Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O CINEMA É O TEMA

Antonio Carlos Egypto

 

O cinema é o tema de dois filmes muito bons em cartaz.  Um verdadeiro presente em época de festas de fim de ano para os cinéfilos.  Confira.

 


LUMIÈRE, A AVENTURA CONTINUA!  (Lumière, l’Aventure Continue!).  França, 2024.  Direção e roteiro: Thierry Frémaux.  Documentário.  104 min.

 

Os irmãos Louis e Auguste Lumière deram início à aventura do cinema, em 28 de dezembro de 1895, com a primeira projeção pública, e paga, de filmes realizados com o cinematógrafo, no subsolo do Grand Café, Boulevard des Capucines, em Paris. O cinematógrafo coroava os esforços de um grande número de inventores e pesquisadores que buscaram o sonho de criar a fotografia animada, ou em movimento.  Entre eles, estava Thomas Edison que, com seu cinetoscópio, associado ao fonógrafo, tentou criar o cinema com imagem e som em paralelo, uma espécie de precursor do cinema falado, em 1892.  Só que isso se dirigia a um espectador por vez, que precisava olhar num visor.

 

Antoine Lumière, o pai de Louis e Auguste, proprietário de uma fábrica em Lyon, trabalhava com fotografia e película, conheceu o equipamento e teria dito que era preciso libertar as imagens daquela caixinha e pô-las para que todos as vissem simultaneamente.  Estimulou seus filhos a encontrar a solução técnica para isso.  Estamos diante, portanto, de uma família de criadores, inventores, técnicos.  Com a patente do cinematógrafo, também negociantes.  Embora isso já seja uma coisa fantástica, é muito mais do que isso.

 

Thierry Frémaux, diretor do Instituto Lumière e do Festival de Cannes, com seu novo filme, nos mostra, mais uma vez de forma inequívoca, que os irmãos foram grandes cineastas, responsáveis não só pela criação e difusão do cinema como pelo estabelecimento da linguagem cinematográfica tal como a conhecemos hoje.  E com grande talento. “Lumière, a Aventura Continua” retoma a compilação dos filmetes de 50 segundos de duração dos Lumière e de seus operadores, de 1895 a 1905.  No filme, composto e comentado por ele, desfilam cerca de 120 filmes, selecionados da coleção de milhares realizados.  Parece um milagre, foram encontrados mais de 1400 filmes deles, que estão sendo restaurados e cujo material serve de base ao conceito de que os Lumière sabiam usar e posicionar uma câmera, fazer o enquadramento preciso, trabalhar lindamente com a luz, com o tempo e a agilidade do filme, com as pessoas que estão à frente da câmera e com a impressão que as imagens podem causar.

 

A fotografia é esplêndida, de um preto e branco bem contrastado, perfeito.  A nitidez da fotografia é uma surpresa.  A profundidade de campo já era explorada, é tão nítida na frente quanto no fundo.  Eles também produziram o travelling e a filmagem bem de perto, o zoom.  Tudo isso com uma câmera sem visor, com os recursos técnicos dos primeiros tempos.  Limitadíssimos, portanto.  O texto, em off, de Frémaux, é uma preciosidade.  Ele aponta para tudo o que foi a criação dos Lumière, os registros individuais e coletivos, os eventos, as paisagens humanas urbanas, os detalhes e muitas coisas que a gente não veria, se não fosse alertado para elas. Se ‘Lumière, a Aventura Começa”, de 2016, já foi uma aula obrigatória para quem gosta de cinema, a sequência dessa experiência é um aprofundamento na leitura desses grandes pioneiros da arte cinematográfica. Indispensável.





NOUVELLE VAGUE (Nouvelle Vague).  França, 2025.  Direção: Richard Linklater.  Elenco: Guillaume Marbek, Zoey Deutsch, Aubry Dullin, Adrien Rouyard, Antoine Besson, Jodie Ruth-Forest.  105 min.

 

“Nouvelle Vague”, como o nome já indica, é uma homenagem ao movimento cinematográfico francês que modernizou o cinema nos anos 1960, na vanguarda dos demais movimentos de renovação do cinema, entre eles, o cinema novo brasileiro.  Seus maiores expoentes estão em evidência em São Paulo.  François Truffaut (1932-1984) está sendo reexibido na íntegra numa mostra de 26 filmes no Cinesesc e é um dos personagens do filme de Richard Linklater, naturalmente.  Mas o destaque do filme “Nouvelle Vague” é Jean-Luc Godard (1930-2022) e a sua obra-prima “Acossado” (A But de Souffle), de 1960, que é um dos mais importantes trabalhos da história do cinema.  E que aconteceu depois do êxito extraordinário de “Os Incompreendidos”, de 1959, de Truffaut.

