segunda-feira, 15 de outubro de 2018

DICAS DA 42ª. MOSTRA


Antonio Carlos Egypto

Já posso comentar alguns filmes da 42ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que vai de 18 a 31 de outubro (mais alguns dias de repescagem, só no Cinesesc).

“Primeiro estranha-se, depois, entranha-se”, este foi o slogan genial que Fernando Pessoa (ou Álvaro de Campos) criou nos anos 1920, para lançar a Coca-Louca em Portugal.  O curta-metragem de apenas 27 minutos COMO FERNANDO PESSOA SALVOU PORTUGAL é uma pequena joia fílmica, que recomendo vivamente.  Direção de Eugène Green.


PEDRO E INÊS:O AMOR NÃO DESCANSA


Outro belo trabalho, também vindo de Portugal, é PEDRO E INÊS: O AMOR NÃO DESCANSA, de António Ferreira.  Quem não se lembra dos versos de Camões: “Estava linda Inês posta em sossego...” ou da expressão coloquial  “Agora é tarde.  Inês é morta”. Pois.  É da história e lenda de D. Pedro I e Inês de Castro, aquela que foi rainha depois de morta, que se trata.  Só que aqui, além de focalizar a apaixonada e trágica história de origem, ela se repete e se atualiza em dois outros contextos, um deles, no presente, dos computadores e celulares.  O filme transita entre esses contextos, ao longo da projeção, o que ressignifica e coloca novas soluções e possibilidades a essa trama de amor apaixonado e eterno que, de uma forma ou de outra, não tinha como não ser trágico.  A caracterização dos diferentes ambientes e situações de época é muito boa.  O elenco, tendo como protagonistas Diogo Amaral, Joana de Verona e Vera Kolodzig, sustenta dramaticamente a trama, com talento.  120 min.

O filme russo VERÃO, dirigido por Kirill Serebrennikov, trata das questões musicais e comportamentais que envolveram o rock soviético, no verão de 1981, em Leningrado, hoje São Petersburgo.  A influência dos grandes astros do rock ocidental impulsionou o surgimento de uma nova geração de artistas, que transformou a música jovem na Rússia soviética e trouxe novos padrões de comportamento libertário, mas encontrou resistência e repressão dos puristas e nacionalistas.  Na linha do que se deu no Ocidente, nos anos 1960.  Entre as polêmicas que o filme mostra, está um triângulo amoroso incomum e também contestador, à sua moda.  Um recurso muito bem utilizado é o da animação gráfica sobre as cenas, enfocando o que não aconteceu ou não podia acontecer, seria desejo reprimido ou delírio.  126 min, em preto e branco.

A CAÓTICA VIDA DE NADA KADIC, de Marta Hernaiz Pidal, da Bósnia Herzegovina, é um filme bem realista, que nos coloca em contato com uma mãe solteira perturbada por uma rotina massacrante, já que sua filha pequena, Hava, super ativa, exige uma atenção constante que desgasta Nada.  A busca de algum novo rumo ou uma tentativa de mudar de rotina a leva a uma viagem com a filha, em busca dos pais, que ficaram no passado.  As mulheres sempre assoberbadas pelas exigências maternais, que nem de longe atingem os homens, impõe a necessidade de se rediscutir a questão de gênero, em todos os cantos.  Não se trata de uma ideologia, mas de enfrentar a realidade dos fatos.  Esse filme, por suas características realistas, dialoga com outro bom trabalho que está em cartaz nos cinemas, fora da Mostra: é o filme húngaro “Um Dia”, de Zsófia Szilágyl, recém exibido no Indie 18.  Também trata da condição feminina às voltas com filhos que exigem um trabalho insano por parte da mãe. 


CULPA


Da Dinamarca vem um filme brilhante, CULPA, de Gustav Möller.  Uma narrativa de suspense muito bem conduzida, a partir da figura do policial Asger (Jakob Cedergen), que trabalha com chamadas telefônicas de emergência.  Ele se envolve com um caso complicado, que vai sendo revelado, pouco a pouco, por meio de seu atendimento telefônico, monitorado por computadores.  Tudo acontece,  nos envolve fortemente, mas nada é mostrado.  Um filme que se passa numa delegacia, praticamente com um só personagem, poderia ser a coisa mais tediosa do mundo.  No entanto, um roteiro muito rico de detalhes, o talento de um cineasta e do seu ator principal o transformam em cinema de alta qualidade, inovador, que faz pensar.  As conclusões que se tiram a partir de uns tantos dados podem ser enganosas e até produzir graves consequências.  E tudo pode ser feito com a melhor das intenções e com a real disposição de ajudar.  90 min.



quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A 42ª. MOSTRA ESTÁ CHEGANDO


Antonio Carlos Egypto


A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que chega à sua 42ª. edição, é um dos principais eventos culturais da cidade (e que chega também ao interior do Estado). Graças ao empenho, competência e dedicação de Renata de Almeida e de sua equipe, a Mostra, criada por Leon Cakoff em 1977, sobreviveu à sua morte e segue em frente, mantendo a qualidade e a abrangência cinematográficas.




