sexta-feira, 24 de setembro de 2021

ARANHA

Antonio Carlos Egypto

 



ARANHA, do diretor chileno Andrés Wood (do ótimo “Machuca”, 2004), está nos cinemas, com uma trama que envolve personagens e um grupo nacionalista de inspiração nazifascista, que atuou na década de 1970 no país, visando a derrubar o governo de Salvador Allende (1908-1973).  Um grupo civil que dispunha de armas e as utilizava para promover confusões, arruaças, interferências em ações de grupos de esquerda ou de apoiadores do presidente Allende.  Submergiram com a ascensão ao poder da ditadura de Augusto Pinochet (1915-2006).

 

Na trama do filme, os personagens Inês, Justo e Gerardo vivem um triângulo amoroso, em meio a toda ebulição política do grupo.  Com muitas disputas, manipulações, rasteiras executadas, mágoas guardadas ou expressas, até onde era possível no contexto. Essas coisas permanecem e podem reaparecer diante de novas situações, quarenta anos depois.  Aí já cada um tem seu próprio rumo e algo a perder.  A retomada desses sentimentos e as posições assumidas nesse período e hoje fazem parte de uma narrativa bem construída, que envolve crimes políticos e vinganças.

 

A grande atriz Mercedes Morán é protagonista e o ator brasileiro Caio Blat está no elenco, que reúne um grupo de atores e atrizes tarimbado e que sustenta bem a história. 

 




Em tempos em que grupos de extrema direita se evidenciam em vários países, com suas pautas radicais, superconservadoras e retrógradas nos costumes, é interessante acompanhar esse pessoal, conhecido como Araña, num símbolo que sugere as patas do animal, mas também traços da suástica nazista.

 

Mostra-se que, apoiando ações internacionais, comandadas desde os organismos governamentais e policiais dos Estados Unidos, estavam não só grupos militares locais, mas uma elite civil que se dispunha a tudo para evitar que o socialismo democrático conquistado nas urnas, e com grande apoio popular, pudesse vingar no Chile.  Em nome do anticomunismo, se organizava para respaldar um golpe, que de fato aconteceu, incluindo o metralhamento do Palácio de la Moneda, com o presidente dentro dele, cometendo suicídio e ponto fim à experiência de um governo popular.  Abriu-se, assim, espaço para uma ditadura militar altamente repressora e sangrenta no Chile, à imagem e semelhança de outras ditaduras latino-americanas que se estabeleceram naquele período. E isso não é só história, o perigo continua por aí. 105 minutos.

 

 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

A ÚLTIMA FLORESTA

Antonio Carlos Egypto

 

 



Filme de encerramento do festival É Tudo Verdade 2021, A ÚLTIMA FLORESTA, dirigido por Luiz Bolognesi, tem roteiro do diretor e de David Kopenawa Yanomami, 74 min.

 

O documentário trata da tribo Yanomami, isolada, na região amazônica em que se encontram Brasil e Venezuela.  Mas, como diz o filme, os Yanomami já estavam lá quinhentos anos antes de existirem os dois países.

 

O xamã David Kopenawa Yanomami, uma importante liderança indígena, tem lutado pelo seu povo, para preservar seu território, suas tradições, os relatos de sua origem e a relação com os espíritos da floresta.  Para isso, precisa se dedicar a combater os garimpeiros que invadem as terras, trazendo morte e doenças. 

 

Uma invasão devastadora ocorreu nos anos 1980.  Com a demarcação das terras nos anos 1990, a situação melhorou, mas nunca foi absolutamente tranquila.  Só que nos dois últimos anos o governo federal tem facilitado e até estimulado a ação dos garimpeiros.  Pelo menos, não tem fiscalizado ou punido as ações.  Está mais difícil para eles agora.

 

David deu as coordenadas desse trabalho documental sobre sua tribo, buscando revelar o mundo Yanomami ao observador de fora, no caso, nós, os espectadores no cinema.  Mesmo que em casa, como acabou sendo o caso.

 

A gente se delicia com as histórias de criação da tribo, que nos soam ingênuas, claro, mas bonitas, poéticas, cheias de fantasia.  O relacionamento das pessoas da tribo, com seus rituais, com as plantas, os rios e cachoeiras, os animais.  Essa simbiose com a natureza, que acolhe, celebra, dá saúde, força e cura, tem alegria.  O perigo é o homem branco, que vem para invadir, sugar da terra o lucro, desagregar.  E, especialmente, contaminar as águas com mercúrio, além de romper o equilíbrio da vida daquele povo.

 

Já é uma longa história de luta pela preservação da comunidade, que parece nunca ter fim, com seus altos e baixos.  É preciso estar sempre alerta e cada vez com mais intensidade.  Infelizmente, para o povo Yanomami.

 

O filme nos faz conhecê-los melhor e nos alerta, mais uma vez, para o que está acontecendo na Amazônia, essa devastação florestal intolerável, que compromete o planeta e sufoca as populações indígenas.



quarta-feira, 8 de setembro de 2021

DE VOLTA PARA CASA

Antonio Carlos Egypto

 




DE VOLTA PARA CASA (Coming Home Again).  Coreia do Sul, 2019.  Direção: Wayne Wang.  Com Justin Chon, Jackie Chung, Christina July Kim, Leesa Kim, John Lie.  86 min.

