domingo, 17 de maio de 2026

SURDA

 

   Antonio Carlos Egypto

 




 SURDA (Sorda).  Espanha, 2025.  Direção e roteiro: Eva Libertad.  Elenco: Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta, Joaquín Notario.  100 min.

 

“Surda”, produção espanhola, coloca como o próprio nome do filme evidencia, a questão da surdez em destaque.  O filme é escrito e dirigido por Eva Libertad, que é irmã da atriz principal, Miriam Garlo.  O papel da protagonista, que é mesmo surda, mostrou um desempenho extraordinário, reconhecido pelo prêmio Goya, o Oscar espanhol, e também no festival de Berlim e no prêmio Latino.  O ator Álvaro Cervantes, ouvinte como seu personagem no filme, também foi premiado por sua ótima atuação.

 

A trama ficcional de “Surda” mostra um casal: Ângela (Miriam Garlo), surda, e Hector (Álvaro Cervantes), ouvinte.  Eles vivem bem e amorosamente com as naturais dificuldades de comunicação, bem resolvidas pelo empenho e dedicação de Hector.  Há os amigos e parentes que também convivem bem com isso.  A questão começa a se colocar de forma mais crítica quando Ângela engravida.  A primeira pergunta que se coloca: a criança será ouvinte ou surda?  Não há uma resposta imediata, ela se dará no nascimento. 

 

E como Ângela será como mãe?  Antes disso, como se fará o parto normal recomendado ao caso?  O som tem um peso enorme nisso tudo.  O filme, por sinal, é absolutamente brilhante no tratamento de som, tudo é destacado e apurado com legendas descritivas detalhadas na tela para os espectadores com deficiências auditivas.

 


Uma sequência magnífica nos mostra o que Ângela, no seu mundo silencioso, está vivenciando e sentindo, enquanto as ações se sucedem.  Tecnicamente perfeito o trabalho, que nos permite fazer empatia com a personagem e entendê-la a fundo.

 

O fato é que conflitos serão inevitáveis, porque a questão nem é a de possibilidades de entendimento por boa vontade pessoal.  O mundo é todo moldado para existir no som, na fala, no diálogo, nas discussões e decisões verbalizadas.  Os sons também nos alertam, nos envolvem, nos direcionam.  Possibilitam uma autonomia que é bem mais difícil para as pessoas com deficiências auditivas.  O que se complica ainda mais na condição de mãe.

 

A maternidade será um grande desafio para Ângela, para seu parceiro, para sua família e, é claro, para os cuidados e para a educação do bebê. Tudo se desorganiza mais com a maternidade e as comunicações se tornam uma batalha a ser vencida diariamente.  As emoções se põem à flor da pele.

 

O filme mostra isso com clareza, com sensibilidade e expressão emocional muito valorizada pelo excelente elenco que compõe “Surda”.  A também premiada diretora Eva Libertad mostra grande competência nesse trabalho que a revela ao público internacional.





quinta-feira, 7 de maio de 2026

2 BRASILEIROS

Antonio Carlos Egypto

 

 


ECLIPSE.  Brasil, 2025. Direção: Djin Sganzerla.  Elenco: Djin Sganzerla, Sérgio Guizé, Lian Gaia, Selma Egrei, Helena Ignez.  109 min.

 

Djin Sganzerla, diretora, roteirista (com Vana Medeiros), atriz e produtora de “Eclipse”, mostra-se uma mulher de vários instrumentos (aliás, como sua mãe, Helena Ignez).  O filme é um suspense que tem como protagonista Cleo (Djin Sganzerla), astrônoma, que está grávida e recebe uma visita inesperada, a de sua irmã indígena, Nalu (Lian Gaia), que não via há muitos anos e com quem tem diversos conflitos.  Enquanto isso, seu marido, atencioso e amoroso, vai revelar algo que a desconcerta.  Na verdade, será descoberto em sua monstruosidade, com a ajuda da irmã.  Uma onça que arregala os dentes circula pelo filme, anunciando coisas que exigirão muito de Cleo.  O importante nesse filme é que o suspense se sustenta totalmente em questões femininas, como a gravidez, o aborto, misoginia, abuso sexual, estupro coletivo de menor, o que leva a narrativa ao crime, riscos e perseguições num bom ritmo cinematográfico.  O céu que nos envolve e seus eclipses que são tão marcantes, sobretudo à noite, testemunham coisas terríveis, assustadoras.  Há que enfrentá-las.

