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domingo, 11 de outubro de 2026

4 FILMES DA MOSTRA 50

 

 Antonio Carlos Egypto               

 

Já tive a oportunidade de ver os primeiros filmes da Mostra 50.  Aí vão meus comentários sobre eles.

 

Tigre de Papel


TIGRE DE PAPEL (Paper Tiger).  EUA, 2026.  Direção: James Gray.  Elenco: Adam Driver, Scarlett Johansson, Miles Teller, Gavin Goudey, Roman Engel. 115 min.

O filme de abertura da 50ª. Mostra, “Tigre de Papel”, traz uma relação de dois irmãos muito diferentes, mas colaboradores entre si e com afetividade. Um vem da experiência policial e parece talentoso nos negócios.  O outro, um engenheiro competente, com uma vida de classe média modesta em família.  Quando ambos se unem para realizar o negócio ideal que, além de muito lucrativo, contribuirá para o meio ambiente numa relação com empresários russos, a coisa, obviamente, desanda.  E aí é a relação deles com a máfia russa que dará o tom da ação para lá de arriscada, que abalará até o que estava bem fincado: a relação entre os irmãos.  E a própria vida deles e da família.  “Tigre de Papel” tem um bom ritmo, envolvente, um bom elenco, mas segue um padrão do gênero drama criminal e suspense esquemático, principalmente em relação à maldade dos russos.  E também pela tremenda ingenuidade dos irmãos estadunidenses em crer no tal negócio ideal, sem falhas ou fraudes, e que eles pudessem vir a ser os fiadores morais dessa história.  Entre os muitos produtores que viabilizaram o filme está o brasileiro Rodrigo Teixeira, que tem participação significativa na produção cinematográfica mundial atualmente.  O diretor James Gray virá à 50ª. Mostra, elaborou o cartaz do evento e terá uma retrospectiva de seus filmes.

 

Um Pouco de Esperança

UM POUCO DE ESPERANÇA (Kami Nour), do Irã, 2026, do diretor Alis Asgari, que estará na 50ª. Mostra, é um filme poderoso pelo questionamento que coloca.  A decisão de cometer suicídio pode ser algo mais do que uma decisão pessoal e isolada?  Ela poderá ser compartilhada antes do ato final com as pessoas mais próximas da família?  E o que esperar delas?  Ou seja, é possível a socialização dessa experiência?  É possível contar com a ajuda de parentes e colegas de profissão (no caso, trata-se de um médico)?  O suicídio é uma questão individual ou coletiva, comunitária?  “Um Pouco de Esperança” faz lembrar o grande filme iraniano “Gosto de Cereja”, de Abbas Kiarostami, de 1997, em que um suicida pedia ajuda previamente a pessoas para que pudessem enterrá-lo.  A questão é mesmo complexa e esse tabu merece ser cada vez mais discutido, com evidentes dificuldades quando entra em cena o pensamento religioso.  Este é mais um talentoso filme sobre o tema do suicídio, sendo abordado num país em que essas questões são especialmente delicadas.  E o filme não se esquece de ligar a questão da morte aos bombardeios norte-americanos a Teerã, aos protestos contra o regime dos aiatolás e ao autoritarismo em suas ações que estão na base da decisão radical que o médico tomou.  Atualizadíssimo!  89 minutos.

 

O OUTRO LADO DAS REDES (The Social Reckoning).  EUA, 2026.  Dirigido por Aaron Sorkin, que já tinha sido roteirista do filme “A Rede Social”, dirigido por David Fincher, volta ao tema de forma ainda mais crítica do que em 2010.  Se lá estava se descobrindo o peso e a importância da rede social e já se levantavam questões críticas, agora as consequências maléficas estão aí, à vista de todos.  O que o filme aborda já sabemos por aqui, com um agravante, as decisões não são tomadas pelos Zuckerbergs da elite estadunidense, como lá, mas fora do próprio país, no caso do Brasil.  Enfim, o filme não traz muita novidade, nem no tema, menos ainda na forma, tradicional, acadêmica.  112 minutos.

