domingo, 7 de junho de 2020

EM QUARENTENA

Antonio Carlos Egypto





O cinema saiu de cena.  E eu também.  Dei um tempo para vocês.  Não foi intencional, nem planejado.  Aliás, nada do que vivemos no momento foi intencional ou planejado.  O aleatório, o inesperado, faz parte da nossa vida muito mais do que gostaríamos de admitir.  Alguns preferem criar a fantasia do vírus concebido em laboratório pelos chineses.  Negam a irracionalidade do mundo, o inconsciente, a destruição do planeta, a própria doença.  Como se pudéssemos manejar tudo.  Fazemos escolhas, como Teich.  Exatamente por não termos domínio da situação.

Quando foi imperioso ficar em casa, com meus mais de 70 anos e com minha esposa alguns anos mais velha, ficou muito incômodo permanecer no apartamento, com um prédio em construção bem ao lado.  A solução era óbvia.  Mudar por uns tempos (quantos, nunca se sabe) para a nossa casa de veraneio em Águas de São Pedro.  Quando a compramos, há 20 anos, a ideia era, quem sabe, ficar por lá, quando batesse a velhice.  Nessa hora em que a gente quer mais sossego do que agitação e o corpo já não obedece à mente.  Essa hora ainda não chegou, quero crer.  Mas o estigma do vírus que ataca preferencialmente os idosos pesa.



Lá temos o privilégio de usufruir de uma casa gostosa, confortável, bem arejada e solar, com varandas e vista para um lago.  O que eu poderia desejar mais do que isso, durante uma pandemia, em que o programa é ficar em casa?

Permaneci por lá nos últimos 70 dias, usufruindo de tudo isso, mas tive de voltar agora, por conta da declaração do imposto de renda, que deixamos para trás.  Pretendo voltar em seguida, porque para nós o isolamento social permanece indicado.  Ou melhor, indispensável. 




Só que lá não disponho da mesma tecnologia que está à disposição em São Paulo.  Não tenho wi-fi nem TV a cabo.  Internet, só pelo smartphone, com limitações.  A TV aberta, jornais e sites, garantem as notícias (cada vez mais absurdas e assustadoras).  CDs e DVDs dão conta das músicas e filmes preferidos.  Tem também os livros.  Ver filmes inteiros pelo celular ou digitar textos por lá, nem pensar.  É preciso ser telegráfico.  Nas mensagens, nos textos, nos vídeos para assistir.  E quem  precisa de tanto estímulo?  Como já dizia Caetano Veloso, em “Alegria, Alegria”, em 1967/68, quem lê tanta notícia?

Tenho recebido por e-mail, via celular, muitas informações sobre lançamentos de filmes em streaming, ofertas de filmes gratuitos on line, mas não é apropriado para o meu atual momento ou possibilidade.  O coronavírus me fez parar.  Eu posso fazer isso e acho que tem seu valor esse encontro comigo mesmo e essa reflexão sobre o que nos espera.  Nessa hora, não estou preocupado em ser produtivo ou estar atualizado.  Tudo tem seu tempo.




Penso nos trabalhadores da área da cultura e nos trabalhadores em geral, para quem o desafio desse período está sendo devastador e, claro, temo pelo futuro de todos nós e da cultura, no país.  Da escalada de mortes que assola o Brasil, nem se fala.  Se alguém que me lê agora perdeu parente ou amigo nessa pandemia, aceite meus sentimentos.  Isso não aconteceu comigo.  Pessoas próximas sofreram com a doença, inclusive um morador aqui do nosso prédio, que se recupera após longo período hospitalar, com entubação, hemodiálise e tudo o mais.  Espero que sobrevivamos.  Cuidem-se.  E, se puderem, fiquem em casa.




quarta-feira, 18 de março de 2020

CINEMA E CRISE

Antonio Carlos Egypto



Estou aqui falando de cinema já há um bom tempo.  Praticamente 12 anos de forma ininterrupta, postando, pelo menos, uma matéria crítica toda semana.  Mas, com frequência, essa média cresce e só tenho suspendido as postagens por ocasião de alguma viagem mais longa.  Faço isso por paixão.  Cinema sempre foi a minha paixão, desde pequeno.  Aquela tela grande que concentra a atenção das pessoas, aquela sala escura que destaca o filme, aquele som impactante, aquela atmosfera toda sempre me fascinou.  E ainda me fascina.  É insubstituível.




É bom ver um filme em casa, quando os equipamentos contribuem para aproximar essa experiência à do cinema.  Definitivamente, porém, não é a mesma coisa.

Arte de verdade implica mergulho na experiência, entrega, concentração, crítica e reflexão.  Não é fácil obter isso.  O próprio cinema, pode-se dizer, acaba estando muito mais a serviço do entretenimento do que da arte.  Se isso acontece na sala de cinema, imagine em casa, onde tudo tende a favorecer a dispersão.  Da circulação de pessoas e animais domésticos ao onipresente celular e suas notificações ás interrupções para comer e ir ao banheiro, que acabam sendo mais frequentes, ou à luminosidade pouco adequada à fruição cinematográfica, tudo contribui para que a experiência seja bem distinta da do cinema.   Não importa quão genial seja o filme visto em casa.     Não há “8 ½” de Fellini que consiga sair ileso.