 



EU NÃO TE OUÇO.  Brasil, 2025.  Direção: Caco Ciocler e Isabel Teixeira.  Com Márcio Vito, que interpreta os dois personagens que protagonizam o filme.  72 min.

 

A situação retratada em “Eu Não Te Ouço” é bastante estranha, no entanto, bem representativa do momento político brasileiro.  Não é que as pessoas discutam, discordem, até briguem por suas crenças e figuras que apoiam.  É que parece não haver conversa possível.  Ninguém ouve o outro.  Parece que há uma barreira intransponível que separa dois mundos.  E se não se consegue sequer ouvir o outro lado, que acordo poderá existir?  Cordialidade e respeito estão fora de cogitação.  Em “Eu Não Te Ouço”, em novembro de 2022, pouco após as eleições presidenciais, um caminhoneiro se nega a parar e contribuir para uma barreira na estrada, em protesto pela eleição e de apoio ao candidato derrotado, Jair Bolsonaro.  Um manifestante todo vestido de verde e amarelo, com a camisa de manga comprida da seleção brasileira, se agarra à frente do caminhão para impedir que o veículo siga.  Mas ele segue e por muitos quilômetros.  Enquanto isso, um repórter cinegrafista, que já estava iniciando uma conversa com o caminhoneiro, os acompanha, conversando, ora, com um, ora, com outro.  Mas ambos não se entendem, ou melhor, nem se escutam.  O vidro dianteiro do caminhão é a barreira que impede isso.  Além do barulho do vento.  É uma alegoria que o diretor Caco Ciocler e a diretora Isabel Teixeira exploram, para nos mostrar por onde andamos neste país. 




sexta-feira, 1 de maio de 2026

NINO

       Antonio Carlos Egypto

 



NINO, DE SEXTA A SEGUNDA (Nino).  França, 2025.  Direção: Pauline Loquès.  Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, participação Mathieu Amalric.  96 min.

 

Nino, o personagem central do filme homônimo de Pauline Loquès, é o que se poderia caracterizar como uma personalidade fleumática.  Ou seja, uma pessoa que, pelo menos aparentemente, se comporta como calma, serena, impassível e que pode ser vista como apática, sem reação ou lenta nas reações.  É com essas características que o excelente jovem ator Théodore Pellerin compõe Nino, que viverá uma experiência avassaladora no final de semana em que completa 29 anos de idade.

 

Tudo acontece com ele, sem que ele desabe nem resolva adequadamente as questões que lhe aparecem.  Nino não consegue pedir ajuda, abrir o coração, não quer incomodar ninguém, e diante das dificuldades nega ou contorna a situação.  Ou simplesmente espera e suporta.

 

É o tipo que não se surpreende nem com uma festa surpresa no seu aniversário.  Também, pudera, foi nessa data que ele, ao buscar o resultado de exames de rotina, descobre que está com câncer na garganta, decorrente de uma doença sexualmente transmissível, o HPV, contaminado anos atrás.  Bom cidadão, ele não esquece de deixar um recado escrito num cartão para sua ex-companheira sexual, mas quando se encontra pessoalmente com ela, nada diz a respeito da doença, nem do cartão que já lhe deixou.

 


Nino demonstra ser tímido, porém, sociável, tem muitos amigos que acabam por ajudá-lo sem que ele peça.  Trata todo mundo bem, tem carinho com a mãe, mas também não se abre com ela.  Do pai tem lembranças e dúvidas quanto à sua morte (a dele), tentando se entender melhor nesse momento difícil pelo qual passa. 

 

Um dos gargalos do seu fim-de-semana em meio aos problemas é que perdeu a chave do apartamento, ou fechou-o com ela dentro.  Isso determina muito do que acontece de sexta até a segunda, quando Nino deve iniciar seu tratamento oncológico.  Fiquei me perguntando se em Paris no fim-de-semana não há chaveiros disponíveis, já que o zelador não estava e provavelmente nem teria essa chave.  Se existia, ele não foi atrás.