 

Variações sobre um Tema

O filme da África do Sul indicado para a disputa do Oscar internacional pelo país, VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA (Variasies op’n terna), é dirigido por Jason Jacobs e Devon Delmar.  Tudo se passa nas montanhas de Namaqualand, na África do Sul, em que variações e recorrências tanto visuais quanto de diálogos mostram, por meio de uma pastora de cabras idosa, uma fraude que se repete, uma espera contínua que perde o sentido com o aniversário dos 80 anos dela, sempre aguardando por um dinheiro que nunca chega.  A base da fraude é bem conhecida, é preciso ficar pagando uma quantia para que o dinheiro prometido chegue um dia.  Ele nunca chegará e a vida se esvairá em espera, resistência e perda.  Tudo mostrado com simplicidade, beleza, um uso magnífico da luz e uma fotografia exuberante, numa estética da precariedade que é reflexo da cultura local do ambiente rural das aldeias, onde a rotina se repete incansavelmente.  Média metragem de 65 minutos.

 

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quarta-feira, 29 de abril de 2026

A SOMBRA DE MEU PAI

                  

Antonio Carlos Egypto


 



A SOMBRA DE MEU PAI, de Akinola Davies Jr., da Nigéria e Reino Unido, 2025, participou da competição Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Recebeu o prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional e o prêmio Brada de Melhor Direção de Arte. É um filme envolvente, humano, terno e, ao mesmo tempo, firme e realista na avaliação política.

 

Em Lagos, na Nigéria, um pai que tem estado muito ausente tem a oportunidade de conviver com seus filhos, levando-os com ele à cidade grande, onde espera receber salários atrasados a que tem direito.  

 

As eleições presidenciais tinham acabado de acontecer, mas os resultados esperados não tinham sido proclamados.  Com a esperança de melhoria de vida com o novo governo, eles conhecem a resposta quando ainda estão na metrópole e tentam voltar à sua vila em paz.  Só que a agitação política já se instalou.  

 

Um filme que, com um elenco muito bom, explora bem o clima afetivo que aproxima pai e filhos, as agruras da vida que se dissolvem em pequenos bons momentos, a esperança que sempre existe e a sofrida democracia do nosso tempo.  94 min.

 

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

A VOZ DE HIND RAJAB

                       

Antonio Carlos Egypto

 




A VOZ DE HIND RAJAB (Sawt Hind Rajab).  Tunísia, 2025.  Direção: Kaouther  Ben Hania.  Elenco: Amer Hiehel, Clara Khouri, Motaz Malhees, Saja Kilani.  89 min.

 

“A Voz de Hind Rajab” é um filme tenso, angustiante e de suspense.  Infelizmente baseado em fatos reais que nos assustam e às vezes nos fazem descrer da própria humanidade.  O filme da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania é uma encenação de uma situação que não só ocorreu como vem acontecendo seguidamente na Faixa de Gaza. 

 

Trata-se de uma menina de 6 anos que conseguiu pedir ajuda por telefone à Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, quando o carro em que estava com o tio e sua família foi bombardeado por um tanque israelense e todos ao redor da menina estavam mortos.  A mãe e o irmão dela não estavam com eles.

 

O Crescente Vermelho é um órgão independente e reconhecido, que atua com voluntários e é vinculado ao Movimento Internacional da Cruz Vermelha.  Para atuar no resgate de pessoas em Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza, precisa de uma coordenação que passa pela autorização de várias partes para gerar uma rota segura.  Muitos voluntários já perderam a vida nessa atividade. 

 

O que o filme mostra é a atuação do serviço de retaguarda ao telefone que abre a coordenação do resgate.  Um carro de socorristas estava teoricamente a oito minutos do veículo onde a menina clamava por ajuda, para que fossem buscá-la, mas com o tempo decorrido de três horas o assunto ainda não estava resolvido.

 


O que estavam fazendo e sentindo os atendentes do posto telefônico pode-se imaginar, e é o que o filme faz, mas as conversas ao telefone que aparecem no filme foram resgatadas e são os áudios originais reais.  O que só torna a experiência ainda mais aterrorizante e nos coloca na situação de impotência e, ao mesmo tempo, chama à nossa responsabilidade pelo que está acontecendo no nosso mundo nesse momento.

