terça-feira, 21 de janeiro de 2020

OS MELHORES DO ANO

Antonio Carlos Egypto


2019 foi um ano muito pródigo em termos de qualidade cinematográfica, tanto para o cinema mundial como para o cinema brasileiro (e o latino-americano).  Não foi fácil escolher os 10 melhores do cinema nacional e internacional.
Como toda lista, as que apresento a seguir representam, antes de mais nada, meu gosto pessoal.  Há, no entanto, algumas quase unanimidades críticas entre os filmes escolhidos.  Alguns deles já figuraram na minha lista de melhores da Mostra Internacional de Cinema, tendo sido lançados comercialmente agora, ao final do ano.
Considerei apenas os lançamentos que puderam ser vistos no cinema, ao longo do ano de 2019.  Os que estiveram presentes somente em mostras e festivais não foram levados em conta.  Muitos deles só são lançados um bom tempo depois de participarem desses eventos, outros, nunca aparecem nos cinemas do circuito comercial.  Os filmes que foram lançados exclusivamente em streaming, ou DVD, também não foram considerados elegíveis.
É bom lembrar, ainda, que boa parte dos filmes aqui apresentados continua em cartaz nos cinemas.  Chance para quem não viu no lançamento.  E há as outras opções: streaming, TV paga, DVD.  Afinal, o cinema está em toda parte.  E é bom que seja assim.


BACURAU

LONGAS NACIONAIS – 2019

1. BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. 
2. A VIDA INVISÍVEL, de Karim Aïnouz.
3. RAIVA, de Sérgio Tréfaut (coprodução com Portugal).
4. PASTOR CLÁUDIO, de Beth Formaggini.
5. ESTOU-ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR, de Marcelo
    Gomes.
6. LOS SILENCIOS, de Beatriz Seigner (coprodução com Colômbia).
7. AMAZONIA GROOVE, de Bruno Murtinho.
8. LEGALIDADE, de Zeca Brito.
9. CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS, de João Salaviza e Renée
    Nader Messora.
10. O JUÍZO, de Andrucha Waddington.



O PARAÍSO DEVE SER AQUI


LONGAS INTERNACIONAIS – 2019

1. O PARAÍSO DEVE SER AQUI, de Elia Suleiman.  Palestina.
2. PARASITA, de Bong Joon-ho.  Coreia do Sul.
3. DOR E GLÓRIA, de Pedro Almodóvar.  Espanha.
4. A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS, de Nuri Bilge Ceylan.  Turquia.
5. CORINGA, de Todd Philips.  Estados Unidos
6. VARDA POR AGNÈS, de Agnès Varda.  França.
7. PÁSSAROS DE VERÃO, de Cristina Gallego e Ciro Guerra.  Colômbia.
8. DOGMAN, de Mateo Garrone.  Itália.
9. O IRLANDÊS, de Martin Scorsese.  Estados Unidos.
10. SANTIAGO, ITÁLIA, de Nanni Moretti.  Itália.






sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O DESPERTAR DAS FORMIGAS

Antonio Carlos Egypto





O DESPERTAR DAS FORMIGAS (El Despertar de las Hormigas).  Costa Rica, 2019.  Direção e roteiro: Antonella Sudassi Furnis.  Com Daniela Valenciano, Leynar Gómez, Isabella Moscoso, Abril Alpizar.  94 min.


Em “O Despertar das Formigas”, filme de Antonella Sudassi Furnis, da Costa Rica, assiste-se ao que se poderia chamar de opressão do cotidiano, que recai sobre a mulher numa estrutura tradicional patriarcal. O que se dá é uma naturalização da existência, em que as relações de gênero e seus respectivos papéis e responsabilidades nunca são postos em dúvida, nem mesmo pelas vítimas mais evidentes do processo.

A opressão não está nas pessoas, que apenas repetem o que aprenderam e viveram, mas no contexto social que produziu e solidificou as regras e os valores em vigor.  O controle social se expressa nas falas, expressões, expectativas, cobranças, piadas, críticas, fofocas e eventualmente na ação das autoridades.