 

Enfim, são muitos contratempos e situações inesperadas que vão transformar a vida de Nino por inteiro.  Com seu jeito pacífico, afetivo e caloroso, sua vida poderá resistir aos problemas de saúde tão graves que o aguardam?  Ser uma figura fleumática pode fazê-lo viver melhor a situação e sofrer menos? 

 

Nino é um personagem que produz uma identificação muito fácil com o espectador.  Que pode se incomodar com o seu jeito de ser, mas torce por ele (como os personagens que com ele convivem no filme).  Mérito de uma direção leve e sutil, ancorada num ator surpreendentemente bom, que recebeu vários prêmios de revelação e que, de fato, segura o filme muito bem.

 


A narrativa de “Nino” foi inspirada pela realidade de um bom número de jovens que passam por circunstâncias semelhantes sem terem noção do que pode estar acontecendo e sem sintomas suficientes para servirem de alerta.  E foca no momento em que a realidade se impõe e é preciso lidar com ela.  Cada qual o fará de acordo com sua personalidade, seus recursos e o atendimento que políticas públicas de saúde oferecem à população.

Estreia nos cinemas prevista para 7 de maio.



 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A SOMBRA DE MEU PAI

                  

Antonio Carlos Egypto


 



A SOMBRA DE MEU PAI, de Akinola Davies Jr., da Nigéria e Reino Unido, 2025, participou da competição Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Recebeu o prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional e o prêmio Brada de Melhor Direção de Arte. É um filme envolvente, humano, terno e, ao mesmo tempo, firme e realista na avaliação política.

 

Em Lagos, na Nigéria, um pai que tem estado muito ausente tem a oportunidade de conviver com seus filhos, levando-os com ele à cidade grande, onde espera receber salários atrasados a que tem direito.  

 

As eleições presidenciais tinham acabado de acontecer, mas os resultados esperados não tinham sido proclamados.  Com a esperança de melhoria de vida com o novo governo, eles conhecem a resposta quando ainda estão na metrópole e tentam voltar à sua vila em paz.  Só que a agitação política já se instalou.  

 

Um filme que, com um elenco muito bom, explora bem o clima afetivo que aproxima pai e filhos, as agruras da vida que se dissolvem em pequenos bons momentos, a esperança que sempre existe e a sofrida democracia do nosso tempo.  94 min.

 

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

ESTRANGEIRO e VENCEDORES

  Antonio Carlos Egypto

 


O ESTRANGEIRO (L’Étranger”).  França, 2025.  Direção: François Ozon.  Elenco: Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lotin, Swann Arlaud.  122 min.

 

O Estrangeiro, importante romance existencial de Albert Camus (1913-1960), já se tornou filme em 1967, sob a direção de Luchino Visconti, com Marcello Mastroianni no papel principal.  Retomar essa obra-prima da literatura pelo cinema agora parece, então, uma atitude no mínimo muito ousada.

 

Quem encarou isso foi François Ozon, que não é nenhum Visconti, mas é um dos mais importantes cineastas franceses da atualidade.  Seu protagonista é o jovem e talentoso Benjamin Voisin.  Mas ninguém vai querer compará-lo com Mastroianni, um dos maiores atores do cinema de todos os tempos.

 

 Bem, então, vamos ao personagem principal, Mersault, apático, que não expressa emoções, vive num mundo interior árido, sem entusiasmo ou interesse pelo amor, pela vida e mesmo pela morte. 

 

Nada o abala, nem a morte da mãe, de que ele vai cuidar sem sofrimento aparente, dor ou choro.  Ou do encontro afetivo -- sexual – que o une momentaneamente a Marie (Rebecca Marder), o que entusiasma mais a ela do que a ele.  No entanto, esse personagem vai cometer um assassinato, de um árabe, numa praia de Argel, sem motivo aparente.  Isso acarretará um julgamento em tribunal, em que Mersault, como na vida, jamais mentirá.

 

Um francês na Argélia dos anos de 1930, envolto pelo colonialismo, está sendo julgado.  E, com ele, o ambiente político da época.  Quanto às mulheres, elas assumem um protagonismo maior no filme de Ozon.  E para que tudo soe verdadeiro, nada melhor do que a filmagem em preto e branco, que o diretor escolheu acertadamente.

 

O filme é bonito, tem o ritmo certo para que possamos viver a experiência com o protagonista bem de perto.  Com calma e sorvendo as surpresas dessa personalidade tão intrigante e introspectiva.

