Antonio Carlos Egypto
MULHER DESCONHECIDA (Kvinde Ukendt). Dinamarca, 2026. Direção: May el-Toukhy.
De um lado, uma
questão de diferenças de classe social. Marie, babá e empregada doméstica, já
está com o casamento em andamento com o patrão, viúvo, rico e muito mais
velho. Christian, o patrão, se encantou
com ela, mas desconhece o seu passado. É
bom lembrar que estamos no pós Segunda Guerra Mundial e a Dinamarca foi
invadida pela Alemanha. Marie tem um passado comprometedor com um soldado
alemão. Apesar de todo o esforço para
ocultar essa história, algo sempre acontece que escapa ao controle. É nesse clima de ocultação, tentativa de
reparação, de maneira a evitar ter sua culpa revelada, que o filme da diretora
May el-Toukhy se movimenta. O trabalho
com esse clima tão delicado que, em qualquer escorregadela, tudo desanda e ao
que se pode chegar a fazer para sustentar uma situação é o grande mérito do
filme. No elenco, Mathilde Arcel
(brilhante e premiada), Carsten Bjornlund, Thorbjorn Hedegaard, Marina
Bouras. 124 minutos.
NINO – UM FILME SOBRE
NINO ROTA (Nino – um Film su Nino Rota). Itália, 2026. Direção: Walter Fasano. Documentário.
Qual cinéfilo não
conhece e admira as extraordinárias peças de Nino Rota no cinema italiano e
além dele? São cerca de 150 trilhas
sonoras para filmes de Fellini, Visconti, Franco Zeffirelli, como “Amarcord”,
“A Estrada da Vida”, “A Doce Vida”, “Noites de Cabíria”, “O Leopardo” e “Romeu
e Julieta” e um Oscar pelo trabalho musical para “O Poderoso Chefão II”, de
Francis
Ford Coppola. De fato, um dos mais
notáveis compositores para cinema de todo o século XX. Mas, para além disso, o que o filme de Walter
Fasano ressalta é toda uma história dedicada desde a tenra infância à música,
que o levou até a ser chamado de “o Mozart do século XX”, pela precocidade de
composições, inclusive óperas. Ele se
tornou um grande compositor também de música de concerto. Há pouco a OSESP executou algumas de suas
obras sinfônicas. Embora o sucesso de
suas trilhas para cinema tenha sempre se sobreposto ao trabalho musical de
concerto, inclusive nos concertos de grandes orquestras. O filme desenvolve didática e linearmente a
história de Nino Rota ao longo da vida, por meio de material de arquivo, fotos,
registros e depoimentos de quem trabalhou e conviveu com ele, descrito como um
gênio modesto e respeitador, mesmo que em embates com a crítica musical. Um nome indispensável para a história da
música, celebrado nesse belo documentário de um cineasta experiente e
reconhecido. 115 minutos.
EVERYTIME. Áustria,
Alemanha, 2026. Direção de Sandra Wollner.
Elenco: Birgit Minichmayr, Tristán López, Lotte Shirin Keiling, Carla
Hüttermann. 123 minutos.
“Everytime”, mais do
que contar qualquer história, nos remete a um cotidiano comum, aparentemente,
mas estranho. Mistura sonho, fantasia,
paisagens e jogos eletrônicos, em que situações trágicas ocorrem, mas são
sugeridas muito mais do que mostradas. E os sentimentos não explodem. São contidos, vividos com impressionantes
relações polidas, educadas, formais ou escamoteadas. Também lá as atrações, os amores são
sugeridos, insinuados, mas não explicitados.
E quando o foram, foi por meio da ação de drogas, que tiravam a pessoa
do seu universo habitual. No entanto,
cabe até um sol quadrado e misteriosos elementos fantásticos, para fechar a
trama. Os personagens: uma mulher (a
brilhante atriz Birgit Minichmayr), sua filha adolescente que morre, uma menor
que fica e o namorado adolescente, que presenciou a tragédia da filha
maior. Poucas vezes se viu no cinema uma
menina tão inteligente e sagaz, capaz de encarar qualquer conversa ou ordem com
contestação imediata. Um filme que se
aprecia o tempo todo, com interesse e também surpresas.
EMERGENCY EXIT. Espanha,
2025. Direção: Lluís Miñarro. Elenco: Marisa Paredes, Francesc Orella, Emma
Suárez, Albert Plà, Naomi Kawase, Arielle Dombasle e outros. 96 minutos.
Um road movie de ônibus que não tem ponto
de partida, nem ponto de chegada. Tem um trajeto em que personagens, os mais
distintos entre si, têm de conviver por esse caminho, enquanto veem paisagens
imaginárias. Cada um com seus maneirismos. Da atriz que revisita sua carreira, papel da
ótima Maria Paredes com um marido alcoolizado às divas das aparências, que
jamais se afastam das maquiagens, batons e coisas do gênero, passando por uma
antropóloga desorientada e um padre mal resolvido com sua sexualidade, um
menino seminarista, fanatizado por imagens religiosas, uma médica grávida, um
cineasta, diretor, roteirista e ator de filmes que prescindem de qualquer outra
pessoa que não ele próprio, etc. Todos,
de um modo ou de outro, serão seduzidos por Eros, Vênus, o desejo ou o que se
quiser nomear, representado por um jovem que veste cueca e um grosso casaco de
pele. As conversas e atuações revelam um
misto de sonho e realidade mágica, no limiar entre a vida e a morte, nessa
viagem tão fora do comum.
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