segunda-feira, 20 de março de 2017

ERA O HOTEL CAMBRIDGE


Antonio Carlos Egypto




ERA O HOTEL CAMBRIDGE.  Brasil, 2016.  Direção e roteiro: Eliane Caffé.  Com José Dumont, Carmen Sílvia, Suely Franco, Isam Ahmad Issa, Guylain Mukendi.  99 min.


Documentário e ficção já não se concebem, atualmente, como coisas independentes ou separadas.  O que se vê, cada vez mais, é o diálogo, a fusão, o questionamento e a integração entre o documental e o ficcional.

“Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé, é um filme de ficção, porém, tão colado à realidade dos fatos e situações que representa, que, muitas vezes, é difícil distinguir a encenação do momento documentado.

A história que o filme conta é a da ocupação de um prédio abandonado no centro da cidade, na avenida 9 de julho, em São Paulo, que foi, era, o hotel Cambridge, pelo Movimento dos Sem-Teto do Centro.  O filme foi feito lá mesmo, com os ocupantes representando seus papéis, sua história e a de outros, ao lado de atores profissionais. 

A diretora, com sua equipe de filmagem, frequentou a ocupação por dois anos, conviveu e se envolveu com a vida dos moradores até criar sua ficção, que é uma interação entre personagens e situações daquele espaço e de relatos que vieram deles.  Eliane descobriu, ao lado dos chamados sem-teto, refugiados estrangeiros vindos do Congo, da Síria, da Palestina, recém chegados ao Brasil.  Buscou também registrar o convívio desses refugiados com os “refugiados” do próprio país, ou seja, os “refugiados da falta de direitos”.




Aqui, o cinema não observou a realidade, se envolveu com ela (e ainda se envolve, diga-se de passagem).  Mergulhou na situação vivida pelas pessoas que ocupam aquele prédio, mostrou fatos relativos a outras ocupações, à repressão policial, e se envolveu também com os aspectos psicológicos, humanos, daquelas pessoas sofridas, mas ativas e lutadoras.  Mostrou o comando e a força do gênero feminino nessa batalha diária e constante que é a ocupação.

Carmen Sílvia desponta como liderança popular, forte e decidida, e acaba se revelando como atriz.  José Dumont e Suely Franco estão muito integrados à situação, vivendo tudo aquilo junto com os ocupantes sem-teto, como se fossem eles próprios moradores e integrantes do movimento de moradia.




“Era o Hotel Cambridge” reflete o amálgama de fatos, situações, encenações, personagens, que se confundem no real e no imaginário, oriundos do mundo interno ou da dimensão sociológica, sem delimitações claras.  Toma o partido da FLM – Frente de Luta Pela Moradia – e dos demais movimentos a ela associados.  Realiza uma imersão comprometida com a questão social que retrata.  É um filme emocionante e envolvente.  Um filme de luta, eu diria.


“Era o Hotel Cambridge” recebeu muitos prêmios pelo Brasil.  O público da 40ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o do Festival do Rio 2016 o elegeu como melhor longa brasileiro.  Venceu também o Festival Aruanda, de João Pessoa, PB, e foi premiado no Festival Cinema de Fronteira em Bagé, RS, além de se destacar em festivais internacionais, como os de San Sebastian e Roterdã.


sábado, 18 de março de 2017

A BELA E A FERA


Antonio Carlos Egypto


A BELA E A FERA (La Belle et La Bête).  França, 1946.  Direção: Jean Cocteau.  Com Jean Marais, Josette Day, Marcel André, Mila Parely, Nane Germon.  93 min.

A BELA E A FERA (Beauty and the Beast).  Estados Unidos, 2015.  Direção: Bill Condon.  Com Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson.  92 min.



“A Bela e a Fera” é um tradicional conto de fadas francês, originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, em 1740.  Mas a versão mais conhecida da história é mais compacta e simplificada em número de personagens e situações.  Foi escrita por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, publicada em 1756.  A versão de Beaumont é a que serviu de base ao filme de Jean Cocteau (1889-1963), realizado em 1946, que se tornou um grande clássico do cinema fantástico. 




Cocteau foi um renovador da estética cinematográfica.  Seu filme contém imagens oníricas, surrealistas, e efeitos especiais.  Tem uma fotografia, em preto e branco, belíssima, que trabalha muito bem com a bruma, a neblina, a fumaça.  A direção de arte construiu um universo de mistério e riqueza, que explora o contraste entre feiúra e beleza interior.  A magia do conto está lá, numa dimensão dramática.  O cineasta nos convida a que deixemos fluir um pouco de nossa inocência infantil para acompanhar essa narrativa fantastica e acreditar na história.  Ou seja, ele se dirige ao público adulto, não às crianças.




