segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A PASSAGEIRA

 Antonio Carlos Egypto



A PASSAGEIRA (Magallanes).  Peru, 2015.  Direção e roteiro: Salvador del Solar.  Com Damián Alcazar, Magaly Solier, Federico Lupi, Christian Meier.  109 min.


“A Passageira”, que dá título ao filme de Salvador del Solar no Brasil, é o nome do romance de Alonso Cueto (La Pasajera),  o que põe em evidência uma mulher que toma um táxi e abala os sentimentos do motorista, que a partir daí passará a procurá-la, com a intenção de se redimir de um passado cheio de culpa.

Esse homem é “Magallanes”, título original do filme peruano, que se centra, de fato, na figura desse personagem, que enfrentará seu passado comprometido, que está umbilicalmente ligado ao de seu país. Ele foi soldado do exército peruano, lutou contra o Sendero Luminoso, na guerra civil que abalou o Peru e produziu a ditadura de Fujimori.  Um passado violento e terrível, que todos parecem querer esquecer.  Mas é possível?




Magallanes, vivido pelo ótimo ator mexicano Damián Alcazar, trabalha hoje transportando e servindo ao “coronel”, papel do grande ator argentino Federico Lupi.  Coronel, evidentemente, remete aos núcleos de poder militar e também de domínio da terra, representação de uma elite dominante opressora.

A passageira que Magallanes reconhece é Celina, papel da atriz peruana Magaly Solier, em excelente atuação.  Celina sofreu diretamente sob o jugo do tal coronel, de modo vil, ainda muito jovem.  Ela é a primeira a querer esquecer o sofrimento atroz que passou.  Ao coronel, a seu filho e seus colaboradores policiais e políticos, não interessa mexer nisso.  As atrocidades se esquecem.  No caso do coronel, a idade avançada já lhe produziu a doença de Alzheimer, ou equivalente, de modo que ele não se lembra de nada.




É do esquecimento, do não se lembrar, do não querer saber, do propósito declarado de pôr uma pedra em cima de tudo que se move esse pequeno grande filme.  Uma metáfora das feridas deixadas em aberto pelas ditaduras e guerras da América Latina, de 25, 30 anos atrás, que não fecharam, mas que não podem ser ignoradas.  Remetem a uma história que compromete cada um e todos, de um modo ou de outro.  Algozes, vítimas, omissos, a todos cabe a tarefa de resgatar a memória do passado recente, para poder superá-lo e não repetir a tragédia.

“Magallanes” é um filme que tem uma trama muito bem urdida, no sentido de nos revelar, na história pessoal dos três principais personagens, as dimensões sociopolíticas da realidade peruana e, claro, latino-americana do período.  Uma época que esperávamos superada pela democracia recém-conquistada, mas que está sempre em risco.  Sobretudo, quando tudo o que se quer é esquecer e não enfrentar os fantasmas e demônios que se produziram por aqui.




Além disso “A Passageira” trabalha com uma narrativa policial e de suspense que mantem o espectador muito ligado nas cenas e sequências apresentadas. A resolução do filme é fantástica, para mostrar a quem interessa e as motivações que estão por trás desse desejo de apagar a História.

A produção envolve a participação de diversos países de língua espanhola, como Argentina, Colômbia e Espanha.  O peruano Salvador del Solar já tem uma larga trajetória como ator de cinema e TV.  Sua estreia como diretor é muito convincente.




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O SILÊNCIO DO CÉU


Antonio Carlos Egypto




O SILÊNCIO DO CÉU (Era el Cielo).  Brasil, Uruguai, 2015.  Direção: Marco Dutra.  Com Leonardo Sbaraglia, Carolina Dieckmann, Chino Darín, Álvaro Armandi Ugón, Mirella Pascual.  102 min.



A vida de um casal pode resistir a algumas omissões e segredos, talvez, sem maiores sobressaltos.  Mas quando algo muito importante aconteceu, foi vivido com muita dor e de forma traumática e, ainda assim, nada se diz sobre isso, como fica a situação?  Pior: e quando o outro viu o que aconteceu, sabe do que se trata e também não aborda o assunto, porque tem algo muito importante a esconder?

Os silêncios substituem a comunicação e o diálogo, criando um insuportável tabu na vida dos dois.  É curioso como os passos de um se guiam pelos passos do outro, justamente em relação ao assunto-tabu.  Certos tipos de cuidados, apoios e solidariedade, se darão nessa zona escura que, de um modo ou de outro, é conhecida por eles.




O filme “O Silêncio do Céu” aborda com muita competência essa trama, em que o psiquismo dos personagens fala mais alto.  Muito mais importante é o não-dito, em relação a tudo que é dito.  O clima onde isso se dá, em torno da casa, do ateliê de trabalho, de um grande viveiro de venda de plantas e em torno do movimento dos automóveis, coloca o espectador dentro do mistério.  Que para ele não é exatamente um mistério: é uma grande questão entender as motivações dos comportamentos naquela situação dada.  E o que se abre a partir desse universo de omissões como consequência.  A tragédia é que omissão puxa omissão e as coisas podem se agravar muito.

