domingo, 17 de fevereiro de 2019

MINHA FAMA DE MAU

Antonio Carlos Egypto





MINHA FAMA DE MAU.  Brasil, 2017.  Direção: Lui Farias.  Com Chay Suede, Gabriel Leone, Malu Rodrigues, Bruno Luca, Bianca Comparato.  116 min.


Erasmo Carlos, roqueiro e romântico, cantor e compositor, foi um dos pilares da Jovem Guarda, um megasucesso televisivo dos anos 1960, que se tornou um movimento de música jovem brasileira, sempre relembrado desde então.  Roberto Carlos, o amigo e parceiro de Erasmo, manteve-se em alta sempre, mudando estilo, prioridades e público.  Wanderléa, o terceiro pilar da Jovem Guarda, e Erasmo Carlos não conseguiram o mesmo resultado, mas são lembrados por seu pioneirismo que conseguiu incorporar o  rock, então nascente, à música brasileira, compondo, vertendo e cantando em português (antes deles houve Celly Campello).  Eles comandaram um time de artistas jovens, que se tornaram ídolos da brotolândia, como se dizia na época.

Erasmo manteve uma carreira mais discreta como cantor, ao longo do tempo, mas dividindo com Roberto a grande maioria das composições que este lançava ao sucesso.  Como acontece até hoje.

“Minha Fama de Mau”, o filme de Lui Farias, é uma adaptação do livro escrito por Erasmo Carlos, contando parte de sua vida e carreira, da juventude pobre na Tijuca, vivendo em casa de cômodos, o popular cortiço, ao sucesso retumbante da Jovem Guarda e o posterior declínio.  Passa pelo tempo do conjunto The Snakes  e pelo conhecimento de Tião, depois Tim Maia, que lhe ensinou três acordes no violão, que lhe valeram muito, e também pelo período de afastamento de Roberto Carlos e a retomada da amizade e da parceria.

Lá estão as muitas mulheres que passaram pela vida dele, inclusive a esposa Narinha.  O filme optou por escolher uma única atriz para representar todas elas, Bianca Comparato.  Uma opção interessante que, na prática, nivela as parceiras amorosas e sexuais por baixo.  Todas valem pouco, pelo menos, até o aparecimento de Narinha.  É o que deve ter sido captado pelos roteiristas Lui Farias, L. G. Bayão e Letícia Mey, do texto original, suponho.

O filme é contado na primeira pessoa, é a visão de Erasmo Carlos sobre sua vida e carreira.  O personagem chega a falar diretamente para a câmera, ou seja, contar para o público o que se passava ou o que era sentido por ele.




O ator protagonista é Chay Suede, que não se parece fisicamente com Erasmo, mas convence pela entrega ao papel e porque canta bem as canções que marcaram o Tremendão.  Gabriel Leone, que faz Roberto, e Malu Rodrigues, que faz Wanderléa, também cantam bem e compõem um bom elenco, assim como Bruno Luca, que faz Carlos Imperial, o empresário pilantra e pretensioso que, de qualquer modo, abriu muitas portas para Erasmo.

O filme tem uma boa caracterização de época, incluindo signos muito claros da Jovem Guarda, como ambientes, vestuário, cartazes, instrumentos.  Tem também achados interessantes, como a interação entre a interpretação de hoje e as imagens da plateia da época.  Os elementos políticos da ditadura militar estão ausentes, mas estavam também ausentes na visão dos brotos e desses ídolos, no período.

Algum tempo atrás, vi uma entrevista com Erasmo Carlos, em que ele dizia que estava na hora de se mostrar novamente.  E contava que sua neta, na escola, informava as amiguinhas que Erasmo era amigo e parceiro de Roberto Carlos e muito famoso, mas elas relutavam em acreditar.  As gerações passam e a história pode se perder.  Daí a importância de filmes como “Minha Fama de Mau”.


A MORTE NÃO DÁ TRÉGUA EM 2019

Começou por tragédias evitáveis, vinculadas ao lucro desmedido, que vitimaram centenas de vidas em Brumadinho, jovens talentos futebolísticos no Flamengo e o brilhante jornalista Ricardo Boechat.  Sem falar da mortandade diária que acomete o Rio, Fortaleza e todo o país.

