quarta-feira, 23 de setembro de 2026

TRÊS VEZES ADEUS

Antonio Carlos Egypto

 

TRÊS VEZES ADEUS (Tre Ciotole).  Itália/Espanha, 2025.  Direção: Isabel Coixet.  Elenco: Alba Rohrwacher, Elio Germano, Francesco Carril, Silvia D’Amico, Lorenzo Terenzi.  120 min.

 


Não há nada que seja mais humano do que o amor e a perda.  E é essa temática, explorada de forma intimista e existencial, que move os personagens da história.  Inspirada em livro semibiográfico de Michela Murgia, morta em 2023, a diretora Isabel Coixet penetra na profundidade da situação, mexendo intensamente com as emoções do público, que se identifica facilmente com o sofrimento e as reviravoltas de vida que sofre a personagem principal: Marta, vivida magnificamente por Alba Rohrwacher.

 

Começamos vendo um conflito relativamente banal que ela protagoniza com seu marido de sete anos de convívio: Antônio, em interpretação admirável de Elio Germano.  Do que parecia pouco, resulta uma perda, uma separação, que pesará na vida de ambos.  Marta se recolhe, perde o apetite, enquanto Antônio se refugia no trabalho, como chef de cozinha.  Esse aparente paradoxo é revelador de que a vida nos surpreende e nos leva a caminhos insuspeitos.  O futuro previsto pode se desfazer a qualquer momento, exigindo de todos uma incrível capacidade de adaptação e de reestruturação da existência.  O presente é o que vale, o que nos move e nos desafia.

 

Outras surpresas, outras perdas e frustrações acontecerão com a vida, com a saúde, com o amor.  Há coisas que são inevitáveis e definitivas, cuja solução nos escapa ou porque não há mesmo retorno.  Formas inesperadas de reconstruir a vida se impõem e novas possibilidades se abrem, mas com limites não ultrapassáveis.

 


Enquanto tudo acontece e a finitude se projeta, há muita vida para usufruir.  Marta, com sua bicicleta, que é como se fosse parte de seu corpo, percorre sua Roma que encanta, não só por seus já conhecidos ícones turísticos, pouco explorados no filme, mas por seus cantinhos, ruelas, pracinhas, casas antigas, parques e flores.  “Três Vezes Adeus” faz uma grande homenagem a Roma, ao longo de todo o filme.

 

Há também um interessante percorrido pelo mundo do trabalho dela, no esporte, na educação de crianças e jovens, na dedicação que há em tudo isso.  Especialmente na amizade com o colega Agostino, também em ótima performance de Francesco Carril.  Afeto, amizade, amor? 

 

Sensacional é o modo como o filme aborda a imaginação e a fantasia como antídoto da solidão no envolvimento da nossa Marta com a bela e improvável figura de um jovem astro coreano do k-pop, que está disponível em sua casa, em papelão.  Tudo que está dentro de nós, de alguma forma, existe.  E a manjada citação de Fernando Pessoa torna-se obrigatória: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

 


Isabel Coixet, a diretora espanhola, natural de Barcelona, realiza um belo filme italiano.  Demonstra familiaridade para trabalhar em diferentes lugares e idiomas.  Já dirigiu filmes falados em espanhol, catalão, inglês, francês, japonês e agora italiano.  Já filmou em Portugal, na Argentina, no Canadá, na Irlanda, nos Estados Unidos, no Japão, na França, além deste, em Roma, na Itália.  É uma cineasta sem fronteiras.  E que versatilidade!

 

Citando matéria do Correio Braziliense, a diretora destacou que filmar em outras línguas a obriga “a ouvir de outra maneira”.  Na Itália, exemplificou como “cozinhar na casa de outra família com as panelas deles”, enquanto o Japão a ensinou “o valor do silêncio” e o mercado anglo-saxão, a disciplina do roteiro.  Da cultura das mulheres, aprendeu que “o doméstico pode ser épico”.

