sábado, 23 de julho de 2016

MÃE SÓ HÁ UMA


Antonio Carlos Egypto




MÃE SÓ HÁ UMA.  Brasil, 2015.  Direção e roteiro: Anna Muylaert.  Com Naomi Nero, Matheus Nachtergaele, Dani Nefussi, Daniel Botelho, Laís Dias, Luciana Paes, Helena Albergaria.  82 min.



Após o êxito do filme “Que Horas Ela Volta?”, em 2015, Anna Muylaert nos apresenta um novo e bem estruturado trabalho.  E que, mais uma vez, mergulha no universo familiar e o conecta com o contexto social. 

O ponto de partida que serviu de livre inspiração para o filme “Mãe Só Há Uma”, é uma história muito conhecida e divulgada: o caso real do menino Pedrinho, amplamente noticiado e que emocionou o público, em 2002.  Para quem não se lembra, ele havia sido roubado na maternidade, em Brasília, foi educado e amado pela mulher que praticou o sequestro.  Vivia com ela, o marido e uma outra filha, que também se soube ter sido igualmente roubada.  No entanto, a família biológica de Pedrinho continuou à sua procura e acabou encontrando-o, já adolescente, dezesseis anos depois.  Foi uma mudança brusca de vida para todos os envolvidos, porém, tudo aparentemente acabou se encaixando.  A mulher que cometeu o crime foi condenada e presa.




Contar essa história já seria bastante emocionante para um filme.  E seria sempre possível acrescentar ingredientes, questionamentos, incertezas.  Ou apelar para o sentimentalismo, com vistas a levar as plateias ao choro. O filme de Anna Muylaert avança muito mais.  Cria uma ficção que une esse fato gerador à questão da identidade, da aceitação e do convívio com a diversidade, envolvendo os preconceitos que perpassam pelo tecido social, em momento de extrema fragilidade afetiva para os personagens centrais da trama.

Reencontrar e redescobrir um filho perdido só aos 17 anos de idade, após a busca de uma vida, por meio de um exame de DNA, decorrente de uma denúncia anônima, já tem uma dimensão fantástica e desafiadora. Um jovem em pleno processo de afirmação de características de personalidade, desejos e buscas, mudar de nome, de família, de casa e de escola é algo tão mobilizador quanto assustador.  Que pode produzir muito sofrimento e respostas surpreendentes.  Assim como poderia significar uma descoberta gratificante, quem sabe até uma aventura empolgante da juventude.  As possibilidades são imensas.  E imprevisíveis.




O roteiro que Anna Muylaert elaborou para “Mãe Só Há Uma” exacerbou o conflito da situação, trazendo elementos inesperados, como a perspectiva de gênero que o garoto resolve radicalizar justamente quando seu mundo vira de cabeça para baixo.  Para os pais que esperaram por tantos anos pelo filho tão desejado e buscado, como será conviver com um adolescente que eles desconhecem e que gosta de usar vestidos e pintar unhas, por exemplo?

A forma como essas questões se articulam na trama do filme é muito inteligente e mexe com os espectadores.  O final é precioso: o afeto e a aceitação podem vir de onde menos se espera.

O papel complicado desse personagem adolescente às voltas com seus conflitos internos e sua relação com duas histórias, duas famílias, o preconceito e a rejeição social, coube ao jovem ator Naomi Nero.  Ele se entrega ao personagem e convence.




Dani Nefussi vive muito bem o papel duplo das mães Glória e Aracy, enquanto Matheus Nachtergaele interpreta o pai, com elementos de machismo, de preconceito e de opressão, ao mesmo tempo que de insegurança, de impotência e até de subserviência.  Ele é um ator que consegue transitar por universos de personagens e situações muito diversos, sempre com grande habilidade.

Não só esses protagonistas, como todo o elenco, estão muito bem, valorizando em cada personagem essa narrativa tão propícia à reflexão, em um exemplo de grande qualidade do cinema brasileiro atual.

  

quarta-feira, 20 de julho de 2016

UM DIA PERFEITO


Antonio Carlos Egypto




UM DIA PERFEITO (A Perfect Day).  Espanha, 2015.  Direção: Fernando Léon de Aranda.  Com Benício Del Toro, Tim Robbins, Olga Kurylenko, Mélanie Thierry.  96 min.



