dirigido por Oliver Hermanus, nascido na África do Sul. Em Boston, em 1917, Lionel e Davi, estudantes de música, se conhecem e, apaixonando-se pelas folksongs, percorrem os Estados Unidos registrando canções para serem reproduzidas no gramofone. Essa longa viagem os aproxima muito e daí surge uma paixão também entre eles, para além da música. Separam-se ao final da viagem, tomando rumos distintos, mas o vínculo que construíram jamais morrerá. O que construíram juntos pela história da música, também não. Bela e cuidadosa produção, com boa música e uma dupla de protagonistas ótima: Paul Mescal e Josh O’Connor. Também no elenco, Hadley Robinson, Emma Canning e Chris Cooper. 127 min.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
PECADORES +
dirigido por Oliver Hermanus, nascido na África do Sul. Em Boston, em 1917, Lionel e Davi, estudantes de música, se conhecem e, apaixonando-se pelas folksongs, percorrem os Estados Unidos registrando canções para serem reproduzidas no gramofone. Essa longa viagem os aproxima muito e daí surge uma paixão também entre eles, para além da música. Separam-se ao final da viagem, tomando rumos distintos, mas o vínculo que construíram jamais morrerá. O que construíram juntos pela história da música, também não. Bela e cuidadosa produção, com boa música e uma dupla de protagonistas ótima: Paul Mescal e Josh O’Connor. Também no elenco, Hadley Robinson, Emma Canning e Chris Cooper. 127 min.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
SIRÂT
Antonio Carlos Egypto
SIRÂT. Espanha. Direção: Oliver Lake. Elenco:
Sergi López, Bruno Nuñez, Stefania Gadda, Joshua Liam Henderson, Jade Oukid.
120 min.
“Sirât”, o filme de abertura da
49ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é o representante da Espanha
na disputa do Oscar de melhor filme internacional. É um road
movie todo passado nos desertos do Marrocos e tem coprodução
francesa. O diretor Oliver Lake nasceu na França, de uma família de
imigrantes espanhóis.
“Sirât “ é um filme que
comporta muitos adjetivos para defini-lo. É impressionante,
impactante, doloroso emocionalmente, vibrante, desafiador, notável.
É um filme que mexe com todo mundo,
dá até para detestar, mas não dá para esquecer, nem ficar
indiferente. Reflete o mundo em que vivemos, o clima de guerra que o
define, o temor até de uma Terceira Guerra Mundial. O ambiente
explosivo em que estamos todos envolvidos e também o desencanto e o
desamparo. E, mais do que tudo isso, o filme nos mostra que,
definitivamente, não estamos no controle das coisas, nem das nossas próprias
vidas, nem de nós mesmos. O século XXI seria uma espécie de
“xeque-mate” do que já sabemos desde Darwin, Freud e Marx. Claro,
não dá para ser otimista diante das circunstâncias. Mas pessimismo
inerte é derrota. É preciso agir, da forma que for possível.
Um pai e um filho ainda pequeno
que circulam por festas rave no deserto marroquino, em busca
da filha e irmã que não veem há dois meses, seguem um grupo de jovens errantes,
espécie de hippies da atualidade. Eles tentam viver
e dançar ao som das batidas da música, que é puro ritmo, ao lado de centenas,
milhares de integrantes dessas festas, que já estão sendo coibidas pela polícia
e podem ser as últimas explosões de vida ainda permitidas. Dançar,
interagir, buscar uma saída lisérgica para suportar os fatos pode ser um
caminho para eles.
Um caminho a que vai se somar a
família que busca sua integrante que está distante. Curtindo o mesmo
vigor de música e dança no deserto, pelo que se sabe
dela. Até onde se pode ir nesse ambiente árido e inóspito, por
caminhos quase intransitáveis, num mundo nada protetor, em guerra e opressões
diversas?