Bem diferente da versão da Disney, em desenho animado, de 1991, dirigida ao público infantil, que transformou o conto trágico-romântico num bem-humorado musical.  A versão 2015 de “A Bela e a Fera”, também da Disney, que está agora nos cinemas, dirigida por Bill Condon, é uma live-action baseada naquela animação, muito popular e grande sucesso de público.  É o chamado filme-família.  As crianças provavelmente vão adorar.  Mas os adultos vão se divertir também.  É uma produção grandiosa, musical, com elenco forte e objetos que ganham vida e se destacam na narrativa, como o candelabro, o relógio, o bule, a xícara.  E o monstro é charmoso, quase tanto quanto a Bela. Leveza e humor tomam o lugar do drama, o romantismo vence o trágico, galhardamente.  Mas não sem antes uma boa luta, recheada de efeitos especiais.  Tem pouco a ver com o clássico de Jean Cocteau, embora a história seja basicamente a mesma.  Mas quanta diferença!

O Centro Cultural Banco do Brasil – SP está promovendo neste mês de março a Mostra “Jean Cocteau: O Testamento de um Poeta” e incluiu “A Bela e a Fera”, de 1946, entre as películas exibidas.  Esse filme também pode ser encontrado em DVD e em sites da Internet.


“A Bela e a Fera”, de Bill Condon, tem uma carreira promissora.  Está levando grande público às salas de exibição.  Não é novidade.  Afinal, marketing é o que não falta e o número de salas, como sempre acontece com os blockbusters, é arrasador.



quarta-feira, 15 de março de 2017

O FILHO DE JOSEPH


Antonio Carlos Egypto




O FILHO DE JOSEPH (Les Fils de Joseph).  França/Bélgica, 2016.  Direção e roteiro: Eugène Green.  Com Victor Ezenfis, Natacha Règnier, Fabrizio Rongione, Mathieu Amalric, Maria de Medeiros.  115 min.



A questão que move a narrativa de “O Filho de Joseph” é a da parternidade.  Ausência e rejeição pesam muito e o mínimo de equilíbrio e o bom humor parecem estar condicionados ao encontro de figura paterna substituta.

O personagem central é Vincent, um adolescente de 15 anos, vivendo bem com a mãe,   mas insatisfeito por desconhecer o pai.  Até que o descobre e a decepção só cresce.  Desejos de vingança tomam corpo, no entanto, uma afetividade inesperada pode pôr as coisas no lugar.

Dito assim, dá para imaginar um filme de fortes emoções.  Mas não é o que acontece.  Os diálogos soam cerebrais, artificiais.  Os tempos de reação são demorados, estranhos.  Evita-se o naturalismo e a expressão de grandes emoções.  Elas estão lá, mas represadas ou enquadradas por um certo formalismo.

Além de um tanto formal, o filme é todo erudito, se refere às diversas manifestações artísticas, como a pintura, a música, o cinema e a literatura.  Histórias bíblicas inspiram a trama.  Quem quiser buscar citações vai encontrá-las em todo lugar, o tempo todo.  O diretor Eugène Green vai na mesma linha que adotou em “La Sapienza”, seu filme de 2014.

O roteiro parte de uma temática bastante usual e conhecida, mas tem um refinamento artístico que lhe dá um ar sofisticado.  Seu maior mérito, porém, está na evolução das situações e na solução que surpreende, pelo menos da forma como foi conduzida.


Os desempenhos soam estranhos, pelos já citados racionalismo e formalismo que o filme adota.  Superado esse inconveniente, dá para curtir bem a proposta.


INSUBSTITUÍVEL


Antonio Carlos Egypto





INSUBSTITUÍVEL (Médicin de Campagne).  França, 2016.  Direção: Thomas Lilti.  Com François Cluzet, Marianne Denicourt, Isabelle Sadoyan, Christophe Odent.  102 min.



O Dr. Jean-Pierre Werner (François Cluzet)  é um médico dedicado, que trabalha numa comunidade rural da França, há 30 anos.   O que ele faz é o que no Brasil denominamos de saúde da família.  Ou seja, ele vai às casas dos pacientes, enfrenta caminhos difíceis, mau tempo, atende todo tipo de emergências e é muito querido na localidade.  O seu trabalho é muito eficaz, de modo que será muito difícil substituí-lo quando uma doença o incapacitar para uma atividade como essa, tão exigente e desgastante.  Só que ele se orgulha do que faz e atua com prazer.

