terça-feira, 15 de janeiro de 2019

YARA

Antonio Carlos Egypto





YARA (Yara).  Líbano, Iraque, 2018.  Direção e roteiro: Abbas Fahdel.  Com Michelle Webbe, Elias Freifer, Mary Alkady, Charbel Alkady.  101 min.


‘Yara” nos leva a uma região de grande beleza natural, no norte do Líbano: o Vale de Qadisha, uma localidade rural isolada, cercada de belas montanhas e uma paisagem verde exuberante.  Circulam por lá as cabras, as galinhas, gente que cozinha, lava roupa, toma sol.  Muito pouca gente.

Num ambiente tranquilo e de muita paz, tão perto de uma zona conflagrada, vivem a adolescente Yara (Michelle Webbe) e sua avó uma rotina em que, a rigor, nada acontece e tudo se repete.

No entanto, a entrada em cena de um jovem andarilho, Elias (Elias Freifer), meio perdido naquela região, acaba trazendo uma inesperada amizade e a perspectiva de um amor de verão para Yara e para ele.  A narrativa rarefeita de “Yara” se resume a isso, num ritmo bastante lento, contemplativo. 

Durante uma hora e meia vivemos nesse paraíso de beleza e paz, sorvendo cada instante, percebendo nuances, detalhes.  É um tipo de filme, hoje já disseminado, que se contrapõe à tendência não só do cinemão comercial, agitado e enlouquecido, como da vida diária das grandes cidades do mundo, seus conflitos e suas guerras.  Um bálsamo para tempos bicudos.




É curioso que essa tenha sido a escolha do diretor Abbas Fahdel, nascido no Iraque, vivendo na França desde os 18 anos de idade.  Ele atuou como documentarista em função da terrível situação da guerra em seu país, procurando entender o que teria acontecido com seus amigos de infância que lá permaneceram, registrando um Iraque abalado pela violência, pelo pesadelo da ditadura e pelo caos que lá se instalou.  Outro documentário em duas partes, “Antes da Queda” e “Depois da Batalha”, aborda a invasão norte-americana do país.  Um longa de 2008, “Down of The World”, é um drama sobre os múltiplos impactos da Guerra do Golfo, numa área conhecida como Jardim do Éden.

Com esse histórico e essa identidade geográfica, chega a ser surpreendente esse conto de amor, emoldurado pela beleza natural, pela juventude, pela inocência e pela sutileza.   O diretor foi em busca de uma fábula que traz o reverso da moeda.  Um alívio, depois de tanta guerra e destruição.  Um filme extremamente delicado e sensível, ambientado num Líbano pacífico.  Um filme para relaxar e curtir, sem pressa.

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domingo, 13 de janeiro de 2019

MEU QUERIDO FILHO

Antonio Carlos Egypto





MEU QUERIDO FILHO (Weldi).  Tunísia, 2018.  Direção e roteiro: Mohamed Ben Attia.  Com Mohamed Dhrif, Mouna Mejri, Zaharia Ben Ayyed.  104 min.
 

O que o filme tunisiano “Meu Querido Filho’, dirigido por Mohamed Ben Attia, nos mostra é uma relação simbiótica entre pai e filho.  Conta também com a participação da mãe, Nazli (Mouna Mejri), mas de modo mais distanciado e crítico.  Já o pai, Riadh (Mohamed Dhrif), que acaba de se aposentar, vive agora em tempo integral a vida de seu filho único, em vias de prestar o vestibular.  O menino Sami (Zaharia Ben Ayyed), sufocado nessa relação, se comporta como um boi que vai ao matadouro.  Depressivo e sem reação aparente, a não ser as constantes enxaquecas, que denunciam seu mal-estar permanente.  O que só reforça a atitude familiar de viver em função das necessidades do filho.  Como sair dessa enrascada?

O filme dá uma pista: Sami sai correndo de algum lugar para chegar a tempo de ser buscado pelo pai no colégio.  E de lá sai como se tivesse se dedicado às aulas durante aquele período.  Às vésperas do vestibular, desaparece, deixando os pais sem rumo.