Se criadas as condições apropriadas, em horário mais tranquilo, talvez tarde da noite, pode ser muito interessante descobrir alguns filmes, rever outros, conferir uns de menor importância.  Ou centrar-se na trama em si, mais do que no clima do filme, na sua criatividade, na expressividade de sua linguagem.  As séries, quero crer, se prestam bastante a esse papel.  Principalmente, quando consumidas com o excesso que muitos apregoam fazer.

O avanço tecnológico possibilitou a multiplicação de plataformas, mas não prejudicou o cinema.  Ao contrário, popularizou os filmes ainda mais.  Democratizou o acesso, talvez acentuando o caráter de entretenimento mais descomprometido e o espírito do descartável, em oposição ao produto cultural de maior relevância.  Mas isso faz parte do jogo.  E já se veem serviços de streaming, VOD e lançamentos atuais em DVD mais preocupados com a história do cinema e com filmes artisticamente mais elaborados.

De qualquer modo, o cinema nunca vai morrer, as salas de cinema não vão acabar.  Pelo menos nas cidades maiores, a opção sempre estará lá.

Nos últimos anos, com a evolução tecnológica, o processo de fazer filmes e também o de distribuí-los e exibi-los tornou-se mais fácil e acessível.  A produção tem crescido, para todos os gostos.  Em São Paulo, têm sido lançados no circuito comercial dos cinemas em torno de 400 filmes por ano, mais do que os 365 dias do calendário.  E nessa conta não entram os festivais, as mostras especiais e retrospectivas.  O volume do que chega aos cinemas é muito maior.´




De repente, aquela certeza de que o cinema sempre estará lá e com novidades permanentes é atropelada por um novo coronavírus, que acaba produzindo o que parecia impossível imaginar.  Retém as pessoas em casa, fecha as salas de cinema, paralisa a produção, impede a distribuição.  Nesta semana em São Paulo, quase todos os cinemas fecharam as portas, nenhum lançamento aconteceu, todos foram adiados para um futuro ainda incerto.  E o que estava em andamento parou.  Hollywood inteira, pelo que informam.  Dá para conceber isso?  Como ficará o cinema brasileiro depois dessa crise?  Os efeitos de tudo isso na cadeia econômica devem ser imensos.  Muito triste de imaginar.

Bem, claro que não foi só o cinema ou a cultura em geral que parou.  Parece que tudo parou, a terra parou, indicando que muita coisa vai ter de mudar, daqui para a frente.  No funcionamento da vida, na relação com o meio ambiente, nas relações econômicas de produção e consumo, até no modo de ser da globalização.  Não creio que isso possa ser visto apenas como um fenômeno passageiro.  As consequências são sérias, a crise é grave.  Talvez seja a oportunidade para que a humanidade possa construir uma existência mais sustentável, a partir da compreensão e análise das vulnerabilidades globais que se apresentam.  E que sempre haja espaço para que o cinema possa nos encantar.  Sem a arte, a vida perde a graça e o sentido.





terça-feira, 10 de março de 2020

O MELHOR ESTÁ POR VIR

Antonio Carlos Egypto






O MELHOR ESTÁ POR VIR (Le Meilleur Reste à Venir).  França, 2018.  Direção: Mathieu Delaporte e Alexandre De la Patellière.  Com Fabrice Luchini, Patrick Bruel, Zineb Triki, Pascalle Arbillot.  118 min.


“O Melhor Está Por Vir” é uma comédia, uma boa comédia, sobre a amizade e também sobre a morte, ou sobre a expectativa diante dela.

Dois grandes atores sustentam a narrativa muitíssimo bem.  Fabrice Luchini, no papel de Arthur, com seu comportamento mais convencional e certinho, e Patrick Bruel, no papel de César, mais solto e farrista.  Arthur e César são amigos de infância, daqueles que se complementam em suas diferenças.  Um aprende muito com o outro e eles, via negociação, acabam se entendendo e aceitando fazer coisas que um, em princípio, não gostava ou não queria e, o que é melhor, sempre se divertindo com isso.  Enfim, um tem muito a ganhar na companhia do outro e eles sabem, pelo menos intuitivamente, disso.

A graça da história é que, por uma circunstância mal explicada, pelo não dito, pela falta de coragem ou de oportunidade, coisas não se esclarecem.  A consequência é que um fica achando que o outro é que está com uma doença terminal e ambos decidem que há coisas importantes a fazer ou a aproveitar antes que a morte chegue, já que ela deve chegar logo.  Um amigo não abandona o outro nessa hora e, juntos, eles vão viver situações não só engraçadas, mas de grande relevância para a vida de cada um deles.

