sexta-feira, 13 de julho de 2018

PRIMAVERA EM CASABLANCA



Antonio Carlos Egypto




PRIMAVERA EM CASABLANCA (Razzia).  Marrocos/França, 2017.  Direção: Nabil Ayouch.  Com Mariam Touzani, Arieh Worthalter, Abdelialah Rachid, Dounia Binebine, Younes Bouab.  119 min.


Casablanca, Marrocos, uma cidade de contrastes, oposição, diversidade.  E também de opressão e violência.  Além disso, uma cidade de fantasia.  Afinal, é o título de um dos maiores clássicos do cinema, aquele que reuniu Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, ao som de “As Time Goes By”.

Nabil Ayouch, o diretor e também roteirista, ao lado de Mariam Touzani, de “Primavera em Casablanca”, vive lá, sente de dentro o que acontece na cidade.  Tem um olhar especial para os que são criticados, enquadrados, oprimidos, excluídos.  E para a imposição de valores, em nome da tradição ou da religião. Por meio de diversos personagens, o filme fala desse conflito, ora, explicitado, ora, surdo, que compõe um caldo de cultura que não tem outro caminho que não seja desandar em violência.




Um professor de província, dedicadíssimo às suas crianças e por elas amado em seu vilarejo, onde o que se fala é o idioma berbere, recebe um ultimato e a presença de um inspetor, porque a nova lei educacional obriga que o ensino no país seja só em árabe.  Ocorre que as crianças não entendem outra língua e só poderão decorar coisas sem significado, sem saber o que estão repetindo.  A frustração leva o mestre a escolher se perder no anonimato de Casablanca.

No ambiente urbano, há uma personagem feminina que se produz, se veste com sensualidade, explora sua beleza e tenta construir sua identidade, dispensando os modelos que lhe são impostos, e sofre com isso.

Quem busca se expressar pela modernidade, se identifica com o rock  que contesta, em vez da música tradicional, que tem papel conservador, encontra resistência.  Viver de música, mesmo bem remunerado, é inaceitável na ótica dos pais.  Não há espaço para a homossexualidade e as formas diversas de viver a masculinidade.  Mas elas estão lá.  Para a mulher, a questão da virgindade até o casamento e a condenação do aborto se escoram na noção de pecado, produzindo sofrimento e desespero.  Falta emprego para a juventude e os ares da liberdade buscam expressão.

2011, a primavera árabe movimenta a região, aparentemente trazendo novos ares e possibilidades.  Revoluções, queda de regimes, a imperiosa necessidade de encontrar novos caminhos e também a produção de respostas individuais, revoluções pessoais.  A tradição autoritária e o controle em nome de valores religiosos sufocam essas revoluções e as saídas políticas revelam-se outra face da mesma moeda.




O protesto e a violência tomam conta das ruas e as festas acabam em pancadaria e agressões desmedidas.  “Primavera em Casablanca” mostra o que está acontecendo, com preocupação.  Preocupação que também deveria ser a de uma direita brasileira, que insiste em pregar liberalismo na economia e conservadorismo nos costumes.  Uma fórmula para oprimir, abalar direitos e produzir mais violência, onde já há tanta desigualdade e tanta divisão.

Bem, e como fica a Casablanca da fantasia, do cinema de Hollywood, de Bogart e Bergman?  Serve para alienar, folclorizar, distorcer a realidade.  Fake news , para usar um termo da moda.  Acho que todo mundo sabe que em “Casablanca”, de Michael Curtiz, (1942), não há nenhuma cena filmada na cidade, ou no Marrocos.  O “Rick’s Bar” nunca existiu por lá.  Não antes de aquele filme ser feito, pelo menos.

  


domingo, 8 de julho de 2018

POR DENTRO DA OSESP


Antonio Carlos Egypto




A OSESP – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – tem alcançado um nível de excelência, reconhecido internacionalmente, que a situa entre as melhores orquestras de todo o mundo.  E a sala São Paulo, sua sede, é reconhecidamente uma sala de concertos primorosa, num ambiente de beleza arquitetônica e eficiência técnica, com 1500 lugares. Envolvida pelo centro da cidade, ainda bem deteriorado, em que desponta a cracolândia, acaba sendo uma ilha de arte e beleza, cercada de problemas por todos os lados.  Ainda assim, é motivo de orgulho para a cidade, o Estado e a sua população.