 

Vale a pena conferir a nova versão de “O Estrangeiro”, mas não deixe de ver também a versão de Luchino Visconti, caso você não a conheça.

  





DOCS VENCEDORES

Os documentários, vencedores oficiais pela definição dos júris do Festival É TUDO VERDADE 2026, estão automaticamente classificados para a disputa do Oscar de docs, curta e longa metragem.  Foram eles:

Internacionais

Longa: UM FILME DE MEDO (Una película de miedo), Espanha, Portugal.  Dirigido por Sérgio Oksman.  72 min.  Um documentarista e seu filho de 12 anos experimentam o medo, mas as relações pais e filhos, atuais e passadas, tomam conta da narrativa.  Bom trabalho.

Curta: SONHOS DE APAGÃO (Sueña Ahora), Cuba, Itália, dirigido por Gabriele Luchelli, Francesco Lorusso, Andrea Settembrini.  20 min.  Aborda a vida possível e os sonhos que são vividos pelos cubanos nos apagões.  Trabalho espetacular com a luz.

Nacionais

Longa: SAGRADO, de Alice Riff, 90 min., sobre uma escola pública de Diadema,SP, integrada à comunidade por lutas passadas, vista pelos olhos de seus trabalhadores: professores, merendeiras, seguranças, etc., que emergem como tipos humanos muito interessantes.

Curta: ARCOS DOURADOS DE OLINDA, o sensacional trabalho de Douglas Henrique, que, em 24 minutos, conta a história da Guerra Fria refletida em Olinda, numa disputa acirrada entre duas mulheres pela Prefeitura, enquanto o McDonald’s entra em falência pela primeira vez no mundo, na histórica Olinda, em Pernambuco, no centro do Brasil. Irônico e brilhante, venceu, além do prêmio oficial, mais três prêmios, pela APACI (Associação Paulista de Cineastas), Canal Brasil e Mistika.

Douglas Henrique





quinta-feira, 16 de abril de 2026

DOCS NACIONAIS


Antonio Carlos Egypto

 

O documentário brasileiro vem mostrando sua força na 31ª. edição do É TUDO VERDADE 2026, que vai até 19 de abril, em novos trabalhos e revisitando êxitos que já se tornaram clássicos.  Vou comentar mais alguns docs nacionais que vi no Festival.

 

com Baby do Brasil

Começando por APOCALIPSE SEGUNDO BABY, de Rafael Saar.  Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo) é uma cantora muito boa, expressiva, talentosa.  E que tem uma audácia que é reveladora de uma autoconfiança e de uma autoestima que ela atribui a Deus, ao seu misticismo, à sua dimensão cósmico-telúrica.  Tudo bem.  Crenças cada um tem as suas.  Só que a figura forte, exibida, exagerada, às vezes ofusca o talento musical.  O presente documentário procura dar conta desses dois aspectos.  E se sai bem.  Não deixa de enfatizar o que foi o brilho dos Novos Baianos, que ela integrou, da dupla com Pepeu, nem o de sua carreira solo, posterior.  Importante: mostra o seu relacionamento musical com a nata da música brasileira, de Ademilde Fonseca a João Gilberto, passando por Elza Soares, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal, Bethânia e muitos mais.  Além do espírito de Janis Joplin.  São muitas e ótimas influências.  Quanto aos excessos, deixa pra lá.  Mas vai aqui um exemplo.  Pedi a ela uma pose para uma foto que ilustraria essa matéria.  Foi essa.  110 min.

 


Carlos Adriano dirigiu um longa radical e experimental, que eu achei magnífico, sobre, vejam só, Marcel Proust (1871-1922) e a possibilidade ou impossibilidade de filmar sua obra monumental “Em Busca do Tempo Perdido”, escrita entre 1906 e 1922.  E faz uma colagem bem trabalhada de imagens de arquivo, inclusive do próprio Proust e da alta burguesia francesa a que ele pertencia.  Faz superposições, avanços e recuos, montagem com filmes famosos, letras em preto e branco e coloridas na tela, um caleidoscópio rodante, etc.. E muitas frases, citações e pequenos textos, não só de Proust, mas de outros autores que, com as ideias dele, se acoplam.  Aliás, trabalhou bastante a associação de ideias, conceitos, imagens e até manuscritos da época.  Vai encontrando soluções para que Proust possa ser filmado, lido e compreendido, com humor também.  Tem uma sequência longa com Carmem Miranda e o seu bananal hollywoodiano.  Tem “Um Corpo que Cai”, Orson Welles, Deleuze, Machado de Assis, Roberto Machado, Drummond...  Enfim, uma mistura e associação fenomenais.  Claro que é um filme para poucos, mas PROUST PALIMPSETO: PASTICHES E MISTURAS é um belo trabalho.  103 min.

