quinta-feira, 23 de julho de 2026

A ODISSEIA

Antonio Carlos Egypto






A ODISSEIA (The Odyssey).  Estados Unidos, 2026.  Direção e roteiro: Christopher Nolan.  Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o.  172 min.

 

O britânico Christopher Nolan é hoje um dos mais destacados cineastas de Hollywood. Para além dos Batmans, vale lembrar de “Oppenheimer” (2023) e “Dunkirk” (2017), entre outros trabalhos de valor.  Agora ele valeu-se de um dos maiores poemas épicos da Grécia antiga, atribuído a Homero (ou seriam vários autores?), escritos por volta do século VII antes de Cristo, entre 850 e 750 a.c.

 

Com um orçamento de 250 milhões de dólares, segundo notícias veiculadas pela imprensa, “A Odisseia” tornou-se um dos maiores exemplos de cinema-espetáculo da história.

 

Assistindo às 3 horas de duração do filme, que absolutamente não cansam porque são repletas de histórias e sequências atraentes e até mirabolantes, ele causa grande impacto.  Eu não tive acesso à sessão IMAX, vi o filme numa boa projeção normal de cinema.  Mas não é preciso estar ligado a toda essa tecnologia para apreciar esse grande evento épico do cinema.

 

Na Odisseia de Homero está toda a concepção das aventuras em suas múltiplas expressões, apoiadas, por um lado, e em conflito, por outro, com os deuses, com criaturas míticas e fantásticas, navegando os mares amparados por Poseidon, o deus do mar.  Também numa jornada interminável em busca de comida e sobrevivência, após a guerra de Troia, encontram-se gigantes, exércitos hostis, além das batalhas domésticas em Ítaca, para onde Odisseus tenta chegar durante 10 anos, sem sucesso.  Enfim, pode-se dizer que as estruturas de todas as aventuras que conhecemos e concebemos estão retratadas nessa fantástica Odisseia.  Mais do que isso, o próprio conceito de herói está aí formado por sua bravura, determinação, resiliência, mas também por suas artimanhas.  Também vem de lá a ideia da volta ao lar, o retorno à mulher amada e ao filho querido.  Penélope é o ideal da mulher – no filme valorizado por uma presença feminina ativa.  O filho Telêmaco, o herói herdeiro, é igualmente fiel e determinado.

 


As batalhas a serem vencidas, os obstáculos que se antepõem, a missão a alcançar, a luta pela justiça, pela mudança, sem dispensar os estratagemas, disfarces e encenações que compõem a narrativa heroica.

 

Quem se propõe a encarar um clássico absoluto como esse, não há como fazê-lo sem vê-lo com os olhos de hoje.  A obra de arte reflete o momento histórico que está sendo pensado e vivido naquele período.  Acho bom que seja assim.  Fazemos a leitura do mundo de hoje a partir de seus arquétipos, dos modelos ancestrais, históricos, dos moldes que embalaram a nossa cultura, ao Ocidente e ao Oriente. O filme respeita o clássico e faz essa leitura do nosso mundo a partir dele.

 

O espetáculo do filme de Nolan é muito evidente.  Os recursos, impressionantes. O som, de arrasar. A fotografia, notável. O elenco é também muito recheado de estrelas.  Matt Damon, como Odisseu, não empolga tanto como herói, mas mostra grande dedicação ao papel.  Anne Hathaway, como Penélope, é uma figura decisiva e forte, em boa atuação.  Tom Holland, como Telêmaco, está bem, mas não é tão vibrante para o papel da importância que tem.  Zandaya está ótima, como a deusa Atena.  Ainda tem Robert Pattinson como Antinous, um vilão moderado, Elliot Page, um ator transgênero, como Sinon, Lupita Nyong’o, brilhando como Helena e Clitemnestra e Charlize Theron, como a ninfa Calypso, que manteve Odisseu por anos em sua ilha mítica Ogígia, usando seus encantos e ardis para retê-lo.  Um grande elenco, que dá suporte publicitário a essa grandiosa produção.