“Um Dia Perfeito” é um filme espanhol, falado em inglês e nas línguas locais do conflito que aborda, baseado no romance Dejarse Llover, de Paula Farias, escritora, médica humanitária, ex- presidente da Ong Médicos Sem Fronteiras.

O argumento enfoca agentes humanitários de resgate, atuando na guerra dos Bálcãs, 1995.  Esses agentes têm por missão salvar vidas, resolver questões humanitárias, em meio aos conflitos da guerra.  São pessoas dedicadas, persistentes, que têm de enfrentar burocracias paralisantes, assistir à inoperância da ONU na região e manter o humor, em meio a circunstâncias trágicas.




Como diz o diretor Aranda, “Salvar vidas não é um ato heróico em si.  O heroísmo vem da persistência”.  O que explica que os personagens retratados no filme sejam figuras absolutamente corriqueiras, mas colocadas num contexto exasperante e que assim se aguentam e sobrevivem de ajudar os outros.

A região conflagrada já está em procedimentos de paz, mas tudo está muito confuso por lá.  Um defunto foi arremessado no único poço que abastece uma região, para contaminar a água que serve à população local.  Para tirar esse corpo de lá, será preciso obter uma corda, o que pode não ser uma tarefa simples.  Há as minas colocadas nas estradas, ao lado de vacas que bloqueiam a passagem.  E há, é claro, uma burocracia ilógica e incompreensível.  Como é toda burocracia, diga-se de passagem. 



Um bom assunto para uma comédia ácida, que se vale da ironia e da farsa para nos revelar, uma vez mais, os absurdos das guerras e dos mecanismos internacionais de controle a elas associados.

Um elenco de atores e atrizes de peso consegue dar o tom apropriado a essa história, que é cômica porque também é trágica.  Benício Del Toro e Tim Robbins, em ótimos desempenhos, nos colocam no fulcro da questão, olhando para o poço contaminado, levando um menino em busca de uma bola, percebendo que as cordas muitas vezes estão ocupadas pelos enforcados.  A atriz ucraniana Olga Kurylenko e a francesa Mélanie Thierry são os destaques femininos.  Muito convincentes.  O filme foi exibido na Quinzena dos Realizadores, em Cannes 2015, e venceu o Prêmio Goya, o Oscar espanhol, de melhor roteiro adaptado.



sábado, 9 de julho de 2016

JULIETA

  
Antonio Carlos Egypto




JULIETA (Julieta).  Espanha, 2016.  Direção e roteiro: Pedro Almodóvar.  Com Adriana Ugarte, Emma Suárez, Rossy de Palma, Daniel Grao, Imma Cuesta, Darío Grandinetti.  99 min.


O cineasta espanhol Pedro Almodóvar é um autor cinematográfico que tem um universo próprio, a marca registrada que o identifica junto ao público e à crítica.  Isso gera expectativas específicas e uma avaliação que, necessariamente, remete ao conjunto da obra.  Não importa tanto saber se o filme é bom ou não, mas se ele corresponde ao estilo almodovariano de filmar, se se pode reconhecer o diretor no trabalho apresentado.  Lembra um pouco a obsessão por encontrar a figura de Hitchcock em cada filme dele, já que ele fazia aparições rápidas em todos eles.

“Julieta”, o novo filme de Almodóvar, é uma produção muito bem cuidada, com excelente elenco, e que conta uma história com muita competência.  Seria um filme típico do diretor?  Seu estilo característico está lá?  Penso que sim, mas com restrições. 




Para começar, temos o mergulho no universo feminino.  As mulheres sempre foram os melhores personagens almodovarianos, extravasam seus conflitos e sua complexidade emocional, mantendo uma aura misteriosa e algo inacessível.  “Julieta” é um filme feminino até a medula.  A questão da maternidade com a perda e o distanciamento dos filhos, ou filhas, ocupa o centro da narrativa.  Tem também o não-dito, o não-trabalhado, a culpa, elementos que complicam ou inviabilizam as relações.

Estamos no terreno do melodrama, em que Almodóvar se move com absoluta naturalidade e com tranquilidade.  O drama é forte e complexo, como costuma ser nos filmes dele.  O que falta aqui é aquela boa dose de humor que nos faria apaixonar pelos personagens.  O distanciamento é maior e o estranhamento, menor.




