sexta-feira, 11 de agosto de 2017

COMENTÁRIOS RÁPIDOS SOBRE FILMES EM CARTAZ


Antonio Carlos Egypto


AFTERIMAGE

AFTERIMAGE, último filme do grande diretor polonês Andrej Wajda (1926-2016), relata a ignominiosa perseguição do regime stalinista polonês ao pintor modernista, Wladyslaw Strzeminski (1893-1952), que, além do grande talento que possuía, era um teórico e um professor brilhante, mesmo mutilado.  Não tinha uma perna e um braço.  Seu conceito de imagem residual  é ao que se refere o título do filme, que não tinha por que estar em inglês. Quando uma verdade é instituída pelo Estado ou por uma instituição poderosa, dessas que podem torturar e decidir pela vida ou pela morte de alguém, a arte sucumbe à opressão, até que o regime caia.  Não sem resistência, claro.  Isso vale para o stalinismo soviético, ditaduras de direita, como as de Pinochet e as militares do Brasil e da Argentina, ou a Inquisição católica, por exemplo.  Mais um tiro certeiro do mestre Wajda, esse filme polonês é uma ótima pedida.  Pena que tenha sido o último dele.




ESTEROS

ESTEROS, dirigido pelo cineasta argentino, estreante em longas, Papu Curotto, é coprodução Brasil-Argentina, que trata do desejo e do relacionamento homoeróticos entre dois personagens, Matias (Ignacio Rogers) e Jerônimo (Esteban Masturini), na infância e adolescência, os caminhos separados em que viveram longe um do outro e o reencontro, após dez anos, na mesma pequena cidade argentina de Paso de los Libres.  Agora eles são bem diferentes do que no passado, mas o sentimento renasce e conflitos emergem.  Trabalho sensível, respeitoso e delicado, sobre a temática LGBT. Premiado no Festival de Gramado 2016 pelo júri e pelo público.



FALA COMIGO

FALA COMIGO, filme brasileiro de Felipe Sholl, primeiro longa dele, tem uma ótima pegada, ao tratar do tema do envolvimento amoroso numa diferença de idade abissal.  Diogo (Tom Karabachian), de 17 anos, se apaixona por Ângela (Karine Teles), de 43 anos, paciente de sua mãe psicanalista, Clarice (Denise Fraga), e é correspondido.  Eles vivem uma experiência amorosa genuína, em que pesem as recriminações da sociedade.  Denise Fraga encarna a psicanalista que fica na defensiva em relação à vida do filho e à sua própria, tentando não perder a pose e nem se abalar. Em vão.  O filme ainda está em cartaz, em algumas salas e em poucos horários, em algumas cidades.  Mas também pode ser assistido no sistema vídeo on demand.





quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O FILME DA MINHA VIDA


Antonio Carlos Egypto





O FILME DA MINHA VIDA.  Brasil, 2016.  Direção: Selton Mello.  Com Johnny Massaro, Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Ondina Clais, Bia Arantes, Selton Mello.  113 min.


O escritor chileno Antonio Skármeta já teve um texto adaptado para o cinema, que alcançou grande sucesso, “O Carteiro e o Poeta”, dirigido por Michael Radford, em 1996.  Arrisco afirmar que “O Filme da Minha Vida”, de Selton Mello, adaptando a obra de Skármeta Um Pai de Cinema,  possa repetir o feito.  É um filme que lida com o público de modo terno, afetivo e lírico.  Traz para o cinema o clima poético e nostálgico do texto de Skármeta, acrescentando-lhe novos personagens e situações e fazendo novos elos que tornam a trama mais clara e compreensível, sem resvalar no melodrama ou nas soluções fáceis.  E sem perder o clima de mistério, deixando um caminho para o espectador percorrer, que vai além das imagens e, portanto, também além do texto original.

O que Selton Mello fez foi uma adaptação literária, mas de um modo muito pessoal, colocando-se no protagonista e no seu contexto de época.  Ao transportar a trama das serras chilenas para as serras gaúchas, ele manteve o espírito interiorano da história, com seus limites, mas ressaltou o sonho dos personagens, envolvendo-os com referências brasileiras, mantendo e dando cor local à bela homenagem ao cinema que o texto de Skármeta faz.




Em “O Palhaço”, de 2010, Selton Mello, um dos grandes atores da sua geração, encontrou seu caminho também como cineasta.  Mostrou-se capaz de lidar com emoções de forma intensa, mas equilibrada.  Buscou comunicar-se com um público amplo, usando o humor, homenageando a cultura popular, inclusive televisiva, sem adotar seu modelo simplista e popularesco.  Ele mantém esse espírito em “O Filme da Minha Vida”, onde também dirige e atua simultaneamente, além de ser roteirista, ao lado de Marcelo Vindicatto.  O filme tem a cara de Selton Mello.  Já é reconhecível sua autoria neste terceiro longa.

