quarta-feira, 26 de abril de 2017

VERMELHO RUSSO


Antonio Carlos Egypto


Martha Nowil e Maria Manoella junto ao cartaz do filme


VERMELHO RUSSO.  Brasil, 2016.  Direção: Charly Braun.  Com Martha Nowil, Maria Manoella, Michel Melamed, Soraia Chaves.  90 min.



O ponto de partida de “Vermelho Russo” é um diário de viagem escrito por Martha Nowil, contando a experiência que viveu junto com uma amiga, ambas atrizes, fazendo um curso sobre o famoso método de Stanislavski, em Moscou.  Podem-se imaginar as dificuldades de comunicação com um idioma desconhecido, elementos culturais bem distintos, o frio, as nevascas, e tudo o que faz da Rússia majestosa e algo assustadora.

Martha Nowil, que também é atriz do filme, escreveu com o diretor Charly Braun o roteiro de “Vermelho Russo”.  Eles foram alinhavando as experiências, acrescentando, criando, modificando, inventando coisas.  E assim saiu uma narrativa ficcional, que constantemente sofria mudanças.  Chegando ao ponto de que nem eles mesmos, que construíram a trama, sabem direito agora o que é documental e o que é ficcional.

Esse é o maior trunfo do filme, as coisas se mesclam de um tal modo que experiência e imaginação já não se distinguem.  O que nos remete à velha discussão do que é realidade e do que é fantasia.


Equipe de Vermelho Russo


Quem já viajou um pouco pelo mundo sabe que o que a lembrança retém do que foi vivido é algo muito seletivo.  Detalhes assumem uma importância que surpreende a nós mesmos, tempos depois.  Quando se compartilha a experiência, a partir de relatos orais, fotos ou filmes, algumas coisas crescem na imaginação, outras, desaparecem.  Situações um tanto desagradáveis podem ser esquecidas, para que se fique com o que foi o melhor de uma viagem turística, por exemplo. Ou aflorarem em importância, reforçando estereótipos e preconceitos, diante daquilo que é muito diferente de mim ou dos meus valores e costumes.

O que é real em tudo isso?   O que a gente acredita que seja, o que é compartilhado com os amigos como sendo verdade?  O que a gente repete tanto que acaba acreditando que é o certo?  Poderíamos ir longe nessa discussão, mas o que importa aqui é que histórias nascem, se desenvolvem e alimentam o nosso espírito.  Alimento tão essencial quanto aquele que nos nutre a vida material.

A história que “Vermelho Russo” nos conta é bem divertida.  Marta (Martha Nowil) e Manu (Maria Manoella) são as protagonistas que vivem a experiência moscovita, colaborando, sendo solidárias, competindo e brigando muito.  Ambas desempenham seus papéis com muita alegria de viver e muito próximas de si mesmas.  A Marta é vivida pela Martha, a Manu, ou Manuela, é vivida pela Maria Manoela.  Notaram a sutileza do h ausente na personagem de uma e do u em vez do o, na outra?  O ótimo Michel Melamed, que também tem um papel no filme, é Michel, aí desaparece a diferença.  De qualquer modo, eles não estão sendo eles mesmos, mas personagens próximos deles mesmos.  Enfim, um belo trabalho que, não por acaso, foi premiado como melhor roteiro, no Festival do Rio 2016.



Charly Braun


O diretor carioca Charly Braun, que já nos tinha dado um filme belíssimo, “Além da Estrada”, de 2011, todo rodado no Uruguai, agora faz “Vermelho Russo”, todo rodado na Rússia.  Ele sabe explorar bem esse clima de as pessoas estarem fora do seu ambiente natural.  Elas estão conhecendo, se surpreendendo, em busca.  As coisas têm frescor e juventude.  Têm leveza e profundidade.  Um cineasta talentoso, sem dúvida.



segunda-feira, 24 de abril de 2017

JOAQUIM


Antonio Carlos Egypto




JOAQUIM.  Brasil, 2016.  Direção e roteiro de Marcelo Gomes.  Com Júlio Machado, Isabel Zuaa, Nuno Lopes, Rômulo Braga.102 min.


O alferes Joaquim vive seu tempo no século XVIII, na colônia dos Brasis, parte do império português.  Além de funcionar como um dentista, ou melhor, um tira dentes para o povo, ele faz viagens perigosas a serviço da coroa, combatendo contrabandistas de ouro.  A produção do ouro estava em declínio.  Visava, com isso, alcançar a patente de tenente, que lhe permitiria comprar a liberdade da escrava Preta, por quem estava apaixonado.

