domingo, 12 de abril de 2026

DOCS EM DESTAQUE

 

   


Antonio Carlos Egypto

 

Quero registrar aqui alguns filmes já vistos no Festival Internacional de Documentários É TUDO VERDADE 2026.  O filme de abertura em São Paulo, BOWIE: O ATO FINAL, dirigido por Jonathan Stiasny, do Reino Unido, faz uma abordagem muito adequada da vida artística de David Bowie (1947-2016).  Mostra sua trajetória marcada pela busca constante de inovações e rupturas, numa inquietação artística muito clara.  O retorno era sempre uma nova expressão musical e artística, em que o cinema teve também papel importante.  O filme deve ter lançamento comercial oportunamente.  90 minutos.

 


Com Luiz Zanin consultando a programação do festival



Gostei muito também do documentário sueco, TÚMULO DE GELO, dirigido por Robin Hunzinger.  Ele conta uma história fantástica que remonta ao final do século XIX, quando, em 1897, três homens encararam uma viagem num balão de hidrogênio gigante, com vistas a alcançar o até então inexplorado e inacessível Polo Norte.  Registraram sua façanha em diários escritos e fotos que sobreviveram no gelo e foram encontrados em 1930, 33 anos depois da jornada histórica.  O filme é esclarecedor e muito bem documentado.  Mostra como foi construído, em plena neve, durante anos, o centro lançador do enorme balão e reconstrói a tentativa de volta dos exploradores.  São imagens que fluem e nos envolvem nessa história espetacular.  78 minutos.

 

Com o documentário brasileiro FERNANDO CONI CAMPOS: CADA UM VIVE COMO SONHA, de Luís Abramo e Pedro Rossi, aprendi sobre esse grande cineasta contador de histórias.  Que nasceu em 1933, mas morreu cedo, em 1988, sem tempo para que sua chama artística pudesse se solidificar e ser melhor reconhecida.  A história desse baiano que circulou pela intelectualidade paulistana e pelos meandros cariocas, deixando também um trabalho como escritor e cineasta que cultivava a dramaturgia popular, soa bela e sedutora neste doc..  E chama a atenção para seus filmes inovadores, como “Viagem ao Fim do Mundo” (1968) e “Ladrões de Cinema” (1977).  89 minutos.

 

Luiz Zanin e Mária do Rosário Caetano na Cinemateca

O documentário polonês DESFECHO já é mais angustiante.  Dirigido por Michal Marczak, acompanha a obcecada busca de Daniel pelo seu filho Chris, desaparecido aos 16 anos.  Entende-se muito bem a sua dor, mas é aflitivo perceber que essa busca se tornou a única causa de sua existência, que nunca pôde parar, ao longo de anos, esquadrinhando o rio Vístula, no sul de Varsóvia, e todas as possíveis pistas por seu encontro.  105 minutos.

 

Já o documentário brasileiro A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO investe na brincadeira.  A diretora Eliza Capai deu vez e voz às meninas de uma pequena cidade do interior do Piauí, que aos 10, 11 anos, pensam sobre as questões femininas e a chegada da adolescência.  Seus pensamentos refletem ainda uma ideia do homem como o gigante da mulher, mas suas reflexões divertidas trazem muita verdade sobre o machismo estrutural, a saída da miséria, Deus, o medo da morte e muito mais.  70 minutos.

 www.etudoverdade.com.br

 

 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

PAI MÃE IRMÃ IRMÃO

 

Antonio Carlos Egypto




                             


PAI MÃE IRMÃ IRMÃO (Father Mother Sister Brother), produção Estados Unidos/ Irlanda/ França, 2025, dirigido pelo veterano e brilhante cineasta Jim Jarmusch, levou com muitos méritos o Leão de Ouro em Veneza.  O filme trata de relacionamento familiar, pais e filhos e irmãos, todos adultos, por meio de três histórias, uma, nos Estados Unidos, outra, na Irlanda, em Dublin, e outra em Paris, na França.  Em comum, o clima estranho e irônico que Jarmusch imprime às situações.  Aqui, as coisas não fluem, o formalismo impede a espontaneidade, a sem-graceza toma conta dos relacionamentos familiares.  Tudo soa estranho, algo inesperado, falso, de aparências.  Muito curioso.  Mostra o diretor em plena forma, fiel a seu estilo.  Apoiado por um elenco espetacular: Tom Waits, Adam River, Charlote Rampling, Cate Blanchet, Mayim Bialik, Vicky Krieps e outros.  Comédia muito inteligente e crítica.  110 min.