 

“Do que um filho se lembra melhor, quando tudo o que resta são memórias”.  Este é o título de um ensaio do escritor Chang Rae, também roteirista do filme “De Volta Para Casa”, em parceria com o diretor Wayne Wang.  Como o ensaio se apresenta como autobiográfico, o escritor é também o personagem principal da obra.

 

A narrativa singela e fluida, mas muito consistente, trata de relações humanas que ficaram para trás e de questões que ficaram suspensas por muitos anos.  No retorno, o que resta são memórias, sensações, cheiros e gostos que unem um filho a sua mãe, e também a um pai e a uma irmã, embora com muito menos importância.

 

Sair da Coreia para se desenvolver na América do Norte, obter êxito, deixando tudo para trás, foi uma decisão própria ou uma forma de obedecer às expectativas paternas?  Por trás disso, o possível fantasma de uma adoção? 

 

Chega um momento em que é inevitável encarar a volta, quando a mãe vive um câncer terminal, com muitas dores.  Ela não o chamou de volta e até se surpreende de ser tão central na vida do filho, mas o Ano Novo é a hora certa de estar lá.  Principalmente, porque será uma oportunidade de oferecer à mãe o mesmo jantar tradicional coreano que ela costumava ofertar a todos e que o ensinou a fazer.

 



A gastronomia tradicional aqui tem importantes significados.  É a forma maior de manifestação do afeto, é uma fonte de prazer e um ritual de união familiar.  Que, no entanto, exige a perfeição e não comporta rejeição orgânica, ainda que haja uma doença ou uma ansiedade no meio disso.  Pelo menos para Chang Rae (Justin Chon), torna-se um fracasso intolerável.  Lembranças do passado reforçam isso muito bem.  A ironia é que o câncer da mãe é de estômago.

 

Com o tempo que passa, as memórias se tornam opacas, imprecisas.  Como retornar ao que era, ou retomar o que era?  A intensidade dos afetos se manifesta, mas agora nada parece muito claro.  Se o passado assusta, o tempo para reverter os papéis e cuidar da mãe, que tanto dele cuidou, escoa rápido.  O futuro não parece ser suficiente para um acerto de contas nas relações e no mundo interno do nosso protagonista, de volta às suas raízes. Ao lado de tudo isso, é necessário lidar com a própria questão da identidade, do que se construiu fora, longe, em confronto com as origens.

 

Essa bela temática é muito bem trabalhada pelo diretor Wayne Wang, alternando sutilezas comportamentais com arroubos descontrolados, a enfatizar a ambiguidade das atitudes.  No pano de fundo, os julgamentos, os ressentimentos, os medos e a busca de aprovação.  Um elenco excelente, que tem em Justin Chon e Jackie Chung, a mãe, os grandes destaques, sustenta essa narrativa intimista e pessoal, com muito brilho.



segunda-feira, 6 de setembro de 2021

CIDADÂOS DO MUNDO

Antonio Carlos Egypto

 

 



CIDADÃOS DO MUNDO (Lontano Lontano).  Itália, 2020.  Direção: Gianni Di Gregorio.  Com Gianni Di Gregorio, Giorgio Colangeli,  Ennio Fantastichini, Daphne Scoccia.  91 min.

 

Em tempos de prevalência do mundo rural sobre o mundo urbano, no Brasil, dizia-se que a galinha do vizinho era mais gorda ou punha mais ovos.  É uma maneira de fantasiar sobre aquilo que não se conhece direito, invejar o que não se tem, criar expectativa sobre aquilo que poderíamos ser, ou ter. A comédia italiana “Cidadãos do Mundo”, de Gianni di Gregorio, brinca com questões como essa, de um modo leve, mas também explicativo, quase didático. 

 

Os personagens centrais são três homens idosos, dispostos a mudar de vida, insatisfeitos com o que têm, de uma maneira ou de outra.  Gianni Di Gregorio, diretor, corroteirista e também ator do filme, faz o professor que ensinava latim antes de se aposentar.  E que garante que seus alunos ainda se recordam do que aprenderam com ele.  Os vencimentos de aposentado, porém, não satisfazem.

 

Giorgetto (Giorgio Colangeli) reclama ainda mais da aposentadoria, obtida mais por idade do que por tempo de serviço, já que, ao que parece, ele nunca trabalhou de fato.  Ele, junto com o irmão, herdaram uma banca de frutas, mas não quer saber de trabalhar lá.

 

A partir dessa insatisfação, Giorgetto e o professore se encontram com outro companheiro disposto a mudar de vida: Attilio (Ennio Fantastichini), que não tem aposentadoria, vive de comercializar móveis e objetos antigos. 

 

O trio decide, então, que está na hora de sair da Itália, em busca de um lugar ideal, aprazível, sem grandes problemas climáticos, nem guerras ou terrorismo, onde, com o dinheiro que têm, possam viver melhor, aproveitar melhor a vida.  Que lugar seria esse?  Eles resolvem pedir ajuda a outro amigo/conhecido, que lhes dá informações.  Começando pelo preço da cerveja, em euros.  Escolher o lugar já é um grande problema, porém, os cidadãos do mundo, na verdade, são provincianos, para quem os próprios arredores europeus são desconhecidos e a quem falta tudo para tomar as providências necessárias para tais câmbios de vida.