 

Do cinema brasileiro, ela destaca “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, pela estética da precariedade como posição política.  E o que acontece atualmente no Brasil, como extraordinário, com “O Agente Secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho, e “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles.  Diz que cresceu ouvindo Elis Regina e que “Águas de Março”, de Tom Jobim, e as letras de Vinicius de Moraes têm mais sabedoria do que a maioria dos tratados de filosofia.  Incrível essa mulher, não?




sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DICAS DE BRASILEIROS

Antonio Carlos Egypto

 

O cinema brasileiro tem estado muito ativo com grande número de lançamentos que têm muita dificuldade em alcançar o público, numa realidade de mercado complicada, dominada pelo cinema estrangeiro.  Aí vão algumas dicas de filmes bem diversos da produção nacional atual.

 


O documentário VIVA MARÍLIA, 2025, dirigido por Zelito Viana, de longa contribuição ao cinema desde os anos 1970, com roteiro de Nelson Motta, trata da vida e da arte da grande atriz Marília Pêra. Com uma vasta obra, que ela mesma comenta e apresenta ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, reflete o próprio país e a força das mulheres na cultura brasileira. Isso foi possível graças ao vasto acervo de imagens e vídeos raros de Marília que foram preservados. 87 min.

 


MORTE E VIDA MADALENA, 2025, direção e roteiro de Guto Parente, é um filme sobre cinema. Ou sobre o desafio de se fazer cinema independente no Brasil.  Porém, isso se dá de modo caótico numa comédia e drama que se alternam e se complementam de forma histriônica.  A personagem que conduz a narrativa é Madalena (excelente trabalho de Noá Bonoba), uma produtora de cinema que tem de lidar com a morte recente do pai, tocar um roteiro dele de um filme de ficção científica, está grávida de 8 meses e o diretor do filme, e marido dela, Davi (Marcus Curvelo), simplesmente desaparece.  Ela conta com o bom senso de Natasha (Nataly Rocha), mas escolhe para diretor Oswaldo (Tavinho Teixeira), um ator que se comporta de um jeito totalmente desequilibrado e fora dos eixos.  Mas se diz medicado e apoiado por um psiquiatra.  Já viram para onde isso vai, não é?  É muitas vezes engraçado.  Mas é tudo over demais, cheio de clichês e improbabilidades.  Quem gosta de filmes louquinhos, como alguns que eu conheço, vai curtir muito.  85 min.

 


PRECISAMOS FALAR, 2024, thriller psicológico, dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, inspirado no livro “O Jantar”, do escritor holandês Herman Koch, trata de um tema importante e moralmente desafiador.  O filme começa com uma filmagem tosca e tremida de um crime, uma moradora de rua é assassinada por um grupo de três adolescentes, porque estava dormindo num caixa eletrônico, impedindo o uso da máquina.  Agressões, estouros e essa filmagem dão conta da seriedade do ocorrido.  O principal responsável foi o que filmou a cena.  Mas todos estavam comprometidos e envolvidos nesse crime bárbaro.  Além do comportamento errático e desencontrado dos garotos, incluindo um irmão adotivo pardo numa família de brancos e um sobrinho racista, a narrativa se concentra num jantar marcado pelos pais dos jovens adolescentes, para decidir como agir diante dessa gravíssima questão.  Por trás de toda essa crueldade, há pais e mães preocupados com os filhos, amando e protegendo e/ou se sentindo abalados por qualquer decisão que tomem.  A identificação dos criminosos não havia acontecido.  Para complicar, o pai dos dois irmãos, incluindo o adotado, é político, está em processo eleitoral e as pesquisas o mostram muito bem na disputa.  Que efeito isso terá sobre a sua candidatura?  Temos aqui uma questão de classes sociais, de como as coisas andam diante da enorme desigualdade encontrada na sociedade.  O livro que deu origem ao roteiro de Sérgio Goldenberg vem de um escritor europeu.  Mas a questão, além de universal, cai como uma luva na realidade brasileira.  O filme poderia até ter sido inspirado por notícias de jornais brasileiros, como fazia Hitchcock em alguns de seus filmes.  Elenco: Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes, Emílio de Mello.  101 min.




quarta-feira, 16 de setembro de 2026

PATRICIO GUZMÁN

 


 

PATRICIO GUZMÁN (1941- 2026)

 

Um dos maiores documentaristas da história do cinema, que lamentavelmente perdemos agora, é o chileno Patricio Guzmán.
Ele esteve conosco no Cinesesc lançando seu ótimo livro" Filmar o que não se vê " em 2017, edições do Sesc.