 

Com Amir Labaki

 

É TUDO VERDADE.  A oportunidade de acompanhar o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade (It’s All True) 2026, de 09 a 19 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com todas as sessões gratuitas, é um presente para a população.  O Festival, coordenado por Amir Labaki, tem demonstrado, ao longo de 30 anos (está é a 31ª. edição), um nível de qualidade magnífico.  É uma janela para a compreensão do que anda se passando no mundo e no Brasil também.  A seleção é sempre muito criteriosa.  Basta lembrar o selo de “Qualifying Festival” da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que classifica os filmes vencedores do É Tudo Verdade para a disputa do Oscar de Documentários, longas e curtas.  Pretendo acompanhar essa edição e comentar alguns filmes por aqui.  Mas quem puder já se prepare para ir ao Cinesesc, à Cinemateca Brasileira, ao IMS – Instituto Moreira Salles ou ao Centro Cultural São Paulo, para assistir às sessões ao longo do dia e à noite, em Sampa.  Ou às salas do Estação Net Rio, na Cidade Maravilhosa.  Serão 75 filmes, de 25 países, em exibição. E tem programação infantil também.

etudoverdade.com.br

 

 

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

DRAMA E GLÓRIA

Antonio Carlos Egypto



 

O DRAMA (The Drama).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Kristoffer Borgli.  Elenco: Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Hailey Gates, Mamoudou Athie.  106 min.

 

Cansamos de ver e ler dramas a toda hora.  Por que, então, um filme deveria se chamar “O Drama”?  Afinal, é apenas um drama entre milhões.  O fato é que o drama que mobiliza a narrativa desse filme é realmente surpreendente.  Não vou contar qual é, claro.  Mas vamos às circunstâncias que o envolvem.  Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) estão a poucos dias de se casar, apaixonados e tomando aquelas providências típicas do período: as roupas, a festa, as fotos, a cerimônia.  Um momento de felicidade e boas expectativas.  Num encontro com outro casal de amigos, surge aquela típica brincadeira do jogo da verdade.  E a pergunta: o que você já fez de pior na vida? é respondida por Emma e deixa todos paralisados.  A partir daí, a narrativa foca na quebra de confiança do casal de noivos.  Como se processará a relação deles depois disso?  Será possível seguir com aquela paixão e com o casamento dos sonhos?  É uma situação que prende a atenção, centrada no relacionamento humano e amoroso marcado pela desconfiança, pela dúvida, pela dificuldade de elaborar a questão, da parte de ambos, na verdade.  O casal de protagonistas vive esse drama com muita convicção.  As dificuldades são visíveis no desempenho de Pattinson e Zendaya.  O tema do filme, dirigido pelo cineasta norueguês Kristoffer Borgli, levanta polêmicas e põe em relevo situações importantes, desafiadoras e assustadoras dos nossos dias.

 




RUAS DA GLÓRIA.  Brasil, 2025.  Direção: Felipe Sholl.  Elenco: Caio Macedo, Alejandro Claveaux, Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Daniel Rangel.  107 min.

 

Em função de um luto que o abalou, Gabriel (Caio Macedo), jovem gay, professor de português e literatura, sai do Recife para o Rio de Janeiro, em busca de novos horizontes, tanto profissionais, como de relacionamento sexual e amoroso.  Pelas ruas da Glória, no centro do Rio, ele vai encontrando paisagens, pessoas, circunstâncias, e acaba desfrutando de uma família de apoio, ao conhecer Adriano (Alejandro Claveaux), garoto de programas uruguaio, que é uma figura cativante e disruptiva. Vai daí que o filme explora essa relação sexual e amorosa, tóxica e complicada.  Cheia de vais-e-vens, altos e baixos, extremamente difícil de ser vivida e administrada.  Estamos no terreno do imponderável.  Mas que sempre abre espaço para a esperança.  O filme, dirigido ao público LGBTQIA+, tem muito desejo, excitação, envolvimento sexual forte e relações humanas tensas.  Tem um bom elenco já premiado, que inclui também a atriz e cantora trans Diva Menner, e é bem realizado.  Segundo o diretor e roteirista Felipe Sholl, a narrativa reflete vivências dele, o que dá um sentido de autenticidade à história.