Os tempos são de crise, há menos verba disponível para patrocínio, mas a Mostra segue pujante.  A 42ª. edição, que ocorre de 18 a 31 de outubro, trará mais de 300 filmes, que serão apresentados em mais de 30 espaços, entre cinemas, espaços culturais e museus, na capital paulista e no Instituto CPFL, em Campinas.  Além disso, o SESC promove uma itinerância, com diversos títulos da seleção exibidos em 10 cidades do interior, logo após o período da Mostra.  Uma grande chance de apresentar o melhor do cinema mundial a um público que tem muito menos acesso àquilo que se distingue do cinemão convencionalmente exibido nos cinemas de shoppings.

Na seleção de filmes estarão, como de costume, os longas que ganharam prêmios nos principais festivais internacionais deste ano, 18 obras indicadas por seus países para concorrerem ao Oscar de filme estrangeiro, a produção brasileira e latino-americana recente e o que encanta qualquer cinéfilo: 58 países presentes e um grande número de novos cineastas, em primeiro, segundo ou terceiro longas, para serem descobertos e premiados.  Entre eles, 90 títulos estrangeiros, dirigidos por mulheres.

No programa, uma parceria com o Instituto Goethe traz 7 títulos que marcam o bicentenário de Karl Marx e uma exibição especial da cópia restaurada da série “Oito horas não são um dia”, de Rainer Werner Fassbinder, de 1972.

Clássicos do cinema restaurados estão presentes, como “A Caixa de Pandora”, de 1929, de Pabst, e “Asas do Desejo”, de Wim Wenders, que completa 30 anos.  “Central do Brasil”, de Walter Salles, que completa 20 anos, “Feliz Ano Velho”, de Roberto Gervitz, 30 anos, além de “O Bandido da Luz Vermelha”, de Sganzerla, e “O Bravo Guerreiro”, de Gustavo Dahl, que fazem 50 anos, estão entre os clássicos brasileiros em exibição.

O diretor dinamarquês Lars von Trier, que traz o inédito “A Casa que Jack construiu”, terá três outros longas de sua primeira fase presentes à 42ª. Mostra: “Elemento de um Crime”, “Europa” e “Ondas do Destino”.  O cineasta israelense Amos Gitai traz seus filmes recentes, a ficção “Uma Carta para um Amigo em Gaza”, o documentário “Um Trem em Jerusalém” e o média-metragem “A Casa”, de 1980.  O grande cineasta argentino Fernando Solanas vem com “La Hora de los Hornos” e o inédito “Viaje a los Pueblos Fumigados”.




O brilhante cineasta japonês Kore-Eda será homenageado com o prêmio Humanidade e traz seu trabalho mais recente, o filme “Assunto de Família”, excelente, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.  Outro prêmio Humanidade será concedido a Drauzio Varella, antes da exibição da cópia restaurada de “Pixote – A Lei do Mais Fraco” e do curta “Conversa com Ele”, de Bárbara Paz. E, claro, participa de uma mesa de debates.   O cineasta iraniano Jafar Panahi receberá o prêmio Leon Cakoff em sua prisão domiciliar no Irã.  Seu filme “3 Faces”, melhor roteiro em Cannes, está na programação.  Quatro títulos homenageiam o centenário de Nelson Mandela. 

Autora da arte do pôster desta edição, a norte-americana Laurie Anderson apresenta exposição em realidade virtual, que inaugura o anexo do Cinesesc.

Na programação, destaques é o que não faltam.  “A Favorita”, de Yorgos Lanthimos, grande prêmio do júri de Veneza, abre o evento, no Auditório Ibirapuera.  “Roma”, de Alfonso Cuarón, Leão de Ouro de Veneza, está programado para o encerramento, no dia 31.  E há tanto para ver, entre um e outro, como, por exemplo, “Uma Terra Imaginada”, de Siew Hua Yeo, de Cingapura, Leopardo de Ouro de Locarno, e o romeno “Não Me Toque”, Urso de Ouro do Festival de Berlim.  E há muito, muito mais.

