sábado, 19 de outubro de 2019

NOVOS DIRETORES NA MOSTRA 43

Antonio Carlos Egypto


Dentre os chamados novos diretores – cineastas a serem descobertos – aqueles que realizaram seu primeiro ou segundo longa-metragem, encontram-se filmes muito bons.  Já comentei aqui na matéria Dicas da Mostra 43, o filme alemão “Mente Perversa”, o sérvio “Cicatrizes”, o iraniano “Teerã, Cidade do Amor” e o chinês “Viver Para Cantar”, que comprovam isso.  Vamos ver alguns outros que merecem atenção, entre os novos diretores da 43ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


PAPICHA

PAPICHA.  França/Argélia, 2019.  Direção e roteiro: Mounia Medour.  Com Lina Khoudri, Shirine Boutella, Amira Hilda Douaouda.  106 min.
Na Argélia, nos anos 1990, em guerra civil, jovens universitárias vivem suas vidas com alegria, liberdade e vestindo-se acompanhando a moda.  Deparam-se com um clima opressor, que vem das regras islâmicas de vestimenta e conduta.  Cartazes pelas ruas, censura, atos terroristas não chegam a intimidá-las suficientemente.  Resistir, no entanto, é muito difícil e perigoso.  A ponto de que um simples desfile de modas, das criações de uma delas, dentro do campus universitário, torna-se uma tarefa quase impossível.  Acaba virando uma peça de resistência ao regime.  A diretora argelina Mounia Medour faz um filme dramaticamente forte, que é uma espécie de grito contra o autoritarismo.  Denuncia, de forma clara, o difícil papel que resta à mulher toda coberta, controlada e dependente dos homens, sem espaço para existir com plenitude.  O filme, após as exibições na Mostra 43, entra logo em cartaz no circuito comercial.

LA MALA NOCHE.  Equador, 2019.  Direção e roteiro: Gabriela Calvache.  Com Nöelle Schönwald, Cristian Mercado, Jaime Tamariz.  95 min.
“La Mala Noche” é o filme que o Equador indicou para concorrer ao Oscar de filme internacional.  E o segundo-longa da diretora Gabriela Calvache é realmente um belo trabalho.  Coloca em cena a personagem  Dana, que sobrevive graças à prostituição, mas é explorada ao nível da escravidão pelo chefe do tráfico de pessoas.  Para conseguir seguir vivendo, ela acaba tornando-se dependente de remédios, drogas.  E se endivida.  Apesar da beleza e boa aparência, ela vive no inferno e tem que arriscar tudo para tentar sair dessa situação.  A denúncia que o filme apresenta envolve todo um sistema que faz das mulheres, desde pequenas, objetos de exploração e escravidão, em que o crime organizado dá as cartas por meio das armas e sem piedade.

KOKO-DI KOKO-DA.  Suécia, 2019.  Direção e roteiro: Johannes Nyholm.  Com Ylva Gallon, Leif Edlund Johansson, Peter Belli, Katharina Jacobson.  86 min.
“Koko-Di Koko-Da” é um filme estranho, já a partir do próprio título, que remete a uma sonoridade, apenas.  Sua narrativa também mistura cenas animadas desenhadas e até movimento de sombras.  Na sua essência, ele vai variando acontecimentos, desde um ponto de partida que sempre se repete, mas a evolução nunca é a mesma.  E diz respeito ao medo de ser atacado, humilhado, destruído.  O amparo realista é acampar num trecho de floresta, à noite.  Os perigos e os medos, portanto, estão justificados.  Os agressores, porém, apesar de violentos, vêm dos contos de fada, da própria imaginação, quem sabe.  O perigo pode estar em toda parte, o medo vem da sua cabeça.  Uma narrativa extravagante, explorando um clima de terror, que é também bastante atraente.  É possível que alguns amem o filme, outros o rejeitem, odeiem.  Para mim, tem muitos méritos.

KOKO-DI KOKO-DA


“O DESEJO DE ANA” (El Deseo de Ana).  México, 2019.  Direção: Emilio Santoyo.  Com Laura Agorreca, David Calderón, Ian Monterrubio.  79 min.
O desejo de Ana é aquele que não pode acontecer, mas existe.  Para conhecê-lo, será preciso acompanhar passo a passo o ritmo lento e misterioso do filme, composto de frases sempre curtas, lacônicas, que dão elementos, mas não compõem a história.  O diretor mexicano Emilio Santoyo consegue criar o clima, as atuações minimalistas ajudam, mas os diálogos poderiam ser mais elaborados e  conduzir a trama em vez de travá-la, como acontece.  De qualquer modo, é interessante acompanhar a relação, entrar no clima. 