A fotografia, a cargo de Walter Carvalho, que tantas contribuições tem dado ao cinema brasileiro, é lindíssima, nos seus tons marrons e amarelados ressalta a luminosidade da serra  e que, sob névoa ou luz baixa, nos conduz ao clima frio serrano e aos anos 1960, em que se situa a história, na hipotética cidade de Remanso.  Na verdade, as filmagens ocorreram em sete cidades diferentes, na região de Garibaldi.

O filme é recheado de boa música daquele período histórico, com ênfase em canções francesas, já que o protagonista Tony Terranova (Johnny Massaro) também dá aulas de francês para sua turma de alunos e é filho de um francês, Nicolas, papel do conhecido ator Vincent Cassel, agora vivendo no Rio de Janeiro.  Nem por isso deixa de soar estranho ouvir My Way em versão francesa.  Outra estranheza é ouvir a seminal Rock Around the Clock, de Bill Haley, em versão nacional.  Estranhezas à parte, é fácil sair cantarolando do cinema.  Coração de Papel, de Sérgio Reis, é um dos hits em destaque.  E de Charles Aznavour Hier Encore.




A história remete à busca de um pai que abandonou misteriosamente mulher e filho para voltar a viver na França e esqueceu-se da família.  Mas essa versão faz sofrer e não convence.  O que estará por trás disso?  O jovem personagem Tony, enquanto busca saber do pai, vai construindo uma vida como professor de província, lidando com a demanda sexual dos alunos pré-adolescentes e da sua própria demanda amorosa e sexual, ele, recém-saído da adolescência.  Os meninos personagens dão margem a cenas fascinantes e divertidas.  Já com a mãe Sofia (Ondina Clais) há afeto, mas a tristeza da perda marca a relação.  As jovens Luna (Bruna Linzmeyer) que encanta Tony com seu jeito meio maluquinho, e sua irmã, Petra (Bia Arantes) têm papel decisivo no desenrolar da narrativa.  Assim como o manipulador Paco, o papel de Selton Mello no filme. É um senhor elenco de atores e atrizes que mergulham intensamente em seus personagens, revelando que Selton é um ótimo diretor de atores.  O que, afinal, não surpreende, com a cancha de representar que ele tem.

Duas participações especiais merecem destaque. Rolando Boldrin faz um maquinista de trem, personagem criado por Selton para o filme, especialmente para ser vivido por ele.  Antonio Skármeta também atua numa ponta e contracena com Selton Mello, reunindo, assim, os autores de uma bela narrativa, tanto literária quanto cinematográfica.




domingo, 30 de julho de 2017

BYE BYE ALEMANHA


Antonio Carlos Egypto





BYE BYE ALEMANHA (Es War Einmal in Deutschland)Alemanha, 2016.  Direção e roteiro: Sam Garbarski.  Com Moritz Bleibtreu, Antje Traue, Mark Ivanir, Anatole Taubman, Hans Löw.  101 min.



Os judeus alemães, que conseguiram sobreviver ao regime nazista, logo após a Guerra têm um sonho comum: abandonar a Alemanha e partir para os Estados Unidos.  É o caso de David Bermann (Moritz Bleibtreu) e seus amigos, em Frankfurt, em 1946.  Com um negócio de família de venda de roupa fina para os alemães, já é possível obter o dinheiro para a viagem, e o visto para a América é quase automático na situação dele.  Porém, ao examinar seus documentos e vasculhar seu passado recente, a oficial americana Sara Simon (Antje Traue) resolve investigar melhor e encontra coisas suspeitas.

O filme “Bye Bye Alemanha”, do diretor Sam Garbarski, conta a história desse personagem da vida real, do que ele relata e do que ele esconde, e vamos descobrindo uma personalidade cheia de nuances e jogo de cintura, que explicam sua sobrevivência.  David tem também uma malandragem e uma vivacidade intelectual que, certamente, contam muito em situações extremas.  Basta dizer que um dos elementos centrais nessa história é sua capacidade de contar piadas, nos momentos e situações mais improváveis.  E o humor salva.




A trama é muito boa e muito bem contada, pelo cineasta que já nos deu dois bons filmes antes: “Irina Palm”, em 2007, e “O Tango de Rashevski”, em 2003.  Seu estilo de narrar é tradicional e popular.  Comunicativo e bem humorado, geralmente abordando temas bem sérios, como é o caso aqui.

