sexta-feira, 21 de julho de 2017

Tal Mãe, Tal Filha

Tatiana Babadobulos


 TAL MÃE, TAL FILHA (Telle Mère, Telle Fille). França, 2017. Direção: Noémie Saglio. Roteiro: Agathe Pastorino e Noémie Saglio. Com Juliette Binoche, Camille Cottin e Lambert Wilson.  94 min.



Tem cara de pastelão o início do longa-metragem "Tal Mãe, Tal Filha" ("Telle Mère, Telle Fille"), de Noémie Saglio. E é. O pôster de divulgação do filme já dá uma ideia do que vem pela frente: duas personagens grávidas.

A mãe, Mado, vivida por Juliette Binoche, praticamente troca de papel com a filha, Avril (Camille Cottin). Enquanto a moça, aos 30 anos, é casada, tem emprego fixo e é responsável, por outro lado a mãe vive de favor na casa da filha, é bagunceira e tem comportamento de adolescente no modo de se vestir e de agir. A cena dela mascando chiclete no supermercado mostra bem isso.


Até que um dia Avril anuncia que está grávida e Mado alega que não está pronta para ser avó.

Em cena também está o pai de Avril e ex-marido de Mado, personagem vivido por Lambert Wilson, de "Sobre Amigos, Amor e Vinho" e "Homens e Deuses".


Também autora do roteiro ao lado de Agathe Pastorino, a diretora Noémie Saglio teve a ideia da trama lendo revistas femininas, nas quais haviam histórias sobre mães e filhas engravidando ao mesmo tempo. Ou seja, embora pareça surreal, o comportamento é mais comum (e real) do que parece. O que não me parece comum, porém, é a maneira de agir da mãe. Mas daí vai parecer moralismo...

Binoche, uma das atrizes francesas mais cobiçadas por renomados diretores --ela já filmou, por exemplo, com o iraniano Abbas Kiarostami-- parece um pouco desconfortável no papel da mãe bancando a adolescente. A plateia, assim, não compra a personagem de primeira. É preciso insistência pra ir se convencendo aos poucos.

É difícil, mas rir de comédias pastelões --principalmente quando já se é mãe, no caso desta trama-- não faz mal a ninguém.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A Vida de uma Mulher


Tatiana Babadobulos



A VIDA DE UMA MULHER (Une Vie).  França e Bélgica, 2016.  Direção: Stéphane Brizé.  Roteiro: Stéphane Brizé e Florence Vignon. Com Judith Chemla, Jean-Pierre Darroussin e Yolande Moreau.   119 min.

Baseado no romance “Une Vie”, de Guy de Maupassant, o longa-metragem “A Vida de uma Mulher”conta a história de Jeanne (Judith Chemla), uma jovem que passou muitos anos estudando trancada em um convento. A trama se passa justamente quando ela sai de lá e volta para a casa dos pais.
O romance é ambientado na região da Normandia, interior da França, no século 19. Como era de praxe naquela época, Jeanne não pode ter suas próprias escolhas; ela cumpre o que foi escolhido por sua família. No caso, ela vai se casar com Julien de Lamare (Swann Arlaud), um visconde em decadência que vê no casamento com a moça abastada a oportunidade de mudar de vida.

Dirigido por Stéphane Brizé (de “Mademoiselle Chambon“), também autor do roteiro ao lado de Florence Vignon, o longa conta a vida inteira de Jeanne, desde a sua volta para casa, seu casamento, a chegada do filho e assim por diante. E revela que a mulher francesa do século 19 era submissa, mas não exatamente como as brasileiras, por exemplo; a personagem tem voz própria, é capaz de identificar os problemas do casamento e ter força para mudar o que está errado, inclusive contrariando o que diz o marido, que exige que a empregada seja mandada embora porque está grávida.
As duas moças foram criadas juntas e chegam a trocar segredos, por isso Jeanne é contra a sua partida. Mas, ao mesmo tempo em que discorda do marido, ela vai ao limite para atender aos pedidos do filho, nem que isso signifique a falência total.
O dinheiro está bastante presente no romance de Maupassant, embora, como afirma o realizador no material de divulgação do filme, que sua obra não é fiel ao livro. Aquelas escolhas tão necessárias no momento da adaptação.
“A Vida de uma Mulher” é vencedor do prêmio dos críticos em Veneza no ano passado. Um romance com poucas pitadas de pimenta e sem reviravoltas, mas que cumpre o seu papel sem ambições de ser um filme definitivo.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