VIVIR ILESOS.  Peru, 2019.  Direção e roteiro: Manuel Siles.  Com Magali Solier, Renato Gianoli, Oscar Ludeña, Oswaldo Salas.  79 min.
É possível cometer crimes recorrentes, que envolvem  grandes mansões, sequestros, manipulação de muito dinheiro, com elegância, e permanecer impunes?  Talvez precisando apenas recomeçar em outro ponto, de outro modo?  Sempre construindo a situação perfeita, em que não haja provas para sustentar uma denúncia e contando com a colaboração das vítimas, já que elas também têm suas vantagens.  Contando, ainda, com a deterioração dos conceitos e valores, o que permite ressignificar os fatos do ponto de vista moral.  Uma boa trama, que consegue envolver o espectador e tem elementos inusitados.  No background, a perversa distribuição da riqueza e as mazelas sociais comuns à América Latina.


  



quarta-feira, 16 de outubro de 2019

WASP NETWORK_MOSTRA 43

Antonio Carlos Egypto



Rodrigo Teixeira, Leonardo Sbaraglia, Edgar Ramírez, Olivier Assayas



WASP NETWORK.  França/Brasil, 2019.  Direção e roteiro: Olivier Assayas.  Com Edgar Ramírez, Penélope Cruz, Wagner Moura, Gael García Bernal, Ana de Armas, Leonardo Sbaraglia.  125 min.


Cuba, que sempre sofreu um embargo econômico brutal dos Estados Unidos, desde que fez sua revolução, sobreviveu no tempo com a ajuda do bloco soviético.  Com a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética, apostava-se que o regime de Fidel Castro não sobreviveria.  Isso animou os cubanos anticastristas de Miami, nos anos 1990, a redobrar suas ações, apoiados pelo governo norte-americano.  Realizaram atos terroristas para minar o turismo e produzir um colapso na economia cubana, ao lado de novas tentativas de assassinar Fidel (o que já era rotina), entre outras coisas.  Muita espionagem, ações ousadas e, de outro lado, a contraespionagem e o enfrentamento por parte de Havana.

A guerra fria esquentava no confronto Miami versus Havana.  Os fatos que marcaram esse período estão mostrados no filme “Wasp Network”, produção de Rodrigo Teixeira, dirigida por Olivier Assayas, adaptação do livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais.


Olivier Assayas


Não é apenas um filme de ação e política, no entanto, o que se vê.  É um conceito humanista de cinema, que dá complexidade aos personagens, fala da relação dos ativistas, de um lado e de outro, com suas mulheres e crianças, das preocupações que, pela esquerda ou pela direita, atingem todos.  Mostra personagens fortes, de carne e osso e humanidade.  Não é um jogo de vilões e mocinhos, mas de opções, perspectivas de vida e de política, jogos estratégicos, traições ou luta suicida por uma causa, ainda que nem sempre clara.  O que faz, por exemplo, com que um piloto abandone sem aviso mulher e filha em Cuba para atuar em Miami?  Que custo pessoal isso tem?  Para o próprio e para a família?

“Wasp Network” é um filme complexo, como a situação que aborda, mas que se acompanha muito bem, com um roteiro bem ordenado, uma edição eficiente, boas cenas de ação e um time de atores e atrizes de alto desempenho.

Edgar Ramírez, o ator venezuelano que protagoniza os grandes momentos da trama, joga com perfeição nas mudanças que atingem seu personagem.  Gael García Bernal, Wagner Moura e Leonardo Sbaraglia têm atuações preciosas, sutis, ás vezes ambíguas ou irônicas, mas não perdem as nuances dos seus papéis.  Penélope Cruz usa seu talento e beleza para compor uma mulher intensa, corajosa e cheia de emoções, que dá tom ao filme.  Aliás, o elenco feminino tem bastante relevo, já que o mundo doméstico, familiar, pesa quase tanto quanto a dinâmica política da espionagem e contraespionagem.  E interfere nela de várias formas.




O filme deve ser lançado oportunamente nos cinemas, mas não se chamará como agora “Wasp Network”.  Possivelmente, “Rede Cuba” ou “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, seguindo o bom título do livro de Fernando Morais, algo do gênero.

“Wasp Network” foi o filme de abertura da 43ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  Contou com a presença do diretor Olivier Assayas, dos atores Edgar Ramírez e Leonardo Sbaraglia, além do produtor Rodrigo Teixeira, na coletiva de imprensa e na cerimônia de abertura.

A retrospectiva do diretor Assayas na Mostra exibirá mais 14 títulos de sua filmografia e merece toda a atenção pela alta qualidade artística do seu trabalho.




terça-feira, 15 de outubro de 2019

DICAS DA MOSTRA 43

Antonio Carlos Egypto


Dicas de alguns filmes da 43ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que têm personagens consistentes, do ponto de vista psicológico.