O ator alemão Moritz Bleibtreu é talentoso e compõe muito bem o tipo retratado no filme.  Ainda assim, não sei se seria a melhor escolha para o papel.  Para um personagem que conta piadas, ele é discreto demais.  Ele optou por uma interpretação contida, considerando o contexto, mas acredito que tenha exagerado um pouco na dose.

A personagem de Sara também comportaria mais expansividade.  Ela enfatiza mais as suspeitas em relação ao personagem do que o acolhimento e o direito de considerar-se uma pessoa inocente até prova em contrário, na maior parte do filme. 




“Bye Bye Alemanha” traz uma boa caracterização de época, incluindo uma fotografia que, em tons sépia, cinza e ambientação escurecida, nos remete ao passado, e um passado nada glorioso.  Não fosse o tom bem humorado da realização, poderia resultar em um filme pesado.  Não é o caso.  Esse é um dos méritos de “Bye Bye Alemanha”: tratar com respeito, mas sem muita dramaticidade, de um assunto grave.  E por um ângulo inesperado, como verá quem for assistir ao filme.

“Bye Bye Alemanha” é o filme de abertura e faz parte do 21º. Festival de Cinema Judaico, tradicionalmente promovido pela Hebraica - São Paulo.  O festival, que vai de 30 de julho a 09 de agosto, estará em 2017 também no Cinesesc, MIS, Cinemark Pátio Higienópolis, Teatro Eva Hertz, da Livraria Cultura, e Casa das Rosas.  São 24 produções,  entre ficção e documentário, sendo 19 inéditas, de diversos países, com foco nas questões judaicas, de modo amplo. 





sexta-feira, 28 de julho de 2017

O Reencontro


TATIANA BABADOBULOS


O REENCONTRO (La Sage Femme). França, 2017. Direção: Martin Provost. Roteiro: Martin Provost e Céline Breuil-Japy. Com: Catherine Frot, Catherine Deneuve e Olivier Gourmet. 117 min.




É com uma sequência de um parto que inicia "O Reencontro" ("La Sage Femme"), longa-metragem francês que traz duas Catherine no elenco: a Frot e a Deneuve. Outros partos estarão na tela para ilustrar a profissão de Claire, a parteira vivida por Frot. Ela ama o que faz e ajuda, de forma maternal e ao mesmo tempo profissional, as mulheres grávidas darem à luz.

Porém, a satisfação na clínica em que atua chega ao fim quando recebe a notícia de que ela vai fechar e ceder o espaço aos "hospitais modernos", que pouco se importam com a natureza do parto e estão mais preocupados com o dinheiro que eles rendem.

O nome original do longa, “La Sage Femme”, significa “obstetriz”, mas também pode ser um trocadilho no idioma de Molière. “Sage femme” quer dizer mulher sábia, o que cai perfeitamente para a personagem criada pelo diretor e autor do roteiro Martin Provost.



Não é sempre que o distribuidor brasileiro acerta no nome da adaptação, principalmente quando resolve mudar completamente o nome e não apenas traduzi-lo literalmente –caso deste longa. No Brasil, não funcionaria um filme com o título "Obstetriz". Nada contra o ofício, ao contrário, mas não é um nome forte o bastante para despertar interesse do público –talvez o fosse caso se tratasse de um documentário sobre a jornada de uma parteira, sei lá.

Mas não é o caso e aqui a adaptação do nome é feliz. O longa trata justamente do reencontro das duas personagens centrais, vividas pelas duas Catherine. Claire (Frot), a parteira, ao chegar em casa após mais um dia exaustivo de trabalho, recebe a ligação de Béatrice (Deneuve), ex-mulher de seu pai, que desapareceu havia 30 anos, pedindo para se verem. A contragosto, Claire vai ao seu encontro e recebe uma péssima notícia.



Enquanto Claire é organizada e responsável, Béatrice, que tem um diagnóstico de saúde nada bom, fuma, bebe e joga (e perde) rios de dinheiro. Comportamentos contrários tão previsíveis como a fábula da "Formiga e da Cigarra".

E é enquanto tenta se entender e ajudar a ex-madrasta que Claire conhece Paul (Olivier Gourmet), um caminhoneiro internacional, capaz de despertar os desejos da mulher que estavam enterrados há muito. É quando ela deixa um pouco de lado sua vida de "caxias" para aproveitar e brindar "à la vie".

As interpretações são um verdadeiro deleite. Embora as personagens estejam se reencontrando, este foi o primeiro encontro das duas atrizes: elas nunca haviam trabalhado juntas. Provost explica, no material de divulgação para a imprensa, que escreveu os papéis pensando nas respectivas atrizes. E elas responderam muito bem a missão.


