terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

LIVING THE LAND


                                      Antonio Carlos Egypto

 


LIVING THE LAND (Sheng Xi Zhi Di).  China, 2025.  Direção: Huo Meng.  Elenco: Wang Sang, Zhang Yanrong, Zhang Chuwen.  130 min.

 

O filme “Living the Land” do cineasta chinês Huo Meng, em seu segundo longa, é uma obra cinematográfica refinada pela beleza das imagens, fotografia, uso das cores vivas, bom aproveitamento das locações e pelo enquadramento das ações, sendo que a maior parte delas envolve muitos personagens em deslocamento.

 

A obra focaliza uma pequena comunidade rural tradicional chinesa, em suas múltiplas e variadas ações produtivas de sobrevivência, mas no momento em que as mudanças socioeconômicas do país o levam aceleradamente para a modernidade: os anos 1990.  Recheada de personagens típicos das pequenas vilas, com seus problemas, conflitos, dificuldades, preconceitos, mas que formam uma liga afetiva, praticamente familiar.  Consequentemente, o controle social dos comportamentos é muito intenso.

 

Em tempos de fortes mudanças, as novas tecnologias e as novas diretrizes econômicas e sociais alteram radicalmente a vida de todos e o caminho natural é ir para a cidade, em busca de novas oportunidades.  Uma questão muito mais de sobrevivência do que da própria busca por uma vida melhor.

 


O filme nos coloca numa imersão na vida em comunidade e nas transformações que vão ocorrendo, afetando as pessoas.  Mostra também a história de personagens representativos na figura das crianças que ficam, mas precisam partir para existir no novo modo de vida chinês.  Apesar disso, os personagens não são desenvolvidos ou aprofundados.  É o seu conjunto em ação que funciona como protagonista.  Ou seja, o protagonista é a comunidade.  É nesse sentido um filme sociológico.  Ilumina a sociedade, as pessoas são peça e consequência do coletivo. 

 

Vamos ouvir um pouco do que diz o diretor Huo Meng: “Eu queria retratar como, quando políticas sociais coletivistas colidiram com tradições moldadas ao longo de milênios, as pessoas foram forçadas a se adaptar de maneiras que desafiaram seu próprio modo de vida” e acrescenta: “Também senti que era importante retratar as imensas pressões que as mulheres enfrentaram... que deixaram danos duradouros e irreversíveis”.

 

As personagens femininas são muito claramente as mais afetadas por todo o processo que subverte a vida familiar tradicional.  Isso tudo se percebe ao longo da narrativa que, apesar dessas palavras do cineasta, é leve, respeitosa e sem julgamento ou moralismo.  O que é, sem dúvida, um mérito do realizador.

 

“Living the Land” venceu o Urso de Prata de melhor diretor em Berlim e recebeu muitas críticas elogiosas mundo afora.  E é, de fato, um belíssimo filme.





sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

2 FILMES

 Antonio Carlos Egypto

 


 

A ÚNICA SAÍDA (Eojjeol  Suga Eopda).  Coreia do Sul, 2025.  Direção: Park Chan-wook.  Elenco: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Cha Seung-won.  139 min.

 

A Única Saída”, de Park Chan-wook, baseado no romance The Ax, de Donald E. Westlake, de 1997, é uma nova filmagem do mesmo romance que havia dado origem ao filme “O Corte”, de Costa Gavras, em 2005.

 

“O Corte”, até onde me lembro, era uma comédia discreta e realista, que denunciava os cortes empresariais abruptos derivados das mudanças organizacionais que deixavam ao desespero os desempregados, a ponto de fazerem o que seria até impensável: eliminar fisicamente os concorrentes.

 

Essa mesma trama, enfatizando mais a questão tecnológica, é o mote propulsor do filme “A Única Saída”, mas aqui a comédia é rasgada, cheia de trapalhadas, em que se sobressai a dificuldade que é matar alguém e como é complicado efetuar a ação.  Hitchcock já abordou isso em vários filmes dele.  Afinal, matar é difícil, não só pela falta de coragem, destreza ou plano mal realizado, mas por questões morais.  E também pela dificuldade objetiva da realização.

 

O filme não brilha pela profundidade de proposta, nem pelo humor escrachado, sendo uma realização apenas mediana.  Mas tem um grande mérito: o seu impacto final, que não só é inteligente e motivador de debates como compõe uma sequência muito bem realizada visualmente.  Será preciso que você curta o filme até o final para aproveitar isso.