 

Como blockbuster, “A Odisseia” ocupa um colosso de salas de cinema por todos os shoppings, cinemas de rua e até alternativos.  Como todos esses filmes de grande lançamento internacional, ocupa espaços demais.  Sem isso, talvez nem conseguisse sequer se pagar, tão alto é o custo de sua produção.  Não costumo ser grande fã do cinema espetáculo, mas esse me agradou bastante.

 

 

  

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A DIVINA SARAH BERNHARDT

 Antonio Carlos Egypto




A DIVINA SARAH BERNHARDT (Sarah Bernhardt, La Divine). França, 2024.  Direção: Guillaume Nicloux.  Elenco: Sandrine Kiberlain, Laurent Lafitte, Amira Casar, Pauline Étienne.  98 min. 

 

Sarah Bernhardt (1844-1923), francesa, considerada a atriz mais importante da história do teatro mundial, é também a primeira celebridade global.  Claro que não estou usando o conceito atual de celebridade, que desconsidera o mérito, o talento, focando-se na simples exposição midiática.  Aqui sobra talento e importância artística.  Mas Sarah sabia vender seu trabalho, procurava ser reconhecida e aplaudida em todas as partes do mundo, viajando sem cessar, buscando valorização e reconhecimento, consciente de seus próprios méritos. Até mesmo se autoelogiando quando falava de si.  Tinha um leque amplíssimo de contatos, como Alexandre Dumas, Victor Hugo, Émile Zola, Sigmund Freud, entre eles.

 

“A Divina Sarah Bernhardt” é um drama biográfico que explora o perfil dessa mulher-artista icônica, a partir do reconhecimento de seu brilho, muito bem ressaltado pela performance notável da atriz Sandrine Kiberlain.

 

O filme destaca passagens fundamentais da vida dessa lenda do teatro, que mostra uma mulher muito à frente de seu tempo, vivendo e defendendo a liberdade de pensamento e o amor livre, por exemplo.

 


Dá ênfase à trágica amputação da perna direita, em 1915, como consequência de uma queda no Rio de Janeiro, durante a ópera “Tosca”, em 1905.  Aliás, o filme começa por aí.

 

Focaliza os eventos que envolveram o Jubileu de 1896, em homenagem à artista, em Paris.  Outro ponto de relevância é o relacionamento amoroso com o ator Lucien Guiltry, que mexia com Sarah de forma total e absoluta. Ela era intensa emocionalmente em tudo o que fazia.  Até na rispidez com que, por vezes, tratava colaboradores ou em seus laivos autoritários.

 

Amarrando esses momentos cruciais da vida e da carreira de Sarah Bernhardt, o filme consegue passar um clima de grandiosidade, que faz jus à figura da grande atriz do  século XIX e do começo do XX.  O pioneirismo dela aparece por todo canto.  Numa cena, uma mulher, fã da atriz, pede para que ela escreva e assine o próprio nome, para guardar como lembrança.  O que surpreende Sarah Bernhardt.  Estava criado o autógrafo, símbolo do reconhecimento do artista por seus admiradores. 

 

Do ponto de vista cinematográfico, “A Divina Sarah Bernhardt” não inova em nada.  É uma boa realização de caráter acadêmico.  Que, entretanto, alcança seus objetivos em termos de comunicação, espetáculo e entretenimento.




quinta-feira, 9 de julho de 2026

PRIMAVERA

Antonio Carlos Egypto

   




PRIMAVERA.  Itália, 2025.  Direção: Damiano Michieletto.  Elenco: Tecla Insolia, Michele Riondino, Andrea Pennacchi, Fabrizia Sacchi, Valentina Bellè, Stefano Accorsi.  110 min.

 

“Primavera”, de Vivaldi, é, talvez, o ponto alto de sua obra clássica barroca: As Quatro Estações.  É também o título do filme italiano, dirigido por Damiano Michieletto (famoso diretor de óperas) e a música que nos acompanha ao deixarmos o cinema satisfeitos com o que vimos.

 

De fato, o filme é bonito, bem realizado, rescende a música por todos os poros, além de contar uma história interessante, baseada no romance de Tiziano Scarpa, “Stabat Mater”, de 2008. 