É dessa forma que o diretor Marcelo Gomes nos apresenta o homem que viraria herói nos livros de História.  Ao humanizá-lo, nos coloca próximos da figura de um homem do seu tempo, que acabou se tornando um rebelde anticolonialista.

O cineasta recifense Marcelo Gomes é o mesmo dos excelentes “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de 2005, e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, em codireção com Karim Aïnouz, em 2009.  Já basta para recomendar este novo trabalho.  Mas ainda vale citar, em 2012, o filme “Era Uma Vez, Eu, Verônica”, outra boa obra dele, ainda que inferior às anteriores.

“Joaquim” tem uma abordagem diferente, original, para tratar de um tema histórico tão relevante ao país.  Pode servir, também, a objetivos didáticos, trazendo a história para perto do aluno, tirando a carga pesada e o ranço do comportamento heróico.  E ajudando a pensar melhor, inovar na compreensão e avaliação dos fatos.  Sem grandes astros, mas com atores convincentes, o filme apresenta bons desempenhos. 


                            MARTÍRIO




 O documentário nacional MARTÍRIO, de Vincent Carelli, que está em cartaz nos cinemas, aborda a política indigenista dos governos brasileiros junto aos índios Guarani-Kaiowá, que sempre buscam recuperar suas terras sagradas e são tratados como invasores.  Constatamos que, de Getúlio Vargas a Dilma Rousseff, pouca coisa mudou no massacre a que estão sujeitas as populações indígenas frente aos interesses do agora assim chamado agronegócio.  O filme é denso e informativo, embora muito longo.  Merecia uma edição mais enxuta, o que seria mais eficaz para os seus objetivos.



terça-feira, 18 de abril de 2017

ALÉM DAS PALAVRAS


  Antonio Carlos Egypto




ALÉM DAS PALAVRAS (A Quite Passion).  Inglaterra, 2016.  Direção e roteiro: Terence Davies.  Com Cynthia Nixon, Jennifer Ehle, Keith Carradine, Catherine Bailey, Jodhi May.  125 min.



“Além das Palavras”, do diretor britânico Terence Davies, focaliza a vida da poetisa moderna norte-americana Emily Dickinson (1830-1886).  Ela só foi reconhecida após a morte, teve apenas uns dez poemas publicados em vida.  Mesmo assim, alguns deles saíram sem nome, sem o devido crédito. 

Emily viveu uma vida discreta, reclusa, em que a família era o seu universo e dela nunca se afastou, inclusive rejeitando, até agressivamente, várias propostas de casamento.  Mil e setecentos poemas foram encontrados após sua morte, revelando uma obra poderosa.  Da vida da poetisa pouco se sabe, exceto pelas cartas que escreveu.

As questões de gênero, que eram um forte fator da opressão feminina da época em que viveu Emily Dickinson, impediram que seu talento literário pudesse brilhar e se destacar socialmente.  Ambiente familiar acolhedor, complexos quanto à presumida feiura e incapacidade de colocar em ação os sentimentos que a oprimiam, parecem ter tido um peso importante nessa história.




O cineasta Terence Davies mergulhou nesse universo familiar de Emily Dickinson, e na sua bela poesia, e construiu um filme impecável, de grande talento e beleza.

Desde as primeiras cenas, entra-se em cheio na ambientação do século XIX.  Todos os detalhes cuidadosamente recriados mostram a vida dentro da casa de uma família com posses.  Móveis, objetos de uso e decorativos, roupas, ornamentos, janelas, cortinas, são absolutamente perfeitos.  A iluminação é um destaque à parte, com uma fotografia deslumbrante para a descrição daquela realidade.  A luminosidade interna, que ousa romper a escuridão, sem nunca afrontar o tom mortiço do ambiente, nos remete a um mundo que restringe, mas também protege, um universo familiar que cria uma zona de conforto,  parece bastar-se a si mesmo.  Assim como a personagem que sofre, vive sua solidão em família, mas ali se protege do mundo exterior.

A narrativa põe em relevo a questão de gênero, a opressão ao desabrochar e ao desenvolvimento femininos, numa sociedade que confinava e impedia o êxito e o sucesso das mulheres, desvalorizando de modo absoluto seus talentos que escapassem à esfera doméstica.




O que Terence Davies obtém do desenvolvimento do elenco também é notável.  O espectador mergulha naquele universo, como se estivesse voltando no tempo, e encontra nas atrizes e atores a encarnação perfeita daquele mundo, nos diálogos, nos gestos contidos, nos silêncios, na agressividade que brota súbita em alguns momentos, enfim, em cada situação ou fala.  A vida passa lenta, ruminando por dentro, rotineira, sem grandes sobressaltos.  As atuações dão conta disso muito bem.  A música de estilo clássico, belíssima, complementa a narrativa, pontuando a dimensão do tempo.