A trama, inspirada no nascimento do realizador (não por completo, mas apenas alguns detalhes), vai bem e é capaz de emocionar o espectador. O fim, porém, é um tanto moralista, segue a fábula e não surpreende. De qualquer maneira, “O Reencontro” é um filme que homenageia as parteiras e inspira o espectador a valorizar cada vez mais a vida, dia após dia.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

DUNKIRK


Antonio Carlos Egypto




DUNKIRK (Dunkirk).  Estados Unidos, 2016.  Direção e Roteiro: Christopher Nolan.  Com Tom Hardy, Mark Rylance, Harry Styles, Kenneth Branagh, Cillian Murphy.  120 min. 



1940.  Batalha de Dunquerque, na Segunda Guerra Mundial.  Dunquerque (ou Dunkirk) é uma cidade portuária no norte da França, na região de Calais, fronteira com a Bélgica.  A ligação Calais-Dover une por ferry boat a França à Inglaterra.

Foi lá que se travou uma heróica batalha, não pela vitória das forças aliadas contra o Eixo, mas de sobrevivência em situação quase impossível.  Uma enorme força britânica, francesa e belga, foi encurralada pelos inimigos alemães, que capturaram Calais e avançavam por terra, sitiando essas tropas e expondo-as em plena praia, sob pesado ataque aéreo e marítimo.  No entanto, mesmo nessas condições, mais de 300 mil soldados conseguiram ser resgatados por via marítima, contando também com apoio civil, na operação Dynamo, comandada a partir de Dover, na Inglaterra.  Isso se deu no período de 25 de maio a 04 de junho de 1940, antes de os Estados Unidos entrarem na guerra.  Teria sido um autêntico milagre, segundo De Gaulle.




Pois bem, é dessa batalha que trata o filme “Dunkirk”, de Chistopher Nolan, um espetáculo grandioso, que merece ser visto na tela Imax do cinema, com um som arrasador.  Há quem não goste, se sinta até incomodado pelo exagero dos efeitos, sobretudo sonoros.  Mas que é um senhor espetáculo, é.  Um filme de guerra que nos coloca dentro das ações, por terra, mar e ar, de forma intensa e, nos três níveis, com diferentes protagonistas.  Harmonizando, também, os diversos tempos das três situações abordadas.

Ao lado disso, grandes panorâmicas descortinam o ambiente, embora não consigam dar a dimensão das centenas de milhares de soldados envolvidos naquela circunstância da guerra.

Os dramas individuais pela sobrevivência e a luta pelo resgate dos combatentes se destacam na narrativa, enquanto a produção e todos os efeitos fazem uma imersão fantástica do público, nos momentos dramáticos das batalhas.  Mergulhamos com os navios que afundam, os aviões que são abatidos ou que alvejam o inimigo, subimos às embarcações escapando do tiroteio, nos enlameamos com o óleo do mar e nos espantamos com o mar pegando fogo.  O espetáculo toma conta e nos envolve, de forma muito competente.  Produção cara, mas que obtém resultados palpáveis.




Não é o melhor cinema que existe, não favorece maior reflexão, mas não é oco.  Tem realismo e história esse belo espetáculo cinematográfico.  Tem grande efeito na telona do cinema.  E o som arrasa-quarteirão se justifica.  Mas é preciso entrar no clima do filme e da guerra.


O elenco, inteiramente masculino, inclui grandes e consagrados atores, que acabam sendo coadjuvantes da dimensão épica do espetáculo, mas tendo seus momentos de destaque nas histórias individuais que compõem a trama.



segunda-feira, 24 de julho de 2017

DE CANÇÃO EM CANÇÃO


Antonio Carlos Egypto




DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song to Song).  Estados Unidos, 2017.  Direção e roteiro: Terrence Malick.  Com Michael Fassbender, Ryan Gosling, Rooney Mara, Natalie Portman.  129 min.



Sempre apreciei no diretor Terrence Malick (de “Além da Linha Vermelha”, 1998, “A Árvore da Vida”, 2011, “Amor Pleno”, 2012) o seu cultivo pelo belo.  Seus filmes têm lindas casas, mansões, locações atraentes, natureza exuberante.  Tudo sempre com esmero nos enquadramentos, nos ângulos e movimentos de câmera, em cenas caprichadas, bem feitas.  De modo que se pode apreciar seu trabalho e algo sempre fica.  Por outro lado, sua queda pela questão mística, religiosa, nunca acrescentou nada de relevante, ao menos para mim.