 

É um filme sobre o padre Antônio Vivaldi (1678-1741), papel de Michele Riondino, e seu trabalho como violinista, compositor e regente, durante décadas no Ospedale della Pietàfundado em Veneza em 1346 e que existe até hoje.  Trata-se de um convento/orfanato, dedicado a meninas abandonadas, que procurava desenvolver o talento musical delas, estimulando o estudo de instrumentos e de canto.  Lá Vivaldi trabalhou por um tempo e voltou mais tarde, produzindo uma obra não só maravilhosa como profícua.  Charles de Brosse, em 1739, diz: “Vi-o gabando-se de escrever um concerto mais rápido do que o copista poderia transcrever”. 

 


Bem, mas o filme “Primavera” não é apenas sobre a trajetória de Vivaldi.   Na verdade, o foco está na personagem Cecília (Tacla Insolia), órfã em que Vivaldi encontrou grande talento para o violino.  Cecília, para além do interesse pela música, aspirava sair daquele ambiente em que estava, na prática, em clausura.  Até nas exibições musicais, o conjunto tocava atrás de uma barreira.

 

Seu destino já estava traçado: um casamento de conveniência para o convento, interessado na grande soma de dinheiro que ele traria para a instituição.  O que era, aliás, uma prática comum.  Isso punha em confronto o empenho de Vivaldi em desenvolver Cecília para a música, mas o filme mostra a figura do padre compositor como alguém sem coragem para se opor às regras e à força do poder do dinheiro. 


“Primavera” acaba significando, nesse caso, a busca da liberdade, tão desejada por Cecília.  E a dificuldade de alcançar isso naquela época e naquele ambiente religioso.  A música expressa esse sentimento também, além da alegoria com a estação mais florida e festiva do ano.

 

Os protagonistas Tecla Insolia e Michele Riondino, assim como todo o elenco de apoio, com destaque para Stefano Accorsi, nos colocam naquele mundo e naquele período histórico de forma muito convincente, respaldados pela direção de arte, locações, figurinos.  É daqueles espetáculos que nos transportam para uma outra realidade.  O que o cinema consegue fazer e que encanta gerações, desde o final do século XIX.

 

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

FRANZ

Antonio Carlos Egypto

 

 


FRANZ (Franz).  República Tcheca/Polônia, 2025.  Direção: Agnieszka Holland.  Elenco: Idan Weiss, Peter Kurth, Jenovéfa Boková, Ivan Trojan, Katharina Stark.  127 min.

 

Fazer uma cinebiografia de uma figura tão extraordinária e complexa como o escritor Franz Kafka (1883-1924) é uma tarefa desafiadora.  É preciso encontrar um caminho viável que possa dar conta das muitas facetas de um personagem estranho, contraditório e, claro, genial.  Trabalhar a obra literária e a figura humana em suas relações com a realidade, o mundo, a guerra (a Primeira Guerra Mundial, no caso), o amor e a vida.

 

Quem encarou esse fantástico desafio foi a grande cineasta polonesa Agnieszka Holland.  E o caminho que ela trilhou foi, segundo a sinopse divulgada para o lançamento do filme, o mosaico caleidoscópico.  O pôster adotado para o lançamento enfatiza isso ao mostrar o rosto do ator Idan Weiss, que encarna Franz Kafka, dividido em pedaços que se deslocam para um lado e para o outro para manter a unidade.  De fato, o filme vai acoplando tudo o que diz respeito ao escritor, sem ordená-lo nem temporalmente, nem didaticamente.

 

O filme junta pedaços, mistura situações diversas, desde infância, juventude, vida adulta, atividade profissional rotineira, como funcionário público, e o escritor compulsivo que escrevia mais por necessidade do que para se comunicar. 

 

“Franz”, tratado aqui com intimidade, para ressaltar o lado pessoal, amava as palavras, via nelas a razão de ser de tudo, cultivava, com desespero até, o silêncio.  Aquele silêncio que lhe foi negado em família, marcado principalmente pelos gritos e imposições do pai.  O isolamento era algo que ele valorizava, buscava.  A impaciência e a indiferença estão na origem de todos os males segundo ele.