 

“A Única Saída” teve indicações ao Globo de Ouro.  Não conseguiu nenhuma indicação ao Oscar, embora estivesse concorrendo.

 

 


 

DOIS PROCURADORES (Zwei Staatsanwälte).  Europa, 2025.  Direção: Sergey Loznitsa.  Elenco: Alexander Kuznetsov, Anatoly Beily, Dimitrius Denisiukas.  118 min.

 

O filme do grande diretor ucraniano Sergey Loznitsa remete à União Soviética, no ano de 1937, sob o domínio de Stalin.

 

Mostra os próprios presos do regime sendo destacados para queimar uma montanha de pedidos e reclamações dirigidos ao próprio Stalin e à máquina policial e judiciária da época. Uma dessas manifestações, escrita a sangue por um prisioneiro, não foi destruída e acabou chegando à promotoria de justiça.

 

O promotor recém-formado, iniciante na profissão, Kornyev, vai em busca de realizar o seu papel e investigar o que se passa com o prisioneiro.  Vê o que acontece na prisão e, com dificuldade, tem acesso reservado ao tal prisioneiro e percebe que será bem difícil atuar nessa missão.  Mas persiste.  Consegue chegar ao Promotor Geral, em Moscou, e aí descobre como as coisas estavam acontecendo no regime comunista stalinista.

 

O filme é bem realizado, numa narrativa clássica, que é adequada à exposição dos fatos e situações da trama.

 

A produção envolve diversos países europeus. Já está em pré-estreia no cinema, mas chegará ao circuito no dia 05 de fevereiro de 2026.



sábado, 24 de janeiro de 2026

A VOZ DE HIND RAJAB

                       

Antonio Carlos Egypto

 




A VOZ DE HIND RAJAB (Sawt Hind Rajab).  Tunísia, 2025.  Direção: Kaouther  Ben Hania.  Elenco: Amer Hiehel, Clara Khouri, Motaz Malhees, Saja Kilani.  89 min.

 

“A Voz de Hind Rajab” é um filme tenso, angustiante e de suspense.  Infelizmente baseado em fatos reais que nos assustam e às vezes nos fazem descrer da própria humanidade.  O filme da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania é uma encenação de uma situação que não só ocorreu como vem acontecendo seguidamente na Faixa de Gaza. 

 

Trata-se de uma menina de 6 anos que conseguiu pedir ajuda por telefone à Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, quando o carro em que estava com o tio e sua família foi bombardeado por um tanque israelense e todos ao redor da menina estavam mortos.  A mãe e o irmão dela não estavam com eles.

 

O Crescente Vermelho é um órgão independente e reconhecido, que atua com voluntários e é vinculado ao Movimento Internacional da Cruz Vermelha.  Para atuar no resgate de pessoas em Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza, precisa de uma coordenação que passa pela autorização de várias partes para gerar uma rota segura.  Muitos voluntários já perderam a vida nessa atividade. 

 

O que o filme mostra é a atuação do serviço de retaguarda ao telefone que abre a coordenação do resgate.  Um carro de socorristas estava teoricamente a oito minutos do veículo onde a menina clamava por ajuda, para que fossem buscá-la, mas com o tempo decorrido de três horas o assunto ainda não estava resolvido.

 


O que estavam fazendo e sentindo os atendentes do posto telefônico pode-se imaginar, e é o que o filme faz, mas as conversas ao telefone que aparecem no filme foram resgatadas e são os áudios originais reais.  O que só torna a experiência ainda mais aterrorizante e nos coloca na situação de impotência e, ao mesmo tempo, chama à nossa responsabilidade pelo que está acontecendo no nosso mundo nesse momento.

 

O filme praticamente se passa no tempo decorrido das muitas conversas mantidas com a menina Hind, com sua mãe e também com os diversos órgãos que precisam ser acionados para que a operação possa acontecer.  Tudo isso se passa a seco, sem trilha sonora musical.  É realidade na veia, não tem por onde escapar.

