo tempo exageradamente, mostrando o que já foi mostrado, repetindo o mesmo confronto.

O que é curioso é que “Conan, o bárbaro”, longe de ser uma exceção, é quase a regra desse tipo de filme de aventura. É tudo tão sem medida, tão rápido, tão excessivo, que nem o efeito catártico parece possível. E, é claro, é sempre impossível pensar. É tudo pura sensação, para mim, desnecessária e esgotante. Mas não tenho dúvida de que o filme vai emplacar, ocupar dezenas de salas nas grandes cidades, ter grande afluxo de público, matérias em todos os veículos da mídia e, provavelmente, render muito dinheiro, que compensará os altos custos da produção. Essa é a lógica da atualidade, do chamado cinema comercial. Que se repete a toda hora.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cowboys & Aliens





Tatiana Babadobulos

Cowboys & Aliens. Estados Unidos e Índia, 2011. Direção: Jon Favreau. Roteiro: Roberto Orci. Com: Daniel Craig, Harrison Ford, Olivia Wild. 118 minutos


Com produção executiva de Steven Spielberg (além de ou­tros nomes), "Cowboys & Aliens" faz uma verdadeira mistura. E o espectador leva aquilo o que foi prometido: uma bata­lha entre foras­teiros do Velho Oes­te americano e ETs com armas superpontetes que invadem a Terra.

Na época em que as coisas ­era­m feitas à base da pistola e sobre o lombo do cavalo, em um ambiente inóspito, Jake (Daniel Craig) é um forasteiro que parece ter caído de para-quedas na ci­dade de Absolution. Porém, quando começa a encontrar outras pessoas da cidade, se dá conta que perdeu tudo, inclusive a sua memória. E a única coisa que possui é um bracelete no pulso que até tenta tirar, mas parece impossí­vel. O seu passado, porém, vai voltando em forma de flashback e contando a história e como foi parar ali.

Os problemas que vai enfrentar, no entanto, não se resumem aos outros fora-da-lei que saqueiam a cidade, destroem o bar etc., mas alienígenas…

Para ajudá-lo, chega a também fo­­ras­teira Ella (Olivia Wilde, de “72 Hotas”), que tem um papel intri­gan­te, principalmente por conta do mistério que envolve a sua perso­nagem. E, como Jake não se lembra de nada, não faz ideia se a conhece ou não.

Daniel Craig, que viveu recentemente James Bond em “007 Cassino Royale”, por exem­plo, se inspirou em longas de fa­roeste, como os de John Wayne, para formar seu perso­nagem. A sequência do início, para se ter uma ideia, não tem um diálogo sequer. Apenas forasteiros que atacam Jake, mas acabam levando uma coça. Ao seu lado está Harrison Ford, que ficou bastante conhecido por ter vivido Indiana Jones no cinema. Aqui, ele faz o coronel Woodrow Dolarhyde, que tenta solucionar os problemas das invasões, mas parece não ter voz em sua própria cidade.

Em meio a índios apaches e cowboys, os alienígenas (figuras estranhas, feitas a partir de uma mistura de inseto, anfíbio e criatura do mar) se misturam e são tratados como demônios pelos mora­dores da cidade. E um dos gran­des erros do longa-metragem, baseado na HQ de Scott Mitchell Rosenberg, e com roteiro de Mark Fergus e Hawk Ostby (que trabalharam juntos em “Homem de Ferro”), é não explicar o que está acontecendo, principalmente porque o roteiro não faz questão de privilegiar a história dos personagens, de modo que o espectador não se envolve com a trama, tampouco torce para um, especificamente, fazendo com que a fita seja cansativa.

As cenas de ação não motivam nem convencem. Quando os aliens atacam o vilarejo, só há morte e destruição, já que utlizam armas de destruição em massa. Lá pelas tantas, o espectador descobre que os aliens estão em busca  do ouro. Alguma relação com os europeus quando chegaram para colonizar a América?

Com direção de Jon Favreau (“Homem de Ferro” e “Homem de Ferro 2”), “Cowboys & Aliens” não tem uma história cativante, principalmente porque muita coisa parece falsa, ainda que as inovações tecnológicas sejam importantes na concepção dos efeitos especiais necessários para o desenvolvimento dos aliens. Ao final, as cenas de des­trui­ção tomam conta da tela gran­de e o final é previsível. Mas ainda falta senso de humor e um pro­pósito. E isso, nem Craig nem Ford podem salvar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

UM CONTO CHINÊS

Antonio Carlos Egypto

UM CONTO CHINÊS (Un Cuento Chino). Argentina, 2010. Direção e roteiro: Sebastian Borensztein. Com Ricardo Darín, Huang Sheng Huang, Muriel Santa Ana. 100 min.


Roberto (Ricardo Darín) é um cara solitário e amargurado, que guarda fortes e tristes lembranças de um passado recente da Argentina. Está convencido de que todo mundo é sacana e que quem puder passa a perna no outro. Ele tem uma loja de ferragens e constata que a humanidade não merece mesmo crédito, numa cena bem bolada do filme. Vê-se Roberto contando pregos, um a um, até chegar a 323 e a verificação de que na caixa do produto havia a informação de 350 pregos. Telefona furioso ao fornecedor, que pergunta, perplexo: Mas o senhor contou os pregos?

Roberto coleciona notícias estranhas, terríveis, de todo o mundo, que comprovam sua tese de que a humanidade, decididamente, não deu certo. Até notícias fantásticas que acabam em tragédia lhe interessam, como uma vaca que caiu do céu, na China, a primeira cena mostrada no filme.