Excelente filme do diretor de “Canção do Pôr do Sol”, de 2015, “Amor Profundo”, de 2011, “A Essência da Paixão”, de 2000, “O Fim de Um Longo Dia”, de 1992, e “Vozes Distantes”, de 1988.  Uma carreira impressionante de filmes que primam pela elaborada e meticulosa qualidade artística, em que a beleza das imagens sempre se impõe.



segunda-feira, 17 de abril de 2017

AS FALSAS CONFIDÊNCIAS


Antonio Carlos Egypto





AS FALSAS CONFIDÊNCIAS (Les Fausses Confidences).  França, 2015.  Direção e roteiro: Luc Bondy.  Com Isabelle Huppert, Louis Garrel, Yves Jacques, Bulle Ogier, Manon Combes.  85 min.



“As Falsas Confidências” é uma comédia de Marivaux, ou Pierre Carlet de Chamblain de Marivaux (1688-1763), um dos principais dramaturgos franceses do século XVIII.  Nesta peça, o que está em jogo são o relacionamento romântico e os jogos sociais de aparências.

O diretor suíço Luc Bondy encenou esse texto de Marivaux no teatro Odéon de Paris e transformou-o em filme.  Foi seu último trabalho antes de falecer, em 2015, após ter dirigido mais de 40 peças de teatro e óperas e ter feito também muitos filmes, como ator e diretor.

Os atores do filme, os famosos Isabelle Huppert, no papel de Araminte, e Louis Garrel, no de Dorante, foram também os atores da peça teatral.  Assim como todo o elenco da montagem.  Uma curiosidade: eles fizeram muitas apresentações da peça no teatro Odéon, à noite. após terem filmado no próprio teatro e em seus arredores, representando os mesmos personagens, durante o dia.  Uma interessante e intensa fusão de cinema e teatro, que parece ser uma forma econômica de investir nos personagens e nas decorações de seus diálogos.




O texto é muito bom, as falas, cheias de espertezas, artimanhas e jogos de engano e sedução, vão envolvendo o público, numa trama onde o que parece espontâneo, na verdade, nunca é. “Me engana que eu gosto” parece ser uma máxima perfeitamente aplicável àqueles personagens.

Dorante, um homem sem dinheiro, consegue ser secretário de Araminte, uma viúva rica, que ele ama secretamente e, naturalmente, tem grande interesse em usufruir de sua fortuna.  Dubois (Yves Jacques), que já trabalhou com Dorante, planeja um esquema para que Araminte também se apaixone por seu amigo.  Araminte esconde seu jogo e procura enredar os dois em seus objetivos.  E por aí vai.

“As Falsas Confidências” pode não ser um grande filme, mas é uma boa diversão.  Tem na base um texto teatral clássico, um diretor de teatro e cinema competente, um elenco muito bom, encabeçado por Isabelle Huppert e Louis Garrel, e uma leveza inteligente que respeita o público.





sexta-feira, 7 de abril de 2017

É TUDO VERDADE 2017


Antonio Carlos Egypto



Logo depois da Semana Santa, de 19 a 30 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro, acontece o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade/ It's All True.  Esta já é a 22ª. edição desse festival, que conquistou enorme importância na cena latino-americana e mundial.

Fundado e dirigido pelo crítico Amir Labaki,  É Tudo Verdade  tem apresentado uma programação sempre muito relevante, em relação aos documentários brasileiros e internacionais, tanto em longas como em médias e em curtas-metragens.




Na atual edição, são 82 títulos de 30 países, sendo 16 estreias mundiais.  Destaque para a produção latino-americana, com 7 filmes e nova competição.  Uma retrospectiva internacional comemora os 100 anos da revolução russa ou, seria melhor dizer, das revoluções de 1917, a de fevereiro, que derrubou o tzar, e a bolchevique, de outubro, apresentando documentários marcantes da produção soviética.  Traz uma dezena de títulos que vão de Dziga Vertov (1896-1954) a Aleksandr Sokúrov, para citar os mais conhecidos.

A retrospectiva brasileira destaca a obra de Sérgio Muniz, exibindo 8 trabalhos do diretor, que faz um cinema de resistência e denúncia muito importante.  Uma projeção especial lembra o trabalho do poeta, ensaísta e artista visual, Ferreira Gullar (1930-2016).  Sessões especiais homenageiam os cineastas Alexandre O. Philippe, Andrea Tonacci, Bill Morrison, Jean Rouch, João Moreira Salles e Raed Andoni.  Alguns filmes premiados em anos anteriores estarão disponíveis on line, no canal do Itaú Cultural (www.itaucultural.org.br/canal).


