quinta-feira, 27 de agosto de 2026

2 LONGAS NACIONAIS

Antonio Carlos Egypto

 


MUITO PRAZER.  Brasil, 2026.  Direção e roteiro: Jorge Furtado.  Elenco: Daniel de Oliveira, Luísa Arraes, Samantha Jones, Felipe Velozo, Drica Moraes.  98 min.

 

Jorge Furtado, fundador da Casa de Cinema de Porto Alegre, que existe desde dezembro de 1987, é um dos grandes realizadores do cinema brasileiro, além de um trabalho relevante na TV.

 

Ele tem uma grande capacidade de lidar com o humor de forma leve e bastante crítica ao mesmo tempo.  Denuncia, ironiza e nos faz sorrir, às vezes, até mesmo gargalhar.  Se você não estiver lembrando do trabalho dele, eu posso citar alguns dos filmes que ele fez, que eu acho sensacionais: “Ilha das Flores” (1989), “O Homem que Copiava” (2003), “Saneamento Básico, o Filme” (2007), “Mercado de Notícias” (2014), “Rasga, Coração” (2018).

 

Em “Muito Prazer”, Jorge Furtado acerta a mão novamente.  Como sempre, com um olhar dirigido aos mais vulneráveis e aos mecanismos limitadores e cruéis dos mercados e do capitalismo.  Ele aqui focaliza as relações que envolvem intimidade, privacidade e tecnologia, associadas às diretrizes de mercado.  E também, por que não?, ao voyeurismo individual e àquela tendência de explorar os demais, mesmo que, cuidadosamente, ele a aplique nos personagens do filme com moderação.  A consciência de ações que são, ou podem ser, criminosas, está lá, mas não é capaz de impedir que elas aconteçam.  E aí resta reparar os danos, por consciência, culpa ou medo das punições.

 

Jorge Furtado e o trio de atores

O universo abordado é o do sexo.  A narrativa é toda desenvolvida no decadente Motel Pérola, recebido de herança de um tio por Rubem (Daniel de Oliveira), motoboy sem perspectivas e sem grana.  A herança vem, naturalmente, carregada de dívidas.  Entre elas, a da jovem Grace (Luísa Arraes), que sobrou morando por lá, esperando receber os atrasados de pelo menos quatro anos por seu trabalho no Motel.  Ela é solta, desinibida e dona do seu pedaço.  Não se sente amarrada às convenções.  Desse encontro resulta a recuperação do Motel e a busca por tecnologias, que, por serem invasoras, podem resultar em bom dinheiro, mas também em problemas sérios.  É aí que entra Nalva (Samantha Jones), que tem o domínio dessa tecnologia e participa da parceria.

 

O que vem daí vai resultar em boa, inteligente comédia, com toques eróticos, que chega a provocar boas risadas e não ofende ninguém.  Bem, hoje em dia com tanto retrocesso nunca se sabe...

 

O elenco formado pelo trio Luísa Arraes, Daniel de Oliveira e Samantha Jones está ótimo, afinadíssimo.  E ainda tem o “bonitão do Motel”, Felipe Velozo, e a participação especial da grande atriz Drica Moraes, como D. Mariana, a mãe de Grace, que fica famosa pelos vídeos pornôs.  Mas o amor terá sua vez e sua hora também.  Assim, tudo fica melhor.

 




NOSSO SEGREDO.  Brasil, 2026.  Direção e roteiro: Grace Passô.  Elenco: Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert.  103 min.

 

Grace Passô, reconhecida e respeitada atriz de cinema e teatro, lança o seu primeiro longa-metragem como diretora, que já sai premiado como melhor filme do Festival de Gramado 2026.

“Nosso Segredo” mostra que Grace sabe filmar boas sequências e situações estranhas.  Na verdade, realiza uma filmagem experimental, em que mostra talento na concepção das cenas, nos enquadramentos e na direção de atores.  O conjunto do filme é inegavelmente bem realizado.  Com boa fotografia e direção de arte, também premiadas em Gramado.