 




É aí que a narrativa explora o quanto é preciso planejar e considerar tudo o que envolve essa viagem e mudança de país, ainda que não precisem ir para muito longe de Roma.  Desfazer-se de casa e dos objetos, vendê-los para angariar dinheiro, tentar transferir a aposentadoria para outro lugar, livrar-se do passado, dos familiares, do cachorro.  Dá tanto trabalho e vai-se revelando cada vez mais incerto, e duvidoso quanto aos ganhos, que o trio balança.  Cada um a seu modo tem medo do que engendraram.

 

Como toda ação que visa à mudança, novas descobertas surgem, no mundo real e no mundo interno, que interferem nos planos originais.  Fica bem interessante acompanhar o processo vivido por esses três senhores, maduros, porém ingênuos e despreparados para o que se propuseram a fazer.  O espectador vive com cada um deles um pequeno drama, situações que beiram o constrangimento, e a gente sorri, mas lamenta por eles.

 

O que não quer dizer que não encontrarão um modo de resolver a questão que passe pelo humanismo e pela empatia, características que foram marcantes no cinema italiano e que ainda encontramos na filmografia recente do país, como é o caso aqui.

 

Gianni Di Gregorio, diretor do ótimo “Almoço em Agosto”, de 2009, e corroteirista de “Gomorra”, de 2008, bom ator também, compõe com seus companheiros de cena um trio cativante de personagens que têm vida e anseios legítimos enquanto pessoas idosas, que podem ser um tanto trapalhões, mas são boa gente.




domingo, 5 de setembro de 2021

SUK SUK

Antonio Carlos Egypto

 



 

SUK SUK, UM AMOR EM SEGREDO (Twilight’s kiss).  Hong Kong, 2019.  Direção e roteiro: Ray Yeung.  Com Tal Bo Pak, Ben Yuen Hoi, Patra Au Ching, Sluyea Lo Wan.  92 min.

 

“Suk Suk”, o filme chinês (de Hong Kong), aborda a questão homossexual de um ângulo ainda pouco explorado: o da velhice.  Focaliza dois personagens da Terceira Idade, que construíram suas vidas dentro da chamada heteronormatividade.  Ambos se casaram, um permanece vivendo com sua esposa, filhos e netos, é taxista.  O outro se divorciou e se aposentou, mas também convive com filho, nora e neta.  Um encontro casual entre ambos motiva o desejo, mas evolui para um envolvimento amoroso, complicado de ser administrado.

 

A aposentadoria e a velhice podem abrir novas portas e possibilidades, no entanto, no caso deles, um romance parece ser um pouco demais.  Seria possível desafiar valores para encontrar-se plenamente, poder ser quem se é e encontrar a felicidade?

 

O trailler de “Suk Suk” nos lembra de que, em Hong Kong, o casamento homossexual não é reconhecido, nem há qualquer lei que os proteja contra a discriminação.  A homofobia não é criminalizada.  Suponho que a figura da união estável também não exista na legislação de lá.

 

Diante da negação da homossexualidade no contexto social, o envelhecimento é um problema que se manifesta das mais variadas maneiras entre os gays na idade mais madura.  O futuro fica incerto e sujeito a humilhações.

 

O filme caminha por esse universo de questões, colocando um dos protagonistas em contato com um grupo de apoio que reúne homossexuais idosos para compartilhar seus problemas e dificuldades.  Mesmo em busca de reconhecimento e atendimento por parte da lei ou do governo, muitos não querem se expor.  E a solução que está em questão é a da reivindicação de uma casa de repouso exclusiva para homens gays, onde eles poderiam se expressar livremente.

 



A questão religiosa, seja budista, seja cristã, também entra nesse contexto.  A finitude da vida, o que virá depois, como encontrar alguém depois da morte e a maneira como as religiões lidam com a sexualidade gay, mobilizam sentimentos entre os dois apaixonados e na comunidade idosa, também.

 

Ao mostrar o relacionamento dos protagonistas que se envolvem emocionalmente e ao nos pôr em contato com as demandas dos idosos gays, Ray Yeung tece uma trama de sentimentos, tentados, experimentados, reprimidos, sutilmente modulados, que é bonita de se ver.  Tem cuidado, tem delicadeza, tem medos, tem escolhas calculadas.  E, ao mesmo tempo, revela a insensibilidade social para um drama muito verdadeiro.  Envelhecer em família, com afeto, é uma coisa.  Sozinho, isolado, esquecido, é outra.  Ou, ainda, discriminado com seu parceiro.  Às vezes, com dificuldades financeiras reais, embora perceba-se que o nível, mesmo dos pobres, é muito melhor do que o que se vê por aqui.  A miséria não chega a ser material, está na crueldade do preconceito.

