quarta-feira, 25 de março de 2026

DITTO e +

 

 Antonio Carlos Egypto

 


DITTO: CONEXÕES DO AMOR (Donggam).  Coreia do Sul, 2022.  Direção: Seo Eun-young.  Elenco: Yeo Jin-goo, Cho Yi-hun, Kim Hye-yoon, Na In-woo, Bae In-hyuk.  114 min.

 

Ditto, ou Donggam em coreano, refere-se ao mesmo sentimento ou “o mesmo vale para mim”.  E, no filme, trata-se dessa possibilidade separada no tempo por vinte anos de distância.  Seria factível uma identificação dessas, ou mesmo empatia, vivida em tempos tão distintos, com muitas diferenças tecnológicas impactando a realidade, de estudantes universitários, no caso?

 

O estudante Kim Young (Yeo Jin-goo) vive em 1995 numa universidade, cursando engenharia mecânica.  Conecta-se por meio de um radioamador com Mu Nee (Cho Yi-hun) que vive em 2022, na mesma universidade.  Essa surpreendente conexão vai revelando um monte de coisas que unirão o rapaz e a moça, tornando-os grandes amigos, que nunca poderão se encontrar.  A menos que ela pudesse encontrá-lo vinte anos mais velho.

 


Kim Young vive uma grande paixão por Seo Han-sol e compartilha suas preocupações, sentimentos e dúvidas, com Mu Nee.  Ela, por seu turno, também faz suas confidências.  As diferenças tecnológicas criam apenas ruídos de comunicação, já que o mundo dos celulares e aplicativos ainda não existia.  E as expressões eram outras ou ganharam novos significados.

 

O filme é marcado por nostalgia e delicadeza.  A diretora e roteirista Seo Eun-young investe na valorização do amor e da amizade, mas ao mesmo tempo conduz uma narrativa inovadora na abordagem da questão amorosa e das questões familiares que permeiam a história.  Uma chuva que acontece cá, mas não lá, delimita territórios, mas um eclipse lunar ata os espaços diversos.

 

A atual produção coreana, que é de 2022, é uma refilmagem da mesma história que alcançou grande sucesso por lá, em 2000.  Mas, ao que consta, de uma forma mais grave e tensa.  Aqui, a direção ao público jovem é clara, pela trama, pelas cores vivas e alegres e, ainda, pelo apelo sentimental.  Embora aqui se dê de uma forma complexa e indireta e chegue a conclusões surpreendentes e inesperadas.

 

As referências cinematográficas amplamente conhecidas se dão em relação à série de filmes “De Volta Para o Futuro” (Back to the Future), dirigida por Robert Zemeckis, em 1985, 1989 e 1990.  Outro filme que inspirou todos eles, de algum modo, é “Em Algum Lugar do Passado” (Somewhere in time), de 1980, dirigido por Jeannot Szwarc.  Esses filmes foram marcantes pelos elencos e por trilhas musicais espetaculares, que sobreviveram ao tempo, como os personagens que eles retrataram.  A trilha sonora de “Ditto” também é bonita.

 

 


NOTRE DAME DE PARIS

Realidade virtual também é cinema.  Um cinema imersivo, em que você vive num mundo paralelo e totalmente ilusório.  Na exposição “Notre Dame de Paris – Eterna e Sagrada” é possível viajar no tempo e na história da famosa catedral, de sua construção à reconstrução que se processou após o incêndio.

 

É possível subir ao topo da igreja, com as gárgulas a seu lado, ver toda a sua estrutura e o panorama que se descortina.  Além de detalhes de sua base em madeira, as grandes obras, esculturas, vitrais e tudo o mais.  Subindo andaimes sem sair do chão.  Mas é fácil acreditar que você está lá em cima.

 

A exposição é, sem dúvida, muito interessante e informativa, porém, a brincadeira e o desviar de pessoas e de muros aparentes ou o medo da altura acabam pesando mais do que as informações históricas ou a análise das obras artísticas.