Quando a situação se coloca, o conflito se estabelece.  Ninguém é insubstituível, mas Nathalie (Marianne Denicourt), a médica recém-formada que chegou, também vai mostrar seu talento, mas de outra forma.  Terá muito a aprender com ele, mas também terá o que ensinar a ele. Dessa relação e do trabalho que farão juntos, com  todas as dificuldades previsíveis, resultarão novas sínteses na vida deles e na da comunidade que atendem.


O filme é muito realista ao abordar o trabalho médico, suas exigências, sua dedicação, a importância que tem e o quanto gratifica o profissional que o exerce com seriedade.  Compreensível.  O cineasta Thomas Lilti já tinha dirigido três curtas-metragens, antes de se formar em medicina.  Dedica-se ao trabalho como diretor e roteirista, mas segue praticando a medicina.  Ele sabe do que está falando.  O cinema tem a ganhar com isso.  O filme exibe essa competência.  Mas tem, também, dois ótimos protagonistas, François Cluzet e Marianne Denicourt, que valorizam muito seus papéis.



quarta-feira, 8 de março de 2017

SILÊNCIO


Antonio Carlos Egypto





SILÊNCIO (Silence).  Estados Unidos, 2016.  Direção: Martin Scorsese.  Roteiro: Jay Cocks.  Com Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, Yoshi Oida.  162 min.


Quem for ver “Silêncio”, de Martin Scorsese, no cinema, não pode deixar de se deleitar com a beleza da filmagem.  Cada plano encanta pelo enquadramento, colocação da câmera, elaboração da sequência, em locações magníficas, deslumbrantes.

O uso simbólico do fogo e da água, ao desenvolver a narrativa, é especialmente cativante.  Água e fogo produzem tanto a vida quanto a morte, em condições extremas.  De uma forma a um tempo grandiosa e assustadora.  Purificadora e destrutiva.  Avassaladora, sempre.

A fotografia de “Silêncio”, a cargo de Rodrigo Prieto, é espetacular.  Foi a única indicação ao Oscar que esse filme recebeu, e não levou.  Lamentável.  Não tinha concorrente à altura.  É difícil deixar de admirar o trabalho de fotografia, que é belo e perfeito para o clima da história e para o ambiente onde ela se passa.

A intensidade da trama está muito bem marcada por um elenco que transborda emoção até desembocar na frieza da apostasia.  Que, no caso, representa o abandono de convicções vitais para os personagens.






O assunto nos leva à expansão do catolicismo pelo mundo e à imposição dessa fé a todos os cantos, realizada pelas missões cristãs que aportaram por aqui desde o século XVI e buscavam conquistar também o Japão, sem sucesso.  A trama do filme “Silêncio”, do grande diretor Martin Scorsese, se inspira no romance do escritor Shusaku Endo (1923-1996), uma história ficcional baseada em fatos reais do fim da década de 1630, em que os padres portugueses Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) vão à procura de seu mentor, o padre Ferreira (Liam Neeson), num Japão que proibia, perseguia e atuava com violência para coibir a fé cristã.  O próprio escritor Shusaku Endo, japonês e católico praticante, sempre encontrou dificuldades para conciliar a cultura nipônica com as características do cristianismo.

O filme põe em questão a ideia de que a cultura japonesa seria o lodo que traga qualquer inovação, resistente às interferências que modificariam suas crenças e tradições, nessa época histórica, com repercussão na própria contemporaneidade.  E põe em evidência a imperiosa necessidade de que qualquer fé, ou novo conceito, tem de respeitar cada cultura, sob pena de naufragar e produzir violência e guerras que poderiam ser evitadas.

De um lado, a ação dos dirigentes japoneses, os xóguns do século XVII, era de uma brutal opressão aos missionários portugueses, envolvendo crueldades inimagináveis, ao tentar isolar o Japão de interferências externas.  De outro, fica clara a tentativa de passar por cima de uma cultura milenar, como um autoritarismo também inaceitável.  E Buda pode ocupar o lugar de Cristo na abjuração da fé, em troca da sobrevivência.  Até Deus silencia.

O tema é muito caro ao diretor Scorsese, que alimentou o projeto da adaptação do livro de Endo por muito tempo, até conseguir realizá-lo.  Pode ser que algumas pessoas não tenham tanto interesse nesse tema histórico/religioso.  Mas não devem ficar indiferentes à qualidade cinematográfica do novo trabalho de Martin Scorsese.



segunda-feira, 6 de março de 2017

SOUVENIR

  
Antonio Carlos Egypto




SOUVENIR (Souvenir).  França, 2016.  Direção e roteiro: Bavo Defurne.  Com Isabelle Hupert, Kévin Azaïs, Johan Leysen, Carlo Ferrante.  90 min.