 

O filme praticamente se passa no tempo decorrido das muitas conversas mantidas com a menina Hind, com sua mãe e também com os diversos órgãos que precisam ser acionados para que a operação possa acontecer.  Tudo isso se passa a seco, sem trilha sonora musical.  É realidade na veia, não tem por onde escapar.

 

“A Voz de Hind Rajab” é um dos cinco filmes selecionados para a disputa do Oscar de filme internacional, agora em 15 de março de 2026.  Seus concorrentes são: “O Agente Secreto”, do Brasil, “Valor Sentimental”, da Noruega, “Foi Apenas um Acidente”, da França/Irã, e “Sirât”, da Espanha.  Um quinteto de grandes filmes, sem nenhuma dúvida.   O filme da Tunísia não entra como favorito nessa disputa, mas merece toda a nossa atenção.  Afinal, as vozes de todos os que estão sendo massacrados precisam ser ouvidas e esse genocídio precisa acabar.



sexta-feira, 24 de outubro de 2025

DESTAQUES DA MOSTRA 49

Antonio Carlos Egypto



Jovens Mães


 
JOVENS MÃES, de Luc e Jean-Pierre Dardenne, aborda cinco adolescentes num abrigo para mães que acabaram de ter seus bebês.  Ou seja, a gravidez que foi a termo, a despeito dos muitos problemas vividos até que essa decisão se estabelecesse.  E se a gravidez na adolescência já é um enorme problema para a maior parte das que engravidam, o início da vida como mãe é algo bem complexo e dramático.  O cinema humanista dos irmãos Dardenne mostra sua força, ao tratar desse tema com realismo e evidenciando as emoções envolvidas em cada uma das personagens retratadas e as relações que estabelecem, tanto na sociedade, com as pessoas, como entre elas.  Mostra também a diversidade das situações.  Coloca questões familiares, de gênero, de saúde pública, de programas sociais governamentais e da sociedade civil, que tem muita importância nessa questão.  Bélgica/França, 105 min.  Tem previsão de chegar aos cinemas no início de janeiro de 2026.

 

PAI MÃE IRMÃ IRMÃO, produção Estados Unidos/Irlanda/França, dirigido pelo veterano e brilhante cineasta Jim Jarmusch, levou com muitos méritos o Leão de Ouro em Veneza.  O filme trata de relacionamento familiar, pais e filhos e irmãos, por meio de três histórias, uma nos Estados Unidos, outra, na Irlanda, em Dublin, e outra em Paris, na França.  Em comum, o clima estranho e irônico que Jarmusch imprime às situações.  Aqui, as coisas não fluem, o formalismo impede a espontaneidade, a sem-graceza toma conta dos relacionamentos familiares.  Tudo soa estranho, algo inesperado, falso, de aparências.  Muito curioso.  Mostra o diretor em plena forma, fiel a seu estilo.  Apoiado por um elenco espetacular: Tom Waits, Adam River, Charlote Rampling, Cate Blanchet, Mayin Bialik e outros.  Comédia muito inteligente e crítica.  110 min.


A História do Som

A HISTÓRIA DO SOM, produção Estados Unidos/Reino Unido/Itália, dirigido por Oliver Hermanus, nascido na África do Sul.  Em Boston, em 1917, Lionel e Davi, estudantes de música, se conhecem e, apaixonando-se pelas folksongs, percorrem os Estados Unidos registrando canções para serem reproduzidos no gramofone.  Essa longa viagem os aproxima muito e daí surge uma paixão também entre eles, para além da música.  Eles se separam ao final da viagem, tomando rumos distintos, mas o vínculo que construíram jamais morrerá.  O que construíram juntos pela história da música, também não.  Bela e cuidadosa produção, com boa música e uma dupla de protagonistas ótima: Paul Mescal e Josh O’Connor.  127 min.

 

MIRRORS No. 3, da Alemanha, dirigido por Christian Petzold, já bem conhecido dos cinéfilos por aqui, é um trabalho muito interessante.  Mostra uma estudante berlinense que sofre um acidente de carro com o namorado, no campo, e sobrevive milagrosamente.  Se ela já não estava bem, agora, então, está muito abalada, ainda que fisicamente praticamente ilesa.  As circunstâncias a levam a Betty, que a acolhe próxima ao local do acidente, onde mora, a mantém por lá e se afeiçoa por ela.  Marido e filho distantes se aproximam para um convívio em que os traumas de uma perda deixaram marcas e uma separação entre eles quase intransponível.  Do convívio entre desgraças, no entanto, algo de novo resultará, transformando todos e cada um, do jeito que for possível.  No final das contas, um filme muito realista, mas esperançoso também.  86 min.

