sexta-feira, 3 de julho de 2026

FRANZ

Antonio Carlos Egypto

 

 


FRANZ (Franz).  República Tcheca/Polônia, 2025.  Direção: Agnieszka Holland.  Elenco: Idan Weiss, Peter Kurth, Jenovéfa Boková, Ivan Trojan, Katharina Stark.  127 min.

 

Fazer uma cinebiografia de uma figura tão extraordinária e complexa como o escritor Franz Kafka (1883-1924) é uma tarefa desafiadora.  É preciso encontrar um caminho viável que possa dar conta das muitas facetas de um personagem estranho, contraditório e, claro, genial.  Trabalhar a obra literária e a figura humana em suas relações com a realidade, o mundo, a guerra (a Primeira Guerra Mundial, no caso), o amor e a vida.

 

Quem encarou esse fantástico desafio foi a grande cineasta polonesa Agnieszka Holland.  E o caminho que ela trilhou foi, segundo a sinopse divulgada para o lançamento do filme, o mosaico caleidoscópico.  O pôster adotado para o lançamento enfatiza isso ao mostrar o rosto do ator Idan Weiss, que encarna Franz Kafka, dividido em pedaços que se deslocam para um lado e para o outro para manter a unidade.  De fato, o filme vai acoplando tudo o que diz respeito ao escritor, sem ordená-lo nem temporalmente, nem didaticamente.

 

O filme junta pedaços, mistura situações diversas, desde infância, juventude, vida adulta, atividade profissional rotineira, como funcionário público, e o escritor compulsivo que escrevia mais por necessidade do que para se comunicar. 

 

“Franz”, tratado aqui com intimidade, para ressaltar o lado pessoal, amava as palavras, via nelas a razão de ser de tudo, cultivava, com desespero até, o silêncio.  Aquele silêncio que lhe foi negado em família, marcado principalmente pelos gritos e imposições do pai.  O isolamento era algo que ele valorizava, buscava.  A impaciência e a indiferença estão na origem de todos os males segundo ele.

 


É impossível falar de Kafka sem se reportar ao que ele significa no mundo de hoje.  Ele queria destruir toda sua obra e pediu isso a um amigo, às vésperas da morte.  Felizmente, isso não aconteceu e até suas preciosas cartas sobreviveram, para nosso deleite.  Mas ele também virou mito e sua vida é esquadrinhada e sorvida com grande apelo turístico na belíssima cidade de Praga.  A diretora incorporou esse material documental à trama, misturando-o com as lembranças, fatos passados encenados como ficção, em várias etapas de sua vida, sem perder de vista a obra literária.  Suas frases, ideias, citações, estão integradas à narrativa e bastante valorizadas.

 

Ou seja, o caleidoscópio funciona.  Incorpora e mescla um monte de coisas de Franz e do Kafka, amalgamando tudo de um modo artisticamente muito bem realizado e consistente.

 

O problema é que não é fácil juntar e elaborar tudo isso e o espectador pode ter alguma dificuldade para acompanhar a biografia, se não tiver as informações básicas necessárias sobre a vida e a obra de Franz Kafka.  O desafio a quem for ver o filme é pesquisar, informar-se um pouco, antes e depois de vê-lo.  Quem vir com atenção, vai desejar fazer isso depois, vai ser estimulado a isso.  E mais: a ler e conhecer melhor a obra literária instigante e maravilhosa do autor de "A Metamorfose”, “O Processo”, “O Castelo”, “Carta ao Pai”, “Cartas a Milena” e outros trabalhos, que estão entre o que há de melhor na literatura do século XX.

 

Para quem não se lembra da obra cinematográfica de Agnieszka Holland, eu destacaria pelo menos dois belos filmes: “Filhos da Guerra”, de 1990, e “Zona de Exclusão”, de 2023.