De modo mais natural e tranquilo, a morte nos levou a magnífica Bibi Ferreira, dama dos palcos, aos 96 anos.  No cinema, perde-se um músico espetacular, como Michel Legrand, autor de algumas das mais belas trilhas cinematográficas, e o grande ator suíço, Bruno Ganz, que participou de um grande número de produções europeias de qualidade, ao longo de uma carreira notável.  Perdas irreparáveis.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

NO PORTAL DA ETERNIDADE

Antonio Carlos Egypto





NO PORTAL DA ETERNIDADE (At Eternity Gate).  Reino Unido/França, 2018.  Direção: Julian Schnabel.  Com Willem Dafoe, Mads Mikkelsen, Emmanuelle Seigner, Rupert Friend, Oscar Isaac, Mathieu Amalric.  111 min.


A obra pictórica de Vincent Van Gogh (1853-1890) é impressionante, revolucionou a pintura, se tornou uma quase unanimidade ao longo do tempo.  Foi praticamente ignorada, porém, enquanto ele estava vivo.  Recebeu algum reconhecimento crítico, mas nenhum êxito econômico.  Consta que, apesar dos esforços do dedicado irmão Theo, nem um único quadro foi vendido até sua morte.

Isso já é suficiente para despertar o interesse pelo personagem, mas sua vida solitária, desencontrada, com lances de loucura, como o corte da orelha, dificuldades no convívio, rejeição da comunidade, sombras sobre a sua morte, tornam tudo mais misterioso e sedutor.




Não por acaso, o cinema dedicou vários filmes importantes a Van Gogh, começando por um curta de Alain Resnais, de 1948, passando por “Sede de Viver”, de Vincent Minnelli, de 1956, com Kirk Douglas vivendo o pintor.  Mais dois filmes praticamente simultâneos, “Vincent & Theo”, de Robert Altman, protagonizado por Tim Roth, em 1990, e o ótimo “Van Gogh”, de Maurice Pialat, com Jacques Dutronc, no papel principal, em 1991.  Em 2017, uma animação adulta com as obras e o final da vida do pintor, fez sucesso nos cinemas: “Com Amor, Van Gogh”, de Dorota Kobiela e Hugh Weichman. 

Agora, é o diretor estadunidense, e também pintor, Julian Schnabel quem volta ao personagem, em outro belo filme sobre o período final da vida de Van Gogh, “No Portal da Eternidade”.  O mistério dessa vida aqui vai ser explorado não só na beleza de suas obras, mas na natureza, tão essencial à sua pintura, mostrada com exuberância e sofisticação visual.




Buscará também uma reflexão sobre a relação da obra com o criador, o significado da arte, a determinação quase impositiva do talento criativo.  Algo que tem de se expressar de forma borbulhante, explosiva, que não tem como ser contido.  Que seria isso, afinal?  Dom, destino, missão, loucura?

Willem Dafoe faz o personagem com grande força interpretativa e alcançando uma similaridade com a figura conhecida do pintor, que impressiona.  Tanto que concorre, uma vez mais, ao Oscar de ator.  Tem chance de levar.

O elenco é todo cheio de talentos conhecidos.  São intérpretes experientes, que dão suporte consistente à narrativa de Schnabel, que já dirigiu “O Escafandro e a Borboleta”, um êxito de 2007, e outro filme sobre um pintor, “Basquiat – Traços de uma Vida”, de 1996. 







quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

VICE + OSCAR 2019

Antonio Carlos Egypto


VICE (Vice).  Estados Unidos, 2018.  Direção e roteiro: Adam McKay.  Com Christian Bale, Emy Adams, Steve Carrel, Sam Rockwell.  132 min.

Após os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, o país entrou em estado de guerra.  Mas guerra contra quem?  Pesquisas indicavam que grande parte da população só entendia a  guerra contra algum país.  Era preciso nomear o inimigo.  Simples.  O vice Dick Cheney teria decidido eleger o Iraque de Saddam Hussein para invadir, criando a mentira das armas de destruição químicas que lá existiriam.  Uma escolha fácil de ser aprovada pelo presidente George W. Bush, ainda mais com a cobiça por tanto petróleo.  Ninguém se importando com a democracia, muito menos com o respeito aos princípios de não-intervenção, nem com as vidas humanas aí envolvidas.


VICE

Essa é uma das muitas sequências de “Vice”, escrito e dirigido por Adam McKay.  Por meio dela, pode-se sentir por onde andará o filme que pretendeu fazer uma cinebiografia de um político abominável, poderoso e controverso, como Dick Cheney.  O tom é satírico, irônico, às vezes dramático, às vezes cômico.  Mas, na verdade, trágico, porque o que estava envolvido na política norte-americana e mundial daquele período não era outra coisa.  E não melhorou nada, diga-se de passagem.