 

Essa exposição, ao lado de outras similares, como a dos Impressionistas ou de Quéops, acontece no Espaço Cultural de Realidade Virtual, no 2º. subsolo do Shopping Cidade de São Paulo, na avenida Paulista, diariamente, das 10:00 h às 21:20 h.



quinta-feira, 19 de março de 2026

ENZO

                                              Antonio Carlos Egypto

 



ENZO (Enzo).  França, 2025.  Direção: Robin Campillo.  Elenco: Eloy Pohu, Pierfrancesco Favino, Élodie Bouchez.  102 min.

 

“Enzo” conta uma história que nos leva em cheio a conviver com uma adolescência que se vê deslocada, na família, na escola e no trabalho.   O sentimento de pertencimento não está presente e é um problema, as escolhas também são um problema.  Para onde ir e por que ir, um desafio.  A história que o filme conta pode parecer específica, mas na realidade fala de uma adolescência muito representativa de sentimentos, de buscas desencontradas e de uma tentativa atrapalhada de inovar e de conquistar liberdade.

 

Aborda a desigualdade entre as classes sociais, o que desafia as sociedades e os governos.  E o confronto entre as possibilidades e os estilos de vida muito distantes entre si.  Ainda que, na França, essas diferenças sejam menores do que as do Brasil.

 
O jovem Enzo (Eloy Pohu), de 16 anos, pertence a uma família de classe alta, vive numa mansão com lindas vistas, piscina e todo o conforto.  Decide parar de estudar e escolhe trabalhar como aprendiz de pedreiro.  Entende que as paredes e as construções sobrevivem aos homens e aos tempos, por isso são muito importantes.  Seus pais (Pierfrancesco Favino e Élodie Bouchez) com vida acadêmica e estimulando o filho mais velho a alcançar o doutorado, naturalmente sentem o baque dessa escolha.  Não era o que esperavam para a vida de Enzo.  Tentam lidar com a situação como podem, mas o fato é que se sentem perdidos diante dos acontecimentos que envolvem Enzo.

 



O garoto, por seu lado, tenta aprender e se adaptar ao trabalho na construção e se aproximar de alguns colegas, visando ser acolhido e ter amigos no ambiente que escolheu.  Aproxima-se de dois jovens mais velhos que vieram da Ucrânia e sentem o drama de se vão ficar na França ou se vão voltar para lá, diante da guerra com a Rússia e das famílias que por lá ficaram.  Esse encontro tem um impacto muito grande para Enzo e vai mexer com a sua vida, no florescer da sexualidade.

 

O jovem ator Eloy Pohu consegue nos passar o enfado, a dificuldade de viver e conviver nessa etapa, para muitos, muito confusa e complicada da vida.  Os ótimos ator e atriz que representam seus pais mostram a tensão contida que lhes cabe viver nesse momento atormentado de seu filho.

 

“Enzo” é um filme concebido pelo grande diretor Laurent Cantet, do brilhante “Entre os Muros da Escola”, de 2008, e outros trabalhos que revelam sua sensibilidade em relação a crianças, adolescentes e à educação.  Sua morte em 2024, aos 63 anos, abortou o projeto que ele iria dirigir.  E que foi assumido por Robin Campillo, com quem tinha trabalhado no roteiro.  Ainda bem que o filme saiu, aproveitando o que Cantet concebeu e é um trabalho muito bom, muito sensível e competente.

 

 

DICAS PARA OS CINÉFILOS

O Cinesesc SP apresenta a Mostra “FAROL- O Cinema Entre a Memória e o Agora”, de 20 de março a 02 de abril de 2026, que traz filmes inéditos no circuito comercial brasileiro, ao lado de obras que marcaram presença artística relevante, realizadas por cineastas importantes.  Haverá atividades formativas e debates.  Todas as sessões terão preços acessíveis.  Na faixa das 15:00 horas os ingressos são gratuitos.  A programação pode ser acessada em   sescsp.org.br

 

Na Cinemateca Brasileira, de 20 a 29 de março de 2026, acontecerá a Mostra “20 Anos RT Features”, celebrando duas décadas de atividades da produtora brasileira comandada por Rodrigo Teixeira, dedicada principalmente a filmes autorais, como “O Cheiro do Ralo”, “Frances Ha”, “Severina”, “Kontinental’25” e, claro, “Ainda Estou Aqui”.  Todos esses filmes e muitos mais estarão sendo exibidos e as sessões são gratuitas.  Também com cursos e debates. https://cinemateca.org.br

 

Vem vindo aí a 31ª. edição do Festival “É Tudo Verdade 2026”, sempre apresentando o melhor do que há em documentários pelo mundo afora e aqui no Brasil.  Fiquem atentos.