 

URKIN, do Reino Unido, dirigido por Harris Dickinson, nos mostra o personagem Mike (Frank Dillane) como morador de rua, conseguindo um albergue por um tempo, na prisão, em alguns trabalhos na limpeza urbana ou na cozinha de um restaurante.  Ou, ainda, roubando de alguém que pretendia ajudá-lo.  O que fica evidente no filme é que o que vivemos depende de nossas escolhas e da resiliência necessária para viabilizá-las.  Claro que a ausência de recursos materiais ou educacionais influi muito, mas não é determinante para o insucesso.  No caso de Mike, ele é jovem, branco, sem nenhuma deficiência aparente e vive num país que lhe provê alguma ajuda na sobrevivência, seja pelo Estado, seja por entidades beneméritas.  Mas ele não consegue sair da situação em que está porque não sabe como agir, atua com destempero, sem pensar, sem planejar nada para sua vida (exceto sonhos vagos).  Assim, não consegue tirar proveito de nada e ainda estraga o que lhe concederam.  Se algo se apresenta, é preciso lutar por conquistar, senão nada muda. Ou melhor, piora.  O filme é bem construído, tem elementos visuais ricos, uma boa narrativa, que não conta uma história, mas explora bem um personagem.  Da competição Novos Diretores.  99 min.

 

Feliz Aniversário

FELIZ ANIVERSÁRIO, do Egito, dirigido por Sarah Goher, tem uma pegada social relevante.  Retrata uma menina na faixa de 8 ou 9 anos, Toha, que trabalha como empregada doméstica e batalha para que sua amiga Nelly, a filha da patroa, possa realizar sua festa de aniversário.  E ela própria possa, também, soprar a vela do bolo e realizar um desejo.  Nesse processo, o filme mostra, com toda a clareza, que uma coisa é ser filha da patroa e outra, ser filha da empregada.  A rejeição é patente na pobreza e de um consumismo tolo, na riqueza.  O trabalho infantil é tolerado e explorado, apesar da evidente ilegalidade.  O filme é muito eficiente em focar toda a sua trama na figura da menina pobre e na sua luta para estar na festa de aniversário, para a qual não foi convidada.  A menina protagonista, Doha Ramadã, é muito boa, muito expressiva.  91 min. Competição Novos Diretores.

 

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domingo, 19 de outubro de 2025

FILMES QUE VI NA MOSTRA 49

Antonio Carlos Egypto

 

Fiume o Morte


Um dos melhores filmes que vi na Mostra 49 até agora foi, sem dúvida, FIUME O MORTE, que representa a Croácia na disputa pelo Oscar de filme internacional.  O diretor Igor Bezinovic nasceu em Rijeka, antiga Fiume, hoje Croácia.  Essa cidade portuária do Mar Adriático Norte já foi considerada parte de diferentes países, como a antiga Iugoslávia, Eslovênia, Itália e até como Cidade-Estado independente.  Complicado de entender.  Mas, em 1919, após a Primeira Guerra Mundial, a cidade foi tomada por cerca de 300 soldados liderados pelo poeta italiano Gabriele D’Annunzio, um fascista antes mesmo da ascensão de Benito Mussolini, interessado em anexá-la à Itália.  O filme começa conversando com os atuais habitantes sobre a figura de D’Annunzio e o que ele significa para a história da cidade, em que seu nome aparece com frequência.  Numa abordagem crítica, irônica e mesmo sarcástica, essa historiografia é revisitada, refazendo cenas e fotos do período abordado, criando situações curiosas, divertidas e inteligentes.  Ao perguntar a vários carecas, com aparência e idade similares à de Gabriele D’Annunzio na época, se gostariam de desempenhar o papel dele no filme, vários concordaram e todos fazem o papel, em rodízio, durante a narrativa.  A cada etapa mostrada a análise crítica aborda o absurdo e o ridículo das situações, num estilo leve, porém, sério.  O clima é perfeito, ainda que não possamos entender toda essa complexa história de Rijeka (Fiume).  Um cinema talentoso, com muito frescor e comunicação, esperta e engraçada.  112 min.