Amir Labaki ao microfone


Serão promovidos encontros e debates envolvendo os eixos da programação do festival, oficinas, e lançamento do DVD “Tudo Por Amor ao Cinema”, de  Aurélio Michiles.  A Abraccine fará o lançamento, com a Paco Editorial, do livro “Bernardet 80: Impacto e Influência no Cinema Brasileiro”, organizado pelos críticos Ivonete Pinto e Orlando Margarido, sobre a grande contribuição de Jean-Claude Bernardet ao nosso cinema, com textos de 15 autores diferentes.

As sessões de abertura trarão EU, MEU PAI E OS CARIOCAS – 70 ANOS DE MÚSICA NO BRASIL, de Lúcia Veríssimo, no Rio de Janeiro, e CIDADE DE FANTASMAS, de Matthew Heineman, em São Paulo.  Lúcia Veríssimo revisita a história do grande grupo vocal Os Cariocas, é filha de um de seus expoentes, o maestro Severino Filho (1928-2016).  O filme de Matthew Heineman encara de frente a brutalidade do ISIS (Estado Islâmico) e homenageia os que o combatem com as armas do jornalismo.  Ambos os filmes constam da programação nas duas cidades.

Todo esse cardápio fílmico tão atraente estará à disposição do público nos cinemas e todas as sessões são gratuitas.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

43o.FESTIVAL SESC MELHORES FILMES 2017


Antonio Carlos Egypto 

Já está em andamento o mais antigo festival de cinema do Brasil – o Festival SESC Melhores Filmes – que chega ao 43º. ano.  É aquela preciosa oportunidade de assistir no cinema àquele filme de 2016 que não deu tempo de ver, ou rever aquele filme de que a gente mais gostou.  Tudo isso na projeção primorosa do Cinesesc, em São Paulo, um dos melhores cinemas do país e ainda a preços reduzidos.  Quem pode querer mais?





Na noite de 05 de abril foram conhecidos os premiados dessa edição e entregues os prêmios aos vencedores do cinema nacional.  A votação se dá em dois níveis: a de uma centena de críticos de cinema de todo o país, por um lado, e a do público, em geral, por outro.  Não é muito comum que essas escolhas coincidam, a não ser em alguns pontos.  Mas neste ano registrou-se uma quase unanimidade em torno do vencedor brasileiro.

O filme AQUARIUS, de Kléber Mendonça Filho, foi escolhido, tanto pela crítica quanto pelo público, como melhor filme, melhor roteiro, melhor diretor e melhor atriz, para Sonia Braga.  Uma vitória retumbante, que foi apenas a constatação da superioridade desse trabalho, em relação a todas as demais produções cinematográficas brasileiras de 2016.  Não que tenham faltado bons filmes, mas AQUARIUS foi o filme certo para a hora certa, com um padrão de excelência na realização.  Kléber Mendonça Filho já havia mostrado a que veio, com sua brilhante estreia em longas-metragens, com O SOM AO REDOR, em 2014.  Apenas reafirmou seu talento e senso de oportunidade, conquistando espaço entre os grandes cineastas do nosso cinema.

CINEMA NOVO, de Erik Rocha, foi escolhido como o melhor documentário brasileiro, pela crítica e pelo público.  O ator, Juliano Cazaré, de BOI NEON, também recebeu o prêmio nos dois níveis, o que caracterizou bastante convergência entre crítica e público, quanto ao cinema brasileiro, em 2016.  A divergência ocorreu apenas no prêmio de fotografia, para Diego Garcia, por BOI NEON, para a crítica, e Adrian Teijido, por ELIS, para o público.




Para o cinema estrangeiro, a concordância se deu em um caso apenas, o de melhor atriz, para Isabelle Hupert, por ELLE.  O melhor ator foi Viggo Mortensen, por CAPITÃO FANTÁSTICO, para a crítica, e Eddie Redmayne, por A GAROTA DINAMARQUESA, para o público.  O melhor diretor foi Denis Villeneuve, por A CHEGADA, para a crítica, e Alejandro González Iñarritu, por O REGRESSO, para o público.  O melhor filme, para o público, foi A GAROTA DINAMARQUESA e, para a crítica, FILHO DE SAUL.  Meu voto foi para O CAVALO DE TURIM, de Béla Tarr, que, embora seja uma produção da Hungria de 2011, só foi lançado comercialmente nos cinemas brasileiros em 2016.  Ele está incluído na programação do Festival, assim como todos os que receberam alguma premiação, além de outros que receberam expressiva votação, como O ABRAÇO DA SERPENTE, O BOTÃO DE PÉROLA, DEPOIS DA TEMPESTADE, FRANCOFONIA – LOUVRE SOB OCUPAÇÃO, A ERA DO GELO – O BIG BANG, SNOOPY E CHARLIE BROWN – PEANUTS e CORAÇÃO DE CACHORRO.