Sabemos nós muito bem da importância que pode ter um vice-presidente na história da República.  É só lembrar de João Goulart, José Sarney, Itamar Franco, Michel Temer.  E Dick Cheney jamais se queixaria de ser um vice decorativo.  Ele negociou sua entrada na chapa de Bush, desde o primeiro momento, garantindo amplos poderes.  E, segundo o filme, dominou o governo e o presidente, deixando um legado lamentável.  Lembra os seus dias de fracasso e alcoolismo, antes de encontrar seu caminho na política.  O que foi feito de forma fortuita e pragmática, nem de leve sustentado por eventuais bandeiras ideológicas do Partido Republicano.  Não lhe faltaram mestres nessa cultura do cinismo e do interesse próprio.  Mas, muitas vezes, os alunos superam seus mestres.

Christian Bale está muito bem, quase irreconhecível, como Dick Cheney, em diferentes épocas da vida do personagem.  Já levou o Globo de Ouro como melhor ator (comédia ou musical) e está cotado para o Oscar 2019.  O filme tem, no total, 8 indicações.  Não é o meu favorito.  “Roma”, de Alfonso Cuarón, e “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, têm muito mais méritos, mas quem disse que o Oscar se mede pelo mérito?

A FAVORITA
A FAVORITA, (The Favourite), direção do cineasta grego Yorgos Lanthimos, com Emma Stone, Olivia Colman, Raquel Weisz, Nicholas Hoult, é uma produção de época com filmagem sofisticada, hiperbólica, mas visualmente muito bonita e que adentra o terreno do reino inglês em guerra com a França, mostrando não só ambientes, comportamentos, roupas, mas sobretudo o perverso jogo amoroso e de poder.  Uma rainha, sua dama favorita e uma serva que decaiu da condição que já teve de dama, travam uma disputa de luxúria e destruição, que escancara as entranhas da monarquia britânica do início do século XVIII.  Passa longe das edulcoradas narrativas que glamourizam uma vida que, segundo o filme, tem sordidez de sobra.  Boa trilha musical e um trabalho de som que, por sua precisão e intensidade, ao longo da projeção, chamam muito a atenção.  A produção envolve Reino Unido, Irlanda e Estados Unidos. Agradou a Academia de Hollywood, está concorrendo a 10 Oscar.  120 min.


Glenn Close em A ESPOSA

A ESPOSA
A ESPOSA (The Wife), dirigido pelo sueco Björn Runge, também coloca a mulher em primeiro plano, mostrando como, quando ela fica por trás do homem famoso, no caso, um escritor que vai receber o Prêmio Nobel de Literatura, tudo pode não passar de uma farsa.  Desempenho absolutamente notável de Glenn Close, que tem tudo para levar o Oscar de atriz.  O filme é bom, mas não chega a empolgar. 101 min.

GREEN BOOK – O GUIA
GREEN BOOK – O GUIA (Green Book), dirigido por Peter Farrely, trata da questão racial no sul dos Estados Unidos, em 1962.  Naquele tempo, o preconceito e as restrições contra os negros eram escancarados e as leis vigentes corroboravam isso.  Um absurdo, que merece ser lembrado.  No mais, o vínculo que se cria entre um motorista branco pobre e um pianista negro, rico e sofisticado, vai na linha de filmes como “Os Intocáveis”, “Conduzindo Miss Daisy”, de relações improváveis, que acabam por vingar.  O que vale é o contexto, embora os dois protagonistas sejam muito bons: Viggo Mortensen e Mahershala Ali.  Tem 5 indicações ao Oscar 2019.  130 min.


GREEN BOOK

PODERIA ME PERDOAR?
PODERIA ME PERDOAR? (Can You Ever Forgive Me?), da diretora estadunidense Marielle Heller, tem no elenco  Melissa McCarthy, Richard Grant e Dolly Wells.  Relata, de uma forma clássica, uma história composta de fatos reais que são surpreendentes.  Uma ótima escritora de biografias, que já foi famosa, enfrenta as consequências das novas expectativas de mercado que, na prática, a excluem.  Escrever bem ela sabe, e em diferentes estilos, porém, para sobreviver, ela usa esse talento de forma criminosa, ganha um bom dinheiro e acaba se saindo bem, computando-se tudo o que aconteceu com ela.  Vale porque é uma boa história, com um elenco muito bom.  Concorre a 3 Oscar (atriz, ator e roteiro).  107 min.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

GUAXUMA

Antonio Carlos Egypto






Os curtas-metragens podem trazer novas ideias e experimentações técnicas, além de revelar novos talentos de cineastas.  A produção brasileira é importante e significativa no formato.  O acesso a eles é que é um pouco complicado.

