Antonio Carlos Egypto
TRÊS VEZES ADEUS (Tre Ciotole). Itália/Espanha, 2025. Direção: Isabel Coixet. Elenco: Alba Rohrwacher, Elio Germano,
Francesco Carril, Silvia D’Amico, Lorenzo Terenzi. 120 min.
Não há nada que seja mais humano do que o amor e a perda. E é essa temática, explorada de forma
intimista e existencial, que move os personagens da história. Inspirada em livro semibiográfico de Michela
Murgia, morta em 2023, a diretora Isabel Coixet penetra na profundidade da
situação, mexendo intensamente com as emoções do público, que se identifica
facilmente com o sofrimento e as reviravoltas de vida que sofre a personagem
principal: Marta, vivida magnificamente por Alba Rohrwacher.
Começamos vendo um conflito relativamente banal que ela protagoniza com
seu marido de sete anos de convívio: Antônio, em interpretação admirável de
Elio Germano. Do que parecia pouco,
resulta uma perda, uma separação, que pesará na vida de ambos. Marta se recolhe, perde o apetite, enquanto
Antônio se refugia no trabalho, como chef
de cozinha. Esse aparente paradoxo é
revelador de que a vida nos surpreende e nos leva a caminhos insuspeitos. O futuro previsto pode se desfazer a qualquer
momento, exigindo de todos uma incrível capacidade de adaptação e de
reestruturação da existência. O presente
é o que vale, o que nos move e nos desafia.
Outras surpresas, outras perdas e frustrações acontecerão com a vida, com
a saúde, com o amor. Há coisas que são
inevitáveis e definitivas, cuja solução nos escapa ou porque não há mesmo
retorno. Formas inesperadas de
reconstruir a vida se impõem e novas possibilidades se abrem, mas com limites
não ultrapassáveis.
Enquanto tudo acontece e a finitude se projeta, há muita vida para
usufruir. Marta, com sua bicicleta, que
é como se fosse parte de seu corpo, percorre sua Roma que encanta, não só por
seus já conhecidos ícones turísticos, pouco explorados no filme, mas por seus
cantinhos, ruelas, pracinhas, casas antigas, parques e flores. “Três Vezes Adeus” faz uma grande homenagem a
Roma, ao longo de todo o filme.
Há também um interessante percorrido pelo mundo do trabalho dela, no
esporte, na educação de crianças e jovens, na dedicação que há em tudo isso. Especialmente na amizade com o colega
Agostino, também em ótima performance de Francesco Carril. Afeto, amizade, amor?
Sensacional é o modo como o filme aborda a imaginação e a fantasia como
antídoto da solidão no envolvimento da nossa Marta com a bela e improvável
figura de um jovem astro coreano do k-pop,
que está disponível em sua casa, em papelão.
Tudo que está dentro de nós, de alguma forma, existe. E a manjada citação de Fernando Pessoa
torna-se obrigatória: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Isabel Coixet, a diretora espanhola, natural de Barcelona, realiza um
belo filme italiano. Demonstra
familiaridade para trabalhar em diferentes lugares e idiomas. Já dirigiu filmes falados em espanhol,
catalão, inglês, francês, japonês e agora italiano. Já filmou em Portugal, na Argentina, no
Canadá, na Irlanda, nos Estados Unidos, no Japão, na França, além deste, em
Roma, na Itália. É uma cineasta sem
fronteiras. E que versatilidade!
Citando matéria do Correio Braziliense, a diretora destacou que filmar em
outras línguas a obriga “a ouvir de outra maneira”. Na Itália, exemplificou como “cozinhar na
casa de outra família com as panelas deles”, enquanto o Japão a ensinou “o
valor do silêncio” e o mercado anglo-saxão, a disciplina do roteiro. Da cultura das mulheres, aprendeu que “o
doméstico pode ser épico”.
Do cinema brasileiro, ela destaca “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de
Glauber Rocha, pela estética da precariedade como posição política. E o que acontece atualmente no Brasil, como
extraordinário, com “O Agente Secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho, e
“Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles.
Diz que cresceu ouvindo Elis Regina e que “Águas de Março”, de Tom
Jobim, e as letras de Vinicius de Moraes têm mais sabedoria do que a maioria
dos tratados de filosofia. Incrível essa
mulher, não?