O amor é um dos seus grandes focos, sob diversos matizes, mas o desencontro, a frustração e a solidão aparecem temperadas pelo perdão, pelo recomeço e pela busca de uma autenticidade pessoal.  A pretensão de relacionar essas coisas a um Cosmos, a um Deus, a uma religiosidade, enfim, soa forçada, deslocada.  É preciso ignorá-la um pouco para usufruir dos filmes dele.  A forma é sempre muito mais consistente e sedutora do que o conteúdo ou a mensagem, se pudermos falar assim.




Em “De Canção em Canção”, o cineasta nos leva à cena musical de Austin, no Texas.  Em meio ao frisson dos shows e festivais de música, seus personagens vivem uma busca frenética e bastante atrapalhada de uma utópica liberdade, que é difícil se saber do que se trata, realmente.

As cenas que compõem uma trama esfarelada, rarefeita, são, na verdade, gratuitas, vazias de um sentido que, paradoxalmente, Malick parece sempre buscar.  Uma agitação que não leva a lugar nenhum, com personagens sem força ou suficiente consistência psicológica.  Muita juventude, muita pirotecnia, em cima de quase nada.  Experimentações que se perdem, em meio a muita música, mas muito pouca substância.


Um elenco de astros, atores e atrizes talentosos, acaba um tanto desperdiçado, porque esses personagens escorrem pelo ralo.  Michael Fassbender, Ryan Gosling, Rooney Mara e Natalie Portman, podem servir de chamariz em busca de bilheteria, mas acabam não entregando o que prometem, apesar do empenho físico que põem em cena.  O filme é raso, mas com ambições a profundidade.  Beleza que acaba entediando, porque nem consegue simplesmente divertir.



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Tal Mãe, Tal Filha

Tatiana Babadobulos


 TAL MÃE, TAL FILHA (Telle Mère, Telle Fille). França, 2017. Direção: Noémie Saglio. Roteiro: Agathe Pastorino e Noémie Saglio. Com Juliette Binoche, Camille Cottin e Lambert Wilson.  94 min.



Tem cara de pastelão o início do longa-metragem "Tal Mãe, Tal Filha" ("Telle Mère, Telle Fille"), de Noémie Saglio. E é. O pôster de divulgação do filme já dá uma ideia do que vem pela frente: duas personagens grávidas.

A mãe, Mado, vivida por Juliette Binoche, praticamente troca de papel com a filha, Avril (Camille Cottin). Enquanto a moça, aos 30 anos, é casada, tem emprego fixo e é responsável, por outro lado a mãe vive de favor na casa da filha, é bagunceira e tem comportamento de adolescente no modo de se vestir e de agir. A cena dela mascando chiclete no supermercado mostra bem isso.


Até que um dia Avril anuncia que está grávida e Mado alega que não está pronta para ser avó.

Em cena também está o pai de Avril e ex-marido de Mado, personagem vivido por Lambert Wilson, de "Sobre Amigos, Amor e Vinho" e "Homens e Deuses".


Também autora do roteiro ao lado de Agathe Pastorino, a diretora Noémie Saglio teve a ideia da trama lendo revistas femininas, nas quais haviam histórias sobre mães e filhas engravidando ao mesmo tempo. Ou seja, embora pareça surreal, o comportamento é mais comum (e real) do que parece. O que não me parece comum, porém, é a maneira de agir da mãe. Mas daí vai parecer moralismo...

Binoche, uma das atrizes francesas mais cobiçadas por renomados diretores --ela já filmou, por exemplo, com o iraniano Abbas Kiarostami-- parece um pouco desconfortável no papel da mãe bancando a adolescente. A plateia, assim, não compra a personagem de primeira. É preciso insistência pra ir se convencendo aos poucos.

É difícil, mas rir de comédias pastelões --principalmente quando já se é mãe, no caso desta trama-- não faz mal a ninguém.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A Vida de uma Mulher


Tatiana Babadobulos



A VIDA DE UMA MULHER (Une Vie).  França e Bélgica, 2016.  Direção: Stéphane Brizé.  Roteiro: Stéphane Brizé e Florence Vignon. Com Judith Chemla, Jean-Pierre Darroussin e Yolande Moreau.   119 min.

Baseado no romance “Une Vie”, de Guy de Maupassant, o longa-metragem “A Vida de uma Mulher”conta a história de Jeanne (Judith Chemla), uma jovem que passou muitos anos estudando trancada em um convento. A trama se passa justamente quando ela sai de lá e volta para a casa dos pais.
O romance é ambientado na região da Normandia, interior da França, no século 19. Como era de praxe naquela época, Jeanne não pode ter suas próprias escolhas; ela cumpre o que foi escolhido por sua família. No caso, ela vai se casar com Julien de Lamare (Swann Arlaud), um visconde em decadência que vê no casamento com a moça abastada a oportunidade de mudar de vida.