Para alcançar um resultado muito expressivo nas interpretações, o diretor Marco Dutra contou com Carolina Dieckmann, no papel de Diana, que desde a primeira cena vive um drama pesado e devastador, que ela terá de carregar ao longo de todo o filme.  E fazer isso representando em espanhol.  Ela é brasileira, mas a produção é toda filmada no Uruguai, falada em espanhol.
O outro elemento do casal é Mário, papel do ator argentino Leonardo Sbaraglia, que tem de se mostrar contido, cheio de medos, covarde, sofrendo por dentro e em vias de explodir.  Papel exigente, de que ele dá conta muito bem.  O ator já é conhecido no Brasil por filmes como “Relatos Selvagens” (2014), “O Que os Homens Falam” (2012) e “Plata Quemada” (2000).




Todos os demais atores e atrizes compõem  com segurança esse mundo tenso, angustiante, opressor e potencialmente violento, em termos psíquicos.  Entre eles, a presença do jovem Chino Darín, filho de Ricardo Darín, que tem pela frente o desafio de se mostrar à altura do talento do pai.  Está bem no filme, no papel que lhe coube.  Há, também, a atriz uruguaia Mirella Pascual, conhecida por sua atuação em “Whisky” (2004).

O roteiro, muito bem construído, contou com três talentos.  Primeiro, o do escritor do romance que lhe deu origem, “Era el Cielo”, o argentino Sergio Bizzio.  Segundo, o da  cineasta argentina Lucía Puenzo, de “XXY” (2008) e “O Médico Alemão” (2013).  Terceiro, o do cineasta brasileiro Caetano Gotardo, do excelente “O Que Se Move” (2013).




O jovem diretor brasileiro Marco Dutra realizou “Quando Eu Era Vivo” (2012) e “Trabalhar Cansa” (2011), este em parceria com Juliana Rojas, dois filmes bem recebidos pela crítica.

“O Silêncio do Céu” ganhou no 44º. Festival de Cinema de Gramado o prêmio de melhor filme pelo júri da crítica, além de melhor desenho de som e o prêmio especial do júri.  Um belo trabalho de equipe que uniu brasileiros, uruguaios e argentinos numa autêntica produção latino-americana.  Fato raro e alvissareiro.





domingo, 18 de setembro de 2016

O HOMEM QUE VIU O INFINITO


Antonio Carlos Egypto





O HOMEM QUE VIU O INFINITO (The Man Who Knew Infinity).  Inglaterra, 2015. 
Direção e roteiro: Matt Brown.  Com Jeremy Irons, Dev Patel, Devika Bhise, Stephen Fry, Toby Jones.  110 min.



De Madras (hoje, Chennai), no extremo sul da Índia, no início do século XX, surgiu um matemático brilhante, que contribuiu com fórmulas decisivas para o avanço da ciência e o alcance de soluções muito complexas.  Com um detalhe: Ramanujan (1887-1920), esse indiano, notável matemático, não tinha estudo formal nenhum.  Ainda assim, seu talento era tão evidente que ele acabou numa universidade inglesa, em Cambridge (onde também estava Bertrand Russell) e chegou a pertencer à Royal Society de Ciências, uma honraria por merecimento.




O filme “O Homem que Viu o Infinito”, de Matt Brown, pretende contar a história real desse gênio da matemática, especialmente no seu período de estudos e publicações na Inglaterra, tendo como mentor e amigo, apesar da improbabilidade que sempre cercou essa amizade, do professor e também ilustre matemático G. H. Hardy.  O período é o que começa em 1913, atravessa toda a Primeira Guerra Mundial e a ultrapassa um pouco.  Oceanos de distância os separavam, mesmo estando próximos, se pensarmos nas crenças, modos de vida, hábitos alimentares, de vestuário, entre outras coisas, associados a um e a outro. 

Por outro lado, a guerra distanciou Ramanujan de sua amada e família, de modo absoluto.  No filme, também pela correspondência não entregue, um dos elementos de uma narrativa novelesca, que põe a tal realidade a serviço de uma fórmula comercial de contar histórias para entreter e agradar o público.




Outro elemento é a adoção da ideia de que todo o conhecimento absurdo daquele gênio da matemática derivava de uma intuição divina.  Daí a dificuldade que o indiano teve para construir as provas acadêmicas daquilo que ele “sabia que era assim “.  Quem quiser crer que a matemática deriva diretamente de Deus, ou de uma deusa hindu, que compre essa narrativa.  A mim, não pode convencer, como não deveria convencer o grande professor Hardy, ateu convicto, mas, sabe como é, né?