Sim, faltam figuras claramente deslocadas, apartadas da sociedade.  Aquilo que os norte-americanos costumam caracterizar como loosers.  Não que não haja perdas – e muito fortes – em “Julieta”, mas elas se dão no campo da chamada normalidade, ou próximo dela.

Aqui, o trabalho de Pedro Almodóvar se faz a partir da adaptação de três contos da escritora canadense Alice Munro, não é como na maioria dos casos, em seus filmes, um roteiro original.  No entanto, o cineasta transforma os textos que adapta em situações almodovarianas com facilidade, como fez em “Carne Trêmula”, de 1977, e “A Pele que Habito”, de 2011.  Em “Julieta”, foi mais discreto, talvez mais fiel aos textos originais, não sei.

As cores fortes, berrantes, exageradas, que costumam marcar os filmes de Almodóvar, estão presentes, embora um pouco mais discretas.  Os elementos de cena, objetos, decoração, vestuário, estão mais contidos em “Julieta”.  De modo geral, as extravagâncias são bem menores do que de costume.  Talvez porque a sexualidade, que é seu tema permanente e recorrente, aqui se concentre na maternidade e na dor. 




Há que se destacar, ainda, que os conflitos são cercados por mistérios nunca claramente explicitados.  São mais sugeridos ou mencionados do que mostrados, como é o caso das amigas inseparáveis e do retiro espiritual que fanatizou Antía, a filha de Julieta, e transformou a vida dela e de todos à sua volta.  Há uma enormidade de coisas que ocorrem num trem em movimento, figuras que se movem fora dele, como um cervo e um homem.  Há a pesca e o mar, que são paisagem, morte e culpa. 

“Julieta” é um filme menos transgressor do que a maioria da produção almodovariana.  Nesse sentido, pode frustrar expectativas dos admiradores habituais do cineasta, que são muitos.  Mas admiradores, críticos ou detratores de Almodóvar, terão que reconhecer que, para além das expectativas, “Julieta” é um belo filme.



quarta-feira, 6 de julho de 2016

OS CAMPOS VOLTARÃO


Antonio Carlos Egypto




OS CAMPOS VOLTARÃO (Torneranno i Prati).  Itália, 2014.  Direção e roteiro: Ermanno Olmi.  Com Claudio Santamaria, Alessandro Sperduti, Francesco Formichetti, Andrea di Maria.  80 min.



Como lembrar as sangrentas batalhas que marcaram a Primeira Guerra Mundial, agora que se rememora o centenário daquela carnificina?  Para o veterano diretor italiano Ermanno Olmi não foi difícil.  Seu pai lutou na Primeira Guerra e lhe contava muitas histórias que viveu no front.  Essas histórias deixaram marcas na juventude de Olmi e solidificaram nele um espírito humanista, antibélico.

A melhor forma de abordar o absurdo dessa guerra no cinema, para um diretor cunhado pela tradição neorrealista, era, naturalmente, recorrer a essas narrativas paternas, trazendo o cotidiano infernal do front de batalha em situações diversas, concentradas num único set e num único dia.  Valeu-se o tempo todo dessas histórias reais, vividas ou presenciadas, narradas pelo pai.




Estamos em 1917, acompanhando um grupo de soldados italianos no front de batalha, em Altipiano, nordeste da Itália. Eles estão em um bunker, cercados por nevascas e pelo exército austríaco, que procura dominá-los.  Mas, no início do filme, há espaço para apreciar a beleza dos campos cobertos de neve e até a beleza do canto de um dos soldados italianos que, com sua música, chega até os contendores da guerra, que o aplaudem e pedem mais.

O decorrer da experiência trará imagens, situações e sentimentos muito menos edificantes: o medo, a saudade da família, a fome, o convívio com os ratos, as doenças, os bombardeios, exibidos com minucioso realismo e despojamento, em longos planos-sequência não deixam margem a dúvida sobre a insensatez das guerras.  E o caráter infra-humano, anti-humano, que é sua marca registrada.