Entre os brasileiros também estão BIG JATO, CURUMIN, ELA VOLTA NA QUINTA, MÃE SÓ HÁ UMA, SÃO PAULO EM HI-FI, MINHA MÃE É UMA PEÇA 2, TRAGO COMIGO e O SILÊNCIO DO CÉU.   E, ainda, MENINO 23 – INFÂNCIAS PERDIDAS NO BRASIL, que foi o meu voto para melhor documentário.

Será possível, ainda, rever na telona, em cópias restauradas, três clássicos do cinema: CRESPÚSCULO DOS DEUSES, LAWRENCE DA ARÁBIA e O PODEROSO CHEFÃO 1.


Até dia 19 de abril, quatro desses filmes por dia ocuparão a sala do Cinesesc, nos horários de 14:30, 17:00, 19:30 e 21:30 h.  E o bar do cinema, que estava em reforma, já foi reinaugurado.  É possível assistir aos filmes ou parte deles se alimentando ou bebendo algo, ao mesmo tempo, sem incomodar ninguém.  O que pode ser muito importante para os cinéfilos que não queiram perder tempo nenhum sem cinema.




sábado, 1 de abril de 2017

GALERIA F


Antonio Carlos Egypto




GALERIA F.  Brasil, 2016.  Direção: Emília Silveira.  Documentário.  87 min.


Num tempo em que a insanidade e a ignorância de alguns pretende trazer de volta os militares ao poder, é muito importante não esquecer o que foi o período de trevas da ditadura civil/militar brasileira (1964-1985). 

Muitas histórias já foram contadas pelo caminho documental, outras foram recriadas pela via da ficção, mas ainda há muito a desvendar.  E a memória precisa ser estimulada, refrescada, para que não nos esqueçamos do que vivemos e não venhamos a cometer os mesmos erros.  Os mais jovens precisam se informar sobre o que aconteceu naquele período, para poderem avaliar o que se passa hoje e para se posicionarem com clareza, já que há muita confusão e desinformação no ar.

O documentário “Galeria F”, de Emília Silveira, reconstrói uma história muito relevante do período: a do preso político baiano Theodomiro Romero dos Santos, que desde os 14 anos de idade lutou combatendo a ditadura.  Entrou para a luta armada atuando junto ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário.  Aos 18 anos, foi capturado, junto com outros companheiros, e reagiu à prisão, matando um militar que tentava alvejar um dos militantes detidos na rua.




Foi preso, sobreviveu às bárbaras torturas que sofreu ao longo de 9 anos de prisão, até que veio a anistia, que não foi ampla, geral e irrestrita, como se pretendia.  Classificado como terrorista, ficou de fora da anistia, foi mantido preso, enquanto poucos permaneciam encarcerados, e foi ameaçado de morte.  Mais do que isso, estava de fato condenado à morte, o primeiro da história republicana.  A única alternativa seria fugir da prisão, o que, surpreendentemente, aconteceu, em 1979, deixando a todos perplexos.  Incluído aí o governador Antônio Carlos Magalhães, que se refere na TV a essa fuga e à busca que se empreendeu a partir de então.

O filme de Emília Silveira, ela também uma ex-prisioneira política, refaz com o próprio Theodomiro, seu filho Guga e outros participantes daquele período, a incrível fuga, os lugares por onde ele passou, os refúgios, e como foi possível ludibriar desde os carcereiros da prisão a toda a estrutura policial militar do cerco à sua recaptura.

É um belo trabalho documental, cheio de humanidade, que não se alimenta de ódio nem de vingança, mas da retomada de um período histórico brasileiro que não pode ser esquecido, com os elementos emocionais que estão envolvidos na vida das pessoas.  Por exemplo, o filho Guga, com o documentário, pôde finalmente conhecer a verdadeira história do pai.  E a galeria F, onde fica a cela que abrigou o prisioneiro político por muitos anos, acaba sendo a testemunha de uma época trágica, que ainda estamos buscando superar definitivamente.  Será possível?





quinta-feira, 30 de março de 2017

O MUNDO FORA DO LUGAR


Antonio Carlos Egypto




O MUNDO FORA DO LUGAR (Die Abhandene Welt).  Alemanha, 2015.  Direção e roteiro: Margarethe von Trotta.  Com Barbara Sukowa, Katja Riemann, Mathias Habich, Robert Seeliger.  101 min.



