sábado, 30 de maio de 2026

NOVO ALMODÓVAR

 Antonio Carlos Egypto




NATAL AMARGO (Amarga Navidad).  Espanha, 2026.  Escrito e dirigido por Pedro Almodóvar.  Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbragalia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Rossy de Palma.  111 min.

 

Quando chega ao circuito um novo filme de Pedro Almodóvar, quem gosta de cinema corre para ver.  Não é para menos.  Ele é hoje um dos mais criativos e luminosos cineastas do nosso tempo.  Um tremendo contador de histórias, que brotam por todo lado, a ponto de ele usar uma dentro da outra, uma comentando outra, ou simplesmente, pondo os personagens a contar outras histórias dentro do filme.

 

Isso vem ao caso porque em “Natal Amargo” trata-se mesmo de duas histórias paralelas, em que uma pode estar dentro da outra, ou sendo contada por uma personagem da outra.  Mas há ainda uma terceira história: um cineasta com bloqueio criativo (outro tema que Almodóvar gosta de explorar) escrevendo sobre elas e se baseando na própria experiência com uma das supostas personagens.

 

Enquanto o filme se desenrola, percebemos que as histórias não estão bem contadas, há lapsos, personagens que aparecem tarde, enquanto um outro praticamente some.  Enfim, a impressão é de que a coisa não estava bem.  E realmente não estava bem.  Por que?  Porque o que estávamos assistindo era a construção de um roteiro que estava sendo feito pelo cineasta em crise.  Genial, não é?  Ver um roteiro, uma trama, se desenvolver enquanto está sendo escrita. 

 

Como sempre, o cinema de Almodóvar está metalinguisticamente dentro do seu cinema.  Além da ficção que se nutre, inevitavelmente, de realidade, de parte dela, ou em que as coisas se confundem.  Isso está acontecendo, está sendo filmado, ou está sendo imaginado, sonhado?  Na verdade, tudo é cinema da mesma forma.

 


No entanto, a questão ética é muito importante.  É possível transformar os momentos mais íntimos da vida de alguém em personagem identificável?  Isso está no centro do conflito, seja por intencionalidade ou, mesmo, por caminhos inconscientes.  E, óbvio, tem de ser discutido.

 

Em algum momento, aparece o chamado cinema cult, definido como aquele que não alcançou o interesse do público, fracassou, mas continuou sendo curtido por um grupo menor de espectadores.  Se alguém consegue ao menos ser cult, por que iria para a publicidade?  Por dinheiro, ora.  Por que mais?  

 

Um sempre caprichoso cenário, cultivado em detalhes, e um elenco afiadíssimo garantem o espetáculo, tanto pelo lado do drama quanto pelo lado do riso.  E sem música marcante o cinema de Almodóvar não ficaria completo.  Aqui, até mesmo uma única música pode mudar o rumo de um personagem.

 

Há sempre tanto o que ver, o que curtir, em cada filme de Pedro Almodóvar.  Vá ver.  Se você gosta de coisas inteligentes e provocadoras feitas com talento, você não vai se arrepender.





segunda-feira, 25 de maio de 2026

PRIMAVERA E ERUPÇÃO

Antonio Carlos Egypto

 



SEIS DIAS NAQUELA PRIMAVERA (Six jours,ce printemps là), é uma coprodução de Luxemburgo, Bélgica e França, de 2025, dirigida por Joachim Lafosse.  Uma situação de drama familiar, envolvendo o direito dos netos a frequentar uma casa de praia do avô paterno, negada à mãe divorciada com quem eles vivem.  Essa família, ainda assim, vai ao local secretamente e levando o novo namorado dessa mãe.  Um detalhe, a família é negra e o namorado, branco.  O que supõe algum tipo de problema que, no entanto, é sugerido, mas não é explicitado.  Aliás, todo o clima do filme é soft.  Há uma tensão suave no ar e nada de mais intenso acontece.  Um bom filme, que não chega a empolgar. No elenco Eye Haidara, Jules Waringo, Emmanuelle Davos, Damien Bonnard.  92 min.