 

Um elenco de atores e atrizes muito bons passa esse drama sutil, e talvez pouco conhecido, ao espectador com muita competência.  Num estilo low profile, as revelações vão se dando pouco a pouco, em detalhes, expressões, palavras e gestos.  A discreção dos figurinos e música suave embalam o romance.  O roteiro deu origem a uma narrativa bem montada e dirigida com sutileza oriental.




quinta-feira, 2 de setembro de 2021

O MATEMÁTICO

Antonio Carlos Egypto

 

 



O MATEMÁTICO (Adventures of a Mathematician).  Alemanha/Polônia, 2020.  Direção e roteiro: Thorsten Klein.  Com Philippe Tlokinski, Esther Garrel, Fabian Kocieck, Sam Keely, Joel Basman.  102 min.

 

 

“O Matemático” é uma biografia cinematográfica de Stanislaw (ou, simplesmente, Stan) Ulam (1909-1984), um gênio da matemática, ligado à construção da bomba H e à concepção do primeiro computador.  Foi colaborador do físico Edward Teller (1908-2003) e com ele chegou ao desenho Teller-Ulam, que possibilitou a criação da bomba atômica de hidrogênio.  Ao lado do físico Johnny von Newmann (1903-1957), trabalhou no projeto Manhattan, durante a Segunda Guerra Mundial, sob coordenação de Robert Oppenheimer (1904-1967).  O projeto tratava de conquistar a bomba antes de que Hitler o fizesse e foi em busca desses cálculos que eles possibilitaram o advento do mundo digital dos computadores.

 

Uma figura histórica muito interessante de ser abordada pelo cinema, certamente.  O diretor e roteirista alemão Thorsten Klein adaptou o livro autobiográfico de Stan Ulam, judeu polonês que foi para os Estados Unidos ainda nos anos 1930 e estava em Cambridge, em 1942, quando recebeu o convite de Johnny von Newmann para participar do projeto Manhattan, ultrassecreto, que se desenvolvia em Los Álamos, no Novo México.

 

Com a irmã vivendo a guerra na Polônia, invadida pelos nazistas, e o irmão menor ficando para trás, Stan se dedicou àquilo que seria decisivo para a vitória norte-americana sobre os japoneses, os estudos para a criação das bombas que explodiram em Hiroshima e Nagasaki.  E foi um dos responsáveis pelo poder de destruição da própria humanidade que esses artefatos são capazes de produzir.  Isso aconteceu mesmo após a vitória soviética sobre os nazistas e também prosseguiu após a vitória completa no conflito mundial.  Ou seja, o matemático, depois de um interregno decorrente de uma inflamação cerebral, que exigiu abrir um buraco na sua cabeça,  recuperou-se e acabou voltando àquelas pesquisas.

 



A sua vida foi cheia de questões dramáticas, como essa. Teve um casamento conturbado e a maior de todas: o sentimento de culpa que, de um modo ou de outro, atingiu fortemente todos os cientistas que participaram dessas descobertas.  Dizia-se, também, que Stan Ulam era extrovertido, piadista, aficionado pelo estudo estatístico dos jogos, inclusive o do baralho.  Uma personalidade multifacetada e exuberante.

 

Infelizmente, não é o que se vê no filme “O Matemático”.  O desempenho do ator principal, Philippe Tlokinski, não dá conta desse manancial emocional.  A direção é muito burocrática, não consegue nos passar as emoções que certamente o contexto exige.  Aquilo que poderia ser uma história empolgante fica de uma platitude pouco atraente.  O filme vai contando a sua história linearmente, fazendo alguns cortes que deixam de acentuar aspectos relevantes e nunca alcança o envolvimento emocional indispensável.

 

Perde-se, assim, a oportunidade de explorar melhor uma boa história e um biografado muito importante, tanto no campo das ciências exatas quanto no da História.  Quando faltam as emoções, tudo fica meio opaco, ainda que seja muito bem intencionado, como é o caso de “O Matemático”.

 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

BAGDÁ VIVE EM MIM

Antonio Carlos Egypto

 




BAGDÁ VIVE EM MIM (Baghdad in my shadow).  Suíça, 2019.  Direção: Samir Jamal Al-Din.  Com Haytham Abdulrazaq, Zahraa Ghandour, Wassem Abbas, Shering Alenabi.  109 min.

 

A nossa origem faz parte de nossa identidade e será sempre elemento fundamental da vida de cada indivíduo.  O exílio costuma ser uma experiência sofrida, dolorosa.  Em muitos casos, porém, a escolha pelo exílio torna-se inevitável.  É o caso dos países em guerra, da fome, das perseguições, da violência, dos preconceitos.

 

“Bagdá Vive em Mim” fala disso, a respeito de personagens nascidos no Iraque e vivendo exilados em Londres.  O diretor e também corroteirista do filme se inspira em sua própria experiência de iraquiano vivendo na Suíça.  E constrói uma boa trama, que amarra diferentes tipos de exilados, que se encontram e ou trabalham num café londrino chamado Abu Nawas, em homenagem a um poeta árabe importante.