Do mesmo diretor, também foi exibido o curta SEM TÍTULO#11: UM ANACLETO À MULA, em que uma mula é o centro da ação, assim como o filme de Robert Bresson, de 1966, que tinha como protagonista um burro.  Também aqui Carlos Adriano acopla frases, textos literários e combinações de imagens de forma bem criativa.  27 min.

 

Carlos Adriano ao microfone

RETIRO, A CASA DOS ARTISTAS, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, visita a instituição centenária do Rio de Janeiro que acolhe trabalhadores da cultura brasileira na velhice.  E nos mostra como são, como vivem, o que pensam diversas figuras que lá estão, usufruindo de uma vida digna, ainda que com poucos recursos materiais.  O toque do artista faz toda a diferença, transforma a simplicidade em poesia e beleza.  E os sonhos em cenários teatrais deslumbrantes, como lembrou Stepan Nercessian, dirigente da casa.  95 min.

 

Gostaria de mencionar também o curta ARCOS DOURADOS DE OLINDA, de Douglas Henrique, que com humor e ironia nos relata a disputa entre duas mulheres pela prefeitura da cidade, em 2000, vencida pela comunista, do PCdoB, Luciana Santos, depois reeleita, enquanto o McDonald’s se instalava na cidade, provocando inicialmente filas, como aconteceu no resto do mundo.  Porém, Olinda foi, segundo o filme, a única cidade do mundo onde o McDonald’s faliu.  Por isso mesmo, Olinda, a capital do centro do Brasil, Pernambuco, se revelou uma cidade extraordinária no mundo.  Mas o Douglas garante que não é bairrista.  24 min.

 

Missão 115

Para terminar, eu gostaria de citar e recomendar um dos grandes documentários já feitos no Brasil, MISSÃO 115, de Sílvio-Da-Rin, de 2018, que se debruça sobre o período em que, por meio de bombas enviadas pelo correio e com o atentado ao show de 1º. de maio de 1981, no Rio Centro, revelou-se por inteiro o terrorismo de Estado praticado durante a ditadura militar.  Afinal, a bomba explodiu no colo do militar que faria o atentado, planejado para produzir um caos, com portas fechadas a cadeado, para ser imputado à esquerda.  Essa era a tal missão.  Quem não viu, não perca.  Fundamental para entender a história brasileira recente e mesmo atual.  87 min.

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domingo, 12 de abril de 2026

DOCS EM DESTAQUE

 

   


Antonio Carlos Egypto

 

Quero registrar aqui alguns filmes já vistos no Festival Internacional de Documentários É TUDO VERDADE 2026.  O filme de abertura em São Paulo, BOWIE: O ATO FINAL, dirigido por Jonathan Stiasny, do Reino Unido, faz uma abordagem muito adequada da vida artística de David Bowie (1947-2016).  Mostra sua trajetória marcada pela busca constante de inovações e rupturas, numa inquietação artística muito clara.  O retorno era sempre uma nova expressão musical e artística, em que o cinema teve também papel importante.  O filme deve ter lançamento comercial oportunamente.  90 minutos.

 


Com Luiz Zanin consultando a programação do festival



Gostei muito também do documentário sueco, TÚMULO DE GELO, dirigido por Robin Hunzinger.  Ele conta uma história fantástica que remonta ao final do século XIX, quando, em 1897, três homens encararam uma viagem num balão de hidrogênio gigante, com vistas a alcançar o até então inexplorado e inacessível Polo Norte.  Registraram sua façanha em diários escritos e fotos que sobreviveram no gelo e foram encontrados em 1930, 33 anos depois da jornada histórica.  O filme é esclarecedor e muito bem documentado.  Mostra como foi construído, em plena neve, durante anos, o centro lançador do enorme balão e reconstrói a tentativa de volta dos exploradores.  São imagens que fluem e nos envolvem nessa história espetacular.  78 minutos.