Em “Souvenir”, uma empregada numa fábrica de tortas passa seus dias botando enfeites em bolos, de forma mecânica e tediosa.  Leva uma vida simples e um tanto isolada.

Um novo colega de trabalho, no entanto, se convence de que ela é uma cantora que fez sucesso alguns anos atrás e se envolve amorosamente com ela.

Isabelle Hupert, no papel da operária/cantora, é brilhante.  Deixa em seu desempenho uma dúvida constante.  Trata-se, de fato, da mesma pessoa?  Como é possível?  Ela transmite a ambiguidade da situação com precisão e em uma atuação minimalista, sutil.  Digna de seu grande talento.

Que bom que os filmes em que ela atua são sempre lançados por aqui.  Hupert tem muitos fãs no Brasil.  Que devem ter torcido, como eu, para que ela ficasse com o Oscar por seu papel no filme “Elle”.  Mesmo sabendo que isso não aconteceria.

Deu Emma Stone, por “La La Land”.  Algo parecido com o que aconteceu , em 1999, quando Fernanda Montenegro, por “Central do Brasil”, perdeu para Gwyneth Paltrow, por “Shakespeare Apaixonado”.  Um absurdo!  De qualquer modo, as duas grandes atrizes, Isabelle e Fernanda, ganharam o reconhecimento em escala mundial, com a indicação.  É sempre bom lembrar: o Oscar é um prêmio da indústria, não da arte.



UM LIMITE ENTRE NÓS


Antonio Carlos Egypto




UM LIMITE ENTRE NÓS (Fences).  Estados Unidos, 2016.  Direção: Denzel Washington.  Com Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Russell Hornsby. 139 min.


“Fences”, a peça teatral de August Wilson, foi levada na Broadway com Denzel Washington e Viola Davis como protagonistas.  A versão cinematográfica, que recebeu o mesmo nome (aqui, “Um Limite Entre Nós”), teve August Wilson como roteirista, foi dirigida por Denzel Washington e protagonizada por ele e Viola.

É um drama familiar, um melodrama como muitos outros, bem construído, com bons diálogos, acrescentando a esses ingredientes uma realidade norte-americana de grande hostilidade aos negros, na década de 1950.

O filme não disfarça sua origem teatral, mas tem um bom ritmo e uma temática e personagens consistentes.  O seu maior triunfo, sem dúvida, são seus dois maravilhosos atores principais: Denzel Washington e Viola Davis.  Eles dão um show de interpretações, revivendo os papéis que já haviam desempenhado no teatro.  Viola ganhou o Oscar de atriz coadjuvante (por que coadjuvante?), o Globo de Ouro e o BAFTA britânico.  Prêmios merecidíssimos.  Denzel merecia outro tanto.  E o elenco de atores é todo muito bom, de primeira linha.




sábado, 25 de fevereiro de 2017

TONI ERDMANN


Antonio Carlos Egypto




TONI ERDMANN (Toni Erdmann).  Alemanha, 2016.  Direção e roteiro: Maren Ade.  Com Peter Simonischek, Sandra Hüller, Ingrid Bisu, Trystan Pütter, Michael Wittenborn.  162 min.



Há muitas maneiras de encarar a vida, por exemplo, permitindo-se ser tragado pelo trabalho, em nome de uma ambição profissional.  Vive-se um presente estressado, desgastante, em busca de um possível sucesso futuro, ou de simples expectativa ou esperança a respeito dele.  Esse parece ser o caso da personagem Inês (Sandra Hüller), consultora de grande empresa multinacional, sediada em Bucareste, na Romênia.

O pai de Inês, Winfried (Peter Simonischek), tem outra pegada de vida.  Coloca o humor em primeiro plano, faz suas brincadeiras, muitas vezes irritantes, sem se incomodar com isso.  Encarna outro personagem, para provocar as pessoas, para ajudá-las e para se divertir.  É um fanfarrão.  A idade já lhe permite ser mais solto e debochar de coisas que parecem muito sérias, no mundo dos negócios.  Ou ele terá tido sempre tal inclinação, mas agora tem menos a perder.




De qualquer forma, são dois modos muito diferentes de viver que, como seria de se esperar, não podem dar química e tendem à fissura quando não à explosão.  Esse embate entre dois mundos é a matéria-prima da comédia dramática, muito bem conduzida pela diretora e roteirista Maren Ade, “Toni Erdmann”, filme alemão selecionado para a disputa do Oscar de filme estrangeiro e que já faturou muitos prêmios mundo afora, desde que foi lançado em Cannes.