Uma reflexão para lá de relevante,
sem dúvida. O filme também flerta com uma ideia
mística. Se não temos o controle, estamos à mercê dos desígnios de
Deus. Pode ser visto assim, mas simplifica muito as
coisas. E tende a levar à acomodação. E aí, será que tem
saída? Vamos ficar no clichê: a esperança é a última que
morre? De onde ela virá? Dos povos, espero.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
ORWELL:2+2=5
Antonio Carlos Egypto
ORWELL: 2 + 2 = 5. França, 2025. Direção: Raoul Peck. Narração: Damian Lewis. Documentário.
119 min.
O documentário “Orwell: 2 + 2 = 5”, do diretor
Raoul Peck (de “Eu Não Sou Seu Negro”, de 2016, “O Jovem Karl Marx”, de 2017, e
“Ernest Cole: Achados e Perdidos”, de 2024), nascido em Porto Príncipe, Haiti,
de quem se poderia esperar muito, pelo que já fez, decepciona um pouco. Não porque não seja bem-feito, nem por falta
de uma ampla pesquisa de textos e imagens, menos ainda pelas boas intenções da
proposta.
O problema é que o filme, ao questionar o mundo
atual, opressor, mentiroso, manipulador e cheio de excessos, padece exatamente
de um desses pecados: o absoluto excesso de informações que até dificulta a
compreensão e não nos permite usufruir e refletir sobre o que nos é mostrado.
Para começar, porque a proposta é ambiciosa
demais. Centra-se na figura do grande
escritor George Orwell (1903-1950), apresentado como uma espécie de profeta do
mundo atual, a partir do que criou e escreveu sobre o autoritarismo e sua
capacidade de nos manipular e produzir crenças majoritárias baseadas nas
mentiras apresentadas como verdades absolutas, impostas pelos tiranos e sua
tecnologia.
A partir daí, o filme tenta mostrar que os fatos
ligados ao autoritarismo, não só dos nossos tempos como do passado, vinculam-se
a Orwell de algum modo. E desfila um
colosso de fatos informativos e imagens atuais e de época sendo narrados ao
mesmo tempo em que, muitas vezes, são exibidos também palavras e números
escritos na tela. Para um filme
legendado a ser visto por aqui, não dá nem para acompanhar as duas coisas
juntas. As legendas duplas nem cabem na
tela. Assim, o que seria uma denúncia
para lá de justa e uma justaposição de situações diferentes revela-se exagerada
e irritante.
Quem já não se queixou de ser invadido por um
turbilhão de imagens e mensagens impossíveis de se processar? E que pelo
excesso passam a incomodar muito mais do que contribuir com alguma informação
relevante? Infelizmente, é isso que
acontece com “Orwell: 2 + 2 = 5”, na minha opinião.
Uma edição mais enxuta, seletiva e menos agitada,
poderia ter dado origem a um documentário excelente. Mas não aconteceu.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
PRÊMIO ABRACCINE 2025
Reproduzo aqui a matéria, publicada no site da Abraccine, que revela a escolha que fizemos dos melhores filmes de 2025. Trata-se do 15o. Prêmio Abraccine, que corresponde aos 15 anos de existência da própria associação.
Antonio Carlos Egypto
Revelados os vencedores do 15º Prêmio Abraccine – Melhores do Ano
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foi escolhido o melhor
longa-metragem brasileiro de 2025 pela Associação Brasileira de Críticos de
Cinema (Abraccine). Durante a esperada live do Prêmio Abraccine – Melhores do
Ano, ocorrida na noite de 5 de fevereiro, também foram anunciados “Uma
Batalha Após a Outra”, dirigido por Paul Thomas Anderson, na categoria melhor
longa-metragem internacional, e “A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero”,
de Rodolpho de Barros, como melhor curta-metragem.
Em sua 15ª edição, marca que acompanha a existência da entidade, o
Prêmio Abraccine – Melhores do Ano vem se juntar a uma bem-sucedida trajetória
comercial e de premiações dos títulos escolhidos. “O Agente Secreto”, visto no
Brasil por mais de dois milhões de espectadores, largou no Festival de Cannes
do ano passado com os troféus de direção e ator para Wagner Moura, e está
indicado a quatro estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme e melhor ator.