 



ERUPCJA, ou seja, Erupção, filme polonês de 2025, é uma curiosa história de amor e amizade, que envolve duas mulheres que se encontram de forma   bissexta, mas, quando acontece, uma espécie de magia se estabelece.  Ambas se sentem atraídas uma pela outra de forma muito intensa, mesmo que cada uma delas esteja em novos contatos amorosos.  No caso, Bethany (Charli XCX) com o namorado Rob (Will Madden), que planeja pedir sua mão em casamento em Varsóvia, e Nel (Lena Göra) com sua parceira Ula (Agata Trzebuchowska). A marca dos encontros entre Bethany e Nel é única: sempre que se reveem há um vulcão em erupção.  A metáfora é óbvia, a relação delas demora a acontecer, mas se manifesta de forma eruptiva, vulcânica.  Como as relações vigentes se modificarão nesse contexto?  Será uma erupção passageira, como acontece com os vulcões?  A trama é interessante, o elenco é bom. O destaque é a vencedora de três Grammy musicais Charli XCX, uma estrela pop de quem nunca tinha ouvido falar, mas que se mostra bem como atriz.  Na verdade, o que mais me interessou no filme foi a forma como o diretor Pete Ohs mostra Varsóvia, com muitas tomadas altas, revelando uma bela cidade urbana contemporânea.  E a curta duração (71 minutos), suficiente para explorar a situação, sem tomar tanto tempo do espectador, como tem sido comum nos últimos tempos.




quarta-feira, 20 de maio de 2026

100 ESSENCIAIS

Antonio Carlos Egypto

 




A ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema – composta por mais de 180 críticos de todo o Brasil, completa 15 anos de existência.  Há 10 anos atrás, entre suas publicações, destacou-se aquela referente aos 100 filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, formada pela votação em que todos nós participamos, após uma discussão prévia na entidade.

 

Agora, chegou a hora de revisar essa lista e com novos debates, curso e votação, chegamos a uma nova relação de 100 filmes essenciais do cinema brasileiro. 

 

Essa lista de mais votados será apresentada agora sem ranqueamento, em ordem cronológica de produção.  Cada um desses filmes receberá um novo texto crítico, num livro a ser lançado no final do ano, pela editora Letramento, organizado por Ivonete Pinto, Danilo Fantinel e Paulo Henrique Silva.  Confira a lista abaixo:

 


Limite (1931), Mário Peixoto

Ganga bruta (1933), Humberto Mauro

O ébrio (1946), Gilda de Abreu

Também somos irmãos (1949), José Carlos Burle

Carnaval Atlântida (1952), José Carlos Burle

O cangaceiro (1953), Lima Barreto

Rio, 40 graus (1955), Nelson Pereira dos Santos

Rio, zona norte (1957), Nelson Pereira dos Santos

O grande momento (1958), Roberto Santos

O homem do Sputnik (1959), Carlos Manga

Aruanda (1960), Linduarte Noronha

O assalto ao trem pagador (1962), Roberto Farias

O pagador de promessas (1962), Anselmo Duarte

Os cafajestes (1962), Ruy Guerra


Porto das caixas (1962), Paulo Cezar Saraceni

Vidas secas (1963), Nelson Pereira dos Santos

À meia noite levarei sua alma (1964), José Mojica Marins

A velha a fiar (1964), Humberto Mauro

Deus e o diabo na terra do sol (1964), Glauber Rocha

Noite vazia (1964), Walter Hugo Khouri

Os fuzis (1964), Ruy Guerra

A falecida (1965), Leon Hirszman

A hora e vez de Augusto Matraga (1965), Roberto Santos

São Paulo Sociedade Anônima (1965), Luiz Sergio Person

A entrevista (1966), Helena Solberg

O padre e a moça (1966), Joaquim Pedro de Andrade

Todas as mulheres do mundo (1966), Domingos de Oliveira

A margem (1967), Ozualdo Candeias

Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967), José Mojica Marins

O caso dos irmãos Naves (1967), Luiz Sergio Person

O menino e o vento (1967), Carlos Hugo Christensen

Terra em transe (1967), Glauber Rocha

O bandido da luz vermelha (1968), Rogério Sganzerla

A mulher de todos (1969), Rogério Sganzerla

Macunaíma (1969), Joaquim Pedro de Andrade

Matou a família e foi ao cinema (1969), Julio Bressane

O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), Glauber Rocha

O despertar da besta (Ritual dos sádicos) (1970), José Mojica Marins

Sem essa aranha (1970), Rogério Sganzerla

Um é pouco, dois é bom (1970), Odilon Lopez

Bang bang (1971), Andrea Tonacci

S. Bernardo (1972), Leon Hirszman

Toda nudez será castigada (1972), Arnaldo Jabor

Alma no olho (1973), Zózimo Bulbul

Compasso de espera (1973), Antunes Filho

Os homens que eu tive (1973), Tereza Trautman

A rainha diaba (1974), Antonio Carlos da Fontoura

Iracema, uma transa amazônica (1975), Jorge Bodanzky e Orlando Senna

Dona flor e seus dois maridos (1976), Bruno Barreto

Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), Hector Babenco

Mar de rosas (1977), Ana Carolina

A lira do delírio (1978), Walter Lima Jr.

