segunda-feira, 2 de agosto de 2021

ABE

Antonio Carlos Egypto

 

ABE.  Brasil, 2019.  Direção: Fernando Grostein Andrade.  Com Noah Schnapp, Seu Jorge, Dagmara Dominczyk, Arian Moayed, Gero Camilo.  86 min.

 

 “Abe”, filme brasileiro dirigido por Fernando Grostein Andrade, apresentado como comédia dramática, na realidade não é tão engraçado, nem tão dramático.  É um filme dirigido a adolescentes, a partir de seu protagonista: um garoto de 12 anos de idade, de classe alta, que vive no Brooklin, Estados Unidos.  Ele é um aficionado pela comida, gosta de cozinhar, testar sabores, ou seja, estamos falando de gastronomia.  Só que ele tem um talento especial para a coisa e é em torno disso que a narrativa segue.

 

Curiosamente, Abe (Noah Schnapp) não tem amigos, exceto virtualmente. Suas andanças são em busca de aperfeiçoar seu talento culinário e sua vida gira em torno da família.  Uma cena mostra seu aniversário com familiares dos dois lados, pai, mãe e avós, e só.

 

Pelo lado da mãe, ele é judeu e se chama Avraham (em hebraico) ou Abraham (em inglês).  Pelo lado do pai, é muçulmano e chamado de Ibrahim (em árabe), sendo que o pai, na verdade, não é religioso, é ateu.  Por tudo isso, ele escolheu ser chamado de Abe.  Pelo menos, é o que ele gosta.

 



Os problemas decorrentes dessas identidades diversas aparecem como conflitantes, a partir da própria comida.  Ele não sabe se pratica o jejum do Ramadan, come porco ou faz bar mitzvah.  As refeições, quando reúnem os dois lados da família, sempre acabam mal. Vai daí que Abe resolve se dedicar à fusão gastronômica, com a ajuda de um chef brasileiro, vivido por Seu Jorge, a partir da ideia de que misturar sabores pode unir as pessoas.  Será que funcionará?

 

Ideias como essa perpassam a trama, com frases do tipo autoajuda: “seja você mesmo”, “a família a gente não escolhe” e outras do gênero.  É raso, mas pode funcionar para os mais jovens.  O uso e abuso das mensagens de Internet, a colocação de palavras na tela, em ritmo acelerado, dialogam justamente com esse público.

Há um evidente bom gosto na trilha sonora que acompanha as peripécias de Abe e seus relacionamentos com adultos.  A música parece se dirigir mais aos adultos do que aos que têm doze anos.  Conta com o talento de Jacques Morelembaum, música até de Tom Jobim, e termina já nos créditos finais muito bem, com a milonga “Moro Judio”, de Jorge Drextler.

 

Que adolescentes se identificarão com um personagem como esse, num filme brasileiro, falado em inglês, eu não sei.  Parece muito distante de representar a realidade dos jovens brasileiros, mesmo dos que são ricos e vivem, ou viveram, no exterior. Embora o filme não deixe de mostrar que mesmo futuros chefs de cozinha bem aquinhoados de posses e talento culinário tenham que ralar, trabalhar muito e fazer coisas chatas, difíceis ou sem glamour.  Menos mal.

 



sábado, 31 de julho de 2021

MANGUEIRA EM 2 TEMPOS

Antonio Carlos Egypto

 

 



MANGUEIRA EM 2 TEMPOS.  Brasil, 2019.  Produção, direção e roteiro: Ana Maria Magalhães.  Documentário.  90 min.

 

 

Com o documentário “Mangueira em 2 Tempos”, a produtora, diretora, roteirista e atriz Ana Maria Magalhães nos leva ao mundo mágico da Estação Primeira de Mangueira, uma das mais importantes e tradicionais Escolas de Samba do Rio de Janeiro.  Ela nos põe em contato com personagens que nasceram naquele ambiente de samba, canto, dança, batucada, fantasias, e dos portentosos desfiles.  Um mundo encantador para uma criança.  Que ela registrou num curta-metragem de 1993, “Mangueira do Amanhã”

 

Naquela oportunidade, ela filmou a Escola de Samba Mirim da Mangueira, formada por amiguinhos de infância, nos anos 1990, fascinados e alimentando sonhos de muito brilho, na bateria nota 10, na porta-bandeira e sua glória, nas passistas de samba no pé, nas roupas deslumbrantes (de preferência, não as mais pesadas). 

 

Sequências desse curta são lembradas aqui, e exibidas para os mesmos personagens, vinte anos depois.  Eles se divertem com as imagens, as lembranças, a ingenuidade infantil que demonstravam, mas também reconhecem que aquele período foi muito feliz e marcante. Ana Maria irá retomar com eles o que se passou depois disso, que sonhos vingaram, que óbices surgiram para realizá-los ou desistir deles, o que a vida lhes trouxe e que construções eles puderam concretizar.

 

A principal figura dessa história é Wesley, atual mestre de bateria da Escola, um sonho que se realizou, da forma mais ampla, para aquele menino talentoso, que aparece no curta com um ritmo empolgante.  Segundo Alcione, ele era tão bom que não se viam suas mãos naquela atividade frenética.  Outro garoto, o Buí do Tamborim, vejam só, acabou arrumando trabalho como percussionista na China. Houve também quem, por suas escolhas, não sobreviveu para poder contar sua história.

