terça-feira, 14 de agosto de 2018

A OUTRA MULHER


Antonio Carlos Egypto


A OUTRA MULHER (Amoureux de Ma Femme).  França, 2017.  Direção: Daniel Auteil.  Com Daniel Auteil, Sandrine Kiberlain, Adriana Ugarte, Gérard Depardieu.  84 min.


O ator e diretor Daniel Auteil explora, em “A Outra Mulher”, o filão daquilo que acontece quando uma atração bate forte e de forma inesperada.  Daniel (Daniel Auteil) vive bem com a esposa Isabelle (Sandrine Kiberlain) e tudo segue tranquilo até que o grande amigo Patrick (Gérard Depardieu), que se separou da esposa, aparece com a nova namorada.  A esposa de Patrick é amiga de Isabelle, de modo que a separação não foi bem vista.  Patrick, porém, insiste em ir jantar na casa de Daniel, para apresentar ao casal seu novo amor, Emma (Adriana Ugarte).  Parece justo.  Afinal, ele tinha o direito de reconstruir sua vida amorosa.




Ocorre que Emma é uma daquelas mulheres jovens, lindíssimas, de corpo escultural, e Daniel simplesmente não resiste.  Impulsionado pelo desejo, passa a imaginar coisas, sonhar acordado, e se entrega da forma mais óbvia.  O filme explora seu comportamento bizarro, seus atos falhos, sua sem-graceza e os estragos que tudo isso causa.  A maior atingida será a própria Emma, que terá seu vestido emporcalhado pelas trapalhadas do novo amigo desejante.

A comédia vai bem, é divertida, ao expor a vulnerabilidade de quem deseja, sem conseguir se controlar.  Mostra como a atração sexual pode atropelar princípios, planos e comportamentos, quando é avassaladora.  E que isso pode acabar pondo a vida de cabeça para baixo.  Ou não.  Haverá tempo de reconstruir as coisas, se desfazendo dos equívocos?  Ou terá sido só coisa da cabeça, da imaginação, do sonho? 

Um time de atores e atrizes charmoso e competente contribui para fazer o filme fluir com leveza e graça.  Despretensioso, mas bom entretenimento.



A FESTA


Antonio Carlos Egypto


A FESTA (The Party).  Inglaterra, 2017.  Direção e roteiro: Sally Potter.  Com Timothy Spall, Kristin Scott Thomas, Patricia Clarkson, Bruno Ganz, Emily Mortimer, Cillian Murphy.  71 min.


“A Festa” é uma comédia irônica, de sorrisos, não de gargalhadas.  Ao revelar-nos um universo perverso, que escamoteia todas as questões, o que fica é só aparência e vazio.  O que é objeto de reflexão sobre o mundo dos bem-sucedidos e poderosos.

Um encontro íntimo reúne sete amigos, com a intenção de celebrar a ida de Janet (Kristin Scott Thomas) para o prestigioso ministério da saúde.  É bom lembrar que o atual atendimento britânico de saúde é referência mundial .  Pois bem, o filme tratará de pôr em cheque isso também.

O mais importante é que uma doença terminal, revelações sobre uma gravidez inesperada, infidelidades várias, lesbianismo e dependência de drogas, serão elementos detonadores dessa celebração.




O desnudamento da burguesia que o filme apresenta faz lembrar o mestre espanhol Luís Buñuel e seu estilo corrosivo.  No entanto, aqui não há propriamente surrealismo ou non sense.  Tudo se dá numa dimensão que cabe no terreno racional.  Com dificuldade, é verdade, mas cabe.  O mais próximo do surreal é o ótimo personagem de Bruno Ganz, Gottfried, com sua energia positiva descolada da realidade, sua atitude de autoajuda e suas crenças alternativas.

Já a militante do partido que vai virar ministra nos é bastante familiar, no seu cinismo e descrença do seu papel republicano no governo.  A intelectualidade real, ou simulada, dos demais não resiste ao crivo da razão e do equilíbrio. Jogam pesadamente na deslealdade, no que está encoberto ou omisso.  Detonam a si mesmos e aos outros.