 

“A Voz de Hind Rajab” é um dos cinco filmes selecionados para a disputa do Oscar de filme internacional, agora em 15 de março de 2026.  Seus concorrentes são: “O Agente Secreto”, do Brasil, “Valor Sentimental”, da Noruega, “Foi Apenas um Acidente”, da França/Irã, e “Sirât”, da Espanha.  Um quinteto de grandes filmes, sem nenhuma dúvida.   O filme da Tunísia não entra como favorito nessa disputa, mas merece toda a nossa atenção.  Afinal, as vozes de todos os que estão sendo massacrados precisam ser ouvidas e esse genocídio precisa acabar.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

TOP 10 - 2025

Antonio Carlos Egypto

Na semana em que tivemos a grande notícia de 4 indicações para o Oscar para O AGENTE SECRETO eu aproveito para apresentar a você minhas listas de TOP 10 do ano recém-findo. Os filmes de que mais gostei de ver em 2025 lançados nos circuitos dos cinemas brasileiros.



 

                      FILMES NACIONAIS

O AGENTE SECRETO , de Kleber Mendonça Filho

O FILHO DE MIL HOMENS, de Daniel Resende

HOMEM COM H, de Esmir Fiho

O ÚLTIMO AZUL, de Gabriel Mascaro

MANAS, de Mariana Brennand

MALÊS, de Antonio Pitanga

3 OBÁS DE XANGÔ, de Sérgio Machado

BABY, de Marcelo Caetano

APOCALIPSE NOS TRÓPICOS, de Petra Costa

OESTE OUTRA VEZ, de Érico Rassi  





                 FILMES INTERNACIONAIS

FOI APENAS UM ACIDENTE, de Jafar Panahi

VERMIGLIO, de Maura Delpero

O BRUTALISTA, de Brady Corbet

SEX, de Dag Johan Haugerud

VALOR SENTIMENTAL, de Joachim Trier

UMA BELA VIDA, de Costa Gavras

TRILHA SONORA PARA UM GOLPE DE ESTADO, de Johan Grimonprez

O CASTIGO, de Matías Bize

ENCONTRO COM O DITADOR, de Rithy Panh

JOVENS AMANTES, de Valeria Bruni Tedeschi


Todos esses filmes, tanto os nacionais quanto os internacionais, foram objeto de apreciação por mim aqui no Cinema com Recheio. Para acessá-los entre no campo de pesquisa do blog, ou vire as páginas no celular.


sábado, 17 de janeiro de 2026

HAMNET : A VIDA ANTES DE HAMLET

Antonio Carlos Egypto

 

 



HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET (Hamnet).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Chloé Zhao.  Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe Alwin, Emily Watson, Jacobi Jupe, Noah Jupe.  125 min.

 

Hamnet foi o único filho homem de William Shakespeare (1564-1616) e Agnes ou Anne Hathaway (1566-1623), fruto do casamento deles em 1582.  Tiveram três filhos.  Ela estava grávida de Suzanna quando se casou.  O menino foi gêmeo de Judith.  Isso está registrado e confirmado assim como as grafias intercambiáveis de Hamnet e Hamlet, que seriam variações do mesmo nome, à época.  E que Hamnet morreu aos 11 anos de idade, provavelmente em decorrência da peste e que a peça “Hamlet” foi escrita quatro anos depois dessa trágica morte para a família.  Em que pese o fato de que a mortalidade infantil era, então, altíssima.

 

Bem, daí a fazer a conexão entre a morte do filho e a peça “Hamlet” já envolve uma interpretação.  Talvez fosse mais simples considerar pelas falas da peça a influência do fato na escrita, mas não necessariamente a inversão de pai e filho como a personificação da própria história pessoal do autor.  Mesmo com a coincidência de nomes.

 

A partir daí, o que o filme “Hamnet”, baseado no livro do mesmo nome da escritora Maggie O’Farrell, também roteirista do filme da diretora chinesa Chloé Zhao, descreve é a vida familiar ficcional de Shakespeare e Agnes.

 

É verdade que o bardo inglês pouco ficava em casa, desde que iniciou sua vida nos palcos em Londres, saindo de sua aldeia natal.  E que mesmo tendo depois adquirido uma bela casa em Stratford-upon-Avon continuava viajando a trabalho e não teria podido comparecer ao funeral do próprio filho a tempo.  Mas, se isso significava um casamento infeliz ou pouco interesse no convívio com a esposa e os filhos, é mera especulação.  Shakespeare pode ter sido um apaixonado que não podia se dar ao luxo de ir para casa dado o êxito do seu trabalho no teatro.  Afinal, foram casados por 34 anos, até a morte dele.  De qualquer modo, o que Shakespeare sentia não se pode saber. 