O que não dá é para vender a ideia de que a realidade é – ou foi – assim.  Isso é uma interpretação religiosa dos fatos.  Algo que está em evidência em certos estudos pseudocientíficos, associados à física quântica, na atualidade.  Em todo caso, Deus ainda carece de provas, não basta a convicção. Tal como andou se falando muito por aqui.




“O Homem que Viu o Infinito” é uma boa produção, a história é bem contada, de forma linear, filmada na Índia e na Inglaterra, em belíssimas locações e tem um elenco muito bom.  Quem faz Ramanujan é Dev Patel, ator de “Quem Quer Ser um Milionário?”, e o professor Hardy é o papel de Jeremy Irons.  A amada Janaki é vivida pela bela atriz Devika Bhise, convincente no seu sofrimento.  O que não me convence é a ideologia do filme.





quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Viva a França!

Tatiana Babadobulos




VIVA A FRANÇA! (En Mai Fais Ce Qu'il Te Plaît), França, 2015. Direção: Christian Carion. Roteiro: Christian Carion, Andrew Bampfield e Laure Irmann.  Com August Diehl, Joshio Marlon, Alice Isaaz.  114 min.



Para recontar o êxodo de milhões de franceses durante a Segunda Guerra Mundial, nos anos 1940, o cineasta francês Christian Carion se vale do olhar de um pai alemão e de seu filho de oito anos de idade.

É durante a invasão nazista na França que se passa o longa-metragem “Viva a França!” (“En Mai Fais Ce Qui’il Te Plaît”). Na trama, Hans (August Diehl), que se considera comunista, foge da Alemanha e, fingindo ser belga, se mistura com os franceses que vivem em um pequeno vilarejo. Proíbe o filho, Max (Joshio Marlon), por exemplo, de falar alemão. 
Mesmo entre os dois, o idioma oficial deve ser o francês.

Hans, porém, é descoberto e preso. Max fica para trás, mas é cuidado pela professora, Suzanne (Alice Isaaz). Com a ajuda dela, aliás, o garoto tem uma ótima ideia para não desistir do pai.

Junto com o prefeito e outros habitantes do vilarejo, os dois vão viajar de carroça, a pé, de bicicleta, com um caminhão velho, rumo ao norte, para, então, atravessar até o Reino Unido e fugir dos nazistas.



Ter como enfoque o olhar das crianças não é novidade no cinema, mas é sempre emocionante. Em “O Menino do Pijama Listrado” (2008), o tema é o holocausto, contado aos olhos de um pequeno rapaz. Já no italiano “A Vida É Bela” (1997), o pai finge estar participando de uma grande brincadeira para driblar as emoções do filho, pois, na verdade, está em um campo de concentração. Os dois finais a história já deu conta de escrever.

Neste longa francês, pontuado pela música original de Ennio Morricone (“Por um Punhado de Dólares”, “Os Intocáveis”), a trama é baseada em histórias da mãe do cineasta.

“Viva a França!” é um road-movie que se passa no interior daquele país e traz pequenas histórias de família, enchendo o espectador de esperança.

O longa passou pelo Festival Varilux de Cinema Francês, neste ano, e agora estreou comercialmente.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

HESTÓRIAS DA PSICANÁLISE


Antonio Carlos Egypto





HESTÓRIAS DA PSICANÁLISE.  Brasil, 2015.  Direção: Francisco Capoulade.  Documentário.  96 min.


Impossível falar do documentário que trata de Freud, sua leitura e aplicação no Brasil, sem se referir ao esdrúxulo título dado ao filme: “Hestórias (sic) da Psicanálise – Leitores de Fred”.  Com hestórias, tenta-se criar um neologismo para abarcar o fato de que aborda questões históricas da psicanálise no Brasil e relata casos e situações ficcionais, invenções ou brincadeiras que fizeram parte disso.  Para evitar escrever Histórias e Estórias da Psicanálise, tascaram logo Hestórias.

Faz sentido?  Eu acho que não.  Para começar, a palavra estória não vingou na língua portuguesa, foi uma ideia infeliz, não aprovada, nem recomendada, por quem se expressa em bom português.  Os dicionários, quando a registram, geralmente o fazem criticamente.  A palavra história abarca todo o sentido que se pretendeu considerar aqui.




O cinema hoje já nem mais concebe documentário e ficção como coisas totalmente diferentes.  Todo fato comporta não só interpretações várias, mas memórias e lembranças que são inevitavelmente seletivas e a verdade, como tal, se perde.  Há um diálogo, uma fusão, um questionamento e uma integração do documentário com a ficção.  Os filmes refletem esse amálgama de fatos, situações, encenações, personagens, que se confundem no real, no imaginário, oriundos do mundo interno ou da dimensão sociológica, sem delimitações claras.

Isso posto, é bem intencionada a ideia de aproximar Freud de um público mais amplo do que o dos profissionais da área.  Já que o povo diz que “Freud explica”, que tal entender um pouco quem foi ele e por que ele jamais teve a intenção de explicar tudo, como imagina o leigo.