Registrar o trabalho criativo da OSESP, incluindo a produção necessária para a realização dos concertos na sala São Paulo, é o objetivo de uma série documental para a TV, dirigida por Diego de Godoy, que será veiculada a partir do dia 12 de julho, sempre às quintas-feiras, às 20:30 h, pelo Canal Arte 1, do grupo Bandeirantes (na Vivo, 127 ou 627, na NET e Claro, 553, na Sky, 81 e Oi, 85).

Serão seis episódios, de cerca de 50 minutos de duração cada um, que focalizarão os diversos setores criativos da orquestra, com intenção didática.  O primeiro programa, a que pude assistir, trata da regência, focalizando o trabalho de Marin Alsop, a maestrina titular da orquestra, do diretor artístico Arthur Netrovski, do diretor executivo Marcelo Lopes e como isso tudo se articula.




Em tempos recentes, o maestro John Neschling acumulou praticamente essas funções por doze anos.  A sua saída traumática e o interesse em ter regentes internacionais, vivendo fora do Brasil, exigiram um novo modelo.  Isso não está colocado desse modo no filme, mas eu acompanhei essa história como frequentador constante dos concertos da OSESP, desde 2001.

A série “Work in Progress – Por Dentro da OSESP” pretende nos levar à intimidade da orquestra, de como se faz música clássica, entrando nos detalhes, mostrando ensaios, revelando um pouco do que fazem os artistas: o maestro, os músicos, os que estabelecem e viabilizam as programações e a vinda de convidados internacionais de peso, com antecedência de pelo menos dois anos.  Enfim, o que mostra o arcabouço da criação artística de uma grande orquestra, o que está envolvido nos diferentes concertos que a OSESP apresenta na cidade de São Paulo, três vezes a cada semana, mantendo um padrão de qualidade invejável.  Além das apresentações no interior do Estado e em excursões internacionais, que costumam ocorrer anualmente.

Vale a pena conferir a série, tanto para quem frequenta habitualmente concertos quanto para quem tem interesse em aproximar-se desse universo da música clássica.  Para quem gosta de música, enfim.

Vocês devem estar estranhando esse texto aqui no Cinema com Recheio, que se dedica exclusivamente à critíca de cinema.  Fiz uma exceção porque vou quase tanto aos concertos (da OSESP, da Jazz Sinfônica, da OSUSP, etc), como vou ao cinema.  Mas não sou, nem pretendo ser, crítico musical.  E uma série de TV não deixa de ser filme, embora não esteja sendo veiculada pelos cinemas.



quarta-feira, 4 de julho de 2018

CUSTÓDIA + HANNAH

Antonio Carlos Egypto

                                               CUSTÓDIA

CUSTÓDIA (Jusqu’à la Garde).  França, 2017.  Direção e roteiro: Xavier Legrand.  Com Denis Ménochet, Léa Drucker, Thomas Gloria, Mathilde Auneveux, Mathieu Saikaly.  90 min.


A separação de casais com filhos não precisa ser complicada ou traumática, como a que acontece no filme francês “Custórida”, de Xavier Legrand, um dos destaques da 41ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  Muitas vezes, o convívio das crianças com as casas e, eventualmente, famílias de pais e mães separados, pode até enriquecer ou diversificar as experiências delas, se tudo se faz de forma pacífica e civilizada. Pode até persistir um vínculo afetivo bom entre os cônjuges que decidiram, cada um, levar a sua vida em outros termos. 




Mas, quando a separação é litigiosa, resulta em brigas, violência e disputa judicial da guarda e do direito de conviver com os filhos, quem acaba suportando a maior e mais pesada carga são justamente as crianças. Para mostrar isso com clareza e intensidade dramática, “Custódia” coloca em foco o menino que vai a contragosto conviver com o pai, volta para a casa da mãe, fica no meio do conflito, passando recados de um a outro, que não querem se ver. E por aí vai.
 
A narrativa é firme, bem construída, o desempenho do garoto é espetacular, nos faz viver o que ele estaria experimentando.  A questão de gênero é bem mostrada.

A solução dramática final parece inevitável, embora esteja aqui carregada nas tintas.  Mas a sequência é muito boa, extremamente tensa, com um clímax emocionante.  O diretor demonstra um talento incrível já no seu primeiro longa-metragem. 


                                                  HANNAH

HANNAH (Hannah).  Itália, 2017.  Direção: Andrea Pallaoro.  Com Charlotte Rampling, André Wilms, Stéphanie Van Vyve, Simon Bisschop.  95 min. 