No filme “O Despertar das Formigas” tudo isso está exposto, visível no dia-a-dia de Isabel (Daniela Valenciano), seu marido Alcides (Leynar Gómez) e duas filhas, vivendo em aparente harmonia e equilíbrio familiar, mesmo numa situação de pobreza, no interior da Costa Rica, zona rural.  As cenas em que Isabel leva uma lâmpada de um ponto para outro da casa porque não pode comprar mais uma e o momento em que essa lâmpada se quebra falam por si.  Apesar disso, uma moradia digna e a alimentação estão garantidas. As relações afetivas entre os membros da família são boas.

O que não se percebe nesse contexto é o quanto a carga pesa sobre os ombros da mulher.  Isabel cuida das crianças e da casa, cozinha, faz doces para as festinhas, ajuda na lição das crianças e ainda costura para receber algum dinheiro para pôr na casa.  Um agravante simbólico é o cuidado que precisa ter com os cabelos longos, dela e das duas filhas, um padrão estético apreciado pelos homens e estimulado pelas mulheres.




Isabel leva tudo isso bem, encarando esse peso todo como natural.  O que acaba por produzir um despertar das formigas é uma expectativa reiterada pelo marido e pela sociedade por mais um filho, agora um menino, objeto de desejo até das duas filhas do casal.  Isabel percebe que não dará conta disso também e aí fica claro para ela a insanidade dessa exigência.

A mudança do meio social é muito difícil sem uma ação coordenada de luta feminina por igualdade de direitos, mas o filme mostra que, no terreno das relações pessoais, algo também pode ser feito, desde que com firmeza e assertividade.  Como diz um provérbio chinês, se você mostra que sabe o caminho que quer, os outros lhe dão passagem.

“O Despertar das Formigas”, indicação da Costa Rica, que  concorreu ao Oscar de filme internacional, é uma produção modesta, de baixo orçamento, mas muito bem realizada, com um ótimo elenco encabeçado por Daniela Valenciano e que tem nas duas meninas, Isabella Moscoso e Abril Alpizar, um atrativo à parte.




domingo, 12 de janeiro de 2020

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS


  Antonio Carlos Egypto




RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Portrait de la Jeune Fille em Feu).  França, 2019.  Direção: Céline Sciamma.  Com Noémi Merlant, Adèle Haenel, Luána Bajrami, Valeria Golino.  121 min.


“Retrato de Uma Jovem em Chamas” é um filme que vem recomendado pela conquista de melhor roteiro e Palma Queer do Festival de Cannes, indicação ao Globo de Ouro de filme estrangeiro e boa recepção do público nos festivais do Rio e Mix Brasil.  Sua diretora, Céline Sciamma, já nos deu, pelo menos, um filme muito inteligente e sensível: “Tomboy”, em 2011.

Este trabalho, que respira feminilidade por todos os poros, mostra-se de uma sutileza, delicadeza e refinamento, que merece atenção.  Além do talento da diretora, um elenco de mulheres sensacional dá força incomum a uma narrativa que envolve oposição, contraste e aproximação, amor.

Adèle Haenel, no papel de Héloise, uma mulher da segunda metade do século XVIII, que sai do convento para um casamento arranjado, sem conhecer o pretendente nem saber nada da vida afetiva, amorosa ou de obrigações matrimoniais.  Um retrato dela deve ser pintado para ser enviado a seu futuro marido, mas uma tentativa com um pintor fracassou. É aí que entra em cena Noémi Merlant, no papel de Marianne, uma pintora firme, decidida e livre, tanto quanto isso era possível na época para as mulheres.

Do contraste entre uma mulher que luta para conquistar um espaço próprio na vida e a que está oprimida nos limites determinados ao feminino na época, estabelece-se um clima, uma tensão sutil.




Do insucesso do pintor anterior deriva a situação de que Marianne deve pintar Héloise sem que ela saiba que é essa sua verdadeira função e sem que ela pose, obviamente.  Essa situação acaba fazendo com que Marianne se valha de olhares furtivos e observações cuidadosas do rosto, das mãos, do corpo e dos movimentos de sua retratada.  Daí para um flerte, uma aproximação afetiva maior e a eclosão do amor é um caminho que Céline Sciamma explora em clima suave e delicado, quase silencioso.  O filme trata muito de arte, mas praticamente não usa música.