 



As mulheres, Érika, Danielle, Michelle, Thathy, dividiram-se entre o mundo do samba, a gravidez, ainda na adolescência, o cuidado dos filhos e o risco da marginalização pelo crime, e houve quem se retraísse em público, por conta da religião que escolheu e que acabou funcionando como um freio.  Mas todas amam, ou amaram, desfilar na avenida.  Quem pôde, lá ficou.  Para as mulheres, porém, é sempre mais difícil essa coisa de dupla, tripla, jornada de trabalho.  Se bobear, o prazer sucumbe, até mesmo na passarela da alegria que é a Mangueira.

 

Nos últimos vinte anos, muita coisa mudou para todos, com a violência, o narcotráfico, as milícias, atingindo o Rio em cheio, complicando para todo mundo.  A Mangueira segue firme e vitoriosa, mas os tempos são mais difíceis e a Escola de Samba reflete isso nos seus enredos.

 

“Mangueira em 2 Tempos” sugere os dois tempos da filmagem.  Que não foram só dois, o das crianças e o atual, porque foram filmagens que aconteceram ao longo de vários anos.  Só que os dois tempos do título se referem a uma outra questão, também.  Aos 2 tempos de marcação do ritmo na música, comuns ao samba, ao funk e ao jazz, o que permite a integração  e viabilização de uma inovação rítmica.

 

Conhecer a história dessas pessoas e da sua Escola do coração, explicada por eles mesmos, alguns já famosos, como Wesley e o cantor Ivo Meirelles, além de Alcione, mangueirense por adoção, vendo e ouvindo a beleza do que eles são capazes de produzir artisticamente, é muito animador.  Em meio aos problemas, a arte popular aparece como esperança renovada de felicidade.

 

terça-feira, 27 de julho de 2021

CAROS CAMARADAS!

Antonio Carlos Egypto

 

 



CAROS CAMARADAS! (Dorogie Tovarischi).  Rússia, 2020.  Direção e roteiro de Andrei Konchalovsky.  Com Yuliya Vysotskaya, Vladislav Komarov, Andrey Gusev, Yuliya Burova.  121 min.

 

“Caros Camaradas!”, que representou a Rússia na disputa do Oscar de filme internacional 2021, põe no centro da sua narrativa um fato ocorrido na pequena cidade de Novocherkassk, em 1962.  Em pleno período de comando de Nikita Khrushchov (1894-1971), em que a opressão e os crimes de Josef Stalin (1878-1953) vieram à tona.  O grande herói da vitória contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial ainda era um paradoxo vivo na mente dos soviéticos.

 

Nesse ano de 1962, uma crise fazia com que os alimentos e outros produtos subissem de preço e escasseassem.  Enquanto isso, na fábrica de Novocherkassk, os dirigentes decretaram redução dos salários. Isso deu margem a uma greve e a uma grande mobilização dos trabalhadores, que terminaram com o povo sendo baleado em plena praça.  Os mortos recolhidos, decretou-se um estado de silêncio sobre os fatos, com contratos de sigilo assinados sob a condição de punições severas, que incluíam até a morte.  Com tudo limpo, dois dias depois promoveu-se um baile no local, como se nada tivesse acontecido.  O stalinismo, afinal, parecia vivo, ao menos naquela localidade.  O pensamento dos dirigentes do partido não tinha mudado realmente.

 

Aí é que entra a personagem central de “Caros Camaradas!”, Lyuda, membro da executiva do Partido Comunista da cidade, orgulhosa da União Soviética e contrária aos críticos e dissidentes do regime.  Não só os que o criticavam agora, mas também quanto aos críticos de Stalin.  Militante convicta e dirigente, tinha suas vantagens no suprimento de alimentos e no acesso a lugares proibidos à população.  Sabia do que se passava, mas tomava posição sempre apoiando os dirigentes e as medidas adotadas.  Defendia punições aos supostos agitadores, aqui denominados hooligans, em caráter depreciativo.

 



No levante dos trabalhadores, nos primeiros dias de junho de 1962, porém, sua filha desapareceu.  Ela estava nas manifestações dos trabalhadores.  E o filme será o seu périplo em busca da filha perdida.  Ao percorrer esses caminhos, Lyuda terá de encarar os porões do poder local e descobrir muitas coisas novas ou que ela não supunha que fossem assim.  Uma jornada que, inevitavelmente, colocará em xeque suas convicções,  em alguma medida.

 

O filme, realizado em preto e branco, com a tela quadrada, nos remete àquele momento histórico, como se estivéssemos assistindo a um noticiário local ou à representação de fatos ficcionais encenados logo após o ocorrido.  Não parece um filme de 2020.  Se o cinema tem a capacidade de nos transportar no tempo e no espaço, sobretudo pela via da emoção, aqui temos um bom exemplo disso.  Uma narrativa clássica, porém, revestida de uma embalagem retrô, um diretor talentoso nos enquadramentos e movimentos de câmera, um elenco de grande qualidade, fazem do filme um produto bem competente. A atriz principal, Yuliya Vysotskaya, que faz Lyuda, sustenta o filme com brilhantismo.

 

O diretor Andrei Konchalovsky já tem uma longa trajetória no cinema, o que inclui sucessos em Hollywood, em filmes como “Tio Vânia” (1970), “Os Amores de Maria” (1984), “Expresso para o Inferno” (1985), “Tango & Cash” (1989), “O Círculo do Poder” (1991) e “Paraíso” (2016).

 

   

quinta-feira, 8 de julho de 2021

O CHARLATÃO

Antonio Carlos Egypto

 

 




O CHARLATÃO (Charlatan).  República Tcheca, 2020.  Direção: Agnieska Holland.  Com Jan Vlasák, Joachim Paul Assböck, Ivan Trojan, Juraj Loj, Martin Mysicka.  92 min.