Em econômicos 80 minutos, o filme diz tudo o que tem a dizer, sem pregar absolutamente nada.  É pura observação, informação visual, reflexão sobre as pequenas ações e comportamentos de vida na guerra.  Para isso, se vale de uma fotografia deslumbrante e de um cenário que cria um ambiente claustrofóbico e opressivo, sem que haja dominadores ou opressores.  É a própria guerra que os oprime.

Um filme espetacular, de inegável beleza artística.  Eu diria que é a terceira obra-prima desse diretor, de quem se conhece pouca coisa, mas o que aqui chegou é primoroso.  “A Árvore dos Tamancos”, de 1978, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, com todos os méritos.  “A Lenda do Santo Beberrão”, de 1988, levou o Leão de Ouro em Veneza e é outra maravilha.  Com “Os Campos Voltarão”, Ermanno Olmi apenas reforça e reafirma essa capacidade de produzir coisas deslumbrantes sem qualquer afetação ou ornamentação.



Para quem nasceu em 1931 e começou a dirigir desde o final dos anos 1950, Olmi até que fez pouco cinema, mas sua contribuição para ele é admirável e não poderá ser esquecida.  E que fôlego teve para realizar esse filme tão sofisticado na sua simplicidade, aos 83 anos de idade.  Muito bonito.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

BIG JATO

Antonio Carlos Egypto





BIG JATO. Brasil, 2015.  Direção: Cláudio de Assis.  Com Matheus Nachtergaele, Marcélia Cartaxo, Rafael Nicácio, Jards Macalé.  92 min.



É possível fazer poesia da merda?  As palavras do romance de Xico Sá, com roteiro de Anna Carolina Francisco e Hilton Lacerda, os planos do cineasta Cláudio de Assis, aliada à fotografia de Marcelo Durst, conseguem essa proeza.

“Big Jato”, o filme de Cláudio de Assis baseado no livro de Xico Sá, põe em evidência um limpa-fossas de uma cidade sem saneamento básico, que é o ganha-pão de Francisco (Matheus Nachtergaele), um homem rude, austero, trabalhador, que literalmente vive da merda dos outros.  Xico (Rafael Nicácio), um garoto vivendo a adolescência, acompanha o pai Francisco no caminhão limpa-fossa e se sente identificado com aquele mundo.




Também se sente atraído pelo mundo um tanto delirante do tio Nelson, artista, libertário, anarquista, que evita o trabalho pesado e se dedica a um programa musical em rádio local, papel também de Matheus Nachtergaele.  Seu irmão Francisco considera que ficar numa salinha com ar condicionado não é trabalhar.

A poesia é a verdadeira vocação de Xico, como se pode ver na relação que ele mantém com o Príncipe, papel de Jards Macalé.  O tio Nelson é capaz de ver isso, ajudar e estimular Xico a sair daquele fim de mundo, onde ele próprio se afundou.  Ou se fossilizou, como os peixes que teriam dado origem à cidade, que um dia foi mar.

Se Xico Sá criou um romance de caráter autobiográfico, dando margem a uma ficção maluca, como ele mesmo diz, Cláudio de Assis ampliou o delírio.  O Cariri cearense da década de 1970 virou a cidade fictícia de Peixe de Pedra dos dias atuais, o que permitiu ao diretor criar imagens fantasiosas e etéreas lado a lado com o ambiente hiperrealista do povoado, sua gente, sua labuta.  Coisas que se petrificam, se fossilizam, sonhos delirantes com mulheres exuberantes, fantasiosos  inspiradores dos Beatles e coisas quetais convivem em harmonia com estradas de terra, buracos, sujeira, pobreza e demais carências.  Um amálgama bastante interessante e poético.  A locação na Chapada do Araripe, entre os Estados de Ceará e Pernambuco, traz beleza e poesia adicionais à trama.




As histórias de Xico Sá têm a ver com sua própria experiência, pelo menos como ponto de partida.  São datadas, naturalmente.  Trazê-las para o mundo atual gera alguns anacronismos.  Coisas ficam fora de lugar, apesar do esforço de adaptá-las, como o encanto da máquina portátil de escrever, que seria mais romântica do que o computador.  O smartphone da menina que veio da cidade grande não pega lá, se torna uma máquina fotográfica de luxo, que em nada combina com aquele ambiente.  Uma cidade sem saneamento, sem banheiros, infelizmente, é um anacronismo cruel que ainda faz parte da nossa realidade, a um só tempo de modernidade tecnológica e de atraso dos mais primitivos.  A mescla de elementos de diferentes tempos tem o sentido simbólico de revelar essa mistura estranha, que é um dos nossos espelhos.  Mas também produz um ruído na comunicação de ideias e imagens.