 

O problema é que “Nosso Segredo” não é apenas o nome do filme que procura gerar interesse por algo a ser descoberto.  Sua narrativa é toda calcada em segredos, mistérios, coisas que nunca estão claras.  E que podem dar margem a todo o tipo de interpretações.  Ou até nenhuma.  Isso do começo ao fim.  É uma obra aberta?  Tudo bem.  Mas aberta demais, eu diria.

 

Convive-se com uma família negra em Belo Horizonte, que vive em luto por uma perda muito recente e em suspenso por conta de uma estranheza que está sempre presente, embora haja afeição, solidariedade e bom convívio humano entre eles.  No entanto, um bicho parece que pode comê-los e destruí-los a qualquer momento.  Ou não.  A criança lida melhor com tudo isso do que os adultos.  Pois é.  E daí? 



 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

REFÉM POR UM FIO

Antonio Carlos Egypto

 


REFÉM POR UM FIO (Dead Man’s Wire).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Gus Van Sant.  Elenco: Bill Skarsgard, Drace Montgomery, Colman Domingo, Al Pacino.  105 min.

 

Gus Van Sant é um cineasta inovador, atento aos sinais que o mundo lhe envia, especialmente nos Estados Unidos, onde ele nasceu, mora e trabalha.  Ele costuma se interessar em filmar a partir de fatos realmente ocorridos, que nos dizem algo sobre o nosso mundo violento e disruptivo.  Mas faz isso com ênfase na comunicação com o público, buscando realizar filmes que também envolvam e entretenham o espectador.

 

“Drugstore Cowboy” (1989), “Garotos de Programa” (1981), “Gênio Indomável” (1997), “Paranoid Park” (2007), “Milk: a Voz da Igualdade” (2008), mas sobretudo “Elefante” (2003) são exemplos de seu trabalho reflexivo e provocador que fisga a atenção do público.

 

Seu mais recente filme, “Refém por um Fio”, também se nutre de uma história real, ocorrida em 1977, em Indianápolis, EUA, que tem características tão marcantes que seria difícil imaginá-la a partir de um roteiro puramente fictício.

 

Tony Kiritsis (Bill Skarsgard), um trabalhador, fez uma hipoteca na empresa em que atuava, buscando saldar uma dívida. Em vez disso, ele acusa a empresa de tê-lo prejudicado deliberadamente e provocado sua ruína financeira.  Resolve ir atrás do que “lhe pertence”, sequestrando o filho do dono da corporação, Richard Hall (Drace Montgomery) e criando um mecanismo mortal que o prende por um fio a uma arma de fogo que dispararia automaticamente se fosse abordado.  Liberdade, o bem material devido e desculpas públicas são as condições para libertar o sequestrado.  Condições que o pai, o patriarca da empresa, Mr. Hall (Al Pacino) não aceita e refuta toda a argumentação de Tony.  Mas o caso envolve também o famoso DJ Temple da rádio da cidade, ídolo do sequestrador.  A dimensão das coisas cresce muito, tomando grande impacto midiático e gerando muitas coisas inesperadas.

 


Por meio dessa narrativa, o diretor cria um suspense envolvente e que surpreende em muitos momentos.  O ritmo do filme é ágil, mas também dá o que pensar.  Como isso foi acontecer?  O que ele está nos dizendo a respeito de nossas vidas e da vida financeira que nos cerca e domina?  O que leva alguém aparentemente sensato e calmo a trilhar caminhos tão arriscados?  Afinal, o que nos encaminha para os extremos de conduta?  E como é possível que criemos becos sem saída para nós mesmos em algumas situações-limite?

 

“Refém Por Um Fio” não é uma simples história de suspense.  É algo mais sofisticado.  Busca um caminho para entender os seres humanos dentro de uma engrenagem que não conseguem dominar e têm de enfrentar o imponderável.

 

As sequências são muito bem realizadas, o filme é muito bom de se acompanhar pela agilidade e pelo talento do diretor.  Também pela trilha sonora, que inclui uma seleção de canções de sucesso da época, o que nos remete facilmente aos anos 1970.