DIVINAS DIVAS

Marga Moura Egypto





Ser homem ou ser mulher são papéis criados socialmente.  Biologicamente, a criança nasce com um sexo determinado: é menino ou menina.  Mas o desejo sexual que se manifestará nessa criança pode levá-la a preferir uma pessoa do mesmo sexo que ela. E há, também, a questão da identidade: um menino sente que está num corpo de mulher, uma menina se sente num corpo de homem. Surge, no cenário, a figura do travesti – homossexual que se veste como alguém do sexo oposto, seja de modo passageiro (por exemplo, só à noite), seja de modo definitivo, seja, ainda, transformando seu corpo à semelhança do de outro sexo, por meio de cirurgias, o que o(a) transforma num(a) transexual.

Essa realidade sexual que aparece de modo mais claro aos nossos olhos, nos dias que correm, demonstra comportamentos variados, que vinham sendo tratados como tabus e eram pouco explicitados, socialmente.  Com as mudanças introduzidas nas sociedades ocidentais, depois da Segunda Guerra Mundial, comportamentos, desejos, crenças, valores, normas de comportamento, modos de vestir e pentear, tanta coisa aconteceu que se pode dizer que o mundo de nossos avós é hoje completamente diferente do nosso.  Culturalmente, socialmente, sexualmente – nossas opções apresentam características bem diferentes das de tempos passados. 

Trago isso à tona para falar sobre o filme brasileiro de Leandra Leal, “Divinas Divas”, que reúne oito dentre as travestis mais famosas do Brasil. A começar por Rogéria, talvez a mais famosa, passando por Divina Valéria, Jane di Castro, Camile K, Fujica de Holliday, Eloína dos Leopardos, Brigitte de Búzios e Marquesa – essa última só se vestia de mulher e se maquiava para os espetáculos da noite.  Morreu após a filmagem.




Rapazes que se viam em corpos de mulheres tomaram hormônios, deixaram crescer os seios, exterminaram a barba, lançaram mão de perucas vistosas e vestidos bonitos e passaram a se maquiar e a se enfeitar com joias.  Todos elas viraram artistas de teatro de revistas, boates ou cabarés.  Travestis mulheres.

Nos anos de 1970, essas mulheres formaram o grupo que testemunhou o auge da Cinelândia carioca repleta de cinemas e teatros.  Agora, a diretora Leandra Leal as reuniu para uma apresentação no antigo teatro Rival, no Rio de Janeiro. E elas falam de seus desempenhos passados, suas ilusões, seus sucessos.

Achei bonito o filme e achei interessante esta oportunidade de levantar o véu daquilo que sempre foi escondido de nós, que era tido como obsceno, imoral, tabu, impossível de ser mostrado para moças de família.  E, no entanto, são realidades que estão aí a cada passo, queiramos ou não.  Um fenômeno social deixa de ser encarado como tabu quando é possível falar-se sobre ele, discuti-lo, pesar os prós e os contras, apreciar sua existência e, se quiser, tomar uma posição.  Achei que este filme de Leandra Leal é corajoso, ao trazer à tona um tema de tamanha realidade e seriedade, principalmente neste momento político que atravessamos, em que o debate sobre as questões de gênero, que poderiam informar e esclarecer nossas crianças e jovens, é retirado do currículo e das salas de aula.

Texto originalmente publicado em http://margamoura.blog.uol.com.br


quarta-feira, 12 de julho de 2017

CARTAS DA GUERRA


Antonio Carlos Egypto





CARTAS DA GUERRA.  Portugal, 2016.  Direção: Ivo M. Ferreira.  Com Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira.  120 min.


De um lado, o amor, de outro, a guerra.  De um lado, a poesia, de outro, o sangue e a violência.  O filme “Cartas da Guerra”, do cineasta português Ivo M. Ferreira, se nutre desses contrastes o tempo todo. 

O que a imagem nos mostra é um acampamento de guerra, ações, confrontos.  O personagem António (Miguel Neves), convocado como médico pelo exército português, para atuar na guerra colonial de Angola, cuidando de feridos.  Triste e solitário, ele escreve cartas e um romance e tem com um superior hierárquico um ponto de contato intelectual, alimentado por conversas, ao jogo de xadrez.  O que mais se vê, no entanto, são soldados vivendo o cotidiano embrutecedor da guerra.