Para isso, o diretor Francisco Capoulade, psicanalista e documentarista, não poupou esforços e foi atrás de um grande número de entrevistados ilustres, como Christian Dunker, Lya Luft, Joel Birman, André Medina Carone, Leopold Nosek, Monique David-Mérard, Mário Eduardo Costa Pereira, Paulo Sérgio Rouanet, Miriam Chnaiderman, Marcelo Masagão e muitos outros.  Filmou cenas de mar por dentro, foi até as ruas de Viena, procurando contextualizar o universo de Freud também nessas imagens.




No entanto, o filme não vai além de ser um documentário bastante convencional, em que os depoimentos, sejam de que tipo forem, ocupam quase todo o espaço e, se sucedendo um após o outro e alternando as falas, vão interessar muito a quem já faz parte desse universo, mas se tornarão cansativos para o público em geral.  Além de que algumas questões, embora relevantes, são eruditas.  A discussão de como se leu Freud em português, a partir da tradução em inglês do original alemão e, com isso, se introduziram distorções conceituais, dificilmente envolverá os que não se utilizam da obra, brilhante, genial, de Freud para objetivos profissionais.


É verdade que o trabalho do grande pensador vai muito além do que a sua aplicação na análise de pacientes, aqui ou em qualquer outro canto do mundo.  Mas não será dessa forma que se conseguirá alcançar uma dimensão maior de popularização da obra freudiana.  O documentário “Hestórias da Psicanálise” vai interessar aos psicanalistas, psicólogos, psiquiatras e outros médicos e educadores, em função das informações sobre a psicanálise no Brasil e pelas falas inteligentes dos ilustres entrevistados.  Como cinema, nada de novo, além do título despropositado.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

AQUARIUS


Antonio Carlos Egypto




AQUARIUS, Brasil, 2015.  Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho.  Com Sônia Braga, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Humberto Carrão, Carla Ribas.  143 min.



A personagem Clara, em grande desempenho de Sônia Braga, é uma mulher-coragem, que não hesita em desafiar interesses poderosos para preservar seus direitos.  No caso, o de habitar um apartamento do qual ela cuida com carinho, de frente para o mar, na praia de Boa Viagem, em Recife.  Num ambiente aconchegante e cercado de produtos culturais, principalmente livros e LPs de vinil, ela vive sua vida tranquila de viúva, jornalista e escritora aposentada.  Seus três filhos adultos já estão fora de casa, vivendo suas próprias vidas.

Seu direito fica ameaçado por uma empresa de engenharia que resolve demolir o prédio onde ela mora e construir lá um novo empreendimento.  Compra todas as unidades, mas Clara não está disposta a vender a sua.




Nesse confronto, que se estabelece porque os interesses em jogo são incompatíveis, Kleber Mendonça Filho vai construindo uma trama que revela os múltiplos aspectos das relações que permeiam a sociedade brasileira, sua história, os conflitos de classe e de poder, o caráter autoritário que a posse e o dinheiro trazem, o vale-tudo que acaba sendo gestado para impor e obrigar decisões que contrariam direitos individuais.  E mais: mostrar quem pode mais, a qualquer preço, com a disposição de se utilizar da violência mais abjeta.  Isso se faz, no entanto, sob a aparência de cordialidade.  Ou seja, do homem cordial a serviço da opressão.  Para tentar resistir a isso, é necessária uma tenacidade absurda.  Há um sistema que sustenta tudo isso e fragiliza o indivíduo na luta por seus direitos.  O que torna a resistência uma questão política fundamental.

Há outras questões humanas que permeiam essa narrativa, envolvendo elementos como o câncer e o preconceito, o desejo e a pornografia, as relações familiares e os interesses de cada um, o respeito a uma reação obstinada que a todos pode parecer enlouquecida, a avalanche de uma religiosidade que também oprime e por aí vai.




“Aquarius” alonga sua história para recheá-la da complexidade das relações humanas e sociais e possibilitar uma reflexão séria sobre a realidade brasileira dos dias atuais.  Torna-se um produto oportuno e importante, nesse momento grave que o país vive.  Não podemos ser governados por simplificações grosseiras, ódios e pelos interesses mais inconfessáveis.  Temos de encontrar nosso eixo, nosso rumo, superando atavismos históricos terríveis.  Em “O Som Ao Redor”, de 2013, o diretor Kleber Mendonça Filho já havia apontado nessa mesma direção e partido também das questões urbanas da modernidade, onde os arcaísmos se escondem.

O filme tem uma trilha sonora forte e expressiva, composta quase totalmente pela MPB da melhor cepa que hoje, em tempos digitais, já pode ser considerada antiga.  Mas é magnífica.  Tal como a figura da personagem Clara, a quem a trilha, de certo modo, descreve.  Destaque para a canção “Hoje”, composição e interpretação de Taiguara.