 

Também vi e gostei, na Mostra 49, do filme do Reino Unido, CÍRCULO RETO, da competição Novos Diretores, de Oscar Hudson.  Trata da relação que se estabelece entre dois soldados adversários, que dividem um espaço fronteiriço em pleno deserto, absolutamente vazio.  A situação é absurda e que sentido tem identidades nacionais, patriotismo, regras a serem cumpridas com fidelidade nesse isolamento?  O convívio forçado e o conflito inevitável acabam por borrar as diferenças e aproximar o que é aparentemente oposto.  A ponto de tudo se perder e se misturar.  O filme explora com talento essa narrativa simbólica, vale-se de dois quadros simultâneos em parte do tempo e investe num clima de non sense.  Com dois ótimos atores protagonistas: os irmãos gêmeos Luke Tittensor e Elliot Tittensor.  109 min.

 

Círculo Reto

Também vi FRANKENSTEIN, de Guillermo del Toro, produção estadunidense, com 149 minutos de duração.  Trata-se de um hiperespetáculo, extravagante, hiperbólico, sobre o tema clássico de Mary Shelley do cientista Victor Frankenstein, que cria um monstro.  Sua criatura, no filme atual, tem uma força descomunal, capaz de movimentar com as mãos um navio cheio de gente.  E mais: é absolutamente indestrutível, fadado a se recompor eternamente, resistindo a tudo, nem dinamite é capaz de destruí-lo.  Sendo assim, torna-se uma vítima da chamada vida eterna.  E se enraivece com isso.  Há sequências brilhantes, espetaculares, embaladas por uma música sempre intensa.  Muito sangue e violência.  Não fica nada a dever aos chamados filmes de super-heróis.  Del Toro transforma a criatura de Frankestein num super vilão, digamos sem culpa, sem maldade no coração.  Assustador, de arrasar quarteirões.  Não é assim que são chamados os blockbusters?  Em breve nos cinemas e na Netflix, para quem gosta do gênero.

 

Também vi SEIS DIAS NAQUELA PRIMAVERA, coprodução de Luxemburgo, Bélgica e França, dirigida por Joachim Lafosse.  Uma situação de drama familiar, envolvendo o direito dos netos a frequentar uma casa de praia do avô paterno, negada à mãe divorciada com quem eles vivem.  Essa família, ainda assim, vai ao local secretamente e levando o novo namorado dessa mãe.  Um detalhe, a família é negra e o namorado, branco.  O que supõe algum tipo de problema que, no entanto, é sugerido, mas não é explicitado.  Aliás, todo o clima do filme é soft.  Há uma tensão suave no ar e nada de mais intenso acontece.  Um bom filme, que não chega a empolgar.  92 min.

 

A Sombra de Meu Pai

Vi, ainda, na Mostra 49, A SOMBRA DE MEU PAI, de Akinola Davies Jr., da Nigéria e Reino Unido, competição Novos Diretores.  Em Lagos, na Nigéria, um pai que tem estado muito ausente tem a oportunidade de conviver com seus filhos, levando-os com ele à cidade grande, onde espera receber salários atrasados a que tem direito.  As eleições presidenciais tinham acabado de acontecer, mas os resultados esperados não tinham sido proclamados.  Com a esperança de melhoria de vida com o novo governo, eles conhecem a resposta quando ainda estão na metrópole e tentam voltar à sua vila em paz.  Só que a agitação política já se instalou.  Um filme que, com um elenco muito bom, explora bem o clima afetivo que aproxima pai e filhos, as agruras da vida que se dissolvem em pequenos bons momentos, a esperança que sempre existe e a sofrida democracia do nosso tempo.  94 min.

 

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terça-feira, 10 de setembro de 2024

BLACK TEA

Antonio Carlos Egypto

 



BLACK TEA: O AROMA DO AMOR (Black Tea).  Mauritânia, 2024.  Direção: Abderrahmane Sissako.  Elenco: Nina Mélo, Chang Han, Michael Chang, Wu Ke-Xi.  110 min.