 

sábado, 28 de março de 2026

A GRAÇA

 Antonio Carlos Egypto


 

A GRAÇA (La Grazia).  Itália, 2025.  Direção: Paolo Sorrentino.  Elenco: Toni Servillo, Anna Ferzetti, Orlando Cinque, Massimo Venturiello.  133 min.

 

“A Graça”, novo trabalho de Paolo Sorrentino (de “Il Divo”, de 2008, “A Grande Beleza”, de 2013, “A Juventude”, de 2015 e “A Mão de Deus”, de 2021, entre outros), um dos grandes cineastas italianos da atualidade, é um filme cheio de virtudes.  Antes de mais nada, por contar, novamente, com Toni Servillo como protagonista, num desempenho contido, interiorizado, absolutamente perfeito.  Por ser um filme que explora com profundidade as reflexões sobre a velhice, o poder (ou a perda do poder), a paixão, o romance, o luto, a solidão e a morte.  É também um filme político, que discute questões polêmicas da atualidade.  É, ainda, um filme profundamente humanista, que lida com personagens fictícios absolutamente verdadeiros em sua humanidade.

 

Um Presidente da República italiano imaginário chamado Mariano De Santis (Toni Servillo) chega a uma idade avançada que coincide com o final de seu mandato.  Em 6 meses, ele estará fora do poder e vai voltar para casa. É um mandatário querido por seu povo (os aplausos no Scala de Milão são um atestado eloquente disso).  É uma pessoa ponderada, equilibrada, que reflete muito antes de tomar decisões.  Cultiva a dúvida e o tempo a seu favor.  Isso também pode ser interpretado como postergamento de decisões, ficar muito tempo em cima do muro, evitando se expor publicamente.  Na verdade, é um homem discreto, cuidadoso e reflexivo, o que explicaria melhor o respeito de seu povo, em que pese o fato de demandas populares permanecerem não atendidas.

 

Bem, em seus últimos seis meses as principais decisões que ainda podem marcar seu nome na história da Itália dizem respeito a leis que podem regular a eutanásia no país e a dois casos rumorosos de assassinatos de cônjuges, sendo um homem, por um lado, e uma mulher, por outro, como sentenciados, para os quais há pedidos de indulto e um volume de assinaturas e apoios.  Considere-se que o Presidente é um grande jurista, profundo estudioso e conhecedor das leis.

 

Enquanto isso, Mariano vive com a filha Dorotea (Anna Ferzetti), que é também sua assessora, e mergulha numa crise existencial duradoura, desde que está viúvo há oito anos.  Não consegue se livrar não só da imagem de perfeição de sua mulher, Aurora, comentada constantemente ao longo do filme, como dos fantasmas de uma traição que ela teria cometido quarenta anos atrás.  Mas com quem e por que, se se amaram tanto por todo esse tempo?  Para ele, essa lei não perdeu validade.


 

É uma vida que está sendo passada pela memória e pela avaliação dessa figura importante que agora se retira do poder que legitimamente conquistou.  Tudo parece fino, elegante, discreto, nessa trajetória.  Que destoa, de repente, pelo interesse pelo rap enquanto expressão musical e pelo encanto por astronautas que podem viver experiências sem a lei da gravidade.  Elementos que fazem o contraste entre mundos, com o passado tão presente, a atualidade desafiadora e o futuro que parece quase não existir.

 

Com tanta densidade de questões, outra grande virtude do filme está em algumas sequências extraordinárias, como a chegada do velho Presidente de Portugal em meio a uma chuva torrencial que o derruba ou a lágrima do astronauta que se solidifica na cabine.  Mas sequências simples de conversa ou envolvimento afetivo também se destacam. Uma mulher que flerta com o Presidente de forma inesperada ou a sinceridade de alguns de seus interlocutores diante das perguntas que ele dirige a eles.  A descoberta do apelido concreto armado, tão reveladora, soa engraçada.

 

Enfim, há tantos elementos a considerar, num filme tão sutil e complexo ao mesmo tempo, que o espectador atento certamente valorizará.

 

A beleza cinematográfica de “A Graça” também tem de ser apontada, com destaque para cenas esbranquiçadas, em bruma, aviões marcando o céu, detalhes encontrados em frestas, portas e janelas, que contam a história tanto quanto os diálogos e o desempenho dos atores e atrizes em suas expressões, num filme em que o corpo fala.