Até aí, o processo é compreensível e bem descrito.  A maionese desanda quando a gente fica sabendo que Sami foi para a Síria, em plena guerra, e o pai resolve ir atrás dele.  Estranho esse caminho.  Para se diferenciar e encontrar sua identidade, foi preciso ir em busca de uma forma de terrorismo islâmico?  Por que a Síria?  Para se casar e ter filhos lá?  Mais estranho ainda.  Teria sido convencido a ir lutar, por meio da Internet?  Ou teria sido sequestrado?

A questão assume contornos políticos que complicam a narrativa e flertam com preconceitos e com o uso da velha fórmula: o lado do bem e o lado do mal.




“Meu Querido Filho” conclui bem, depois disso, pois volta ao contexto pessoal e familiar de onde partiu, mas deixa um cheiro de manipulação no ar, que soa incômodo.  E não permite que a trama flua dentro da temática psicológica que nos apresentou.  Elementos exógenos a ela ficam mal explicados, inconvincentes.

O desempenho do elenco é bom, mas a figura do filho demandaria mais nuances interpretativas.  Já o pai é muito convincente na sua atuação, evocando sua dedicação, sua luta interna e seu sofrimento.  Talvez por isso seja mais fácil identificar-se com ele, em que pese a opressão inconsciente que o personagem pratica, do que com o filho, sufocado e inerte.  Bem, isso também dependerá da idade do espectador, por certo.

“Meu Querido Filho” foi exibido na 42ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  Participam dessa produção bem cuidada os irmãos Dardenne, conceituados cineastas belgas.




segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A NOSSA ESPERA

Antonio Carlos Egypto





A NOSSA ESPERA (Nos Batailles).  Bélgica/França, 2018.  Direção: Guillaume Senez.  Com Romain Duris, Lucie Debay, Laetitia Dosch, Cédric Vieira, Laurie Calamy.  99 min.


Um operário vivendo do chão de fábrica, competente, dedicado ao seu trabalho, e também consciente de seus deveres e responsabilidades junto aos seus colegas e subordinados.  Atento à forma como a empresa trata seus empregados, disposto a lutar por direitos, justiça, respeito e melhores condições de trabalho.  Esse é o personagem Olivier (Romain Duris).  Ou melhor, a face trabalhista dele.

A outra face é a familiar, tão dura e cheia de percalços como a do trabalho.  O dinheiro é restrito, dois filhos pequenos demandam cuidado e atenção permanentes.  Mas enquanto a mãe Laura (Lucie Debay) está presente, dá para levar.  Só que um dia ela some, sem deixar explicações, e a vida de Olivier se complica enormemente.

O que o filme do diretor belga Guillaume Senez explora em estilo bem realista é a luta desse homem simples, operário, trabalhador, seu drama familiar com seus filhos e a participação de sua mãe e de sua irmã.  Uma história sobre abandono e perdas.




O título em português alude também á questão da indefinição e da espera pelo possível retorno de Laura.  Daí “A Nossa Espera”.  O título original, porém, prefere enfatizar as batalhas do personagem e de seu meio: “Nos Batailles”.

A narrativa faz uma boa conexão entre a vida pessoal e o aspecto coletivo, social, mostrando como uma coisa interfere fortemente na outra e como os valores se constroem, ou são vividos, lá e cá.

Um dilema moral muito relevante resultará disso tudo, envolvendo não só o protagonista Olivier, mas também seus dois filhos, que ainda pequenos experimentarão o significado da democracia.  Enfim, “A Nossa Espera” é um filme político, no sentido de que nossa atitude, nossas crenças, nossas ações, em casa ou no trabalho, são políticas e têm repercussões na vida dos outros.  Unanimidades são raras, por isso é preciso negociar, cultivar a alteridade, respeitar as diferenças e os sentimentos.

Romain Duris, com seu talento e discrição, constrói um Olivier fascinante, que a gente aprende a respeitar e torce por ele.  No entanto, ele não se comporta como um herói.  Ele luta para sobreviver com dignidade e para dar conta de tudo, dentro dos seus limites e com suas falhas.  Como todo mundo.  Só que, para alguns, a vida é mais penosa, mais difícil.  Às vezes, o desafio parece grande demais!  Mas a solução fácil pode ser mais lesiva do que a dura batalha do dia a dia, com suas escolhas complicadas.





quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A PÉ ELE NÃO VAI LONGE

 Antonio Carlos Egypto






A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot).  Estados Unidos,  2017.  Direção: Gus Van Sant.  Com Joaquin Phoenix, Jonah Hill, Rooney Mara, Jack Black.  113 min.