Matheus Nachtergaele, um dos maiores atores da atualidade, carrega o filme e esbanja talento no desempenho duplo, do pai e do tio de Xico, personalidades muito diversas e em conflito, vivendo realidades distintas e distantes, no mesmo espaço geográfico.  Marcélia Cartaxo faz a mãe de Xico, outro grande desempenho que fortalece o filme.  O jovem Rafael Nicácio faz bem o importante papel que lhe coube, mas tem uma dificuldade na dicção, que compromete a compreensão de diversas falas dele nas cenas.  O músico e compositor Jards Macalé faz um papel que lhe cabe como uma luva, pairando sobre a narrativa. “Big Jato” recebeu diversos prêmios no último Festival de Brasília, os de ator, atriz, roteiro adaptado e trilha sonora.


domingo, 26 de junho de 2016

VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES


Antonio Carlos Egypto




VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES.  Portugal, 1982.  Direção: Manoel de Oliveira. Documentário.  68 min.


Foi um verdadeiro presente o que nos deu a 39ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, quando Renata de Almeida anunciou a exibição de um filme inédito do mestre português do cinema, Manoel de Oliveira. E que agora chega aos cinemas de um pequeno circuito de salas alternativas. Em São Paulo ao Cinesesc.

A história é a seguinte: em 1982, Manoel de Oliveira chegava aos 74 anos de idade e realizou um filme documental sobre uma casa em que ele morou por muitos anos, 40, creio, e sobre a sua própria vida e história.  Talvez imaginando que já era mesmo hora de fazer isso.  Mas deixou o filme guardado na Cinemateca portuguesa, para só ser exibido após a sua morte.  E assim se fez.

Ocorre que ele só veio a falecer em 2015, aos 106 anos de idade, e trabalhou até o fim da vida mesmo.  Seu último trabalho, “O Velho do Restelo”, é um curta-metragem realizado em 2014.  Seu último grande filme, o brilhante longa “O Gebo e a Sombra”, em 2012.  Ou seja, o filme póstumo do diretor, “Visita ou Memórias e Confissões”, ficou guardado por inacreditáveis 33 anos.  E, se ele já havia feito muita coisa até então, a verdade é que a maior parte da sua grande obra é posterior ao filme.  Foi quando ele trabalhou mais, melhor, mais intensamente, e nos legou filmes inesquecíveis.




É preciso ver “Visita ou Memórias e Confissões” sabendo dessas coisas, para se perceber a importância que ele tem como registro de um trabalho in progress, poderíamos dizer, em relação ao conjunto da obra.

Na abertura do filme, Manoel de Oliveira põe a informação de que fez esse trabalho falando de si mesmo e não sabe se deveria tê-lo feito.  Mas, enfim, está feito.  Que bom, Manoel!  Assim pudemos ter registrada a sua fala sobre aspectos importantes da sua vida pessoal, familiar, problemas econômicos que o levaram a vender a casa tão amada, que expõe lindamente no filme, a sua prisão no tempo de Salazar, suas ideias sobre arte, arquitetura e, especialmente, cinema.  Imagens de filmagens familiares são mostradas, em paralelo à linda casa esquadrinhada e objeto de interessantes reflexões.




A origem do cineasta na cidade do Porto, vindo de uma família de industriais, indicava caminhos diversos do que trilhou no cinema.  As dificuldades da expressão artística no longo período ditatorial do regime salazarista foram grande empecilho.  Ele chegou a ser atleta, piloto de corridas e vinicultor, mas era o cinema o que ele tinha na veia.  E foi tardiamente que conseguiu dar vazão completa a seu espírito criativo e inovador.