 

Não há dúvida de que o apelo do filme “Hamnet” se escora no prestígio do clássico shakespeariano.  Tanto que o seu final emocionante bebe das águas férteis da peça “Hamlet”.  E por meio dela explora o papel da arte na resolução de questões emocionais tensas e sofridas e na ligação entre as pessoas. A recriação da cena da exibição da peça na época e da suposta presença de Agnes assistindo-a ao vivo é muito bem concebida e realizada.

 


A narrativa do filme, porém, é toda centrada na figura de Agnes, em brilhante interpretação de Jessie Buckley, premiada como atriz/drama no Globo de Ouro.  Até a parte final, o que se acompanha é uma dinâmica familiar cheia de problemas e dificuldades que descamba para o dramalhão em vários momentos.  É um filme feito para chorar.  Não precisava.

 

Paul Mescal faz um Shakespeare muito adequado.  O mais curioso é que o nome do personagem só aparece no filme em seu terço final.  Como a dizer que essa história poderia ser de qualquer pessoa daquela época.  De qualquer família, também.  Mas a protagonista é Agnes, nome utilizado por seu pai ao lhe deixar bens em testamento.  Anne é o nome que, provavelmente, ela usava informalmente.

 

Ela é uma mulher forte, trabalhadora, misto de feiticeira da floresta e especialista em ervas e poções medicinais.  Provavelmente sabia ler e escrever e não seria apenas uma camponesa analfabeta.  O filme aposta nisso, numa leitura obviamente moderna, que é criação artística.

 

“Hamnet” é bonito, bem filmado, com locações de natureza e elementos de época bem caracterizados.  A diretora Chloé Zhao já nos havia dado o premiado “Nomadland”, em 2020, um filme superior a esse que agora deve disputar o Oscar.

 

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

2 FILMES DE OSCAR

Antonio Carlos Egypto

 




MARTY SUPREME (Marty Supreme).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Josh Safdie.  Elenco: Timothée Chalamet, Gwineth Paltrow, Odessa A’zion, Abel Ferrara, Tyler Okonma, Fran Drescher.  140 min.

 

“Marty Supreme” enfoca um jovem personagem ultra talentoso e ambicioso do esporte do tênis de mesa.  Esse assunto anima você a ir ao cinema?  A mim também não animou, porém, o filme já consagrou o trabalho do ator Timothée Chalamet com prêmios importantes como o Globo de Ouro de ator/comédia.  E o filme deve estar na lista dos indicados ao Oscar.

 

Acompanhando o filme, a gente vê que o trabalho é mais inteligente do que se poderia esperar sobre o tema.  Acredite, as cenas das disputas no tênis de mesa são muito bem feitas e chegam a empolgar.

 

O rumo da trama mostra um personagem disposto a tudo, inclusive muitos desvios éticos, para chegar a ser campeão mundial da categoria.  Ocorre que, antes de tudo, na verdade, ele se autossabota.  Faz as piores escolhas, nos piores momentos, convive com quem ele não gosta e tem relacionamentos confusos e conflitantes.  Tanto ele não respeita seus eventuais parceiros ou adversários, como pouco se incomoda com a legalidade das ações e eventos de que participa.

 


Se há uma mulher à sua espera em qualquer circunstância, porque o conhece bem e o aceita, apesar de tudo, há outra que vê nele um parceiro de ocasião para minorar suas insatisfações.  O jeito de lidar com elas e com a própria mãe também está longe de ser satisfatório. 

 

Com uma figura central assim, a trama não poderia levar a um bom cabo e o filme adota isso de forma correta, ainda revelando os bastidores sórdidos das disputas esportivas.  Marty entra nesse jogo em busca de dinheiro para, pelo menos, ir a Tóquio competir pelo mundial e em busca de prestígio e sucesso internacionais.  Mas faz tudo ao contrário do que poderia render-lhe melhores resultados.  Autoengano?  Sabotagem?  Mau caráter?  Tudo isso e a lógica binária e simplória da obsessão por vencer, dos winners e loosers, que vigora nos Estados Unidos desde sempre.  Mas que aqui passa por alguma revisão do olhar sobre o tema.