Terá batalha difícil com o longa de Thomas Anderson, outro dos favoritos para
os prêmios da Academia de Hollywood, em disputa por 13 Oscars. Já o longo e
curioso título do curta vencedor é um velho conhecido da Associação. Levou o
Prêmio Abraccine no Fest Aruanda 2025, entre outros reconhecimentos no mesmo
festival.
Além dos três títulos vencedores, a Associação também elegeu o top 10 de
cada categoria.
O processo de eleição ocorreu durante a última quinzena de janeiro com a
participação dos associados, em quadro composto atualmente por cerca de 180
nomes estabelecidos em todas as regiões do País, entre jornalistas, críticos,
acadêmicos, estudiosos, curadores e programadores da área de cinema.
Confira as listas completas de melhores do ano de 2025 segundo a
Abraccine:
Melhor Longa-Metragem Brasileiro
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Top
10 Longas-Metragens Brasileiros (em ordem alfabética)
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Baby, de Marcelo Caetano
Os Enforcados, de Fernando Coimbra
O Filho de Mil Homens, de Daniel Rezende
Homem com H, de Esmir Filho
Kasa Branca, de Luciano Vidigal
Manas, de Mariana Brennand
A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo
Oeste Outra Vez, de Erico Rassi
O Último Azul, de Gabriel Mascaro.
Melhor
Curta-Metragem
A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, de Rodolpho de Barros
Top
10 Curtas-Metragens (em ordem alfabética)
A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, de Rodolpho de Barros
Boiuna, de Adriana de Faria
Casulo, de Aline Flores
Como Nasce um Rio, de Luma Flôres
E Seu Corpo é Belo, de Yuri Costa
O Faz-Tudo, de Fábio Leal
Laudelina e a Felicidade Guerreira, de Milena Manfredini
O Mapa em Que Estão meus Pés, de Luciano Pedro Jr.
O Rio de Janeiro Continua Lindo, de Felipe Casanova
Samba Infinito, de Leonardo Martinelli
Melhor Longa-Metragem Internacional
Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson
Top
10 Longas-Metragens Internacionais (em ordem alfabética)
Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson
Dreams, de Dag Johan Haugerud
Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi
Levados pelas Marés, de Jia Zhang-Ke
The Mastermind, de Kelly Reichardt
Misericórdia, de Alain Guiraudie
Pecadores, de Ryan Coogler
A Semente do Fruto Sagrado, de Mohammad Rasoulof
Sorry, Baby, de Eva Victor
Valor Sentimental, de Joachim Trier
sábado, 7 de fevereiro de 2026
MAIS INDICAÇÕES AO OSCAR
Antonio Carlos Egypto
SONHOS DE TREM (Train Dreams). Estados Unidos, 2025. Direção: Clint Bentley. Elenco: Joel Edgerton, Felicity Jones, Kerry
Condon, William H. Macy, Will Patton.
113 min.
Um lenhador e trabalhador ferroviário, figura solitária, desloca-se todo
o tempo, para cumprir seus trabalhos no Oeste estadunidense, no início do
século XX. Época que traz novas
tecnologias que transformaram as vidas: os trens e a eletricidade, especialmente. Robert (Joel Edgerton) acaba encontrando um
amor, Gladys (Felicity Jones), um casamento e uma filha. Uma tragédia familiar, no entanto, abalará
sua vida tanto quanto as mudanças tecnológicas, frente à natureza selvagem. O filme foca na vivência concreta e onírica
de Robert, assim como em suas memórias.