É possível ver curtas em festivais, que dedicam espaços específicos para eles.  Há o Festival de Curtas, o Anima Mundi e outros.  Além disso, é possível vê-los em programações de alguns canais de TV pagos.  Ou encontrá-los disponíveis pela Internet.  É pouco.  Exige uma garimpagem, uma busca deliberada. Por isso é importante a iniciativa da distribuidora Arteplex Filmes e da programação dos cinemas Itaú de abrir espaço permanente aos curtas em sessões de cinema, a preços acessíveis (R$14,00 a inteira e R$7,00, a meia).

O programa que inaugura essa tendência não podia ser melhor.  É o curta-metragem GUAXUMA, agraciado com o prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) para o melhor curta brasileiro de 2018.  A sessão chamada de “GUAXUMA e Outras Histórias” mostra o trabalho da diretora alagoana Nara Normande.  Inclui o curta de ficção “Sem Coração”, de 2014, e o curta de animação, “Dia Estrelado”, de 2011.

GUAXUMA é um trabalho criativo, que envolve uma combinação de recursos e técnicas a serviço de uma narrativa em primeira pessoa, supostamente autobiográfica, da diretora.  Ela trata de memória, real ou imaginária, que remonta à sua infância, vivida na praia de Guaxuma, Alagoas, e de sua melhor amiga, Tayra, da mesma idade, com dez dias de diferença no nascimento.  Nara e Tayra formam uma dupla inseparável, que afinal se separa, mas mantém uma relação duradoura de amizade.  Com a separação, a praia idílica é substituída pela cidade, mas o mar vai dentro de Nara.  E ela sempre volta, até no inverno, quando uma praga nos cajus se espalha ao vento, produzindo uma espécie de neve.  A narração dá conta dos sentimentos, lembranças, perdas e mudanças.




A combinação de filmagens, do mar e da praia, com suas ondas e árvores, se associa aos bonecos, desenhos, origamis, fotos antigas e areia em relevo construindo esculturas, mais a aceleração de imagens gravadas, compõem um painel fascinante.  Associado a um uso muito criativo do som, produz uma pequena joia fílmica, de apenas 17 minutos, que justifica a ida ao cinema.

GUAXUMA estreou em Annecy, na França, foi premiado nos festivais Anima Mundi, de Gramado, de Brasília, e no de curtas em São Paulo, com o prêmio do público.  Foi escolhido como o melhor filme narrativo, no Festival de Animação de Ottawa, no Canadá, melhor curta-documentário em Hamptons, USA, em Amsterdã, Holanda, e em Toronto, Canadá.  Tão inovador, que classificá-lo em um único gênero fica difícil.

Quem for ver “GUAXUMA e Outras Histórias” poderá conferir o talento da diretora também em ficção com atores, ao tratar de meninos em iniciação sexual, fazendo de uma menina, a “sem coração” do título, um objeto e público, para seus desejos egoístas.  Mas o significado de dar e receber pode ir além do mero impulso.  “Sem Coração”, codirigido por Tião, tem 25 minutos de duração.  Também recebeu muitos prêmios.

“Dia Estrelado”, com 17 minutos, complementa o programa, mostrando a diretora já com domínio das técnicas de animação.  Com certeza, Nara Normande tem muito mais a oferecer ao cinema brasileiro, daqui para a frente.  Vale acompanhar.




terça-feira, 29 de janeiro de 2019

FEVEREIROS

Antonio Carlos Egypto





FEVEREIROS.  Brasil, 2017.  Direção: Márcio Debellian.  Documentário.  Com Maria Bethânia.  75 min.


Maria Bethânia, uma das maiores intérpretes da música brasileira, com 50 anos de uma brilhante carreira, já recebeu inúmeras homenagens, foi cantada em prosa e em verso, por meio de todas as mídias possíveis.  Um desafio para o documentarista Márcio Debellian.  O que ainda faltaria dizer ou abordar sobre ela?

Quem mostrou o caminho foi a escola de samba Estação Primeira de Mangueira.  Em 2016, a Verde e Rosa homenageou Bethânia com o enredo “Menina dos Olhos de Oya”, dando destaque ao lado religioso da vida dela.