 

O desempenho de Timothée Chalamet como o tenista Marty Mauser, segundo se diz, inspirado vagamente num jogador real dos anos 1950 em Nova York, é visceral e muito intenso.  Denota o empenho que parece que ele costuma dedicar aos seus personagens.  No caso aqui, ele diz que aprendeu e praticou tênis de mesa durante sete anos como preparação e que fazia isso até quando estava em outras filmagens.  Inspiração e transpiração aos borbotões.

 

O filme dirigido por Josh Safdie é agitado, como seu personagem central, tem um bom elenco de apoio, mas é todo focado na figura de Marty Mauser.  Isso sustenta bem o filme.  Há trapalhadas, exageros e excessos desnecessários, que não chegam a ser engraçados, mas não deixa de ser uma boa diversão.


 


UMA BATALHA APÓS A OUTRA (One Battle Aflter Another).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Paul Thomas Anderson.  Elenco: Leonardo Di Caprio, Teyana Taylor, Sean Penn, Chase Infiniti, Benício del Toro.  162 min.

 

A julgar pela recente premiação do Globo de Ouro, “Uma Batalha Após a Outra” pavimentou suas grandes possibilidades no Oscar.  O filme venceu como melhor comédia, com prêmios de melhor roteiro e direção para Paul Thomas Anderson.  E ainda o prêmio de atriz coadjuvante para Teyana Taylor.

 

O consagrado cineasta P.T.A. tem entusiastas do seu trabalho e gente que torce o nariz para suas provocações e o mundo distópico que ele retrata.  Geralmente a crítica aprova mais a sua obra do que o público.

 

A trama do filme focaliza Bob Ferguson (Leonardo Di Caprio), um ex-revolucionário que vai em busca da filha adolescente sequestrada por seu inimigo, o coronel Lockjaw (Sean Penn).  Vive uma jornada caótica, retomando seu passado para salvar a filha Willa (Chase Infiniti) e ainda tem de enfrentar a dissonância geracional dos tempos de crise em que vivemos.

 

Poder, confronto, embate ideológico, mudanças radicais, polarização extrema, a sociedade tomada pela violência e pelo desencontro, são alguns dos elementos de “Uma Batalha Após a Outra” que, na verdade, é antes de tudo um filme de ação, irônico, com muito humor e muito questionamento.




 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

BRASIL no Globo de Ouro

 Fizemos história no Globo de Ouro com os  Prêmios de Melhor Filme de Língua Não Inglesa para O AGENTE SECRETO de KLEBER MENDONÇA FILHO e de Melhor Ator Drama para WAGNER MOURA. Depois da premiação em Cannes, em tantos outros festivais e o reconhecimento da crítica e da imprensa internacionais, agora só falta o Oscar (mais uma vez) e ele virá. Estou certo disso.

Antonio Carlos Egypto





sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

VALOR SENTIMENTAL

Antonio Carlos Egypto

 


VALOR SENTIMENTAL (Affeksjonsverdi/Sentimental Value).  Noruega, 2025.  Direção: Joachim Trier.  Elenco: Stellan Skarsgard, Renate Reinsve, Elle Fanning, Inga Ibsdotter Lilleaas.  133 min.

 

“Valor Sentimental” começa com um personagem importante, a casa onde sempre viveu a família do cineasta Gustav Borg (Stellan Skarsgard).  Uma casa bela e tradicional em sua concepção arquitetônica.  Mas, segundo a imaginação de Nora (Renate Reinsve), a casa sente a falta das pessoas que se vão e a deixam mais leve ou transformam o barulho das brigas em silêncio.  Isso tudo diz respeito às complicações familiares e, sobretudo, à ausência frequente do pai na vida das filhas, Nora e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas).  E ao que Nora sente sobre isso.  É importante que se diga que Nora é atriz, mas seu pai aparentemente nunca a viu atuar e nem tem interesse pelas escolhas que ela faz.  Enquanto isso, Agnes, na condição de atriz, já atuou em filme de Gustav há muitos anos.

 

No entanto, Gustav Borg retorna e tem um roteiro para filmar justamente na casa da família.  Um roteiro ficcional, mas muito baseado nas experiências familiares, que algumas aparentemente devem ter lhe escapado, pelas ausências.  O problema é que seu projeto inclui Nora como atriz principal da história.  O que é assustador para ela e que ela prontamente rejeita.