A caracterização de época se vale não só das vestimentas múltiplas, pesadas e enfeitadas, sem exageros, mas do ambiente de uma ilha isolada, aonde só se chega de barco, e de um castelo preservado, que nunca chegou a ser habitado, nem restaurado, segundo a diretora.  Essa locação bela e isolada contribui muito para o clima da história.

A questão artística da pintura, que era o meio de produzir retratos, põe em relevo o que se pode captar da figura humana, como reproduzi-la fielmente e o que seria isso.  Ver não é compreender, não é possível enxergar sem interagir, sem captar o que vai pelo psiquismo, por melhor que seja a técnica empregada.  É na relação que se constrói a verdade de cada uma e se dissolvem as diferenças do modo de estar no mundo.  Da troca resulta sempre algo novo, possível ou não de se desenvolver e de subsistir.  A natureza está também em transformação, como as pessoas.  Da terra que sustenta, do ar que dá a respiração para viver.  Do mar, que leva e traz ondas vivas, para onde se pode correr ou morrer e do fogo que queima em desejo.




segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A MELHOR JUVENTUDE

Antonio Carlos Egypto


Será exibido nos cinemas em duas partes o grande filme de Marco Tullio Giordana, de 2003, A MELHOR JUVENTUDE  (La Meglio Giuventú).  Uma família em que dois irmãos vivem juntos e separados em momentos da história recente da Itália, dos anos 1960 aos 2000.  Vão a Roma, passam pelas origens em Ravena, estudam em Bolonha, se encontram em Florença em plena cheia que castigou a cidade, em eventos de radicalismo político e repressão em Turim, nos julgamentos de Milão, na máfia siciliana, em Palermo, onde também se dá o assassinato do juiz Giovanni Falcone e outros, no tempo da Brigada Vermelha, e por todos os cantos, ao longo desse período contemporâneo italiano. Uma jovem com problemas mentais compõe o trio de protagonistas, o que permite discutir o descalabro dos hospitais psiquiátricos e a revolução promovida por Basaglia no mundo, a partir da Itália.




A costura dos fatos e personagens é muito bem feita, a filmagem exala humanidade, afeto e compreensão, em meio aos inevitáveis conflitos da vida, desencontros amorosos e familiares.  Recheada por ótimos atores de um elenco jovem e música da mais alta qualidade, e não só italiana.  Vai de Dinah Washington a Cesária Évora.  Todos perseguem seus sonhos, se iludem, se magoam e seguem em frente, na busca incessante por uma vida que possa ser melhor.

É um dos grandes filmes do cinema italiano de todos os tempos.  Grande na qualidade, mas também no tamanho.  São 6 horas de duração, por isso as sessões são divididas em dois dias, de 3 horas cada um.  Talvez você diga: nem pensar!  E não tente.  Se você disser: vou ver só a primeira parte para conferir como é, eu lhe garanto, você não vai querer perder a segunda parte, por nada desse mundo.  E se chegar ao final da saga vai sentir um gosto de que ainda queria mais.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

BOAS FESTAS!


     


Desejo a todos que acompanharam minhas críticas de cinema ao longo do ano, aqui no cinema com recheio, Boas Festas. Ouso sonhar com um novo ano em que todos nós cultivemos atitudes civilizadas, superando o obscurantismo.  Que ofereçamos apoio à democracia e à liberdade, reconhecendo, respeitando e celebrando a diversidade humana.  Que tenhamos atenção e cuidado conosco, com os outros e com o planeta em perigo.  Que priorizemos a educação, a ciência e a cultura, em busca de sermos melhores como país e como povo.  E que cada um possa alimentar seus projetos e propósitos, alcançando bons momentos de felicidade.

Um grande abraço a todos,

Antonio Carlos Egypto



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

E ENTÃO NÓS DANÇAMOS

Antonio Carlos Egypto






E ENTÃO NÓS DANÇAMOS (And Then We Danced).  Suécia/Geórgia, 2019.  Direção e roteiro: Levan Akin.  Com Levan Gelbakhiani, Bachi Valishvili, Ana Javakishvili.  106 min.