 

No filme do cineasta norte americano Richard  Linklater, destaca-se a figura do diretor Godard (Guillaume Marbek) e do casal de atores centrais de “Acossado”, Jean-Paul Belmondo (Aubry Dullin) e Jean Seberg (Zoey Deutsch) e o clima especial da juventude daquela filmagem, para lá de inovadora e surpreendente.

 

Naturalmente quem conhece e curte o filme e já o viu algumas vezes vai se empolgar de conhecer essa narrativa, os detalhes dela, especialmente.  Para quem não conhece o filme original, sua história ou importância, fica mais difícil aproveitar a experiência e se divertir com “Nouvelle Vague”.  Nesse caso, no entanto, valeria a pena assistir ao filme atual e, em seguida, ver “Acossado”, ou vê-lo antes, se for possível.  Servirá para cobrir uma lacuna importante do cinema mundial.

 

Destaco que a dupla central de ator e atriz do filme é um achado, são talentosos, lembram muito os originais e a química entre ele e ela.  Isso acontece também com os personagens de Godard, Truffaut e outros.  Houve um cuidado especial na procura das figuras que deveriam representar esses grandes nomes do cinema francês e mundial da época.  Praticamente todas as grandes figuras da nouvelle vague e seus contatos aparecem ou são citadas no filme.  Gente como Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Alain Resnais, Roberto Rossellini, Agnès Varda, Jacques Demy, Jean-Pierre Melville.  A lista é enorme.  Vale a pena lembrar deles.  Deixaram um legado extraordinário para a história do cinema.

                     ---------------------------------------------

E para finalizar, deixo aqui um abraço a todos e todas que estiverem me lendo neste momento e que costumam acompanhar o cinema com recheio.  Meu desejo de Boas Festas e um novo início de ano estimulante e esperançoso para todos nós.  Viva 2026 e Viva o Cinema!

 

 

 

 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

CALÍGULA e ARCA

Antonio Carlos Egypto

 



CALÍGULA: O CORTE FINAL (Caligula the Ultimate Cut).  Estados Unidos, Itália, 2024.  Uma nova versão do filme de 1979, dirigido por Tinto Brass, com base em roteiro de Gore Vidal.  Restaurado e produzido por Thomas Negovan, que trabalhou na nova edição de Aaron Shaps.  Reedição: Bob Guccione, Franco Rossellini.  Elenco: Malcolm McDowell, Helen Mirren, Peter O’Toole, John Gielgud, Teresa Ann Savoy.  178 min.

 

O filme “Calígula”, de 1979, quando aqui lançado, causou polêmica e escândalo pela ousadia, pelo excesso de nudez e pornografia, numa época em que havia censura no país.  Portanto, deve ter sido muito cortado.  Mas o filme foi rejeitado pela crítica, pela falta de sentido, pela gratuidade ou descontextualização de tantas sequências e pela fragmentação de sua narrativa.  Por que relançá-lo agora, 43 anos depois, novamente nos cinemas?

 

Bem, apesar de todos os defeitos, era um épico grandioso, que reuniu um elenco espetacular, e o escritor Gore Vidal como roteirista.  Mas há algo mais: 96 horas de filmagens, realizadas desde 1976, em grande parte nunca vistas.  Valia a pena refazer do zero esse filme, com uma nova montagem, nova trilha sonora, recuperação de imagens com cenários incríveis, suntuosos. 

 

O que se vê agora é que realmente valeu a pena.  “Calígula: O Corte Final” é um filme que faz todo o sentido, conta a história do imperador romano corrupto, violento e insano, que se autoproclamava deus e que marcou seu período de poder de uma forma corrompida, com fim trágico. 

 

A nova versão eliminou os excessos de pornografia, que não tinham outro sentido do que obter bilheteria, num filme quase incompreensível.  Claro que ainda há bastante nudez e também pornografia, mas em equilíbrio com a história que vai sendo contada, amarrando as pontas.  Digamos que os exageros que ainda existem são bem toleráveis.

 

Havia muito material a ser conhecido e trabalhado, mas mesmo assim não havia necessidade de realizar o “novo” filme com 3 horas de duração.