Ele já seria homenageado pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em sua 50.a edição , agora em outubro de 2026, com a reapresentação restaurada de sua trilogia " A batalha do Chile", além de um filme sobre o primeiro ano do Governo Allende.



A maioria talvez não conheça essas obras fundamentais, mas provavelmente viu "Nostalgia da Luz", de 2010 , "O Botão de Pérola”, de 2015, ou "Cordilheira dos Sonhos", de 2019. Filmes magníficos, pela beleza, pela criatividade, pela coragem e pelo espírito crítico, que permanecerão como registros históricos de uma época conturbada, não só no Chile, mas em toda a América Latina.


 




terça-feira, 1 de setembro de 2026

AMOR AO CINEMA

  Antonio Carlos Egypto

 


O Cinesesc São Paulo realiza a 4ª. edição do Festival Amor ao Cinema.  De 09 a 26 de setembro de 2026 serão exibidos 52 filmes com base em dois eixos principais:  os que celebram a linguagem cinematográfica, técnica, bastidores, grandes nomes que fazem parte da cultura cinematográfica mundial e os que representam a ruptura, as transgressões no cinema.  Nesse último caso estão obras que desafiaram convenções, exploraram novas possibilidades narrativas e estéticas.  Tudo faz parte do Amor ao Cinema, já que, como diz a equipe curadora do Festival, “transgredir também é uma forma de preservar”.

 

O evento de abertura no dia 09 de setembro, às 20 hs, acontece com o inédito “A História dos Documentários: Introdução”, do grande documentarista Mark Cousins, que também tem outros filmes na programação.  A variedade de filmes para serem vistos na telona e no som do Cinesesc inclui pérolas como essa, clássicos e produções desafiadoras.

 

  para  dar  uma ideia,  é  possível  ver  “O  Encouraçado  Potemkim”, de

Eisenstein, “Um Cão Andaluz” e “A Idade do Ouro”, de Buñuel,  ao  lado de

“Metrópolis”, de Fritz Lang e “Quando Fala o Coração” de Hitchcock.  Assim

como “As Pequenas Margaridas”, da tcheca  Vera Chytilová ou  “A  Garota

Negra”, do grande  cineasta  africano  Ousmane  Sembène.  E os famosos

“Limite”,  de  Mário  Peixoto, “Ladrões  de  Cinema”, de  Fernando Coni

Campos, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes “Histórias que

Nosso Cinema (não) Contava”, de Fernanda Pessoa, entre os brasileiros.

 

Enfim, é muita coisa para ficar citando aqui.  Ainda mais, considerando que

há uma ótima programação on line na plataforma Sesc digital e inteiramen-

te gratuita para todo o Brasil, de 11 de setembro até 11 de novembro.

 

É importante destacar que, além dos já citados realizadores, há filmes de

Claire  Denis,  Chantal Akerman,  John Waters,  Mel  Brooks,  Krzysztof

Kieslowski, John   Cassavetes,  Michelangelo  Antonioni,  Lucrecia  Martel,

Kim Jee-woon.  É uma mesa muito farta para cinéfilos, amantes do cinema.

 

Os  ingressos  presenciais  no Cinesesc  têm preços  reduzidos  durante o

Festival: $20,00,  meia $10,00 e   comerciário, $6,00,  além de  algumas

sessões gratuitas, com retirada de ingressos uma hora antes, na bilheteria.

 

sescsp.org.br/amoraocinema

 

MOSTRA ÁRABE

Antes do Festival Amor ao Cinema, o Cinesescsp, de 02 a 08 de setembro

de  2026 exibe a  21ª.  Mostra Mundo   Árabe de  Cinema, com   filmes do

Marrocos, Sudão, Tunísia, Egito, Arábia Saudita, Iraque e Líbano.  A ideia

é  apresentar  uma pluralidade de  olhares  sobre  as  sociedades   vivas,

complexas e  em  permanente  transformação  do  mundo   árabe,  como

ressalta o curador Arthur Jafet.