“O Mundo Fora do Lugar” é o mais recente trabalho de Margarethe von Trotta.  A diretora e roteirista alemã já nos deu filmes importantes sobre grandes mulheres da história, como “Rosa de Luxemburgo”, de 1985, e “Hannah Arendt”, de 2012.  Foi casada e trabalhou como codiretora com Volker Schlöndorff, importante cineasta do novo cinema alemão.  Trabalhou como atriz em muitos filmes, inclusive de Rainer Werner Fassbinder, a grande figura de renovação do cinema alemão nos anos 1970.

Tem em Barbara Sukowa sua atriz favorita e foi ela quem encarnou tanto Rosa de Luxemburgo quanto Hannah Arendt.  Em “O Mundo Fora do Lugar”, Barbara Sukowa é novamente protagonista, mas não encarna uma figura histórica.  Aqui ela faz a diva da ópera, Caterina Fabiana, vivendo em Nova York, descoberta pela Internet por Paul Kromberger (Mathias Habich), por ser muito parecida com sua falecida esposa, Evelyn, o que acaba levando Sophie (Katja Riemann), filha de Paul, a uma viagem a partir da Alemanha, em busca de conhecer essa mulher.

É bom parar a informação sobre a trama do filme por aqui, para não prejudicar ou antecipar coisas a quem for assistir.  “O Mundo Fora do Lugar” segue uma narrativa linear, mas carregada de mistérios desde o primeiro momento.  É preciso se concentrar para não deixar passar informações sobre os personagens, quem são e que relação têm entre si.  E o que viveram no passado.




A história vai se formando, pouco a pouco.  O mistério vai sendo compreendido.  Mas, ainda assim, são muitas as surpresas que aparecem, em cada etapa da narrativa.  As coisas são bem mais complicadas do que podem parecer.  É preciso permanecer atento. O que se vê é a construção de uma trama muito bem engendrada, que o filme vai revelando.  Quem gosta de deslindar uma boa história vai certamente apreciar.

Destaca-se, além de Barbara Sukowa, sempre muito boa, Katja Riemann que, com muita competência, estrela o filme, estando em cena quase todo o tempo.  O restante do elenco também está muito bem, mesmo sem ter a importância dos dois papéis femininos principais.  A cena da briga física entre dois irmãos já anciões, muito bem construída e divertida, é uma prova disso.


O roteiro realmente coloca aquele mundo todo fora do lugar, mas a produção alemã tem tudo sob seu controle, funcionando muito bem.  Como seria de se esperar, por sinal.



segunda-feira, 27 de março de 2017

EU TE LEVO


Antonio Carlos Egypto




EU TE LEVO.  Brasil, 2014.  Direção: Marcelo Müller.  Com Anderson Di Rizzi, Rosi Campos, Giovanni Gallo, Gabriela Palombo.  80 min.


“Eu Te Levo”, filme de Marcelo Müller, que também trabalhou no roteiro, toma como ponto de partida a chamada  Geração Canguru,  a dos jovens que permanecem vivendo na casa dos pais até uma idade avançada, por não conseguirem encontrar seus caminhos na vida e não serem capazes de prover o próprio sustento.  Pesquisas indicam que cerca de 25% dos jovens entre 25 e 34 anos ainda moravam com os pais, em 2014-2015, no Brasil. 

Encontrar-se, fazer escolhas, decidir seu rumo na vida, pode se tornar algo complexo, quando não encaminhado devidamente no período da adolescência.  No filme  “Eu Te Levo”, o personagem Rogério (Anderson Di Rizzi), de 29 anos, se depara com a morte do pai e a herança de uma loja com a qual não se identifica, mas que representa muito, simbolicamente e como meio de vida, para sua mãe.  Ele tem um sonho de criança, como ser bombeiro, e uma experiência com uma banda de rock, como baterista, que ficou para trás. 

Na realidade, seus caminhos são nebulosos, ele não sabe o que quer.  E os espectadores do filme viverão esse dilema e essa angústia, embora não explicitada pelas ações do personagem, da indecisão, da perda de rumo, com ele, que é o centro da narrativa.  Isso se dá de modo abafado, já que Rogério é fechado, calado, prefere esconder mais do que compartilhar coisas.  Tudo assim fica ainda mais difícil.  Mas é interessante viver de dentro a indecisão do protagonista.  Embora o filme pudesse explorar melhor as motivações e bloqueios do personagem.





O jovem Cris (Giovanni Gallo), a quem Rogério dá carona regularmente, a pedido de um amigo, é outro exemplo da Geração Canguru, um pouco mais jovem, mas igualmente em busca de algo que não se sabe bem o que é, desviando-se também do rumo que lhe foi traçado (ou que ele mesmo teria traçado?).