 

“O Charlatão”, que concorreu como representante da República Tcheca ao Oscar de filme internacional, desenvolve sua história de modo clássico – narrativa linear mais flash backs -- mas inclui múltiplos elementos de interesse para o público.  O filme, dirigido pela realizadora polonesa Agnieska Holland, baseia-se em fatos reais que envolveram o curandeiro tcheco Jan Mikolásek, no período pós Segunda Guerra, em Praga.

 

Ele possuía um dom de diagnosticar e curar, a partir da observação da urina dos pacientes, colocada em vidro transparente, apenas com as informações de gênero e idade das pessoas.  Jardineiro na adolescência, acumulou um conhecimento do poder curativo das plantas, por meio de composições de chás.  Obteve grande êxito junto ao público, que formava filas diárias de uma centena de interessados nesse tratamento.   Chegou a atender figurões da república, tanto no período da ocupação nazista quanto no período comunista, pelo menos até a morte do presidente Antonin Zapotochý, que chegou a ser seu paciente.

 

Já se vê, portanto, que a sua saga vai trazer implicações políticas e dialogar com um período histórico de grandes mudanças para a humanidade.  Os fatos específicos que se passam na Tchecoslováquia de então envolvem alguns detalhes pouco conhecidos por nós.  Porém, o clima geral do contexto histórico-político é bastante claro, visto em seu conjunto.

 

O drama desse personagem passa, ainda, por uma questão pessoal, em função da relação homossexual que manteve com seu assistente, que, concomitantemente, vivia um casamento heterossexual.  Portanto, temos aí uma tensão no terreno amoroso, com a agravante de que a homossexualidade era crime no país, nessa época.

 

Todos esses elementos vão desaguar num filme de tribunal, em que Mikolásek será julgado pela morte de dois de seus pacientes, atendidos à distância (por meio do envio do vidro de urina identificado), que acabaram morrendo com uma dose de veneno, supostamente envolvida no medicamento.

 




A trama é hábil em combinar todos os elementos na resolução dos conflitos na parte final do filme.  E também em não tomar partido com relação aos atos que definem o personagem, especialmente suas supostas atividades curativas.

 

Para nós, que por aqui acompanhamos o tal João de Deus, curandeiro que praticava reiteradamente abuso sexual em mulheres, o charlatanismo dos kits da covid-19 e a insistência em empurrar cloroquina a pacientes, fica difícil ser tolerante com essas práticas.  O fato é que curandeiros têm seu charme, muito apelo popular e há tantas coisas mal explicadas ou inexplicadas que nem mesmo os próprios envolvidos entendem, que fica difícil cravar uma verdade.  Como diria Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”.  E acrescento uma ideia que ouvi do dr. Dráuzio Varella, uma vez.  Quer tomar passe, se benzer, usar florais, terapias alternativas ou simplesmente rezar, faça isso, mas nunca deixe de seguir as orientações da medicina, da ciência,.e fazer os tratamentos devidos.  As palavras não seriam exatamente essas, mas o sentido sim.  A propósito: não deixe de tomar vacina, incluindo a segunda dose, certo?



  

terça-feira, 6 de julho de 2021

MIGLIACCIO, O BRASILEIRO EM CENA

Antonio Carlos Egypto

 

 



MIGLIACCIO, O BRASILEIRO EM CENA.  Brasil, 2021. Direção: Alexandre Rocha, Marcelo Pedrozzi e João Mariano ( Tuco).  Documentário.  86 min.

 

 

O filme “Migliaccio, o Brasileiro em Cena” é uma homenagem declarada ao grande ator Flávio Migliaccio (1935-2020), que também atuou como produtor, roteirista, diretor e até como desenhista, cartunista.  Uma figura humana marcada pela humildade e dignidade, em meio a tanto talento.

 

Ele mesmo se definia como um ser humano amador, aquele que está sempre em busca de aprender, de viver melhor, de experimentar modos de ser.  Como ele procurou, ao se isolar num belo espaço de natureza, construindo coisas e vivendo uma solidão que não o incomodava.  Ao contrário, ele a buscava em meio a tanto burburinho do sucesso, do assédio dos fãs, da figura pública tão conhecida da TV.  Profissional dedicado, empenhava-se para fazer o melhor trabalho e evoluir nos diversos aspectos do seu métier,  ainda assim se sentia um amador na vida. 

 

São os pensamentos e reflexões de Flávio Migliaccio, ao completar 80 anos de idade, o foco do documentário.  Numa conversa informal, enquanto come alguma coisa, à beira da praia ou do seu sítio, ele vai discorrendo sobre a sua profissão, a sua visão da arte como ofício.  E o faz com profundidade.

 

A figura simpática e alegre que sempre cativou os telespectadores, inclusive os mirins, tem na verdade uma larga trajetória artística por trás de si.  No teatro e no cinema, ele encarnou o homem do povo, o brasileiro.  Do famoso e lutador Teatro de Arena, com gente como Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, desenvolveu um senso das questões sociais e políticas agudo.  No cinema, por exemplo, esteve em “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, representando justamente o povo.  Enfim, um artista de esquerda, que se formou a partir de suas origens populares, vindo de uma família pobre, com 16 irmãos, em que o pai aspirava que ele viesse a se tornar barbeiro.  E que, já idoso, pediu ao filho que fizesse sua barba, com uma navalha, em pleno sucesso televisivo global.  Fiel a suas origens, alegre e divertido, Flávio encantou, vivendo personagens diversos, que ele fazia sem esforço, com muita naturalidade.