Se as imagens, maravilhosas em preto e branco, nos mostram a guerra, o áudio é pleno de amor e poesia.  Lindas cartas de amor apaixonado, poético, se sucedem ao longo do filme.  Amo-te em tudo e sempre é uma das coisas mais repetidas nas cartas, que exploram literariamente a ausência da amada, da casa, dos pequenos prazeres da vida.  É António escrevendo à sua esposa, a quem ele é fiel e de quem é sinceramente apaixonado.  Mas ele está irremediavelmente longe da mulher amada, já grávida, e da filha que ele não poderá ver nascer, nem embalar, para seu desespero.  De 1971 a 1973, ele escreve cartas de amor permanentemente, recebe as respostas que a gente não ouve, nem vê.  E começa a escrever um romance.  É o que o motiva a sobreviver.




O contraste entre as belas mas terríveis imagens da guerra e a pureza de sentimentos do médico, aspirante a escritor, em suas cartas, produz uma espécie de curto-circuito entre a beleza do amor e a violência sem sentido de uma guerra colonial brutal.  O impasse entre o desejo pelas coisas simples e cheias de humanidade e o horror do sangue jorrado em vão e da morte sem sentido, tese e antítese a clamar por uma síntese, que não virá.

O que “Cartas da Guerra” nos mostra é a angustiante espera, a vida que se põe em suspensão e na incerteza.  Só o amor para sustentar tal espera.  Para além do sentimento, há a força das palavras, essencial para significar a vida e tudo o que acontece.  A literatura como elemento de salvação.


“Cartas da Guerra”, o filme de Ivo Ferreira, baseado na obra de António Lobos Antunes, é um filme de guerra belo, poético, amoroso.  Não se dirige a uma racionalidade pacifista, mas às emoções que a guerra cria ou suprime.  Mostra o contraste entre a vida de dentro e de fora da guerra, vivido por um ser humano sensível, capaz de colocar em palavras, bem escolhidas e encadeadas, a expressão de sentimentos de uma quadra decisiva da sua existência.



terça-feira, 11 de julho de 2017

KIKI - OS SEGREDOS DO DESEJO


Antonio Carlos Egypto





KIKI – OS SEGREDOS DO DESEJO (Kiki, el amor se hace).  Espanha, 2016.  Direção: Paco León.  Com Natalia de Molina, Ana Katz, Belén Cuesta, Candela Peña, Luis Bermejo, Paco León, Alex García, Luis Callejo.  102 min.


O desejo sexual assume formas e manifestações surpreendentes, inesperadas, bizarras.  Em tempos de uma moral estreita e rígida, baseada na noção de normalidade, as variações sexuais eram chamadas de desvios sexuais e, claro, condenadas.  A partir do momento em que se passou a estudá-las, para além dos julgamentos morais, elas ganharam um nome técnico: parafilias.  Uma forma de desejar que está fora da expectativa ou da norma.  Para vem do grego, significa fora de e filia se refere ao amor.  Ainda implica um problema a ser resolvido, mas agora na esfera da saúde.  É de diversidade que se trata, este um conceito mais aberto e contemporâneo.  E quanta diversidade há neste mundo!

Se você duvida, vá ver “Kiki – Os segredos do desejo”, uma boa comédia espanhola, que explora em seus personagens algumas formas de excitação pouco usuais, como o tesão por gente chorando, dormindo, ao sofrer a violência de um assalto, a atração por plantas ou por tocar em tecidos de seda, para chegar ao orgasmo.  Também estão lá fetiches mais conhecidos, como o dos pés ou do ato de ser urinado, mas nomes como dacrifilia, sonofilia, hifefilia, harpaxofilia, convenhamos, não fazem parte do vocabulário cotidiano, nem dos especialistas da área da sexualidade.

Ao potencializar o mais bizarro e exagerado ou, pelo menos, novidadeiro, o filme de Paco León consegue nos provocar mais e produzir risos.  Quanto mais estranho, melhor, para comprovar a tese de que a diversidade é infinita e todas as formas existentes têm o direito de se expressar e de serem acolhidas na sociedade.  Foi-se o tempo do pecado e da exclusão.  Há que se celebrar essa diversidade toda e, como o filme acaba demonstrando, é possível conviver com isso numa boa e até se dar bem.  Talvez não em todos os casos, há situações arriscadas, perigosas e ilegais.  Mas sempre se pode dar um jeitinho de acomodar as coisas e simbolizar, em vez de concretizar.  Fica até mais rico e divertido.