 

Na 4ª. feira, dia 02, a abertura, às 20 hs, com o filme “Calle Málaga" com ingressos gratuitos, distribuídos  uma  hora  antes  do filme.  As  demais sessões da  Mostra Árabe  seguem  os  mesmos preços dos ingressos  de Festivais e Mostras  do  cinema  da  rua   Augusta, 2075, como o “Amor ao Cinema”




 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

2 LONGAS NACIONAIS

Antonio Carlos Egypto

 


MUITO PRAZER.  Brasil, 2026.  Direção e roteiro: Jorge Furtado.  Elenco: Daniel de Oliveira, Luísa Arraes, Samantha Jones, Felipe Velozo, Drica Moraes.  98 min.

 

Jorge Furtado, fundador da Casa de Cinema de Porto Alegre, que existe desde dezembro de 1987, é um dos grandes realizadores do cinema brasileiro, além de um trabalho relevante na TV.

 

Ele tem uma grande capacidade de lidar com o humor de forma leve e bastante crítica ao mesmo tempo.  Denuncia, ironiza e nos faz sorrir, às vezes, até mesmo gargalhar.  Se você não estiver lembrando do trabalho dele, eu posso citar alguns dos filmes que ele fez, que eu acho sensacionais: “Ilha das Flores” (1989), “O Homem que Copiava” (2003), “Saneamento Básico, o Filme” (2007), “Mercado de Notícias” (2014), “Rasga, Coração” (2018).

 

Em “Muito Prazer”, Jorge Furtado acerta a mão novamente.  Como sempre, com um olhar dirigido aos mais vulneráveis e aos mecanismos limitadores e cruéis dos mercados e do capitalismo.  Ele aqui focaliza as relações que envolvem intimidade, privacidade e tecnologia, associadas às diretrizes de mercado.  E também, por que não?, ao voyeurismo individual e àquela tendência de explorar os demais, mesmo que, cuidadosamente, ele a aplique nos personagens do filme com moderação.  A consciência de ações que são, ou podem ser, criminosas, está lá, mas não é capaz de impedir que elas aconteçam.  E aí resta reparar os danos, por consciência, culpa ou medo das punições.

 

Jorge Furtado e o trio de atores

O universo abordado é o do sexo.  A narrativa é toda desenvolvida no decadente Motel Pérola, recebido de herança de um tio por Rubem (Daniel de Oliveira), motoboy sem perspectivas e sem grana.  A herança vem, naturalmente, carregada de dívidas.  Entre elas, a da jovem Grace (Luísa Arraes), que sobrou morando por lá, esperando receber os atrasados de pelo menos quatro anos por seu trabalho no Motel.  Ela é solta, desinibida e dona do seu pedaço.  Não se sente amarrada às convenções.  Desse encontro resulta a recuperação do Motel e a busca por tecnologias, que, por serem invasoras, podem resultar em bom dinheiro, mas também em problemas sérios.  É aí que entra Nalva (Samantha Jones), que tem o domínio dessa tecnologia e participa da parceria.

 

O que vem daí vai resultar em boa, inteligente comédia, com toques eróticos, que chega a provocar boas risadas e não ofende ninguém.  Bem, hoje em dia com tanto retrocesso nunca se sabe...

 

O elenco formado pelo trio Luísa Arraes, Daniel de Oliveira e Samantha Jones está ótimo, afinadíssimo.  E ainda tem o “bonitão do Motel”, Felipe Velozo, e a participação especial da grande atriz Drica Moraes, como D. Mariana, a mãe de Grace, que fica famosa pelos vídeos pornôs.  Mas o amor terá sua vez e sua hora também.  Assim, tudo fica melhor.

 




NOSSO SEGREDO.  Brasil, 2026.  Direção e roteiro: Grace Passô.  Elenco: Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert.  103 min.

 

Grace Passô, reconhecida e respeitada atriz de cinema e teatro, lança o seu primeiro longa-metragem como diretora, que já sai premiado como melhor filme do Festival de Gramado 2026.

“Nosso Segredo” mostra que Grace sabe filmar boas sequências e situações estranhas.  Na verdade, realiza uma filmagem experimental, em que mostra talento na concepção das cenas, nos enquadramentos e na direção de atores.  O conjunto do filme é inegavelmente bem realizado.  Com boa fotografia e direção de arte, também premiadas em Gramado.