 



Aos 80 anos, com os cabelos brancos a se desprender da cabeça e mais sério, devido à abordagem do documentário, ele encanta pela pessoa que é, com seu jeito simples e ao mesmo tempo sofisticado de ser.  Alguém que pensa o mundo e a própria vida com intensidade.  O filme não trata do suicídio que ele cometeria cinco anos depois, já desencantado pelo declínio da velhice e pelo avanço da extrema direita fascista, que ele desprezava e temia.

 

No filme, ele se pergunta o que significa chegar aos 80 anos, com uma longa vida vivida, reafirmando a descrença em Deus, que já vem de longe.  Um ato de coragem e despreendimento, não é?

 

Sobre a carreira artística brilhante, não é preciso dizer muita coisa, os fragmentos do trabalho de Flávio Migliaccio, inseridos entre as suas reflexões, falam por si.   Ao que parece, no final de seus dias, ele sentia que a sua existência não tinha servido para muita coisa, ou para nada, mesmo.  Grande engano.  A obra de Migliaccio é soberba, ficará para sempre nos registros mais expressivos da cultura brasileira.

 

“Migliaccio, o Brasileiro em Cena” entra em cartaz nos cinemas em 08 de julho de 2021, mas como o filme tem coprodução da Globo News, do Canal Brasil e da Rede Globo, onde ele atuou de 1972 a 2019, chegará posteriormente à TV, também.



quinta-feira, 3 de junho de 2021

ACQUA MOVIE

Antonio Carlos Egypto

 

 



ACQUA MOVIE.  Brasil, 2019.  Direção: Lírio Ferreira.  Roteiro de Lírio Ferreira, Marcelo Gomes e Paulo Caldas.  Com Alessandra Negrini, Antônio Haddad, Guilherme Weber, Augusto Madeira.  105 min.

 

O diretor pernambucano Lírio Ferreira já tem uma carreira sólida no cinema brasileiro, com filmes importantes: “Baile Perfumado”, codirigido por Paulo Caldas, em 1996, “Árido Movie”, em 2005, “Cartola, Música para os Olhos”, codirigido por Hilton Lacerda, em 2007, e “O Homem que Engarrafava Nuvens”, sobre Humberto Teixeira, em 2009.

 

Seu novo trabalho, “Acqua Movie”, dialoga com “Árido Movie”, na história, no retrato do nordeste que segue violento, com o coronelismo que permanece por lá, nos conflitos resolvidos a bala, na perseguição e preconceito com o povo indígena, e no retorno a Rocha, cidade do sertão pernambucano.  Só que agora Rocha não há mais, foi inteiramente inundada pela transposição do rio São Francisco.  O jovem Cícero (Antônio Haddad) convence sua mãe Duda (Alessandra Negrini) a levar para lá as cinzas de seu pai morto, Jonas (Guilherme Weber), mesmo personagem de “Árido Movie”.  Só que só vai conseguir espalhá-las pelo São Francisco, hospedando-se em Nova Rocha, a 10 quilômetros da antiga Rocha.

 

A família que domina Nova Rocha é a deles, de Jonas, Duda e Cícero, mas é opressora do sertão e nada tem a ver com suas crenças atuais.  Basta dizer que Duda é documentarista, interessa-se pela demarcação das terras indígenas e filma na Amazônia.  Jonas, agora morto, para lá também não havia voltado.  O adolescente Cícero, no entanto, poderá ser seduzido pelo poder dos parentes. 

 

Como se vê pela descrição da situação, poderia se armar um suspense com potencial de tragédia.  Mas Lírio Ferreira busca caminhos distintos.  Investe no road movie (filme de estrada), explorando a diversidade humana e biológica do local.  E, claro, a beleza da região, trazendo agora a água ao primeiro plano.  Não mais a aridez da terra rachada pela seca.  Se a água traz um bem, também traz alguns males. Como diz um personagem que lá vive, represa é água parada, é água morta, o rio é vivo e corre. E ele está perdendo força.




Enfim, o nordeste mudou de cara, já não é mais o mesmo.  Contudo, a realidade social permanece, agravada por alguns fatores, como a ausência de políticas públicas relevantes para o enfrentamento da miséria ou da proteção aos povos indígenas, além do desmatamento que, como sabemos, só piorou.  Com as estruturas de poder intocadas, não se construirá uma nova realidade, ainda que a beleza da água se destaque em paisagem menos árida.

 

“Acqua Movie” explora visualmente a força e a beleza da água desde a primeira tomada, um jogo adolescente de surf dentro de casa.  As ondas já nos levam á nova dimensão da história.  Que fala de perdas submergidas na água do São Francisco, assim como Jonas, que sofre um infarto sob a água do chuveiro e transforma completamente a vida de Cícero, de quem era muito próximo.  Pegar a estrada é para Duda e para o garoto a chance de reaproximação, já que o trabalho dela a deixava distante dele por muito tempo. Mas será, essencialmente, a oportunidade de conhecer, reconhecer, uma região nordestina transformada pela vinda da água.

 

O filme é visualmente muito bonito, de concepção moderna, cujas imagens envolvem o espectador que se concentra naquilo que vê, mais do que no desenrolar da trama em si. O elenco tem ótimo desempenho dos protagonistas, em especial, Alessandra Negrini.  Antônio Haddad começa bem no cinema, Guilherme Weber, agora em papel menor, e Augusto Madeira estão muito bem.  E ainda há espaço para participações especiais de Marcela Cartaxo, bem divertida, e do cineasta Cláudio Assis.  Mais um tento a celebrar de Lírio Ferreira e do cinema pernambucano.