 

 

 

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

SEM OSCAR

Antonio Carlos Egypto

 



Foi frustrante para uma grande torcida que se formou em torno de “O Agente Secreto” pela conquista de uma estatueta do Oscar, tentando repetir o feito do ano passado, com ”Ainda Estou Aqui”.  E a torcida fazia todo sentido.  Tínhamos um filme magnífico, original, criativo, muito bem realizado.  Com um elenco escolhido a dedo, perfeitamente entrosado para viver os papéis que lhes cabiam.  Na verdade, o fizeram na perfeição. 

 

Não por acaso, a nova categoria de escolha do elenco era cobiçada por nós.  O prêmio seria merecidíssimo.  Havia um concorrente forte, o elenco de “Pecadores”, afinadíssimo também.  Venceu “Uma Batalha Após a Outra”, que apresentou um elenco all star, onde não percebi grande mérito na escolha.  Uma opção conservadora, eu diria. 

 

Havia grande expectativa e esperança na dobradinha com o ano passado na categoria de filme internacional.  O sucesso e os prêmios de “O Agente Secreto” no mundo, as avaliações dos maiores críticos foram tão efusivos que mesmo diante de fortes concorrentes como “Foi Apenas um Acidente” ou “Sirât” tínhamos enormes chances.  O nosso maior concorrente, porém, foi o escolhido: o norueguês “Valor Sentimental”.  Um filme excelente, sem dúvida.  E a Noruega ganha nessa categoria pela primeira vez.  “Sirât” merecia ganhar por melhor som, que foi para “F1”.


 




Filme internacional, que antes se chamava filme estrangeiro, ou como no Globo de Ouro filme de língua não-inglesa, parecia trazer um avanço, a partir de 2020, quando o sul-coreano “Parasita” arrebatou o Oscar com muitos e merecidos prêmios.  Mas a internacionalização ainda anda a passos lentos.  Na minha modesta opinião, “O Agente Secreto” e “Valor Sentimental”, que disputaram também a indicação para melhor filme (na categoria geral), foram melhores do que os outros oito concorrentes.  No entanto, para os votantes da Academia, “Uma Batalha Após a Outra”, com seis vitórias, “Pecadores”, com quatro, e até “Frankenstein”, com três, é que se destacaram.

 

“Pecadores” levou o Oscar em duas categorias em que o Brasil concorria, a de fotografia, que tinha a indicação de Adolpho Veloso para o filme estadunidense “Sonhos de Trem”, e a estatueta de melhor ator, disputada por Wagner Moura. Uma vez mais, é preciso reconhecer o talento do ator vencedor, Michael B. Jordan, embora o trabalho do nosso Wagner Moura esteja impecável e, a meu ver, superior ao dos concorrentes.

 

É fato que o cinema mostrou muito valor em 2025 em todo o mundo e  também nos Estados Unidos e no Reino Unido, mas o prêmio do Oscar privilegia nitidamente a produção em língua inglesa, como sempre foi.  Estava na hora de dar passos mais largos com vistas à ampliação da visão de cinema mundial, já que a cerimônia é tão concorrida e vista por milhões ao redor do mundo.  E que claramente Hollywood está em crise, se comparada à sua história passada de glória.  

 

Não adianta dourar a pílula, os filmes de língua inglesa já não são os melhores que estão sendo feitos e lançados pelo cinema.  Que hoje fala muitos e variados idiomas em histórias empolgantes e com excelência técnica.




quinta-feira, 5 de março de 2026

EM CARTAZ

Antonio Carlos Egypto

 


KOKUHO, O PREÇO DA PERFEIÇÃO (Kokuho).  Japão, 2025.  Direção: Lee Sang-il.  Elenco: Ken Watanabe, Ryusei Yokohama, Keitasu Koshiyama, Min Tanaka.  176 min.