A Geórgia (ex-União Soviética) tem entre suas principais tradições a dança.  Uma dança tradicional, com marcações fortes, firmes e intensas, que remetem a uma ideia de masculinidade.  Ou a um conceito algo rígido e preconceituoso do que seja a masculinidade.  O fato é que gestos leves, trejeitos, sorrisos de alegria e encantamento, são solenemente repreendidos, nos ensaios com os bailarinos, como se vê em algumas sequências de “E Então Nós Dançamos”.  O filme, roteirizado e dirigido por Levan Akin, georgiano, radicado na Suécia há muito tempo, é uma retomada por parte dele da arte das tradições de seu país de origem.  E representou a Suécia na indicação ao Oscar de filme internacional.

Se é preciso respeitar e valorizar tradições, em especial expressões artísticas consagradas, também é preciso avançar e superar preconceitos.  Do embate entre essas questões se alimenta o filme de Levan Akin.  Na história, é pela ótica de um bailarino jovem, Merab, vivido por Levan Gelbakhiani, que temos acesso ao cotidiano de alguém que aspira a esse caminho artístico, enquanto faz trabalhos pesados e mal remunerados para tentar sobreviver.  Acompanhamos seu esforço diário, sua paixão pela dança, conhecemos a jovem bailarina Mary (Ana Javakishvili), que é sua parceira constante nessa atividade, percebemos o que ela sente por ele, sem ser correspondida para além da dança.  E o vemos conhecendo e se envolvendo com o bailarino Irakli (Bachi Valishvili), com quem aprende técnicas, rivaliza e acaba por desenvolver um desejo homoerótico.

Na família, com um irmão prestes a se casar ou na dança que cultiva, Merab percebe que não há espaço para o reconhecimento do seu desejo e torna-se bastante complicado compatibilizar as coisas.  Por aí vai o drama que o filme explora, enquanto nos brinda com um musical, em que a dança tradicional georgiana se destaca.



O diretor tem claramente a intenção de valorizar essa tradição da dança e outras mais.  Por exemplo, nos mostra os rituais do casamento no país.  Mas coloca em questão, também, a necessidade de questionar e superar os ranços autoritários e os preconceitos que ajudam a sustentar essas tradições.  Até onde vale a pena ir na preservação da cultura local e quando é preciso mudá-la ou mesmo implodi-la, se for o caso?  Como os jovens podem se inserir nesse contexto cultural pós-União Soviética, com os elementos da globalização, da cultura pop e das mudanças comportamentais que os distinguem da velha geração?

O diretor fala, numa entrevista, da situação frágil da Geórgia e dos antigos países soviéticos, com suas singularidades, em contato com os valores da situação atual.  Como preservar a identidade cultural, como a língua, o alfabeto, a cultura do vinho e da gastronomia, ao mesmo tempo em que é imperioso se abrir para o mundo novo, em constante transformação? E dá um exemplo importante.  Quando trabalhava na concepção do filme, buscou a ajuda do famoso Balé Nacional da Geórgia, inclusive querendo contar com a participação de alguns de seus bailarinos.  O que lhe foi negado peremptoriamente, alegando que não existia homossexualidade na dança, na Geórgia.  E teve de conviver com uma grande sabotagem contra o trabalho que estava realizando.

Uma atitude como essa é a demonstração mais cabal de que não se pode, simplesmente, ficar cultivando uma tradição cultural sem nunca colocá-la em questão ou em dúvida.  Se é preciso negar a realidade para mantê-la como está, chegou a hora de revisá-la, reformá-la ou revolucioná-la.  Assim como não faz sentido destruir tradições culturais importantes, também não faz sentido mantê-las a qualquer preço, gerando sofrimento inútil e desnecessário às pessoas.