 

 

sábado, 29 de maio de 2021

CINE MARROCOS

Antonio Carlos Egypto

 

 



CINE MARROCOS.  Brasil, 2018.  Direção e roteiro: Ricardo Calil.  Documentário.  78 min

 

Documentários buscam apresentar, retratar, uma realidade.  Ao fazer isso, na verdade, já está havendo uma interferência nessa realidade.  O que filmar, como filmar, como selecionar e difundir o que é relevante, são escolhas do cineasta.  Estão, obviamente, interligadas à sua visão de mundo e do próprio cinema.

 

Também é possível intervir de forma planejada e direta na realidade que se escolheu retratar.  É o caso do trabalho de Ricardo Calil em “Cine Marrocos”, documentário vencedor do festival É TUDO VERDADE 2019.

 

O cine Marrocos, um luxuoso cinema do centro de São Paulo, ornamentado por ícones e elementos artísticos marroquinos, foi inaugurado em 1951.  Em 1954, sediou o primeiro festival de cinema internacional no Brasil, que trouxe filmes hoje considerados grandes clássicos em sua seleção.  Entre eles, “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder, “A Grande Ilusão”, de Jean Renoir, “Pão, Amor e Fantasia”, de Luigi Comencini, “Noites de Circo”, de Ingmar Bergman, e “Júlio César”, de Joseph Mankiewicz. 



 

Só que o cinema, com toda a sua pompa, foi abandonado pelo antigo dono que, deixando de pagar os impostos, o perdeu para a prefeitura.  O abandono prosseguiu por vinte anos, também sob a responsabilidade do poder municipal.  Acabou por ser ocupado por um pequeno grupo do pessoal do Movimento Social dos Trabalhadores sem Teto. Dos 25 membros iniciais, chegou-se a mais de 2000 moradores no local.

 

O documentário “Cine Marrocos” mostra o que é e como funciona a ocupação, para além dos preconceitos habituais, inclusive contrastando o que dizem e fazem os moradores com as notícias dos telejornais, indo até a inevitável desocupação do prédio do cinema, realizada pela polícia.  Mas interveio na realidade do grupo, ao recuperar e projetar os filmes clássicos citados e ao convidar os interessados a realizarem um curso de teatro, visando a recriar algumas cenas famosas desses clássicos cinematográficos.


Mostra um pouco do resultado obtido, com imagens em preto e branco, como os filmes originais, do desempenho, do talento e da dedicação dos atores e atrizes sem teto, nos espaços do velho cinema.  Deu um sentido de recuperação artística ao prédio abandonado do Marrocos, para além da questão da moradia, do desemprego e da crise econômica.

 

 Retratou os brasileiros sem teto, ao lado dos imigrantes latino-americanos e dos refugiados africanos que lá viviam, em sua humanidade, buscando oferecer a essas pessoas condição de exercerem seu potencial criativo, dramático, cômico ou musical.  Ao mesmo tempo em que mostrou a importância da arte, da cultura e da educação na vida das pessoas marginalizadas, abandonadas à própria sorte, como o que sucedeu com o outrora ostentatório cine Marrocos, símbolo das mudanças na estrutura urbana, mas também do descaso do setor público com a cultura.



sábado, 15 de maio de 2021

MEU PAI

Antonio Carlos Egypto

 

 



MEU PAI (The Father).  Reino Unido/Estados Unidos, 2020.  Direção: Florian Zeller.  Com Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Imogen Poots.  97 min.

 

O principal interesse para assistir a “Meu Pai”, que deu o Oscar 2021 de melhor ator a Anthony Hopkins, é precisamente o desempenho desse grande ator do cinema, o mais velho a receber a estatueta nessa categoria.

 

Ele faz seu xará, Anthony, que aos 81 anos vê suas certezas rolarem ladeira abaixo.  As memórias escapam, se confundem no tempo, os espaços também se misturam.  Ele já não sabe quem é, onde está, o que está acontecendo e por quê.  Embaralha as coisas e tenta reagir como pode ao que imagina que seja a verdade, com a sua própria identidade posta em xeque.  Não é só “quem está comigo aqui”, mas “quem sou eu, afinal”?

 

Pois é, o mal de Alzheimer é terrível.  As demais demências e escleroses decorrentes do envelhecimento não ficam atrás.  Perder-se em si mesmo, perder sua identidade e história, é algo inimaginável para quem não viveu tal coisa.  É um grande desafio para um ator conseguir passar para o espectador essa vivência.  Ela está mais dentro do que fora, na representação.  Anthony Hopkins tira de letra.  Seus movimentos, expressões, perplexidades, medos e reações intensas são perfeitos.  Não deixam dúvidas, falam por si, quase sem precisar de palavras.

 



Quanto à narrativa, que envolve o roteiro, edição e montagem do filme, tudo se faz para que os espectadores possam viver e sentir como supostamente vivem e sentem os pacientes representados no personagem de Hopkins.

 

Acompanhamos o filme com grande aflição, porque nunca sabemos o que de fato está acontecendo, se esta pessoa é ou não quem ele vê e pensa que é.  Nem onde se passa a cena ou quando, se foi antes ou depois.  E o que vem em seguida de quê.  Como “Meu Pai” assume o ponto de vista de Anthony, o personagem, nós sabemos o que ele sabe, ou pensa que sabe.  Sentimos o que ele sente, seja verdadeiro ou razoável isso ou não.  É um sufoco.