Tem gente que tira férias neste período do ano para poder aproveitar a Mostra.  Outros passam todo o tempo, fora do trabalho, no cinema.  Nunca soube de ninguém que tenha se arrependido de fazer isso.  A oferta de filmes é realmente muito grande e prima pela qualidade e diversidade culturais.  Quem quiser e puder se preparar para essa imersão cinematográfica, as vendas de permanente integrais a R$500,00, que permitem ver tudo, ou as especiais, para sessões da tarde, de segunda a sexta-feira, a R$117,00, podem ser adquiridas na Central da Mostra, no Conjunto Nacional, a partir do dia 12 de outubro.  Lá também é possível adquirir pacotes de 40 ingressos, por R$374,00, e de 20 ingressos, por R$220,00.  Mas atenção: os pacotes de 20 são os primeiros que acabam. 

Ingressos individuais para as sessões só no próprio dia, nas salas de cinema, a saber, 5 salas do Espaço Itaú de Cinema do Shopping Frei Caneca, o Cinearte Petrobrás do Conjunto Nacional, o Cinesesc, o Reserva Cultural, o Caixa Belas Artes, os Espaços Itaú de Cinema Augusta e Pompeia, o Instituto Moreira Salles da av. Paulista, a Cinemateca Brasileira, o Itaú Cultural, o PlayArte Marabá e o Spcine Olido no centro, o Centro Cultural São Paulo e um circuito gratuito em unidades do Sesc e Spcine, no vão livre do MASP, Cinusp e Instituto CPFL.

Tem também um novo aplicativo da Mostra que permitirá receber notícias em tempo real, programação e compra de ingressos, já que tudo agora exige aplicativo pelo celular.  Como será que a gente podia viver antes que isso existisse?






sábado, 6 de outubro de 2018

OS INVISÍVEIS


Antonio Carlos Egypto




OS INVISÍVEIS (Die Unsichtbaren).  Alemanha, 2017.  Direção: Claus Räfle.  Com Max Mauff, Alice Dwyer, Ruby O. Fee, Aaron Altaras, Sergej Moya.  110 min.


Em junho de 1943, o ministro Joseph Goebbels declarou Berlim “livre de judeus”.  Mas, na verdade, cerca de 7000 judeus permaneceram na capital alemã, na clandestinidade, a maior parte jovens.  1700 deles conseguiram sobreviver até o final da guerra.  Para que isso fosse possível, era preciso que muitos alemães – dezenas de milhares – ajudassem a escondê-los ou, pelo menos, deixassem de denunciá-los.  O que indica que, apesar do maciço apoio ao regime nazista, havia uma oposição humanitária e corajosa, agindo silenciosamente nos subterrâneos.

Esse fato histórico é o que é explorado em “Os Invisíveis”, uma ficção não só inspirada na realidade comprovada, como mesclada ao documentário, por meio de entrevistas com os sobreviventes retratados na narrativa do filme de Claus Räfle.  São eles Cioma Schönhaus (1922-2015), interpretado por Max Mauff, Ruth Arndt (1922-2013), papel de Ruby O. Fee, Hanni Lévy, nascida em 1924 e vivendo em Paris, interpretada por Alice Dwyer, e Eugen Friede, nascido em 1926 e vivendo na Suíça, papel de Aaron Altaras.  Pequena parte das entrevistas feitas com esses quatro sobreviventes, que são os protagonistas da trama, aparece no filme entremeada com a evolução da narrativa ficcional.

A sobrevivência de Cioma, Hanni, Ruth e Eugen é mostrada alternadamente em histórias paralelas, sem encontro entre eles. Cada um deles, todos muito jovens, se torna “invisível” de forma diferente, numa clandestinidade que aparece à luz do sol.  Cioma, estudante de artes gráficas, acabou trabalhando como falsificador de passaportes e se utilizou desse mesmo recurso para se salvar, chegando à fronteira com a Suíça, onde passou a viver.




Hanni, de 17 anos, após a morte dos pais encontrou refúgio ao ser acolhida por uma vendedora de ingressos de cinema em sua casa, após pintar o cabelo de loiro, o que a tornava algo invisível.  Passava a maior parte do tempo na rua.
Ruth vive uma odisseia  de esconderijo em esconderijo, se disfarça de viúva de guerra e trabalha como empregada doméstica na casa de um oficial das forças armadas do Terceiro Reich.