Explora magnificamente bem a natureza que está sendo devastada pelo
intenso corte de madeira, ralentando as florestas. Na época, o sentido ecológico ainda não
estava presente. A madeira colhida era vista
como infinita, que se reproduziria para sempre na mesma proporção do que era
cortada, ou quem sabe até mais. Alguns
já desconfiavam que nem tudo estava tão bem quanto parecia, mas era ainda uma
visão minoritária e pouco crível. O
filme tem um ritmo lento, mas é belo e muito antenado com as preocupações do
presente, sem fazer qualquer tipo de pregação.
As imagens falam por si. Aliás,
como já foi amplamente divulgado, o diretor de fotografia de “Sonhos de Trem” é
o brasileiro Adolpho Veloso, que concorre ao Oscar pelo filme e é a nossa 5ª.
indicação, além das quatro obtidas por “O Agente Secreto”. É inegável que uma das maiores virtudes do
filme é precisamente a sua fotografia, daí a justa indicação. Além de Adolpho Veloso, a obra está indicada
para melhor filme, roteiro adaptado (baseado em novela de Denis Johnson) e
canção original. Uma produção da
Netflix.
AS GUERREIRAS DO K-POP (K-Pop Demon
Hunters). Coreia do Sul/ Estados Unidos, 2025. Direção: Chris Appelhans e Maggie Kang. Animação: 95 min.
Não acompanho regularmente os lançamentos em animação. Mas, de vez em quando, é preciso conferir o
que de melhor está sendo exibido. No caso de “As Guerreiras do K-Pop”, por suas
indicações ao Oscar de animação e canção original para Golden, que são citadas
como favoritas nessas categorias. Já
venceu nas mesmas categorias o Globo de Ouro.
E o Grammy 2026 de canção escrita para mídia visual. O desenho, muito bom, centra sua narrativa
numa trinca de meninas estrelas da música pop, Huntrix (Rumi, Mira e Zoe), que
têm milhares de fãs que as adoram e dependem delas para serem felizes. Elas são dedicadíssimas aos fãs. Mas, além de estrelas da música, Huntrix tem
uma missão secreta, são guerreiras que combatem os demônios que ameaçam a
humanidade e o bem-estar geral, este buscado como mágica. Acabam encontrando como rivais, tanto na
música quanto no caráter demoníaco, a banda Saja Boys. Claro que está aí a sempre colocada luta do
bem contra o mal e um mundo que precisa de salvadores e discípulos. A trama, porém, inova, ao colocar elementos
demoníacos a serem assimilados pelo bem e algumas figuras demoníacas que também
buscam se aproximar do bem. Trata-se de
uma animação musical empolgante e agitada.
As músicas são ótimas. O universo
musical e de dança da Coreia do Sul está aqui muito bem representado. Produção da Sony, distribuída pela Netflix.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
LIVING THE LAND
Antonio Carlos Egypto
LIVING THE LAND (Sheng Xi Zhi Di). China, 2025.
Direção: Huo Meng. Elenco: Wang
Sang, Zhang Yanrong, Zhang Chuwen. 130
min.
O filme “Living the Land” do cineasta chinês Huo Meng, em seu segundo
longa, é uma obra cinematográfica refinada pela beleza das imagens, fotografia,
uso das cores vivas, bom aproveitamento das locações e pelo enquadramento das
ações, sendo que a maior parte delas envolve muitos personagens em
deslocamento.
A obra focaliza uma pequena comunidade rural tradicional chinesa, em suas
múltiplas e variadas ações produtivas de sobrevivência, mas no momento em que
as mudanças socioeconômicas do país o levam aceleradamente para a modernidade:
os anos 1990. Recheada de personagens
típicos das pequenas vilas, com seus problemas, conflitos, dificuldades,
preconceitos, mas que formam uma liga afetiva, praticamente familiar. Consequentemente, o controle social dos
comportamentos é muito intenso.
Em tempos de fortes mudanças, as novas tecnologias e as novas diretrizes
econômicas e sociais alteram radicalmente a vida de todos e o caminho natural é
ir para a cidade, em busca de novas oportunidades. Uma questão muito mais de sobrevivência do
que da própria busca por uma vida melhor.