 

O elenco é muito bom, todos os papéis estão bem desenvolvidos, mesmo os menores.  Bill Skarsgard sustenta o filme muito bem, ao longo de todo o seu desenrolar, no papel do sequestrador.  Drace Montgomery mantém o pânico controlado da situação do sequestrado todo o tempo.  Al Pacino, o dono da grana, tem o ar do mafioso que ele já desfilou por aí muito bem.  O DJ Temple, mediador da ação, vivido por Colman Domingo, é fascinante, uma atuação humanista e tão verdadeira com quem é fácil a gente se identificar.  O conjunto é bem harmonioso e eventuais falhas passam despercebidas.




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

HONESTINO + QUINTA

 Antonio Carlos Egypto

 


HONESTINO.  Brasil, 2025.  Direção: Aurélio Michiles.  Elenco: Bruno Gagliasso.  85 min.

 

“Honestino”, mistura de documentário e encenações ficcionais, é mais um trabalho importante de resgate dos tempos de chumbo da ditadura civil-militar, que durou 21 anos no Brasil.

 

Trata da vida do estudante Honestino Guimarães, sequestrado e desaparecido em 1973, aos 26 anos de idade, após ter sido preso cinco vezes pela ditadura.  Estudante da Universidade de Brasília, com atuação no Rio de Janeiro e no Brasil como presidente da UNE, membro ativo da geração de 1968, que é representado nas cenas ficcionais por Bruno Gagliasso.

 

A narrativa do filme, dirigido por Aurélio Michiles, inclui cartas, poemas, imagens de arquivo e depoimentos de gente como Almino Afonso, Franklin Martins, Jorge Bodanski, Betty Almeida (biógrafa do líder estudantil), familiares, amigos e militantes que com ele conviveram.

 

Uma das maiores tragédias de um país é o esquecimento de seus problemas, suas chagas, seu passado.  Negar, varrer para debaixo do tapete, cultivar a impunidade em nada ajuda a superar os traumas vividos.  Na verdade, dificulta, impede nosso avanço civilizatório.  Filmes como esse nos ajudam a refletir sobre o que buscamos para o país e nos permitem reavaliar a importância da democracia para o enfrentamento real das questões nacionais.

 



A QUINTA PORTUGUESA (Una Quinta Portuguesa).  Espanha/Portugal, 2025.  Direção: Avelina Prat.  Elenco: Manolo Solo, Maria de Medeiros, Branca Katic, Rita Cabaço.  114 min.

 

“A Quinta Portuguesa” conta uma história que remete à discussão do significado da própria identidade humana e o que a determinaria.  O lugar, os costumes, experiências, desejos?  A geografia?  Certamente isso tudo tem muita importância. 

 

Será tratado na narrativa por meio de dois personagens.  O central, Fernando, papel de Manolo Solo, não por acaso professor de geografia.  O outro, Amália, papel de Maria de Medeiros, a dona da quinta, que acolherá Fernando como se se chamasse e fosse Manuel.

 

Isso se dá porque Fernando, devastado pelo desaparecimento repentino da esposa, que volta para a Sérvia sem qualquer aviso, vaga um pouco pelo mundo e conhece um jardineiro português idoso de quem vai se tornando amigo. As circunstâncias da morte de Manuel, lhe darão uma oportunidade para que ele assuma uma nova identidade e deixe todo o resto no passado.

 

Fernando/Manuel acaba encontrando na jardinagem um novo emprego e uma nova vida, aproximando-se da charmosa e elegante Amália, o que lhe abre novas possibilidades.

 

Só que o passado não some só porque a gente quer.  É mister enfrentá-lo em algum momento, mesmo contra a vontade.  É essa transição de vida que dá margem às reflexões que a história do filme nos propõe.

 

Os atores são brilhantes.  Maria de Medeiros, um talento português que reconhecemos por aqui há décadas, inclusive como cineasta e cantora, e o espanhol Manolo Solo, falecido recentemente aos 62 anos, que está sensacional em seu desempenho no filme.

 

Avelina Prat, a diretora espanhola, natural de Valência, tem mão segura e sensibilidade para lidar com o tema e nos oferece um filme intrigante, bom de se ver.




segunda-feira, 3 de agosto de 2026

2 DOCS e MOSTRAS

Antonio Carlos Egypto

 


O documentário ANATOMIA DO CAOS dedica-se a nos relembrar de um período recente dolorido da história nacional.  O período da pandemia no Brasil.  Mais precisamente, da CPI da Covid-19, realizada pelo Senado Federal para investigar o que se passava naquele momento do governo Jair Bolsonaro, onde as coisas não andavam bem por conta do negacionismo e da corrupção envolvidos na questão das vacinas, do atendimento hospitalar, da ausência de campanhas oficiais e das disputas políticas.