MENTE PERVERSA

MENTE PERVERSA (Kopfplatzen).  Alemanha, 2019.  Direção e roteiro:  Savas Ceviz.  Com Max Riemelt, Oskar Netzel, Isabell Gerschke. 99 min.
O filme alemão “Mente Perversa”, segundo longa do diretor Savas Ceviz, é um trabalho absolutamente honesto e esclarecedor sobre o tema da pedofilia.  Ao tratar do personagem Markus, que tem uma atração por crianças, meninos, que ele não consegue controlar, embora tente desesperadamente, o filme deixa claros alguns pontos importantes.  Pedofilia é um impulso, uma atração que não depende do sujeito.  Não cabe culpa.  É da ordem do desejo.  A ação que pode decorrer desse desejo é o abuso sexual, se considerarmos que as crianças estão vulneráveis diante dos adultos.  E abuso sexual é crime.  Pedofilia, não, pelo menos enquanto desejo.  Infelizmente, confundem-se as coisas, o que gera um estigma social violento, que não deixa saída para quem, tendo essa atração, pretenda lidar melhor com ela, sem causar danos a outros.  Precisamos proteger as crianças, por certo, mas também precisamos aprender a conviver com a diversidade humana, por mais estranha que ela possa nos parecer.  O filme poderia ser chamado de mente aberta, já que promove uma empatia, de forma competente e clara, com aquilo que nos é aversivo.  Para tentar entender.  O que é necessário.  E aqui está tudo muito bem colocado e no tom certo.  Inclusive o atendimento psicológico que o personagem recebe.

CICATRIZES (Savovi).  Sérvia, 2019.  Direção: Miroslav Terzic.  Com Snezana Bogdanovic, Marco Bacovic, Jovana Stojiljkovic. 97 min.
O que se vê no desenrolar do filme sérvio, dirigido por Miroslav Terzic, em seu segundo longa, ambientado em Belgrado, são as cicatrizes de um passado que move os personagens.  Acompanhamos uma mulher, sua família, seu trabalho, seus contatos.  A cada sequência nos deparamos com impropriedades.  As relações humanas são estranhas, pesadas, ásperas.  Os comunicados, misteriosos ou simplesmente lacônicos.  Há perigos no ar.  E vamos descobrindo, aos poucos, o que está em jogo.  Sem nunca entender muito bem do que se trata.  Até que, no terço final do filme, a situação se esclarece.  Mesmo assim, não se resolve, porque é preciso encarar o que ficou para trás.  Então, novas ações vão trazer uma nova configuração ao conflito.  Cicatrizes eternas, ao que parece.  Um belo trabalho dramático, com um roteiro bem construído, que estimula o espectador a seguir a trama com interesse.  O tema abordado, que envolvle maternidade, fatos e escolhas do passado, é bem relevante, do ponto de vista psíquico.


CICATRIZES



TEERÃ, CIDADE DO AMOR.  Irã, 2018.  Direção: Ali Jaberansari.  Com Forough Ghajabeli, Mehdi Saki, Amir Hessan Bakhtiar.  102 min.
O filme aborda três diferentes personagens vivendo em Teerã, que têm em comum a solidão, um desencanto com a vida e a busca por amor.  Uma busca um tanto torta, envergonhada e, consequentemente, de baixa eficácia.  Uma frustração amorosa, que também reflete a inadequação dos personagens à sua própria vida.  Um ex-campeão de fisiculturismo que é treinador, uma secretária de clínica de beleza, obesa, e um cantor religioso, que atua em funerais, compõem esse trio.  O interessante da proposta é experimentar a empatia com pessoas que tentam, mas têm muita dificuldade de encontrar seu rumo.  Têm recursos pessoais, mas se perdem pelos caminhos da cidade.  Um trabalho sensível, do ponto de vista da psicologia dos personagens.  E que, pela primeira vez no Irã, insinua desejo homossexual.

VIVER PARA CANTAR.  China, 2019.  Direção e roteiro: Johnny Ma.  Com Zhao Xiaoli, Gan Guidan, Yan Xihu.  100 min.
Na China, que cresce e se transforna a olhos vistos, como podem sobreviver as manifestações artísticas tradicionais, como a lendária ópera chinesa?  A partir de uma trupe tradicional da ópera, vivendo numa pequena cidade, com espectadores fiéis, o filme mostra a decadência do gênero, agora com um público idoso, cada vez menor, sem apoio legal e sem recursos.  A trupe faz da ópera chinesa sua razão de existir. Toda a energia psíquica está dirigida para a arte, que é também meio de subsistência, mesmo que difícil. E se decepciona com os concorrentes da troca de máscaras e panela quente ou das casas de dança erotizadas.  A demolição do teatro, assim como de todo o terreno que o cerca, representa o desmanche da cultura tradicional e a falta de apoio governamental nos tempos atuais.  No caso, porém, parece que é o nada, ou a imaginação, que ocuparão o lugar da beleza característica dos trajes, tipos de músicas que marcam a história dessa ópera tradicional, ou mesmo já modernizada. Segundo longa do diretor Johnny Ma.


domingo, 13 de outubro de 2019

DOCS NA MOSTRA 43

Antonio Carlos Egypto


Quatro críticas sobre documentários da 43ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.