 

“Kokuho”, representante do Japão no Oscar 2026, conseguiu apenas duas indicações, nas categorias maquiagem e cabelo.  Poderia ter sido indicado também para figurino, já que são deslumbrantes os trajes exibidos.  O filme como um todo é bastante irregular, tem um roteiro que se desdobra e se dispersa e é desnecessariamente longo, sem qualquer necessidade disso.  Repete o erro de muitas das produções cinematográficas atuais, que se estendem à toa e que, em vez de se aprofundar, apenas tornam-se repetitivas.

 

“Kokuho” é interessante para nós, pelo tema de que trata: o teatro tradicional japonês do kabuki, que remonta ao século XVII, mas é uma manifestação cultural forte e expressiva até hoje.  Vale a pena conhecer um pouco mais sobre ela.  Começando pela curiosidade do fato de que ali as mulheres não podem representar nos palcos.  Cabe, portanto, aos homens assumirem os papéis femininos.  Esses atores são chamados de onnagatas.  Mas eles têm de encarar a persona feminina nos palcos.  O que implica muita maquiagem, penteado, atingir a beleza das mulheres com suas roupas tradicionais, seus gestos e mesuras típicos, no caso orientais, e a voz.  O preparo que isso implica é imenso e o julgamento, pelo que se vê no filme, é implacável por parte dos preparadores e do público.

 

O filme do cineasta Lee Sang-il não se furta de nos mostrar cenas muito bonitas de palco, desempenhos notáveis desses atores e roupas maravilhosas.  Por aí é um espetáculo estético admirável.   É o que vale no filme.  É o que prende a nossa atenção, além das informações sobre esse universo artístico que ainda conhecemos pouco.

 

Mesmo com essa beleza toda, há bastante repetição de cenas e textos, já que ele está contando uma história que atravessa gerações, passa de pai para filho, já vindo dos avós e bisavós e remetendo aos netos e bisnetos.  A tradição se repete e, até na beleza, cansa.

 

A trama não importa tanto, remete à competição que se estabelece entre o herdeiro natural na concepção kabuki e um novo elemento vindo de fora, até ligado pelo pai à máfia yakusa, mas que tem um talento indiscutível para onnagata. E como tudo vai acontecendo ao longo da vida deles, junto às famílias e ao mestre kabuki, o que um deles acabará se tornando no futuro.

 




A VIDA SECRETA DE MEUS TRÊS HOMENS.  Brasil, 2025.  Direção: Letícia Simões.  Elenco: Nash Laila, Guga Patriota, Giordano Castro, Murilo Sampaio.  75 min.

 

O filme de Letícia Simões “A Vida Secreta de Meus Três Homens” é uma reflexão sobre a vida pessoal e a vida do país numa perspectiva documental.

 

A cineasta busca entender, reviver, explicar, a experiência de três homens importantes com quem conviveu: o avô Arnaud, o pai Fernando e o padrinho Sebastião.  E, como se fossem fantasmas, conversar com eles por meio de atores que os representam, com base nas informações disponíveis.  Em comum, uma história que parece normal, familiar, mas que envolve silêncios, memórias apagadas e violência.

 

O avô viveu uma experiência de justiceiro, junto ao cangaço, o que nos leva aos primórdios de um Brasil que faz justiça com as próprias mãos, distribuindo migalhas aos pobres. 

 

O pai, boêmio, frequentador de prostíbulos, subiu na vida com cinco empregos públicos, porque se tornou informante civil da ditadura militar, junto ao SNI, responsável por muitas mortes.  Um autoritarismo que continua ainda dando sustentação a um fascismo repugnante. 

 

O padrinho Sebastião, fotógrafo negro e gay perdeu o amor de sua vida num sofrimento que o levou a um final trágico, em um país que até hoje é recordista de mortes de homossexuais e transexuais por serem eles quem são.  Assim como um campeão de feminicídios, crimes que atingem a mulher por ser mulher.

 

Esse paralelo identidade pessoal-passado-estruturas violentas dá ao filme uma discussão muito interessante e fértil.