 

O elo desses personagens é a figura de Taufiq (Haytham Abdulrazaq), poeta maduro que sobrevive em Londres como vigilante noturno e que se envolverá com uma morte, uma tentativa de homicídio, e um confronto com o islamismo radical de um ex-colaborador de Saddam Hussein, que acaba de se tornar adido cultural do Iraque na cidade.  Entre outras questões políticas e comportamentais.  Embora faça parte de um ambiente muçulmano, ele não é religioso e, ideologicamente, é comunista.  Isso é um tanto complicado.

 



O contexto do exílio londrino, no entanto, dá margem a muito mais liberdade de ação e escolha, o que alguns iraquianos aprenderam a explorar muito bem.  O casal que comanda o café é liberal, tolerante e divertido, do tipo “viva e deixe viver”.  Já são pessoas sexagenárias, vividas e experientes.

 

Para os mais jovens, isso é bem mais difícil. Amal (Zahraa Ghandour), que saiu do Iraque para escapar de um marido violento, ainda teme se envolver com um rapaz inglês que a deseja e que não entende o que se passa na sua cabeça, já que ela é uma mulher livre e demonstra gostar dele.

Para Muhanad (Wassem Abbas), que saiu do Iraque para evitar as perseguições por ser gay, o clima desanuviou muito, mas ainda é difícil para ele demonstrar afeto a outro homem em público, mesmo sem restrições legais ou sociais.  Como diz o título do filme, Bagdá continua lá, na cabeça de todos, com seus valores, limites, restrições, com o que sua cultura traz de belo, mas também de opressor.

 

A barra pesa quando o jovem Naseer (Shering Alenabi) surpreende sua mãe, seu tio e a todos do café, por sua adesão ao islamismo radical, que interpreta a religião muçulmana como violência e guerra aos infiéis.  E por aí é que a aparente tranquilidade do exílio num país liberal se transforma num inferno particular para os iraquianos do local.  A polícia britânica é quem vai tratar de deslindar o caso.

 

“Bagdá Vive em Mim” prende a atenção, tem bom ritmo, boa estrutura narrativa e ensina muito sobre o jeito de viver, sentir e pensar, dos iraquianos.  Mostra que o processo de aculturação pode ser complicado e demorado.  Enquanto muitos alcançarão êxito em sua empreitada, outros patinarão sem conseguir a estabilidade necessária.  Além disso, o mundo é cada vez mais global e o que parecia bem distante pode estar ali ao lado.

 



Outro aspecto importante é a reflexão sobre as dificuldades para poder usufruir da liberdade.  Conquistá-la pode se tornar um processo complexo, mesmo que as condições externas e objetivas colaborem.  John Lennon disse, certa vez, algo assim: Quando você viaja, não adianta tentar escapar, porque você tem de levar a si mesmo junto.  Ou seja, tudo está na mente, não no lugar.  Determinantes culturais são muito fortes, não é fácil ressignificá-los, construir uma nova identidade, por mais acolhedor que seja o ambiente.

 

Um filme que, praticamente, começa com uma cena de  tortura e tem, quase ao final, uma cena de incêndio criminoso provocado por bombas, parece um filme atormentado.  Mas não.  O diretor de origem iraquiana, Samir, fez um filme suíço, ambientado em Londres, que soa libertador e universal.

 

 

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

A 200 METROS_MOSTRA ÁRABE

Antonio Carlos Egypto

 

 A 16ª. Mostra Árabe de Cinema 2021 acontece de forma on line e gratuita no site do Sesc Digital.  Está apresentando produções recentes e inéditas marcadas pela diversidade dos países árabes. Ocorre de 20 de agosto a 16 de setembro.  A cada sexta-feira estreia um novo filme, que permanece disponível durante sete dias.  Para assisti-los, é só se inscrever no site e, a partir daí, acessar sescsp.org.br/cinemaemcasa.  Nesta semana, já está em cartaz, até quinta-feira, “A 200 Metros”, filme palestino, cujo comentário segue abaixo.

 

 



A 200 METROS (200 meters).  Palestina, 2020.  Direção: Ameen Nayfeh.  Com Ali Suliman, Anna Unterberger, Motaz Malhees, Mahmond Abu Aita, Lana Zreik.  97 min.

 

A trama de “A 200 Metros” envolve relações familiares, questões de saúde, dificuldades nos deslocamentos, aspectos pessoais que perpassam por desconfianças e preconceitos.  O eixo disso tudo, no entanto, é um só: as barreiras – controles, muros – que separam e que limitam os palestinos em seu próprio território, controlados por Israel.

 

Mustafá (o famoso ator palestino Ali Suliman) é um palestino casado com uma mulher israelense e com três filhos.  Nessa circunstância, ele teria o direito de adotar identidade israelense, o que lhe permitiria liberdade de movimentos.  Mas ele não quer abrir mão de sua origem palestina.  É, inclusive, criticado por isso.  Com essa decisão, ele fica dependente de um cartão de circulação, que deve ser constantemente renovado, e da autorização de entrada em Israel para trabalhar, por exemplo.

 

A mulher e as crianças podem circular mais facilmente, mas o trabalho dela implica viver em Israel.  Enquanto isso, ele permanece na Cisjordânia, com a mãe.  A família se comunica à distância, por luzes, na maior parte dos dias, quando ela e as crianças não vêm.  São só 200 metros de distância.  Entre eles, uma fronteira e um muro eletrificado.