O sincretismo religioso de Maria Bethânia combina o candomblé, a devoção católica, sobretudo, à Nossa Senhora e sabedorias herdadas dos índios.  Esse amálgama traz a fé temperada pela diversidade e pela tolerância.  E o convívio muito próximo e intenso com o mano Caetano acrescenta os elementos de ceticismo e ateísmo à mistura.  Caetano Veloso, aberto a tudo, como ela, compartilhando experiências, mesmo sem crer verdadeiramente.  Belos exemplos de respeito à ampla diversidade de cultos, crenças e não crenças.  Que celebra a vida e a história, com festa.

O filme “Fevereiros” explora bem esse caminho, ao mostrar e tratar do desfile campeão da Mangueira, que levou em conta a história do samba, a tolerância religiosa e o racismo, ao homenagear a carreira da cantora, que explodiu em 1964, no show Opinião, com a célebre interpretação de “Carcará”, de João do Vale.  A ave, em grandes dimensões, foi um dos destaques do desfile.

Márcio Debellian buscou explorar o universo familiar, festivo e religioso de Bethânia, acompanhando-a a Santo Amaro da Purificação, cidade natal dela, no Recôncavo Baiano, a região brasileira que recebeu mais negros escravizados da África.  E a cidade que cultua Santo Amaro, Nossa Senhora da Purificação e outros santos em todos os fevereiros, com grandes rituais e festas populares.  Maria Bethânia nunca deixa de estar lá, a partir de 31 de janeiro, em todos os fevereiros, luminares,  marcantes de sua vida.




“Fevereiros” traz a boa conversa de Bethânia, de Caetano Veloso, de outros familiares dela, participações de Chico Buarque e da turma da Mangueira. Tudo muito bom de se ver e ouvir.  Pena que haja pouca música cantada por ela, mas isso se perdoa.  Afinal, o que mais se conhece dela são suas canções gravadas, os poemas que ela recita lindamente, suas aparições mágicas nos palcos.  O recorte de “Fevereiros” é outro, não exatamente original, mas bastante oportuno.  Em tempos de fundamentalismos religiosos idiotas e opressores, é bom celebrar a vida, a festa, a tolerância e, sobretudo, a diversidade.

“Fevereiros”,  lançado no festival do Rio 2017,  já exibido em 29 festivais de cinema pelo mundo, foi escolhido como o melhor filme do 10º. In-Edit Brasil e recebeu menção honrosa do Júri Latino-americano do Festival Internacional do Uruguai.




segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

TEMPORADA

  Antonio Carlos Egypto





TEMPORADA.  Brasil, 2018.  Direção e roteiro: André Novais Oliveira.  Com Grace Passô, Russo Apr, Rejane Faria, Hélio Ricardo, Ju Abreu, Sinara Teles.  113 min.


“Temporada”, de André Novais de Oliveira, o filme que levou mais prêmios no último Festival de Brasília, mostra-nos realisticamente o trabalho dos agentes de saúde que partem, de casa em casa, para atuar no combate à dengue e a outras endemias.

O foco está em Juliana, que se muda de Itaúna, no interior de Minas Gerais, para assumir um posto de agente de saúde em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte.  O seu processo de adaptação ao trabalho, aos seus novos colegas e à ausência do marido, que ficou de vir depois, exige dela muito empenho para lidar com essas dificuldades.  E algumas situações pouco comuns podem mudar aspectos importantes da sua vida.

O grande trunfo de “Temporada” é a atriz que faz Juliana: Grace Passô.  Com grande domínio de cena, muita expressividade e forte desempenho, ela leva o filme com muito êxito.  Até quando o que está sendo exibido não empolga tanto assim.




O tema, importante na área da saúde, é bem trabalhado, do ponto de vista descritivo. Talvez fosse importante aprofundar mais o assunto, com questionamentos que levassem a uma reflexão mais intensa, já que aí está um dos nós da questão da saúde no Brasil.

O objetivo do diretor, no entanto, priorizou a personagem em processo de adaptação e mudança, alçando-a ao primeiro plano.  O ótimo desempenho de Grace Passô, premiada como melhor atriz nos Festivais de Brasília e de Turim, na Itália, justifica isso.  Os demais prêmios conquistados no Festival de Brasília incluem melhor filme, ator coadjuvante, direção de arte e fotografia.





quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

WAJIB

Antonio Carlos Egypto




WAJIB – UM CONVITE DE CASAMENTO (Wajib).  Palestina, 2017.  Direção: Annemarie Jacir.  Com Mohammad Bakri, Saleh Bakri, Maria Zreik.  96 min.