O mais recente trabalho de Gus Van Sant (de filmes, como “Paranoid Park”, 2007; “Elefante”, 2003; e “Drugstore Cowboy”, 1989) é uma cinebiografia do cartunista John Callahan (1951-2010), de Portland, Oregon, USA. 

O cartunista obteve bastante sucesso com seu humor perverso, demolidor, para quem nada é tabu.  Mas que alcançava com traços simples, sorrisos irônicos e boas risadas. Era tetraplégico e fazia piada até da própria deficiência, assim como de qualquer outra  vulnerabilidade.  Um humor corrosivo, que também incomodava muito, o que pode ser visto como mérito.  Talento não lhe faltava.




O filme, porém, ao tratar da figura do cartunista, vai muito além do seu trabalho.  A condição de tetraplégico derivou de um acidente automobilístico terrível, provocado por ele próprio e um amigo, totalmente embriagados e agindo da forma mais irresponsável possível.  Só que não foi um fato isolado.  Callahan era um alcoólatra contumaz.  E nunca buscou ajuda para tentar, ainda que fosse em pequena escala, ter a situação sob controle.  Só foi atrás dela depois que sobreviveu ao acidente.


Foi por meio dos Alcoólicos Anônimos, e seus famosos Doze Passos, que ele se reencontrou consigo mesmo e com a vida.  O filme mostra essa atuação como algo positivo, muito sério, consistente e profundo.  Sabe-se que nem sempre é assim e que o moralismo embutido aí, assim como o caráter mecânico e repetitivo dos rituais dos AA, também são objeto de crítica.  Ao que tudo indica, porém, funciona, na maioria dos casos.

O ponto alto do filme de Gus Van Sant é o desempenho, sempre marcante, de Joaquin Phoenix como protagonista, num daqueles papéis que exigem tudo e mais um pouco do ator.

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Estão entrando em cartaz agora alguns grandes filmes, exibidos na 42ª.Mostra, e que são finalistas na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro, já comentados aqui : CULPA, de Gustav Möller (Dinamarca) e ASSUNTO DE FAMÍLIA, de Hirokazu Kore-Eda (Japão), nos cinemas. ROMA, de Alfonso Cuarón (México), no Netflix.



terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O CONFEITEIRO


Antonio Carlos Egypto





O CONFEITEIRO (Der Kuchenmacher).  Israel/Alemanha, 2018.  Direção: Ofir Raul Graizer.  Com Tim Kalkhof, Sarah Adler, Roy Miller, Zohar Strauss.  107 min.


O filme indicado por Israel para concorrer ao Oscar de produção estrangeira não entrou na lista de classificados.  Talvez porque os concorrentes fossem muito fortes, já que “O Confeiteiro” é um belo trabalho cinematográfico.

A trama envolve um triângulo amoroso:  Oren (Roy Miller), um executivo judeu de Israel, que vai a Berlim mensalmente a trabalho.  Anat (Sarah Adler), sua mulher, vivendo em Israel e, de uma família religiosa, cuida de um café que preza por seu certificado  kosher.  E Thomas (Tim Kalkhof), o confeiteiro alemão, com quem Oren se envolve amorosamente.





O tratamento dado a esse triângulo pelo diretor e roteirista Ofir Raul Graizer é o que faz a diferença.  O filme aborda diversas questões, sempre com muita sutileza, utilizando-se da ironia e tratando de negações, perdas e descobertas.

Um dos grandes focos de “O Confeiteiro” é, naturalmente, a comida,  kosher  ou não, particularmente os doces. É por meio deles que Oren conhece Thomas, passa a frequentar regularmente sua padaria, quando vai a Berlim e traz deliciosos biscoitos de canela que Anat adora.