Há um detalhe a apontar.  “Kiki” inclui personagens com deficiência, de um modo muito positivo, nessa ciranda sexual, sem esforço para ser politicamente correto.  Quando se veem todas as pessoas como seres humanos e como cidadãos plenos de direitos, tudo se torna mais adequado no tratamento das tramas.  Para fazer humor, não é preciso atropelar direitos nem ofender pessoas ou categorias.  Preconceito não tem graça.

“Kiki” vai conquistando público nos cinemas já há algumas semanas e, pelo jeito, se tornará um sucesso da temporada.  Merecido: o filme é inteligente, aberto e bem feito.  A inspiração vem, claro, do conterrâneo Pedro Almodóvar.  O filme não tem nem de longe o requinte da mise-en-scène almodovariana, seus enquadramentos, direção de arte, cenografia, uso das cores e estruturação de roteiro para integrar bem todos os personagens.   Mas é bom o suficiente para nos fazer entender a diversidade, se divertir com ela, respeitá-la e celebrá-la.

Um vasto elenco de maioria bem jovem traz um frescor à narrativa, que torna o filme simpático e envolvente.  O próprio diretor, que é também roteirista e ator do filme, Paco León, tem apenas 42 anos e vem de uma família de artistas.  Tem muito a nos oferecer pela frente.





sábado, 8 de julho de 2017

INTRODUÇÃO À MÚSICA DO SANGUE

  
Antonio Carlos Egypto




INTRODUÇÃO À MÚSICA DO SANGUE.  Brasil, 2015.  Direção e roteiro: Luiz Carlos Lacerda.  Com Ney Latorraca, Bete Mendes, Armando Babaioff, Greta Antoine.  95 min.


“Introdução à Música do Sangue” é um exemplo de filme autoral brasileiro que, apesar de sua sensibilidade e beleza, provavelmente alcançará um número reduzido de espectadores.

No foco da narrativa, um casal de idosos vive, no interior de Minas Gerais, ainda sem energia elétrica, uma existência muito simples e pobre, bem discrepante em relação às possibilidades tecnológicas que se estabeleceram ao longo do século XX e deslancharam no XXI.  Ney Latorraca e Bete Mendes, dois intérpretes brilhantes, compõem os personagens do casal de idosos.  Ela, à espera ansiosa da chegada da luz elétrica, para poder costurar numa máquina que lhe poupe o esforço físico do pedalar mecânico.  Já ele, rejeita a chegada da energia elétrica, não quer mudar seu mundo, nem ter de pagar uma conta mensal de algo que ele julga desnecessário.




Por outro lado, há o despertar da sexualidade de menina agregada à vida do casal, quando por lá aparece um jovem peão, que vai acabar produzindo conflitos naquela vida pacata e parada no tempo. 

Angústias vêm à tona, a repressão, o desejo, o descontrole, se inserem na trama, instalando o drama e a tragédia, onde nada parecia estar acontecendo.  O que estava por vir, aflora subitamente.  O que estava represado, emerge.  O que estava contido, transborda.




O filme parte do argumento inacabado do escritor Lúcio Cardoso, com direção e roteiro de Luiz Carlos Lacerda e uma magnífica fotografia de Alisson Prodlik.  “Introdução à Música do Sangue” é todo filmado com a luz natural do dia e dos lampiões e velas acesos, à noite, o que contribui para criar toda uma ambiência poética para esse mundo rural primitivo que retrata.

A direção de arte de Oswaldo Lioi, na zona rural de Cataguazes, onde ocorreram as filmagens, nos insere muito bem naquele ambiente.  A música de David Tygel é bonita e envolvente.  E ainda se destaca a belíssima melodia de Tom Jobim, “Derradeira Primavera”, em tratamento instrumental.  Será uma pena se esse trabalho artístico de qualidade passar despercebido, enquanto tantas mediocridades comerciais alcançam cifras expressivas de público.




quinta-feira, 29 de junho de 2017

POESIA SEM FIM


Antonio Carlos Egypto




POESIA SEM FIM (Poesia Sin Fin).  Chile, 2016.  Direção e roteiro: Alejandro Jodorowsky.  Com Adan Jodorowsky, Pamela Flores, Brontis Jodorowsky, Leandro Taub, Jeremias Herskovits, Alejandro Jodorowsky.  128 min.


Escolher a poesia como ofício e condição de vida é um ato de coragem.  Também de destemor, de enfrentamento do sistema, talvez revelando um irreal excesso de confiança.  Coisa para se fazer aos 20 anos de idade, enquanto se pode arriscar mais, quem sabe, tudo.