Tudo bem (1978), Arnaldo Jabor

A mulher que inventou o amor (1980), Jean Garrett

Bye bye brasil (1980), Carlos Diegues

O homem que virou suco (1980), João Batista de Andrade

Pixote, a lei do mais fraco (1980), Hector Babenco

Eles não usam black-tie (1981), Leon Hirszman

Os saltimbancos trapalhões (1981), J.B. Tanko

Das tripas coração (1982), Ana Carolina

Pra frente brasil (1982), Roberto Farias

Onda nova (1983), Ícaro Martins e José Antonio Garcia

Amor maldito (1984), Adélia Sampaio

Cabra marcado para morrer (1984), Eduardo Coutinho

Memórias do cárcere (1984), Nelson Pereira dos Santos

A hora da estrela (1985), Suzana Amaral

A marvada carne (1985), André Klotzel

Filme demência (1986), Carlos Reichenbach

Ilha das flores (1989), Jorge Furtado

Que bom te ver viva (1989), Lúcia Murat

Superoutro (1989), Edgard Navarro

Alma corsária (1993), Carlos Reichenbach

Carlota Joaquina, princesa do Brazil (1995), Carla Camurati

Terra estrangeira (1995), Daniela Thomas e Walter Salles

Baile perfumado (1996), Lírio Ferreira e Paulo Caldas

Central do brasil (1998), Walter Salles

O auto da compadecida (2000), Guel Arraes

Bicho de sete cabeças (2001), Laís Bodanzky

Lavoura arcaica (2001), Luiz Fernando Carvalho

Cidade de Deus (2002), Fernando Meirelles e Kátia Lund

Edifício Master (2002), Eduardo Coutinho

Madame Satã (2002), Karim Aïnouz

Cinema aspirinas e urubus (2005), Marcelo Gomes

O céu de Suely (2006), Karim Aïnouz

Serras da desordem (2006), Andrea Tonacci

Jogo de cena (2007), Eduardo Coutinho

Saneamento básico, o filme (2007), Jorge Furtado

Santiago (2007), João Moreira Salles

Trabalhar cansa (2011), Juliana Rojas e Marco Dutra

O som ao redor (2012), Kleber Mendonça Filho

O menino e o mundo (2013), Alê Abreu

Branco sai, preto fica (2014), Adirley Queirós

Que horas ela volta? (2015), Anna Muylaert

Aquarius (2016), Kleber Mendonça Filho

Arábia (2017), Affonso Uchoa, João Dumans

As boas maneiras (2017), Juliana Rojas e Marco Dutra

Marte um (2022), Gabriel Martins

Mato seco em chamas (2022), Adirley Queirós e Joana Pimenta

Ainda estou aqui (2024), Walter Salles

O agente secreto (2025), Kleber Mendonça Filho

 

 

domingo, 17 de maio de 2026

SURDA

 

   Antonio Carlos Egypto

 




 SURDA (Sorda).  Espanha, 2025.  Direção e roteiro: Eva Libertad.  Elenco: Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta, Joaquín Notario.  100 min.

 

“Surda”, produção espanhola, coloca como o próprio nome do filme evidencia, a questão da surdez em destaque.  O filme é escrito e dirigido por Eva Libertad, que é irmã da atriz principal, Miriam Garlo.  O papel da protagonista, que é mesmo surda, mostrou um desempenho extraordinário, reconhecido pelo prêmio Goya, o Oscar espanhol, e também no festival de Berlim e no prêmio Latino.  O ator Álvaro Cervantes, ouvinte como seu personagem no filme, também foi premiado por sua ótima atuação.

 

A trama ficcional de “Surda” mostra um casal: Ângela (Miriam Garlo), surda, e Hector (Álvaro Cervantes), ouvinte.  Eles vivem bem e amorosamente com as naturais dificuldades de comunicação, bem resolvidas pelo empenho e dedicação de Hector.  Há os amigos e parentes que também convivem bem com isso.  A questão começa a se colocar de forma mais crítica quando Ângela engravida.  A primeira pergunta que se coloca: a criança será ouvinte ou surda?  Não há uma resposta imediata, ela se dará no nascimento. 