 

Com acesso aos bastidores da Comissão do Senado, a diretora Dandara Ferreira conseguiu fazer um retrato adequado daquele sofrido processo e das repercussões que ele produziu.  E que infelizmente resultaram num relatório importante arquivado pela PGR (Procuradoria Geral da República)  sob o comando de Augusto Aras e que resultou numa impunidade absurda.  Por isso é bom que isso tudo seja relembrado agora.

 

Citando Dandara Ferreira: “o que me movia naquele momento era a percepção de que o país atravessava algo maior do que uma crise sanitária.  Havia a disputa brutal em torno da própria realidade”. E mais: “Senti que o cinema podia dar voz ao povo”.  88 minutos.

 


Já o documentário brasileiro de 2025, A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO, investe na brincadeira.  A diretora Eliza Capai deu vez e voz às meninas de uma pequena cidade do interior do Piauí, que aos 10, 11 anos, pensam sobre as questões femininas e a chegada da adolescência.  Seus pensamentos refletem ainda uma ideia do homem como o gigante da mulher, mas suas reflexões divertidas trazem muita verdade sobre o machismo estrutural, a saída da miséria, Deus, o medo da morte e muito mais.  70 minutos.

 

MOSTRAS EM SÃO PAULO

 

Até o dia 12 de agosto, o Cinesesc apresenta a retrospectiva do cineasta Aki Kaurismaki, o mais importante diretor e roteirista de cinema da Finlândia.  Seus filmes tratam do cotidiano de pessoas simples, em geral derrotadas em muitos aspectos da vida, com um jeito peculiar de abordá-las, sem moralismos, julgamentos, pieguismo ou falsa valorização.  Ele o faz de forma seca, direta, bem humorada e com comportamentos inusitados e surpreendentes.  Além disso, abordando sinteticamente as coisas.  Sem rodeios. Um belo trabalho autoral que merece uma visão ou revisão de seus filmes, como o Cinesesc está fazendo com 18 obras de Kaurismaki sendo exibidas na telona.

 

Aki Kaurismaki

Vale destacar também que, até 12 de agosto, está em cartaz o 3º. Festival de Filmes Incríveis, no cine Belas Artes, na sala Luiz Carlos Merten.  São filmes do chamado cinema periférico, exibidos em festivais internacionais que têm pouco apelo comercial. Mas há dois grandes cineastas incluídos nessa seleção:  o mexicano Carlos Reygadas e  o estadunidense Gus Van Sant em novos filmes.

 

E nesse mesmo período, até o dia 14 de agosto, está em cartaz a 5ª. Mostra de Cinema Coreano, no Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro.  São filmes recentes da Coreia do Sul, que tem apresentado uma filmografia bem significativa na atualidade.





 

sábado, 25 de julho de 2026

A NOITE DE ALAÍDE



        Antonio Carlos Egypto




A NOITE DE ALAÍDE.  Brasil, 2026.  Direção: Liliane Mutti.  Documentário.  100 min.

 

Alaíde Costa é uma das cantoras mais importantes da história da música brasileira, por sua interpretação e estilo marcantes, uma voz afinada, melodiosa e macia, inconfundível.  Fez parte do movimento da bossa nova desde o começo.  Conviveu muito de perto com João Gilberto, Johnny Alf, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, de quem recebeu o piano como herança.  São agora 90 anos de vida, 7 décadas de carreira e um belo filme que resgata a história de sua vida, contada por ela mesma, dirigido por Liliane Mutti: “A Noite de Alaíde”.

 

O filme, além de muita música, arquivos inéditos e uma abordagem poética da memória, usa a técnica do live action, com atores e ambientes reais, apresentados em animação por meio de desenhos e pinturas por cima de filmagens reais, o que é também conhecido como rotoscopia.