Alejandro Jodorowsky, poeta, escritor, ator e cineasta chileno, nascido em 1929, faz hoje um filme irreverente, transgressor e inventivo sobre essa sua escolha de vida.  Uma reflexão autobiográfica, sem dúvida.  Mas que dispensa de forma quase absoluta o realismo.

Com uma câmera ágil, irriquieta, ele constrói um universo plástico belíssimo, que respira liberdade, sensualidade, autenticidade.  E vai desenrolando sua narrativa de forma fantástica, metafórica, realizando um cinema que é pura magia.  Sedutor para quem se entrega, se deixa levar.




Mais do que os fatos que, de alguma forma, também estão lá, o que vale são as sensações, os sentimentos, a libertação.  O encontro com o que se é e se deseja criar, produzir, realizar, como sentido de vida. 

Quem vê o mundo por uma forma poética, artística, acaba percebendo que precisará contestar muito, transgredir sempre, para chegar a se encontrar e dar sua contribuição à sociedade com aquilo que lhe é natural e precioso. Alejandro Jodorowsky nos conta isso no filme, inovando bastante, quebrando convenções, provocando e nos trazendo muita beleza.  Ou seja, sua forma é o seu conteúdo, é a sua história e a sua luta.  Vista por um homem de 87 anos que se mostra fiel a seus ideais de juventude, desenvolvidos ao longo de toda essa vida.

O relacionamento pai e filho, que remonta aos anos 1940 e 1950, do relato de “Poesia Sem Fim”, é vivido por dois filhos do diretor, Adan e Brontis Jodorowsky.  E o próprio Alejandro participa numa ponta.  Uma família que enfrenta os conflitos pelo caminho da arte e embarca ao lado de um elenco todo dedicado à experimentação poética e visual do cineasta.




Um filme como “Poesia Sem Fim” não busca mercado, não aspira ao sucesso, quer se expressar, se comunicar, sem amarras.  O jeito é buscar apoio financeiro, não nas instituições e mecanismos de financiamento, mas nas pessoas que possam se envolver no projeto.  Foi o que fez Alejandro Jodorowsky.  Com uma larga trajetória que gerou muitos aficcionados, ele se valeu de um milhão de seguidores nas redes sociais, para angariar mais de dez mil contribuições individuais, de modo a viabilizar este novo trabalho.





sábado, 24 de junho de 2017

UM INSTANTE DE AMOR

  
Antonio Carlos Egypto




UM INSTANTE DE AMOR (Mal de Pierres).  França, Bélgica, 2016.  Direção: Nicole Garcia.  Com Marion Cotillard, Louis Garrel, Alex Brendemühl. 120 min.



Distúrbios mentais podem trazer comportamentos extremados, contrastantes e mesmo opostos, na mesma pessoa, como, de um lado, a exacerbação do desejo, de outro, o isolamento, a depressão, ou o binômio agressividade e apatia.  E, ainda, serem recheados de sentimentos persecutórios e a presença de delírios ou alucinações.  Personagens assim costumam ser muito explorados pelos roteiros cinematográficos em filmes de mistério, suspense, fantasia ou terror, mas é menos frequente encontrá-los nas histórias de amor.

A personagem Gabrielle, magnificamente interpretada por Marion Cotillard, em “Um Instante de Amor”, de Nicole Garcia, é uma figura assim, cheia de contrastes e incongruências, com reações que escapam ao seu próprio controle e surpreendem os que com ela convivem.




Os pais dela buscam acalmar seu furor por meio de um casamento arranjado, que vai complicar as coisas, envolvendo um contrato, digamos, alternativo, que colocará em jogo a vida sexual, a questão da gravidez e até mesmo a do aborto. O marido, o pedreiro José, em muito bom desempenho de Alex Brendemühl, entra no jogo, mas mesmo assim sofre consequências inesperadas e doloridas para sua vida.

O destino de Gabrielle acaba sendo um sanatório, que se baseava na cura ou no alívio, proporcionado por águas termais.  A razão desse rumo seriam dores renais, um mal de pedras do título original de Milena Agus, Mal de Pierres, que inspirou “Um Instante de Amor” e que a personagem apresentaria.  Algo como o deslocamento do problema mental para um elemento físico do corpo, este mais possível de admissão e tratamento do que a “loucura”.   Lá, Gabrielle conhece um militar, o tenente André, papel de Louis Garrel, doente em estado terminal.  E dessa relação algo importante surgirá.