Dirigido por Stéphane Brizé (de “Mademoiselle Chambon“), também autor do roteiro ao lado de Florence Vignon, o longa conta a vida inteira de Jeanne, desde a sua volta para casa, seu casamento, a chegada do filho e assim por diante. E revela que a mulher francesa do século 19 era submissa, mas não exatamente como as brasileiras, por exemplo; a personagem tem voz própria, é capaz de identificar os problemas do casamento e ter força para mudar o que está errado, inclusive contrariando o que diz o marido, que exige que a empregada seja mandada embora porque está grávida.
As duas moças foram criadas juntas e chegam a trocar segredos, por isso Jeanne é contra a sua partida. Mas, ao mesmo tempo em que discorda do marido, ela vai ao limite para atender aos pedidos do filho, nem que isso signifique a falência total.
O dinheiro está bastante presente no romance de Maupassant, embora, como afirma o realizador no material de divulgação do filme, que sua obra não é fiel ao livro. Aquelas escolhas tão necessárias no momento da adaptação.
“A Vida de uma Mulher” é vencedor do prêmio dos críticos em Veneza no ano passado. Um romance com poucas pitadas de pimenta e sem reviravoltas, mas que cumpre o seu papel sem ambições de ser um filme definitivo.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

DIVINAS DIVAS

Marga Moura Egypto





Ser homem ou ser mulher são papéis criados socialmente.  Biologicamente, a criança nasce com um sexo determinado: é menino ou menina.  Mas o desejo sexual que se manifestará nessa criança pode levá-la a preferir uma pessoa do mesmo sexo que ela. E há, também, a questão da identidade: um menino sente que está num corpo de mulher, uma menina se sente num corpo de homem. Surge, no cenário, a figura do travesti – homossexual que se veste como alguém do sexo oposto, seja de modo passageiro (por exemplo, só à noite), seja de modo definitivo, seja, ainda, transformando seu corpo à semelhança do de outro sexo, por meio de cirurgias, o que o(a) transforma num(a) transexual.

Essa realidade sexual que aparece de modo mais claro aos nossos olhos, nos dias que correm, demonstra comportamentos variados, que vinham sendo tratados como tabus e eram pouco explicitados, socialmente.  Com as mudanças introduzidas nas sociedades ocidentais, depois da Segunda Guerra Mundial, comportamentos, desejos, crenças, valores, normas de comportamento, modos de vestir e pentear, tanta coisa aconteceu que se pode dizer que o mundo de nossos avós é hoje completamente diferente do nosso.  Culturalmente, socialmente, sexualmente – nossas opções apresentam características bem diferentes das de tempos passados. 

Trago isso à tona para falar sobre o filme brasileiro de Leandra Leal, “Divinas Divas”, que reúne oito dentre as travestis mais famosas do Brasil. A começar por Rogéria, talvez a mais famosa, passando por Divina Valéria, Jane di Castro, Camile K, Fujica de Holliday, Eloína dos Leopardos, Brigitte de Búzios e Marquesa – essa última só se vestia de mulher e se maquiava para os espetáculos da noite.  Morreu após a filmagem.




Rapazes que se viam em corpos de mulheres tomaram hormônios, deixaram crescer os seios, exterminaram a barba, lançaram mão de perucas vistosas e vestidos bonitos e passaram a se maquiar e a se enfeitar com joias.  Todos elas viraram artistas de teatro de revistas, boates ou cabarés.  Travestis mulheres.

Nos anos de 1970, essas mulheres formaram o grupo que testemunhou o auge da Cinelândia carioca repleta de cinemas e teatros.  Agora, a diretora Leandra Leal as reuniu para uma apresentação no antigo teatro Rival, no Rio de Janeiro. E elas falam de seus desempenhos passados, suas ilusões, seus sucessos.

Achei bonito o filme e achei interessante esta oportunidade de levantar o véu daquilo que sempre foi escondido de nós, que era tido como obsceno, imoral, tabu, impossível de ser mostrado para moças de família.  E, no entanto, são realidades que estão aí a cada passo, queiramos ou não.  Um fenômeno social deixa de ser encarado como tabu quando é possível falar-se sobre ele, discuti-lo, pesar os prós e os contras, apreciar sua existência e, se quiser, tomar uma posição.  Achei que este filme de Leandra Leal é corajoso, ao trazer à tona um tema de tamanha realidade e seriedade, principalmente neste momento político que atravessamos, em que o debate sobre as questões de gênero, que poderiam informar e esclarecer nossas crianças e jovens, é retirado do currículo e das salas de aula.