O filme autobiográfico de Manoel de Oliveira é simples e admirável, um documento inestimável sobre um dos grandes cineastas que o cinema já teve.  Merece não só ser exibido comercialmente, como integrar uma caixa de DVD ou BluRays com os principais filmes do mestre, coisa que está faltando no mercado brasileiro.  Vários deles foram lançados em DVD, outros, exibidos na TV paga, no canal Brasil, mas para uma obra tão vasta e longeva são apenas pílulas.




quinta-feira, 23 de junho de 2016

AS MONTANHAS SE SEPARAM


Antonio Carlos Egypto




AS MONTANHAS SE SEPARAM (Shan He Gu Ren).  China, 2015.  Direção e roteiro: Jia Zhang-Ke.  Com Zhao Tao, Sylvia Chang, Zhang Yi, Jing Dong Liang, Ahn Sanming.  131 min.



Em “As Montanhas Se Separam“, tudo começa com um triângulo amoroso.  A professora Tao (Zhao Tao, esposa do diretor), tem como pretendentes dois amigos de infância: Zhang (Zhang Yi), dono de um posto de gasolina, e Liangzi (Jing Dong Liang) que trabalha numa mina de carvão.  Zhang, com espírito empreendedor capitalista, vai se tornar dono da mina em que Liangzi trabalha e, assim, o confronto amoroso se espelha e se reflete no confronto da China moderna, entre trabalho e capital, que põe em xeque a própria identidade do país.  E deixa ao desamparo os trabalhadores.

Estamos em 1999, sob uma China em mutação, em que o dinheiro ocupa lugar de destaque.  A escolha do mais abonado para casar parece óbvia e natural, mas é uma opção que traz muitas consequências e deixa inevitáveis sequelas.  Casamento, filho que nasce e concepções de mundo que se chocam. 




Coisas que poderiam ser triviais na vida de um casal, mas que acabam por produzir separações e distâncias tão grandes que nem o filho em comum pode aproximar.  As montanhas se separam, as distâncias se alargam.  A meca encontrada pode estar bem longe para um, a Austrália, ou bem aqui mesmo, para outra, o que resta da China transformada, em 2014.

Uma séria questão de identidade vai permear a vida desse menino que, de Zhang Daole, seu nome original, passará a ser conhecido como Dollar, onde vive, na Austrália.  O dinheiro se intromete de forma decisiva na sua própria existência, na forma como se reconhece. 




O que estará acontecendo com essas pessoas, em 2025?  Que será da China, então?   Os chineses que crescerem fora do país sequer terão conhecimento de seu próprio idioma.  Como sobreviverão aqueles trabalhadores representados por Liangzi? 

Jia Zhang-Ke fala de amores, distâncias, esperanças, rompimentos na vida pessoal, para falar da identidade chinesa, preocupado não apenas com as tradições culturais, mas principalmente com a vida do povo mais simples, menos preparado para sofrer as consequências da globalização e dos novos rumos que o país persegue há algum tempo e que, pelo jeito, só se acentuarão nos próximos anos.




Para isso, o diretor vai às suas origens, à região onde nasceu e se desenvolveu, à sua Fenyang, mostrada por Walter Salles no documentário que dedicou ao cineasta chinês.  “As Montanhas Se Separam” é um filme coerente com a obra anterior de Jia Zhang-Ke, que vê os dramas pessoais ecoando na coletividade e as questões sociais penetrando no âmago da vida dos seus personagens.  A História é referência permanente de um mundo que vive em transformação.  De forma vertiginosa, no caso chinês.


sábado, 18 de junho de 2016

O QUE HÁ PARA VER NOS CINEMAS


Antonio Carlos Egypto


Os dias têm estado frios, o que pode desestimular uma ida ao cinema.  Com efeito, as bilheterias caem na mesma proporção em que a temperatura baixa.  Mas não será por falta de opção.  Em São Paulo, há várias mostras em cartaz, bons filmes já comentados aqui no cinema com recheio e salas confortáveis em muitos lugares.  Vamos dar uma passada rápida em algumas dessas opções.

Festival Varilux de Cinema Francês 2016
Em exibição até 22 de junho, no Cinearte, no Cinesala, Itaú Augusta, Frei Caneca e Pompeia, Kinoplex Itaim, CEU Tiradentes, Cinemark Villa Lobos e Caixa Belas Artes. 
São pre-estreias do cinema francês contemporâneo, além de algumas mostras específicas e debates com a participação de diretores, atores e atrizes dos filmes apresentados.
“Lolo, o Filho da Minha Namorada”, “Chocolate, Um Amor à Altura”, “Marguerite” e “Flórida” foram objeto de crítica no cinema com recheio, neste mês de junho.  Confira.