 



Apesar de passar por controles diversos, digitais, detecção de metais, etc., ele pode ir a Israel desde que esteja com o cartão de passe em dia.  Mas o que pode acontecer diante de um imprevisto, se ocorrer um esquecimento?  Ou seja, se o cartão não tiver sido atualizado, como deve acontecer periodicamente?  Bem, será necessário, então, realizar uma aventura “ilegal” de 200 kms para chegar do lado de lá.

 

Com essa premissa, o filme acompanha a viagem de Mustafá em busca de sua família, especialmente de seu filho que precisa dele num momento crítico.  Além da mulher e das outras duas crianças, suas filhas, que o esperam ansiosamente.  A ansiedade dele também é grande, porque se trata de um pai presente e amoroso.

 

“A 200 Metros” se torna, assim, um drama familiar, com conotações políticas intensas, e é também um road-movie e uma aventura.  Elementos suficientes para interessar e envolver o espectador.  Além disso, entramos num contexto cultural bem diferente do nosso e aprendemos, convivendo com diversos personagens que circulam na região, reunidos num transporte “alternativo”, sujeito a todo tipo de dificuldades.  Por ali aparecem até mesmo uma cineasta e turista alemã e seu namorado de origem palestina, realizando filmagens.

 

A narrativa deixa algumas coisas no ar, não amarra tudo o que poderia e deveria, sendo linear, como é o caso.  Ainda assim, o conjunto é bem convincente, a produção é boa, a direção, segura, e o elenco, competente.  Vale a pena conhecer o filme, escolhido pela Jordânia para concorrer ao Oscar 2021 de filme internacional, e acompanhar a Mostra, que sempre traz produtos atraentes e variados sobre o mundo árabe, o que acrescenta bastante em termos de informação e de reflexão.  E em termos de diversão, também.

 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

VALENTINA

Antonio Carlos Egypto

 



VALENTINA, Brasil. 2020.  Direção de Cássio Pereira dos Santos.  Com Thiessa Woinbackk, Guta Stresser, Rômulo Braga, Letícia Franco, Ronaldo Bonafrio.  95 min. 

 

O filme brasileiro “Valentina”, de Cássio Pereira dos Santos, em seu primeiro longa-metragem, vem recebendo prêmios importantes em festivais.  Na 44ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo venceu o prêmio do público de melhor ficção nacional, além de receber menção honrosa pelo júri internacional para o desempenho da atriz principal, Thiessa Woinbackk.  Ela recebeu prêmio pela interpretação também no festival Outfest, de Los Angeles.  O filme foi, ainda, fartamente premiado no  Festival Mix Brasil 2020, pela interpretação da atriz, pelo melhor roteiro, melhor longa, pelo júri popular, e o prêmio Coelho de Ouro de melhor longa.  Grande reconhecimento para um trabalho que procurou mostrar o drama da identidade na vida de uma pessoa transexual.

 

A narrativa, bastante realista, enfatiza o quanto a identidade legal importa para que transexuais, como Valentina, possam ser quem são e serem reconhecidos pelos outros.  E quanto esse processo pode ser muito custoso, sofrido, extremamente dolorido.  Alguém que se sente mulher, se apresenta como mulher, é mulher, não pode mostrar um documento de identidade do sexo masculino, com nome masculino.  É possível corrigir isso, mas quando se tem, como ela, 17 anos, exige toda uma burocracia e a ativa participação dos pais.  Sem isso resolvido, como frequentar a escola?  Com que nome, registro oficial, diploma, etc.?  Diploma é modo de dizer, já que, conforme o filme nos informa ao final, 82% das transexuais abandonam a escola.  A documentação é o primeiro e relevante problema, o preconceito, a agressão inclusive física, o desrespeito e a humilhação completam o quadro desse absenteísmo. 

 

Sem educação formal, o próximo passo pode ser a pobreza e a exclusão na vida em sociedade.  É preciso impedir que o processo prossiga.  Uma família acolhedora poderia ajudar muito.  No caso de “Valentina”, a mãe cumpre muito bem esse papel.  Só que o casal está separado, o pai sumiu e até mudou de celular sem comunicar-lhes.  Poderá ser encontrado?  Pelo menos, para assinar os papéis? 

 




A escola, atualmente, no Brasil, é obrigada legalmente a aceitar o nome social em lugar do de nascimento, nesse caso.  A reação de uma comunidade pequena e religiosa, quanto a isso, já é outra história. A propósito, o enredo leva Valentina e sua mãe a sair da cidade grande e ir para uma localidade pequena, exatamente para tentar fugir das consequências decorrentes da condição da transexualidade que já se tornavam insuportáveis.  Aquela conhecida tentativa de recomeçar tudo do zero.

 

Onde há desinformação e preconceito também pode haver solidariedade.  Até porque, por trás das aparências, a vida segue com sua diversidade, tanto nos grandes como nos pequenos centros populacionais.  Há de tudo em todos os lugares, desde sempre. 