“Hannah”, do diretor italiano Andrea Pallaoro, é um filme de climas, sentimentos represados, frustrações e, no limite, perda de identidade.  A personagem título, vivida pela grande atriz inglesa Charlotte Rampling, mal se sustenta de pé, com suas ações cotidianas na casa, num curso de teatro, nadando na piscina de um clube, exercendo um trabalho que envolve cuidar de um menino cego numa instituição, numa vida familiar que desmorona.  Ela tem um marido, com quem mantém relações um tanto distantes, mas ele acaba na prisão, entregando-se voluntariamente.  Ela também tem um neto, mas está impedida de vê-lo pelo filho, que a quer longe.  Ela tem um cachorro, apegado ao marido, com quem também não consegue um vínculo de afeto.

Tudo isso é vivido de forma misteriosa, sem que se possam conhecer as razões objetivas dessas situações.  O diretor não está interessado nisso.  Ele quer nos mostrar a solidão, o declínio da existência, a depressão e a velhice.  Como isso pode ser vivido de forma dolorosa e sem perspectivas.




Para tal se vale de ambientes escuros, embrumados, esfumaçados, com falta de foco no entorno.  Ele filtra através de vidros opacos, filma em ambientes impessoais, os de transporte coletivo, como o metrô.  Lugares onde pessoas também podem expressar emoções de forma abrupta.  No entanto, a solidão parece mais forte justamente numa hora dessas.

O filme é falado em francês, mas tem muito poucas falas.  O som, entretanto, é um de seus trunfos.  O som ambiente, um rádio ligado, falas, risos, latidos, tudo o que cerca Hannah, mas que não diz respeito a ela.  Acentua-se, desse modo, sua alienação do mundo em que habita.

Um retrato íntimo de uma mulher idosa, que suporta suas perdas, que parecem só aumentar, confundindo-se no emaranhado de suas memórias, sem se conectar a elas verdadeiramente.  Tentando não ver, não saber.  Um personagem que é um desafio, vencido com galhardia por Charlotte Rampling, ganhadora do prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza 2017, com todos os méritos.



quinta-feira, 28 de junho de 2018

HISTÓRIA DO CINEMA EM LIVRO



Antonio Carlos Egypto





O cinema é uma das invenções mais fascinantes da humanidade.  E sua história, que remonta ao final do século XIX, é muito rica em criação, descoberta, estabelecimento de uma linguagem, estilos, gêneros, escolas e movimentos.  E na evolução tecnológica, que nunca parou.  Para dar conta da história do cinema, foram escritas algumas obras enciclopédicas, que os estudiosos têm de conhecer e consultar.  Mas, num mundo e numa época em que tudo tem de ser rápido, todos têm pressa e ninguém parece ter tempo, é muito bem-vindo um trabalho que, de modo sintético, consegue dar conta dessa bela e emocionante história.

Trata-se do livro recém-lançado “A História do Cinema Para Quem Tem Pressa (dos irmãos Lumière ao século XXI em 200 páginas) “, do crítico de cinema, e meu amigo, Celso Sabadin.  Ele escreve de forma simples e direta sobre tudo o que foi, e é, importante na história do cinema, com muito talento e objetividade.  Com um admirável poder de síntese.  Não se perde em divagações, detalhes secundários ou meras curiosidades.  Lida com o essencial do assunto e, o que é muito importante, de forma crítica.  Contextualiza os fatos e situações, sem perder de vista os ambientes político e e econômico os envolvem.  Deixa, assim, as coisas muito mais claras e compreensíveis.  Qualquer pessoa que goste de cinema vai apreciar e se sentirá melhor informada sobre a chamada sétima arte.




O livro cobre da pré-história das imagens em movimento às cinematografias atuais da Índia, Nigéria, China, Japão, Irã, Dinamarca, Coreia do Sul.  Com destaque para o cinema norte-americano, sua ascensão, crises e declínio, o expressionismo alemão, o impressionismo, o realismo poético e a nouvelle vague franceses, o neorrealismo italiano, a Rússia e o realismo soviético e, é claro, a história do cinema brasileiro.  Debruça-se sobre as relações entre as duas grandes guerras mundiais e o cinema.  Enfim, traça um panorama bastante amplo e completo do seu apaixonado objeto de estudo.