Implodidas as convenções sociais, o questionamento que fica é sobre o que vale realmente a pena fazer da vida e o melhor jeito de tocá-la, o que perpassa toda a narrativa.  Um destaque para a fugacidade da chamada felicidade, que é feita de momentos que algumas vezes passam sem serem percebidos, para só depois serem reconhecidos como tal.  Ou que a gente não permite que aconteçam, talvez por medo do ridículo.




Toni Erdhmann é um personagem criado por Winfried para interagir com a filha de um outro modo, explorando outras possibilidades, uma tentativa bem humorada de enfrentar um impasse.  É daí que vem a comicidade do filme.  Um tipo de humor um tanto estranho, exploratório, que vai incomodar algumas pessoas. Mas que tem a vantagem de possibilitar as muitas surpresas e reviravoltas que a trama apresenta.  E se não chega a levar a muitas gargalhadas, a farsa e a ironia que esse humor carrega produzem risos com frequência. 

Interpretações soberbas do elenco, em especial os protagonistas Peter Simonischek e Sandra Hüller, dão sustentáculo a um trabalho bem estruturado e construído a partir de um roteiro original, inspirado no próprio pai da diretora Maren Ade.  Ela, de fato, concebeu um grande personagem, uma figura bem inusitada e curiosa.  Capaz de encantar alguns, irritar outros, mas que não produz tédio ou indiferença.  Isso, apesar da duração excessiva do filme, de quase três horas.  Não precisava tanto, mas não cansa ou aborrece.  Tem bom ritmo e fluência. 

O final do filme é simples e perfeito.  Coroa de modo muito inteligente o que a trama desenvolveu ao longo de todo esse tempo. 


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

PAPA FRANCISCO:CONQUISTANDO CORAÇÕES


Antonio Carlos Egypto




PAPA FRANCISCO: CONQUISTANDO CORAÇÕES (Francisco: El Padre Jorge).  Argentina/Espanha, 2015.  Direção: Beda DoCampo Feijóo.  Com Darío Grandinetti, Silvia Abascal, Anabella Agostini, Gabriel Gallicchio, Leonor Manso.  105 min.



O papa Francisco é uma figura pública das mais admiráveis da atualidade.  Por seu despojamento, sua simplicidade ao exercer o poder que tem, pela procura por ouvir, acolher e entender mais do que julgar ou restringir as pessoas e a diversidade humana.  É um homem que pratica o que prega e o faz com humildade.  Sua inserção neste nosso cada vez mais insensato mundo trouxe um sopro de tolerância e liberdade, que há muito se fazia necessário, sobretudo partindo da poderosa Igreja Católica.

Chega a seu quarto ano de papado e ganha uma cinebiografia para celebrá-lo.  O personagem é cativante e merece o apoio que tem recebido dos homens e mulheres de bem, sejam religiosos ou não.  O problema que esse tipo de filme pode trazer é ser chapa-branca e servir apenas à propaganda ou propagação de uma religião.  Ou só falar aos já convertidos.  O título em português: “Papa Francisco: Conquistando Corações” só reforça essa impressão marqueteira.  No entanto, o título original é outra coisa: “Francisco: El Padre Jorge” e corresponde muito melhor ao que é o filme e ao personagem que retrata.




Jorge Bergoglio, o padre Jorge, que se tornou papa, o primeiro da América Latina, é uma pessoa forjada no convívio com as questões sociais de uma região empobrecida.  Sendo um homem de ir às ruas e ao contato com as pessoas, desenvolveu sensibilidade para ir muito além da doutrina e suas regras, o que seu antecessor Bento XVI, Joseph Ratzinger, não demonstrava.  O filme mostra isso e coloca claramente os dois polos, o inovador e o conservador, mas não só não faz qualquer crítica ao papa que renunciou como cita uma fala de Francisco, colocando como corajoso e revolucionário o seu ato surpreendente de renúncia.  Certamente não convinha a crítica direta ou a comparação de estilos.  Seria quase afrontoso fazê-lo, tão gritante é essa diferença.

Da mesma maneira, o filme cita os escândalos da pedofilia na igreja e o do Banco do Vaticano, mas não lida com esses temas.  Do casamento gay nem se fala.  A questão do aborto aparece numa cena do papa, confortando uma fiel, que chorava e se dizia arrependida de ter tirado o feto.  Terrível, mas algo passível de ser acolhido ou perdoado.  A questão é mais complexa e pode dispensar essa culpa toda, mas já há algum avanço aí.