Rosi Campos, grande atriz, faz a mãe Marta com a adequada intensidade, mas seu personagem não nos permite ir muito além do clichê da mãe sofredora.

Um detalhe importante da trama chama a atenção para o papel da ideologia nas escolhas profissionais.  Nas tratativas para chegar a se tornar bombeiro, Rogério é forçado a se posicionar frente ao comportamento da polícia militar do Estado de São Paulo, a quem pertence a corporação dos bombeiros.  O que complicará enormemente a sua escolha.  Ou seja, os dramas e conflitos não são só internos ao personagem.  Dão-se objetivamente nas instituições, na sociedade.


A produção “Eu Te Levo”, de Jundiaí, interior de São Paulo, em preto e branco, põe em discussão uma questão real dos jovens, sobretudo de classe média, que merece mesmo a nossa atenção, talvez ainda carecendo de personagens mais aprofundados.  Para um primeiro longa-metragem como diretor, Marcelo Müller se saiu muito bem.  Sua já larga experiência como roteirista certamente contribuiu para esse resultado.



segunda-feira, 20 de março de 2017

ERA O HOTEL CAMBRIDGE


Antonio Carlos Egypto




ERA O HOTEL CAMBRIDGE.  Brasil, 2016.  Direção e roteiro: Eliane Caffé.  Com José Dumont, Carmen Sílvia, Suely Franco, Isam Ahmad Issa, Guylain Mukendi.  99 min.


Documentário e ficção já não se concebem, atualmente, como coisas independentes ou separadas.  O que se vê, cada vez mais, é o diálogo, a fusão, o questionamento e a integração entre o documental e o ficcional.

“Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé, é um filme de ficção, porém, tão colado à realidade dos fatos e situações que representa, que, muitas vezes, é difícil distinguir a encenação do momento documentado.

A história que o filme conta é a da ocupação de um prédio abandonado no centro da cidade, na avenida 9 de julho, em São Paulo, que foi, era, o hotel Cambridge, pelo Movimento dos Sem-Teto do Centro.  O filme foi feito lá mesmo, com os ocupantes representando seus papéis, sua história e a de outros, ao lado de atores profissionais. 

A diretora, com sua equipe de filmagem, frequentou a ocupação por dois anos, conviveu e se envolveu com a vida dos moradores até criar sua ficção, que é uma interação entre personagens e situações daquele espaço e de relatos que vieram deles.  Eliane descobriu, ao lado dos chamados sem-teto, refugiados estrangeiros vindos do Congo, da Síria, da Palestina, recém chegados ao Brasil.  Buscou também registrar o convívio desses refugiados com os “refugiados” do próprio país, ou seja, os “refugiados da falta de direitos”.




Aqui, o cinema não observou a realidade, se envolveu com ela (e ainda se envolve, diga-se de passagem).  Mergulhou na situação vivida pelas pessoas que ocupam aquele prédio, mostrou fatos relativos a outras ocupações, à repressão policial, e se envolveu também com os aspectos psicológicos, humanos, daquelas pessoas sofridas, mas ativas e lutadoras.  Mostrou o comando e a força do gênero feminino nessa batalha diária e constante que é a ocupação.

Carmen Sílvia desponta como liderança popular, forte e decidida, e acaba se revelando como atriz.  José Dumont e Suely Franco estão muito integrados à situação, vivendo tudo aquilo junto com os ocupantes sem-teto, como se fossem eles próprios moradores e integrantes do movimento de moradia.




“Era o Hotel Cambridge” reflete o amálgama de fatos, situações, encenações, personagens, que se confundem no real e no imaginário, oriundos do mundo interno ou da dimensão sociológica, sem delimitações claras.  Toma o partido da FLM – Frente de Luta Pela Moradia – e dos demais movimentos a ela associados.  Realiza uma imersão comprometida com a questão social que retrata.  É um filme emocionante e envolvente.  Um filme de luta, eu diria.


“Era o Hotel Cambridge” recebeu muitos prêmios pelo Brasil.  O público da 40ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o do Festival do Rio 2016 o elegeu como melhor longa brasileiro.  Venceu também o Festival Aruanda, de João Pessoa, PB, e foi premiado no Festival Cinema de Fronteira em Bagé, RS, além de se destacar em festivais internacionais, como os de San Sebastian e Roterdã.


sábado, 18 de março de 2017

A BELA E A FERA


Antonio Carlos Egypto


A BELA E A FERA (La Belle et La Bête).  França, 1946.  Direção: Jean Cocteau.  Com Jean Marais, Josette Day, Marcel André, Mila Parely, Nane Germon.  93 min.