Como consegue tudo isso em meras duzentas páginas, que podem ser lidas em pouco tempo?  Não é uma tarefa fácil, mas Celso Sabadin consegue um ótimo produto, porque fala daquilo que conhece bem.  E quando a gente domina um assunto, tendo habilidade na escrita, dá para explicar as coisas muito bem, de forma clara e em poucas palavras.  Esse é o grande mérito de “A História do Cinema Para Quem Tem Pressa”, da editora Valentina.  Esse mote para quem tem pressa não é exclusivo do livro do Celso Sabadin, faz parte de uma coleção de história que aborda outros assuntos dessa forma sintética e panorâmica.  No caso da história do cinema, o resultado é altamente sedutor e esbanja competência.



sexta-feira, 22 de junho de 2018

REI


Antonio Carlos Egypto




REI (Rey).  Chile/França, 2017.  Direção: Niles Atallah.  Com Rodrigo Lisboa, Claudio Riveros.  90 min.

Quem tem o hábito de ver muitos filmes, tem hora que se cansa da repetição de temas, de personagens e, principalmente, da forma de tratá-los.  Além de encontrar com frequência os mesmos atores e atrizes em papéis principais, sobretudo na produção de países dominantes no cinema, como Estados Unidos e França.  As narrativas clássicas, que contam uma história com começo, meio e fim, nessa ordem, com finais felizes, estão em baixa.  No entanto, recursos como ir e voltar no tempo ou misturar o real com o imaginado, sonhado ou desejado, não chegam a alterar muita coisa.  A forma como os conflitos são resolvidos, correndo contra o tempo até o último minuto, já se tornou algo insuportável.  Finais muito abertos e indefinidos nem sempre acrescentam algo ao espectador, além de confundi-lo.  E por aí vai.

Há grandes talentos de cineastas que, usando a narrativa clássica, aliada à criatividade no uso das câmeras, no modo de filmar, produzem grandes obras.  Em todo caso, é bom buscar novidades e estar aberto a provocações.  Nem tudo o que é novo é bom, é claro, mas não custa conferir.

Tudo isso a propósito de um filme experimental que chegou aos cinemas e que merece atenção.  “Rei”, de Niles Atallah, tem uma narrativa fragmentada, como a história que ele conta.  Aborda um personagem francês, um aventureiro, que em 1860 partiu para a região de Araucanía, no sul do Chile, com a intenção de formar um reino e dele se tornar rei.  Supostamente, com o aval do chefe indígena da região.  Ao chegar lá, com a ajuda de um guia, descobre que esse chefe está morto e fica difícil justificar sua viagem diante do governo chileno, que o prende e o acusa de usurpação indevida de território e traição ao país, ainda que a região pretendida pelo aventureiro fosse inóspita e estivesse nas mãos dos indígenas.  Teriam eles o direito de sagrá-lo rei de Araucanía e Patagônia?




É uma história estranha, misto de realidade, fantasia, delírio.  Uma coisa de sonhos, memórias perdidas, fantasmagorias.  Registros precários e lendas sobre um estranho rei: Orélier-Antoine de Tounens. 

Para penetrar nessa curiosa e inusitada trama, em que faltariam muitos pedaços, o diretor de “Rei” se utiliza de sofisticadas filmagens, produzidas como filmes antigos, cheios de bolas, borrões, riscos, imperfeições na tela.  Inclui fragmentos de filmes realmente existentes?  Talvez.  Mas não importa.  Cria-se um mundo ilusório de pesquisa imagética, com referências a um passado remoto, anterior à criação do cinema.  E filma-se, também, o que seria a reconstrução da saga do viajante francês em encenações atuais, com boa qualidade de imagens.

O suposto julgamento pelo governo chileno é encenado com os personagens cobertos por máscaras grossas, o que impede qualquer representação realista dos supostos fatos.  Descaracteriza a representação cênica dos atores, que fica resumida a bonecos falantes.

O filme alterna esses fragmentos narrativos e as diferentes formas filmadas, sem pretender chegar a contar uma saga coerente ou completa.  Mas reconstrói, ao menos parcialmente, a lenda e vai além da simples loucura ou delírio extravagante, para se perguntar: o que há de relevante e coerente em tudo isso?  O que significa uma figura como essa, que ocupa a cena, quando já estaria desaparecendo de qualquer registro ou memória, se não fosse resgatada em um filme?  Esse resgate é importante? Por quê?