 

Abderrahmane Sissako é o nome, quase impronunciável para nós, de um grande cineasta da Mauritânia.  Quem viu “Timbuktu”, um belíssimo filme que ele realizou em 2015, sabe do que eu estou falando.

 

Desta vez, ele nos traz uma narrativa amorosa, de encontros e desencontros, presente e passado em conflito, mas tudo com muita sutileza e suavidade, envolvendo africanos em diáspora e chineses.

 

A jovem Aya, da Costa do Marfim, decide mudar de vida após rejeitar no altar um casamento que não a faria feliz e vai viver na China, cuidando de uma loja de exportação de chá.  É lá que ela conhece e passa a admirar Cai, um chinês mais velho, que a conduz pelos meandros das famosas cerimônias do chá.  Aprendemos com ele que o chá se degusta em três goles, após sentir o aroma, no primeiro, sorvendo a atmosfera, depois, a fragrância e, por último, os sentimentos.

 

O envolvimento amoroso entre Aya e Cai vai encontrar barreiras nos preconceitos, são duas culturas distintas que precisam se conhecer bem para conviver em paz.  Isso acontece no cotidiano do trabalho no bairro africano da cidade chinesa Guangzhou, nas lojas de comércio, nos espaços públicos, nos cantos e danças mostrados com fartura no filme.  Destaque para as belas mornas de Cabo Verde.

 

Quando se está perto, convivendo lado a lado, as distâncias tendem a se dissolver e o conhecimento do outro, a alteridade, nos enriquece.  Os diferentes personagens que circulam nesse ambiente comum nos mostram que tudo pode fluir muito bem nessa diversidade, em que o respeito e o afeto se sobressaem.  Ainda assim, cada qual tem sua história, seus desejos, expectativas, frustrações e um passado que reverbera no presente.

 

É o caso de Aya, mas também de Cai, que tem uma história passada que o liga à África e a uma filha abandonada por lá.  As influências se misturam dos dois lados.  Acima das diferenças, paira a humanidade, comum a todos.  E os problemas, dos quais ninguém escapa.

 


Ao longo dessa trama, “Black Tea” nos faz conviver com os elementos constitutivos das culturas africanas e chinesas e das distinções dentro delas, também.  E, claro, das limitações que elas apresentam.  Em especial, exigindo a coragem do enfrentamento para as mulheres que quiserem conquistar seus espaços de felicidade.  A sororidade pode aparecer diante de conflitos amorosos ou familiares.

 

Tudo isso se dá num clima em que, mesmo as grandes tensões, não gerarão gritos, pancadaria, violência ou histeria.  O que os personagens vivem está mais dentro deles, expresso por poucas palavras e gestos.  Silêncios, inclusive.  O ambiente permanece, pelo menos aparentemente, calmo.

 

Destaques no elenco são os dois principais protagonistas.  Nina Mélo , que faz Aya, é uma jovem negra belíssima e de grande talento.  O seu partner chinês, Chang Han, é igualmente muito bom, no seu ritmo.  E todos os demais atores e atrizes os acompanham muito bem.

 

Há sequências muito atraentes e bem montadas, com belos enquadramentos.  A direção de arte compôs muito bem os cenários, e os figurinos, com destaque para os vestidos vermelhos, também merecem menção.  Os ambientes ajudam a criar o clima da história.  A música e a dança dão o toque necessário para essa trama que celebra a diversidade sem alarde, com discrição e sutileza.  Tal como o ritual do chá.