HONEYLAND


HONEYLAND.  Macedônia do Norte, 2019.  Direção e roteiro: Ljubomir Stefanov e Tamara Kotevska.  Doc.  85 min.
Um documentário de grande beleza plástica, esse “Honeyland”.  Começa por panorâmicas e filmagens do alto de uma região isolada da Macedônia do Norte, onde vive Hadtidze, uma mulher de cerca de 50 anos, que cuida de uma colônia de abelhas e da mãe já idosa e doente.  Uma mulher forte e firme, que sabe o que faz e como se relacionar com a natureza e com os animais, especialmente as abelhas.  Para preservar a produção e a natureza, ela divide sua coleta de mel meio a meio com as abelhas, 50% para cada lado.  A simples exposição dessa vida, desse povoado, dessa beleza natural, com uma fotografia primorosa, já valeria o filme.  E como.  Mas os três anos que foram consumidos em sua produção permitiram testemunhar a chegada de uma família de vizinhos, com muitos filhos, 150 cabeças de gado e muito ruído.  Além de uma disposição de produzir mais, que acabará pondo em risco o equilíbrio do lugar e da vida de Hadtidze.  Cada qual tentando viver à sua maneira, porém, descobrindo os limites possíveis.  Conta-se essa história, claro, incluindo encenações, mas revelando algo muito palpável de uma vida real.  Não parece documentário, mas é.  E espetacular.  “Honeyland” concorre ao Oscar de filme internacional, depois de haver vencido o Grande Prêmio do Júri em documentários, em Sundance.  É o primeiro filme da Macedônia do Norte que estamos vendo, já que, com esse nome, o país só passou a existir em 2019.  Consequência do litígio perdido frente à Grécia, que reivindicou o nome Macedônia para a região que pertence àquele país.

A BOIA.  Argentina, 2018.  Direção: Fernando Spiner.  Doc.  98 min.
No documentário “La Boya”, o diretor Fernando Spiner retorna à sua pequena cidade litorânea e focaliza o amigo nadador e poeta Aníbal, que lá permaneceu.  Nessa investigação, que envolve seu próprio passado, Fernando constrói um filme que é pura poesia, como o seu retratado.  A poesia é o centro da narração e por onde avançam as ideias e as emoções, os modos de ser e experimentar as coisas.  Mas é também uma bela poesia visual, que se vale do mar, do nado e do significado simbólico de uma boia, para produzir belas e intensas sequências marítimas.  O filme, de fato, envolve e sensibiliza pela sutileza, pelos detalhes, por aquilo que é menos evidente.  O que remete ao reino do poético.




HÁLITO AZUL.  Portugal, 2018.  Direção: Rodrigo Areias.  Doc.  79 min.
O documentário português “Hálito Azul” aborda o mar, da perspectiva de sua beleza natural e dos ventos que o acompanham, na vila Ribeira Quente, na ilha de São Miguel.  Mas o fio condutor é a vida dos pescadores, seus trabalhos, seus hábitos e os riscos associados à pesca e à sua escassez, que podem detonar a própria existência deles.  Há quem até desdenhe das belezas naturais do lugar, por sentir a opressão desse mar, desse vento e dessa existência isolada e distante.  A vida, porém, tem de continuar, seguir seu rumo, mesmo que não possamos ter controle sobre ela.

CÃES DO ESPAÇO. Áustria, 2019.  Direção e roteiro: Elea Kremser e Levin Peter.  Doc.  90 min.
Foi Laika, uma cachorra de rua de Moscou, o primeiro ser vivo a ser lançado ao espaço.  O que aconteceu com ela?  E com um chimpanzé, duas tartarugas e muitos outros cães, que serviram para testar os riscos de o ser humano se aventurar na conquista espacial?  O documentário trata do assunto com ótimo material de arquivo e também acompanha cães de rua de Moscou em suas andanças, caçadas, brigas ou simples busca de comida, em seu dia a dia. Aí os cães dominam toda a cena e a câmera parece invisível para eles.  A questão de como o ser humano se utiliza do animal para seus fins, sem muito pudor, é importante.  O filme, porém, se tornou cansativo para mim, ao passar um longo tempo filmando cães de rua.  O tempo de 90 minutos parece excessivo, ou faltou uma discussão maior da tese principal.




sexta-feira, 11 de outubro de 2019

PARASITA, na Mostra 43

Antonio Carlos Egypto





PARASITA (Parasite).  Coreia do Sul, 2019.  Direção: Bong Joon-ho.  Com Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo.  131 min.