Texto originalmente publicado em http://margamoura.blog.uol.com.br


quarta-feira, 12 de julho de 2017

CARTAS DA GUERRA


Antonio Carlos Egypto





CARTAS DA GUERRA.  Portugal, 2016.  Direção: Ivo M. Ferreira.  Com Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira.  120 min.


De um lado, o amor, de outro, a guerra.  De um lado, a poesia, de outro, o sangue e a violência.  O filme “Cartas da Guerra”, do cineasta português Ivo M. Ferreira, se nutre desses contrastes o tempo todo. 

O que a imagem nos mostra é um acampamento de guerra, ações, confrontos.  O personagem António (Miguel Neves), convocado como médico pelo exército português, para atuar na guerra colonial de Angola, cuidando de feridos.  Triste e solitário, ele escreve cartas e um romance e tem com um superior hierárquico um ponto de contato intelectual, alimentado por conversas, ao jogo de xadrez.  O que mais se vê, no entanto, são soldados vivendo o cotidiano embrutecedor da guerra.

Se as imagens, maravilhosas em preto e branco, nos mostram a guerra, o áudio é pleno de amor e poesia.  Lindas cartas de amor apaixonado, poético, se sucedem ao longo do filme.  Amo-te em tudo e sempre é uma das coisas mais repetidas nas cartas, que exploram literariamente a ausência da amada, da casa, dos pequenos prazeres da vida.  É António escrevendo à sua esposa, a quem ele é fiel e de quem é sinceramente apaixonado.  Mas ele está irremediavelmente longe da mulher amada, já grávida, e da filha que ele não poderá ver nascer, nem embalar, para seu desespero.  De 1971 a 1973, ele escreve cartas de amor permanentemente, recebe as respostas que a gente não ouve, nem vê.  E começa a escrever um romance.  É o que o motiva a sobreviver.




O contraste entre as belas mas terríveis imagens da guerra e a pureza de sentimentos do médico, aspirante a escritor, em suas cartas, produz uma espécie de curto-circuito entre a beleza do amor e a violência sem sentido de uma guerra colonial brutal.  O impasse entre o desejo pelas coisas simples e cheias de humanidade e o horror do sangue jorrado em vão e da morte sem sentido, tese e antítese a clamar por uma síntese, que não virá.

O que “Cartas da Guerra” nos mostra é a angustiante espera, a vida que se põe em suspensão e na incerteza.  Só o amor para sustentar tal espera.  Para além do sentimento, há a força das palavras, essencial para significar a vida e tudo o que acontece.  A literatura como elemento de salvação.


“Cartas da Guerra”, o filme de Ivo Ferreira, baseado na obra de António Lobos Antunes, é um filme de guerra belo, poético, amoroso.  Não se dirige a uma racionalidade pacifista, mas às emoções que a guerra cria ou suprime.  Mostra o contraste entre a vida de dentro e de fora da guerra, vivido por um ser humano sensível, capaz de colocar em palavras, bem escolhidas e encadeadas, a expressão de sentimentos de uma quadra decisiva da sua existência.



terça-feira, 11 de julho de 2017

KIKI - OS SEGREDOS DO DESEJO


Antonio Carlos Egypto





KIKI – OS SEGREDOS DO DESEJO (Kiki, el amor se hace).  Espanha, 2016.  Direção: Paco León.  Com Natalia de Molina, Ana Katz, Belén Cuesta, Candela Peña, Luis Bermejo, Paco León, Alex García, Luis Callejo.  102 min.


O desejo sexual assume formas e manifestações surpreendentes, inesperadas, bizarras.  Em tempos de uma moral estreita e rígida, baseada na noção de normalidade, as variações sexuais eram chamadas de desvios sexuais e, claro, condenadas.  A partir do momento em que se passou a estudá-las, para além dos julgamentos morais, elas ganharam um nome técnico: parafilias.  Uma forma de desejar que está fora da expectativa ou da norma.  Para vem do grego, significa fora de e filia se refere ao amor.  Ainda implica um problema a ser resolvido, mas agora na esfera da saúde.  É de diversidade que se trata, este um conceito mais aberto e contemporâneo.  E quanta diversidade há neste mundo!

Se você duvida, vá ver “Kiki – Os segredos do desejo”, uma boa comédia espanhola, que explora em seus personagens algumas formas de excitação pouco usuais, como o tesão por gente chorando, dormindo, ao sofrer a violência de um assalto, a atração por plantas ou por tocar em tecidos de seda, para chegar ao orgasmo.  Também estão lá fetiches mais conhecidos, como o dos pés ou do ato de ser urinado, mas nomes como dacrifilia, sonofilia, hifefilia, harpaxofilia, convenhamos, não fazem parte do vocabulário cotidiano, nem dos especialistas da área da sexualidade.