 

As locações de “Valentina” foram a pequena Estrela do Sul e Uberlândia, nas Minas Gerais.  O diretor e roteirista do filme, Cássio Pereira dos Santos, é da região.  Nasceu em Patos de Minas e estudou cinema em Brasília.  Começa muito bem, com conhecimento de causa.

 

É fácil entender por que o filme “Valentina” vem conquistando o público.  A personagem traz uma novidade.  Situações e problemas que o espectador por vezes desconhece totalmente.  Ou avalia de modo muito diverso.  Às vezes, até jocoso, sem conseguir uma empatia, um envolvimento com a situação da transexual.  Na medida em que os fatos vão se desenrolando, a identificação vai ocorrendo, ajudada pelo excelente desempenho da atriz tão merecidamente premiada e de nome difícil, Thiessa Woinbackk.  Que, além de atriz, é youtuber de sucesso.  Assim me informaram, pelo menos.  A atuação como atriz é ótima e tem muito peso no desenvolvimento da narrativa.  Mas todo o elenco é muito bom também.

 

A outra possível explicação para o interesse do público liga-se à atualidade do tema.  A quebra de um tabu que aparece, com certa surpresa, nas candidatas trans que lograram se eleger vereadoras, pelo Brasil afora.  Já houve até prefeita trans, se bem me lembro, mas era uma completa exceção.  Agora, o número parece ser representativo, indicando uma mudança importante.  Outros debates, livros, peças, filmes, estão aparecendo sobre o tema.  Como “Maria Luiza”, comentado aqui no cinema com recheio, documentário sobre a primeira trans nas Forças Armadas brasileiras.  A transexualidade vai conquistando o seu espaço e colocando as questões pertinentes à sua condição de vida para a reflexão da sociedade.  Muito justo e oportuno.

 

                                                                                                                   

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

PIEDADE

Antonio Carlos Egypto

 

 


PIEDADE.  Brasil, 2019.  Direção: Cláudio de Assis.  Com Fernanda Montenegro, Irandhir Santos, Matheus Nachtergaele, Mariana Ruggiero, Cauã Reymond, Gabriel Leone.  99 min.

 

Quem vive numa comunidade ao lado do mar pode usufruir dele, nadar, mergulhar, pescar e comer peixe fresco.  E ainda tocar um bar para turistas que vão se deliciar com essas iguarias.  Não é mesmo?

 

Não é, não.  Em “Piedade”, isto tudo já foi verdade, mas antes da chegada da Petrogreen, empresa que explora o petróleo no mar e produziu alterações no meio ambiente que tornaram um simples banho de mar num perigo mortal, pela presença de tubarões em grande escala.  Já se fala que Piedade é uma praia, uma cidade, um tipo de tubarão característico.  Os peixes que eram pescados na hora sumiram e hoje o bar tem de comprar os peixes fora dali.  E nem é preciso comprar muito, não, porque os turistas também desapareceram.

 



Como se faz para resistir a tudo isso?  Na família de D. Carminha, interpretada por Fernanda Montenegro, o bar segue aberto e não está à venda, apesar da insistência de Aurélio (Mateus Nachtergaele), que aproveita a deterioração provocada pela Companhia que ele representa, a Petrogreen, para adquirir barato um belo terreno a ser explorado.  Omar (Irandhir Santos), um dos filhos de D. Carminha, luta como pode para permanecer por lá.  Já sua irmã Fátima (Mariana Ruggiero) tem outras preocupações e já não vive lá, mas seu filho, Ramsés, sim, e tem um grande desejo de mergulhar no mar.  Isso, Aurélio resolve virtualmente, um simulador de mergulhos no fundo do mar, com imagens belíssimas, acopla-se aos olhos e pronto.  O simulacro está dado. Todos esses elementos já dariam uma bela trama, mas há muito mais coisas pelo meio.  Histórias negadas, mal contadas, um personagem que figura como herdeiro de uma eventual transação imobiliária: Sandro (Cauã Reymond). O que estava represado tem de vir à tona.

 

Cláudio de Assis, diretor pernambucano dos já conceituados “Amarelo Manga” (2002), “Baixio das Bestas” (2006), “Febre do Rato” (2011) e “Big Jato” (2016), explora esse universo de forma alegórica, investindo nas figuras humanas sem escamotear a sordidez, a ilusão, a mentira, a manipulação, o medo e o desespero que estão aí presentes.  A estética não deixa de mostrar a beleza dessa natureza, mas destaca não só os gafanhotos de ferro, como uma ambientação suja e tensa, além do mau gosto.  Quem daria a seu filho um nome como Omar Shariff ou Marlon Brando, porque curte cinema?  E que cinema aparece na narrativa?  Um pornô, com cabines e tal, chamado Mercy (piedade, em inglês), devidamente fiscalizado por uma tela, até para que se possa devolver um celular roubado em meio à transa, flagrado por ela.  O que sobrou do cinema, afinal?  E da segurança?  Não se pode confiar em mais ninguém.  Fique alerta, é o recado.