“Parasita”, o vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado pela Coreia do Sul ao Oscar de filme internacional (ex-filme estrangeiro), é um produto poderoso.  A narrativa se refere a uma família pobre, que se aproveita de uma oportunidade de trabalho temporário para um de seus membros, para parasitar uma família rica.

Para trabalhar essa história, Bong Joon-ho se vale de uma variedade de gêneros.  “Parasita” é comédia, destila um humor que produz riso na plateia.  É também um drama, até bem pesado.  Não há personagem que saia incólume de lá.  Tem muito suspense e um sem-número de surpresas e reviravoltas de tirar o fôlego.  Tem também alguns elementos fantasiosos, surrealistas, eu diria.

Ao mesmo tempo, aborda aspectos da realidade social que estão subjacentes à situação, mas também explicitados na dinâmica das classes sociais envolvidas na trama.  Até aspectos políticos da divisão das Coreias aparecem, dando um toque inteligente em cenas de humor.




O filme consegue intrincar todos esses elementos dos diferentes gêneros cinematográficos com bastante competência, sem artificializar as passagens de um a outro registro e sem perder o ritmo.  Ao contrário, o ritmo só cresce após cada reviravolta.

Os desdobramentos das ações, na realidade, produzem novas histórias e situações-problema.  Constituem-se num desafio novo a cada um dos personagens, deixando sempre em aberto aonde é que tudo isso vai parar.  É um filme imprevisível, mas que conta com um roteiro muito bem engendrado.  É, sem dúvida, um dos destaques da 43ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. 
            





terça-feira, 8 de outubro de 2019

VEM AÍ A MOSTRA 43

Antonio Carlos Egypto





Atuar na  área da Cultura no Brasil de hoje está cada vez mais difícil: pela crise, pelos cortes, pelos filtros, pelos ataques, pelas perseguições, vocês sabem...  Um evento da magnitude e importância da 43ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ganha significado ainda maior do que sempre teve, nesse contexto.  O trabalho incansável de Renata de Almeida e sua equipe é digno do nosso maior reconhecimento.  É um trabalho de resistência e que não perde o fôlego.

Senão, vejamos: mesmo com a perda de patrocínios, como o da Petrobrás, a Mostra 43 vem com mais de 300 filmes de 45 países.  Continua recebendo um número grande de convidados internacionais, promove uma Mostra Brasil ampliada, organiza o III Fórum da Mostra, debate filmes, lança livros, traz produções de realidade virtual, sessões especiais no Teatro Municipal, no Auditório Ibirapuera, no vão livre do MASP, exibições na CPFL de Campinas, itinerância em 12 cidades paulistas com o SESC e tudo o que tem feito dela o evento cinematográfico mais importante do país.

O cardápio de filmes exige que nos debrucemos na programação para descobrir as pérolas de todos os cantos do mundo, que sempre existem, e os novos talentos de primeiro e segundo longas de cineastas de todos os quadrantes.  Já os filmes premiados nos festivais pelo mundo requerem menos esforço para serem localizados.  Assim como os candidatos de seus países ao Oscar de filme internacional.

“Wasp Network”, de Olivier Assayas, adaptação do livro de Fernando Morais Os Últimos Soldados da Guerra Fria, abre a Mostra.  Assayas ganha o prêmio Leon Cakoff e uma retrospectiva com 14 obras exibidas nesta edição da Mostra.  “Dois Papas”, o novo longa de produção internacional de Fernando Meirelles, protagonizado por Jonathan Pryce e Anthony Hopkins, fecha a programação no dia 30.  E, entre eles, o melhor do cinema mundial, especialmente o cinema de alta qualidade artística, promotor de reflexões importantes que nos remetem aos dilemas do mundo atual.




Isso tudo vai acontecer em São Paulo, de 17 a 30 de outubro de 2019, em 34 salas de cinema, de 28 locais de exibição, entre eles, os já tradicionais Cinearte, Cinesesc, Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca e Augusta, Petra Belas Artes, Reserva Cultural, Cinesala e Cinemateca Brasileira.  O circuito Spcine, o Instituto Moreira Salles, o Museu da Imagem e do Som e o Itaú Cultural também estão novamente presentes na Mostra.