 

O mundo mental substitui o mundo real, a imaginação assume o lugar dos fatos, mas sem se afastar do naturalismo.  São personagens de carne e osso, bem reais, os vividos pelo pai e por sua filha Anne, em ótimo desempenho de Olivia Colman.  Não se trata de fantasia descolada da realidade, mas de confusão mental, algo totalmente palpável.  Por isso mesmo, o filme nos aflige.  E eu diria que aflige especialmente os idosos.  Porque o que vive Anthony é tudo que qualquer pessoa idosa não quer que aconteça com ela.



  

segunda-feira, 10 de maio de 2021

DRUK

Antonio Carlos Egypto

 

 


DRUK – MAIS UMA RODADA (Druk).  Dinamarca, 2020.  Direção: Thomas Vinterberg. Com: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Maria Bonnevie, Magnus Milang, Lars Ranthe.  117 min.

 

 

Todos nós temos experiência com a bebida alcoólica, de um modo ou de outro.  De forma frequente, eventual, compulsiva ou como abstêmios, por curtos ou longos períodos da vida, ou mesmo pela vida toda.  É sabido que o álcool é uma droga perigosa, geralmente lícita, que pode levar a uma dependência altamente destrutiva, demolidora, para a vida do indivíduo e daqueles que com ele convivem.  Sabemos também das possíveis consequências do uso do álcool quando combinado com a direção de veículos, com a utilização de máquinas e equipamentos e com a disciplina do trabalho.

 

Conhecemos, no entanto, igualmente, os seus benefícios, quando consumido de forma moderada e equilibrada ou em momentos que levam a uma maior descontração ou informalidade, reduzindo um nível alto de ansiedade, além de seu papel considerado indispensável em datas festivas, comemorações, eventos.

 

Como acontece com as drogas psicoativas, depende da finalidade, do tipo de uso, da dosagem, do ritual e do contexto social/legal envolvidos.  A mesma substância que pode curar pode matar.

 

Pois bem, o filme “Druk”, do talentoso diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, aborda o tema da bebida alcoólica, levando essas coisas em conta, mas utilizando uma história curiosamente inovadora, que dá margem ao drama e à comédia.  Por incrível que possa parecer, sempre com leveza. Num estilo cativante de filmar, bem humorado, feérico, com estranheza e seriedade. Tudo junto e misturado.  Acrescente-se a isso belos planos, sequências com muito ritmo, enquadramentos magníficos e um elenco de primeiríssima, capitaneado pelo grande ator Mads Mikkelsen que, quem acompanha o cinema nórdico, certamente conhece de vários filmes de destaque.

 


“Druk” venceu o Oscar 2021 de melhor filme internacional, um prêmio merecidíssimo.  Thomas Vinterberg demonstra nesse filme o amadurecimento e a sofisticação de um trabalho sempre marcado pela qualidade e pela capacidade de gerar uma reflexão aberta e crítica, que contempla as várias visões de um tema.

 

É notável que, quando abordou o abuso sexual, ele nos deu “Festa de Família”, de 1998, mostrando o estrago que isso produz na família, enquanto que, em “A Caça”, de 2012, o mesmo tema é mostrado pelo lado do julgamento apressado e injusto, do linchamento moral que acaba com a vida de alguém inocente.

 

Em “Druk”, quatro professores, que lidam com crianças e adolescentes, sentindo-se um tanto desanimados e desestimulados com a vida diária, resolvem fazer um experimento com o uso de bebidas alcoólicas diariamente, para dar um up grade no seu cotidiano.  Partiram de um estudo nórdico que afirmava que todos temos um déficit de álcool no sangue, que, desde que reposto diariamente, tornaria a existência mais produtiva, mais prazerosa e mais divertida.  Mas isso para uso no horário normal, de trabalho, durante o dia, não à noite e nem nos fins-de-semana.  Experimentar, observar e medir os benefícios e, a partir daí, testar novas e maiores dosagens, foi o que eles se propuseram a fazer.  O problema é até que ponto é possível manter o controle e os riscos que se quer correr. Disso trata a história, muito bem contada, de “Druk”, na vida dos quatro personagens principais, seus trabalhos, amores e relacionamentos.  E da amizade que se desenvolve entre eles. O filme não está interessado em pregar nada, não moraliza, não apoia ou condena.  Mostra o processo.  E a gente se diverte.  Muito.



quinta-feira, 29 de abril de 2021

NOMADLAND

Antonio Carlos Egypto

 

 


NOMADLAND, Estados Unidos, 2020.  Direção: Chloé Zhao.  Com Frances McDormand, David Strathaien, Linda May, Cherlene Swankie.  106 min.

 

 As crises do capitalismo e suas consequências para as pessoas mais velhas – maiores de 60 anos – com poucos recursos, sem emprego regular ou aposentadoria, chegaram ao Oscar 2021. 

 

O mais premiado como melhor filme, melhor direção e melhor atriz, foi “Nomadland” (terra nômade, terra dos nômades ou o mundo dos nômades, como poderia ser chamado por aqui).  É uma bela obra, de caráter quase documental, da diretora chinesa Chloé Zhao, que vive e trabalha nos Estados Unidos, tem críticas ao seu país de origem e teve sua retumbante vitória ignorada e censurada nos meios eletrônicos chineses. Ela foi também a segunda mulher a vencer o prêmio de melhor direção.  Pois é, um feito e tanto. 