O filme nos coloca numa imersão na vida em comunidade e nas
transformações que vão ocorrendo, afetando as pessoas. Mostra também a história de personagens
representativos na figura das crianças que ficam, mas precisam partir para
existir no novo modo de vida chinês.
Apesar disso, os personagens não são desenvolvidos ou aprofundados. É o seu conjunto em ação que funciona como
protagonista. Ou seja, o protagonista é
a comunidade. É nesse sentido um filme
sociológico. Ilumina a sociedade, as
pessoas são peça e consequência do coletivo.
Vamos ouvir um pouco do que diz o diretor Huo Meng: “Eu queria retratar
como, quando políticas sociais coletivistas colidiram com tradições moldadas ao
longo de milênios, as pessoas foram forçadas a se adaptar de maneiras que
desafiaram seu próprio modo de vida” e acrescenta: “Também senti que era
importante retratar as imensas pressões que as mulheres enfrentaram... que
deixaram danos duradouros e irreversíveis”.
As personagens femininas são muito claramente as mais afetadas por todo o
processo que subverte a vida familiar tradicional. Isso tudo se percebe ao longo da narrativa
que, apesar dessas palavras do cineasta, é leve, respeitosa e sem julgamento ou
moralismo. O que é, sem dúvida, um
mérito do realizador.
“Living the Land” venceu o Urso de Prata de melhor diretor em Berlim e
recebeu muitas críticas elogiosas mundo afora.
E é, de fato, um belíssimo filme.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
2 FILMES
A ÚNICA SAÍDA (Eojjeol Suga Eopda). Coreia do Sul, 2025. Direção: Park Chan-wook. Elenco: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park
Hee-soon, Lee Sung-min, Cha Seung-won.
139 min.
“A Única Saída”, de Park Chan-wook, baseado no romance The Ax, de Donald E. Westlake, de 1997,
é uma nova filmagem do mesmo romance que havia dado origem ao filme “O Corte”,
de Costa Gavras, em 2005.
“O Corte”, até onde me lembro, era uma comédia discreta e realista, que
denunciava os cortes empresariais abruptos derivados das mudanças
organizacionais que deixavam ao desespero os desempregados, a ponto de fazerem
o que seria até impensável: eliminar fisicamente os concorrentes.
Essa mesma trama, enfatizando mais a questão tecnológica, é o mote
propulsor do filme “A Única Saída”, mas aqui a comédia é rasgada, cheia de
trapalhadas, em que se sobressai a dificuldade que é matar alguém e como é
complicado efetuar a ação. Hitchcock já
abordou isso em vários filmes dele.
Afinal, matar é difícil, não só pela falta de coragem, destreza ou plano
mal realizado, mas por questões morais.
E também pela dificuldade objetiva da realização.
O filme não brilha pela profundidade de proposta, nem pelo humor escrachado,
sendo uma realização apenas mediana. Mas
tem um grande mérito: o seu impacto final, que não só é inteligente e motivador
de debates como compõe uma sequência muito bem realizada visualmente. Será preciso que você curta o filme até o
final para aproveitar isso.
“A Única Saída” teve indicações ao Globo de Ouro. Não conseguiu nenhuma indicação ao Oscar,
embora estivesse concorrendo.
DOIS PROCURADORES (Zwei
Staatsanwälte). Europa, 2025. Direção: Sergey Loznitsa. Elenco: Alexander Kuznetsov, Anatoly Beily,
Dimitrius Denisiukas. 118 min.
O filme do grande diretor ucraniano Sergey Loznitsa remete à União
Soviética, no ano de 1937, sob o domínio de Stalin.
Mostra os próprios presos do regime sendo destacados para queimar uma
montanha de pedidos e reclamações dirigidos ao próprio Stalin e à máquina
policial e judiciária da época. Uma dessas manifestações, escrita a sangue por
um prisioneiro, não foi destruída e acabou chegando à promotoria de justiça.