De resto, o filme mostra a evolução do padre Jorge em cenas muito menos convincentes sobre a sua juventude, relações familiares e interesse por eventuais namoradas do que na sua vida adulta de padre, bispo, cardeal de Buenos Aires.  Em parte, porque o ator que faz o jovem padre Jorge, Gabriel Gallicchio, não é muito expressivo no papel, enquanto o grande ator argentino Darío Grandinetti encarna magistralmente o papa Francisco.  Já conhecido do público brasileiro por filmes como “Fale Com Ela” e “Julieta”, ambos de Pedro Almodóvar, ou “Relatos Selvagens”, de Damián Szifron.

A narrativa explora o período que envolve o conclave que elegeu Ratzinger e depois, o que elegeu Bergoglio, por meio do relacionamento do padre Jorge com a jornalista Ana, papel da ótima atriz espanhola Silvia Abascal, cuja parceria com Grandinetti resulta estupenda.




A trama está longe de apresentar uma história simplificada ou adocicada.  Mostra os conflitos, as dificuldades e as questões que envolveram Bergoglio e a ditadura militar argentina, incluindo as denúncias feitas quando o atual papa assumiu.  Explica e defende o papel que ele teve naquela ocasião, junto aos padres jesuítas sequestrados, além de outros atos de solidariedade que, como mostra o filme, parecem não só comuns como definidores da personalidade e da atuação do padre Jorge.

Enfim, é um filme que se vê e se aprecia muito bem e que não entra naquela categoria indesejável de filme religioso de propaganda.  É uma boa produção, dirigida por Beda DoCampo Feijóo, cineasta nascido em Vigo, na Espanha, mas radicado na Argentina desde que era bebê, para onde se mudou sua família.  Baseou-se no romance Pope Francis, Life and Revolution, de Elisabetta Pique, jornalista argentina, nascida em Florença, na Itália, correspondente do jornal La Nación, no Vaticano.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

EU NÃO SOU SEU NEGRO


Antonio Carlos Egypto




EU NÃO SOU SEU NEGRO (I Am Not Your Negro).  Estados Unidos, 2016.  Direção: Raoul Peck.  Documentário.  Com participação de Samuel L. Jackson (voz), James Baldwin, Dick Cavett. 95 min.


O escritor James Baldwin (1924-1987) escreveu a seu agente, visando a terminar um livro, Remember This House, que pretendia contar uma parte da história dos Estados Unidos, por meio da morte de três amigos dele, todos que militaram pelos direitos civis ou por um separatismo negro: Medgar Evers (1925-1963), Malcolm X (1925-1965) e Martin Luther King (1928-1968).  Muitos anos depois da morte de Baldwin, o manuscrito veio a inspirar o filme de Raoul Peck “Eu Nâo Sou Seu Negro“. O documentário chega agora aos cinemas com a chancela da indicação ao Oscar em sua categoria.

“Eu  Não Sou Seu Negro” é um filme politicamente forte, muito bem documentado (com trechos de entrevistas televisivas do próprio Baldwin e imagens de arquivo das lutas dos movimentos civis, narradas por Samuel L. Jackson), que mostra como a história dos Estados Unidos é toda impregnada de um racismo atroz, de dar vergonha a qualquer país. Merece ser visto com atenção.

É sempre bom lembrar que o Oscar 2016 foi criticado por sua brancura, injusta para com o talento negro de Hollywood. Deu resultado, este ano há diversos filmes indicados que tratam da questão dos negros e muitos profissionais lembrados. Melhor assim. Entre todos, o que mais se destaca, pela contundência da denúncia e pelas provas cabais de racismo que apresenta, é justamente “Eu Não Sou Seu Negro”.

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Já está em cartaz também MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR. Veja a crítica do cinema com recheio.

https://cinemacomrecheio.blogspot.com.br/2017/01/moonlight-sob-luz-do-luar.html


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

UM HOMEM CHAMADO OVE


Antonio Carlos Egypto




UM HOMEM CHAMADO OVE (En Man Som Heter Ove).  Suécia, 2016.  Direção: Hannes Holm.  Com Rolf Lassgard, Bahar Pars, Ida Engvoll, Filip Berg.  116 min.



Um bom personagem, que fuja dos clichês e estereótipos, que se revele humano e complexo, é meio caminho andado para um bom filme.  Ove é um personagem assim, embora, de início, ele se apresente como um sujeito simplório, pouco inteligente e rígido ao extremo.