O título original “The Party” refere-se tanto à festa quanto ao partido.  Um bom roteiro, diálogos atraentes, um elenco de peso e uma interessante opção pelo preto e branco, que reforça a ligação com o Buñuel dos primeiros tempos, faz do filme da cineasta Sally Potter uma ótima atração do presente ano cinematográfico.



domingo, 12 de agosto de 2018

CINEMA ITALIANO ATUAL


Antonio Carlos Egypto




O cinema italiano tem de enfrentar, queira ou não, o fantasma de um passado tão glorioso que jamais conseguirá igualar.  Mas, a julgar por alguns filmes exibidos na mostra 8½. Festa do Cinema Italiano, que entrarão em cartaz nos cinemas brevemente, o nível da produção atual é bem bom.  São realizações de muito bom nível, com alta qualidade de produção, cineastas competentes, elencos em que abundam talentos e histórias que exploram o mistério e o ambíguo em diferentes gêneros cinematográficos.

UMA QUESTÃO PESSOAL (Una questione privata), dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, de 2017, é um filme simples e bonito.  Passa-se no Piemonte, em 1943, envolvendo dois participantes da Resistência Italiana, na Segunda Guerra Mundial.  Eles se alistam e lutam contra os fascistas, mas têm em comum, além disso, o desejo por uma mulher, Fúlvia.  Estamos no clima de guerra, porém, o filme não destaca o lado político dela.  Milton, em meio à guerra, procura por seu amigo e rival, Giorgio, que caiu nas mãos dos fascistas, mas suas razões são de ordem pessoal, como diz o título do filme. É um trabalho para se curtir com calma, apreciando a beleza do lugar, a filmagem elegante, o desempenho do elenco. Tem a chancela desses fabulosos irmãos cineastas, que sempre trabalharam juntos e assim continuaram, Paolo, com 86 anos, e Vittorio, falecido em abril de 2018, aos 88 anos. Com Luca Marinelli, Valentina Bellè, Lorenzo Richelmy. 84 minutos.

FORTUNATA (Fortunata), de Sergio Castellitto, de 2017, é um filme intenso, que foca na vida atormentada da personagem central, Fortunata, cabeleireira a domicílio, em busca de conquistar sua independência, abrindo seu próprio salão.  Nisso está muito antenada com os tempos atuais do capitalismo, que enxerga no empreendedorismo a solução para os seus males: as perdas de direitos trabalhistas, de emprego e de renda.  A luta da personagem passa tanto pelas dificuldades concretas do dia-a-dia, que incluem uma filha de 8 anos e um casamento fracassado, numa vida difícil, bastante representativa do nosso tempo, quanto por questões existenciais. Um processo psicoterápico que entra na trama acentua ainda mais o drama. Jasmine Trinca, que vive Fortunata, venceu o prêmio de melhor atriz em Cannes.  Com Jasmine Trinca, Stefano Accorsi, Alessandro Borghi, Edoardo Pesce. 103 min.




A GAROTA NA NÉVOA (La Ragazza Nella Nebbia), de Donato Carrisi, de 2016, é um suspense policial muito bem realizado, em locações belíssimas e com um grande e competente elenco.  O diretor é o próprio escritor do romance policial que deu origem ao filme, o que garante um roteiro intrigante e que prende o espectador do início ao fim. Explorando o mistério do desaparecimento de uma adolescente, recatada e religiosa, em um povoado do norte da Itália, o filme caminha no sentido de produzir um culpado, a partir dos métodos incriminatórios nada convencionais do investigador policial.  Ele está mais interessado em atender à mídia e em se projetar do que investigar, de fato.  Em seu passado, já incriminou um inocente, sem ter qualquer remorso na consciência.  A névoa pontua e acentua o clima de mistério, num filme pictoricamente muito atraente.  Com Toni Servillo, Jean Reno, Alessio Boni, Galatea Ranzi.  127 min.