 

O filme também é uma surpresa como vencedor de Oscar.  Trata de questões sociais com respeito e compreensão aos retratados, com sutileza e rarefação na narrativa.  A gente acompanha a vida daquelas figuras da terceira idade que decidiram viver na estrada, em trailers, vans, caminhonetes, casas sobre rodas, enfim. A protagonista Fern é vivida pela grande atriz Frances McDormand, premiada com justiça, mais uma vez, no Oscar.  Foi escolhida como melhor atriz também em 2018, por “Três Anúncios para um Crime” e, em 1997, por “Fargo”.  Seu papel é bastante representativo do universo retratado. 

 

A cidade de Empire, em Nevada, vê o fechamento de uma grande fábrica de gesso, que empregava quase todos na cidade, falir, após a crise de 2008.  O próprio CEP da cidade deixou de ser utilizado, meses após esse fato.  A cidade fantasma expulsa seus moradores, que precisam sobreviver.  Uma alternativa é iniciar uma vida nômade.  Viver no carro, estacionar em terrenos públicos, que não cobram, desde que se saia em duas semanas, e buscar, a cada quinze dias, uma atividade temporária, empregos sazonais simples, geralmente mal remunerados.  Para a viúva Fern, era uma saída e ela aprendeu até a gostar, na medida em que encontrava pessoas e grupos pelo caminho e os reencontrava periodicamente. Para quem tem facilidade no relacionamento, fica melhor. A solidariedade vale ouro nessa vida e traz pequenas trocas vantajosas a todos.

 

Frances McDormand se sente muito à vontade no papel de Fern, contracenando com os demais atores, que são nômades mesmo, estão representando a si próprios e expressando suas ideias de fato.  Ela se relaciona com eles com tal naturalidade e afetividade, que parece mesmo um deles.

 



O filme acompanha Fern em seus deslocamentos, trabalhos, dificuldades, e até em contatos familiares, e numa oferta de moradia e vínculo permanente em uma casa.  Mostra também os seus companheiros de jornada, com quem ela vai se encontrando e se despedindo amiúde.  Em função disso, “Nomadland” é também um filme de estrada, de deslocamentos, uma oportunidade para explorar belas paisagens, lugares menos conhecidos, como o deserto e partes da costa estadunidense.

 

É uma bela viagem que também nos convida à introspecção e à contemplação.  Quem poderia imaginar que um filme assim venceria os principais prêmios do Oscar?  Todos sabemos que o Oscar é um prêmio da indústria, não da arte.  Bilheterias contam muito.  Um cinema voltado para o mercado geralmente tem mais chance.  Mais uma coisa que a pandemia transformou.  Com os cinemas fechados a maior parte do ano de 2020, muitos filmes não foram terminados, não foram lançados, estão sendo guardados para o pós-pandemia e, sobretudo, não foram vistos.  Assim, o inesperado acontece, sob muitos aspectos.

 

“Nomadland” tem todos os méritos para ser descoberto e apreciado pelas pessoas.  Os que acreditam que os melhores filmes são os do Oscar vão ter de parar para pensar, porque o cinema que foi premiado em 2021 é bem diferente do que estão acostumados a aplaudir.  Pelo toque artístico, pelo toque feminino, pelo toque oriental, pelo ritmo e pelos valores que veicula.  É muito bom cinema.



terça-feira, 27 de abril de 2021

O AUTO DA BOA MENTIRA

Antonio Carlos Egypto

 

 O AUTO DA BOA MENTIRA.  Brasil, 2021.  Direção: José Eduardo Belmonte, com grande elenco.  100 min.

 

Ariano Suassuna


Ariano Suassuna (1927-2014) é uma das maiores referências culturais do nordeste e do Brasil. Poeta, dramaturgo, ensaísta, autor de clássicos como “O Auto da Compadecida”, “O Santo e a Porca” e “O Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, está eternizado também na Internet, com suas famosas aulas-espetáculo.  Para quem não viu, faça uma navegação pelas palestras bem humoradas, com sacadas inteligentes, originais e muito divertidas, que felizmente estão lá guardadas.  Sempre que posso, me alimento daquela perspicácia toda e aprecio o timing perfeito das suas histórias, dos causos que ele conta, com riqueza de detalhes e nuances. E cheias de mentiras.  Segundo Suassuna, se ele não gostasse de mentir, não seria capaz de contar as histórias que conta e que o divertem tanto quanto a plateia.

 

Pois foi com base nesse material de Ariano Suassuna, suas frases de efeito e a exploração do uso da mentira, que se inspirou o filme de José Eduardo Belmonte “O Auto da Boa Mentira”.  Por meio de quatro histórias distintas e independentes, que têm a mentira como elemento comum, faz-se uma comédia que respeita e reverencia o autor, mas procura ampliar, ou melhor, diversificar o seu contexto.

 

Se há uma história bem característica da narrativa de Ariano Suassuna é a segunda, passada numa pequena cidade e no circo, com o palhaço Romeu (Jackson Antunes), que está na base de uma mentira a respeito da paternidade de Fabiano (Renato Góes).  Mentira perpetrada pela mãe , Cássia Kis, com a intenção de preservar o filho de sofrimento.  Mas outras mentiras vão se apresentar pelo caminho e complicar as escolhas, um tanto inocentes, de Fabiano.

 

A primeira e a quarta histórias surpreendentemente foram levadas para o ambiente empresarial.  Uma convenção de RHs num hotel, com um stand-up como atração, e uma festa de final de ano, numa empresa de publicidade, respectivamente.

