Antonio Carlos Egypto
O documentário brasileiro vem mostrando sua força na 31ª. edição do É
TUDO VERDADE 2026, que vai até 19 de abril, em novos trabalhos e revisitando
êxitos que já se tornaram clássicos. Vou
comentar mais alguns docs nacionais que vi no Festival.
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| com Baby do Brasil |
Começando por APOCALIPSE SEGUNDO BABY, de Rafael Saar. Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo) é uma
cantora muito boa, expressiva, talentosa.
E que tem uma audácia que é reveladora de uma autoconfiança e de uma
autoestima que ela atribui a Deus, ao seu misticismo, à sua dimensão
cósmico-telúrica. Tudo bem. Crenças cada um tem as suas. Só que a figura forte, exibida, exagerada, às
vezes ofusca o talento musical. O
presente documentário procura dar conta desses dois aspectos. E se sai bem.
Não deixa de enfatizar o que foi o brilho dos Novos Baianos, que ela
integrou, da dupla com Pepeu, nem o de sua carreira solo, posterior. Importante: mostra o seu relacionamento
musical com a nata da música brasileira, de Ademilde Fonseca a João Gilberto,
passando por Elza Soares, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal, Bethânia e muitos
mais. Além do espírito de Janis
Joplin. São muitas e ótimas
influências. Quanto aos excessos, deixa
pra lá. Mas vai aqui um exemplo. Pedi a ela uma pose para uma foto que
ilustraria essa matéria. Foi essa. 110 min.
Carlos Adriano dirigiu um longa radical e experimental, que eu achei
magnífico, sobre, vejam só, Marcel Proust (1871-1922) e a possibilidade ou
impossibilidade de filmar sua obra monumental “Em Busca do Tempo Perdido”,
escrita entre 1906 e 1922. E faz uma
colagem bem trabalhada de imagens de arquivo, inclusive do próprio Proust e da
alta burguesia francesa a que ele pertencia.
Faz superposições, avanços e recuos, montagem com filmes famosos, letras
em preto e branco e coloridas na tela, um caleidoscópio rodante, etc.. E muitas
frases, citações e pequenos textos, não só de Proust, mas de outros autores
que, com as ideias dele, se acoplam.
Aliás, trabalhou bastante a associação de ideias, conceitos, imagens e
até manuscritos da época. Vai
encontrando soluções para que Proust possa ser filmado, lido e compreendido,
com humor também. Tem uma sequência
longa com Carmem Miranda e o seu bananal hollywoodiano. Tem “Um Corpo que Cai”, Orson Welles,
Deleuze, Machado de Assis, Roberto Machado, Drummond... Enfim, uma mistura e associação
fenomenais. Claro que é um filme para
poucos, mas PROUST PALIMPSETO: PASTICHES E MISTURAS é um belo
trabalho. 103 min.
Do mesmo diretor, também foi exibido o curta SEM TÍTULO#11: UM
ANACLETO À MULA, em que uma mula é o centro da ação, assim como o filme de
Robert Bresson, de 1966, que tinha como protagonista um burro. Também aqui Carlos Adriano acopla frases,
textos literários e combinações de imagens de forma bem criativa. 27 min.
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| Carlos Adriano ao microfone |
RETIRO, A CASA DOS
ARTISTAS, de
Roberto Berliner e Pedro Bronz, visita a instituição centenária do Rio de
Janeiro que acolhe trabalhadores da cultura brasileira na velhice. E nos mostra como são, como vivem, o que
pensam diversas figuras que lá estão, usufruindo de uma vida digna, ainda que
com poucos recursos materiais. O toque
do artista faz toda a diferença, transforma a simplicidade em poesia e
beleza. E os sonhos em cenários teatrais
deslumbrantes, como lembrou Stepan Nercessian, dirigente da casa. 95 min.
Gostaria de mencionar também o curta ARCOS DOURADOS DE OLINDA, de
Douglas Henrique, que com humor e ironia nos relata a disputa entre duas
mulheres pela prefeitura da cidade, em 2000, vencida pela comunista, do PCdoB,
Luciana Santos, depois reeleita, enquanto o McDonald’s se instalava na cidade,
provocando inicialmente filas, como aconteceu no resto do mundo. Porém, Olinda foi, segundo o filme, a única
cidade do mundo onde o McDonald’s faliu.
Por isso mesmo, Olinda, a capital do centro do Brasil, Pernambuco, se
revelou uma cidade extraordinária no mundo.
Mas o Douglas garante que não é bairrista. 24 min.
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| Missão 115 |
Para terminar, eu gostaria de citar e recomendar um dos grandes
documentários já feitos no Brasil, MISSÃO 115, de Sílvio-Da-Rin, de
2018, que se debruça sobre o período em que, por meio de bombas enviadas pelo
correio e com o atentado ao show de 1º. de maio de 1981, no Rio Centro,
revelou-se por inteiro o terrorismo de Estado praticado durante a ditadura
militar. Afinal, a bomba explodiu no
colo do militar que faria o atentado, planejado para produzir um caos, com
portas fechadas a cadeado, para ser imputado à esquerda. Essa era a tal missão. Quem não viu, não perca. Fundamental para entender a história
brasileira recente e mesmo atual. 87
min.