POBRES, MAS RICOS (Poveri ma Ricchi), de Fausto Brizzi, de 2016, é uma comédia rasgada, de fato muito engraçada.  Explora um tema banal, o de uma família humilde, de um pequeno povoado, da região de Lazio, que ganha na loteria e se torna bilionária da noite para o dia.  Para escapar do possível assédio local vai viver em Milão uma vida de luxo, tentando ficar incógnita em relação à sua comunidade.  E, como seria de se esperar, não têm ideia de como se comportar enquanto ricos.  Ou melhor, a ideia que têm está ultrapassada.  Os ricos atuais são diferentes dos do passado, mudaram seus comportamentos.  O que torna tudo ainda mais difícil.  Comédia que explora os costumes e comportamentos típicos do povo, com diálogos espirituosos e escorada num ótimo elenco de atores cômicos.  Sem apelações nem grossura. Brinca com os clichês de um jeito inteligente, evitando o desrespeito e o preconceito.  Humor de qualidade que faz jus à grande tradição da comédia italiana.  Sucesso de público, que já gerou uma continuação na Itália: Poveri Ma Ricchissimi.  Com Christian De Sica, Enrico Brignano, Lucia Ocone.  90 min.





terça-feira, 7 de agosto de 2018

TESNOTA


Antonio Carlos Egypto





TESNOTA (Tesnota).  Rússia, 2017.  Direção: Kantemir Balagov.  Com Darya Zhovner, Olga Dragunova, Artem Tsypin, Nazir Zhukov.  118 min.


“Tesnota”, que está entrando em cartaz nos cinemas nesta semana, é o primeiro longa-metragem do diretor russo Kantemir Balagov, que também responde pela montagem e pelo roteiro do filme, este em parceria com Anton Yarush.  Indícios claros de um trabalho autoral, que se confirma desde as primeiras imagens, nada convencionais.  Apresenta uma fotografia que enfatiza tons escuros e cores fortes ao mesmo tempo, fazendo sobressair as tensões do ambiente.

O foco do filme é uma comunidade judaica, fechada e marginalizada, na localidade de Nalchik, norte do Cáucaso, cidade natal do diretor.  O ano: 1998.  A personagem central Ilana, de 24 anos, trabalha na oficina do pai como mecânica e ama um personagem cabardino, num  relacionamento algo clandestino, não aceito pela família.  Trata-se do que na própria trama do filme é referido como sendo as tribos, que são discriminadas pelos russos.




O evento central da narrativa é o sequestro de um casal de noivos, logo após a cerimônia de compromisso deles.  David, o noivo, é o irmão mais novo de Ilana.  E a questão que se colocará é a de como pagar o resgate pedido sem mexer com a polícia, para evitar maiores complicações.

O dinheiro servirá para mostrar, de um lado, um espírito de coletividade e solidariedade, mas, de outro, o ressentimento de alguns, a chantagem e também a tentativa de se aproveitar da situação para conseguir algum objetivo, difícil de ser alcançado por outro meio.

A família de Ilana e David não tem posses suficientes e a própria oficina mecânica, que é sua fonte de sustento, estará em questão.  Assim como o casamento de Ilana. Passaram  a vida se mudando de um lado para o outro, para tentar sobreviver e escapar dos preconceitos.  O sequestro parece levá-los de volta para a estrada.  Inevitável será enfrentar  questões éticas, que poderão complicar ou arruinar a vida de cada um deles: pai, mãe, irmãos e parceiros amorosos.  As decisões que todos têm de tomar são vitais, decisivas e urgentes.




Todo esse clima de angústia e tensão é muito bem trabalhado ao longo do filme, em ritmo lento e seguro.  Pouco é explicitado verbalmente, o que importa é o que está por trás do não dito.  Está muito presente nos semblantes, gestos, posturas, silêncios.  Elementos fundamentais em “Tesnota”, que dependem do bom desempenho do elenco.