 

“A Graça” se refere aqui, de um lado, ao instituto do indulto, que cabe ao Presidente da República, mas também à noção mais ampla de justiça e, sobretudo, de perdão, que é uma marca fundamental da trama.

Distribuição MUBI

 

LEMBRETES

A Mostra “FAROL – O Cinema entre a Memória e o Agora” segue no Cinesesc SP até 02 de abril, com filmes como “Dente Canino”, “Slacker”, “Queerpanorama”, “I Will Follow”, “A Sombra de Meu Pai”, “Dolores” “Os Matadores”, “O Riso e a Faca”, “Robocop: o Policial do Futuro”, “Los Domingos” e “Alpha”.

 

O Festival “É Tudo Verdade (It’s All True) 2026” acontece de 09 a 19 de abril também no Cinesesc, além da Cinemateca Brasileira, Centro Cultural São Paulo, IMS, e no Rio de Janeiro, em 4 salas do Estação NET Rio.



quarta-feira, 25 de março de 2026

DITTO e +

 

 Antonio Carlos Egypto

 


DITTO: CONEXÕES DO AMOR (Donggam).  Coreia do Sul, 2022.  Direção: Seo Eun-young.  Elenco: Yeo Jin-goo, Cho Yi-hun, Kim Hye-yoon, Na In-woo, Bae In-hyuk.  114 min.

 

Ditto, ou Donggam em coreano, refere-se ao mesmo sentimento ou “o mesmo vale para mim”.  E, no filme, trata-se dessa possibilidade separada no tempo por vinte anos de distância.  Seria factível uma identificação dessas, ou mesmo empatia, vivida em tempos tão distintos, com muitas diferenças tecnológicas impactando a realidade, de estudantes universitários, no caso?

 

O estudante Kim Young (Yeo Jin-goo) vive em 1995 numa universidade, cursando engenharia mecânica.  Conecta-se por meio de um radioamador com Mu Nee (Cho Yi-hun) que vive em 2022, na mesma universidade.  Essa surpreendente conexão vai revelando um monte de coisas que unirão o rapaz e a moça, tornando-os grandes amigos, que nunca poderão se encontrar.  A menos que ela pudesse encontrá-lo vinte anos mais velho.

 


Kim Young vive uma grande paixão por Seo Han-sol e compartilha suas preocupações, sentimentos e dúvidas, com Mu Nee.  Ela, por seu turno, também faz suas confidências.  As diferenças tecnológicas criam apenas ruídos de comunicação, já que o mundo dos celulares e aplicativos ainda não existia.  E as expressões eram outras ou ganharam novos significados.

 

O filme é marcado por nostalgia e delicadeza.  A diretora e roteirista Seo Eun-young investe na valorização do amor e da amizade, mas ao mesmo tempo conduz uma narrativa inovadora na abordagem da questão amorosa e das questões familiares que permeiam a história.  Uma chuva que acontece cá, mas não lá, delimita territórios, mas um eclipse lunar ata os espaços diversos.

 

A atual produção coreana, que é de 2022, é uma refilmagem da mesma história que alcançou grande sucesso por lá, em 2000.  Mas, ao que consta, de uma forma mais grave e tensa.  Aqui, a direção ao público jovem é clara, pela trama, pelas cores vivas e alegres e, ainda, pelo apelo sentimental.  Embora aqui se dê de uma forma complexa e indireta e chegue a conclusões surpreendentes e inesperadas.

 

As referências cinematográficas amplamente conhecidas se dão em relação à série de filmes “De Volta Para o Futuro” (Back to the Future), dirigida por Robert Zemeckis, em 1985, 1989 e 1990.  Outro filme que inspirou todos eles, de algum modo, é “Em Algum Lugar do Passado” (Somewhere in time), de 1980, dirigido por Jeannot Szwarc.  Esses filmes foram marcantes pelos elencos e por trilhas musicais espetaculares, que sobreviveram ao tempo, como os personagens que eles retrataram.  A trilha sonora de “Ditto” também é bonita.

 

 


NOTRE DAME DE PARIS

Realidade virtual também é cinema.  Um cinema imersivo, em que você vive num mundo paralelo e totalmente ilusório.  Na exposição “Notre Dame de Paris – Eterna e Sagrada” é possível viajar no tempo e na história da famosa catedral, de sua construção à reconstrução que se processou após o incêndio.