As sequências são bem construídas, interessantes, curiosas, perfeitamente verossímeis e engraçadas.  Trata-se de um roteiro bem bolado, inteligente e politicamente correto.  Ou seja, sem ser apelativo, vulgar, sem atacar ou ofender a diversidade.  Ao contrário, se divertindo ao defender a diversidade.  Humor pode ser respeitoso e dar margem a reflexão, além de celebrar coisas importantes como, no caso, o valor da amizade.  Tirando sarro das situações, sem babaquice nem pieguismo.  Lidando de forma concreta e realista com a perspectiva da morte, sem ser lúgubre, nem inconsequente.  Embora a inconsequência esteja presente nas maluquices que eles aprontam, pelo jeito, desde crianças.

Um filme muito bom de se ver, sem maiores inovações, mas um entretenimento bem feito e que consegue ultrapassar o limite do mero entretenimento, falando de coisas importantes com leveza.

A dupla de diretores que trabalham juntos já há alguns anos talvez esteja refletindo algo da própria experiência.  Não sei.  Mas parece, pelo fluxo das cenas e pela afetividade que transborda dos personagens.  Claro que com atores tão talentosos como esses tudo flui muito mais fácil.  O fato é que o filme deu certo.  Despretensioso, mas convincente.




EFEMÉRIDES
Os 100 anos de nascimento do mestre italiano do cinema, Federico Fellini, merecem ser amplamente comemorados, como estão fazendo o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) e o Cinesesc, reexibindo sua obra genial.  Reencontrar-se com (ou conhecer) essa filmografia absolutamente especial e única deve ser mesmo um objetivo de todos, ao longo deste ano.  Seja de que forma for, por meio do DVD, do streaming, VOD.  O que importa é não deixar passar esse momento tão propício dessa efeméride para usufruir do seu talento, sofisticar o desfrutar cinematográfico e também homenageá-lo pela figura importante que foi para todo mundo.

Outros nomes importantes do cinema também fariam 100 anos em 2020: o crítico francês e estudioso de cinema André Bazin, o ator norte-americano Walter Mathau e o ator e diretor brasileiro Anselmo Duarte, o único que pôde ostentar a Palma de Ouro em Cannes pelo seu “O Pagador de Promessas”.  Aliás, que tal revê-lo e aos muitos filmes que ele estrelou, ao longo da vida artística? 

A arte e a literatura brasileiras estão presentes na vida de todos pelo trabalho de Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, pelas gravações da magnífica cantora Elizeth Cardoso e pela pintora e escultura Lygia Clark.  Todos fariam 100 anos também.

A excepcional cantora portuguesa Amália Rodrigues também faz parte desse time de nascidos em 1920.  Assim como o escritor Isaac Asimov e Karol Wojtyla, o papa João Paulo II.

Se recuarmos 100 anos mais, vamos encontrar o nascimento de Friedrich Engels, o revolucionário alemão que compartilhou uma grande obra com Karl Marx (1818-1883).

Recuando mais 50 anos, chegamos ao maior homenageado da música neste ano. O gênio de Ludwig van Beethoven nasceu há 250 anos e será largamente executado ao longo de 2020 em todos os cantos do mundo e também no Brasil.  A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a OSESP, dará total destaque à obra de Beethoven.  Aliás, já vem fazendo isso desde o final do ano passado.

Em tempos de estupidez e ignorância, nada melhor do que celebrar a beleza da arte e da escrita.  Para lembrar que temos motivo de sobra para nos orgulharmos da humanidade.  Apesar de tudo.





domingo, 8 de março de 2020

COMENTANDO 4 FILMES

Antonio Carlos Egypto





FIM DE FESTA.  O carnaval acabou, mas enquanto, na quarta-feira de cinzas, um grupo de jovens ainda vive a energia que restou da euforia da festa, o pai de um deles, um policial, tem de voltar rapidamente de seu descanso para investigar a morte de uma turista francesa em Recife.  E tem de lidar com seu apartamento ocupado pelos amigos do filho.  Mais do que o desvendar do crime, o filme FIM DE FESTA, do pernambucano Hilton Lacerda, que já dirigiu “Tatuagem” em 2013, focaliza o personagem do policial Bruno e a forma como ele encara as situações que se apresentam.  Irandhir Santos tem um grande desempenho no papel desse policial, que parece viver uma ressaca, não exatamente do carnaval, mas da vida, do seu trabalho ou do momento atual.  Vemos como ele vai conduzir o caso, a expectativa e reações dos familiares e suspeitos, mas também como se relaciona com a homossexualidade do filho, a maconha, a folga dos jovens na sua casa e como ele enxerga sua própria vida.  Um retrato realista, nada esperançoso.  No elenco, Suzy Lopes, Gustavo Patriota, Amanda Beça, Safira Moreira, Leandro Vila.  Participações especiais de Hermila Guedes e de Jean-Thomas Bernardini (da distribuidora Imovision e do Reserva Cultural).  FIM DE FESTA recebeu os prêmios de melhor filme e melhor roteiro pelo júri oficial da última edição do Festival do Rio, 2019.  100 min.