 


É impossível falar de Kafka sem se reportar ao que ele significa no mundo de hoje.  Ele queria destruir toda sua obra e pediu isso a um amigo, às vésperas da morte.  Felizmente, isso não aconteceu e até suas preciosas cartas sobreviveram, para nosso deleite.  Mas ele também virou mito e sua vida é esquadrinhada e sorvida com grande apelo turístico na belíssima cidade de Praga.  A diretora incorporou esse material documental à trama, misturando-o com as lembranças, fatos passados encenados como ficção, em várias etapas de sua vida, sem perder de vista a obra literária.  Suas frases, ideias, citações, estão integradas à narrativa e bastante valorizadas.

 

Ou seja, o caleidoscópio funciona.  Incorpora e mescla um monte de coisas de Franz e do Kafka, amalgamando tudo de um modo artisticamente muito bem realizado e consistente.

 

O problema é que não é fácil juntar e elaborar tudo isso e o espectador pode ter alguma dificuldade para acompanhar a biografia, se não tiver as informações básicas necessárias sobre a vida e a obra de Franz Kafka.  O desafio a quem for ver o filme é pesquisar, informar-se um pouco, antes e depois de vê-lo.  Quem vir com atenção, vai desejar fazer isso depois, vai ser estimulado a isso.  E mais: a ler e conhecer melhor a obra literária instigante e maravilhosa do autor de "A Metamorfose”, “O Processo”, “O Castelo”, “Carta ao Pai”, “Cartas a Milena” e outros trabalhos, que estão entre o que há de melhor na literatura do século XX.

 

Para quem não se lembra da obra cinematográfica de Agnieszka Holland, eu destacaria pelo menos dois belos filmes: “Filhos da Guerra”, de 1990, e “Zona de Exclusão”, de 2023.




sexta-feira, 26 de junho de 2026

O CONVITE

         


 Antonio Carlos Egypto

 

 

O CONVITE (The Invite).  Estados Unidos, 2026.  Direção: Olivia Wilde.  Elenco: Olivia Wilde, Seth Rogen, Penélope Cruz, Edward Norton.  107 min.

 

A produção estadunidense “O Convite” aposta no inesperado, no choque que conversas cínicas, desinibidas e sem censura, podem causar.  Para isso, mescla comédia, drama com muita ironia e acaba por produzir uma suposta sessão de psicoterapia.  Qual o objetivo disso?  Ir do mais formal e engessado até a mais ampla demonstração de intimidade numa relação social fortuita.  Há muitos exageros nesse caminho, mas a rota é boa.  Pelo menos, instigante.

 

Tudo já começa de forma surpreendente.  Vemos uma mulher que já se preparou para receber seus vizinhos de apartamento do andar de cima, quando seu marido chega e aparentemente nada sabe sobre isso.  Na verdade, o casal está incomodado com esses vizinhos, por conta do barulho, do alvoroço que eles promovem madrugadas adentro, por uma prática sexual exibicionista, expressa por orgasmos explicitados sonoramente.

 

Trata-se, portanto, de um encontro estranho, que pretende o quê?  Discutir e resolver tal questão, aproximar os vizinhos, produzir camaradagem?  E os convidados por que aceitaram?  O que podem querer com eles?  Haverá um convite no ar, que justifica o título do filme.

 

Pois bem, mas essa comédia que vira drama psicológico vai procurando nos surpreender a cada instante.  Viradas comportamentais são frequentes.  O imprevisível está sempre lá.  O que nem por isso torna a comédia hilária ou empolgante.  Mas os elementos escondidos, as tensões acumuladas, os desentendidos vão aparecendo e mudando o clima. 

 


A comunicação evolui em diferentes sentidos, a intimidade torna-se o centro do encontro.  As frustrações aparecem.  A ansiedade se manifesta.  E o “modernismo” dos convidados se dissolve em algo mais humano.

 

Até então, a comédia se baseava em bobagens, como uma cuidadosa mesa preparada para alguém que não consome carne, glúten, açúcar, etc..  Ou de um marido que não comprou o esperado vinho porque nem se deu conta do que estava acontecendo, nem queria que acontecesse. 

 

Nem por isso o que vem depois, mais próximo da realidade psíquica das pessoas, alcança níveis bergmanianos de profundidade.  É querer demais, eu sei.  Também não se compara a um filme com um ponto de partida semelhante, como “Deus da Carnificina”, de Roman Polanski, de 2011.  Em todo caso, a tentativa vale.