 

Alaíde Costa, apesar de sua brilhante história e pioneirismo, não recebeu as homenagens merecidas por sua atuação na bossa nova.  Na verdade, ela foi escanteada do famoso espetáculo que apresentou a bossa ao mundo, no Carnegie Hall em Nova Yorque, em 1962.  Que levou um grande número de artistas, inclusive alguns que nada tinham a ver com a bossa nova, e não chamou Alaíde Costa nem Johnny Alf.  Absurdo, só explicável por um preconceito racial intolerável.

 




Alaíde sofreu por muitos anos uma discriminação por parte de produtoras e gravadoras.  Uma mulher negra com tamanho realce e talento devia incomodar.  Mesmo sendo tímida.  Mas foi sempre firme nas suas convicções musicais e não fez concessões.  Ou melhor, só pequenas concessões.  Nunca concordou com a ideia, explicitada inclusive, de que cantoras e cantores negros devem cantar samba, pagode, música animada, batuque e coisas desse gênero.  Não era a dela, que sempre buscou cantar o que gostava e sentia e, principalmente, o que combinava com o seu jeito de cantar e de se expressar.  Tornou-se também compositora e suas canções refletem esse estilo.  Infelizmente, tiveram pouca difusão.

 

O tempo passa e a cada dia Alaíde Costa segue constantemente redescoberta.  Um tesouro não poderia ficar escondido por muito tempo.  Há anos tem sido cada vez mais requisitada, nacional e internacionalmente.

 

O máximo foi o reconhecimento e a aclamação proporcionados por sua apresentação no Carnegie Hall, NY, em 2023, corrigindo o erro histórico de 1962.

 

Eu fui ver Alaíde Costa ao vivo em shows, pelo menos quatro vezes nos últimos dois ou três anos, sempre entusiasticamente aplaudida e festejada.  Sempre gostei muito dela como cantora e acho uma maravilha todo esse reconhecimento que ela tem recebido, com todos os méritos, já em idade avançada.  O filme “A Noite de Alaíde”, de Liliane Mutti, lançado agora, simultaneamente em Portugal e no Brasil, é o coroamento dessa vida artística tão especial.



quinta-feira, 23 de julho de 2026

A ODISSEIA

Antonio Carlos Egypto






A ODISSEIA (The Odyssey).  Estados Unidos, 2026.  Direção e roteiro: Christopher Nolan.  Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o.  172 min.

 

O britânico Christopher Nolan é hoje um dos mais destacados cineastas de Hollywood. Para além dos Batmans, vale lembrar de “Oppenheimer” (2023) e “Dunkirk” (2017), entre outros trabalhos de valor.  Agora ele valeu-se de um dos maiores poemas épicos da Grécia antiga, atribuído a Homero (ou seriam vários autores?), escritos por volta do século VII antes de Cristo, entre 850 e 750 a.c.

 

Com um orçamento de 250 milhões de dólares, segundo notícias veiculadas pela imprensa, “A Odisseia” tornou-se um dos maiores exemplos de cinema-espetáculo da história.

 

Assistindo às 3 horas de duração do filme, que absolutamente não cansam porque são repletas de histórias e sequências atraentes e até mirabolantes, ele causa grande impacto.  Eu não tive acesso à sessão IMAX, vi o filme numa boa projeção normal de cinema.  Mas não é preciso estar ligado a toda essa tecnologia para apreciar esse grande evento épico do cinema.

 

Na Odisseia de Homero está toda a concepção das aventuras em suas múltiplas expressões, apoiadas, por um lado, e em conflito, por outro, com os deuses, com criaturas míticas e fantásticas, navegando os mares amparados por Poseidon, o deus do mar.  Também numa jornada interminável em busca de comida e sobrevivência, após a guerra de Troia, encontram-se gigantes, exércitos hostis, além das batalhas domésticas em Ítaca, para onde Odisseus tenta chegar durante 10 anos, sem sucesso.  Enfim, pode-se dizer que as estruturas de todas as aventuras que conhecemos e concebemos estão retratadas nessa fantástica Odisseia.  Mais do que isso, o próprio conceito de herói está aí formado por sua bravura, determinação, resiliência, mas também por suas artimanhas.  Também vem de lá a ideia da volta ao lar, o retorno à mulher amada e ao filho querido.  Penélope é o ideal da mulher – no filme valorizado por uma presença feminina ativa.  O filho Telêmaco, o herói herdeiro, é igualmente fiel e determinado.