 


“Black Tea” é o filme inaugural da Mostra de Cinemas Africanos 2024, que ocorre no Cinesesc, em São Paulo, de 11 a 18 de setembro, apresentando 16 longa-metragens e 4 curtas da produção atual de 14 países africanos.  Em seguida, a Mostra acontecerá de 18 a 25 de setembro, em Salvador, na Bahia.



terça-feira, 24 de outubro de 2023

CINEMATOGRAFIAS PERIFÉRICAS NA # 47 MOSTRA


Antonio Carlos Egypto

  


A situação proposta pelo filme do Quirguistão PRESENTE DE DEUS (Teniberdi) é bastante interessante e muito bem realizada.  Ele conta com um andamento previsível até um certo ponto, mas consegue ir além do esperado.  O que se passa no filme da diretora Asel Zhuraeva é que um casal de idosos, na faixa dos 80 anos, com a saúde já debilitada, vivendo num pequeno lugarejo, encontra um bebê de 6 meses deixado à porta da casa e tem de resolver o que fazer com isso.  Assumir e cuidar?  Entregar para a polícia?  Para o governo, por meio do Serviço Social?  Subornar autoridades para conseguir a adoção do bebê, legalmente inviável?  A trama vai por aí, num filme afetivo, terno até, com excelentes atores, que se comunica muito bem com o público.  Na sessão em que eu assisti, o filme recebeu aplausos ao final.  Isso tudo num filme sintético, de apenas 75 minutos.

 


UMA ESTRADA PARA UM VILAREJO (Gau ayeko bato), filme do diretor Nabin Subba, do Nepal, é uma pequena joia fílmica, que tem um fascinante ator mirim num bom elenco.  Tudo começa com a chegada do primeiro ônibus à localidade isolada até então.  A modernidade, a partir do ônibus, é saudada como grande avanço por parte das autoridades locais.  Agora será possível ir à cidade regularmente e conhecer as novidades do mundo moderno, como a coca-cola (com descarada propaganda do refrigerante no filme), os modernos celulares e as grandes e sofisticadas TVs atuais.  Se isso vai mexer nas necessidades dos adultos e da comunidade, imagine numa criança esperta e interessada em tudo.  Essa criação de necessidades, típica do capitalismo de consumo, vai criar uma nova dinâmica na família do tecelão Maila, pai do menino.  Mas vai mexer também nos costumes e tradições da aldeia e tudo começa a mudar.  Como o vínculo à aldeia versus ir ao estrangeiro.  Como o modo de trabalhar e sobreviver, com a necessidade de ganhar muito mais dinheiro para ter acesso aos bens tecnológicos da atualidade.  Um mundo que desmorona, se desorganiza, mas que, de algum modo, tenta equilibrar os novos apelos com a sua história.  Um filme que tem beleza, ritmo, e que estimula a reflexão do público.  105 minutos.

 


O filme de Camarões, MAMBAR PIERRETTE, de Rosine Mbakan, centra-se na figura que dá nome ao filme.  Mambar, costureira de prestígio na sua comunidade, a cidade de Douala, tenta viver com dignidade do seu ofício, numa realidade de pobreza, da qual ela faz parte.  É uma liderança junto a seus clientes, a quem ajuda de outras formas, como confidente e conselheira.  No entanto, tem de enfrentar enormes dificuldades quando é assaltada, um temporal inunda sua casa e oficina, entre outros infortúnios que fazem parte da rotina do lugar.  Quem tem um bom personagem como Mambar pode dispensar uma história, como é o caso aqui.  E o filme mantém o interesse.  93 minutos.

 


EXCURSÃO (Ekskurzija), da Bósnia-Herzegovina, indicado ao Oscar de filme internacional, da diretora Una Gunzak, nos remete à importância do trabalho de educação sexual nas escolas.  Num colégio de Sarajevo, uma adolescente do ensino fundamental conta, num jogo, que fez sexo com um garoto maior, do ensino médio.  Leva adiante a mentira, simulando ter ficado grávida.  Isso acaba criando um ruído e uma série de problemas, afetando o dia-a-dia da escola e uma excursão que está sendo planejada.  Aponta para o fato de que, no gênero feminino, a fama de ser experiente tem o efeito contrário à do masculino.  Se dá prestígio ao menino, tende a abalar a moral da menina.  No caso, agravado por uma mentira reiterada.  O filme não vai muito longe na discussão do tema, mas trata corretamente da questão, numa abordagem fílmica convencional. 93 minutos.