O cineasta tem uma referência e fonte de influência muito fortes.  Estudou e atuou no departamento de cinema da Universidade de Stravropol, com Alexander Sokurov, um grande cineasta russo da atualidade que, por sinal, é um dos produtores de “Tesnota”.  O filme foi exibido nos festivais de Munique e Cannes, em que recebeu o prêmio FIPRESCI (Un Certain Regard).



terça-feira, 31 de julho de 2018

CAFÉ

Antonio Carlos Egypto






CAFÉ (Caffè).  Itália, 2016.  Direção: Cristiano Bortone.  Com Hichem Yacoubi, Dario Aita, Fangsheng Lu, Ennio Fantastichini.
 

“Café”, o filme, não deixa de ser uma homenagem ao nosso sofisticado hábito de tomar café com algum requinte.  Seja sendo uma produção super especial, única, seja sendo servido num bule valiosíssimo, seja lendo a sua borra na xícara.  Ou, ainda, discorrendo sobre os seus três sabores básicos: amargo, azedo e perfumado.

Outra constatação muito importante, o café é um hábito planetário, alcança todo o mundo.  A prova disso é que o filme, do diretor italiano Cristiano Bortone, conta três histórias passadas em países distintos: Itália, Bélgica e China ( é uma coprodução dos três países) e envolve personagens árabes. Uma trama permeada pelo café, como elemento simbólico e econômico, que pode vir a frequentar o noticiário policial e mexer de forma intensa com a vida das pessoas.




As histórias têm um fio tênue que as liga, como, de algum modo, todos nos ligamos enquanto seres humanos, ainda que longe uns dos outros, mundo afora.

Um precioso bule de café roubado leva um árabe pacífico a se envolver com violência na Bélgica, para recuperá-lo.  Questões políticas, manifestações de rua em Bruxelas, insatisfações com a situação econômica, falta de empregos e de opções para os jovens e conflitos familiares imbricam-se num relato policial, a partir de um ladrão imaturo e inepto.  A mesma questão do colapso das políticas de austeridade europeias encontra em Trieste, na Itália, uma fábrica e um museu de café que serão objeto de um assalto que põe em evidência a combinação entre a questão ética e o desespero numa sociedade de consumo que não se sustenta.

Na China, não é diferente.  Uma fábrica de café põe em risco o meio ambiente e a comunidade, pela ganância e rigidez de seus donos, insensíveis ao sofrimento humano que podem causar.  E faz-se um chamamento para a revalorização do cultivo romântico e tradicional do café.  Isso entremeado por uma história de amor e, claro, pela redescoberta de um sabor artesanal da bebida.

Cada uma das histórias de per si  teria condição de alimentar um longa, porque havia muito ainda a explorar.  O resultado encontrado, no entanto, é bom pela dimensão globalizada em que situa o café e os dramas que podem cercá-lo.  Considerando que os maiores produtores, como o Brasil e a Colômbia, estão fora da trama, tem-se a dimensão da representatividade do café no contexto mundial.




“Café” é um bom produto cinematográfico global, que se vale da força simbólica da bebida que o mundo aprecia para contar histórias envolventes que dialogam com a realidade econômica atual.  A narrativa salta de uma história a outra, ao longo de todo o filme, sem chegar a cansar ou a confundir o espectador, pela mão segura de um bom cineasta e de um bom e diversificado elenco.

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8 ½. FESTA DO CINEMA ITALIANO

De 02 a 08 de agosto de 2018 São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Salvador e Vitória apresentam nos cinemas a tradicional 8 ½. Festa do Cinema Italiano.   São 11 longas-metragens da produção italiana recente, que merecem ser conferidos.  Já vi e recomendo “Uma Questão Pessoal”, dos irmãos Taviani (o último filme de Vittorio Taviani, falecido em abril último) e “Fortunata”, de Sergio Castellitto.  Voltarei ao assunto depois de ver outros filmes dessa mostra.
 


quinta-feira, 26 de julho de 2018

ALGUMA COISA ASSIM



Antonio Carlos Egypto




ALGUMA COISA ASSIM.  Brasil, 2017.  Direção e roteiro: Esmir Filho e Mariana Bastos.  Com Caroline Abras, André Antunes, Clemens Schick, Juliane Elting.  Participações de Lígia Cortez e Vera Holtz.  80 min.