 

E como Ângela será como mãe?  Antes disso, como se fará o parto normal recomendado ao caso?  O som tem um peso enorme nisso tudo.  O filme, por sinal, é absolutamente brilhante no tratamento de som, tudo é destacado e apurado com legendas descritivas detalhadas na tela para os espectadores com deficiências auditivas.

 


Uma sequência magnífica nos mostra o que Ângela, no seu mundo silencioso, está vivenciando e sentindo, enquanto as ações se sucedem.  Tecnicamente perfeito o trabalho, que nos permite fazer empatia com a personagem e entendê-la a fundo.

 

O fato é que conflitos serão inevitáveis, porque a questão nem é a de possibilidades de entendimento por boa vontade pessoal.  O mundo é todo moldado para existir no som, na fala, no diálogo, nas discussões e decisões verbalizadas.  Os sons também nos alertam, nos envolvem, nos direcionam.  Possibilitam uma autonomia que é bem mais difícil para as pessoas com deficiências auditivas.  O que se complica ainda mais na condição de mãe.

 

A maternidade será um grande desafio para Ângela, para seu parceiro, para sua família e, é claro, para os cuidados e para a educação do bebê. Tudo se desorganiza mais com a maternidade e as comunicações se tornam uma batalha a ser vencida diariamente.  As emoções se põem à flor da pele.

 

O filme mostra isso com clareza, com sensibilidade e expressão emocional muito valorizada pelo excelente elenco que compõe “Surda”.  A também premiada diretora Eva Libertad mostra grande competência nesse trabalho que a revela ao público internacional.





quinta-feira, 7 de maio de 2026

2 BRASILEIROS

Antonio Carlos Egypto

 

 


ECLIPSE.  Brasil, 2025. Direção: Djin Sganzerla.  Elenco: Djin Sganzerla, Sérgio Guizé, Lian Gaia, Selma Egrei, Helena Ignez.  109 min.

 

Djin Sganzerla, diretora, roteirista (com Vana Medeiros), atriz e produtora de “Eclipse”, mostra-se uma mulher de vários instrumentos (aliás, como sua mãe, Helena Ignez).  O filme é um suspense que tem como protagonista Cleo (Djin Sganzerla), astrônoma, que está grávida e recebe uma visita inesperada, a de sua irmã indígena, Nalu (Lian Gaia), que não via há muitos anos e com quem tem diversos conflitos.  Enquanto isso, seu marido, atencioso e amoroso, vai revelar algo que a desconcerta.  Na verdade, será descoberto em sua monstruosidade, com a ajuda da irmã.  Uma onça que arregala os dentes circula pelo filme, anunciando coisas que exigirão muito de Cleo.  O importante nesse filme é que o suspense se sustenta totalmente em questões femininas, como a gravidez, o aborto, misoginia, abuso sexual, estupro coletivo de menor, o que leva a narrativa ao crime, riscos e perseguições num bom ritmo cinematográfico.  O céu que nos envolve e seus eclipses que são tão marcantes, sobretudo à noite, testemunham coisas terríveis, assustadoras.  Há que enfrentá-las.

 



EU NÃO TE OUÇO.  Brasil, 2025.  Direção: Caco Ciocler e Isabel Teixeira.  Com Márcio Vito, que interpreta os dois personagens que protagonizam o filme.  72 min.

 

A situação retratada em “Eu Não Te Ouço” é bastante estranha, no entanto, bem representativa do momento político brasileiro.  Não é que as pessoas discutam, discordem, até briguem por suas crenças e figuras que apoiam.  É que parece não haver conversa possível.  Ninguém ouve o outro.  Parece que há uma barreira intransponível que separa dois mundos.  E se não se consegue sequer ouvir o outro lado, que acordo poderá existir?  Cordialidade e respeito estão fora de cogitação.  Em “Eu Não Te Ouço”, em novembro de 2022, pouco após as eleições presidenciais, um caminhoneiro se nega a parar e contribuir para uma barreira na estrada, em protesto pela eleição e de apoio ao candidato derrotado, Jair Bolsonaro.  Um manifestante todo vestido de verde e amarelo, com a camisa de manga comprida da seleção brasileira, se agarra à frente do caminhão para impedir que o veículo siga.  Mas ele segue e por muitos quilômetros.  Enquanto isso, um repórter cinegrafista, que já estava iniciando uma conversa com o caminhoneiro, os acompanha, conversando, ora, com um, ora, com outro.  Mas ambos não se entendem, ou melhor, nem se escutam.  O vidro dianteiro do caminhão é a barreira que impede isso.  Além do barulho do vento.  É uma alegoria que o diretor Caco Ciocler e a diretora Isabel Teixeira exploram, para nos mostrar por onde andamos neste país. 




sexta-feira, 1 de maio de 2026

NINO

       Antonio Carlos Egypto

 



NINO, DE SEXTA A SEGUNDA (Nino).  França, 2025.  Direção: Pauline Loquès.  Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, participação Mathieu Amalric.  96 min.