O que é objetivo ou subjetivo nessa história acabará sendo a grande questão do filme, uma vez que esses limites estão borrados pelas características da personagem de Gabrielle e de suas circunstâncias.

Uma história de amor inusitada resulta dessa trama e acaba por surpreender o espectador, oferecendo à grande atriz Marion Cotillard uma oportunidade para explorar uma personagem complexa e intrigante.  De Louis Garrel, ao contrário, se exige o minimalismo interpretativo de alguém que já perdeu suas forças, e de Alex Brendemühl, ambiguidade e contenção.  Esse trio de protagonistas é um dos pontos altos do filme.  A personagem Gabrielle e a atriz que lhe dá vida são a razão de ser e sustentáculo de “Um Instante de Amor”.

  

quinta-feira, 15 de junho de 2017

PARIS PODE ESPERAR


Antonio Carlos Egypto




PARIS PODE ESPERAR (Paris Can Wait, EUA, 2016), escrito e dirigido por Eleanor Coppola, esposa de Francis Ford Coppola, é o que se poderia chamar de filme turístico.  Teria sido inspirado por uma viagem curiosa que ela fez. 

A história parte de Cannes, onde Anne (Diane Lane) está com seu marido, o produtor cinematográfico Michael (Alec Baldwin) e ambos devem pegar um voo para voltar a Paris.  Mas como Anne está com problemas no ouvido, o que acaba acontecendo é que ela aceita um convite para viajar de carro até Paris com Jacques (Arnaud Viard), sócio do marido.

Ocorre que nessa viagem nunca chega a vez de Paris.  Eles param em todos os lugares no caminho, desviam da rota, porque, afinal, “Paris Pode Esperar”.  E assim é possível conhecer o interior da França, sua arquitetura, museus, gastronomia.  Enfim, um road-movie em tom de comédia, que funciona como um daqueles filmes turísticos que podem ser encontrados no You Tube, inclusive em 4K, bonitos de ver, mas sem maior consistência narrativa.  Claro que o casal de viajantes acaba por se conhecer, se envolver afetivamente e descobrir coisas novas.  Mas não vai além desse previsível roteiro de filmes de viagem.  92 min.


STEFAN ZWEIG, ADEUS EUROPA


Antonio Carlos Egypto


STEFAN ZWEIG, ADEUS EUROPA.  Alemanha, 2016.  Direção: Maria Schrader.  Com Josef Hader, Barbara Sukowa, Mathias Brandt, Aenne Schwartz. 106 min.





Esta cinebiografia do escritor austríaco Stefan Zweig baseou-se no livro “Morte no Paraíso – A tragédia de Stefan Zweig”, do jornalista brasileiro Alberto Dines.

O filme retrata a vida do escritor e intelectual judeu entre 1936 e 1942, em seu exílio sul-americano no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, na Bahia e em Petrópolis, enquanto o nazismo se solidifica na Alemanha e irrompe a Segunda Guerra Mundial.  Zweig alimentava ideias utópicas de uma Europa unida, pacifista e sem fronteiras nacionais, antevendo o que acabaria sendo buscado pela União Europeia, muitas décadas depois, cujos resultados claudicam na atualidade.

O sofrimento do escritor com o que se passava na Europa era minimizado pelo paraíso tropical que descobriu por aqui, mas que não foi suficiente para impedir seu fim trágico.

O filme adota narrativa clássica convencional, mas tem bons atores e é interessante de se ver.  Passou meteoricamente pelos cinemas de São Paulo.  Mas é possível vê-lo pelo sistema de video on demand, na Now, Vivo Play, Google Play e iTunes.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

FRANTZ


Antonio Carlos Egypto



FRANTZ (Frantz).  França, 2016. Direção e roteiro: François Ozon.  Com Pierre Niney, Paula Beer, Ernst Stötzner, Marie Gruber, Johann von Bülow, Anton von Lucke, Cyrelle Clair.  113 min.



Alemanha, 1919.  As marcas da Primeira Guerra Mundial, com uma mortandade incrível, são trágicas para as famílias europeias.  Anna (Paula Beer), que vive numa pequena cidade alemã, perdeu seu noivo na guerra, na França.  Ela vai levar flores ao seu túmulo, no cemitério local, regularmente.  Até o dia em que se depara com um jovem francês fazendo o mesmo.  O que significa isso?  Quem é ele, o que está fazendo aqui? 