Isso, apresentado no começo da fita, mostra com quem estamos lidando. Mas a obsessividade do personagem é mostrada em outra cena cinematograficamente interessante. Ele dorme pontualmente às 23:00 h, todos os dias, ele já está na cama, mas só apaga a luz quando o relógio digital marca 23:00.

Pois é esse personagem que enfrentará uma situação curiosa: um chinês de 25 anos, de nome Jun (Huang Sheng Huang) é roubado e arremessado de um táxi em Buenos Aires, na cara de Roberto. O que fazer com um chinês desamparado e perdido, que não tem dinheiro e não fala uma palavra de espanhol? Deixá-lo às traças, na rua? É crueldade demais, até para o obsessivo e desconfiado Roberto.

Descobrir com muito custo que o chinês busca um tio que mora na cidade será que resolve alguma coisa? Claro, pode-se recorrer à polícia, à embaixada chinesa, ir ao bairro chinês em busca de ajuda e até encontrar um entregador de restaurante de comida chinesa, que fale a língua. Mas que é uma complicação dos diabos, que mexe com a vida de alguém tão solitário e regrado, não há a menor dúvida.

A partir dessa situação cômico-trágica, “Um Conto Chinês” apresenta uma trama bem amarrada, o que supõe um roteiro cuidadosamente construído, em que os poucos diálogos , a mímica e as expressões faciais se destacam.

O desempenho dos atores para criar o clima de estranhamento no relacionamento conta muito. O talentoso e onipresente no cinema argentino Ricardo Darín, como sempre, tem uma atuação magnífica. Huang Sheng Huang comove na criação de um tipo tão vulnerável e, ao mesmo tempo, afável, resignado, colaborador. O inusitado desse convívio mantém a atenção do filme, do início ao fim.

Há uma trama paralela, a de uma parente de um vizinho, atraente e sedutora, vivida por Muriel Santa Ana, que dá em cima de Roberto, sem muito sucesso. E acaba se interessando também por conviver com o chinês, levando-o a passear e experimentar comidas típicas.

A situação é toda tão estranha que só poderia, mesmo, ser objeto de uma comédia. Mas aqui é tudo muito sutil, só se produzem sorrisos, não gargalhadas, e isso se faz com delicadeza e inteligência, sem apelar para nenhum dos recursos grosseiros, tão comuns nas comédias usuais da atualidade. E o que é melhor: sem clichês ou preconceitos, o que seria uma solução fácil para o caso.

Quando estereótipos aparecem na história, é para mostrá-los criticamente ou para apontar que eles resultam do desconhecimento ou da ignorância de certas coisas. Isso vale também para a descrença absoluta do personagem principal na humanidade. Quando a gente pensa que sabe tudo, descobre que, na verdade, pouco entende das coisas.

Como é quase de praxe, o filme informa que se baseou numa história real. É tudo tão plausível, que dá para acreditar. Mas, não importa: tenha acontecido ou não, dessa forma ou parecido com isso, a história é ótima e merecia virar filme. Se for fruto exclusivo da imaginação de alguém, mais criativo fica.

O que sei é que Sebastian Borensztein, diretor e roteirista de “Um Conto Chinês”, mostrou grande competência nesse trabalho. A divulgação da Paris Filmes informa que mais de um milhão de pessoas viram o filme nos cinemas argentinos. Sucesso merecido.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

APOLLO 18

Antonio Carlos Egypto

APOLLO 18 (Apollo 18). Estados Unidos, 2010. Direção: Gonzalo López-Gallego. 90 min.

As missões espaciais norte-americanas Apollo que aconteceram entre 1961 e 1972 se dedicaram a explorar a nossa lua. Até a Apollo 7, as missões não eram tripuladas. A Apollo 11, em 1969, realizou a grande conquista: o pouso de astronautas na lua. Um pequeno passo para um homem, um passo gigantesco para a humanidade. Não foi isso que disse o astronauta que pisou na lua?

As missões Apollo prosseguiram até o número 17, em 1972, e então foram interrompidas, por diversas razões: corte de verba, muito já obtido, menor interesse da população americana no projeto. Portanto, não houve uma missão Apollo 18. Ou melhor, a que poderia ser assim chamada seria uma missão conjunta americano-soviética Apollo – Soyuz, em 1975, que não tinha objetivo de chegar à lua. Corresponderia à Apollo 18 e à Soyuz 19. Mas a missão que aconteceria em 1973, a Apollo 18, foi oficialmente cancelada. Esses são os fatos conhecidos.

O filme “Apollo 18” advoga outra tese: a de que a Apollo 18 aconteceu de forma secreta, porque algo extraordinário precisava ser pesquisado. E que haveria inúmeras gravações da missão que teriam sido descobertas e formariam a base do filme.

Lançar um foguete à lua de forma secreta, sem que ninguém saiba? Como assim? Isso é possível? Se você imagina que sim, pode também pensar que algo semelhante tenha acontecido do lado soviético, na época. Ou seja, os russos também podem ter feito missões secretas, em busca desse evento extraordinário.

O que se vai ver no filme é, então, documentário? Ou uma história totalmente inventada, apresentada com cara técnica e falhas típicas de um documentário feito no espaço? Ou, quem sabe, um misto de documentário e ficção?

Uma história de suspense e terror? Afinal, a divulgação do filme coloca no cartaz: “Eles não estavam sozinhos” e se diz que a missão proibida Apollo 18 explica por que “Nunca mais voltamos para a lua”. Será que o que você está imaginando, ao ler este texto, pode ser verdade? Talvez seja divertido conferir, indo ao cinema. Divertido ou aterrorizante?