Ele se apega a regras que, no fundo, ele mesmo criou como síndico de um condomínio e incomoda todos que por lá circulam, para se assegurar de uma existência pobre, mas segura.  Pobre, no sentido espiritual.  Afinal, estamos na Suécia e a classe média baixa por lá vive bem.  Muito bem atendida em suas necessidades básicas.

Ove chega aos 59 anos já viúvo e agora aposentado contra sua vontade, pouco lhe resta para usufruir da vida.  Pelo menos, é assim que ele encara as coisas: não existiu nada antes de Sonja (sua mulher morta) e nada haverá depois dela.  Com isso, ele se afunda num niilismo pessoal, se afasta de tudo e de todos, de forma mal-humorada e agressiva e, consequentemente, decide se suicidar.  Mas morrer não é nada fácil e suas tentativas costumam ser desastradas.




Existe também a alteridade e mesmo que se desejem negar a existência, os direitos e as necessidades dos outros, eles estão lá e podem se impor, goste-se ou não disso. Quem é o ser humano sem o outro, que pode incomodar, sim, mas também pode ressignificar a sua própria vida?  Que sorte tem o Ove que as pessoas não o abandonem, não porque sejam altruístas, mas porque ele tem algo a dar sempre, apesar das evidências em contrário.

É por aí que o filme avança na humanidade de seu personagem e nos faz refletir sobre o que é a nossa vida.  A partir de situações comezinhas, banais, as coisas se mostram e podem ser descobertas.  Uma história também vai se revelando e, por mais simples e corriqueira que pareça, é emocionalmente forte e marcante.



O filme se baseia no best seller A Man Called Ove, de Fredrik Backman, que eu não conheço, mas percebe-se que o diretor Hannes Holm quis aproveitar as muitas (todas?) situações do romance.  Se é verdade que isso amplia o universo de Ove, por outro lado, dispersa um pouco o interesse.  Muita coisa é dispensável, não acrescenta à temática principal e, se melhor editado, poderia deixar o filme mais enxuto e focado.  No texto escrito, faz mais sentido do que na tela.  Fidelidade excessiva ao romance costuma ser uma armadilha para o cinema.  Aqui há alguma perda, mas “Um Homem Chamado Ove” se sustenta bem no seu clima doce azedo, em que cabem a angústia, o drama, a tragédia do passado e, ao mesmo tempo, muito humor e muita ternura.  O afeto como reparador da rigidez e da intolerância, caminho de descoberta.

Conta-se aqui uma boa história, a partir de um bom personagem.  E isso se faz de uma maneira honesta, limpa.  Não é tão original, mas é muito bom o caminho trilhado pela narrativa.  Rolf Lassgard é ótimo como Ove, sustenta o filme o tempo todo.  Filip Berg, que faz Ove jovem, também dá conta do recado.  E as duas mulheres protagonistas são ótimas: Bahar Pars, que faz a amiga Parvaneh, e Ida Engvoll, a esposa Sonja, têm grande expressividade e beleza.  Acrescentam ao filme uma luminosidade que lhe é essencial.





“Um Homem Chamado Ove” está entre os selecionados para a disputa do Oscar de filme estrangeiro, ou filme de língua não-inglesa.  O que já lhe garante destaque e boa distribuição internacional.  Tem méritos para isso.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

COMENTÁRIOS BREVES SOBRE FILMES EM CARTAZ

Antonio Carlos Egypto

 
LION


LION – UMA JORNADA PARA CASA, dirigido por Garth Davis, é um filme que tem uma causa: a das crianças abandonadas.  Parte da história real do indiano Saroo Bierley, que escreveu o romance autobiográfico A Long Way Home sobre suas lembranças da infância na Índia, da perda nas ruas de Calcutá , da sua adoção por um casal de australianos e da sua vida no novo país.  O retorno à sua aldeia natal na Índia se fará aos 25 anos de idade, a partir do aplicativo Google Earth, capaz de achar uma casa perdida nos confins da Índia.  Como se vê, o filme também serve a interesses de propaganda. É daqueles filmes para emocionar, com a participação do ator mirim indiano Sunny Pawar, muito bom, e um elenco que tem Dev Patel (aquele de “Quem Quer Ser um Milionário?”), Nicole Kidman, Rooney Mara e David Wenham. Cinco indicações ao Oscar 2017. 119 min.