Eugen, de 16 anos, único na família que precisava usar a estrela amarela porque tinha mãe judia e padrasto cristão, viveu escondido e se juntou a um grupo de resistência que, por meio de panfletos, denunciava crimes nazistas.

O que eles vivem, mostrado realisticamente, mas em tom poético, com suspense e até humor, traz um  retrato humanista, muito colado á realidade, e esperançoso, quase otimista, apesar de toda a barbárie.  A forte sustentação documental do filme se explica por anos de pesquisa, instituições alemãs que preservam a memória do período e pela longa experiência anterior do cineasta como documentarista. 


  

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

UMA NOITE DE 12 ANOS


Antonio Carlos Egypto





UMA NOITE DE 12 ANOS (La Noche de 12 Años).  Uruguai, 2017.  Direção: Alvaro Brechner.  Com Antonio de la Torre, Alfonso Tort, Chino Darín, Soledad Villamil.  123 min.



Nos anos 1960, 1970 e 1980, pipocaram ditaduras militares por toda a América Latina.  Contavam com apoio civil relevante, internamente, e apoio decisivo, internacional, em especial dos governos dos Estados Unidos, que atuavam como financiadores e capacitadores das ações de repressão.  O que se viu no Brasil por longos 21 anos aconteceu no mesmo período, ainda que por menos tempo, na Argentina, no Chile, no Uruguai.  Os níveis de violência, tortura e morte, dos opositores variam bastante, mas os métodos se assemelham.  Vivíamos o mesmo período de trevas e supressão da democracia, em todos os lugares.

Assim como havia o terrorismo de Estado, também se desenvolveu a luta armada de resistência.  O padrão de resposta à opressão também variou muito, mas com elementos comuns.  No caso uruguaio, foram de 12 para 13 anos de ditadura, de 1972 a 1985, e a resistência armada foi protagonizada por um forte e ousado grupo de guerrilheiros urbanos, do movimento de libertação nacional, conhecido como Os Tupamaros.




O filme “Uma Noite de 12 Anos” trata da prisão e sequestro de três membros dos Tupamaros, que estiveram nas mãos dos militares nesse período.  A saber: José Mujica, o Pepe (Antonio de la Torre), que acabaria sendo eleito presidente do Uruguai em 2010, Eleuterio Fernandez Huidoro (Alfonso Tort), que depois foi senador e ministro, e o jornalista e escritor Maurício Rosencof (Chino Darín).

A prisão que eles amargaram por esses 12 anos é algo absolutamente inominável, como mostra o filme do diretor uruguaio, que vive na Espanha, Alvaro Brechner.  A opressão é absoluta, desmedida.  As condições de encarceramento em isolamento, desumanas e degradantes, sem nenhum respeito aos direitos humanos.  Numa situação tal que é um milagre conseguir sobreviver sem elouquecer.

O filme mostra claramente esse dia a dia abominável, em que a tortura psicológica atua e complementa a tortura física, nas condições mais humilhantes que o ser humano pode conceber.  Também mostra os poucos respiros que surgem na convivência humana, mesmo nessas condições.  Inclui imagens de memória, sonho ou imaginação, que aliviam a carga dramática.  Mas faz um retrato da desumanidade que é assustador.

Como foi possível que todo aquele sofrimento pudesse gerar uma figura tão cativante quanto o presidente Pepe Mujica?  É absolutamente incrível!




Assistir a “Uma Noite de 12 Anos” é politicamente recomendável, para entendermos a que ponto pode chegar o autoritarismo de um regime de força.  Ainda que o filme seja sofrido e pesado e não tenha uma intenção de exploração histórica do período, nem faça referência ao que estava acontecendo tão perto quanto o regime de terror de Pinochet no Chile, por exemplo.

 A entrega dos atores às filmagens das condições do cárcere ilegal compõe um retrato realista, que acaba tornando tudo muito claro e didático.  Por se tratar de uma situação extrema, a que nenhum ser humano pode ser submetido.  Mas que continua acontecendo pelo mundo, em meio às guerras e perseguições de toda ordem.  Resta-nos lutar pela preservação da democracia, para que, ao menos, possamos usufruir de um convívio civilizado que respeite a vida, a integridade e a dignidade das pessoas.



quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A FÁBRICA DE NADA


Antonio Carlos Egypto




A FÁBRICA DE NADA.  Portugal, 2017. Direção: Pedro Pinho.  Com José Vargas, Carla Galvão, Dinis Gomes, Américo Silva.  177 min.