“Aquarius” foi exibido no Festival de Cannes e teve grande repercussão, não só pela qualidade do trabalho, mas também pela manifestação que a equipe do filme realizou no tapete vermelho, denunciando ao mundo o que estava ocorrendo na política brasileira.  Isso incomodou muito os que estão agora no poder.  Por conta disso, pode deixar de ser indicado como o nosso representante, na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro, uma indicação que ele, sem dúvida, mereceria.  



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A COMUNIDADE


Antonio Carlos Egypto




A COMUNIDADE (Kollektivet).  Dinamarca, 2015.  Direção e roteiro: Thomas Vinterberg.  Com Ulrich Thomsen, Trine Dyrholm, Lars Ranthe, Fares Fares, Lise Koefoed.  111 min.



Uma casa linda e enorme, em lugar privilegiado de Copenhague, chega de herança para Erik (Ulrich Thomsen), casado com Anna (Trine Dyrholm).  O desejo de viver numa casa assim só se viabiliza envolvendo outras pessoas e isso parece encantar Anna, que acaba por convencer o marido a montar uma comunidade com pessoas amigas e conhecidas.  Estamos em 1975 e a ideologia do movimento hippie, de paz, amor e vida coletiva, de preferência na natureza, estava em alta.

Ao contar essa história, o filme de Thomas Vinterberg, “A Comunidade”, procura fazer uma radiografia do que está em jogo nas relações humanas, em uma proposta como essa.  Para começar, conviver com todo tipo de diferenças: de classes sociais, crenças, religiões, características de personalidade, aspectos geracionais, sentimentos que afloram uns em relação aos outros, medos, ansiedades, excessos, excentricidades.  É preciso estabelecer regras claras de funcionamento e de como punir quem não as cumprir.  As decisões têm de ser tomadas de forma coletiva e democrática.




Há ainda a questão da posse do imóvel e do aluguel.  Por exemplo, em uma das reuniões da casa, decidiu-se que o aluguel a ser pago por cada um deveria ser proporcional à sua renda, o que acabou produzindo um aumento brutal no aluguel do membro mais rico.

Viver em comunidade supõe uma dedicação ao coletivo muito rara de se encontrar em quem foi educado nos cânones individualistas de um capitalismo altamente competitivo.  É bonito, sobretudo para as crianças, conviver numa família maior, enorme e calorosa.  Mas o desapego dos pais precisa ser muito grande, também.  Alguns não resistirão por muito tempo e cairão fora.  Parece inevitável.




Mudanças como essas, para serem possíveis e duradouras, exigem um teste de realidade que, mais cedo ou mais tarde, se imporá. Se o principal atingido for o casal de intelectuais que concebeu o experimento, a coisa se complica muito.

Experiências de vida coletiva, de inspiração socialista, parecem produzir um tipo de felicidade que tem hora para acabar.  Pelo menos, no nosso contexto socioeconômico capitalista.  Em que pese o êxito do Estado de Bem-Estar Social construído na Escandinávia, que resiste lá até hoje.  As questões econômicas podem pesar menos para cada um, nos países ricos, mas a realização do sonho coletivo ainda não encontrou registro histórico palpável.




Estou, naturalmente, pensando em cima da provocação que o filme “A Comunidade” me fez.  É que esse novo trabalho do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg lida com a complexidade do tema de forma competente e com profundidade.  O realizador de “Festa de Família”, de 1988, “Submarino”, de 2010, e “A Caça”, de 2012, enfrenta questões sérias com coragem e não teme a polêmica.  É um grande cineasta.


O elenco é igualmente muito bom.  Rende bem.  O casal de protagonistas, que enfrenta questões emocionais mais intensas, mostra do que é capaz, em papéis difíceis.  Ulrich Thomsen é um talento reconhecido, tem uma larga carreira no cinema e TV escandinavos.  Trine Dyrholm, também, e recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim deste ano, por este filme.



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

CINEMA ITALIANO


Antonio Carlos Egypto


O cinema italiano tem uma tradição histórica de criatividade, talento, inovação e comunicação com o público invejáveis.  Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, com a eclosão do movimento cinematográfico do neorrealismo até, pelo menos, o final dos anos 1980, a Itália esteve no topo da qualidade do cinema mundial.  Grandes cineastas que marcaram forte contribuição para a história do cinema, como Fellini, Antonioni, Pasolini, Visconti, Roberto Rossellini, Ettore Scola, Vittorio De Sica, Valerio Zurlini, Mario Monicelli, faziam parte desse time. 

Atores icônicos, como Marcello Mastroianni e Vitorio Gassman, e atrizes, como Sophia Loren, Gina Lollobrigida e Silvana Mangano, são exemplos de grandes intérpretes do cinema italiano.   E que dizer dos roteiristas, dos grandes diretores de fotografia, de músicos da dimensão de um Nino Rota?  O cinema italiano é reverenciado pelos cinéfilos e pelo público em geral, que viveu e acompanhou essa história toda.