É a habilidade de confeiteiro de Thomas que o aproximará muito de Anat no café dela, em Israel, na ausência de Oren.  O convívio de ambos será terno e colaborativo, mas a história por trás disso é irônica, já que há coisas escondidas, não ditas, e há manipulação na situação.  No entanto, tudo vai se construindo num tom leve, embora a gente perceba que algo inevitavelmente terá de acontecer.

O sucesso da comida que não é  kosher , que está na base da situação, cria algum conflito, especialmente por parte do irmão de Anat, Moti (Zohar Strauss), que é religioso convicto.  É essa comida questionada, porém, o que conquista tanto Oren quanto Anat e o público judaico do café.

A origem alemã não judaica de Thomas, com os elementos históricos complicados conhecidos, seria outro empecilho, tanto ao trabalho quanto à relação amorosa.  Mas também aí os princípios não vingam.  Aliás, princípios têm sempre de passar pelo crivo da realidade concreta da vida, do contrário se tornam fundamentalismos tolos e opressores.

Outra sutileza do filme é o compartilhamento da perda, não explicitado, entre Thomas e Anat.  E é porque esse compartilhamento existe que importantes descobertas podem acontecer.  Mesmo o rompimento que se anunciava na trama surpreende por se dar de forma abrupta e até agressiva, mas pela intervenção externa, já que o que foi construído, na verdade, não desmoronou.  A sutileza marcada pelos vínculos que se criaram vai literalmente até a última sequência de “O Confeiteiro”.





Numa época em que o cinemão prima pela ação desmedida, pelo excesso e pelo explícito, ver um filme que tem como marca a sutileza é altamente recompensador.  É possível acompanhar a narrativa ponto a ponto, detalhe a detalhe, intuir o que vem, identificar-se com ações, motivações e circunstâncias dos personagens, tentar entender devagar, sem precisar emitir julgamentos.

O que “O Confeiteiro” nos mostra é que a vida, as relações pessoais e seus determinantes culturais, étnicos, históricos ou religiosos, são coisas complexas que interferem de modo intenso, mas também sutil, em tudo.  É por isso que o tal triângulo amoroso, tão conhecido e manjado, assume aqui uma dimensão mais profunda.  O filme está distante do folhetim, do melodrama, tal como costumam ser concebidos.

Claro que o desempenho dos atores protagonistas precisava se expressar da forma mais sutil e delicada possível, e isso foi conseguido.  São interpretações suaves, contidas, mesmo nos momentos mais sofridos.




quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

CONQUISTAR, AMAR E VIVER INTENSAMENTE

Antonio Carlos Egypto





CONQUISTAR, AMAR E VIVER INTENSAMENTE (Plaire, Aimer et Courir Vite).  França, 2017.  Direção: Christophe Honoré.  Com Vincent Lacoste, Pierre Deladonchamps, Denis Podalydès.  132 min.


1993.  Uma história de amor e sexo homossexual, envolvendo um trio de personagens.  Jacques (Pierre Deladonchamps), escritor e dramaturgo, encara em seu corpo as consequências decorrentes da ação do HIV no seu sistema imunológico, já combalido.  Embora resistindo e lutando bravamente para seguir na vida, a sentença de morte estava dada.  Nessa época, havia pouco a fazer quanto a isso. Jacques tem um filho que participa da trama, assim como a  mãe do menino, que se define como amiga do escritor.

Mathieu (Denis Podalydès) é o companheiro de Jacques e vive com ele, pelo que se supõe vendo o filme, há um bom tempo.  O que não significa que a relação entre eles não possa incluir outras pessoas. 

Arthur (Vincent Lacoste) é um jovem estudante, que vem de fora de Paris, parece à vontade com seu comportamento bissexual, mas até então não havia se apaixonado por ninguém, e se envolve amorosamente com Jacques.






É uma história de amor e morte, já que Jacques sabe que sua vida está no fim e tenta evitar um novo romance a essa altura.  Para Arthur, no entanto, é seu primeiro grande amor e ele não está disposto a abrir mão disso.  Um desencontro terrível, que tempera ternura com desespero.

O diretor Christophe Honoré faz um trabalho bonito, digno, ao contar essa história, onde há espaço para nudez, erotismo, humor, embora o drama se sobreponha a tudo isso.