Estamos na Palestina, mas o hábito de entregar convites de casamento só pessoalmente, envolvendo uma rápida visita a cada convidado, é algo que também foi, e é, bastante praticado entre nós.  Especialmente nas cidades menores.  Enfim, o filme “Wajib” fala desse dever social (que é o que a palavra wajib significa) que tem de ser praticado pelos homens da família, geralmente pai e filho.  É o caso do filme.

Diante do casamento de Amal (Maria Zreik), seu pai Abu (Mohammad Bakri), que sempre viveu em Nazaré e tem concepções tradicionais do mundo, e seu irmão Shadi (Saleh Bakri), arquiteto, que mora na Itália, assumem essa tarefa.




Enquanto Abu desenvolveu uma espécie de resignação diante de condições de vida que impõem humilhações aos palestinos, por parte do Estado israelense, Shadi, que teve de sair de lá por razões “políticas”, adaptou-se à vida da Itália, mais livre e moderna.  Isso é representado em “Wajib” a partir da sua aparência, usando uma calça vermelha, camisa rosa estampada sob um paletó escuro e cabelo amarrado atrás, numa espécie de rabo de cavalo.  Dito assim, pode parecer ridículo, mas não é.  Ele está bem vestido.  Só que de uma forma que incomoda conservadores.

Há, no entanto, muitas coisas comuns entre pai e filho, sobretudo sentimentos pouco ou nada explicitados.  De qualquer modo, essa tarefa, que perpassa todo o filme, não teria como ser harmoniosa, sem conflitos. A diretora Annemarie Jacir enfatiza as sutilezas, tanto das convergências, quanto das diferenças entre eles.  E o ambiente conflitivo que os envolve.

Mais do que centrar-se nas individualidades dos dois personagens principais, o que se apreende é um clima social opressor, que os divide.  A busca de reações independentes e libertárias por parte de Shadi, no entanto, só é possível pelo afastamento do seu contexto cultural de origem.  A Itália aparece como um lugar onde se respira liberdade e cultiva-se a beleza, em contraste com o belo ambiente nazareno, porque milenar, mas descuidado e sujeito à destruição, permanentemente.




A mulher tem ainda papel secundário, mas envolvendo elementos decisivos para entender como se vive sob amarras moralistas.  A mãe, que saiu de lá e construiu uma nova relação no exterior, ameaça não vir ao casamento da filha e isso é fonte de sofrimento para Amal e vergonha, para a família.  Shadi vive com uma moça em Roma,  mas isso é escondido, já que ele não é casado.  O que se fala é, portanto, uma aparência, uma falsidade.  Assim como a ideia, professada por Abu, de que lá é que se vive bem e pode-se ser feliz.  Será?  É a pergunta que está sempre presente, em cada cena, em cada expressão, em cada visita para entregar convites de casamento.  Sobre o próprio casamento de Amal, o que ele realmente significa? 

“Wajib” tem consistência, profundidade e personagens bem construídos e representados por Mohammad Bakri e Saleh Bakri,  pai e filho também na vida real, que sustentam o filme todo o tempo.  Muito bem dirigidos por uma cineasta talentosa, sem dúvida.




quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

PRÊMIO ABRACCINE - MELHORES FILMES DE 2018

Antonio Carlos Egypto




A ABRACCINE, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, congrega uma centena de críticos em 16 estados brasileiros.  Também faço parte dela.  Como em todos os anos anteriores, votamos nos melhores filmes lançados e exibidos ao longo do ano, em dois turnos.  Inicialmente, cada um indicando os seus três favoritos em cada categoria, depois, escolhendo entre os três mais votados por todos, os melhores longa e curta brasileiros e o melhor longa estrangeiro.

Como sempre, são considerados elegíveis os filmes lançados no circuito cinematográfico durante o ano todo, exceto festivais e mostras especiais.  A novidade neste ano foi a inclusão dos filmes lançados em streaming, como foi o caso do longa estrangeiro vencedor.

O prêmio ABRACCINE relativo aos melhores de 2018 vai para:
Longa estrangeiro – ROMA, de Alfonso Cuarón.
Longa brasileiro – ARÁBIA, de Affonso Uchoa e João Dumans.
Curta brasileiro – GUAXUMA, de Nara Normande.

Leia, a seguir, as minhas críticas dos dois longas premiados.

ROMA (Roma).  México, 2018.  Direção: Alfonso Cuarón.  Com Yalitza Aparício, Marina de Tavira, Marco Graf, Daniela Demesa, Enoc Leaño, Nancy García.  135 min.