FOTOGRAFAÇÃO, documentário de Lauro Escorel, de 2019, exibido no festival É TUDO VERDADE do ano passado, aborda a história da fotografia, de seus grandes criadores e dos registros de imagens do Brasil, dos pioneiros aos dias de hoje.  Uma imagem do nosso país, que vai se constituindo e se modificando, traduz a nossa identidade coletiva e nos mostra quem somos e a solidez do que somos.  Isso é importante frisar frente ao processo anticivilizatório que tenta se impor a nós.  Escorel contrasta essa bela história com a profusão da fotografação digital dos nossos dias e reflete sobre o impacto disso na sociedade contemporânea.  Ele tem grande experiência e atuação como diretor de fotografia no cinema brasileiro.  Tem, portanto, um olhar privilegiado e amadurecido sobre o tema que escolheu para documentar.  E o fez muitíssimo bem.  76 min.


DE QUEM É O SUTIÃ ?


DE QUEM É O SUTIÃ?  (The Bra), comédia alemã de 2018, dirigida por Velt Helmer, vai a uma região do Azerbaijão acompanhar a vida de um solitário maquinista de trem habituado a conduzir o veículo rente às casas, que estão tão próximas dos trilhos que colocam cadeiras, põem roupas para secar no varal ali mesmo.  Um garoto apita, avisando a chegada do trem.  Vai que um dia Nurlan, o maquinista em vias de se aposentar, esbarra num varal e derruba um sutiã azul.  Encontrar a dona da peça íntima pode lhe trazer muitas emoções, constrangimentos e novidades.  O filme é divertido, simpático, e tem uma curiosidade: é todo sem diálogos.  Não é um filme silencioso, tem som e muito bem explorado, mas não tem falas.  E olhe, não faz falta.  Lembram-se dos filmes “O Ilusionista” e “O Homem da Linha”, do diretor holandês Jos Stelling?  Vai por aí.  Afinal, cinema é, antes de tudo, imagem.  No elenco, Miki Manojlovic, Paz Vega, Chulpan Khamatova, Denis Lavant, Maia Morgenstern.  90 min.

AS INVISÍVEIS (Les Invisibles), dirigido por Louis-Julien Petit, de 2018, trata de mulheres em situação de rua, recém-saídas da prisão ou fugidas da família por conflitos, sem emprego e sem a mínima condição de competir no mercado de trabalho.  Elas estão num abrigo para mulheres sem teto, aos cuidados de assistentes sociais dedicadas, mas que encontram dificuldades de toda a ordem, legais, burocráticas, e da própria incapacidade de adaptação daquelas a quem atendem.  São muitas personagens, falta um pouco de contexto para quem não conhece a situação francesa, mas é um mergulho interessantíssimo na vida dessas mulheres.  O que é contado com dramaticidade, mas também com muito humor. Isso torna o filme mais atraente e menos pesado.  Por exemplo, uma personagem que busca trabalho faz questão de contar a todos os possíveis empregadores que esteve na prisão, porque quer ser absolutamente honesta e não mentir.  O que, obviamente, complica as coisas, visto que o preconceito contra presidiárias é enorme.  Como convencê-la de, ao menos, omitir essa informação?  No elenco, Patrícia Mouchon, Koukha Bonkherbache, Bérangère Toural.  102 min.

LEMBRETE - Já fiz a crítica do filme O OFICIAL E O ESPIÃO (J’Accuse) quando do prêmio César, que realmente escolheu Roman Polanski como diretor, apesar dos protestos.  O filme merece ser visto e entra em cartaz agora, no dia 12 de março.  A crítica pode ser acessada aqui. 





quarta-feira, 4 de março de 2020

MARTIN EDEN

Antonio Carlos Egypto






MARTIN EDEN (Martin Eden).  Itália, 2019.  Direção: Pietro Marcello.  Com Luca Marinelli, Carlo Cecchi, Jessica Cressy, Marco Leonardi, Vincenzo Nemolato.  129 min.


“Martin Eden”, uma fascinante história do escritor norte-americano Jack London (1876-1916), com elementos autobiográficos, deu origem a um filme italiano que discute questões atualíssimas.  Essas questões dizem respeito às relações entre as classes sociais refletidas pela literatura, à relação desta com o mercado editorial, à liberdade de expressão, à natureza da criação, ao compromisso ético do escritor consigo mesmo e com suas crenças políticas e responsabilidades sociais, ao papel do indivíduo nas transformações socioculturais e políticas.

O veículo para expressar os questionamentos é o personagem título do filme, o escritor Martin Eden, mostrado na complexidade necessária para abranger as diversas dimensões de sua experiência concreta, de suas angústias, contradições, de seu ativismo inspirado na leitura de Herbert Spencer (1820-1903), de suas relações com anarquistas e comunistas, de seu desenvolvimento como escritor a partir de uma vida de baixa renda, mirando a classe alta, tentando ser como eles.  Da forma como lidará com o sucesso tão buscado, mas, ao mesmo tempo, tão massacrante.