Hoje, como está o cinema italiano?  Tentando corresponder ao passado glorioso que lhe foi legado, mas não dá para encarar.  E é até injusto esperar algo semelhante.  Não tem como comparar.  É como esperar que a atual seleção brasileira de futebol se equiparasse à de Pelé, Tostão, Gerson e Rivelino, de 1970.  Tem Neymar e a medalha olímpica, assim como a Itália tem um Nanni Moretti, mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Quem quiser conferir de perto a produção italiana atual tem a chance de acompanhar a 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, de 25 a 31 de agosto, em 7 capitais brasileiras: São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.  Serão exibidos 7 filmes inéditos bem recentes, sendo um também inédito, de 2004.  Além disso, está em cartaz regular nos cinemas a comédia “Funcionário do Mês”, grande sucesso de bilheteria na Itália.  Vou fazer um rápido comentário sobre os filmes que eu vi.

LOUCAS DE ALEGRIA (La Pazza Gioia), 2016.  Direção de Paolo Virzì.  Com Valeria Bruni Tedeschi, Micaela Ramazzotti, Anna Galiena, Valentina Carnelutti.  118 min.

Comédia maluca, sobre mulheres com distúrbios mentais, consideradas socialmente perigosas, vivendo numa clínica psiquiátrica.  Quando duas delas saem para o mundo exterior, tudo pode acontecer.  O problema é a visão de loucura que o filme passa, reforçando preconceitos e a ideia de encarceramento e controle como indispensáveis.  Tem até uma cena em que uma delas pede um eletrochoque.  Aí não dá.  Tem um toque libertário, do tipo “Thelma e Louise”, mas é ideologicamente questionável a abordagem do filme.  De resto, a produção é boa e o elenco, forte.


Loucas de Alegria


AMOR ETERNO (La Corrispondenza), 2016.  Direção: Giuseppe Tornatore.  Com Jeremy Irons, Olga Kurylenko.  116 min.

Filme falado em inglês, do diretor de “Cinema Paradiso”, de 1988, com o inglês Jeremy Irons e a ucraniana Olga Kurylenko em ótimos desempenhos.  Se os cientistas conseguem se comunicar com estrelas que já morreram, por que os seres humanos não poderiam também se relacionar amorosamente, após a morte de um deles, pelo menos por alguns meses?  Para isso, é possível se valer não só da capacidade de planejamento como dos mais modernos recursos tecnológicos disponíveis.  Romance que exagera na dose, no apelo emocional, apesar da engenhosidade da proposta.  Não corresponde ao que os nomes envolvidos criam de expectativas positivas.  Os muito românticos devem curtir.


Amor Eterno


AS CONFISSÕES (Le Confessioni), 2016.  Direção de Roberto Andò.  Com Toni Servillo, Daniel Auteuil, Connie Nielsen, Pierfrancesco Favino.  100 min.

Uma reunião de ministros de economia dos países mais fortes do mundo, o G8, inclui, por razões algo misteriosas, mas pessoais, do líder do encontro, um monge católico, papel de Toni Servillo, o grande ator italiano do momento.  Em discussão, a manipulação dos destinos das nações e as consequências que decisões que estão para serem tomadas podem causar às pessoas.  O capitalismo, tecendo seus fios globais, com suas dúvidas e seus remorsos.  Um outro mundo é possível.  Legal.  O problema é que nesse filme a única alternativa que se apresenta são os valores religiosos.  Não há nada no meio, entre a crueldade dos mercados e a concepção cristã do mundo, externada por um padre.  E que padre: o ator Toni Servillo.


As Confissões


AS CONSEQUÊNCIAS DO AMOR (Le Conseguenze dell’ Amore), 2004.  Direção: Paolo Sorrentino.  Com Toni Servillo, Olivia Magnanio.  100 min.

Uma história que envolve assassinatos e máfia, contada em tom baixo e completamente misterioso.  Absolutamente nada é explicado ao espectador da vida de um estranho senhor depressivo, solitário, calado a ponto de nem responder cumprimentos e que esconde um grande segredo.  Ao contrário do que pregava Hitchcock, como tudo fica escondido, não há sintonia ou cumplicidade com o espectador.  Mais para o final do filme, em vez de mostrar a vida do referido personagem, é ele quem fala tudo para a moça com quem se envolveu.  Tanto mistério para ser contado de uma vez só, quando já perdemos o interesse pela história.  Erro tático do diretor Paolo Sorrentino, de “A Grande Beleza”, de 2013 e “Juventude”,de 2015, em seu primeiro longa ficcional.  Dá para entender por que o filme permaneceu inédito no circuito, apesar de contar também com Toni Servillo como protagonista, num desempenho contido, perfeito.