Condição necessária para a existência da produção e, consequentemente, do lucro, no sistema capitalista, é a mão de obra geral e especializada, que vem dos trabalhadores.  Em tempos de tecnologia avançada, robótica e que tais, o próprio trabalhador começa a ser dispensável.  Máquinas podem ser eliminadas ou substituídas por equipamentos mais recentes, que chegam a tornar obsoletos a própria estrutura física das fábricas e seu maquinário tradicional.  Ou esse maquinário pode ser deslocado para onde a tecnologia não se sofisticou e que mantém custos de mão de obra tão baixos que se aproximam da escravidão.

Esse é o pano de fundo da história do filme português “A Fábrica de Nada”, dirigido por Pedro Pinho, a partir de ideia original de Jorge Silva Melo, com base na peça The Nothing Factory, da escritora holandesa Judith Herzberg. 

A referência literária não impede que o realizador trabalhe o material fílmico de forma documental, inclusive dedicando o filme aos trabalhadores da Fateleva, que, entre 1975 e 2016, levaram a cabo uma experiência de autogestão na fábrica de elevadores Otis portuguesa.  Experiência que, certamente, inspirou “A Fábrica de Nada”, tanto quanto a peça original holandesa.  Trata-se, de qualquer modo, de uma ficção.




Quando equipamentos da fábrica vão desaparecendo, ou são roubados, à noite, esvaziando as condições de trabalho e produção, seus operários decidem fazer vigílias para impedir que isso continue a acontecer.  A fábrica, porém, para de produzir.  Eles não têm o que fazer e agora são os seus empregos que estão em jogo.  Há um plano evidente de desativar a fábrica e dispensar os trabalhadores.  Eles partem para a greve, recurso histórico e legítimo dos operários.  Mas greve numa fábrica que já parou?

A ideia do roteiro é ótima, muito bem desenvolvida e com um elenco convincente, que nos põe no mundo dessa fábrica estranha que, no entanto, é tão representativa dos dias econômicos atuais.  E, de quebra, reflexões teóricas sobre a presente etapa do capitalismo, que se caracteriza pelo desemprego, vão sendo lançadas ao longo do filme, ilustrando as encenações, ou melhor, dando a elas um caráter mais geral, extrapolando o caso concreto que está sendo mostrado.

Apesar das quase três horas de projeção, o filme flui bem, cria uma situação de expectativa e de suspense que mantém o espectador interessado no que vai ocorrer em seguida.



domingo, 23 de setembro de 2018

O HERÓI E O RELÓGIO


Antonio Carlos Egypto




O RETORNO DO HERÓI (Le Retour du Herós).  França, 2018. Direção: Laurent Tirard.  Com Jean Dujardin, Mélanie Laurent, Noémie Merlant, Christophe Montenez.  92 min.


Um filme de época, comédia de aventura, como se fazia muito, antigamente.  Em que se veem belas roupas, indumentárias militares, locações atraentes, ambientes propícios a batalhas e duelos, romance e o que mais se pode esperar do gênero.  Estamos no começo do século XIX e o herói do título, na verdade, é um trapaceiro, farsante.  Papel que coube ao ator Jean Dujardin, que se notabilizou no filme “O Artista’, de Michel Hazanavicius, de 2011, em que levou o Oscar de melhor ator.  Ele empresta um charme ao papel, que acaba compensando pela simpatia o que falta ao caráter do personagem Capitão Neuville.

Sua parceira e contraponto nessa história é Elizabeth, papel de Mélanie Laurent.  Essa mulher é forte, decidida e chega a fazer um discurso pela igualdade de pagamentos entre homens e mulheres.  Visto em plena campanha presidencial atual soa engraçado.  Tem candidato com mentalidade que já não caberia no século XIX.  Imagine no XXI!

Claro que o filme “O Retorno do Herói” focaliza a época, mas se dirige ao presente.  Afinal, foi feito agora, tem de respirar seu momento de realização.

O diretor Laurent Tirard é o mesmo do competente “As Aventuras de Molière”, de 2007.  Fez também os infantis “O Pequeno Nicolau”, de 2009, e “As Férias do Pequeno Nicolau”, de 2014.  E, ainda, “Asterix e Obelix: A Serviço de Sua Majestade”, de 2012.  É um cineasta que sabe produzir diversão e entretenimento.





O MISTÉRIO DO RELÓGIO NA PAREDE (The House With a Clock in Its Walls).  Estados Unidos, 2018.  Direção: Eli Roth.  Com Jack Black, Cate Blanchett, Owen Vaccaro.  106 min.