Ao potencializar o mais bizarro e exagerado ou, pelo menos, novidadeiro, o filme de Paco León consegue nos provocar mais e produzir risos.  Quanto mais estranho, melhor, para comprovar a tese de que a diversidade é infinita e todas as formas existentes têm o direito de se expressar e de serem acolhidas na sociedade.  Foi-se o tempo do pecado e da exclusão.  Há que se celebrar essa diversidade toda e, como o filme acaba demonstrando, é possível conviver com isso numa boa e até se dar bem.  Talvez não em todos os casos, há situações arriscadas, perigosas e ilegais.  Mas sempre se pode dar um jeitinho de acomodar as coisas e simbolizar, em vez de concretizar.  Fica até mais rico e divertido.





Há um detalhe a apontar.  “Kiki” inclui personagens com deficiência, de um modo muito positivo, nessa ciranda sexual, sem esforço para ser politicamente correto.  Quando se veem todas as pessoas como seres humanos e como cidadãos plenos de direitos, tudo se torna mais adequado no tratamento das tramas.  Para fazer humor, não é preciso atropelar direitos nem ofender pessoas ou categorias.  Preconceito não tem graça.

“Kiki” vai conquistando público nos cinemas já há algumas semanas e, pelo jeito, se tornará um sucesso da temporada.  Merecido: o filme é inteligente, aberto e bem feito.  A inspiração vem, claro, do conterrâneo Pedro Almodóvar.  O filme não tem nem de longe o requinte da mise-en-scène almodovariana, seus enquadramentos, direção de arte, cenografia, uso das cores e estruturação de roteiro para integrar bem todos os personagens.   Mas é bom o suficiente para nos fazer entender a diversidade, se divertir com ela, respeitá-la e celebrá-la.

Um vasto elenco de maioria bem jovem traz um frescor à narrativa, que torna o filme simpático e envolvente.  O próprio diretor, que é também roteirista e ator do filme, Paco León, tem apenas 42 anos e vem de uma família de artistas.  Tem muito a nos oferecer pela frente.





sábado, 8 de julho de 2017

INTRODUÇÃO À MÚSICA DO SANGUE

  
Antonio Carlos Egypto




INTRODUÇÃO À MÚSICA DO SANGUE.  Brasil, 2015.  Direção e roteiro: Luiz Carlos Lacerda.  Com Ney Latorraca, Bete Mendes, Armando Babaioff, Greta Antoine.  95 min.


“Introdução à Música do Sangue” é um exemplo de filme autoral brasileiro que, apesar de sua sensibilidade e beleza, provavelmente alcançará um número reduzido de espectadores.

No foco da narrativa, um casal de idosos vive, no interior de Minas Gerais, ainda sem energia elétrica, uma existência muito simples e pobre, bem discrepante em relação às possibilidades tecnológicas que se estabeleceram ao longo do século XX e deslancharam no XXI.  Ney Latorraca e Bete Mendes, dois intérpretes brilhantes, compõem os personagens do casal de idosos.  Ela, à espera ansiosa da chegada da luz elétrica, para poder costurar numa máquina que lhe poupe o esforço físico do pedalar mecânico.  Já ele, rejeita a chegada da energia elétrica, não quer mudar seu mundo, nem ter de pagar uma conta mensal de algo que ele julga desnecessário.




Por outro lado, há o despertar da sexualidade de menina agregada à vida do casal, quando por lá aparece um jovem peão, que vai acabar produzindo conflitos naquela vida pacata e parada no tempo. 

Angústias vêm à tona, a repressão, o desejo, o descontrole, se inserem na trama, instalando o drama e a tragédia, onde nada parecia estar acontecendo.  O que estava por vir, aflora subitamente.  O que estava represado, emerge.  O que estava contido, transborda.




O filme parte do argumento inacabado do escritor Lúcio Cardoso, com direção e roteiro de Luiz Carlos Lacerda e uma magnífica fotografia de Alisson Prodlik.  “Introdução à Música do Sangue” é todo filmado com a luz natural do dia e dos lampiões e velas acesos, à noite, o que contribui para criar toda uma ambiência poética para esse mundo rural primitivo que retrata.

A direção de arte de Oswaldo Lioi, na zona rural de Cataguazes, onde ocorreram as filmagens, nos insere muito bem naquele ambiente.  A música de David Tygel é bonita e envolvente.  E ainda se destaca a belíssima melodia de Tom Jobim, “Derradeira Primavera”, em tratamento instrumental.  Será uma pena se esse trabalho artístico de qualidade passar despercebido, enquanto tantas mediocridades comerciais alcançam cifras expressivas de público.