“Alguma Coisa Assim” é um longa brasileiro, com coprodução alemã, que retoma os personagens de um curta homônimo, premiado em Cannes em 2006.  Os realizadores, o ator e a atriz protagonistas, são os mesmos, a trama incorpora a história original e a amplia, para ser experimentada dez anos depois.

Essas explicações não importam muito, são apenas referências para situar o trabalho.  O que conta é o resultado do longa atual, independentemente da sua história passada.  Eu não vi o curta e não senti nenhuma falta de vê-lo.

“Alguma Coisa Assim” é um filme moderno na forma e nas questões temáticas que propõe.  A partir das baladas das casas noturnas da rua Augusta e seu clima transgressivo e colorido, o neón invade a tela, mesmo constatando que a cidade mudou e os jovens estão diferentes.  A história dos dois personagens, Mari (Caroline Abas) e Caio (André Antunes) vai ser retomada em outro contexto urbano, também aberto a experimentações: a vibrante e pulsante cidade de Berlim.  Os jovens estão em busca de algo novo.  O que poderia ser isso?  Basicamente, a ideia de um viver sem rótulos, para além das convenções sociais.

O que significa namorar hoje?  E a amizade que chamávamos de colorida?  Que tal o casamento, em especial, o casamento gay?  Como se define hoje a família, com suas novas formas?  Como se pode entender a sexualidade, em suas múltiplas e plásticas formas?  E os gêneros?  Os cisgêneros e os transgêneros?  Os relacionamentos afetivos e amorosos contemporâneos jovens desafiam convenções e tentativas de enquadrá-los.  Rejeitam e superam os rótulos.




Por que queremos tanto classificar, enquadrar, rotular as coisas?  Em princípio, isso seria preciso para tentar entendê-las.  Mas quase nunca ajuda nos relacionamentos humanos.  Porque, por trás disso, está a noção do controle social e da busca de impor uma visão conservadora do mundo aos jovens e à sociedade como um todo.

“Alguma Coisa Assim” é um jeito mais livre de ser, de experimentar, de arriscar, de viver.  Também com muitas frustrações e incompreensões.  Mas isso é do jogo, está sempre presente.  São personagens se descobrindo, se redescobrindo, percebendo-se mutantes, em transformação constante.

Um filme que vem em boa hora para o nosso Brasil, que anda para trás em tanta coisa, em que os fundamentalistas querem brecar os avanços conquistados nos costumes, atacando a questão de gênero, a diversidade sexual, as novas famílias, o feminismo e o direito mais amplo ao aborto.  No caso do aborto, “Alguma Coisa Assim” é de uma clareza e de uma honestidade que merecem aplausos.  Não faz qualquer proselitismo, mas toca no ponto.  Todo o clima do filme respira uma modernidade digna e bonita.  Esmir Filho e Mariana Bastos fizeram um belo trabalho.




Os atores Caroline Abras e André Antunes vestem a camisa dos personagens com muita sinceridade e força.  Estão muito convincentes.  Caroline já na estrada como atriz, se saindo muito bem e sendo premiada.  André, tentando sair da profissão de ator, abraçando a psicologia como profissão, mas sem conseguir fugir do personagem que começou a interpretar dez anos antes.  Que tal acumular as duas coisas?  Destaque também para a trilha musical de Lucas Santana e Fábio Pinczowskit.

O que eu sei é que está mais do que na hora de alguma coisa assim poder se afirmar na vida das pessoas.  Menos rótulos, mais autenticidade. Isso me faz lembrar de “Jules e Jim”, de François Truffaut, de 1962, e de “As Duas Faces da Felicidade’, de Agnès Varda, de 1965, filmes icônicos de uma fase que revolucionou os costumes nos anos 1960 e que tem muito a nos dizer hoje.  Sabendo ou não seus realizadores, o filme “Alguma Coisa Assim” segue essas pegadas, com competência.





domingo, 22 de julho de 2018

BERGMAN - 100 ANOS



Antonio Carlos Egypto




BERGMAN – 100 ANOS (Bergman – Ett Ar, Ett Liv).  Suécia, 2018.  Direção Jane Magnusson.  Documentário.  117 min.


O cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007) é, indubitavelmente, um dos maiores talentos revelados pela história do cinema, em todos os tempos.  Um dos poucos que merece, genuinamente, ser chamado de gênio.  Seu trabalho no cinema inclui uma obra tão densa, rica e sofisticada, que não pode ser esquecida e merece ser sempre revista, principalmente na tela grande.  Isso tem acontecido por conta do centenário de Bergman neste 2018.  Algumas de suas obras-primas têm sido reexibidas em cópias restauradas nos cinemas.  É o caso de “Gritos e Sussurros” (1972), “Persona” (1966), “Fanny e Alexander” (1982), “Cenas de um Casamento” (1974), “Face a Face” (1975), entre outras.

O documentário recém-lançado “Bergman – 100 Anos”, de Jane Magnusson, reconhece esse talento todo e enfatiza a espantosa produtividade de Bergman, apontando para o ano de 1957.  É incrível constatar que duas das maiores obras-primas do cinema tenham sido realizadas por ele nesse mesmo ano: “O Sétimo Selo” e “Morangos Silvestres’.  Ainda em 1957, ele faria o filme “No Limiar da Vida”, montaria duas peças importantíssimas no teatro sueco, “Peer Gynt”, de Ibsen, e “Fausto”, de Goethe.  Faria, ainda, duas outras peças teatrais e um telefilme.  Isso aos 38 anos, já com seis filhos de três mulheres diferentes.  Nesse ano, e nos seguintes, essa produtividade se manteve, em meio a dores estomacais que faziam com que ele se alimentasse basicamente de bolacha Maria e iogurte, tendo tido episódios de internação hospitalar por conta disso.




O filme de Jane Magnusson está interessado em compreender como esse homem lidou com essas coisas simultaneamente e de que modo vida e obra se imbricam.  Com isso, celebra a genialidade do trabalho que Bergman realizou, mas se debruça no lado negro da força, ou seja, nos problemas e defeitos pessoais que marcaram o diretor.

Aborda, por exemplo, seu gênio difícil, sua competitividade com lances de crueldade, sua infidelidade em relação às mulheres e seu descaso em relação aos filhos.  E sua condição de  workaholic,  indispensável para explicar tal produtividade.  Lembra que Bergman chegou a ser um admirador de Hitler na juventude, e outras coisas mais. Uma homenagem nada chapa branca, portanto.

Confesso que não me agradou muito essa “humanização” do artista, que se comporta como desconstrução de sua figura mítica.  Ele próprio tratava de questões como essas em seus escritos, reconhecendo defeitos, admitindo erros e falhas de caráter.  Mas, segundo o documentário “Bergman – 100 Anos”, ele mentia frequentemente.  Muitas histórias que ele conta que viveu na infância, segundo seu irmão mais velho, não foram vividas por ele, mas pelo irmão. Enfim, não se poderia confiar nem no que ele escreveu a respeito de si mesmo.  Pode ser, mas que importa isso agora?




Tudo que ele viveu ou observou serviu de base para suas histórias, seus questionamentos, e habitou alguns dos personagens mais complexos de sua filmografia, com destaque para as mulheres.  Um grande criador se vale de tudo isso, mescla e retrabalha lembranças, modifica, amplia, inventa.  Além do que, a memória é seletiva, para todo mundo.  Quantas vezes a gente acredita que viu e viveu coisas que, de fato, não aconteceram.  Ou não desse modo, pelo menos.  A obra de Ingmar Bergman é tão grande que tudo isso parece pouco relevante e não explica muita coisa, não. 

Temer a morte, ou as dores e sofrimentos que podem vir antes dela, todo mundo teme.  Mas quantos, em função disso, produziram obras de arte significativas para nos fazer refletir sobre o tema, como Bergman fez em muitos de seus filmes?