O contexto histórico é o do período anterior à Primeira Guerra Mundial, de grande efervescência cultural, propício à conquista de espaços e descobertas incentivadoras, mas tenso, conflitivo.  O foco do filme, porém, coerentemente com as teses de um chamado darwinismo social de Spencer, está no indivíduo, na sua batalha pessoal frente aos demais e à coletividade.  As sociedades se desenvolveriam a partir da realização individual de forma positivamente evolutiva.  Isso está no modo de ser do personagem, embora enfatizando mais o mistério do que o progresso inexorável.  Mais a crise do que o otimismo.




No papel do escritor Martin Eden está Luca Marinelli, um grande ator que mergulhou intensamente na atuação e conseguiu expressar muito bem as muitas faces, fases, sentimentos e pensamentos do personagem.  Teve o reconhecimento por essa brilhante performance, conquistando o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza, no ano em que Joaquin Phoenix levou tudo pelo papel em “Coringa”.  Marinelli foi o único a conseguir vencê-lo, ao menos uma vez.  “Martin Eden” foi bem recebido e premiado nos Festivais de Veneza, Toronto, Sevilha, e no Festival do Rio.

A direção de Pietro Marcello imprime a ”Martin Eden” uma dinâmica e uma força envolvidas por belas sequências que mesclam imagens ficcionais e documentais e, claro, alimentadas pelo desempenho criativo de Luca Marinelli, que está em todas as cenas, garantindo o filme com seu talento.  O elenco de apoio também está muito bem dirigido, sustentando a trama.

É verdade que o cinema italiano da atualidade não consegue competir com o grande cinema italiano do passado, mas isso não significa que não haja belos trabalhos a apreciar.  “Martin Eden” é um deles.





segunda-feira, 2 de março de 2020

PRÊMIO ABRACCINE 2020

Antonio Carlos Egypto

 A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), da qual também faço parte, elege a cada ano os melhores filmes, considerando os lançamentos em cinema, streaming, VOD, do ano anterior.  No caso, 2019.

Uma centena de críticos, distribuídos por quase todos os Estados brasileiros, indica os melhores filmes que, após troca de ideias e debates, passam por votação para a escolha do melhor, em cada categoria.  São escolhidos os melhores longa e curta nacionais e o melhor longa estrangeiro.

Este ano, a Abraccine decidiu divulgar não apenas o vencedor de cada categoria, mas também os 10 mais votados pelo conjunto de críticos da Associação.  Assim, se consegue um panorama mais amplo do melhor da produção cinematográfica do ano que passou.

Confiram a lista dos indicados e o vencedor em cada categoria.  Em seguida, recoloco as minhas críticas dos longas vencedores.

LONGA-METRAGEM BRASILEIRO
VENCEDOR:
BACURAU, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Completam o top dez, em ordem alfabética:
DEMOCRACIA EM VERTIGEM, Petra Costa
DESLEMBRO, Flávia Castro
DIVINO AMOR, Gabriel Mascaro
ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR, Marcelo Gomes
INFERNINHO, Guto Parente e Pedro Diógenes
NO CORAÇÃO DO MUNDO, Gabriel Martins e Maurilio Martins
LOS SILENCIOS, Beatriz Seigner
TEMPORADA, André Novais Oliveira
A VIDA INVISÍVEL, Karim Aïnouz
 


LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO
VENCEDOR:
PARASITA, Bong Joon-ho
Completam o top dez, em ordem alfabética:
ASSUNTO DE FAMÍLIA, Hirokazu Koreeda
CORINGA, Todd Phillips
DOR E GLÓRIA, Pedro Almodóvar
EM TRÂNSITO, Christian Petzold
ERA UMA VEZ EM HOLYWOOD, Quentin Tarantino
O IRLANDÊS, Martin Scorsese
NÓS, Jordan Peele
O PARAÍSO DEVE SER AQUI, Elia Suleiman
SYNONYMES, Nadav Lapid




D
CURTA-METRAGEM BRASILEIRO
VENCEDOR:
SETE ANOS EM MAIO, Affonso Uchôa
Completam o top dez, em ordem alfabética:
CARNE, Camila Kater
JODERISMO, Marcus Curvelo
A MULHER QUE SOU, Nathália Tereza
NEGRUM 3, Diego Paulino
QUEBRAMAR, Cris Lyra
SWINGUERRA, Bárbara Wagner e Benjamin de Burca
TEA FOR TWO, Julia Katharine
TEORIA SOBRE UM PLANETA ESTRANHO, Marco Antonio Pereira
TUDO QUE É APERTADO, RASGA, Fabio Rodrigues
             
                      



BACURAU
Antonio Carlos Egypto

BACURAU.  Brasil, 2018.  Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.  Com Sonia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Thomás Aquino, Silvero Pereira, Karine Teles, Antonio Saboia.  132 min.


