Antonio Carlos Egypto
MUITO PRAZER. Brasil, 2026. Direção e roteiro: Jorge Furtado. Elenco: Daniel de Oliveira, Luísa Arraes,
Samantha Jones, Felipe Velozo, Drica Moraes.
98 min.
Jorge Furtado, fundador da Casa de Cinema de Porto Alegre, que existe
desde dezembro de 1987, é um dos grandes realizadores do cinema brasileiro,
além de um trabalho relevante na TV.
Ele tem uma grande capacidade de lidar com o humor de forma leve e
bastante crítica ao mesmo tempo.
Denuncia, ironiza e nos faz sorrir, às vezes, até mesmo gargalhar. Se você não estiver lembrando do trabalho
dele, eu posso citar alguns dos filmes que ele fez, que eu acho sensacionais:
“Ilha das Flores” (1989), “O Homem que Copiava” (2003), “Saneamento Básico, o
Filme” (2007), “Mercado de Notícias” (2014), “Rasga, Coração” (2018).
Em “Muito Prazer”, Jorge Furtado acerta a mão novamente. Como sempre, com um olhar dirigido aos mais
vulneráveis e aos mecanismos limitadores e cruéis dos mercados e do
capitalismo. Ele aqui focaliza as
relações que envolvem intimidade, privacidade e tecnologia, associadas às
diretrizes de mercado. E também, por que
não?, ao voyeurismo individual e
àquela tendência de explorar os demais, mesmo que, cuidadosamente, ele a
aplique nos personagens do filme com moderação.
A consciência de ações que são, ou podem ser, criminosas, está lá, mas
não é capaz de impedir que elas aconteçam.
E aí resta reparar os danos, por consciência, culpa ou medo das punições.
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| Jorge Furtado e o trio de atores |
O universo abordado é o do sexo. A
narrativa é toda desenvolvida no decadente Motel Pérola, recebido de herança de
um tio por Rubem (Daniel de Oliveira), motoboy sem perspectivas e sem
grana. A herança vem, naturalmente,
carregada de dívidas. Entre elas, a da
jovem Grace (Luísa Arraes), que sobrou morando por lá, esperando receber os
atrasados de pelo menos quatro anos por seu trabalho no Motel. Ela é solta, desinibida e dona do seu
pedaço. Não se sente amarrada às
convenções. Desse encontro resulta a
recuperação do Motel e a busca por tecnologias, que, por serem invasoras, podem
resultar em bom dinheiro, mas também em problemas sérios. É aí que entra Nalva (Samantha Jones), que
tem o domínio dessa tecnologia e participa da parceria.
O que vem daí vai resultar em boa, inteligente comédia, com toques
eróticos, que chega a provocar boas risadas e não ofende ninguém. Bem, hoje em dia com tanto retrocesso nunca
se sabe...
O elenco formado pelo trio Luísa Arraes, Daniel de Oliveira e Samantha
Jones está ótimo, afinadíssimo. E ainda
tem o “bonitão do Motel”, Felipe Velozo, e a participação especial da grande
atriz Drica Moraes, como D. Mariana, a mãe de Grace, que fica famosa pelos
vídeos pornôs. Mas o amor terá sua vez e
sua hora também. Assim, tudo fica
melhor.
NOSSO SEGREDO. Brasil, 2026. Direção e roteiro: Grace Passô. Elenco: Robert Frank, Ju Colombo, Efraim
Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert.
103 min.
Grace Passô, reconhecida e respeitada atriz de cinema e teatro, lança o
seu primeiro longa-metragem como diretora, que já sai premiado como melhor
filme do Festival de Gramado 2026.
“Nosso Segredo” mostra que Grace sabe filmar boas sequências e situações
estranhas. Na verdade, realiza uma
filmagem experimental, em que mostra talento na concepção das cenas, nos
enquadramentos e na direção de atores. O
conjunto do filme é inegavelmente bem realizado. Com boa fotografia e direção de arte, também
premiadas em Gramado.
O problema é que “Nosso Segredo” não é apenas o nome do filme que procura
gerar interesse por algo a ser descoberto.
Sua narrativa é toda calcada em segredos, mistérios, coisas que nunca
estão claras. E que podem dar margem a
todo o tipo de interpretações. Ou até
nenhuma. Isso do começo ao fim. É uma obra aberta? Tudo bem.
Mas aberta demais, eu diria.
Convive-se com uma família negra em Belo Horizonte, que vive em luto por
uma perda muito recente e em suspenso por conta de uma estranheza que está
sempre presente, embora haja afeição, solidariedade e bom convívio humano entre
eles. No entanto, um bicho parece que
pode comê-los e destruí-los a qualquer momento.
Ou não. A criança lida melhor com
tudo isso do que os adultos. Pois
é. E daí?

