O promotor recém-formado, iniciante na profissão, Kornyev, vai em busca
de realizar o seu papel e investigar o que se passa com o prisioneiro. Vê o que acontece na prisão e, com
dificuldade, tem acesso reservado ao tal prisioneiro e percebe que será bem
difícil atuar nessa missão. Mas persiste. Consegue chegar ao Promotor Geral, em Moscou,
e aí descobre como as coisas estavam acontecendo no regime comunista
stalinista.
O filme é bem realizado, numa narrativa clássica, que é adequada à
exposição dos fatos e situações da trama.
A produção envolve diversos países europeus. Já está em pré-estreia no
cinema, mas chegará ao circuito no dia 05 de fevereiro de 2026.
sábado, 24 de janeiro de 2026
A VOZ DE HIND RAJAB
Antonio Carlos Egypto
A VOZ DE HIND RAJAB
(Sawt Hind Rajab). Tunísia, 2025. Direção: Kaouther Ben Hania.
Elenco: Amer Hiehel, Clara Khouri, Motaz Malhees, Saja Kilani. 89 min.
“A Voz de Hind
Rajab” é um filme tenso, angustiante e de suspense. Infelizmente baseado em fatos reais que nos
assustam e às vezes nos fazem descrer da própria humanidade. O filme da diretora tunisiana Kaouther Ben
Hania é uma encenação de uma situação que não só ocorreu como vem acontecendo
seguidamente na Faixa de Gaza.
Trata-se de uma
menina de 6 anos que conseguiu pedir ajuda por telefone à Sociedade do
Crescente Vermelho Palestino, quando o carro em que estava com o tio e sua
família foi bombardeado por um tanque israelense e todos ao redor da menina
estavam mortos. A mãe e o irmão dela não
estavam com eles.
O Crescente Vermelho
é um órgão independente e reconhecido, que atua com voluntários e é vinculado
ao Movimento Internacional da Cruz Vermelha.
Para atuar no resgate de pessoas em Jerusalém Oriental e na Faixa de
Gaza, precisa de uma coordenação que passa pela autorização de várias partes
para gerar uma rota segura. Muitos
voluntários já perderam a vida nessa atividade.
O que o filme mostra
é a atuação do serviço de retaguarda ao telefone que abre a coordenação do
resgate. Um carro de socorristas estava
teoricamente a oito minutos do veículo onde a menina clamava por ajuda, para que
fossem buscá-la, mas com o tempo decorrido de três horas o assunto ainda não
estava resolvido.
O que estavam
fazendo e sentindo os atendentes do posto telefônico pode-se imaginar, e é o
que o filme faz, mas as conversas ao telefone que aparecem no filme foram resgatadas
e são os áudios originais reais. O que
só torna a experiência ainda mais aterrorizante e nos coloca na situação de
impotência e, ao mesmo tempo, chama à nossa responsabilidade pelo que está
acontecendo no nosso mundo nesse momento.
O filme praticamente
se passa no tempo decorrido das muitas conversas mantidas com a menina Hind,
com sua mãe e também com os diversos órgãos que precisam ser acionados para que
a operação possa acontecer. Tudo isso se
passa a seco, sem trilha sonora musical.
É realidade na veia, não tem por onde escapar.
“A Voz de Hind
Rajab” é um dos cinco filmes selecionados para a disputa do Oscar de filme
internacional, agora em 15 de março de 2026.
Seus concorrentes são: “O Agente Secreto”, do Brasil, “Valor
Sentimental”, da Noruega, “Foi Apenas um Acidente”, da França/Irã, e “Sirât”,
da Espanha. Um quinteto de grandes
filmes, sem nenhuma dúvida. O filme da
Tunísia não entra como favorito nessa disputa, mas merece toda a nossa
atenção. Afinal, as vozes de todos os
que estão sendo massacrados precisam ser ouvidas e esse genocídio precisa
acabar.