 


As batalhas a serem vencidas, os obstáculos que se antepõem, a missão a alcançar, a luta pela justiça, pela mudança, sem dispensar os estratagemas, disfarces e encenações que compõem a narrativa heroica.

 

Quem se propõe a encarar um clássico absoluto como esse, não há como fazê-lo sem vê-lo com os olhos de hoje.  A obra de arte reflete o momento histórico que está sendo pensado e vivido naquele período.  Acho bom que seja assim.  Fazemos a leitura do mundo de hoje a partir de seus arquétipos, dos modelos ancestrais, históricos, dos moldes que embalaram a nossa cultura, ao Ocidente e ao Oriente. O filme respeita o clássico e faz essa leitura do nosso mundo a partir dele.

 

O espetáculo do filme de Nolan é muito evidente.  Os recursos, impressionantes. O som, de arrasar. A fotografia, notável. O elenco é também muito recheado de estrelas.  Matt Damon, como Odisseu, não empolga tanto como herói, mas mostra grande dedicação ao papel.  Anne Hathaway, como Penélope, é uma figura decisiva e forte, em boa atuação.  Tom Holland, como Telêmaco, está bem, mas não é tão vibrante para o papel da importância que tem.  Zandaya está ótima, como a deusa Atena.  Ainda tem Robert Pattinson como Antinous, um vilão moderado, Elliot Page, um ator transgênero, como Sinon, Lupita Nyong’o, brilhando como Helena e Clitemnestra, Samantha Morton, uma ótima Circe e Charlize Theron, como a ninfa Calypso, que manteve Odisseu por anos em sua ilha mítica Ogígia, usando seus encantos e ardis para retê-lo.  Um grande elenco, que dá suporte publicitário a essa grandiosa produção.

 

Como blockbuster, “A Odisseia” ocupa um colosso de salas de cinema por todos os shoppings, cinemas de rua e até alternativos.  Como todos esses filmes de grande lançamento internacional, ocupa espaços demais.  Sem isso, talvez nem conseguisse sequer se pagar, tão alto é o custo de sua produção.  Não costumo ser grande fã do cinema espetáculo, mas esse me agradou bastante.

 

 

  

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A DIVINA SARAH BERNHARDT

 Antonio Carlos Egypto




A DIVINA SARAH BERNHARDT (Sarah Bernhardt, La Divine). França, 2024.  Direção: Guillaume Nicloux.  Elenco: Sandrine Kiberlain, Laurent Lafitte, Amira Casar, Pauline Étienne.  98 min. 

 

Sarah Bernhardt (1844-1923), francesa, considerada a atriz mais importante da história do teatro mundial, é também a primeira celebridade global.  Claro que não estou usando o conceito atual de celebridade, que desconsidera o mérito, o talento, focando-se na simples exposição midiática.  Aqui sobra talento e importância artística.  Mas Sarah sabia vender seu trabalho, procurava ser reconhecida e aplaudida em todas as partes do mundo, viajando sem cessar, buscando valorização e reconhecimento, consciente de seus próprios méritos. Até mesmo se autoelogiando quando falava de si.  Tinha um leque amplíssimo de contatos, como Alexandre Dumas, Victor Hugo, Émile Zola, Sigmund Freud, entre eles.

 

“A Divina Sarah Bernhardt” é um drama biográfico que explora o perfil dessa mulher-artista icônica, a partir do reconhecimento de seu brilho, muito bem ressaltado pela performance notável da atriz Sandrine Kiberlain.

 

O filme destaca passagens fundamentais da vida dessa lenda do teatro, que mostra uma mulher muito à frente de seu tempo, vivendo e defendendo a liberdade de pensamento e o amor livre, por exemplo.

 


Dá ênfase à trágica amputação da perna direita, em 1915, como consequência de uma queda no Rio de Janeiro, durante a ópera “Tosca”, em 1905.  Aliás, o filme começa por aí.