LEMBRETE
Já entrou em cartaz nos cinemas O PARAÍSO DEVE SER AQUI, de Elia Suleiman, o filme que mais me agradou na 43ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e que, mesmo sendo exibido nos estertores do ano, está seguramente entre os melhores de 2019.  Espero que as festas de fim de ano e as férias escolares não impeçam as pessoas de usufruir desse belo trabalho cinematográfico.  Veja crítica e comentários sobre o filme aqui, no cinema com recheio, postados em 25 de outubro e em 08 de novembro de 2019.





quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

UMA MULHER ALTA

Antonio Carlos Egypto





UMA MULHER ALTA (Dylda).  Rússia, 2019.  Direção: Kantemir Balagov.  Com Viktoria Miroshnichenko, Vasiliva Perelygina, Andrey Bykov, Igor Shirokov.  137 min.


“Uma Mulher Alta” é um drama humano que remete a questões femininas, como a reprodução, num contexto de guerra, em que as mulheres estão mutiladas, abaladas psicologicamente, sofrendo as consequências do conflito que recém terminou.  No caso, trata-se de Leningrado (hoje, São Petersburgo), em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial, em que a cidade sofreu um dos piores cercos da história.

O olhar do filme, inspirado no livro “A Guerra não Tem Rosto de Mulher”, de Svetlana Aleksiévitch, é justamente sobre as consequências que a guerra deixa na vida e no corpo das mulheres.  Um enfoque de gênero muito apropriado, já que o que conhecemos mais é o efeito bélico que destrói os homens, sempre vistos como protagonistas, os principais atores da trama.

No evento abordado em “Uma Mulher Alta” reconhece-se também uma situação que envolveu mais intensamente as mulheres no contexto de guerra na resistência russa.




As personagens que representam essas mulheres são Iya (Viktoria Miroshnichenko), a grandona desajeitada que inspira o título brasileiro, e Masha (Vasilisa Perelygina).  Figuras heroicas pelo que fizeram e continuam fazendo pelos mutilados e mutiladas de guerra, como elas próprias.  Tentam reconstruir suas vidas, como todos, mas esbarram em barreiras pessoais que remetem de forma direta à guerra que tiveram de vivenciar.  E, ao tentarem se desvencilhar ou contornar suas limitações, acabam por gerar novos dramas e problemas, ao invés de superá-los ou vencê-los.

Tudo isso é mostrado numa narrativa que enfatiza os sentimentos, a frustração e o desespero, em especial, numa caracterização de época feita com muito cuidado e delicadeza. A paleta de cores em que dominam o verde e o ocre dá destaque a esse drama e o calor dos sentimentos.  Os veículos e os objetos de cena são em grande parte autênticos da época, cedidos por museus, como o dos transportes.  As recriações e o figurino procuram respeitar com fidelidade os ambientes e as pessoas, sem exagerar no sentido passadista.  Há uma intenção de tomar aquele momento e situação passados como fontes de reflexão para o presente, em sintonia com uma visão feminista atual.

Duas ótimas jovens atrizes protagonizam o trabalho, oferecendo força e consistência psicológica a suas personagens.  Os homens e as outras mulheres com quem elas contracenam complementam e valorizam esse bom desempenho de Viktoria Miroshnichenko e Vasilisa Perelygina.

O diretor, Kantemir Balagov, em seu segundo longa, após “Tesnota”, de 2017, realiza um trabalho com a câmera que produz envolvimento e tensão, enquadramentos que nos aproximam da personalidade daquelas mulheres e nos põem dentro do forte drama que elas vivem.

“Uma Mulher Alta” é a indicação russa para concorrer ao Oscar de filme internacional, já passou por vários festivais internacionais, tendo alcançado premiações em Cannes: melhor direção e prêmio da Crítica do Un Certain Regard, e também em Genebra, Montreal e Estocolmo




quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O JUÍZO

Antonio Carlos Egypto


                                                                                     Suzana Tierie



O JUÍZO.  Brasil, 2019.  Direção: Andrucha Waddington.  Com Felipe Camargo, Carol Castro, Criolo, Joaquim Torres Waddington, Fernanda Montenegro, Lima Duarte.  90 min.


“O Juízo” é uma incursão do cinema brasileiro no gênero suspense, terror.  Assim como outras tentativas bem sucedidas realizadas anteriormente, ele contribui para ampliar o alcance do nosso cinema para além dos documentários, comédias e dramas que têm marcado nossa produção crescente.