 




                     PEDRO ALMODÓVAR
                                       

E, por último, mas muito importante: é bom lembrar a todos que a Cinemateca Brasileira está apresentando até 15 de março de 2026 uma retrospectiva dos filmes de Pedro Almodóvar, um dos mais importantes diretores da história do cinema mundial, em parceria com a Embaixada da Espanha e com o Instituto Cervantes, exibindo 20 títulos em sessões gratuitas.  Confira a programação aqui: https://cinematecabrasileira.org.br

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

PECADORES +

Antonio Carlos Egypto  




 PECADORES (Sinners). Estados Unidos, 2025. Direção: Ryan Coogler. Elenco: Michael B. Jordan, Jack O’Connell, Haille Steinfield, Delroy Lindo, Winmi Mosaku. 132 min. 

 “Pecadores” é um filme impressionante e criativo. Sem nenhuma dúvida, muito bem realizado e cinematograficamente bem construído. É talentoso na forma de juntar uma narrativa de inspiração realista na exposição dos fatos do racismo e do conflito com os supremacistas brancos, explorando cenas de ação e humor. Tem muito boas música e dança, que alegram o ambiente num salão de diversões, enquanto a crise não se instala. A música já faz ponte com o demoníaco. Por final, envereda por um autêntico filme de terror, focado no vampirismo. É uma salada bem variada, mas que, surpreendentemente, combina. O que eu não gostei foi da carnificina, consequência mais ou menos inevitável da trama, em que o filme deságua. O elenco é forte e expressivo, com o óbvio destaque para Michael B. Jordan, que faz os papéis dos dois irmãos gêmeos: Smoke e Stock. Os gêmeos, habituados a uma rotina de violência que deixaram para trás, mas que se repetiu na cidade grande, voltaram à pequena cidade de origem para mudar de vida. Qual o quê! Lá como cá, o racismo é que dá o tom e quem não se acostumou a baixar a cabeça não é agora que vai aceitar as provocações e as críticas que lembram o passado deles. Então, tem fogo no circo. Se na questão social pode haver outros caminhos, quando o que há para se enfrentar são os vampiros, que nos transformam em sugadores de sangue como eles, aí a coisa pega. Há quem vá curtir muito e outros que não vão tolerar. É isso. Bem, o filme não só está indicado entre os 10 candidatos a melhor filme para o Oscar 2026, como tem mais 15 indicações: para diretor, ator, atrizes, elenco, roteiro, montagem, fotografia, trilha sonora, canção, som, maquiagem, efeitos visuais e design de produção. Um verdadeiro recorde. Seria para tanto? Acho que não, mas frise-se: não costumo curtir filmes de terror. O que não quer dizer que eu minimize o valor do filme dirigido por Ryan Coogler. 







  A HISTÓRIA DO SOM (The Story of Sound) produção Estados Unidos/Reino Unido,
dirigido por Oliver Hermanus, nascido na África do Sul. Em Boston, em 1917, Lionel e Davi, estudantes de música, se conhecem e, apaixonando-se pelas folksongs, percorrem os Estados Unidos registrando canções para serem reproduzidas no gramofone. Essa longa viagem os aproxima muito e daí surge uma paixão também entre eles, para além da música. Separam-se ao final da viagem, tomando rumos distintos, mas o vínculo que construíram jamais morrerá. O que construíram juntos pela história da música, também não. Bela e cuidadosa produção, com boa música e uma dupla de protagonistas ótima: Paul Mescal e Josh O’Connor. Também no elenco, Hadley Robinson, Emma Canning e Chris Cooper. 127 min.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

SIRÂT

 Antonio Carlos Egypto





SIRÂT.  Espanha.  Direção: Oliver Lake.  Elenco: Sergi López, Bruno Nuñez, Stefania Gadda, Joshua Liam Henderson, Jade Oukid. 120 min.

 

“Sirât”, o filme de abertura da 49ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é o representante da Espanha na disputa do Oscar de melhor filme internacional.  É um road movie todo passado nos desertos do Marrocos e tem coprodução francesa.  O diretor Oliver Lake nasceu na França, de uma família de imigrantes espanhóis.

 

“Sirât “ é um filme que comporta muitos adjetivos para defini-lo.  É impressionante, impactante, doloroso emocionalmente, vibrante, desafiador, notável.