 

Focaliza os eventos que envolveram o Jubileu de 1896, em homenagem à artista, em Paris.  Outro ponto de relevância é o relacionamento amoroso com o ator Lucien Guiltry, que mexia com Sarah de forma total e absoluta. Ela era intensa emocionalmente em tudo o que fazia.  Até na rispidez com que, por vezes, tratava colaboradores ou em seus laivos autoritários.

 

Amarrando esses momentos cruciais da vida e da carreira de Sarah Bernhardt, o filme consegue passar um clima de grandiosidade, que faz jus à figura da grande atriz do  século XIX e do começo do XX.  O pioneirismo dela aparece por todo canto.  Numa cena, uma mulher, fã da atriz, pede para que ela escreva e assine o próprio nome, para guardar como lembrança.  O que surpreende Sarah Bernhardt.  Estava criado o autógrafo, símbolo do reconhecimento do artista por seus admiradores. 

 

Do ponto de vista cinematográfico, “A Divina Sarah Bernhardt” não inova em nada.  É uma boa realização de caráter acadêmico.  Que, entretanto, alcança seus objetivos em termos de comunicação, espetáculo e entretenimento.




quinta-feira, 9 de julho de 2026

PRIMAVERA

Antonio Carlos Egypto

   




PRIMAVERA.  Itália, 2025.  Direção: Damiano Michieletto.  Elenco: Tecla Insolia, Michele Riondino, Andrea Pennacchi, Fabrizia Sacchi, Valentina Bellè, Stefano Accorsi.  110 min.

 

“Primavera”, de Vivaldi, é, talvez, o ponto alto de sua obra clássica barroca: As Quatro Estações.  É também o título do filme italiano, dirigido por Damiano Michieletto (famoso diretor de óperas) e a música que nos acompanha ao deixarmos o cinema satisfeitos com o que vimos.

 

De fato, o filme é bonito, bem realizado, rescende a música por todos os poros, além de contar uma história interessante, baseada no romance de Tiziano Scarpa, “Stabat Mater”, de 2008. 

 

É um filme sobre o padre Antônio Vivaldi (1678-1741), papel de Michele Riondino, e seu trabalho como violinista, compositor e regente, durante décadas no Ospedale della Pietàfundado em Veneza em 1346 e que existe até hoje.  Trata-se de um convento/orfanato, dedicado a meninas abandonadas, que procurava desenvolver o talento musical delas, estimulando o estudo de instrumentos e de canto.  Lá Vivaldi trabalhou por um tempo e voltou mais tarde, produzindo uma obra não só maravilhosa como profícua.  Charles de Brosse, em 1739, diz: “Vi-o gabando-se de escrever um concerto mais rápido do que o copista poderia transcrever”. 

 


Bem, mas o filme “Primavera” não é apenas sobre a trajetória de Vivaldi.   Na verdade, o foco está na personagem Cecília (Tacla Insolia), órfã em que Vivaldi encontrou grande talento para o violino.  Cecília, para além do interesse pela música, aspirava sair daquele ambiente em que estava, na prática, em clausura.  Até nas exibições musicais, o conjunto tocava atrás de uma barreira.

 

Seu destino já estava traçado: um casamento de conveniência para o convento, interessado na grande soma de dinheiro que ele traria para a instituição.  O que era, aliás, uma prática comum.  Isso punha em confronto o empenho de Vivaldi em desenvolver Cecília para a música, mas o filme mostra a figura do padre compositor como alguém sem coragem para se opor às regras e à força do poder do dinheiro. 


“Primavera” acaba significando, nesse caso, a busca da liberdade, tão desejada por Cecília.  E a dificuldade de alcançar isso naquela época e naquele ambiente religioso.  A música expressa esse sentimento também, além da alegoria com a estação mais florida e festiva do ano.

 

Os protagonistas Tecla Insolia e Michele Riondino, assim como todo o elenco de apoio, com destaque para Stefano Accorsi, nos colocam naquele mundo e naquele período histórico de forma muito convincente, respaldados pela direção de arte, locações, figurinos.  É daqueles espetáculos que nos transportam para uma outra realidade.  O que o cinema consegue fazer e que encanta gerações, desde o final do século XIX.