Considerado um suspense sobrenatural, é, na verdade, um filme que crava na trama as marcas da nossa história, do extrativismo à escravidão, que deixaram uma dívida que remonta a séculos e está na construção da vergonhosa desigualdade, preconceito e racismo, que vivemos até hoje.  Mérito, claro, do talento de escritora da roteirista Fernanda Torres que, infelizmente, não participa do filme de seu marido, Andrucha Waddington, como atriz.  Em compensação, Fernanda Montenegro, sua mãe, está lá, brilhante, como sempre.  O filme tem mesmo uma característica familiar.  Joaquim Torres Waddington, filho do diretor e da roteirista, estreia no cinema como ator neste filme.  Para além das relações familiares, o elenco tem Felipe Camargo, Carol Castro e Criolo, em papeis centrais e o grande Lima Duarte em participação especial.




O que mais me entusiasmou em “O Juízo” nem foi a sua história, muito boa, ou seu superelenco, mas seu apuro visual.  Enquadramentos belíssimos, do alto, na água, nos caminhos molhados (o filme é quase todo passado na chuva), nos ambientes de uma fazenda, supostamente mineira, na verdade filmada no Estado do Rio.  Uma fotografia esmaecida, esfumaçada, escurecida, concretiza uma narrativa que remete a trevas, com grande beleza e explora também com eficiência a luminosidade do fogo.  Ótimo trabalho do diretor de fotografia Azul Serra.  Destaque também para a direção de arte de Rafael Targat.  Um trabalho de equipe muito bem coordenado por Andrucha Waddington.

O enredo remete a uma família, Augusto (Felipe Camargo), Tereza (Carol Castro) e o filho Marinho (Joaquim Torres Waddington), que vão em busca de colocar a vida em ordem, resolvendo problemas econômicos e do alcoolismo de Augusto, assumindo morar numa fazenda isolada e abandonada, herdada do avô.  A propriedade, porém, traz o carma de uma traição, envolvendo um homem escravizado, Couraça (Criolo) e sua filha, uma dívida ancestral.  Diamantes estão envolvidos na história, colocando a cobiça como parte integrante e trágica da narrativa.  Mais suspense que terror, fantasmagórico, mas realista e indutor de reflexão, um filme que se vê com prazer, com destaque para o esmero visual, que merece ser apreciado com atenção.

                                                                                                             Dan Behr


FESTIVAL DE CINEMA RUSSO
De 04 a 11 de dezembro, chega a São Paulo a 6ª. edição da Mostra Mosfilm, de filmes clássicos, russos e soviéticos, realização do CPC – UMES, Spcine e Itaú Cinemas.  12 longas serão exibidos nos cines Itaú Augusta e Olido, a preços bem populares.  Destaque para as cópias restauradas de “A Balada do Soldado”, de Grigori Chukhay, “Stalker”, de Tarkovsky, e “A Prisioneira do Cáucaso”, de Leonid Gayday.  Outra novidade é a exibição de "Spartacus", com o Balé Bolshoi, em filme de Yury Grigorovich, de 1975.  O filme mais recente a ser exibido é “Aluga-se uma casa com todos os inconvenientes”, de Vera Storozheva, de 2016.  No Olido, exposição de matryoskhas e comidas, bebidas e artesanato típico do Leste Europeu.

FESTIVAL DO RIO
Para quem está no Rio de Janeiro, a grande pedida é a nova edição do tradicional Festival do Rio, repleto de atrações, que neste ano ocorre em data não habitual, de 09 a 19 de dezembro, em 15 cinemas da cidade.  Foi uma batalha, mas o Festival saiu e com cerca de 100 filmes estrangeiros e uma enorme janela de produções brasileiras na seção Premiére Brasil.


sábado, 30 de novembro de 2019

BOAS OPÇÕES CINEMATOGRÀFICAS

Antonio Carlos Egypto


Alguns filmes passam tão meteoricamente pelo circuito comercial que mal dá tempo de se comentar algo antes de que saiam de cartaz.  Há os que até, surpreendentemente, seguem em exibição, mas num só cinema ou num só horário.  E são bons filmes, que mereceriam ser conhecidos.  Por isso, me arrisco a comentar alguma coisa aqui, contando com que a indicação de seus países ao Oscar lhes dê maior sobrevida.