 

O problema é que “Nosso Segredo” não é apenas o nome do filme que procura gerar interesse por algo a ser descoberto.  Sua narrativa é toda calcada em segredos, mistérios, coisas que nunca estão claras.  E que podem dar margem a todo o tipo de interpretações.  Ou até nenhuma.  Isso do começo ao fim.  É uma obra aberta?  Tudo bem.  Mas aberta demais, eu diria.

 

Convive-se com uma família negra em Belo Horizonte, que vive em luto por uma perda muito recente e em suspenso por conta de uma estranheza que está sempre presente, embora haja afeição, solidariedade e bom convívio humano entre eles.  No entanto, um bicho parece que pode comê-los e destruí-los a qualquer momento.  Ou não.  A criança lida melhor com tudo isso do que os adultos.  Pois é.  E daí? 



 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

REFÉM POR UM FIO

Antonio Carlos Egypto

 


REFÉM POR UM FIO (Dead Man’s Wire).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Gus Van Sant.  Elenco: Bill Skarsgard, Drace Montgomery, Colman Domingo, Al Pacino.  105 min.

 

Gus Van Sant é um cineasta inovador, atento aos sinais que o mundo lhe envia, especialmente nos Estados Unidos, onde ele nasceu, mora e trabalha.  Ele costuma se interessar em filmar a partir de fatos realmente ocorridos, que nos dizem algo sobre o nosso mundo violento e disruptivo.  Mas faz isso com ênfase na comunicação com o público, buscando realizar filmes que também envolvam e entretenham o espectador.

 

“Drugstore Cowboy” (1989), “Garotos de Programa” (1981), “Gênio Indomável” (1997), “Paranoid Park” (2007), “Milk: a Voz da Igualdade” (2008), mas sobretudo “Elefante” (2003) são exemplos de seu trabalho reflexivo e provocador que fisga a atenção do público.

 

Seu mais recente filme, “Refém por um Fio”, também se nutre de uma história real, ocorrida em 1977, em Indianápolis, EUA, que tem características tão marcantes que seria difícil imaginá-la a partir de um roteiro puramente fictício.

 

Tony Kiritsis (Bill Skarsgard), um trabalhador, fez uma hipoteca na empresa em que atuava, buscando saldar uma dívida. Em vez disso, ele acusa a empresa de tê-lo prejudicado deliberadamente e provocado sua ruína financeira.  Resolve ir atrás do que “lhe pertence”, sequestrando o filho do dono da corporação, Richard Hall (Drace Montgomery) e criando um mecanismo mortal que o prende por um fio a uma arma de fogo que dispararia automaticamente se fosse abordado.  Liberdade, o bem material devido e desculpas públicas são as condições para libertar o sequestrado.  Condições que o pai, o patriarca da empresa, Mr. Hall (Al Pacino) não aceita e refuta toda a argumentação de Tony.  Mas o caso envolve também o famoso DJ Temple da rádio da cidade, ídolo do sequestrador.  A dimensão das coisas cresce muito, tomando grande impacto midiático e gerando muitas coisas inesperadas.

 


Por meio dessa narrativa, o diretor cria um suspense envolvente e que surpreende em muitos momentos.  O ritmo do filme é ágil, mas também dá o que pensar.  Como isso foi acontecer?  O que ele está nos dizendo a respeito de nossas vidas e da vida financeira que nos cerca e domina?  O que leva alguém aparentemente sensato e calmo a trilhar caminhos tão arriscados?  Afinal, o que nos encaminha para os extremos de conduta?  E como é possível que criemos becos sem saída para nós mesmos em algumas situações-limite?

 

“Refém Por Um Fio” não é uma simples história de suspense.  É algo mais sofisticado.  Busca um caminho para entender os seres humanos dentro de uma engrenagem que não conseguem dominar e têm de enfrentar o imponderável.

 

As sequências são muito bem realizadas, o filme é muito bom de se acompanhar pela agilidade e pelo talento do diretor.  Também pela trilha sonora, que inclui uma seleção de canções de sucesso da época, o que nos remete facilmente aos anos 1970.