É bom lembrar que as sequelas do conflito com os franceses alimentam um preconceito contra eles e um desejo de vingança.  A Alemanha se sente humilhada pelo Tratado de Versalhes.  A história pesa, mas Adrien (Pierre Niney) está apenas depositando flores na tumba de Frantz (Anton von Lucke), o soldado alemão que se casaria com Anna se sobrevivesse ao conflito mundial.

Esse é o mote inicial do filme de François Ozon, “Frantz”, e daí vai partir uma incrível história que será tão revolvida a ponto de não restar certeza sobre o que aconteceu, como interpretar e relatar os fatos e se se deve, ou não, procurar uma verdade ali.  Mais: se encontrada essa verdade, ela merece ser revelada?  A quem interessaria saber?




Segundo o próprio diretor, o filme é sobre mentiras, embora também envolva culpa e perdão.  Mentiras que fazem bem, podem até curar feridas.  Destruí-las pode ser arrasador, demolidor.  Mas para alimentá-las também é preciso crer em algo, que pode ser ilusório, embora reconfortante.  Quando entra em cena o envolvimento amoroso, o desejo, a paixão, a realidade se nubla e, afinal, o que é o quê?

O filme se chama “Frantz”, o soldado morto, que só aparece em flash-backs, mas o ponto de vista adotado pelo roteiro é o de Anna.  É a partir do que ela sabe, sente, deseja, e de como ela se move, que a trama acontece e se desenvolve, com nuances de todos os tipos e surpresas que vão emergindo das situações narradas.  Ozon deixa que a nossa imaginação corra solta e tente interpretar o que vê.  As coisas podem ser bem distintas do que a gente pensou.  Ou não.

O diretor optou por um preto e branco luminoso, que dá à trama um realismo que combina perfeitamente com o momento narrado.  Afinal, que imagens temos da Primeira Guerra que não sejam em preto e branco?  É como se caminhássemos naquela pequena cidade e convivêssemos com seus habitantes, em suas roupas austeras, suas casas, bares e cemitério.  Mas há algumas cenas coloridas, que mostram um pouco de felicidade, dão um respiro à situação, fazendo um contraponto dramático mais leve à narrativa.  Podem estar revelando um passado mais afetivo ou, quem sabe, um desejo, fantasia ou imaginação, apenas?




A origem dessa história está numa peça teatral escrita logo após a Primeira Guerra Mundial, por Maurice Rostand, que foi adaptada para o cinema, em Hollywood, em 1931, pelo grande diretor, de origem germânica, Ernst Lubitsch (1892-1947).  Sim, ele mesmo, o grande diretor de comédias sofisticadas que marcaram época.  Só que esse filme dele, “Não Matarás” (Broken Lullaby) é seu único drama e não fez qualquer sucesso, acabou esquecido.  Ozon ampliou a trama de Lubitsch e propôs novos dilemas à protagonista.  A ação se passa antes na Alemanha e o filme é falado em alemão, depois vai à França e passa a ser falado em francês.  Na verdade, as duas línguas se alternam, porque há sempre em cena elementos das duas nações em contato.

O diretor fez uma adaptação livre do filme e conseguiu um resultado nada menos do que brilhante.  Tomou uma história de época e fez um filme que é a cara do século XXI,  com seus questionamentos aos fatos, às interpretações, às narrativas que vingam ou não, ao papel que a mentira pode desempenhar na vida, à própria noção de verdade.

O desempenho do elenco é outro ponto alto do filme.  Atores e atrizes trabalham fora dos clichês, com ambiguidade, sombras e sutilezas nos personagens, o que põe de pé uma história que caminha na corda bamba da realidade e dos sentimentos.  A receita poderia facilmente desandar se algum desempenho entregasse o que está oculto.  Isso não acontece.




François Ozon, na minha opinião, é o mais importante cineasta francês da atualidade.  Seu trabalho tem uma consistência e uma criatividade marcantes e geralmente seus filmes têm muito a dizer, além da beleza visual, curiosamente muito associada às cores, até mesmo nessa produção quase toda em preto e branco.  Vamos apenas lembrar de seus últimos filmes, são todos muito bons: “Uma Nova Amiga”, de 2014, “Jovem e Bela”, de 2013, “Dentro da Casa”, de 2012, “Potiche – Esposa Troféu”, de 2010, “O Refúgio”, de 2009, “Ricky”, de 2008.  Vários deles têm críticas aqui no cinema com recheio.  Quem ainda não conhece esse cineasta não perca mais tempo, vá atrás.  Comece por esse “Frantz”, que é um filme soberbo, talvez o melhor de sua filmografia.