 


BEIJANDO O CHÃO ONDE VOCÊ PISOU (Hai Ou Lai Guo De Fong Jian), de Macau, dirigido por Hong Heng Fai, decepciona por excesso de pretensão, ao tratar de dois personagens do âmbito artístico.  Um escritor em crise e um ator que não alça o voo desejado convivem num apartamento, atraídos um pelo outro de formas distintas. Enquanto isso, a tela faz citações literárias, com música sofisticada, mas não chega a lugar nenhum.  94 minutos.

 


GAUGUIN E O CANAL (Gauguin y el Canal), filme do Panamá, dirigido pelo cineasta português Frank Spano, trata da estada do pintor francês Paul Gauguin (1848-1903) no Panamá, na época da construção do famoso Canal.  O momento é turbulento, ele enfrenta um julgamento, uma doença e uma dívida que o obriga a pintar uma grande tela.  Viveu os seus últimos dias entre a loucura e a sanidade.  O filme recorre às visões do inconsciente de Gauguin com as pessoas com quem ele convivia, de forma alegórica, trazendo uma grande intensidade às cenas. Essa parte da história de Gauguin, retratada no filme, é menos conhecida.  O que cria um interesse a mais para o espectador.  95 minutos.

 

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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

NOSSA SENHORA DO NILO

Antonio Carlos Egypto

 

 


 

NOSSA SENHORA DO NILO (Notre-Dame du Nil).  Ruanda/França, 2021.  Direção: Atiq Rahimi.  Elenco: Santa Amanda Mugabekazi, Albina Sydney Kirenga, Angel Uwamahoro, Clariella Bizimana.  93 min.

 

O liceu Notre-Dame du Nil é um colégio interno católico isolado no alto de uma colina, dirigido à formação de meninas da elite ruandense (hutu ou tutsi).  Esse liceu, em 1973, testemunhou fatos que demonstram como os antagonismos da sociedade ecoam, ainda que distantes do centro urbano e numa atmosfera aparentemente de ensino e harmonia, coordenada por freiras.  Na realidade, esses fatos prenunciaram o genocídio vivido em Ruanda em 1994.  Questões de poder político se desdobram em questões étnicas, de raça e de religião.  Regimes totalitários perseguem e atingem as elites e os intelectuais.

 

É isso que o filme “Nossa Senhora do Nilo” nos mostra sem sair do ambiente do liceu, no alto da colina.  Que acaba funcionando como o microcosmo da luta fratricida de Ruanda, atingindo moças adolescentes, inocentes de tudo e ingênuas da vida.  Questões simbólicas, no entanto, podem ser vividas ali, na etnia hutu ou na etnia tutsi, quando entram em cena um desenhista/pintor que cultiva tradições ou uma bruxa com poderes relevantes.

 

Filmado numa bela locação, justamente no alto das montanhas, em Ruanda, numa escola católica que ainda mantém edifícios antigos assim situados, cria o clima ideal para o desenvolvimento da história.  O filme se baseia em um romance autobiográfico de Scholastique Mukasonga, lançado em 2012.  A autora criou uma ficção para se distanciar um pouco das vivências que teve, mas reconhece que acabou espelhando sua própria história, mais do que desejaria.

 



A direção do filme coube ao cineasta afegão, que vive na França, Atiq Rahimi (de “A Pedra da Paciência”, 2012), que não conhecia muito a situação de Ruanda, mas viu bastante similaridade das questões tratadas no livro com a realidade do Afeganistão, no mesmo período abordado.  Ele é um diretor sensível às questões sociais, aos sofrimentos das pessoas em situação de guerra e opressão, e fez um filme que reflete tudo isso num momento de vida de juventude, em que cabem também as brincadeiras, os jogos, a alegria das meninas.  Pelo menos até que a polarização étnica invada esse mundo, inapelavelmente.

 

Com uma fotografia que exalta as cores da natureza e a beleza das jovens negras do liceu e com um elenco muito vibrante, o diretor Rahimi faz um belo filme.

 

Apesar da violência e do sofrimento que retrata, “Nossa Senhora do Nilo” também nos conquista nos momentos de vitalidade e alegria que estão lá, enquanto a tristeza não vem.  E a tristeza que se impõe acentua o disparate das disputas étnicas destrutivas que se valem da morte ao diferente, visto como inimigo pela simples existência, na luta pelo poder.  Como dizia o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, parece que, afinal, o ser humano não deu muito certo...