“Bacurau”, o novo filme de Kleber Mendonça Filho (de “O Som ao Redor”, 2013, e “Aquarius”, 2015) e Juliano Dornelles é um western  brasileiro.  Segue a trilha dos históricos “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, 1963, e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, 1969, de Glauber Rocha (1938-1981).  Filmes que já se pautavam por grande força política e preocupação social, tentando desvendar um universo nordestino, marcado pela violência opressora, de um lado, e resistente, de outro.  Dialoga também com a produção nacional que sempre teve nos cangaceiros uma fonte de inspiração permanente e oportunidade de pensar e de criar a partir da realidade do nordeste brasileiro, para alcançar o país.

“Bacurau” incorpora novos elementos a tudo isso.  Tem invasores agressores e poderosos.  Que chegam a tirar o povoado do mapa e produzem assassinatos aparentemente inexplicáveis, se valendo até de drones com aspecto de disco voador.  Falam inglês, seu comandante é um alemão com pinta e comportamento de nazista, e os colaboradores que atuam com eles falando português, além do inglês, são desprezados e descartados na primeira oportunidade.  Ou seja, estamos no terreno da alegoria política, que soa tão atual, mas talvez seja mesmo uma constante da nossa história.  Até porque nada se nutre do momento atual, embora pareça inspirado nele.  Percepção acurada?  Premonição?   Visão apurada do processo histórico, vista da relação entre a casa- grande e a senzala e na dimensão internacional que as envolve.

“Bacurau” mistura ação e reflexão no mesmo produto.  É um filme forte, intrigante, provocador, mas é também uma aventura, muito envolvente.  Por isso, pode ser visto como um filme de gênero, embora não esteja preocupado em seguir cartilhas ou convenções.  Fala ao sentimento do público, mostra uma violência que tem de ser decifrada e que, afinal, nos leva a algumas conclusões.  Talvez distintas, para cada grupo de espectadores.  Mas que deve mexer com todo mundo, de um  jeito ou de outro.

Um elenco enorme e dedicadíssimo a seus personagens passa uma sensação de grande veracidade e nos remete a um mundo tão familiar quanto parece distante.  Sonia Braga, como a dra. Domingas, reúne as dimensões da solidariedade e do descontrole, a nos indicar a profunda humanidade da figura que encarna.  Udo Kier é a maldade forasteira, mas também o impasse e a solidão.  Bárbara Colen faz Teresa, mulher forte e lutadora. Os forasteiros colaboracionistas são patéticos, mas a gente até se esquece disso porque Karine Teles e Antonio Saboia nos conquistam pela qualidade de seus desempenhos.  Thomás Aquino, como Pacote, e o inusitado bandido local Lunga, papel de Silvero Pereira, nos mostram como é estar no fio da navalha entre a fome e o crime.  Todos os personagens são bem construídos e têm um ator ou atriz à sua altura.

A trilha sonora é também bem marcante, vai de Gal Costa e o objeto voador não-identificado a Geraldo Vandré, passando por Sérgio Ricardo. Marcos reconhecíveis da resistência que marcou a nossa música e o nosso cinema, que combinam bem com a temática tratada no filme.

A comunidade do povoado da Barra, no Rio Grande do Norte, divisa com a Paraíba, onde a maior parte do filme foi gravada, participou ativamente dos trabalhos de apoio à produção e como figurantes, contribuindo para a autenticidade das situações mostradas.

“Bacurau” é um filme de peso da produção brasileira recente, que já vem recebendo o maior reconhecimento internacional, na forma de convites para mais de 100 festivais e mostras de cinema pelo mundo e já com prêmios importantes conquistados nos festivais de cinema de Munique, na Alemanha, em Lima, no Peru, e o importante prêmio do Júri, do Festival de Cannes.



                   
   PARASITA
Antonio Carlos Egypto

PARASITA (Parasite).  Coreia do Sul, 2019.  Direção: Bong Joon-ho.  Com Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo.  131 min.

“Parasita”, o vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado pela Coreia do Sul ao Oscar de filme internacional (ex-filme estrangeiro), é um produto poderoso.  A narrativa se refere a uma família pobre, que se aproveita de uma oportunidade de trabalho temporário para um de seus membros, para parasitar uma família rica.

Para trabalhar essa história, Bong Joon-ho se vale de uma variedade de gêneros.  “Parasita” é comédia, destila um humor que produz riso na plateia.  É também um drama, até bem pesado.  Não há personagem que saia incólume de lá.  Tem muito suspense e um sem-número de surpresas e reviravoltas de tirar o fôlego.  Tem também alguns elementos fantasiosos, surrealistas, eu diria.

Ao mesmo tempo, aborda aspectos da realidade social que estão subjacentes à situação, mas também explicitados na dinâmica das classes sociais envolvidas na trama.  Até aspectos políticos da divisão das Coreias aparecem, dando um toque inteligente em cenas de humor.

O filme consegue intrincar todos esses elementos dos diferentes gêneros cinematográficos com bastante competência, sem artificializar as passagens de um a outro registro e sem perder o ritmo.  Ao contrário, o ritmo só cresce após cada reviravolta.