“Frantz” está presente no Festival Varilux de Cinema Francês que, de 07 a 21 de junho de 2017, exibe 19 longas-metragens em 55 cidades brasileiras.  Em seguida, entra em cartaz nos cinemas.



sexta-feira, 2 de junho de 2017

NEVE NEGRA


Antonio Carlos Egypto




NEVE NEGRA (Nieve Negra).  Argentina, 2016.  Direção: Martín Hodara.  Com Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Laia Costa, Federico Luppi.  90 min.


Narrativas que envolvem muitos personagens e diversas subtramas são um convite à dispersão.  Elementos centrais podem perder a força e o tempo consumir a atenção e o interesse do espectador.  Às vezes, é como aquelas pessoas que se perdem em longas explicações, perorações intermináveis, que a gente acaba por não ouvir ou entender mais nada.

Muito diferente é o papo direto e reto.  O jeito econômico de contar uma história ou desenvolver uma ideia.  O thriller argentino “Neve Negra” é um bom exemplar de trama econômica, focada no que interessa, sem dispersões.  Usa o recurso do flash-back progressivo, que vai mostrando em doses homeopáticas o passado dos poucos personagens envolvidos na história, de modo a ir elucidando tudo até o final.




Não é um vai-e-vem no tempo interminável e confuso, como, por exemplo, o que se pode ver em outro filme em cartaz nos cinemas, “Faces de Uma Mulher”, produção francesa, dirigida por Arnaud des Pallières.  E há tantos outros exemplos, atualmente. Não, o filme de Martín Hodara é cheio de mistérios e descobertas surpreendentes, mas tudo faz muito sentido e termina bem amarrado.  Sem deixar fios soltos pelo caminho.

Toca, também, na questão de que a verdade é aquilo em que a gente acredita ou admite que seja, aquilo que ficou estabelecido como tal.  Um segredo bem guardado estabelece o que virá depois.  Ou, quem sabe, segredos em série darão o rumo das coisas.

Como de costume no cinema argentino contemporâneo, vê-se um roteiro bem construído, uma história bem concebida e que vai ao ponto.  Além disso, pode contar com alguns dos maiores atores do momento, como Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia, e o veterano e grande ator, Federico Luppi.  A jovem atriz Laia Costa tem uma interpretação segura e emocionante, ao lado desses cobras.  Mostra desenvoltura.




A trama remexe uma dinâmica familiar apodrecida por tudo o que ficou encoberto, negado, e virou tabu na relação entre os irmãos e deles com os pais.  É bem assustador o que se estabelece a partir daí.  O filme mostra como isso está hoje, quando um dos irmãos, Salvador (Ricardo Darín), vive isolado, caçando na região montanhosa e gelada da Patagônia, e se tornou bem agressivo no contato.  Marcos (Leonardo Sbaraglia), o irmão mais novo, e sua esposa, Laura (Laia Costa), vão ao encontro dele, tentando convencê-lo a vender a propriedade onde ele está há décadas, longe das coisas.  Tarefa quase impossível.  Enquanto isso, a outra irmã, Sabrina (Dolores Fonzi), vive internada, tendo crises de descontrole emocional. Para entender o porquê de tudo isso, “Neve Negra” mergulha no passado desses irmãos e nas relações que se estabeleceram entre eles, na juventude.

A neve da Patagônia, os espaços amplos, vazios, as árvores que ressaltam no branco da paisagem, as tempestades, nevascas castigando o ambiente, são a expressão visual do desarranjo familiar de contornos dramáticos, trágicos, na verdade.  E acabam por determinar o destino daqueles sofridos personagens.

O filme tem grande fluência e a narrativa prende de tal modo que seus já econômicos 90 minutos passam tão rápido, que mal dá para perceber.  Quando a projeção terminou, a minha sensação era de que “Neve Negra” tinha uma duração muito curta.  Só ao consultar o relógio, percebi que o tempo era padrão, o mais utilizado pela sétima arte desde sempre.  Grande mérito para o trabalho do diretor Martín Hodara e seu elenco admirável e de grande eficiência nos desempenhos.  A gente entra no clima facilmente e usufrui de um belo espetáculo cinematográfico.  Não surpreende o sucesso que o filme vem fazendo na Argentina, onde foi a produção mais vista nos cinemas em 2017, até aqui.