Os atores que compõem a trinca de protagonistas seguram bem a narrativa, enfatizando em seus desempenhos a dimensão humana de cada um dos personagens.  Não há aqui clichês nem preconceitos de espécie alguma.  E há uma entrega muiito grande de cada um deles a seu personagem.

A direção de Honoré é sempre firme e o filme tem uma série de sequências muito consistentes.  Ele já deu mostras da qualidade de seu trabalho, em filmes como “Em Paris”, de 2006, “Canções de Amor”, de 2007, e “A Bela Junie”, de 2008.




terça-feira, 18 de dezembro de 2018

RASGA CORAÇÃO


Antonio Carlos Egypto





RASGA CORAÇÃO.  Brasil, 2018.  Direção: Jorge Furtado.  Com Marco Ricca, Drica Moraes, Chay Suede, Luísa Arraes, George Sauma, João Pedro Zappa.  115 min.


Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha (1936-1974), escreveu, em 1970, a peça que dá origem ao filme de Jorge Furtado, com roteiro dele, de Ana Luiza Azevedo e de Vicente Moreno, “Rasga Coração”.

O centro de toda a narrativa é a relação pai e filho, permeada pela política, por valores de vida, por estratégias de ação, com o pressuposto de que os jovens querem mudar o mundo e construir algo em que acreditem genuinamente. 

A motivação psicológica é clara: os jovens precisam se diferenciar dos pais, ter identidade própria, conquistar autonomia.  Para isso, o rapaz terá que “matar o pai”, no sentido simbólico.  Negar o pai, rejeitá-lo, tirá-lo da sua vida, momentaneamente.  Ou, pelo menos, distanciar-se dele, isolar-se.  E buscar os seus caminhos individuais.




Com esse substrato, “Rasga Coração”, a peça,  refletindo o momento de ebulição de 1968, em contraponto à opressão da ditadura militar, coloca a alternativa  hippie  de vida e de política frente à ação típica dos movimentos de esquerda tradicionais, reformista e revolucionário.  A revolução agora é outra: passa pela negação da guerra, pela liberdade, mas também pela comida, pela vestimenta, pela busca de novos padrões de comportamento e de vida. 

Esse choque geracional, no entanto, não é novo.  Repete o que foi vivido pelo pai quando filho, na juventude.  Ele fará tudo para, como pai, não repetir o que viveu como filho.  Mas conseguirá?  É um enfrentamento necessário, difícil e permanente, no sentido de se repetir ao longo da história e nos mais diversos espaços geográficos.

O filme de Jorge Furtado atualiza essa narrativa, trazendo a questão de gênero para os comportamentos.  A mãe, Nena (Drica Moraes), reage ao que imagina ser um encontro homossexual porque confunde a namorada do garoto com outro garoto, pela vestimenta “masculina” da menina.  Luca, o filho (Chay Suede), acaba pintando as unhas de vermelho e usando uma ampla saia, os novos modos de encarar o sexo estão mais descomplicados.  Participa da invasão da sua escola, em lugar das reuniões e ações políticas que visam a toda a sociedade, por exemplo.  A tecnologia também se atualiza.  As formas de comunicação mais instantâneas geram outro tipo de respostas.  Os projetos de longo prazo, como o consultório médico do futuro, já não servem.  Novos modelos de atuação médica são valorizados. Mas a rejeição do caminho planejado e acomodado já é um legado daquela era  hippie.

Vista hoje, a trama de “Rasga Coração” mantém sua atualidade.  Até porque esses confrontos pai-filho, permeados pela dinâmica social e política do país, apresentam atitudes que se repetem e se renovam.  Quando os jovens de agora lutam pela preservação do planeta e priorizam questões globais a questões nacionais ou latino-americanas, dá para entender.  O que Vianninha talvez não projetasse é que a oposição à esquerda racional e careta poderia ser não só a direita, mas uma juventude de extrema direita, violenta, com traços racistas, misóginos, homofóbicos, intolerantes.  Isso não soa como evolução, assusta.