ROMA, filme mexicano de Alfonso Cuarón, com uma bela fotografia em preto e branco, é focado nas mulheres.  Coloca-nos dentro do espaço doméstico de uma família de classe média-alta do México, anos 1970.  A empregada doméstica Cleo (Yalitza Aparicio) e sua colega Adela (Nancy García), de ascendência indígena, trabalham, sem conflitos aparentes, para Sofia (Marina de Tavira), a dona da casa, com quatro filhos, cujo marido está sempre ausente.

Cleo cuida dos filhos de Sofia como se fossem seus.  E o filme mostra uma rotina em que fica claro o trabalho extenuante, semiescravo, das serviçais, mas também um convívio pacífico e mesmo acolhedor da patroa.  Sem tempo de ter vida própria, Cleo parece realizar-se por meio da vida da família que a emprega.

O incômodo inicial fica por conta de um carro grande, o velho Galaxy, que vive arranhado, porque não cabe direito na garagem da casa.  Algo ali não se sustenta.  Os dramas que se desenvolverão a partir daí na vida das duas mulheres protagonistas, Cleo e Sofia, provocarão um turbilhão de eventos, que se entrelaçam com as lutas políticas do período, entre milícias e manifestantes estudantis, que acabarão por exercer papel decisivo no desenrolar da trama.  Mas os homens que se relacionam com as protagonistas são os grandes responsáveis pela dor e sofrimento que elas têm de viver.  A condição de mulher aproxima ambas.  Aquilo que as diferenças de classe separam a condição feminina agrega.

Sequências muito bem construídas, ao longo de todo o filme, encantam, da lavagem do pátio da casa ao impressionante encontro nas ondas do mar, sempre com a figura marcante da empregada Cleo. Tanto quando nada parece estar acontecendo, como quando tudo se desencadeia com grande intensidade.

A atriz indígena Yalitza Aparício obtém um desempenho notável para uma iniciante.  É um dos grandes trunfos do filme.  Será a primeira indígena indicada a melhor atriz no Oscar.  E já na sua primeira atuação no cinema.

ROMA, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, com dez indicações no Oscar 2019, é um trabalho autoral de Cuarón, que atuou como diretor, roteirista, montador e diretor de fotografia.  Pela sua qualidade merece ser visto na tela do cinema, mas é uma produção da Netflix, que está sendo vista nas telas da TV.  Está sendo exibida em poucas sessões gratuitas nos cinemas, em algumas cidades do Brasil.  Isso acaba dando acesso a pouca gente.  Por outro lado, o lançamento em streaming deu uma dimensão maior à divulgação do filme.  O que é especialmente interessante em se tratando de um trabalho artístico autoral, que dificilmente alcançaria grande repercussão.  Mesmo considerando que o cineasta mexicano Alfonso Cuarón já tem uma larga filmografia de sucesso também em Hollywood.  São filmes dele, por exemplo, “E Sua Mãe Também” (2001), “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban “ (2004), “Filhos da Esperança” (2006), e “Gravidade” (2013).
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ARÁBIA.  Brasil, 2017.  Direção:  Affonso Uchôa e João Dumans.  Com Aristides de Souza, Murilo Caliari, Renata Cabral, Gláucia Vanderveld, Renan Rovida.  96 min.



  
O cinema dispõe de recursos poderosos para nos trazer, reportar, realidades, que podem estar distantes de nós, não apenas por meio de uma riqueza de informações, mas também com a carga emocional que a situação apresentada requer.  Bons personagens, dentro de uma boa estrutura dramática, são capazes de nos levar a viver a experiência de vida intensa e sofrida de pessoas que estão mergulhadas em contextos sociais diversos dos nossos.

 O filme brasileiro ARÁBIA, por meio do personagem Cristiano (Aristides de Souza) e seu diário encontrado após sua morte pelo jovem André (Murilo Caliari), nos coloca em cheio na realidade do trabalhador operário no Brasil dos últimos anos e da atualidade.  Conhecemos sua existência bem de perto, o que faz, como trabalha e se relaciona com as pessoas, suas andanças e mudanças, desejos, esperanças, desilusões.  Uma vida muito dura, penosa, mas enfrentada com vigor e resignação.  Emocionalmente nos transportamos para um universo psíquico, que requer um equilíbrio precário e difícil, como fator de sobrevivência, para além das circunstâncias materiais propriamente ditas.