A central da Mostra fica no Conjunto Nacional, da avenida Paulista, onde podem ser adquiridas permanentes integrais (válidas para todas as sessões, sem restrição), especiais (para sessões de 2ª. a 6ª. feira, até as 17:55 h), ou pacotes de 40 ou de 20 ingressos.  Assinantes da Folha têm desconto nas permanentes e associados plenos do Sesc têm preços promocionais, no Cinesesc.  Ingressos individuais para as sessões somente nas salas dos cinemas, no dia de exibição do filme escolhido.  Informações já podem ser obtidas na central da Mostra ou no site mostra.org. As vendas de permanentes e pacotes começam no dia 12 de outubro, sábado.  Pacotes de 20 ingressos costumam se esgotar rapidamente.  Como as sessões da Mostra costumam ser concorridas, vale a pena comprar pacotes ou permanentes, porque os ingressos podem ser tirados alguns dias antes da exibição do filme pretendido.

O cartaz da Mostra 43, de Nina Pandolfo, é de uma delicadeza que contrasta com os tempos de ódio, grossura e lacração que estamos vivendo.  O cartaz, como a própria Mostra, é um respiro de beleza e arte.

Em breve, aqui no cinema com recheio, vou escrever sobre filmes que vão entrar na programação da Mostra.  Farei isso ao longo de todo o evento e mesmo depois, avaliando o conjunto da obra.




terça-feira, 1 de outubro de 2019

CORINGA

Antonio Carlos Egypto





CORINGA (Joker).  Estados Unidos, 2019.  Direção: Todd Philips.  Com Joaquin Phoenix, Zazie Beetz, Robert De Niro, Marc Maron, Frances Conroy.  122 min.


Coringa, como é do conhecimento geral, é o poderoso e misterioso vilão das histórias do Batman.  É um desses vilões que fazem sucesso junto ao público.  Por isso, explorar as suas origens pode ser uma tarefa atraente.  O filme de Todd Philips, que leva o nome do personagem, vai nessa linha.

“O difícil de ser um doente mental é que todo mundo espera que você aja como se não fosse”, frase dita pelo personagem no filme, pode ser o começo de tudo para entender o Coringa, ou melhor, esta mais recente versão cinematográfica dele.  Acometido por uma risada assustadora, o filme nos informa que é um riso incontrolável que está em desacordo com os sentimentos ou a situação vivida.

As feições embranquecidas ou com máscara remetem à figura do palhaço, que seria sua ocupação inicial.  E é na condição de palhaço que ele mata e capitaneia ações violentas e destrutivas, que alcançam toda a Gothan City.  É, digamos, a vingança pela rejeição e maus tratos sofridos por toda a vida e sempre reiterados em sociedade.




A revolução dos palhaços, porém, tem outras dimensões.  A cidade vive abandonada, cercada de lixo por todos os lados, fruto de uma greve nunca resolvida, e espalhando super ratos por todos os lugares.  Ou seja, trata-se de uma Gothan City maltratada pelos políticos e, ainda, sem sombra da presença de um Batman para salvá-la.

História em quadrinhos à parte, “Coringa” reflete o mal estar do nosso mundo, em que a violência está onipresente e, em alguns casos, pode aparecer como solução para alguma coisa.  Tudo pode começar com um doente mental ressentido, a quem alguém entrega uma arma, com a pretensão de ajudá-lo a se defender das pessoas que o atacam.  Soa familiar?  Claro e, também, assustador.  Não só aqui, mas nos Estados Unidos.

O lançamento do filme por lá está sendo cercado por cuidados, na suposição de que sua violência pudesse estimular atiradores, como já os há às pencas no país.  Já tem armas, precisam do estímulo do cinema?  Não creio.  Desde “Pequenos Assassinatos”, filme de Alan Arkin de 1971, está posta a prática do assassinato em massa, sem motivo palpável, como uma chaga contemporânea.  Ao lado do terrorismo, este com motivações políticas, econômicas, culturais e religiosas detectáveis.  Lobos solitários, excluídos e que se excluem, vivem aparecendo, fato revelador da solidão e da exclusão sociais.  Se esses lobos forem capazes de inflamar multidões, está posto o clima do caos.  Esse é o caso do “Coringa”.




O filme de Todd Philips é surpreendentemente forte e impactante.  Não se sai do cinema sem sentir o peso da questão.  O espectador sai mexido, quer queira, quer não.  Quem for ao cinema só pensando em super-heróis e batalhas com os vilões de costume vai se decepcionar.  “Coringa” tem muito mais força e reflexão do que isso.  Não por acaso, venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza 2019.