 

A diretora Olivia Wilde, também atriz no filme, é ousada na temática, na linguagem, nos diálogos e na atuação.  Mérito indiscutível.  O elenco que ela reuniu em torno de si, maravilhoso.  Seth Rogen, em muito bom desempenho, e as estrelas Penélope Cruz, como sempre radiante na tela, e Edward Norton, com seu charme e talento, são uma grande atração do filme.




quarta-feira, 17 de junho de 2026

INFÂNCIA NO CINEMA

 

  Antonio Carlos Egypto

 

 

O BOLO DO PRESIDENTE (Mamlaket Al-Qasab).  Iraque, 2025.  Direção: Hasan Hadi.  Elenco: Baneen Ahmed Nayef, Sajad Mohamad Qasen, Waheed Thabet Khreibat, Rahin AlHaj.  102 min.

 

O Bolo do Presidente

UMA INFÂNCIA ALEMÃ (Umrum).  Alemanha, 2025.  Direção: Fatih Akin.  Elenco: Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Detlev Buk, Luisa Hagmeister, Diane Kruger.  93 min.

 

Uma Infância Alemã

Dois filmes recentes, para adultos, com questões sérias, importantes, que envolvem aspectos políticos, sociais e econômicos são protagonizados por crianças, atores mirins.  Um deles já está em cartaz nos cinemas e passou na 49ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo: “O Bolo do Presidente”, do Iraque, dirigido por Hasan Hadi, tem a atriz Baneen Ahmed Nayef, no papel de Lamia, de 9 anos de idade.  O outro filme, que entra em cartaz ainda neste mês de junho de 2026, é “Uma Infância Alemã”, produção alemã, dirigida por Fatih Akin, protagonizada por Jasper Billerbeck, que interpreta o menino Nanning, de 12 anos de idade.

 

Nos dois casos, os filmes giram em torno da criança protagonista, que é quem conduz a trama onde a história se desenvolve.  Claro que, entre um filme que se situa na Alemanha, nos dias finais da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e outro, que se situa no Iraque, nos anos 1990, há diferenças evidentes.  Porém, eles têm inúmeros pontos em comum.

 

Ambos se passam em locais dominados por regimes políticos autoritários, ditatoriais.  De um lado, Adolf Hitler, de outro, Sadam Hussein.  Ambos impõem seus valores de forma arbitrária, que não permite contestações e exigem sacrifícios de seu povo.

 

É por conta disso que Lamia, sorteada na escola por um professor, fica obrigada a fazer o bolo de aniversário do presidente e que a escola está também obrigada a festejar a data.  Assim, Lamia busca desesperadamente os ingredientes para fazer o bolo.  E por que isso é difícil?  Pela penúria da situação do Iraque e do eminente declínio de Hussein, que precisa das festas de aniversários recorrentes para encobrir o que não lhe interessa resolver, além de envolver o povo no assunto.  O filme se centra especialmente nessa luta insana de Lamia para cumprir essa obrigação absurda, nesse contexto social e político decadente.  Faltam os ingredientes, os preços são inalcançáveis para ela e sua família.  Há coisas que demandam muito trabalho para conseguir ou exigem uma tal criatividade para ser alcançada no tempo necessário que parece impossível a uma criança.  Mas ela nunca desiste.

 

Enquanto isso, Nanning, o garoto que vive na ilha de Umrum, na Alemanha, que vai perdendo a guerra, luta incessantemente para prover comida a sua família.  Preocupado especialmente com a mãe, que amargura a queda de Hitler e não quer comer nada a não ser pão branco, com manteiga e mel.  Uma exigência quase impossível naquela situação de absoluta carência e privação a que estavam submetidos.  Conseguir os ingredientes para esse lanche aparentemente frugal é uma batalha muito custosa, quase impossível.  Farinha de trigo não existe há tempos o açúcar, o mel e a manteiga, racionados.  Mas ele se sente obrigado a atender à necessidade materna a qualquer custo e não desiste, enquanto tenta por seus parcos meios entender a guerra e os conflitos que atingem sua pequena comunidade.