Jorge Furtado, ao falar sobre o filme e perguntado sobre qual seria a revolução do momento, optou pela efetivação do diálogo com quem pensa diferente, combatendo o ódio e em busca do mínimo denominador comum que nos une como brasileiros.  Muito lúcido.

O talento de Jorge Furtado como cineasta não deixa margem a dúvidas.  Bastaria lembrar de “Ilha das Flores”, de 1989, o curta mais festejado e premiado da história do cinema brasileiro.  E ele faz muita coisa há décadas, na Casa de Cinema de Porto Alegre e na TV.

O elenco de “Rasga Coração” é também recheado de talentos.  Marco Ricca, o Manguari pai, é sempre um grande ator em cena.  João Pedro Zappa está bem no papel de Manguari filho, embora sua caracterização física seja um tanto caricata, não convencendo em relação à figura mostrada do adulto em que se tornou.  Drica Moraes, excelente como a mãe Nena, Chay Suede, muito bem como Luca, o filho.  Luísa Arraes mostra força e segurança como Mil.  Lorde Bundinha é uma oportunidade para o ator George Sauma extravasar seus dotes histriônicos.  Enfim, o elenco todo é bem homogêneo, e brilha.  O filme envolve, comunica e faz pensar.




quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

TINTA BRUTA

Antonio Carlos Egypto





TINTA BRUTA (Brasil, 2018).  Direção: Felipe Matzembacher e Márcio Reolon.  Com Schico Menegat, Bruno Fernandes, Sandra Dani, Guega Pacheco. 123 min.


“Tinta Bruta” nos apresenta o personagem Pedro (Schico Menegat), um jovem solitário, que parece incapaz de conviver com as pessoas, expressar-se naturalmente junto a elas.  Ao mesmo tempo, há um mistério na sua história: um processo criminal a que ele está respondendo.  Pedro parece depender de sua irmã, com quem mora, e que é muito amiga e próxima, mas ela se muda para longe e, com isso, só lhe resta mesmo a solidão.  E ficar em casa.  Ele quase nunca sai de casa.

Na contemporaneidade, porém, como sabemos, a nossa casa é a nossa fortaleza e a tecnologia nos faz interagir virtualmente com o mundo.  Pedro, então, se transforma no Garoto Néon em transmissões eróticas, via Internet, em que consegue ganhar algum dinheiro.  Ele veste seu corpo de tintas que, no escuro, com a iluminação, dá um belo efeito visual.  Ele virá a conhecer Léo (Bruno Fernandes) porque descobre que ele o está imitando e criando uma concorrência na Internet.  É por aí que algo vai mudar na vida de Pedro.

O interessante no filme de Felipe Matzembacher e Márcio Reolon é justamente o contraste entre a persona pública e a pessoa real.  No mundo virtual, cada um pode criar sua personalidade, sua história, inventar personagens, shows, expressões, aparentemente preservado do mundo exterior.  Interagindo por meio de câmeras, que se podem desconectar a qualquer momento, no anonimato.  Sem riscos, portanto.  Será mesmo? 




Bem, a vida não se resume ao mundo virtual, por mais atraente e fantasioso que ele possa ser.  Nada pode substituir efetivamente o contato físico, o afeto, que são transformadores.  Interagir é estabelecer vínculos, é dar colorido à vida, é correr riscos, é humanizar-se.  Não tem nada a ver com os compartilhamentos, comentários e interações via Internet.  Que, no entanto, serviram para nos mostrar que a evolução do ser humano não se deu como se poderia esperar.  No anonimato, real ou aparente, as pessoas mostram sua grossura, intolerância, idiotice.  Fica-se surpreso ao constatar que tantas pessoas se expressem assim.

O espaço da Internet também permite, como no caso de Pedro, o Garoto Néon, a expressão de uma sexualidade reprimida, sufocada e, ao mesmo tempo, atraente para muitos seguidores na web.  E até fonte de trabalho e ganho num empreendedorismo individualizado, de baixo custo.  Vender o próprio corpo não é exatamente uma novidade, mas é possível encontrar uma forma original de fazê-lo, enquanto imagem, como Pedro.