JACKIE


JACKIE, o filme estadunidense do já conceituado diretor chileno Pablo Larraín, é uma cinebiografia de Jacqueline Kennedy.  Mostra sua vida na Casa Branca, no período em que ocorrem o assassinato do presidente John Kennedy e suas exéquias.  Não aborda sua vida anterior, nem posterior, ao lado do milionário grego Onassis.  E o interesse do filme não se prende apenas ao fato histórico, já sobejamente conhecido, nem mesmo a quem era a famosa primeira-dama e suas reações.  Pelo menos não só a isso.  Na verdade, o que Larraín quer discutir é a construção da narrativa.  As versões em jogo, a luta de Jackie para marcar, difundir e valorizar a trajetória do presidente e seu legado, em meio a outros interesses e versões que pretendiam minimizar o episódio e suas consequências.  Ela lutou pela sua verdade, sabendo ser tão manipuladora quanto todas as outras, junto à mídia da época e em busca dos símbolos que um sepultamento marcante pode engendrar na mente das pessoas e na história.  Esse é o grande mérito do filme, em tempos de pós-verdade, em que os fatos nem contam mais, um tiro certeiro.  Natalie Portman vive uma Jackie a um tempo contida nos gestos, expressões e falas, mas forte e decidida, no figurino que marcou época.  O elenco tem ainda Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup e John Hurt. Três indicações ao Oscar 2017.  Duração: 100 min.


MARGUERITE & JULIEN


MARGUERITE & JULIEN: UM AMOR PROIBIDO procura tratar do incesto como um tema universal, essencial, que independe de contexto.  A sua interdição abrange, de fato, todas as culturas, tempo e lugares.  Mas as reações, as punições e os sentimentos variam, evidentemente.  O filme começa afirmando que Marguerite e Julien viveram há muito tempo atrás, sem precisar em que época.  Mas o que se vê, o castelo, a ambientação rural, a locomoção por cavalos, as roupas, etc., remontam, digamos, ao século XIX.  No final, surge a informação de que o casal morreu em 1603.  Um jogo de pebolim, uma máquina fotográfica Rolleiflex e até mesmo um helicóptero que aparecem procuram embaralhar tudo.  Mas não existe essência sem contexto e a brincadeira não faz sentido, no dramalhão em que se converterá a história.  A narrativa se perde na forma, embora o filme seja visualmente bonito, inclusive com algumas soluções visuais atraentes e até um certo maneirismo, dispensável.  A diretora, Valérie Donzelli, exagerou na dose.  O trabalho do casal de protagonistas Anais Demoustier, como Marguerite, e Jérémie Elkaïm, como Julien, não chega a salvar o filme, porque a moldura que os envolve é inconsistente, mesmo sendo uma livre adaptação de um fato que sucedeu.  Belo, sim, mas carente de veracidade.  105 min.


ATÉ O ÚLTIMO HOMEM


ATÉ O ÚLTIMO HOMEM, de Mel Gibson, com Andrew Garfield, Vince Vaughn, Teresa Palmer, Sam Worthington e Hugo Weaving, é um filme de guerra paradoxal.  Conta a história verdadeira de Desmond Doss, um médico jovem que se alista voluntariamente, por patriotismo, para servir na Segunda Guerra Mundial.  Porém, como objetor consciente, se recusa a pegar em armas e matar alguém, mesmo em meio às batalhas em que participa, cuidando dos que se ferem.  Além disso, é vegetariano.  Sobreviveu e acabou condecorado com a Medalha de Honra, por ter salvado muita gente.  O filme tem aquele estilo religioso e moralista que conhecemos de Mel Gibson.  É longo e violento, com requintes sangrentos.  Mostra os japoneses indestrutíveis, perigosos e sem rosto.  Ou seja, sem humanidade.  E, como observou o crítico Celso Sabadin, não tem negros lutando na guerra.  Pode?  No entanto, “Até o Último Homem” tem seus méritos: você entra na batalha, vive a guerra por dentro, como se fosse um soldado ali metido.  As cenas de guerra são espetaculares e mostradas sob diferentes formas.  A filmagem é requintada e realista.  Para quem curte filmes de guerra, um prato cheio. Seis indicações ao Oscar 2017. Duração: 138 min.



A GAROTA DESCONHECIDA


A GAROTA DESCONHECIDA, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, mais uma vez põe em evidência um dilema moral. Desta vez o de uma jovem médica que não atende a campainha após o expediente e fica sabendo que a pessoa que procurou o consultório morreu. A partir daí o filme vai pouco a pouco moldando as ações movidas pela culpa. É um belo trabalho, mas tem problemas com a verossimilhança e com a solução do caso, que acontece em desacordo com o clima do filme.  Durante os 106 minutos da projeção, não pude evitar de pensar que os badalados irmãos belgas Dardenne já estiveram em melhor forma.  Com Adéle Haenel, Jérémie Renier, Fabrizio Rongione.