 

É possível subir ao topo da igreja, com as gárgulas a seu lado, ver toda a sua estrutura e o panorama que se descortina.  Além de detalhes de sua base em madeira, as grandes obras, esculturas, vitrais e tudo o mais.  Subindo andaimes sem sair do chão.  Mas é fácil acreditar que você está lá em cima.

 

A exposição é, sem dúvida, muito interessante e informativa, porém, a brincadeira e o desviar de pessoas e de muros aparentes ou o medo da altura acabam pesando mais do que as informações históricas ou a análise das obras artísticas.

 

Essa exposição, ao lado de outras similares, como a dos Impressionistas ou de Quéops, acontece no Espaço Cultural de Realidade Virtual, no 2º. subsolo do Shopping Cidade de São Paulo, na avenida Paulista, diariamente, das 10:00 h às 21:20 h.



quinta-feira, 19 de março de 2026

ENZO

                                              Antonio Carlos Egypto

 



ENZO (Enzo).  França, 2025.  Direção: Robin Campillo.  Elenco: Eloy Pohu, Pierfrancesco Favino, Élodie Bouchez.  102 min.

 

“Enzo” conta uma história que nos leva em cheio a conviver com uma adolescência que se vê deslocada, na família, na escola e no trabalho.   O sentimento de pertencimento não está presente e é um problema, as escolhas também são um problema.  Para onde ir e por que ir, um desafio.  A história que o filme conta pode parecer específica, mas na realidade fala de uma adolescência muito representativa de sentimentos, de buscas desencontradas e de uma tentativa atrapalhada de inovar e de conquistar liberdade.

 

Aborda a desigualdade entre as classes sociais, o que desafia as sociedades e os governos.  E o confronto entre as possibilidades e os estilos de vida muito distantes entre si.  Ainda que, na França, essas diferenças sejam menores do que as do Brasil.

 
O jovem Enzo (Eloy Pohu), de 16 anos, pertence a uma família de classe alta, vive numa mansão com lindas vistas, piscina e todo o conforto.  Decide parar de estudar e escolhe trabalhar como aprendiz de pedreiro.  Entende que as paredes e as construções sobrevivem aos homens e aos tempos, por isso são muito importantes.  Seus pais (Pierfrancesco Favino e Élodie Bouchez) com vida acadêmica e estimulando o filho mais velho a alcançar o doutorado, naturalmente sentem o baque dessa escolha.  Não era o que esperavam para a vida de Enzo.  Tentam lidar com a situação como podem, mas o fato é que se sentem perdidos diante dos acontecimentos que envolvem Enzo.

 



O garoto, por seu lado, tenta aprender e se adaptar ao trabalho na construção e se aproximar de alguns colegas, visando ser acolhido e ter amigos no ambiente que escolheu.  Aproxima-se de dois jovens mais velhos que vieram da Ucrânia e sentem o drama de se vão ficar na França ou se vão voltar para lá, diante da guerra com a Rússia e das famílias que por lá ficaram.  Esse encontro tem um impacto muito grande para Enzo e vai mexer com a sua vida, no florescer da sexualidade.

 

O jovem ator Eloy Pohu consegue nos passar o enfado, a dificuldade de viver e conviver nessa etapa, para muitos, muito confusa e complicada da vida.  Os ótimos ator e atriz que representam seus pais mostram a tensão contida que lhes cabe viver nesse momento atormentado de seu filho.

 

“Enzo” é um filme concebido pelo grande diretor Laurent Cantet, do brilhante “Entre os Muros da Escola”, de 2008, e outros trabalhos que revelam sua sensibilidade em relação a crianças, adolescentes e à educação.  Sua morte em 2024, aos 63 anos, abortou o projeto que ele iria dirigir.  E que foi assumido por Robin Campillo, com quem tinha trabalhado no roteiro.  Ainda bem que o filme saiu, aproveitando o que Cantet concebeu e é um trabalho muito bom, muito sensível e competente.