 

O projeto do filme avança, obtendo financiamento, e Gustav escolhe, então, uma atriz famosa para substituir Nora, Rachel Kemp (Elle Fanning).  Só que toda a filmagem prosseguirá na casa, onde continuam vivendo Nora e Agnes.

 

O desenvolvimento dessa história vai revelar as questões familiares profundas aí envolvidas, num estilo que lembra a grande referência escandinava: o sueco Ingmar Bergman (1918-2007).  Ao mesmo tempo, a questão que se coloca é a relação entre a realidade e a ficção.  Até que ponto é possível tratar ficcionalmente, com realismo, a trajetória familiar penosa e conflitiva?  É possível tentar resolver pela via ficcional as coisas que ficaram para trás, travadas, encalacradas ou como tabus?

 


Uma atriz distante dos fatos como Rachel poderá incorporar o papel pensado e concebido para a filha do diretor?  E Nora, como poderá conviver com as filmagens que representam a sua própria história?  Ou a história, tal como seu pai a vê? 

 

Como se percebe, um filme de muitas camadas de relações que dá margem a muitos questionamentos e situações humanas fundamentais.  Tem densidade e emoções à flor da pele, sem sentimentalismos e sem evoluir para o melodrama.  Novo trabalho do diretor Joachim Trier, nascido na
Dinamarca, atuando na vizinha Noruega.  Mostra a força de suas obras, sendo a que conheço e comentei aqui no cinema com recheio “A Pior Pessoa do Mundo”, de 2021, um filme muito bom.

 

O grande ator sueco Stellan Skarsgard tem brilhante atuação, discreta e verdadeira, no papel central de “Valor Sentimental” e o retorno da atriz norueguesa Renate Reinsve, após o papel central em “A Pior Pessoa do Mundo”, reafirma seu grande talento e se destaca novamente aqui.

 

O filme está indicado a vários prêmios  no Globo de Ouro e no Oscar, sendo um provável forte concorrente a melhor filme internacional com o nosso “O Agente Secreto”.




quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O CINEMA É O TEMA

Antonio Carlos Egypto

 

O cinema é o tema de dois filmes muito bons em cartaz.  Um verdadeiro presente em época de festas de fim de ano para os cinéfilos.  Confira.

 


LUMIÈRE, A AVENTURA CONTINUA!  (Lumière, l’Aventure Continue!).  França, 2024.  Direção e roteiro: Thierry Frémaux.  Documentário.  104 min.

 

Os irmãos Louis e Auguste Lumière deram início à aventura do cinema, em 28 de dezembro de 1895, com a primeira projeção pública, e paga, de filmes realizados com o cinematógrafo, no subsolo do Grand Café, Boulevard des Capucines, em Paris. O cinematógrafo coroava os esforços de um grande número de inventores e pesquisadores que buscaram o sonho de criar a fotografia animada, ou em movimento.  Entre eles, estava Thomas Edison que, com seu cinetoscópio, associado ao fonógrafo, tentou criar o cinema com imagem e som em paralelo, uma espécie de precursor do cinema falado, em 1892.  Só que isso se dirigia a um espectador por vez, que precisava olhar num visor.

 

Antoine Lumière, o pai de Louis e Auguste, proprietário de uma fábrica em Lyon, trabalhava com fotografia e película, conheceu o equipamento e teria dito que era preciso libertar as imagens daquela caixinha e pô-las para que todos as vissem simultaneamente.  Estimulou seus filhos a encontrar a solução técnica para isso.  Estamos diante, portanto, de uma família de criadores, inventores, técnicos.  Com a patente do cinematógrafo, também negociantes.  Embora isso já seja uma coisa fantástica, é muito mais do que isso.

 

Thierry Frémaux, diretor do Instituto Lumière e do Festival de Cannes, com seu novo filme, nos mostra, mais uma vez de forma inequívoca, que os irmãos foram grandes cineastas, responsáveis não só pela criação e difusão do cinema como pelo estabelecimento da linguagem cinematográfica tal como a conhecemos hoje.  E com grande talento. “Lumière, a Aventura Continua” retoma a compilação dos filmetes de 50 segundos de duração dos Lumière e de seus operadores, de 1895 a 1905.  No filme, composto e comentado por ele, desfilam cerca de 120 filmes, selecionados da coleção de milhares realizados.  Parece um milagre, foram encontrados mais de 1400 filmes deles, que estão sendo restaurados e cujo material serve de base ao conceito de que os Lumière sabiam usar e posicionar uma câmera, fazer o enquadramento preciso, trabalhar lindamente com a luz, com o tempo e a agilidade do filme, com as pessoas que estão à frente da câmera e com a impressão que as imagens podem causar.