 

De qualquer modo, é um trabalho que merece ser visto e reconhecido pelo muito que foi feito a partir daquelas filmagens abandonadas, que ganharam restauro e nova vida.

 

 


Gostaria de recomendar uma animação, que está em cartaz, e é muito legal: “ Arca de Noé”, dirigida por Sérgio Machado e Alois Di Leo, inspirada na obra de Vinícius de Moraes.  Tom e Vini são dois ratos amigos e talentosos para a música.  Só que o grande dilúvio, que levou à construção da Arca de Noé, só permite dois exemplares de cada espécie animal: um macho e uma fêmea, não dois machos.  Vai daí que um deles será levado elas águas, a menos que...  paremos por aqui. A mensagem final é que, para se salvar, todos têm de colaborar, os mais fortes protegendo os mais fracos e ninguém solta a mão de ninguém. 

 

Os desenhos animados e divertidos dessa bicharada toda ganham charme nas vozes de Rodrigo Santoro, Marcelo Adnet, Alice Braga, Lázaro Ramos, Gregório Duvivier, Ingrid Guimarães, Heloísa Périssé, seu Jorge e muitos mais.

 

A bela música do filme, extraída dos álbuns Arca de Noé I e II, de Vinícius de Moraes, tem aqui a interpretação, por exemplo, de Adriana Calcanhoto.  É coisa fina.  As crianças vão curtir também.  95 min.



quarta-feira, 29 de novembro de 2023

FILME HISTÓRICO

Antonio Carlos Egypto

 


Foi descoberto um documentário brasileiro histórico, realizado entre 1918 e 1920, numa época em que o próprio conceito de documentário não estava firmado.  Claro que os filmes que deram início ao cinema, realizados pelos irmãos Lumière na França, datados de 1895, são documentais.  Como classificar “A Chegada do Trem na Estação” e “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière” de outra forma?  Eram filmes só com 50 segundos de duração cada um, conquanto haja mais de 1000 filmes desses. 

 

Enfim, o documentário em questão é AMAZONAS, O MAIOR RIO DO MUNDO, realizado por Silvino Santos (1886-1970), cineasta luso-brasileiro, e tem 66 minutos de duração.  Esse filme estava desaparecido, considerado como perdido, desde meados dos anos 1930.  Surpreendentemente, foi reencontrado, com título alterado, como se fosse norte-americano, pelo Arquivo Nacional de Cinema da República Tcheca.  Imagine só. Foi lá que foi identificado e suas imagens disponibilizadas para a Cinemateca Brasileira, por Klára Trsková, que fala português (de Portugal) e esteve presente em vídeo ao debate realizado após o filme, aqui na Cinemateca, em 22 de novembro de 2023, com Eduardo Morettin, Sávio Luís Stoco, mediado por Giuliana de Toledo.

 


O desaparecimento se explica também porque um colega de Silvino, Propério de Mello Saraiva, levou o filme para comercializar na Europa, mudou o título e o vendeu como se fosse dele.  O próprio Silvino “refez”, refilmou o seu trabalho, e com o título de “No Paiz das Amazonas” obteve êxito em 1922.

 

AMAZONAS, O MAIOR RIO DO MUNDO é muito bem realizado, mostra enfaticamente a beleza da natureza, em exuberante fotografia em preto e branco, restaurada.  É bastante didático, ao mostrar festas populares, povos indígenas e, principalmente, as possibilidades produtivas da Amazônia, com a extração e comercialização de borracha, da castanha do Pará, do algodão, dos peixes, da mandioca, etc.. Na verdade, prega a exploração desses recursos sem questionar as consequências para o meio ambiente.  Seria pedir muito naquele tempo?  Talvez, mas os interesses industriais e comerciais já eram bastante claros, então.

 

De qualquer modo, a redescoberta do filme ajusta os ponteiros para a história do cinema brasileiro e mundial.  Basta dizer que o primeiro grande documentário conhecido e com destaque na história do cinema é o franco-estadunidense “Nanook, o Esquimó” (Nanook of the North), de Robert Flaherty, com 83 min., de 1922. 

 

A Cinemateca Brasileira seguirá realizando exibições do filme, não só em São Paulo, mas em diversas cidades brasileiras.  Quem tiver a chance de vê-lo vai gostar.  Originalmente mudo, foi exibido com uma trilha sonora original, composta pelo compositor Luiz Henrique Xavier, que quebra a expectativa da grandiloquência das imagens com muita eficiência.  Os intertítulos em tcheco estão traduzidos.