Funcionário do Mês


FUNCIONÁRIO DO MÊS (Quo Vado), 2016.  Direção: Gennaro Nunzianto.  Com Checco Zalone, Eleonora Giovanardi, Sonia Bergamasco, Maurizio Micheli.  86 min.

Ótima comédia sobre a luta pela preservação de direitos, hoje tão ameaçados pelas políticas de austeridade na Europa, aqui e mundo afora.  Funcionário público com um emprego fixo garantido, solteiro e sem filhos, vive no melhor dos mundos numa pacata cidade italiana.  Até que o governo decide remanejar os postos de trabalho, tentando estimular demissões voluntárias, mediante gratificações.  Mas não para ele, que desde a escola primária desejava um posto fixo.  A luta para manter esse posto vai  levá-lo até a aceitar a incumbência de atuar junto a pesquisadores italianos, em um centro norueguês, no Polo Norte.  A ideia da comédia não é nova, mas a discussão do momento, envolvendo o Estado de Bem-Estar Social em declínio, a torna muito atual e as situações são engraçadas.  Megasucesso com o comediante Checco Zalone.



sexta-feira, 19 de agosto de 2016

FRANCOFONIA - O LOUVRE SOB OCUPAÇÃO


Antonio Carlos Egypto




FRANCOFONIA – O LOUVRE SOB OCUPAÇÃO (Francofonia – Le Louvre Sous L’Ocupation).  Produção europeia, 2015.  Direção: Alexandr Sokurov.  Com Louis-Do de Lencquesaing,  Benjamin Utzerath, Vincent Nemeth.  84 min.



História e Arte são elementos centrais do trabalho do cineasta russo Alexandr Sokurov.  Em 2002, em “A Arca Russa”, ele percorreu o museu Hermitage, em São Petersburgo, num único plano-sequência, mostrando as obras de arte associadas a elementos da história russa, sendo encenados à medida em que a visita acontecia.

Agora, o foco de seu interesse é o Museu do Louvre, em Paris, num momento delicado de sua história: o da ocupação nazista.  “Francofonia – O Louvre sob Ocupação” nos oferece a oportunidade de conhecer um pouco da história desse museu emblemático, que reflete a própria história da França, exibe algumas de suas obras pictóricas e esculturas, abordando as relações entre poder e arte e os significados associados aos acervos culturais.

Os museus representam a própria civilização em seu momento mais glorioso: o da criação artística.  Para Sokurov, não há nada mais importante do que eles.  O que significaria a França sem o Louvre, ou a Rússia, sem o Hermitage?  É isso o que talvez explique a luta pela preservação de obras de arte em meio às guerras. 




Esta, porém, não é uma questão a ser entendida linearmente.  “Francofonia” mostra que o poder nazista pretendia incorporar a cultura e a arte francesas a um suposto Estado francogermânico, que se sucederia aos conflitos da Segunda Guerra Mundial. Daí a reverência, o respeito e o desejo de preservar o patrimônio artístico-cultural francês.  Já quanto ao acervo cultural soviético, não havia qualquer preocupação de preservação.  Esse era o inimigo a ser eliminado, varrido do mapa civilizatório.  A justificativa para o combate à arte degenerada, tal como mostra muito bem o documentário “Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen, de 1992, é puramente ideológica.  O combate ao comunismo soviético levaria tudo para essa categoria de avaliação. Considere-se, ainda, que preservar, aqui, significa também roubar, saquear, como resultado das guerras.  A própria figura de Napoleão Bonaparte é chamada em encenação do filme para, não só apreciar a arte em que ele figurava, mas para jactar-se de ter amealhado todo aquele acervo maravilhoso para a França.

Obras de grande valor artístico também têm de ser transportadas e estão sujeitas a todo tipo de risco, como o representado pelos temporais que atingem os navios.  De qualquer modo, os bombardeios são fatais.  E foi preciso deslocar a maior parte das peças do Louvre, durante a Segunda Guerra, para evitar um possível desastre.




Se alguém se preocupa seriamente com essas coisas, tanto estando do lado dos invasores quanto dos invadidos, é sinal de que há esperança e civilização possíveis.  Em “Francofonia”, isso é mostrado pela relação entre o diretor do Louvre do período, Jacques Jaujard (1895-1967) (Louis-Do de Lencquesaing), que continuou seu trabalho junto ao governo colaboracionista de Vichy, e o conde Wolff Metternich (1893-1978) (Benjamin Utzerath), o interventor que, em nome do governo alemão, tinha a tarefa de controlar o acervo artístico e, quando solicitado, enviá-lo para a Alemanha.  O que ele evitou de forma consciente que, de fato, se concretizasse.

A parceria de Jaujard e Metternich em nome da arte, em plena guerra, transforma até o sentido de palavras como colaboracionismo, obediência e patriotismo, tão comuns em referências bélicas, porque surge uma ética que se superpõe a essas questões, em nome da humanidade e da cultura universal.