Entre os méritos do filme é preciso destacar, de modo evidente e reluzente, o desempenho de Joaquin Phoenix.  Ele é perfeito para o papel de Arthur Fleck, o Coringa.  Ou ele se faz perfeito para todos os papéis: é um grande ator.  Até Robert De Niro desaparece no filme, diante da atuação de Joaquin Phoenix.  Só pelas gargalhadas deslocadas da ação já se pode ver a capacidade de comunicação que ele tem.  Sem ele, o filme talvez fosse pouca coisa, com ele, ganha importância.  Todo o elenco também dá bem conta do recado, levando a ação de um filme polêmico, palpitante, para o público.





terça-feira, 24 de setembro de 2019

O FIM DA VIAGEM...

Antonio Carlos Egypto





O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO (Tabi No Owari, Sekai No Hajimari), Japão/Uzbequistão, 2018.  Direção: Kiyoshi Kurosawa.  Com Atsuko Maeda, Shota Sometani, Tokio Emoto, Adiz Radjabov, Ryo Kase.  120 min.


A jovem Yoko, adulta com aparência de adolescente, é a personagem que conduz toda a narrativa de “O Fim da Viagem, O Começo de Tudo”.  Uma narrativa rarefeita, como o próprio momento de vida de Yoko.  Ela está num país que desconhece – Uzbequistão, onde o filme foi rodado – em que não entende uma palavra do que lhe dizem, mas circula por ele e prepara, com uma equipe de filmagem, matérias para a TV japonesa.  Fica sujeita a uns tantos  micos  e a uma insegurança muito grande, quando não tem o tradutor à disposição.  Ou seja, nos momentos em que não está trabalhando.

A família parece não contar muito para ela, mas ela tem um grande amor que sustenta sua disposição de viver e trabalhar.  Vai levando tudo numa boa, até que a notícia de um incêndio de grandes proporções em Tóquio, mostrada na TV, irá abalá-la.

“O Fim da Viagem...” trata de afetos, do que sustenta o nosso cotidiano, da rotina e das imposições do trabalho, do sonho de transformá-lo em realização muito mais plena, da grandeza do amor.




É impressionante a força da cena em que a jovem canta em japonês  Hino ao Amor ,  de Marguerite Monnot, clássico sucesso de Edith Piaf, em meio às belíssimas paisagens naturais do Uzbequistão.  A sensação que passa é a da universalidade da vida humana e do amor.  Algo que se impõe sobre toda a diversidade do mundo e supera as barreiras de espaço, tempo e linguagem.

 É muito interessante como o filme, em sua simplicidade, ancorado num realismo que beira a banalidade, nos transmite tantas coisas boas, sem ser ingênuo, nem meramente fantasioso.  Dispensa também os grandes dramas, a exposição da violência ou mesmo do erotismo.  Tudo está lá, mas da forma mais sutil possível.




domingo, 22 de setembro de 2019

LEGALIDADE

Antonio Carlos Egypto


LEGALIDADE.  Brasil, 2018.  Direção: Zeca Brito.  Com Cleo Pires, Leonardo Machado, Fernando Alves Pinto, Letícia Sabatella, José Henrique Ligabue.  121 min.



  
O filme de Zeca Brito, com roteiro dele e de Léo Garcia, mescla ficção e realidade para contar fatos muito importantes da nossa história contemporânea.  “Legalidade” trata da resistência coordenada pelo governador gaúcho Leonel Brizola a um golpe militar em curso, em 1961, com apoio dos Estados Unidos.  Era o que estava no horizonte com a renúncia do então presidente Jânio Quadros e as ações visando a impedir a posse do vice-presidente João Goulart, que estava em viagem à China comunista.

Na realidade, desde a morte de Getúlio Vargas, passando pela eleição de Juscelino Kubitschek, conseguiu-se impedir a eclosão do golpe.  Golpe frustrado por reações corajosas, escoradas no apoio popular, como o próprio suicídio de Vargas ou a ação decisiva do marechal Lott.  Da mesma forma, o papel heróico, em 1961, coube a Brizola, que jogou todas as suas forças na defesa da Constituição, formando a cadeia da legalidade a partir do próprio Palácio Piratini, e a formação dos grupos dos onze, país afora, prometendo resistir até pelas armas para garantir a legalidade.  Conseguiu, embora o próprio Jango tenha negociado o parlamentarismo para poder assumir, frustrando as expectativas dos que lutaram por sua posse, ao menos em parte.  Jango recobrou plenos poderes, um ano depois, por meio de um plebiscito.  Mas o golpe acabou se realizando em 1964.

A reconstrução desses fatos é fundamental para que não se perca o fio da história e por enfatizar a importância da resistência popular na democracia. O uso complementar de material de arquivo jornalístico da época dá a dimensão da extensão e do significado que esse evento político representou para o país.




No caso de “Legalidade’, o filme traz a ação também para o ano de 2004, em que Brizola morreu, a partir da retomada de uma trama ficcional, envolvendo um triângulo amoroso entre um militante e jornalistas imersos naqueles fatos históricos.  Fatos que estão sendo pesquisados pela filha da jornalista do  Washington Post,  Cecília, que foi para onde convergiu a questão amorosa, mas também política, da narrativa.