 

Nino, o personagem central do filme homônimo de Pauline Loquès, é o que se poderia caracterizar como uma personalidade fleumática.  Ou seja, uma pessoa que, pelo menos aparentemente, se comporta como calma, serena, impassível e que pode ser vista como apática, sem reação ou lenta nas reações.  É com essas características que o excelente jovem ator Théodore Pellerin compõe Nino, que viverá uma experiência avassaladora no final de semana em que completa 29 anos de idade.

 

Tudo acontece com ele, sem que ele desabe nem resolva adequadamente as questões que lhe aparecem.  Nino não consegue pedir ajuda, abrir o coração, não quer incomodar ninguém, e diante das dificuldades nega ou contorna a situação.  Ou simplesmente espera e suporta.

 

É o tipo que não se surpreende nem com uma festa surpresa no seu aniversário.  Também, pudera, foi nessa data que ele, ao buscar o resultado de exames de rotina, descobre que está com câncer na garganta, decorrente de uma doença sexualmente transmissível, o HPV, contaminado anos atrás.  Bom cidadão, ele não esquece de deixar um recado escrito num cartão para sua ex-companheira sexual, mas quando se encontra pessoalmente com ela, nada diz a respeito da doença, nem do cartão que já lhe deixou.

 


Nino demonstra ser tímido, porém, sociável, tem muitos amigos que acabam por ajudá-lo sem que ele peça.  Trata todo mundo bem, tem carinho com a mãe, mas também não se abre com ela.  Do pai tem lembranças e dúvidas quanto à sua morte (a dele), tentando se entender melhor nesse momento difícil pelo qual passa. 

 

Um dos gargalos do seu fim-de-semana em meio aos problemas é que perdeu a chave do apartamento, ou fechou-o com ela dentro.  Isso determina muito do que acontece de sexta até a segunda, quando Nino deve iniciar seu tratamento oncológico.  Fiquei me perguntando se em Paris no fim-de-semana não há chaveiros disponíveis, já que o zelador não estava e provavelmente nem teria essa chave.  Se existia, ele não foi atrás.

 

Enfim, são muitos contratempos e situações inesperadas que vão transformar a vida de Nino por inteiro.  Com seu jeito pacífico, afetivo e caloroso, sua vida poderá resistir aos problemas de saúde tão graves que o aguardam?  Ser uma figura fleumática pode fazê-lo viver melhor a situação e sofrer menos? 

 

Nino é um personagem que produz uma identificação muito fácil com o espectador.  Que pode se incomodar com o seu jeito de ser, mas torce por ele (como os personagens que com ele convivem no filme).  Mérito de uma direção leve e sutil, ancorada num ator surpreendentemente bom, que recebeu vários prêmios de revelação e que, de fato, segura o filme muito bem.

 


A narrativa de “Nino” foi inspirada pela realidade de um bom número de jovens que passam por circunstâncias semelhantes sem terem noção do que pode estar acontecendo e sem sintomas suficientes para servirem de alerta.  E foca no momento em que a realidade se impõe e é preciso lidar com ela.  Cada qual o fará de acordo com sua personalidade, seus recursos e o atendimento que políticas públicas de saúde oferecem à população.

Estreia nos cinemas prevista para 7 de maio.



 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A SOMBRA DE MEU PAI

                  

Antonio Carlos Egypto


 



A SOMBRA DE MEU PAI, de Akinola Davies Jr., da Nigéria e Reino Unido, 2025, participou da competição Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Recebeu o prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional e o prêmio Brada de Melhor Direção de Arte. É um filme envolvente, humano, terno e, ao mesmo tempo, firme e realista na avaliação política.

 

Em Lagos, na Nigéria, um pai que tem estado muito ausente tem a oportunidade de conviver com seus filhos, levando-os com ele à cidade grande, onde espera receber salários atrasados a que tem direito.  