Enfim, não se trata de uma busca de respostas.  Mas, sim, de um exercício de investigação e recuperação da memória e dos sonhos, matéria prima do humano e do coletivo. “Rei” foi vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Cinema Latino-Americano de Toulouse, França, em 2017.


CINEMA DA HUNGRIA E DE HONG KONG




Já estão acontecendo duas mostras de cinema na cidade de São Paulo que merecem atenção. A Cinemateca Brasileira apresenta até o dia 1º. de julho, com entrada franca, “Dias de Cinema Húngaro”, com 12 longas dessa produção europeia de qualidade, que nos deu recentemente dois títulos importantes: “O Filho de Saul”, de László Nemes (2015) e “Corpo e Alma”, de Ildiko Enyedi (2017).

No Centro Cultural Banco do Brasil está a mostra “O Ineditismo e a Pluralidade do Cinema de Hong Kong”, que traz, até 16 de julho, 23 longas-metragens da produção ampla e variada de Hong Kong.



quinta-feira, 21 de junho de 2018

O AMANTE DUPLO

Tatiana Babadobulos



O AMANTE DUPLO.  França, Alemanha e Bélgica, 2017.  Direção e roteiro: François Ozon. Com Marine Vacth, Jerémie Renier, Jacqueline Bisset. 119 min.


Somatizar dores, resposta inconsciente do organismo, é bastante comum e, muitas vezes, pode ser resolvido com sessões de psicoterapia. Assim, descobrindo a raiz do problema, fica mais fácil de fazer a dor passar.

Em "O Amante Duplo" ("L'Amant Double"), a jovem Chloé (Marina Vacht, de "Jovem e Bela") vai procurar um psicanalista porque sente dores no ventre. A recomendação foi feita depois de ela passar por exames ginecológicos. No consultório, quem a atende é Paul Meyer (Jérémie Renier, que viveu Pierre Bergé, em "Saint Laurent"), um jovem profissional que está disposto a descobrir, junto com ela, o que causa o tal desconforto.

Porém, o que também não é incomum, com o andar das sessões de terapia, eles acabam se apaixonando. Diante da situação, Paul deixa de atendê-la e pede que ela procure outro profissional para seguir com o tratamento

O longa-metragem, dirigido e escrito pelo francês François Ozon ("Potiche: Esposa Troféu"), começa com cenas bastante realistas, com situações comuns do dia a dia, além de imagens ousadas, com cenas de sexo e quando Chloé faz ultrassom e exame ginecológico.

A paixão dos dois, paciente e terapeuta, também é comum. No entanto, depois que ela começa a frequentar a nova terapia, feita, aliás, de maneira bastante controversa, o filme começa, digamos, a desandar.


Chloé conhece Louis Delord, que seria o irmão gêmeo de Paul, embora ele nunca tenha falado sobre isso com ela. As fantasias vão aumentando a cada sessão e as mentiras também. A duplicidade não está presente apenas na figura dos homens na tela (os irmãos gêmeos). A própria Chloé tem um quê de ambiguidade no seu comportamento, retratada pelo autor com um jogo de espelhos sem fim. Fica bastante claro quando ela chega a um dos consultórios e a imagem mostra ela multiplicada diversas vezes.

Esta é a terceira vez que o diretor trabalha com Renier. Os outros filmes são “Criminal Lovers” e “Potiche: Esposa Troféu”.

Ozon repete a fórmula usada em “Dentro de Casa”, filme no qual o espectador se confunde e não sabe exatamente o que faz parte da trama e o que é fantasia.

Como um perfeito realizador e autor francês, François Ozon segue pela linha do final sem fim certo, ou seja, um desfecho que não é taxativo e deixa o espectador pensar e viver o seu próprio fim. Daí, gostar ou não do método adotado por ele, depende de cada um.

Com estreia apontada para o dia 21 de junho, o longa foi um dos escolhidos para o Festival Varilux de Cinema Francês, além de ter participado da competição oficial do Festival de Cannes 2017.


quinta-feira, 14 de junho de 2018

AS BOAS MANEIRAS

  

Antonio Carlos Egypto




AS BOAS MANEIRAS.  Brasil, 2017.  Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra.  Com Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Cida Moreira, Miguel Lobo.  135 min.


“As Boas Maneiras”, direção conjunta de Juliana Rojas e Marco Dutra, repete a dupla que fez “Trabalhar Cansa”, em 2011, que comentamos aqui no Cinema com Recheio, na época do lançamento.  Assim como os trabalhos de Juliana em “Sinfonia da Necrópole”, em 2014 e de Marco  em “O Silêncio do Céu”, em 2015. 