 

O elenco é muito bom, todos os papéis estão bem desenvolvidos, mesmo os menores.  Bill Skarsgard sustenta o filme muito bem, ao longo de todo o seu desenrolar, no papel do sequestrador.  Drace Montgomery mantém o pânico controlado da situação do sequestrado todo o tempo.  Al Pacino, o dono da grana, tem o ar do mafioso que ele já desfilou por aí muito bem.  O DJ Temple, mediador da ação, vivido por Colman Domingo, é fascinante, uma atuação humanista e tão verdadeira com quem é fácil a gente se identificar.  O conjunto é bem harmonioso e eventuais falhas passam despercebidas.




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

HONESTINO + QUINTA

 Antonio Carlos Egypto

 


HONESTINO.  Brasil, 2025.  Direção: Aurélio Michiles.  Elenco: Bruno Gagliasso.  85 min.

 

“Honestino”, mistura de documentário e encenações ficcionais, é mais um trabalho importante de resgate dos tempos de chumbo da ditadura civil-militar, que durou 21 anos no Brasil.

 

Trata da vida do estudante Honestino Guimarães, sequestrado e desaparecido em 1973, aos 26 anos de idade, após ter sido preso cinco vezes pela ditadura.  Estudante da Universidade de Brasília, com atuação no Rio de Janeiro e no Brasil como presidente da UNE, membro ativo da geração de 1968, que é representado nas cenas ficcionais por Bruno Gagliasso.

 

A narrativa do filme, dirigido por Aurélio Michiles, inclui cartas, poemas, imagens de arquivo e depoimentos de gente como Almino Afonso, Franklin Martins, Jorge Bodanski, Betty Almeida (biógrafa do líder estudantil), familiares, amigos e militantes que com ele conviveram.

 

Uma das maiores tragédias de um país é o esquecimento de seus problemas, suas chagas, seu passado.  Negar, varrer para debaixo do tapete, cultivar a impunidade em nada ajuda a superar os traumas vividos.  Na verdade, dificulta, impede nosso avanço civilizatório.  Filmes como esse nos ajudam a refletir sobre o que buscamos para o país e nos permitem reavaliar a importância da democracia para o enfrentamento real das questões nacionais.

 



A QUINTA PORTUGUESA (Una Quinta Portuguesa).  Espanha/Portugal, 2025.  Direção: Avelina Prat.  Elenco: Manolo Solo, Maria de Medeiros, Branca Katic, Rita Cabaço.  114 min.

 

“A Quinta Portuguesa” conta uma história que remete à discussão do significado da própria identidade humana e o que a determinaria.  O lugar, os costumes, experiências, desejos?  A geografia?  Certamente isso tudo tem muita importância. 

 

Será tratado na narrativa por meio de dois personagens.  O central, Fernando, papel de Manolo Solo, não por acaso professor de geografia.  O outro, Amália, papel de Maria de Medeiros, a dona da quinta, que acolherá Fernando como se se chamasse e fosse Manuel.

 

Isso se dá porque Fernando, devastado pelo desaparecimento repentino da esposa, que volta para a Sérvia sem qualquer aviso, vaga um pouco pelo mundo e conhece um jardineiro português idoso de quem vai se tornando amigo. As circunstâncias da morte de Manuel, lhe darão uma oportunidade para que ele assuma uma nova identidade e deixe todo o resto no passado.

 

Fernando/Manuel acaba encontrando na jardinagem um novo emprego e uma nova vida, aproximando-se da charmosa e elegante Amália, o que lhe abre novas possibilidades.

 

Só que o passado não some só porque a gente quer.  É mister enfrentá-lo em algum momento, mesmo contra a vontade.  É essa transição de vida que dá margem às reflexões que a história do filme nos propõe.

 

Os atores são brilhantes.  Maria de Medeiros, um talento português que reconhecemos por aqui há décadas, inclusive como cineasta e cantora, e o espanhol Manolo Solo, falecido recentemente aos 62 anos, que está sensacional em seu desempenho no filme.

 

Avelina Prat, a diretora espanhola, natural de Valência, tem mão segura e sensibilidade para lidar com o tema e nos oferece um filme intrigante, bom de se ver.