A BELA E A FERA (Beauty and the Beast).  Estados Unidos, 2015.  Direção: Bill Condon.  Com Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson.  92 min.



“A Bela e a Fera” é um tradicional conto de fadas francês, originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, em 1740.  Mas a versão mais conhecida da história é mais compacta e simplificada em número de personagens e situações.  Foi escrita por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, publicada em 1756.  A versão de Beaumont é a que serviu de base ao filme de Jean Cocteau (1889-1963), realizado em 1946, que se tornou um grande clássico do cinema fantástico. 




Cocteau foi um renovador da estética cinematográfica.  Seu filme contém imagens oníricas, surrealistas, e efeitos especiais.  Tem uma fotografia, em preto e branco, belíssima, que trabalha muito bem com a bruma, a neblina, a fumaça.  A direção de arte construiu um universo de mistério e riqueza, que explora o contraste entre feiúra e beleza interior.  A magia do conto está lá, numa dimensão dramática.  O cineasta nos convida a que deixemos fluir um pouco de nossa inocência infantil para acompanhar essa narrativa fantastica e acreditar na história.  Ou seja, ele se dirige ao público adulto, não às crianças.




Bem diferente da versão da Disney, em desenho animado, de 1991, dirigida ao público infantil, que transformou o conto trágico-romântico num bem-humorado musical.  A versão 2015 de “A Bela e a Fera”, também da Disney, que está agora nos cinemas, dirigida por Bill Condon, é uma live-action baseada naquela animação, muito popular e grande sucesso de público.  É o chamado filme-família.  As crianças provavelmente vão adorar.  Mas os adultos vão se divertir também.  É uma produção grandiosa, musical, com elenco forte e objetos que ganham vida e se destacam na narrativa, como o candelabro, o relógio, o bule, a xícara.  E o monstro é charmoso, quase tanto quanto a Bela. Leveza e humor tomam o lugar do drama, o romantismo vence o trágico, galhardamente.  Mas não sem antes uma boa luta, recheada de efeitos especiais.  Tem pouco a ver com o clássico de Jean Cocteau, embora a história seja basicamente a mesma.  Mas quanta diferença!

O Centro Cultural Banco do Brasil – SP está promovendo neste mês de março a Mostra “Jean Cocteau: O Testamento de um Poeta” e incluiu “A Bela e a Fera”, de 1946, entre as películas exibidas.  Esse filme também pode ser encontrado em DVD e em sites da Internet.


“A Bela e a Fera”, de Bill Condon, tem uma carreira promissora.  Está levando grande público às salas de exibição.  Não é novidade.  Afinal, marketing é o que não falta e o número de salas, como sempre acontece com os blockbusters, é arrasador.



quarta-feira, 15 de março de 2017

O FILHO DE JOSEPH


Antonio Carlos Egypto




O FILHO DE JOSEPH (Les Fils de Joseph).  França/Bélgica, 2016.  Direção e roteiro: Eugène Green.  Com Victor Ezenfis, Natacha Règnier, Fabrizio Rongione, Mathieu Amalric, Maria de Medeiros.  115 min.



A questão que move a narrativa de “O Filho de Joseph” é a da parternidade.  Ausência e rejeição pesam muito e o mínimo de equilíbrio e o bom humor parecem estar condicionados ao encontro de figura paterna substituta.

O personagem central é Vincent, um adolescente de 15 anos, vivendo bem com a mãe,   mas insatisfeito por desconhecer o pai.  Até que o descobre e a decepção só cresce.  Desejos de vingança tomam corpo, no entanto, uma afetividade inesperada pode pôr as coisas no lugar.

Dito assim, dá para imaginar um filme de fortes emoções.  Mas não é o que acontece.  Os diálogos soam cerebrais, artificiais.  Os tempos de reação são demorados, estranhos.  Evita-se o naturalismo e a expressão de grandes emoções.  Elas estão lá, mas represadas ou enquadradas por um certo formalismo.

Além de um tanto formal, o filme é todo erudito, se refere às diversas manifestações artísticas, como a pintura, a música, o cinema e a literatura.  Histórias bíblicas inspiram a trama.  Quem quiser buscar citações vai encontrá-las em todo lugar, o tempo todo.  O diretor Eugène Green vai na mesma linha que adotou em “La Sapienza”, seu filme de 2014.

O roteiro parte de uma temática bastante usual e conhecida, mas tem um refinamento artístico que lhe dá um ar sofisticado.  Seu maior mérito, porém, está na evolução das situações e na solução que surpreende, pelo menos da forma como foi conduzida.


Os desempenhos soam estranhos, pelos já citados racionalismo e formalismo que o filme adota.  Superado esse inconveniente, dá para curtir bem a proposta.