Bergman viveu 89 anos e deixou uma marca inconfundível na produção artística mundial.  Seus filmes estão aí para testemunhar.  Os livros que escreveu, também.  Das grandes montagens teatrais restaram fotos e depoimentos.  Celebrar os 100 anos do seu nascimento deve ser motivo de orgulho para toda a humanidade.





quinta-feira, 19 de julho de 2018

EGON SCHIELE - MORTE E DONZELA


Antonio Carlos Egypto




EGON SCHIELE – MORTE E DONZELA (Egon Schiele - Tod und Mädchen).  Áustria, 2016.  Direção: Dieter Berner.  Com Noah Saavedra, Maresi Riegner, Valerie Pachner, Marie Jung, Elisabeth Umlauft.  110 min.


Egon Schiele (1890-1918) viveu pouco, apenas 28 anos, mas produziu uma obra pictórica grande, importante e inovadora.  O pintor austríaco do começo do século XX é considerado um nome de destaque do expressionismo.  Os desenhos e pinturas em que efeitos distorcidos são explorados foram, na grande maioria dos casos, nus femininos.  E ele tinha como modelos garotas muito jovens, a começar por sua própria irmã, sua primeira modelo.  A ênfase não só na nudez, mas, principalmente, na expressão erótica das jovens parece indicar tendência a  pedofilia, não no sentido de abuso sexual, mas de atração por meninas novas.

O convívio com essas meninas que frequentavam sua casa, seu ateliê, ao lado do erotismo do trabalho, acabou lhe valendo um processo e uns dias de cadeia, em 1912, pela acusação de imoralidade e inadequação da obra, como ofensiva para as crianças que a ela estavam expostas, quando não eram os próprios modelos.  O desfecho poderia ter sido bem pior se a suposta perda da virgindade delas tivesse sido provada, o que não aconteceu.



A obra vigorosa e provocativa, para alguns francamente pornográfica, aí está, permanecendo para a posteridade.  O talento é evidente.  Já era no seu curto tempo de existência para os que conheciam as artes plásticas.  Caso de seu contemporâneo Gustav Klimt (1862-1918), o grande pintor simbolista austríaco, que teria sido incentivador de Schiele, comprado seus trabalhos, lhe apresentado pessoas influentes e lhe arranjado algumas modelos.  Quase trinta anos mais velho, Klimt já era um artista de peso, a essa altura.  Curiosamente, Schiele e Klimt vieram a falecer no mesmo ano, que marcava o fim da Primeira Guerra Mundial.

O filme austríaco “Egon Schiele – Morte e Donzela”, dirigido por Dieter Berner, é uma boa cinebiografia do pintor.  Tenta recriar o clima de sua vida e mostra um pouco da sua obra.  Tem sequências muito bonitas e bem filmadas, um elenco jovem que não chega a brilhar, mas atua com empenho, e explora a nudez e o erotismo que combinam com o trabalho do pintor.  Não vai mais fundo nos questionamentos que a vida e a obra de Egon Schiele suscitam, mas traça um retrato razoável disso.

Um filme anterior sobre o mesmo pintor, “Excesso e Punição”, de Herbert Vesely, de 1981, com Mathieu Carrière e Jane Birkin, era mais forte e sombrio, no retrato de Egon Schiele.  Não chegou a obter sucesso, talvez por ser menos sedutor e de ritmo lento.  Eu diria que os dois filmes se complementam, ao tentar trazer para um público mais amplo a história e o trabalho do jovem Schiele, que se despediu da vida por conta da gripe espanhola.  O pai dele morrera de sífilis.  Tempos em que a medicina ainda podia pouco e a inevitabilidade da morte em idade precoce se impunha.




O subtítulo do filme de Dieter Berner: “Morte e Donzela” faz referência a um quadro famoso, de 1915-16, assim denominado, incluindo os artigos..  A morte e a donzela   é um motivo renascentista, aqui explorado com um casal entre lençóis, visto de cima, envolvido por formas que parecem agitadas, remetendo à ideia de morte.