 

Impossível assistir a um filme sem lembrar do outro, pela similaridade da situação que sustenta a história.  E também pelos atores mirins que os protagonizam.  Ambos muito verdadeiros nos seus desempenhos.  Sem excessos, muito bem trabalhados.  Eu vi agora “Uma Infância Alemã” e tinha visto “O Bolo do Presidente” em outubro passado (não o revi agora).  Mas as tramas são mesmo muito similares, nem o tempo decorrido me fez deixar de notar isso.

 

Não é um demérito para nenhum dos filmes, que têm outros aspectos a destacar também.  Por exemplo, “O Bolo do Presidente” nos mostra o Iraque visto de dentro, pelos artistas do país, o que diferencia a visão que temos do contexto opressivo interno.  E nos acrescenta informações complementares importantes.

 

“Uma Infância Alemã” tem uma pegada mais artística, sequências cuidadosamente concebidas, ainda que nem sempre compondo um todo orgânico, mas muito bonitas de se apreciar.  Conta com uma fotografia reluzente e bela. 

 

Se as histórias são parecidas, a forma de contá-las é diferente.  Vale conferir.

 

 

 

sábado, 30 de maio de 2026

NOVO ALMODÓVAR

 Antonio Carlos Egypto




NATAL AMARGO (Amarga Navidad).  Espanha, 2026.  Escrito e dirigido por Pedro Almodóvar.  Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbragalia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Rossy de Palma.  111 min.

 

Quando chega ao circuito um novo filme de Pedro Almodóvar, quem gosta de cinema corre para ver.  Não é para menos.  Ele é hoje um dos mais criativos e luminosos cineastas do nosso tempo.  Um tremendo contador de histórias, que brotam por todo lado, a ponto de ele usar uma dentro da outra, uma comentando outra, ou simplesmente, pondo os personagens a contar outras histórias dentro do filme.

 

Isso vem ao caso porque em “Natal Amargo” trata-se mesmo de duas histórias paralelas, em que uma pode estar dentro da outra, ou sendo contada por uma personagem da outra.  Mas há ainda uma terceira história: um cineasta com bloqueio criativo (outro tema que Almodóvar gosta de explorar) escrevendo sobre elas e se baseando na própria experiência com uma das supostas personagens.

 

Enquanto o filme se desenrola, percebemos que as histórias não estão bem contadas, há lapsos, personagens que aparecem tarde, enquanto um outro praticamente some.  Enfim, a impressão é de que a coisa não estava bem.  E realmente não estava bem.  Por que?  Porque o que estávamos assistindo era a construção de um roteiro que estava sendo feito pelo cineasta em crise.  Genial, não é?  Ver um roteiro, uma trama, se desenvolver enquanto está sendo escrita. 

 

Como sempre, o cinema de Almodóvar está metalinguisticamente dentro do seu cinema.  Além da ficção que se nutre, inevitavelmente, de realidade, de parte dela, ou em que as coisas se confundem.  Isso está acontecendo, está sendo filmado, ou está sendo imaginado, sonhado?  Na verdade, tudo é cinema da mesma forma.

 


No entanto, a questão ética é muito importante.  É possível transformar os momentos mais íntimos da vida de alguém em personagem identificável?  Isso está no centro do conflito, seja por intencionalidade ou, mesmo, por caminhos inconscientes.  E, óbvio, tem de ser discutido.

 

Em algum momento, aparece o chamado cinema cult, definido como aquele que não alcançou o interesse do público, fracassou, mas continuou sendo curtido por um grupo menor de espectadores.  Se alguém consegue ao menos ser cult, por que iria para a publicidade?  Por dinheiro, ora.  Por que mais?  

 

Um sempre caprichoso cenário, cultivado em detalhes, e um elenco afiadíssimo garantem o espetáculo, tanto pelo lado do drama quanto pelo lado do riso.  E sem música marcante o cinema de Almodóvar não ficaria completo.  Aqui, até mesmo uma única música pode mudar o rumo de um personagem.

 

Há sempre tanto o que ver, o que curtir, em cada filme de Pedro Almodóvar.  Vá ver.  Se você gosta de coisas inteligentes e provocadoras feitas com talento, você não vai se arrepender.