“O Mistério do Relógio na Parede” é uma história infantojuvenil, de John Bellairs (1938-1991), que mistura magia, bruxaria, aventura e terror, de forma bem dosada, e, claro, cheia de efeitos especiais, que deve agradar a garotada.  Provavelmente, dará origem a uma série de filmes, já que ele é o primeiro volume de  As Aventuras de Lewis Barravelt.  Os outros títulos  são: Um Vulto na Escuridão  e  A Carta, a Bruxa e o Anel”.

O garoto Lewis (Owen Vaccaro), de 10 anos, perde os pais em um acidente e vai viver com o tio Jonathan (Jack Black) e a sra. Zimmermann, papel da ótima Cate Blanchett.  Sua vida se transforma desde o momento em que penetra na estranhíssima e empetecada mansão do tio mágico.  Relógios por todo lado e uma quantidade de apetrechos que se movimentam, com destaque para uma poltrona cheia de atividades, farão parte da rotina de Lewis, que mergulha encantado nesse universo.

Começa a aprender a praticar certos poderes.  Mas é aí que mora o perigo.  Até mortos podem levantar de seus túmulos e só com muita coragem e espírito de aventura para sobreviver a partir daí.



terça-feira, 18 de setembro de 2018

AS HERDEIRAS

Antonio Carlos Egypto




AS HERDEIRAS (Las Herederas).  Paraguai, 2018.  Direção e roteiro: Marcelo Martinesse.  Com Ana Brun, Margarita Irún, Ana Ivanova.  98 min.


Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), juntas há 30 anos e já em idade avançada, dependem da venda de seus bens, herdados das famílias abastadas de ambas, para sobreviverem com dignidade.  Ainda que não consigam manter o padrão sofisticado da classe alta de Assunção de origem.  Elas têm uma relação homoafetiva aparentemente tranquila e as coisas caminham razoavelmente bem, apesar dos contratempos atuais.

Dívidas não quitadas, porém, produzirão uma separação que dará origem a novas possibilidades e, quem sabe, desejos que se renovem.  No meio disso, um modelo de transporte particular, ao estilo Uber, tem um grande peso na trama.




O filme paraguaio é audacioso na abordagem, apesar da aparência convencional e do ambiente discreto que cria.  Tem uma narrativa bem construída, atrizes competentes, que dão o tom preciso às personagens e às situações.  Tudo se passa em tom baixo, sem grandes sobressaltos.  Mas a vida muda.  E não é fácil reconhecer e aceitar isso.  É um desafio que pode aparecer em qualquer momento da existência.  Mesmo após um longo tempo de convívio, cuidadosamente protegido.

O modesto cinema paraguaio, de poucas produções anuais e dependente do apoio de coproduções, como é o caso dessa, com Alemanha, Brasil e Uruguai, mostra aqui uma realização cinematográfica de peso, premiada em Berlim e Gramado.  E que também pode ser vista como uma metáfora da elite de seu país, segundo o diretor, Marcelo Martinesse.



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A VIDA EM FAMÍLIA

Antonio Carlos Egypto






A VIDA EM FAMÍLIA (La Vita in Comune).  Itália, 2017.  Direção: Edoardo Winspeare.  Com Gustavo Caputo, Antonio Carluccio, Claudio Giangreco, Celeste Casciaro, Alessandra de Luca.  110 min.


Uma pequena comunidade no sul da Itália, em que todos se conhecem e têm laços, experiências em comum, é algo que pode ser equiparado a uma grande família.  Ainda assim, chamar a comédia “La Vita in Comune” de “A Vida em Família” não corresponde ao que se vê na tela.

Disperata, a comunidade, reúne muitos tipos desencontrados consigo mesmos, que não se sentem parte integrante de um contexto social harmonioso.  Ao contrário, todos parecem estar fora do lugar, à procura de algo que lhes falta, ou com o que se identifiquem. 

A estreiteza do pequeno mundo onde vivem não lhes permite grandes voos, exceto os imaginários.  Um prefeito poeta, incompetente no cargo, busca se realizar por meio de discussões literárias com um pequeno grupo de presos.  Mirabolante tentativa de assalto, que acaba em violência contra um cão, produz complicações inúteis e uma culpa insuperável.  E assim, a comédia rola solta.