 

Com o documentário brasileiro FERNANDO CONI CAMPOS: CADA UM VIVE COMO SONHA, de Luís Abramo e Pedro Rossi, aprendi sobre esse grande cineasta contador de histórias.  Que nasceu em 1933, mas morreu cedo, em 1988, sem tempo para que sua chama artística pudesse se solidificar e ser melhor reconhecida.  A história desse baiano que circulou pela intelectualidade paulistana e pelos meandros cariocas, deixando também um trabalho como escritor e cineasta que cultivava a dramaturgia popular, soa bela e sedutora neste doc..  E chama a atenção para seus filmes inovadores, como “Viagem ao Fim do Mundo” (1968) e “Ladrões de Cinema” (1977).  89 minutos.

 

Luiz Zanin e Mária do Rosário Caetano na Cinemateca

O documentário polonês DESFECHO já é mais angustiante.  Dirigido por Michal Marczak, acompanha a obcecada busca de Daniel pelo seu filho Chris, desaparecido aos 16 anos.  Entende-se muito bem a sua dor, mas é aflitivo perceber que essa busca se tornou a única causa de sua existência, que nunca pôde parar, ao longo de anos, esquadrinhando o rio Vístula, no sul de Varsóvia, e todas as possíveis pistas por seu encontro.  105 minutos.

 

Já o documentário brasileiro A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO investe na brincadeira.  A diretora Eliza Capai deu vez e voz às meninas de uma pequena cidade do interior do Piauí, que aos 10, 11 anos, pensam sobre as questões femininas e a chegada da adolescência.  Seus pensamentos refletem ainda uma ideia do homem como o gigante da mulher, mas suas reflexões divertidas trazem muita verdade sobre o machismo estrutural, a saída da miséria, Deus, o medo da morte e muito mais.  70 minutos.

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quarta-feira, 8 de abril de 2026

PAI MÃE IRMÃ IRMÃO

 

Antonio Carlos Egypto




                             


PAI MÃE IRMÃ IRMÃO (Father Mother Sister Brother), produção Estados Unidos/ Irlanda/ França, 2025, dirigido pelo veterano e brilhante cineasta Jim Jarmusch, levou com muitos méritos o Leão de Ouro em Veneza.  O filme trata de relacionamento familiar, pais e filhos e irmãos, todos adultos, por meio de três histórias, uma, nos Estados Unidos, outra, na Irlanda, em Dublin, e outra em Paris, na França.  Em comum, o clima estranho e irônico que Jarmusch imprime às situações.  Aqui, as coisas não fluem, o formalismo impede a espontaneidade, a sem-graceza toma conta dos relacionamentos familiares.  Tudo soa estranho, algo inesperado, falso, de aparências.  Muito curioso.  Mostra o diretor em plena forma, fiel a seu estilo.  Apoiado por um elenco espetacular: Tom Waits, Adam River, Charlote Rampling, Cate Blanchet, Mayim Bialik, Vicky Krieps e outros.  Comédia muito inteligente e crítica.  110 min.

 

Com Amir Labaki

 

É TUDO VERDADE.  A oportunidade de acompanhar o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade (It’s All True) 2026, de 09 a 19 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com todas as sessões gratuitas, é um presente para a população.  O Festival, coordenado por Amir Labaki, tem demonstrado, ao longo de 30 anos (está é a 31ª. edição), um nível de qualidade magnífico.  É uma janela para a compreensão do que anda se passando no mundo e no Brasil também.  A seleção é sempre muito criteriosa.  Basta lembrar o selo de “Qualifying Festival” da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que classifica os filmes vencedores do É Tudo Verdade para a disputa do Oscar de Documentários, longas e curtas.  Pretendo acompanhar essa edição e comentar alguns filmes por aqui.  Mas quem puder já se prepare para ir ao Cinesesc, à Cinemateca Brasileira, ao IMS – Instituto Moreira Salles ou ao Centro Cultural São Paulo, para assistir às sessões ao longo do dia e à noite, em Sampa.  Ou às salas do Estação Net Rio, na Cidade Maravilhosa.  Serão 75 filmes, de 25 países, em exibição. E tem programação infantil também.

etudoverdade.com.br