Quem nos conta sua vida no cotidiano é o próprio personagem, na narrativa descritiva e também reflexiva de seu suposto diário, escrito em linguagem simples, mas nem por isso menos elaborada, enquanto dimensão humana. Os diretores evitaram a intelectualização da escrita, mas a deixaram consistente e profunda.  Detalhada demais para a situação, talvez.  É essa narrativa simples e forte que conquista o jovem leitor, que vive no mesmo ambiente e nas mesmas condições de penúria e vulnerabilidade.

ARÁBIA é um nome estranho à narrativa do filme.  Refere-se apenas a uma piada contada no bar, que ilustra uma percepção simplista de uma situação inusitada, essa, sim, ligada ao contexto árabe.  Mas é um título que esconde o que é o filme.

Grande vencedor do Festival de Brasília, premiado como melhor filme. ator, montagem, trilha sonora e prêmio da crítica.  Foi bem recebido e premiado em muitos outros festivais internacionais, especialmente em competições latino-americanas.





terça-feira, 15 de janeiro de 2019

YARA

Antonio Carlos Egypto





YARA (Yara).  Líbano, Iraque, 2018.  Direção e roteiro: Abbas Fahdel.  Com Michelle Webbe, Elias Freifer, Mary Alkady, Charbel Alkady.  101 min.


‘Yara” nos leva a uma região de grande beleza natural, no norte do Líbano: o Vale de Qadisha, uma localidade rural isolada, cercada de belas montanhas e uma paisagem verde exuberante.  Circulam por lá as cabras, as galinhas, gente que cozinha, lava roupa, toma sol.  Muito pouca gente.

Num ambiente tranquilo e de muita paz, tão perto de uma zona conflagrada, vivem a adolescente Yara (Michelle Webbe) e sua avó uma rotina em que, a rigor, nada acontece e tudo se repete.

No entanto, a entrada em cena de um jovem andarilho, Elias (Elias Freifer), meio perdido naquela região, acaba trazendo uma inesperada amizade e a perspectiva de um amor de verão para Yara e para ele.  A narrativa rarefeita de “Yara” se resume a isso, num ritmo bastante lento, contemplativo. 

Durante uma hora e meia vivemos nesse paraíso de beleza e paz, sorvendo cada instante, percebendo nuances, detalhes.  É um tipo de filme, hoje já disseminado, que se contrapõe à tendência não só do cinemão comercial, agitado e enlouquecido, como da vida diária das grandes cidades do mundo, seus conflitos e suas guerras.  Um bálsamo para tempos bicudos.




É curioso que essa tenha sido a escolha do diretor Abbas Fahdel, nascido no Iraque, vivendo na França desde os 18 anos de idade.  Ele atuou como documentarista em função da terrível situação da guerra em seu país, procurando entender o que teria acontecido com seus amigos de infância que lá permaneceram, registrando um Iraque abalado pela violência, pelo pesadelo da ditadura e pelo caos que lá se instalou.  Outro documentário em duas partes, “Antes da Queda” e “Depois da Batalha”, aborda a invasão norte-americana do país.  Um longa de 2008, “Down of The World”, é um drama sobre os múltiplos impactos da Guerra do Golfo, numa área conhecida como Jardim do Éden.

Com esse histórico e essa identidade geográfica, chega a ser surpreendente esse conto de amor, emoldurado pela beleza natural, pela juventude, pela inocência e pela sutileza.   O diretor foi em busca de uma fábula que traz o reverso da moeda.  Um alívio, depois de tanta guerra e destruição.  Um filme extremamente delicado e sensível, ambientado num Líbano pacífico.  Um filme para relaxar e curtir, sem pressa.

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CURSO CINEMA: HISTÓRIA E LINGUAGEM 2019

Se você gosta de cinema e quer ter maior conhecimento de causa, recomendo o curso que fiz há alguns anos e que muito me ensinou.  Ministrado por um mestre da crítica, INÁCIO ARAÚJO, com a duração de um ano, ocorre sempre às segundas-feiras (19:30 a 23:00 h) ou às terças (9:30 a 13:00 h), no Espaço Itaú de Cinema – Anexo, na rua Augusta, 1470, São Paulo, SP.  Existem opções por acompanhar módulos por um mês, um trimestre ou um semestre.  Informações e inscrições: www.cursoinacioaraujo.blogspot.com , pelo e-mail cinegrafia@uol.com.br
 ou pelo telefone (11) 3926-2538.  Começa nos dias 11 ou 12 de fevereiro, dependendo de sua escolha.  Vale mesmo a pena.