Um roteiro muito competente, atores talentosos e com ótimo timing  para o humor, uma direção que trabalha o clima provinciano da localidade com graça e sutileza, fazem de “A Vida em Família” um programa cinematográfico muito bem feito, leve e divertido.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

INDIE 18


Antonio Carlos Egypto




Já está rolando em São Paulo o 18º. Festival Indie de Cinema, que reúne a produção mundial autoral, experimental, e busca inovações que se distinguem da produção comercial, dos grandes estúdios.  Há, como sempre, filmes provocadores, estranhos, inteligentes, inovadores no uso das câmeras.  Nesse 18º.  ano a mostra está mais enxuta e mais curta.  Como todo mundo sabe, a crise é brava.  Mas é importante que a experiência não seja interrompida.  E o Cinesesc é o local onde esse Festival está acontecendo.  Um dos melhores cinemas da cidade e que tem uma programação invejável, ao longo de todo o ano.  O SESC, a Zeta Filmes e a Japan Foundation, são os promotores da presente edição do Indie, que vai até 19 de setembro.

Um belo filme, exibido na abertura do Festival, é o japonês  ASAKO I &II .  Uma história de amor intensa e inusitada.  A Asako do título se apaixona pelo jovem Baku, que é bonito e charmoso, mas instável e pouco confiável.  Tanto que some, deixando interrompida a relação.  Asako segue sua vida e acaba encontrando um outro jovem, Ryohei, com o mesmo rosto de Baku, e se apaixona por ele.  Esse é uma figura doce e dedicada.  Mas será por ele mesmo ou pela imagem do antigo amor?  Uma história de dois amores, filmada num clima que revela a necessidade da honestidade nas relações de amor e de amizade, com um humor delicado e sutil e uma protagonista encantadora.  Direção de Ryusuke Hamaguchi, que em 2015 fez “Happy Hour”, um filme com mais de 5 horas de duração.  Este tem apenas 119 minutos.  Que bom!




Por falar em longa duração dos filmes, esse Indie está batendo recordes: o filme chinês “Um Elefante Sentado Quieto”, de Hu Bo, tem 230 minutos de duração.  O argentino “La Flor”, de Mariano Llinás, tem nada menos do que 808 minutos, ou seja, quase 14 horas de duração, a ser exibido em três partes, em dias diferentes.  Não vou me dar ao trabalho, mas conheço gente que até já comprou os ingressos.

Uma vez mais, tem filme novo do importante diretor filipino Lav Diaz, que costuma fazer filmes com 7 ou 9 horas de duração.  O atual pode até ser chamado de curta – só tem 4 horas de duração.  Assisti a quase metade dele e desisti.  Não que o filme não fosse bem feito, não fosse atual e, mesmo, original: uma ópera rock sobre a opressão do país na ditadura de Ferdinando Marcos.  Mas as quase duas horas que eu vi poderiam ser reduzidas facilmente à metade do tempo, sem perda de conteúdo nem de clima.  Então, para que esticar a corda deste jeito?  Só para tomar o tempo do espectador?  Para evitar uma edição apropriada, buscando ser diferente?  Para tornar a comercialização mais difícil?

Essa tendência à longuíssima duração não me atrai, não me parece, de modo algum, necessária ou apropriada.  Não se trata de submeter-se aos tempos comerciais, mas de buscar adequar a narrativa à realidade da vida das pessoas.  Quem é que pode passar tantas horas no cinema, para ver dois ou três filmes?  E por que alongar tanto as sequências, se não há mais nada a mostrar ou a acrescentar?  Em alguns casos, uma prolongada contemplação se justifica, mas isso virar tendência, moda, não faz sentido.  Ao menos para mim.

O Indie 2018 tem muitas atrações com tempo menor, que merecem atenção.  Vamos a elas.  E quem gostar de longuíssimos filmes que desfrute.  Confira aqui:  www.indiefestival.com.br

  


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

DROPES CINEMATORÁFICOS


Antonio Carlos Egypto



      O documentário brasileiro de 2018, de Sílvio Da-Rin, MISSÃO 115, resgata uma ação terrorista promovida pelo próprio Estado, na ditadura militar: o atentado do Rio – Centro, em 1º. de maio de 1981.  Um show musical teria se tornado uma tragédia que, ainda por cima, seria atribuída a grupos de esquerda.  Só que a bomba explodiu no colo dos militares que tentavam impedir a abertura democrática, com ações como essa.  Missão 115 é o nome atribuído à suposta “operação de vigilância” pelo DOI-CODI, o órgão de repressão do Exército, na época.  O documentário incorpora informações recentes colhidas pela Comissão Nacional da Verdade.  Indispensável, especialmente para que os mais jovens possam entender e avaliar melhor aquele período terrível da história brasileira recente.  87 min.