O filme, bem realizado, é uma oportunidade para que, quem não conhece, entre em contato com a arte de Egon Schiele.  E quem já o admira possa conhecer algo mais de sua vida e obra.  Vale por isso.  

         

sexta-feira, 13 de julho de 2018

PRIMAVERA EM CASABLANCA



Antonio Carlos Egypto




PRIMAVERA EM CASABLANCA (Razzia).  Marrocos/França, 2017.  Direção: Nabil Ayouch.  Com Mariam Touzani, Arieh Worthalter, Abdelialah Rachid, Dounia Binebine, Younes Bouab.  119 min.


Casablanca, Marrocos, uma cidade de contrastes, oposição, diversidade.  E também de opressão e violência.  Além disso, uma cidade de fantasia.  Afinal, é o título de um dos maiores clássicos do cinema, aquele que reuniu Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, ao som de “As Time Goes By”.

Nabil Ayouch, o diretor e também roteirista, ao lado de Mariam Touzani, de “Primavera em Casablanca”, vive lá, sente de dentro o que acontece na cidade.  Tem um olhar especial para os que são criticados, enquadrados, oprimidos, excluídos.  E para a imposição de valores, em nome da tradição ou da religião. Por meio de diversos personagens, o filme fala desse conflito, ora, explicitado, ora, surdo, que compõe um caldo de cultura que não tem outro caminho que não seja desandar em violência.




Um professor de província, dedicadíssimo às suas crianças e por elas amado em seu vilarejo, onde o que se fala é o idioma berbere, recebe um ultimato e a presença de um inspetor, porque a nova lei educacional obriga que o ensino no país seja só em árabe.  Ocorre que as crianças não entendem outra língua e só poderão decorar coisas sem significado, sem saber o que estão repetindo.  A frustração leva o mestre a escolher se perder no anonimato de Casablanca.

No ambiente urbano, há uma personagem feminina que se produz, se veste com sensualidade, explora sua beleza e tenta construir sua identidade, dispensando os modelos que lhe são impostos, e sofre com isso.

Quem busca se expressar pela modernidade, se identifica com o rock  que contesta, em vez da música tradicional, que tem papel conservador, encontra resistência.  Viver de música, mesmo bem remunerado, é inaceitável na ótica dos pais.  Não há espaço para a homossexualidade e as formas diversas de viver a masculinidade.  Mas elas estão lá.  Para a mulher, a questão da virgindade até o casamento e a condenação do aborto se escoram na noção de pecado, produzindo sofrimento e desespero.  Falta emprego para a juventude e os ares da liberdade buscam expressão.

2011, a primavera árabe movimenta a região, aparentemente trazendo novos ares e possibilidades.  Revoluções, queda de regimes, a imperiosa necessidade de encontrar novos caminhos e também a produção de respostas individuais, revoluções pessoais.  A tradição autoritária e o controle em nome de valores religiosos sufocam essas revoluções e as saídas políticas revelam-se outra face da mesma moeda.




O protesto e a violência tomam conta das ruas e as festas acabam em pancadaria e agressões desmedidas.  “Primavera em Casablanca” mostra o que está acontecendo, com preocupação.  Preocupação que também deveria ser a de uma direita brasileira, que insiste em pregar liberalismo na economia e conservadorismo nos costumes.  Uma fórmula para oprimir, abalar direitos e produzir mais violência, onde já há tanta desigualdade e tanta divisão.

Bem, e como fica a Casablanca da fantasia, do cinema de Hollywood, de Bogart e Bergman?  Serve para alienar, folclorizar, distorcer a realidade.  Fake news , para usar um termo da moda.  Acho que todo mundo sabe que em “Casablanca”, de Michael Curtiz, (1942), não há nenhuma cena filmada na cidade, ou no Marrocos.  O “Rick’s Bar” nunca existiu por lá.  Não antes de aquele filme ser feito, pelo menos.