 

A fotografia é esplêndida, de um preto e branco bem contrastado, perfeito.  A nitidez da fotografia é uma surpresa.  A profundidade de campo já era explorada, é tão nítida na frente quanto no fundo.  Eles também produziram o travelling e a filmagem bem de perto, o zoom.  Tudo isso com uma câmera sem visor, com os recursos técnicos dos primeiros tempos.  Limitadíssimos, portanto.  O texto, em off, de Frémaux, é uma preciosidade.  Ele aponta para tudo o que foi a criação dos Lumière, os registros individuais e coletivos, os eventos, as paisagens humanas urbanas, os detalhes e muitas coisas que a gente não veria, se não fosse alertado para elas. Se ‘Lumière, a Aventura Começa”, de 2016, já foi uma aula obrigatória para quem gosta de cinema, a sequência dessa experiência é um aprofundamento na leitura desses grandes pioneiros da arte cinematográfica. Indispensável.





NOUVELLE VAGUE (Nouvelle Vague).  França, 2025.  Direção: Richard Linklater.  Elenco: Guillaume Marbek, Zoey Deutsch, Aubry Dullin, Adrien Rouyard, Antoine Besson, Jodie Ruth-Forest.  105 min.

 

“Nouvelle Vague”, como o nome já indica, é uma homenagem ao movimento cinematográfico francês que modernizou o cinema nos anos 1960, na vanguarda dos demais movimentos de renovação do cinema, entre eles, o cinema novo brasileiro.  Seus maiores expoentes estão em evidência em São Paulo.  François Truffaut (1932-1984) está sendo reexibido na íntegra numa mostra de 26 filmes no Cinesesc e é um dos personagens do filme de Richard Linklater, naturalmente.  Mas o destaque do filme “Nouvelle Vague” é Jean-Luc Godard (1930-2022) e a sua obra-prima “Acossado” (A But de Souffle), de 1960, que é um dos mais importantes trabalhos da história do cinema.  E que aconteceu depois do êxito extraordinário de “Os Incompreendidos”, de 1959, de Truffaut.

 

No filme do cineasta norte americano Richard  Linklater, destaca-se a figura do diretor Godard (Guillaume Marbek) e do casal de atores centrais de “Acossado”, Jean-Paul Belmondo (Aubry Dullin) e Jean Seberg (Zoey Deutsch) e o clima especial da juventude daquela filmagem, para lá de inovadora e surpreendente.

 

Naturalmente quem conhece e curte o filme e já o viu algumas vezes vai se empolgar de conhecer essa narrativa, os detalhes dela, especialmente.  Para quem não conhece o filme original, sua história ou importância, fica mais difícil aproveitar a experiência e se divertir com “Nouvelle Vague”.  Nesse caso, no entanto, valeria a pena assistir ao filme atual e, em seguida, ver “Acossado”, ou vê-lo antes, se for possível.  Servirá para cobrir uma lacuna importante do cinema mundial.

 

Destaco que a dupla central de ator e atriz do filme é um achado, são talentosos, lembram muito os originais e a química entre ele e ela.  Isso acontece também com os personagens de Godard, Truffaut e outros.  Houve um cuidado especial na procura das figuras que deveriam representar esses grandes nomes do cinema francês e mundial da época.  Praticamente todas as grandes figuras da nouvelle vague e seus contatos aparecem ou são citadas no filme.  Gente como Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Alain Resnais, Roberto Rossellini, Agnès Varda, Jacques Demy, Jean-Pierre Melville.  A lista é enorme.  Vale a pena lembrar deles.  Deixaram um legado extraordinário para a história do cinema.

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E para finalizar, deixo aqui um abraço a todos e todas que estiverem me lendo neste momento e que costumam acompanhar o cinema com recheio.  Meu desejo de Boas Festas e um novo início de ano estimulante e esperançoso para todos nós.  Viva 2026 e Viva o Cinema!