 

Sempre alerta porque, de muitos modos, o mundo está prestes a ruir para as pessoas, para o ambiente de que elas dependem, para os mares, rios, espécies animais.  A sensação que o filme passa é que, a qualquer momento, tudo pode desabar.  E o que restará? Impossível desconsiderar também que “Piedade” passa a ideia de que realmente o ser humano não deu muito certo.  Cada um lida com a alteridade a partir de seu narcisismo, procurando cobrir suas fragilidades e lacunas do jeito que dá, como pode.

 



Até quem parece dispor de muito poder e forçar os outros a fazer o que não querem, não passa de um ser infantilizado, controlado pela mãe por chamadas de vídeo a qualquer hora.  Como o tal Aurélio. A matriarca Carminha segura uma família que não se sustenta em suas bases.  Sem negar a realidade, é impossível.  O charme da cidade, da moda, da beleza, de Fátima, é oco, destoa de tudo o que os outros membros da família vivem e de seu próprio filho.  O cinema pode servir meramente à sobrevivência, mas não à arte, pela ótica de Sandro.  O bar, “Paraíso do Mar”, vira uma ironia sem tamanho.  Como resistir e defender um paraíso que não existe mais?

 

“Os tubarões ou a gente os come ou eles nos comem”.  É o que diz um dos frequentadores do bar que pede lá um dogfish.  É isso.  Mas essa escolha metafórica realmente existe? 

 

Como se vê, “Piedade” é um filme que provoca, faz pensar e não dá muita trégua, não.  Tem uma direção forte e firme e um elenco notável. Só pela presença de Fernanda Montenegro num papel relevante, a esta altura da vida, já vira referência.  E como ela brilha, como ela acentua as palavras e os sentimentos.  Uma beleza!  Tem o ator superlativo, que é Matheus Nachtergaele, o talento admirável de Irandhir Santos, além de Mariana Ruggiero, Cauã Reymond e outros.  Um time muito bom, que empresta muito vigor ao filme, como cúmplices do diretor. 

 

Imagens da cidade, com  seus edifícios engolindo o mar e deslocando as pessoas da terra para a janela do apartamento, completam a poesia de “Piedade”.




segunda-feira, 2 de agosto de 2021

ABE

Antonio Carlos Egypto

 

ABE.  Brasil, 2019.  Direção: Fernando Grostein Andrade.  Com Noah Schnapp, Seu Jorge, Dagmara Dominczyk, Arian Moayed, Gero Camilo.  86 min.

 

 “Abe”, filme brasileiro dirigido por Fernando Grostein Andrade, apresentado como comédia dramática, na realidade não é tão engraçado, nem tão dramático.  É um filme dirigido a adolescentes, a partir de seu protagonista: um garoto de 12 anos de idade, de classe alta, que vive no Brooklin, Estados Unidos.  Ele é um aficionado pela comida, gosta de cozinhar, testar sabores, ou seja, estamos falando de gastronomia.  Só que ele tem um talento especial para a coisa e é em torno disso que a narrativa segue.

 

Curiosamente, Abe (Noah Schnapp) não tem amigos, exceto virtualmente. Suas andanças são em busca de aperfeiçoar seu talento culinário e sua vida gira em torno da família.  Uma cena mostra seu aniversário com familiares dos dois lados, pai, mãe e avós, e só.

 

Pelo lado da mãe, ele é judeu e se chama Avraham (em hebraico) ou Abraham (em inglês).  Pelo lado do pai, é muçulmano e chamado de Ibrahim (em árabe), sendo que o pai, na verdade, não é religioso, é ateu.  Por tudo isso, ele escolheu ser chamado de Abe.  Pelo menos, é o que ele gosta.

 



Os problemas decorrentes dessas identidades diversas aparecem como conflitantes, a partir da própria comida.  Ele não sabe se pratica o jejum do Ramadan, come porco ou faz bar mitzvah.  As refeições, quando reúnem os dois lados da família, sempre acabam mal. Vai daí que Abe resolve se dedicar à fusão gastronômica, com a ajuda de um chef brasileiro, vivido por Seu Jorge, a partir da ideia de que misturar sabores pode unir as pessoas.  Será que funcionará?

 

Ideias como essa perpassam a trama, com frases do tipo autoajuda: “seja você mesmo”, “a família a gente não escolhe” e outras do gênero.  É raso, mas pode funcionar para os mais jovens.  O uso e abuso das mensagens de Internet, a colocação de palavras na tela, em ritmo acelerado, dialogam justamente com esse público.

Há um evidente bom gosto na trilha sonora que acompanha as peripécias de Abe e seus relacionamentos com adultos.  A música parece se dirigir mais aos adultos do que aos que têm doze anos.  Conta com o talento de Jacques Morelembaum, música até de Tom Jobim, e termina já nos créditos finais muito bem, com a milonga “Moro Judio”, de Jorge Drextler.

 

Que adolescentes se identificarão com um personagem como esse, num filme brasileiro, falado em inglês, eu não sei.  Parece muito distante de representar a realidade dos jovens brasileiros, mesmo dos que são ricos e vivem, ou viveram, no exterior. Embora o filme não deixe de mostrar que mesmo futuros chefs de cozinha bem aquinhoados de posses e talento culinário tenham que ralar, trabalhar muito e fazer coisas chatas, difíceis ou sem glamour.  Menos mal.