RETABLO

RETABLO, filme peruano de 2017, está indicado ao Oscar de filme internacional e foi exibido na 42ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a do ano de 2018.  Dirigido pelo cineasta e psicólogo Álvaro Delgado-Aparício, seu primeiro longa, é um filme que lida com tradições, folclore, e um ambiente conservador, que torna tudo mais complicado e dramático.  Aborda, por meio do personagem Noé, a tradição artística dos retablos, que são caixas artesanais, portáteis, de madeira, com porta, que contém figuras de massa pintadas, que representam cenas religiosas ou cotidianas de famílias abastadas da elite local, como, por exemplo, dos políticos.  É um belo trabalho que o reconhecido artesão Noé desenvolve e capacita seu filho adolescente de 14 anos, Segundo, para sucedê-lo.  A narrativa se baseia na visão do adolescente. E foca na relação pai e filho. Essa bela arte tradicional será posta em xeque quando uma cena homoerótica é flagrada e não consegue ser assimilada pela sociedade conservadora e religiosa da localidade.  Mais do que isso: é fortemente rejeitada e perseguida, sem abrir nenhuma possibilidade de assimilação.  Como Segundo vai lidar com isso?  Que caminho vai tomar?  É por aí que o filme se coloca, questionando a visão conservadora, e explorando as manifestações artísticas e folclóricas que merecem ser preservadas.  101 min.



A CAMAREIRA

A CAMAREIRA (La Camarista), de Lila Avilés, de 2018, é a indicação mexicana para concorrer ao Oscar de filme internacional.  Sua narrativa concentra-se na vida penosa e frustrante de Eve, a jovem mãe solteira que trabalha como camareira num hotel de luxo, na cidade do México, sem tempo para nada, nem mesmo para ver com regularidade seu bebê, cuidado por outra pessoa.  Acompanhamos sua rotina e, como espectadores, vamos percebendo pouco a pouco o que a move, que expectativas tem, por onde passa seu desejo, que planos alimenta para o futuro e que ações faz, com base nisso.  Vemos que o trabalho pesado e cansativo até promete, mas não cumpre.  O que resulta disso é angustiante, especialmente quando uma esperança que parecia tão concreta não se realiza.  Aí é que o filme ensaia caminhos e possibilidades, mas acaba não encontrando propriamente um rumo para a personagem.  Ou preferindo deixar em aberto, só sugerindo, esse rumo.  As soluções individuais são mesmo muito complicadas, ou virtualmente inexistentes, quando um sistema explorador não oferece saídas reais, apenas doura a pílula, sendo até acolhedor ou afetivo sob alguns aspectos, mas sem resolver o cerne da questão.  É como aquela história do gerente do banco que não resolve o que você precisa, mas o trata bem, oferece cafezinho e tal.  De que adianta?  “A Camareira” é um filme de clima, que nos põe no centro da vida de uma trabalhadora modesta, sem preparo, mas dedicada à função que ocupa, que ousa ter esperança.  Em certos contextos, no entanto, até sonhar é difícil.  102 min.



ADAM

ADAM, produção do Marrocos de 2018, indicada para concorrer pelo país ao Oscar de filme internacional, dirigida por Maryam Touzani, é um filme sobre mulheres desamparadas, cada qual à sua maneira.  Põe em contato duas mulheres, uma, viúva com uma filha ainda pequena, que tenta sobreviver de forma estóica e a muito custo.  Que se enrijece, endurece, mas não verga.  É sua defesa, indispensável.  Pelo menos até que encontre e acolha uma jovem grávida, fora do casamento, o que é um problema moral no Marrocos, vagando pelas ruas sem casa ou trabalho.  Do encontro das duas novas perspectivas virão.  Uma modificará a outra, abrindo espaços para novas possibilidades e esperanças, num contexto muito difícil para ambas.  Na verdade, para o trio, já que a menina que vive na casa, onde elas acabarão convivendo, servirá de elemento catalizador da relação, com a indispensável perspectiva do futuro que as crianças trazem.  A maternidade está no centro dessa trama, em que as relações ocupam o lugar principal.  A sempre possível perspectiva de mudança e o encontro consigo mesmas servindo de elementos de base para uma melhor relação com a vida.  Uma história contada com sensibilidade e respeito pelos sentimentos, desejos e idiossincrasias de cada uma.  96 min.