Os desdobramentos das ações, na realidade, produzem novas histórias e situações-problema.  Constituem-se num desafio novo a cada um dos personagens, deixando sempre em aberto onde é que tudo isso vai parar.  É um filme imprevisível, mas que conta com um roteiro muito bem engendrado.

 Acabou conquistando o feito inédito de levar tanto o Oscar de melhor filme quanto o de melhor filme internacional, além do prêmio de diretor e roteiro original. Sucesso absoluto. Acima de qualquer expectativa de seus realizadores. 


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI

Antonio Carlos Egypto






VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI (Sorry, We Missed You).  Inglaterra, 2019.  Direção: Ken Loach.  Com Kris Hitchen, Debbie Honeywood, Charlie Richmond, Katie Proctor.  100 min.


O britânico Ken Loach é um dos diretores de cinema mais importantes em atividade.  Seu trabalho tem cunho realista e forte conotação política, ao abordar os personagens da classe trabalhadora sofrendo as consequências de um sistema econômico que os exclui e oprime de muitas formas.  Aborda também as respostas e caminhos que os trabalhadores acabam encontrando para lidar com esse clima assustador a que estão, querendo ou não, submetidos.

Quem viu os filmes dele ”Meu Nome é Joe”, de 1998, “Pão e Rosas”, de 2000, “À Procura de Eric”, de 2009, “A Parte dos Anjos”, de 2012, e “Eu, Daniel Blake”, de 2016, sabe do que eu estou falando.  Quem não viu e quiser saber do que se trata é só procurar no campo de pesquisa do cinema com recheio que encontrará as críticas  desses filmes e também de “Rota Irlandesa”, de 2011, e “Jimmy’s Hall”, de 2014, que tratam de questões históricas irlandesas sempre do ponto de vista do trabalhador.  São grandes filmes dele também “Terra e Liberdade”, de 1995, sobre a guerra civil espanhola, e “Ventos da Liberdade”, de 2006, que trata da guerrilha irlandesa frente ao colonialismo inglês.  É uma obra vasta e muito importante.

Em “Você Não Estava Aqui”, Ken Loach aborda os novos rumos do capitalismo que, com o colapso do emprego formal, vende a ilusão do empreendedorismo, o trabalho por conta própria, que, de tão precarizado, se aproxima não da liberdade individual, mas justamente de seu contrário, a escravização.

O sistema econômico que adula e impõe condutas afeta de tal modo a vida pessoal dos trabalhadores, com a precarização do trabalho e dos direitos, que produz inevitáveis rupturas nas relações humanas e familiares.




Na trama do filme, Ricky (Kris Hitchen) acredita na fantasia do empreendedorismo e vai ser motorista por conta própria, adquirindo uma van novinha, a ser paga em prestações.  Para tal, compromete a mobilidade de sua mulher, Abby (Debbie Honeywood), que é uma dedicada cuidadora de idosos.  A vida dos dois filhos do casal, especialmente do menino adolescente, também sofrerá muitas consequências sérias com essa decisão.  Não demorará muito para que Ricky descubra que, como diz o seu patrão, “o negócio é seu, mas a franquia é nossa”.  E, com essas cartas o jogo é pesado, não sobra tempo para nada e qualquer falta será punida com pesadas multas.  E por aí vai.

O diretor pergunta se é sustentável recebermos nossas compras por meio de uma pessoa que dirige uma van 14 horas por dia.  E acrescenta: isso é melhor do que ir a uma loja e interagir com o vendedor?  Explica que isso não é um erro, mas a lógica do desenvolvimento da economia de mercado.  Segundo ele, o trabalho informal acaba com as vidas e os pobres é que pagam o preço.  O contexto da ação do filme é Newcastle, na Inglaterra, em meio à crise de 2008, mas vale para toda a economia de mercado do mundo atual.

Pensemos no sistema de entrega paulistano por motoboy, o quanto isso é precário, muito mal pago, perigosíssimo.  Basta ver o número escandaloso de mortes que produz.  A chamada uberização da vida econômica acrescenta detalhes de crueldade àquilo que já era uma terrível exploração.

Ken Loach nos fala de algo que conhecemos muito bem, bate à nossa porta e nos deixa preocupados (se pararmos para pensar) e com uma sensação de impotência diante do sistema.  É de gente com o talento desse cineasta que precisamos, para não perdermos a capacidade de nos indignar diante da desumanidade e da ganância do lucro.





sábado, 22 de fevereiro de 2020

CINEDICAS:5 FILMES

Antonio Carlos Egypto


FRANKIE (Frankie).  França, 2019.  Direção: Ira Sachs.  Com Isabelle Huppert, Brendan Glesson, Marisa Tomei, Jerémie Renier, Pascal Greggory.  100 min.
“Frankie” trata de uma situação pesada, um encontro de despedida da vida de uma famosa atriz, com sua família e amigos.  No entanto, o diretor estadunidense Ira Sachs desenvolve esse evento, que poderia ser macabro, com beleza e sutileza.  Consegue leveza onde não se esperaria.  A começar pela própria Frankie, vivida lindamente por Isabelle Huppert, uma das maiores atrizes do nosso tempo.  Seu personagem lida com a perspectiva da morte iminente com o máximo de discrição, sem drama, mas sem negar a realidade e em busca de uma interação humana gratificante e tranquilizadora.  Além disso, o filme exibe a beleza da cidade portuguesa de Sintra, tão charmosa, elegante e diáfana, que dá uma moldura especial a esse encontro que, se fosse possível, muitos gostariam de viver.  Reflexivo, comovente e apaziguador, apesar de tudo o que envolve.  Um ótimo elenco contracena com Huppert em “Frankie”.