Fantasias à parte, o filme gaúcho retoma um momento importante, crucial, da nossa realidade política.  O papel central destinado a Leonel Brizola, um inegável herói no filme, foi muito bem levado pelo ator Leonardo Machado, morto precocemente no final de 2018.  Cleo Pires, Fernando Alves Pinto e Letícia Sabatella têm igualmente ótimos desempenhos. 

Um filme que merece ser conhecido, em especial quando se pretende reescrever certos fatos históricos, negando a gravidade que tiveram para o país, como a ditadura militar, que se consumou após os fatos narrados em “Legalidade’ e permaneceu por 21 longos anos de opressão, que não podem ser esquecidos.




quinta-feira, 19 de setembro de 2019

LYON E O CINEMA


Antonio Carlos Egypto




Lyon, uma das mais importantes e populosas cidades francesas, pode ser lembrada pelo rei dos animais que a simboliza e está presente em toda parte por lá. Pode ser lembrada pelo luxo de ser uma cidade banhada por dois belos rios: o Ródano e o Saône, que formam uma península charmosíssima.  Pode ser lembrada como grande centro gastronômico mundial.  Pode ser lembrada por suas traboules, passagens, caminhos estreitos entre pátios, que ligam ruas no traçado urbano, que marcam a velha Lyon, com o bairro renascentista mais extenso da França.  Pode ser lembrada pela indústria da seda, pelo progresso industrial e por muitas rebeliões dos artesãos, dos operários que, no século XIX, forjaram o lema “Viver trabalhando, Morrer combatendo”, e pelo banho de sangue que se seguiu.  Ou por ser a capital francesa da resistência na Segunda Guerra Mundial e pelo destino trágico dos presos e torturados pela Gestapo nazista.  Pode, ainda, ser lembrada como aquela região gaulesa que resistia à ocupação romana, então chamada Lugdunum, capital provincial da Gália.  Asterix andou por lá.



Lyon também pode ser lembrada pelos seus técnicos e inventores, em especial, pelos irmãos Louis e Auguste Lumière, que lá inventaram o cinematógrafo e fizeram o primeiro filme da história, que foi projetado numa tela para que todos pudessem ver ao mesmo tempo.  Estava criado o cinema.  Que filme foi esse?  A saída dos operários da fábrica Lumière.  O proprietário era Antoine Lumière, que produzia materiais e equipamentos para fotografia.

Para quem gosta de cinema como eu, foi emocionante passear pelo quarteirão de Lyon onde se situou essa fábrica e está o hangar do primeiro filme da história.  Lá está a mansão onde viveram os Lumière, transformada em instituto e expondo a evolução técnica e artística dessa aventura humana.  Equipamentos, filmes, fotos, cartazes, que remontam aos primórdios da criação do cinema, estão á vista de todos, revelando a trajetória de uma invenção que mudaria o mundo.




A primeira vez que as imagens animadas saíram das caixinhas e ganharam as paredes e as telas aconteceu no subsolo do Grand Café no Boulevard des Capucines, em  Paris, em 28 de dezembro de 1895.  Lá estava o cinematógrafo dos Lumière, que captou e projetou as imagens da saída da fábrica dos operários, principalmente das operárias, que trabalhavam para o pai deles, Antoine, em Lyon.  Impossível dissociar Lyon da criação do cinema, portanto.  De lá vieram seus criadores, os equipamentos que tornaram possível a aventura e o próprio filme projetado.

Eu queria sentir mais de perto o clima, o ambiente, os espaços, a cidade.  O contexto que criou a sétima arte.  A sensação que passa é de tranquilidade, dedicação, competência, num ambiente inegavelmente privilegiado, de elite.  Daí sairia uma incrível diversão popular, que acabaria por se transformar, pouco a pouco, numa arte refinada, insubstituível, e num entretenimento de massa muito sofisticado.



Desde que a fotografia foi animada, colorida, anexada ao som, até os impressionantes avanços tecnológicos da atualidade, não se passou muito tempo, historicamente falando.  São pouco mais de 120 anos.  Muito pouco para a história da humanidade, uma evolução rápida e fantástica.  E hoje o cinema faz parte da vida de todas as pessoas pelo mundo, de diferentes formas, invade as casas, os computadores, os celulares, os espaços públicos.  As imagens estão em toda parte.  A experiência emocional do cinema permanece viva, como aquele susto da chegada do trem na estação, que os Lumière aprontaram para a primeira turma de espectadores da história.  Foi uma delícia passear pela cidade francesa, onde tudo isso teve origem.