Aqui se repete a tendência daquele primeiro trabalho deles, em que o realismo e as questões sociais são apresentados no desenvolvimento da história dos personagens.  Porém, estranhezas vão tomando corpo e acabam nos levando ao terreno do fantástico e do terror.  Lá como cá, o fantástico acaba dominando, é claro, mas não se perde nunca o pé da realidade brasileira e seus conflitos sociais permanentes.  Mostra que é possível fabular e mergulhar na fantasia e no horror sem perder a noção de quem se é ou de que lugar se ocupa na pirâmide social.




Duas mulheres representam esse universo social: a enfermeira Clara, que vive na periferia,  papel de Isabél Zuaa.  Por conflito com seus patrões, acaba sem ter onde morar, mas consegue um novo trabalho na casa de Ana (Marjorie Estiano).  Ana, de classe alta, está grávida, mas é uma mulher solitária.  Não convive com marido, pai, mãe, irmãos ou qualquer  outro parente, por alguma razão misteriosa.  Contrata Clara para cuidar dela, fazer-lhe companhia e vir a ser a babá do bebê que está para nascer.  Quem ela está gerando é a surpresa e a explicação para o drama de horror que se desenvolverá.  E tomará proporções gigantescas nas noites de lua cheia.

Não é só de drama realista e de fantástico e horror que se trata.  Há também humor, suspense e a questão da sexualidade feminina na trama.  “As Boas Maneiras” é um filme que transita pelos diversos gêneros e temas com desenvoltura.




Conta com uma equipe talentosa na sua produção.  Basta citar a montagem de Caetano Gotardo, o diretor do ótimo “O Que se Move”, de 2013, também já comentado por aqui.  E o diretor de fotografia, o português Rui Poças, que fez excelentes trabalhos em filmes como “Tabu”, de Miguel Gomes, em 2012, e “O Ornitólogo”, de João Pedro Rodrigues, em 2016.

O destaque interpretativo vai para Isabél Zuaa, atriz nascida em Lisboa, de mãe angolana e pai da Guiné Bissau, que já havia feito “Joaquim”, de Marcelo Gomes, lançado em 2017.  Mas todo o elenco está muito bem, também.

“As Boas Maneiras” foi premiado com o Leopardo de Prata no Festival de Locarno, no Festival do Rio 2017 e em vários outros, pelo mundo.  É o reconhecimento de um trabalho singular e criativo.



quarta-feira, 13 de junho de 2018

ANNA KARENINA



Antonio Carlos Egypto




ANNA KARENINA – A HISTÓRIA DE VRONSKY (Anna Karenina/Vronsky).  Rússia, 2017.  Direção: Karen Shakhnazarov.  Com Elizaveta Boyarskaya, Maksim Matveyev, Vitaly Kishchenko, Viktoriya Isakova.  138 min.


Anna Karenina, o romance de Liev Tolstói, se prestou a várias adaptações cinematográficas de sucesso e a produções bem cuidades, caprichadas.  A forte personagem feminina que encara o seu desejo, enfrenta os homens que ama ou que a amam e recebe a reprovação da sociedade, levando a um destino trágico, é muito atraente e sempre deu margem a reflexões sobre a questão de gênero, nas várias épocas em que foi encenada.

Grandes atrizes viveram a personagem, começando por ninguém menos do que Greta Garbo, em filme de Clarence Brown, de 1935.  A também grande Vivian Leigh viveu Anna, no filme de 1948, dirigido por Julien Duvivier.  Jacqueline Bisset também foi Anna Karenina em filme de Simon Langton, de 1985. Em tempos mais recentes, Sophie Marceau encarnou-a, no filme dirigido por Bernard Rose, em 1997, e Keira Knightley, no filme de Joe Wright, em 2013. 




Uma nova versão vem da Rússia, dirigida por Karen Shakhnazarov, o cineasta que fez “Tigre Branco”, em  2012, um espetáculo de suspense e guerra, com cenas muito bem construídas, de grande impacto cinematográfico.  Com um talento para esse tipo de sequências, o drama intimista de Anna Karenina não ofereceria grandes oportunidades para a exploração de cenas em campo aberto, vistosas, como ele sabe fazer.  Shakhnazarov inovou, fundindo a história de Tolstói com um outro conto russo, que se passa no acampamento militar/hospital, em plena guerra Rússia-Japão, de 1905: a história de Vronsky.  Ali, dois personagens, seu filho e seu amante, tentam entender a tragédia vivida por Anna Karenina, em meio às providências de guerra, ataques, explosões, e o filme fica com a cara de Shakhnazarov. 