 

 

DICAS PARA OS CINÉFILOS

O Cinesesc SP apresenta a Mostra “FAROL- O Cinema Entre a Memória e o Agora”, de 20 de março a 02 de abril de 2026, que traz filmes inéditos no circuito comercial brasileiro, ao lado de obras que marcaram presença artística relevante, realizadas por cineastas importantes.  Haverá atividades formativas e debates.  Todas as sessões terão preços acessíveis.  Na faixa das 15:00 horas os ingressos são gratuitos.  A programação pode ser acessada em   sescsp.org.br

 

Na Cinemateca Brasileira, de 20 a 29 de março de 2026, acontecerá a Mostra “20 Anos RT Features”, celebrando duas décadas de atividades da produtora brasileira comandada por Rodrigo Teixeira, dedicada principalmente a filmes autorais, como “O Cheiro do Ralo”, “Frances Ha”, “Severina”, “Kontinental’25” e, claro, “Ainda Estou Aqui”.  Todos esses filmes e muitos mais estarão sendo exibidos e as sessões são gratuitas.  Também com cursos e debates. https://cinemateca.org.br

 

Vem vindo aí a 31ª. edição do Festival “É Tudo Verdade 2026”, sempre apresentando o melhor do que há em documentários pelo mundo afora e aqui no Brasil.  Fiquem atentos.

 

 

 

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

SEM OSCAR

Antonio Carlos Egypto

 



Foi frustrante para uma grande torcida que se formou em torno de “O Agente Secreto” pela conquista de uma estatueta do Oscar, tentando repetir o feito do ano passado, com ”Ainda Estou Aqui”.  E a torcida fazia todo sentido.  Tínhamos um filme magnífico, original, criativo, muito bem realizado.  Com um elenco escolhido a dedo, perfeitamente entrosado para viver os papéis que lhes cabiam.  Na verdade, o fizeram na perfeição. 

 

Não por acaso, a nova categoria de escolha do elenco era cobiçada por nós.  O prêmio seria merecidíssimo.  Havia um concorrente forte, o elenco de “Pecadores”, afinadíssimo também.  Venceu “Uma Batalha Após a Outra”, que apresentou um elenco all star, onde não percebi grande mérito na escolha.  Uma opção conservadora, eu diria. 

 

Havia grande expectativa e esperança na dobradinha com o ano passado na categoria de filme internacional.  O sucesso e os prêmios de “O Agente Secreto” no mundo, as avaliações dos maiores críticos foram tão efusivos que mesmo diante de fortes concorrentes como “Foi Apenas um Acidente” ou “Sirât” tínhamos enormes chances.  O nosso maior concorrente, porém, foi o escolhido: o norueguês “Valor Sentimental”.  Um filme excelente, sem dúvida.  E a Noruega ganha nessa categoria pela primeira vez.  “Sirât” merecia ganhar por melhor som, que foi para “F1”.


 




Filme internacional, que antes se chamava filme estrangeiro, ou como no Globo de Ouro filme de língua não-inglesa, parecia trazer um avanço, a partir de 2020, quando o sul-coreano “Parasita” arrebatou o Oscar com muitos e merecidos prêmios.  Mas a internacionalização ainda anda a passos lentos.  Na minha modesta opinião, “O Agente Secreto” e “Valor Sentimental”, que disputaram também a indicação para melhor filme (na categoria geral), foram melhores do que os outros oito concorrentes.  No entanto, para os votantes da Academia, “Uma Batalha Após a Outra”, com seis vitórias, “Pecadores”, com quatro, e até “Frankenstein”, com três, é que se destacaram.

 

“Pecadores” levou o Oscar em duas categorias em que o Brasil concorria, a de fotografia, que tinha a indicação de Adolpho Veloso para o filme estadunidense “Sonhos de Trem”, e a estatueta de melhor ator, disputada por Wagner Moura. Uma vez mais, é preciso reconhecer o talento do ator vencedor, Michael B. Jordan, embora o trabalho do nosso Wagner Moura esteja impecável e, a meu ver, superior ao dos concorrentes.

 

É fato que o cinema mostrou muito valor em 2025 em todo o mundo e  também nos Estados Unidos e no Reino Unido, mas o prêmio do Oscar privilegia nitidamente a produção em língua inglesa, como sempre foi.  Estava na hora de dar passos mais largos com vistas à ampliação da visão de cinema mundial, já que a cerimônia é tão concorrida e vista por milhões ao redor do mundo.  E que claramente Hollywood está em crise, se comparada à sua história passada de glória.  

 

Não adianta dourar a pílula, os filmes de língua inglesa já não são os melhores que estão sendo feitos e lançados pelo cinema.  Que hoje fala muitos e variados idiomas em histórias empolgantes e com excelência técnica.