FRANKIE


MEU NOME É SARA (My Name Is Sara).  Estados Unidos, 2019.  Direção: Steven Oritt.  Com Zuzanna Surowy, Konrad Chichon, Pawel Królikowski, Eryk Lubos.  111 min.
A história, baseada em fatos reais, que se conta aqui, passa-se na Ucrânia, durante a ocupação alemã do país, na Segunda Guerra Mundial.  Porém, como o filme é norte-americano, o tempo todo fala-se inglês, exceto quando entram em ação os comunicados dos dominadores alemães, que chegam na cena a ser traduzidos para o inglês, para que a população os entenda (sic).  Sara (Zuzanna Surowy), aos 15 anos de idade, com sua família inteira morta pelos nazistas, assume a identidade de uma amiga, para conseguir ser acolhida para trabalhar numa fazenda, escondendo sua origem judaica, para poder sobreviver.  Só que o casal de fazendeiros e seus filhos que a acolhem têm outros problemas, além de serem roubados, saqueados, pelos alemães e pelos russos.  Eles têm questões familiares e amorosas que complicam a situação de Sara e exigem dela ajustes difíceis e um jogo de cintura que ela terá de aprender rapidamente.  Esses elementos complicadores é que despertam interesse numa trama que já foi bastante explorada pelo cinema.  A realização cinematográfica é boa e a atriz protagonista, uma revelação e um achado para o papel. 

DILILI EM PARIS (Dilili à Paris).  França, 2018.  Direção: Michel Ocelot.  Animação.  95 min.
Quem viu a trilogia “Kiriku” sabe do que é capaz Michel Ocelot.  Suas animações são belíssimas, requintadas, inteligentes.  “Dilili em Paris”, seu novo trabalho, é um luxo, ao homenagear Paris com a beleza plástica do seu traço artesanal e explorar os elementos vinculados à cultura francesa, que povoaram a cidade no final do século XIX e começo do XX. A chamada belle époque reuniu figuras como Sarah Bernhardt, Claude Debussy, Auguste Rodin, Toulouse Lautrec, Claude Monet, Louis Pasteur, Madame Curie, Pablo Picasso, Luís Buñuel, Santos Dumont, Marcel Proust e tantos mais.  Pois todos eles, de um modo ou de outro, participam da trama da garotinha Dilili e seu amigo entregador, que vão combater as forças do mal responsáveis por uma onda de sequestros de menininhas em Paris.  A animação tem um tom feminista, ao expor os absurdos a que podem estar submetidas as meninas, e as mulheres.  Um encanto.


CICATRIZES

CICATRIZES (Savovi).  Sérvia, 2019.  Direção: Miroslav Terzic.  Com Snezana Bogdanovic, Marco Bacovic, Jovana Stojiljkovic. 97 min.
O que se vê no desenrolar do filme sérvio, dirigido por Miroslav Terzic, em seu segundo longa, ambientado em Belgrado, são as cicatrizes de um passado que move os personagens.  Acompanhamos uma mulher, sua família, seu trabalho, seus contatos.  A cada sequência nos deparamos com impropriedades.  As relações humanas são estranhas, pesadas, ásperas.  Os comunicados, misteriosos ou simplesmente lacônicos.  Há perigos no ar.  E vamos descobrindo, aos poucos, o que está em jogo.  Sem nunca entender muito bem do que se trata.  Até que, no terço final do filme, a situação se esclarece.  Mesmo assim, não se resolve, porque é preciso encarar o que ficou para trás.  Então, novas ações vão trazer uma nova configuração ao conflito.  Cicatrizes eternas, ao que parece.  Um belo trabalho dramático, com um roteiro bem construído, que estimula o espectador a seguir a trama com interesse.  O tema abordado, que envolve maternidade, fatos e escolhas do passado, é bem relevante, do ponto de vista psíquico.

O JOVEM AHMED (Le Jeune Ahmed).  Bélgica, 2019.  Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne.  Com Idir Ben Addi, Olivier Bonnaud, Myriem Akheddiou, Victoria Bluck..  84 min.
Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne dirigiram “O Jovem Ahmed” tratando de um personagem adolescente, de 13 anos, muçulmano religioso fanático.  E o fazem com muito talento ao descrever e desenvolver as situações e atitudes do personagem, que acaba se envolvendo numa tentativa de assassinato em nome de Alá.  No entanto, a forma como se conclui o drama ao final não chega a ser muito convincente.