5ª. Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental
Até 29 de junho, no Reserva Cultural, Belas Artes, Cinemateca Brasileira, Centro Cultural São Paulo, cine Olido, Biblioteca Mário de Andrade e no recém-lançado Circuito SpCine, que atinge muitos pontos periféricos da cidade, por meio de CEUs e Fábricas de Cultura.
São cerca de 100 filmes de mais de 20 países, todos tratando das questões ambientais, ecologia e condições de existência no planeta terra, incluindo alguns filmes históricos, que já vinham abordando a temática várias décadas atrás.

6º. Panorama de Cinema Suíço
Até o dia 22 de junho, o Cinesesc traz, como ocorre anualmente, uma programação do cinema suíço atual, com filmes de 2014, 2015 e 2016, também com a participação de realizadores.  O Centro Cultural do Banco do Brasil SP segue até dia 26 e o do Rio de Janeiro, até o dia 27.

Entretodos Festival de Curtas de Direitos Humanos – 9ª. edição
Até o dia 22, o Circuito SpCine também promove a exibição de 25 curtas, 19 nacionais e 6 internacionais, que tratam das questões de direitos humanos, de gênero, da condição feminina e do combate à violência.  Há uma mostra infanto-juvenil, que inclui questões como racismo, bullying e empoderamento feminino.


Filme Lituano

Filme da Lituânia
Ainda dá tempo de ver “Paz Para Nós em Nossos Sonhos”, filme lituano de Shanuras Bartas, que faz um interessante trabalho envolvendo desencantos, frustrações, rotinas extenuantes, brigas familiares insuportáveis, fome e transgressões, em relacionamentos amorosos que se desintegram.  A fotografia pálida, em cores, dá a dimensão do drama existencial dos personagens.
Também está em cartaz, com crítica postada aqui, “Na Ventania”, da Estônia, que é uma obra de arte.  Bons exemplos da diversidade cultural que, felizmente, estão chegando até nós.


Trago Comigo


TRAGO COMIGO, filme nacional
E, para concluir, vale a pena ver “Trago Comigo”, de Tata Amaral.  Por meio do personagem Telmo (Carlos Alberto Riccelli, em grande desempenho), um ex-diretor de teatro, que se afastou desse trabalho para exercer funções burocráticas, volta à cena e tem de encarar uma parte importante, esquecida, negada, que foi o período em que atuou na luta armada contra a ditadura militar.  O drama do personagem, incluindo o confronto com os atores que representam as novas gerações incapazes de captar aquele grave momento da vida nacional, é o drama do país, que ainda não encarou e enfrentou plenamente um passado cheio de consequências que continuam nos assombrando.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

Flórida

Tatiana Babadobulos





Flórida (Floride) França, 2015. Direção: Philippe Le Guay. Com: Jean Rochefort, Sandrine Kiberlain e Laurent Lucas. 110 min.

O longa-metragem “Flórida” (“Floride”), de Philippe Le Guay (“Pedalando com Molière”), fala sobre o envelhecer e os percalços que a vida vai trazendo à medida que os anos vão avançando.

O tema foi abordado recentemente em “Amor”, de Michael Haneke. O filme de Le Guay, é verdade, é menos denso e tenso que o de Haneke. Mas não menos triste quando cada um se coloca em perspectiva, seja no lugar de um ou de outro personagem.


Na trama, Claude Lherminier (Jean Rochefort), aos 80 anos, tenta manter a pose de galanteador, embora seus esquecimentos o peguem de assalto. Pobre da filha, Carole (Sandrine Kiberlain), que precisa se desdobrar para assistir o pai, garantir uma cuidadora que consiga dobrar as exigências dele e ainda dar conta de sua própria vida, com marido e filho.

As imagens misturam o presente e o passado em um vaivém constante. No início, vemos Claude dentro do avião em direção à Miami, na Flórida (EUA), para onde segue sozinho para visitar a filha mais nova.

Essa viagem, aliás, vai durar o filme todo, pois o trajeto é intercalado por outros acontecimentos que vão prendendo o espectador até chegar à conclusão do que se trata a viagem e as idas e vindas no tempo.