Qual o limite para tudo isso ainda não sabemos.  Assim como as consequências a longo prazo.  O que já podemos constatar é bastante preocupante, mas inconclusivo.  A questão do confronto entre a chamada vida real e a virtual traz elementos importantes para reflexão.  Temos muito a pensar, conhecer, entender sobre isso.  Personagens como Pedro e também Léo, de “Tinta Bruta’, são relevantes para o momento em que vivemos.  Eles trazem a diversidade sexual, a temática LGBT+ a esse contexto.  Mas o assunto é mais amplo e abrange todas as expressões da sexualidade, da intimidade, dos sentimentos tornados públicos. 

O filme “Tinta Bruta” foi exibido no Festival de Berlim e premiado no Festival do Rio como melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante.  De fato, os atores merecem mesmo esse destaque, o roteiro é muito bom (em que pese o sumiço da personagem da irmã) e a realização, de qualidade.





sábado, 8 de dezembro de 2018

MARIA CALLAS EM SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS


Antonio Carlos Egypto




MARIA CALLAS EM SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS (Maria by Callas).  França, 2017.  Direção: Tom Volf.  Documentário.  113 min.


Maria Callas (1923-1977) tem sido reconhecida como a maior cantora lírica do século XX ou, mesmo, de toda a história do bel canto.  Um documentário que pretenda registrar sua figura humana e sua obra musical tem, antes de mais nada, que apresentar sua performance vocal às novas gerações.  Esse é o primeiro mérito do filme de Tom Volf: é possível vê-la e ouvi-la cantar vários números, do começo ao fim de cada canção.  Evita-se, assim, aquela sensação de colcha de retalhos, excertos musicais que não dão a dimensão real do trabalho artístico.

A vida de Maria Callas foi cercada de polêmicas, amores, frustrações, cobranças do público e da crítica.  A maneira encontrada pelo documentário para abordar tudo isso foi montar o filme todo por meio das palavras da própria cantora, como o título em portiuguês já entrega.  Entrevistas, depoimentos, cartas, gravações em vídeo, dão conta da dimensão dessa vida intensa e rica, totalmente dedicada à música e ao amor.

Callas, nascida em Nova York, de uma família de imigrantes gregos, se naturaliza grega, por conta de seu envolvimento amoroso com Aristóteles Onassis que, apesar de provocar grande decepção e frustração, acabou resistindo, pelo menos como forte amizade, até a morte dele.  Segundo o que se vê no filme, e o tempo decorrido em cada relacionamento confirma, o papel de Maria Callas na vida de Onassis foi muito mais forte do que o de Jacqueline Kennedy.  E o de Onassis para Callas, total e arrasador. 



O que “Maria by Callas” enfoca bem é o desgaste provocado por uma vida de constantes desempenhos espetaculares, exigidos e amados pelo público, que impõem um preço alto a pagar.  Quando uma doença e a perda da voz obrigam a suspensão de um espetáculo no meio, isso assume ares de tragédia e as críticas e incompreensões se estabelecem.

O conflito entre uma vida artística tão exigente e a vida pessoal e familiar que não se realizam nunca em plenitude é o que está na base da abordagem do filme.  Maria tem que levar Callas para todo lugar e para sempre, comprometendo sua intimidade e suas pretensões a uma vida simples e comum.  A celebridade engole a pessoa. 

Além  de excepcional cantora, Maria Callas era também boa atriz.  Aliás, condição indispensável para o seu retumbante êxito na ópera.  Daí para a experiência no cinema é um pulo.  Ela trabalhou para ninguém menos que Pier Paolo Pasolini (1922-1975), em “Medeia”, por exemplo.  Mas a carreira cinematográfica não chegou a decolar.  Sua missão maior – a difusão do canto lírico para diversas gerações – venceu tudo.  Já próxima da morte, Maria Callas buscava, mais uma vez, retornar aos palcos, lugar onde ela se sentia em casa.

O filme de Tom Volf emociona, ao resgatar essa bela história, incluindo imagens raras de arquivo, filmagens pessoais, cartas íntimas, e ao nos apresentar maravilhosas performances musicais da grande diva.  É daqueles filmes que colecionadores gostarão de ter em casa, para ver e rever.  A arte e a beleza são fascinantes para quem desenvolve a sensibilidade para apreciá-las.