“Francofonia” é um filme rico, que dá margem a muitas reflexões de toda ordem e é criativo, do ponto de vista cinematográfico, além de visualmente muito bonito.  Cenas documentais filmadas na época se acoplam a encenações atuais, por meio das tonalidades fotográficas.  Passado e presente se integram em panorâmicas da cidade de Paris e do Louvre, os personagens dialogam com as obras de arte dentro do museu e o próprio filme se faz à nossa frente, contando com as explicações narradas pelo próprio Sokurov. 

É um filme sofisticado, que não tem a pretensão de atingir grandes bilheterias.  É daquelas coisas pelas quais os cinéfilos babam, mas muito gente acha simplesmente tedioso.  Fazer o quê?  Não é todo mundo que consegue apreciar um biscoito fino.



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

BEN-HUR


Antonio Carlos Egypto





BEN-HUR (Ben-Hur)Estados Unidos, 2015.  Direção: Timur Bekmambetov.  Com Jack Huston, Toby Kebbel, Rodrigo Santoro, Morgan Freeman, Sofia Black, Ayelet Zurer, Pilou Asbaek.  119 min.



Lew Wallace (1827-1905), escritor e militar norte-americano, além de advogado, diplomata e estudioso da Bíblia, publicou em 1880 um romance que faria história: “Ben-Hur, a Tale of the Christ”.  O personagem fictício Judah Ben-Hur, um príncipe judeu, traído por seu amigo de infância (irmão de criação?), o romano Messala, acaba nas galés, escravizado.  Foge, recupera sua liberdade, se prepara e acaba voltando para se vingar de Messala, numa violenta corrida de bigas, dessas que envolvem vida e morte.  Contemporâneo de Jesus Cristo, acaba aderindo aos ensinamentos do Mestre, aquele que o acolheu num momento de desespero, oferecendo-lhe água, a despeito da proibição dos soldados romanos.




O cinema sempre flertou com esse romance, desde os seus primórdios.  A primeira adaptação foi um curta-metragem de 15 minutos, dirigido pelo canadense Sidney Olcott, em 1907, quando o cinema ainda engatinhava.  Em 1925, o cinema silencioso dos Estados Unidos produziu o primeiro longa baseado no romance, “Ben-Hur: Uma narrativa de Cristo”, dirigido por Fred Niblo, com um grande astro do cinema da época: Ramón Novarro.  É uma produção caríssima e avançada, para o período.

Foi em 1959 que William Wyler (1902-1981) dirigiu a superprodução “Ben-Hur” como um grande épico e super espetáculo, que abocanhou 11 Oscars e teve Charlton Heston no papel principal.  Aquela produção envolveu cerca de 300 sets de filmagem, 100 mil figurinos e 8 mil figurantes, segundo informações do DVD que a Warner lançou do filme no mercado brasileiro.  Ou seja, uma coisa grandiosa.  E muito bem-feita.




No entanto, o cinema de Hollywood volta à carga e produz uma nova versão do mesmo romance, só que agora adaptado pela trineta do autor, Carol Wallace, que pretendeu reescrever a história de forma atualizada e mais acessível.  Precisava?  Tenho minhas dúvidas.

Do ponto de vista cinematográfico, o que sempre interessou, e continua interessando nessa narrativa, foi a corrida de bigas.  Ela praticamente domina o filme de 1907, é o principal destaque em 1925 e se tornou uma cena antológica do cinema, no filme de William Wyler.  No atual remake, não é diferente.  Os efeitos especiais mais modernos, a tela IMAX e o 3D dão pleno destaque ao que interessa ao público ver: a famosa corrida de bigas, agora em 2016.  É inegável o impacto que causa, sempre causou, a tal corrida, nos filmes Ben-Hur.  Na atual adaptação, não só a corrida, mas praticamente todo o filme, aposta em cenas impactantes.  A pretensão é ser superlativo, espetáculo em todos os sentidos.  Que procura reforçar a visão judaico-cristã do mundo.




O elenco, capitaneado por Jack Huston, no papel título, e Toby Kebbel, no de Messala, ainda tem o brasileiro Rodrigo Santoro como Jesus Cristo.  Uma curiosidade: no filme de 1959, Cristo era citado e aparecia apenas de costas.  Aqui, ele entra na história de forma mais clara.  Morgan Freeman, o mais famoso e conhecido do elenco, está no papel do sheik Ilderim.  Sofia Black e Ayelet Zurer são as estrelas femininas do filme.  Portanto, essa superprodução não é um filme de grandes astros.  Mas deve corresponder às expectativas de entretenimento das plateias.  Afinal, é um blockbuster, que, como de costume, vai invadir um grande número de telas de cinema e contará com uma grande promoção midiática.  Deve ajudar o Rodrigo Santoro a alavancar ainda mais sua carreira internacional.  Merecidamente.