Yonlu


·         Yonlu (Vinícius), adolescente gaúcho de nível econômico familiar alto e de formação cultural sofisticada, viveu parte da infância em Paris.  Em Porto Alegre, desenvolveu um talento musical, tocando instrumentos, compondo canções em inglês, gravando, registrando e salvando tudo em seus equipamentos.  Deixou para a prosperidade uma obra musical relevante, além de desenhos e registros escritos de sua vida, que se encerrou, muito precocemente, aos 16 anos de idade, por suicídio.  Jovem solitário, vivia num mundo virtual, em que encontrou um grupo de estímulo ao suicídio, de que se valeu em sua decisão planejada, estudando meios e métodos para isso, até chegar ao final trágico, em 2006.  YONLU, o filme brasileiro de Hique Montanari, de 2017, conta essa história de forma poética, a partir do próprio e amplo material deixado por Yonlu, que possibilitou o uso tanto de música quanto de animação, utilizando também recursos visuais opacos e depressores, para mostrar o aspecto sombrio dessa vida e de seus relacionamentos virtuais.  É um belo trabalho, que mostra sem julgar.  O papel do psicoterapeuta serve para tentar entender o que se passava com o adolescente e as circunstâncias que poderiam explicar o suicídio.  O desempenho do jovem gaúcho Thalles Cabral, também músico, no papel de Yonlu, é um achado.  90 min.


·         Na França profunda, que se identifica com o radicalismo da extrema direita, a homossexualidade não tem cabida, nem nenhuma compreensão.  Isso produz um ambiente não só preconceituoso, mas hostil, agressivo, para um menino que tenha traços ou atitudes classificadas como femininas, por exemplo.  Um mundo fechado e grosseiro, que produz sofrimento e bloqueia a expressão humana.  É preciso que alguém, um educador com alguma sensibilidade, ajude o “diferente” a se reinventar.  A partir da própria identidade.  Só por aí pode haver saída.  MARVIN, da diretora Anne Fontaine, de 2017, nos coloca em cheio na vida do menino hostilizado e do jovem que se reinventa, transformando em arte seu sofrimento, alternando e integrando esses movimentos – e sentimentos.  Essa é uma forma muito apropriada de combater a homofobia, aproximar para produzir a empatia do espectador com o personagem.  MARVIN é muito eficiente nisso, um filme sensível e bem construído.  Com Finnegan Oldfield, Grégory  Gadebois, Vincente Macaigne, Catherine Salée.  Participação especial de Isabelle Huppert.  115 min.



Você nunca esteve realmente aqui


·         VOCÊ NUNCA ESTEVE REALMENTE AQUI (You Were Never Really Here), de 2018, é um filme da diretora escocesa Lynne Ramsay, do ótimo “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, de 2011.  O que já é uma recomendação impecável.  Ela sabe filmar muito bem, seus movimentos de câmera, enquadramentos, ângulos, detalhes, imagens cortadas e truncadas, criam um clima de suspense e mistério absolutos.  O filme se faz só de indícios, nunca é possível saber o que de fato está acontecendo, nem os personagens sabem.  Isso torna a experiência estranha e fragmentada, para o espectador.  Vai incomodar, mas é bom cinema.  Joaquin Phoenix brilha como protagonista do filme.  89 min.


·         O BANQUETE, novo filme de Daniela Thomas, é, segundo ela própria, uma tragicomédia de costumes.  Em torno da mesa, uma comemoração de casamento reúne poucas pessoas, mas lá estão amigos, inimigos, ex-parceiros, e um relacionamento corrosivo se impõe.  Num ambiente sofisticado de gente do mundo artístico e da área de comunicações, eivado de erotismo, assédio e sedução, os jogos de poder se estabelecem.  Até aí, muito bem.  Ocorre que algumas das figuras mostradas se inspiram, tanto fisicamente quanto em comportamentos e situações, em pessoas públicas muito conhecidas.  E aí fica a questão: houve a intenção de identificá-las?  Por quê?  Essa fulanização e a menção explícita ao então presidente Collor enfraquecem um pouco a ideia do filme.  Particularizam um contexto, quando seria melhor generalizá-lo.  Produção brasileira de 2018.  Com Drica Moraes, Mariana Lima, Bruna Linzmeyer, Caco Ciocler, Clay Suede, Rodrigo Bolzan.  104 min.