 

As eleições presidenciais tinham acabado de acontecer, mas os resultados esperados não tinham sido proclamados.  Com a esperança de melhoria de vida com o novo governo, eles conhecem a resposta quando ainda estão na metrópole e tentam voltar à sua vila em paz.  Só que a agitação política já se instalou.  

 

Um filme que, com um elenco muito bom, explora bem o clima afetivo que aproxima pai e filhos, as agruras da vida que se dissolvem em pequenos bons momentos, a esperança que sempre existe e a sofrida democracia do nosso tempo.  94 min.

 

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

ESTRANGEIRO e VENCEDORES

  Antonio Carlos Egypto

 


O ESTRANGEIRO (L’Étranger”).  França, 2025.  Direção: François Ozon.  Elenco: Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lotin, Swann Arlaud.  122 min.

 

O Estrangeiro, importante romance existencial de Albert Camus (1913-1960), já se tornou filme em 1967, sob a direção de Luchino Visconti, com Marcello Mastroianni no papel principal.  Retomar essa obra-prima da literatura pelo cinema agora parece, então, uma atitude no mínimo muito ousada.

 

Quem encarou isso foi François Ozon, que não é nenhum Visconti, mas é um dos mais importantes cineastas franceses da atualidade.  Seu protagonista é o jovem e talentoso Benjamin Voisin.  Mas ninguém vai querer compará-lo com Mastroianni, um dos maiores atores do cinema de todos os tempos.

 

 Bem, então, vamos ao personagem principal, Mersault, apático, que não expressa emoções, vive num mundo interior árido, sem entusiasmo ou interesse pelo amor, pela vida e mesmo pela morte. 

 

Nada o abala, nem a morte da mãe, de que ele vai cuidar sem sofrimento aparente, dor ou choro.  Ou do encontro afetivo -- sexual – que o une momentaneamente a Marie (Rebecca Marder), o que entusiasma mais a ela do que a ele.  No entanto, esse personagem vai cometer um assassinato, de um árabe, numa praia de Argel, sem motivo aparente.  Isso acarretará um julgamento em tribunal, em que Mersault, como na vida, jamais mentirá.

 

Um francês na Argélia dos anos de 1930, envolto pelo colonialismo, está sendo julgado.  E, com ele, o ambiente político da época.  Quanto às mulheres, elas assumem um protagonismo maior no filme de Ozon.  E para que tudo soe verdadeiro, nada melhor do que a filmagem em preto e branco, que o diretor escolheu acertadamente.

 

O filme é bonito, tem o ritmo certo para que possamos viver a experiência com o protagonista bem de perto.  Com calma e sorvendo as surpresas dessa personalidade tão intrigante e introspectiva.

 

Vale a pena conferir a nova versão de “O Estrangeiro”, mas não deixe de ver também a versão de Luchino Visconti, caso você não a conheça.

  





DOCS VENCEDORES

Os documentários, vencedores oficiais pela definição dos júris do Festival É TUDO VERDADE 2026, estão automaticamente classificados para a disputa do Oscar de docs, curta e longa metragem.  Foram eles:

Internacionais

Longa: UM FILME DE MEDO (Una película de miedo), Espanha, Portugal.  Dirigido por Sérgio Oksman.  72 min.  Um documentarista e seu filho de 12 anos experimentam o medo, mas as relações pais e filhos, atuais e passadas, tomam conta da narrativa.  Bom trabalho.

Curta: SONHOS DE APAGÃO (Sueña Ahora), Cuba, Itália, dirigido por Gabriele Luchelli, Francesco Lorusso, Andrea Settembrini.  20 min.  Aborda a vida possível e os sonhos que são vividos pelos cubanos nos apagões.  Trabalho espetacular com a luz.

Nacionais

Longa: SAGRADO, de Alice Riff, 90 min., sobre uma escola pública de Diadema,SP, integrada à comunidade por lutas passadas, vista pelos olhos de seus trabalhadores: professores, merendeiras, seguranças, etc., que emergem como tipos humanos muito interessantes.

Curta: ARCOS DOURADOS DE OLINDA, o sensacional trabalho de Douglas Henrique, que, em 24 minutos, conta a história da Guerra Fria refletida em Olinda, numa disputa acirrada entre duas mulheres pela Prefeitura, enquanto o McDonald’s entra em falência pela primeira vez no mundo, na histórica Olinda, em Pernambuco, no centro do Brasil. Irônico e brilhante, venceu, além do prêmio oficial, mais três prêmios, pela APACI (Associação Paulista de Cineastas), Canal Brasil e Mistika.

Douglas Henrique