Para encerrar
1º. de dezembro, dia mundial de luta contra a Aids.  O cinema tem participado dessa batalha já há muitos anos.  Alguns dos filmes produzidos sobre o tema estão em cartaz na Mostra Prevenção, no Cinesesc, até o dia 04 de dezembro.



segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O IRLANDÊS

Antonio Carlos Egypto





O IRLANDÊS (The Irishman).  Estados Unidos, 2019.  Direção: Martin Scorsese.  Com Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci.  209 min.


Martin Scorsese desenvolve em “O Irlandês” uma saga que perpassa várias décadas na vida de Frank Sheeran (Robert De Niro).  De caminhoneiro, entregador de carne, a matador de aluguel, rápido, eficiente e sem envolvimento emocional ou culpa.  Uma figura assim será logo captada para o mundo do crime organizado e, com um pouco de sorte, cair nas graças de um grande chefão como Russel Bufalino (Joe Pesci).  E conhecer e atuar junto à mais importante figura dos grandes sindicatos, o lendário Jimmy Hoffa (Al Pacino).

A trama de Scorsese mostra como o crime organizado dispõe de um poder impressionante junto à política institucionalizada, com vínculos fortes com o poder local, mas também com o poder federal e com a própria figura de presidentes da República, que os apoiaram, foram apoiados por eles, ou favoreceram uma ala em relação a outra, de acordo com os interesses em jogo.  O forte sindicalismo estadunidense também apresenta grande vinculação com o crime organizado.  E tudo se arranja no Judiciário, a partir de advogados que conhecem os caminhos para livrar o gangsterismo de pagar pelo que faz.  Ou de fazê-lo moderadamente.  O crime, lá como cá, também pode ser comandado da cadeia.  Ou seja, tudo vai junto e misturado, onde menos se espera, e pondo em cheque a própria ideia de democracia. 




Vida e morte estão na mão dos grandes do crime no momento.  Que resolvem suas diferenças a bala.  As máfias se formam e a violência é quem dá as cartas.

O talento do diretor nos garante uma narrativa muito intensa e envolvente, com momentos marcantes e impactantes, mas dentro de um ritmo lento, que nos permite observar, atentar para detalhes, pensar sobre o que estamos vendo.  E se preocupar sobre o que ele nos mostra, enquanto curtimos belas sequências.

Ao final, fica um questionamento importante: de que vale tudo isso, esse poder de vida e de morte, dinheiro a rodo, traições, vinganças, sordidez, se no fim tudo acaba em velhice, doença, solidão, desamparo e morte?  O que se ganha, afinal, com essa vida delirante de armas e poder a qualquer preço?  Que sentido tem isso?  Scorsese põe também sua pitada religiosa aí, aquela dos momentos finais, onde pode haver arrependimento, ou não, pelo que se fez.





Robert De Niro está exuberante como protagonista dessa história e quase irreconhecível quando mais jovem.  A maquiagem faz miséria também em relação a Al Pacino, igualmente em grande desempenho.  Joe Pesci também passa pela metamorfose do tempo e brilha, tem um desempenho espetacular no papel do grande chefão da história.  É uma trinca de atores de altíssimo nível que está em cena.

“O Irlandês” é uma produção da Netflix, que está tendo uma carreira limitada no cinema.  Infelizmente.  Os que não se incomodam de perder a saga na indispensável telona, porque preferem a comodidade do sofá da sala, no entanto, vão adorar.  O filme é muito longo, o mais longo da filmografia de Martin Scorsese.  De modo que uma parada para o banheiro, um café ou uma comidinha, pode até ser bem-vinda, mesmo atrapalhando a fruição desse belo filme.  De qualquer maneira, sinal dos tempos.