Na primeira, um subgerente de relações humanas, Hélder (Leandro Hassum), acaba gostando de ser confundido com um humorista famoso e assume a mentira, até perceber que isso o põe em risco de vida ao conhecer Caetana (Nanda Costa). Há piadas que remetem ao próprio Hassum,  mais engraçado mais gordo ou mais magro, e inclui pequenos trechos de espetáculos dele.

 



Na quarta história, a referência é a um famoso causo que Suassuna conta sobre uma mulher esnobe que parecia dividir todas as pessoas entre as que já foram à Disney e as que não foram.  E os pseudointelectuais que citam escritores lidos no original ou grupos artísticos que ninguém conhece, exceto uma pequena elite.  A escolha de uma festa de publicitários como contexto enfraquece um pouco a força do comentário original, ao mesmo tempo em que demole as relações empoladas, falsas e exibicionistas, dos convivas da festa, implodindo tudo.  O chefe-mór, Norberto (Luís Miranda), que tem uma imensa foto na parede da firma, o pseudointelectual Felipe (Johnny Massaro) convivem com uma jovem estagiária invisível (Cacá Ottoni), que acaba sendo o foco de toda a situação.  A mentira, nesse caso, é a tônica de tudo e de todos, inclusive da estagiária esnobada.  A inspiração mudou de rumo.  A meu ver, ficou mais para Buñuel implodindo a burguesia do que para Suassuna.

 

A terceira história traz o autor para o Rio de Janeiro, os bares do Vidigal, e um gringo, Pierce (Chris Mason), que assimilou o jeito carioca de ser e de mentir, para justificar uma ausência.  Foi convincente para o amigo e dono do bar, Zeca (Serjão Loroza). O que não esperava é que acabaria de frente com o chefe do tráfico, Jesuíta Barbosa, num papel pouco apropriado ao seu tipo físico.  Pelo menos, ao estereótipo do personagem.

 

Em tempos de fake news, a mentira institucionalizada e mal intencionada, é apropriado  pensar na chamada boa mentira.  Aquela social, geralmente bem intencionada, que deseja preservar alguém, ser um jeito de se defender ou que promete algum ganho, mas que não prejudica os outros, (ou se supõe tal coisa), ou, ainda, que tem a intenção de divertir, sacanear o outro, tirar sarro, sem maiores pretensões.  Claro que todo mundo mente e, muitas vezes, isso é desejável ou até indispensável.  Mas é preciso tomar cuidado: a mentira tem perna curta, mas anda rápido.

 

O filme entra em cartaz dia 29 de abril, onde houver cinemas abertos.

domingo, 18 de abril de 2021

A ÚLTIMA FLORESTA

Antonio Carlos Egypto

 

 


O filme de encerramento do festival É TUDO VERDADE 2021 neste domingo (18/04), à noite, em www.etudoverdade.com.br é A ÚLTIMA FLORESTA, dirigido por Luiz Bolognesi, com roteiro do diretor e de David Kopenawa Yanomami, 74 min.

 

O documentário A ÚLTIMA FLORESTA trata da tribo Yanomami, isolada, na região amazônica em que se encontram Brasil e Venezuela.  Mas, como diz o filme, os Yanomami já estavam lá quinhentos anos antes de existirem os dois países.

 

O xamã David Kopenawa Yanomami, uma importante liderança indígena, tem lutado pelo seu povo, para preservar seu território, suas tradições, os relatos de sua origem e a relação com os espíritos da floresta.  Para isso, precisa se dedicar a combater os garimpeiros que invadem as terras, trazendo morte e doenças. 

 

Uma invasão devastadora ocorreu nos anos 1980.  Com a demarcação das terras nos anos 1990, a situação melhorou, mas nunca foi absolutamente tranquila.  Só que nos dois últimos anos o governo federal tem facilitado e até estimulado a ação dos garimpeiros.  Pelo menos, não tem fiscalizado ou punido as ações.  Está mais difícil para eles agora.

 

David deu as coordenadas desse trabalho documental sobre sua tribo, buscando revelar o mundo Yanomami ao observador de fora, no caso, nós, os espectadores no cinema.  Mesmo que em casa, como acabou sendo o caso.

 

A gente se delicia com as histórias de criação da tribo, que nos soam ingênuas, claro, mas bonitas, poéticas, cheias de fantasia.  O relacionamento das pessoas da tribo, com seus rituais, com as plantas, os rios e cachoeiras, os animais.  Essa simbiose com a natureza, que acolhe, celebra, dá saúde, força e cura, tem alegria.  O perigo é o homem branco, que vem para invadir, sugar da terra o lucro, desagregar.  E, especialmente, contaminar as águas com mercúrio, além de romper o equilíbrio da vida daquele povo.

 

Já é uma longa história de luta pela preservação da comunidade, que parece nunca ter fim, com seus altos e baixos.  É preciso estar sempre alerta e cada vez com mais intensidade.  Infelizmente, para o povo Yanomami.

 

O filme nos faz conhecê-los melhor e nos alerta, mais uma vez, para o que está acontecendo na Amazônia, essa devastação florestal intolerável, que compromete o planeta e sufoca as populações indígenas.

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Neste domingo, às 17::00 h, serão conhecidos os vencedores do festival e depois serão disponibilizados os filmes premiados.  O evento da premiação, comandado por Amir Labaki, pode ser visto no canal do You Tube do festival.  Às 19:00 h, o filme de encerramento, comentado acima.  A reapresentação dos vencedores será na 3ª. feira, dia 20 de abril, às 19:00 e às 21:00 h.