 

É um filme que mexe com todo mundo, dá até para detestar, mas não dá para esquecer, nem ficar indiferente.  Reflete o mundo em que vivemos, o clima de guerra que o define, o temor até de uma Terceira Guerra Mundial.  O ambiente explosivo em que estamos todos envolvidos e também o desencanto e o desamparo.  E, mais do que tudo isso, o filme nos mostra que, definitivamente, não estamos no controle das coisas, nem das nossas próprias vidas, nem de nós mesmos.  O século XXI seria uma espécie de “xeque-mate” do que já sabemos desde Darwin, Freud e Marx.  Claro, não dá para ser otimista diante das circunstâncias.  Mas pessimismo inerte é derrota. É preciso agir, da forma que for possível.

 

Um pai e um filho ainda pequeno que circulam por festas rave no deserto marroquino, em busca da filha e irmã que não veem há dois meses, seguem um grupo de jovens errantes, espécie de hippies da atualidade.  Eles tentam viver e dançar ao som das batidas da música, que é puro ritmo, ao lado de centenas, milhares de integrantes dessas festas, que já estão sendo coibidas pela polícia e podem ser as últimas explosões de vida ainda permitidas.  Dançar, interagir, buscar uma saída lisérgica para suportar os fatos pode ser um caminho para eles.

 

Um caminho a que vai se somar a família que busca sua integrante que está distante.  Curtindo o mesmo vigor de música e dança no deserto, pelo que  se sabe dela.  Até onde se pode ir nesse ambiente árido e inóspito, por caminhos quase intransitáveis, num mundo nada protetor, em guerra e opressões diversas?

 

Uma reflexão para lá de relevante, sem dúvida.  O filme também flerta com uma ideia mística.  Se não temos o controle, estamos à mercê dos desígnios de Deus.  Pode ser visto assim, mas simplifica muito as coisas.  E tende a levar à acomodação.  E aí, será que tem saída?  Vamos ficar no clichê: a esperança é a última que morre?  De onde ela virá? Dos povos, espero.

 

 

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ORWELL:2+2=5

                                      Antonio Carlos Egypto

 


ORWELL: 2 + 2 = 5. França, 2025.  Direção: Raoul Peck.  Narração: Damian Lewis.  Documentário.  119 min.

 

O documentário “Orwell: 2 + 2 = 5”, do diretor Raoul Peck (de “Eu Não Sou Seu Negro”, de 2016, “O Jovem Karl Marx”, de 2017, e “Ernest Cole: Achados e Perdidos”, de 2024), nascido em Porto Príncipe, Haiti, de quem se poderia esperar muito, pelo que já fez, decepciona um pouco.  Não porque não seja bem-feito, nem por falta de uma ampla pesquisa de textos e imagens, menos ainda pelas boas intenções da proposta.

 

O problema é que o filme, ao questionar o mundo atual, opressor, mentiroso, manipulador e cheio de excessos, padece exatamente de um desses pecados: o absoluto excesso de informações que até dificulta a compreensão e não nos permite usufruir e refletir sobre o que nos é mostrado.

 

Para começar, porque a proposta é ambiciosa demais.  Centra-se na figura do grande escritor George Orwell (1903-1950), apresentado como uma espécie de profeta do mundo atual, a partir do que criou e escreveu sobre o autoritarismo e sua capacidade de nos manipular e produzir crenças majoritárias baseadas nas mentiras apresentadas como verdades absolutas, impostas pelos tiranos e sua tecnologia.

 

A partir daí, o filme tenta mostrar que os fatos ligados ao autoritarismo, não só dos nossos tempos como do passado, vinculam-se a Orwell de algum modo.  E desfila um colosso de fatos informativos e imagens atuais e de época sendo narrados ao mesmo tempo em que, muitas vezes, são exibidos também palavras e números escritos na tela.  Para um filme legendado a ser visto por aqui, não dá nem para acompanhar as duas coisas juntas.  As legendas duplas nem cabem na tela.  Assim, o que seria uma denúncia para lá de justa e uma justaposição de situações diferentes revela-se exagerada e irritante.

 

Quem já não se queixou de ser invadido por um turbilhão de imagens e mensagens impossíveis de se processar? E que pelo excesso passam a incomodar muito mais do que contribuir com alguma informação relevante?  Infelizmente, é isso que acontece com “Orwell: 2 + 2 = 5”, na minha opinião.

 

Uma edição mais enxuta, seletiva e menos agitada, poderia ter dado origem a um documentário excelente.  Mas não aconteceu.