O ator francês Jean Rochefort não é conhecido do público brasileiro, mas ele já recebeu diversos prêmios César, por exemplo. Sua interpretação é singular. Consegue transitar entre o imponente ex-empresário/galanteador ao mesmo tempo em que sofre de esquecimentos repentinos, principalmente por se recusar a acreditar em uma verdade. Na sua idade, é mais seguro acreditar naquilo que quer, afinal, quem vai contrariá-lo?

Sandrine Kiberlain, que interpreta a filha dele, é mais conhecida por aqui. As produções francesas que protagoniza costumam ser exibidas no país, como “Mademoiselle Chambon”, o infantil “O Pequeno Nicolau” e a comédia “Uma Juíza sem Juízo”.



Para se ter uma ideia, além de “Flórida”, ela protagoniza o longa “Um Doce Refúgio” (“Comme un Avion”), que também faz parte do mesmo Festival Varilux de Cinema Francês, que exibe filmes francófonos até o dia 22 de junho, em mais de 50 cidades brasileiras.
Le Guay, também autor do roteiro, usa o bom humor para tratar da velhice sem o peso negativo. Faz bem. Rir continua sendo, como diz o dito popular, “o melhor remédio”. Ainda que nem sempre seja o suficiente.

Depois do Festival, o longa de Le Guay estreia em 11 de agosto nos cinemas brasileiros. Não se assuste, porém, com o nome da obra. É que depois do Varilux, o mesmo filme terá outro nome em português. Ele vai se chamar “A Viagem de meu Pai”.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

NA VENTANIA

 Antonio Carlos Egypto




NA VENTANIA (Risttuules).  Estônia, 2014.  Direção e roteiro: Martti Helde.  Com Laura Peterson, Mirt Preegel, Tarmo Song, Ingrid Isotamm, Einar Hillep.  87 min.


Não é todo dia que se vê, no círculo comercial dos nossos cinemas, um filme da Estônia.  Aliás, nem sei se já houve outro... 

Em “Na Ventania”, é abordada uma história gravíssima, ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial.  Em 14 de junho de 1941, Stalin deflagrou uma operação secreta de limpeza étnica dos povos nativos, nos países bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia.




Famílias inteiras foram deportadas de seus territórios locais e enviadas a prisões, ou gulags, e campos de trabalho forçado, na Sibéria, separando homens e mulheres.  Uma dessas mulheres da Estônia, Erna Tamn, separada de seu marido, Heldur, escreve a ele cartas da Sibéria, em busca de reencontrá-lo algum dia, enquanto procurava sobreviver com apenas um pedaço de pão diário. São essas cartas, que conheceremos em off pela voz da atriz Laura Peterson, que servirão de narrativa ao filme, cobrindo um período de muitos anos, que passa pela morte de Stalin e chega às mudanças políticas que se sucederam.

O trabalho do diretor Martti Helde é bastante original, ao optar, na maior parte do tempo do longa, por compor tableaux vivants com os atores e atrizes.  A câmera se move, explora a cena, altera os enquadramentos, se aproxima com o zoom, mas os atores não se movem.  Somente um piscar de olhos ou a presença do vento se nota.  Em outros momentos, há movimentos, compondo uma atuação minimalista.  Não há diálogos, só os textos das cartas.  A exceção é uma notícia que se ouve por meio do rádio.




A fotografia, em preto e branco, é belíssima.  Os ambientes naturais, muito bem escolhidos, favorecendo a exploração da luz e dos espaços pela filmagem.  As encenações, com os atores e atrizes compostos como estátuas, são extremamente detalhadas, produzindo enquadramentos magníficos, que se transformam com o movimento da câmera, mantendo a condição de belos quadros o tempo todo.




Essa técnica acaba tendo o efeito de potencializar o sentido da opressão.  Não há o golpe, a agressão, o sangue não corre, mas o próprio fato de as figuras não se mexerem sugere, por si só, a impossibilidade de reagir ou resistir.  A tragédia surda dos sem vez ou voz soa mais intensa e forte.

O encontro humano depende da poesia, do vento oeste que se cruza com o vento leste e realiza, simbolicamente, o que foi negado às pessoas.