O recurso permite pensar a posteriori sobre o drama, mas acrescenta pouco à situação dramática e até confunde um pouco o entendimento da trama.  Penduricalhos como a da órfã de guerra chinesa, que circula pelo acampamento militar, não se justificam.  Em contrapartida, o filme adquire uma beleza visual admirável.

“Anna Karenina/A História de Vronsky” vale pelas sequências externas, não só da guerra, mas também da corrida de cavalos no Jóquei: brilhante.  O baile é muito bem encenado, com riqueza na direção de arte, figurinos.  Enfim, é uma produção muito bonita e bem cuidada, sob a batuta de um cineasta muito competente, em que pesem as restrições que se possam fazer à sua estruturação dramática.



quinta-feira, 7 de junho de 2018

DE VOLTA À BELA ITÁLIA


Antonio Carlos Egypto



Poder voltar a passear pela Itália, curtir suas cores, odores e sabores tão característicos, partilhar de sua vasta cultura, história e arte e usufruir de paisagens marítimas de tirar o fôlego, de tão belas, foi um grande prazer que me permiti neste mês de maio de 2018.

A Sicília, Sorrento e a Costa Amalfitana apresentam cenários cinematográficos de deixar qualquer um de boca aberta.  Não por acaso, tantos filmes já foram feitos por lá, explorando a beleza singular do lugar.  Quem já não viu as imagens marítimas, as escarpas, os penhascos, os desfiladeiros, as montanhas de pedra com casas, palácios ou fortificações no alto? 




Em 2008, o cineasta alemão Wim Wenders lançou seu filme “Palermo Shooting”, exibido na Mostra Internacional de Cinema naquele ano.  Mais do que a proposta do filme, o que mais me cativou foram as belas imagens da cidade de Palermo, na Sicília.  Fiquei com vontade de ir lá algum dia.  Na programação da Mostra, estava incluído um documentário sobre as filmagens de “Palermo Shooting”.  Achei que seria interessante assisti-lo, por ser mais uma forma de ver mais imagens de Palermo.  Pois bem, para minha surpresa, algo raro se deu.  A sessão ainda estava na vinheta de apresentação da Mostra, quando eu dormi e só acordei quando as luzes se acenderam ao final.  Ou seja, não vi uma única cena do tal documentário, que não seria mais exibido.

  Dez anos depois, acabei indo a Palermo e adorei a cidade, linda, mesmo, de não decepcionar ninguém.  Belíssimas construções, teatros, igrejas, maravilhosos mosaicos na Capela Palatina e na vizinha Monreale e a praia de Mondello.  E me lembrar de “Il Padrino” (O Poderoso Chefão), de Francis Ford Copolla, de 1972, explorado em objetos e roteiros turísticos, filmado na região.  A onipresente Máfia, que não se vê.

Em Catânia, é inevitável lembrar-se do mestre Visconti e “A Terra Treme”, de 1948, clássico do neorrealismo italiano.  A dura vida dos pescadores, a penúria e a exploração a que estavam sujeitos no porto de Catânia e no povoado de Aci Trezza, num momento penoso do pós-guerra.  O que se vê hoje é bem diferente: um porto ativo e movimentado e Aci Trezza como passeio turístico, onde se pode ver o Acicastelo, a praia com pedras de erupção vulcânica no mar, de um passado muito remoto.  Não são mais visíveis a fome e a miséria daqueles tempos, exceto por um pedinte eventual na rua.  Com uma beleza dessas, o turismo deve garantir a economia da região.




Outro trabalho importante do neorrealismo é “Stromboli”, de Roberto Rossellini, que se passa na ilha vulcânica que dá nome ao filme.  No caso, o vulcão é a metáfora da tragédia humana vivida pelos personagens e da força para enfrentá-la, com destaque para Ingrid Bergman, ao lado de um elenco não profissional.  A visita ao vulcão Etna, desde Catânia, me revelou, porém, muitas outras coisas, como a imensidão e a multiplicação da ação vulcânica, sua incrível beleza, surpreendentemente cheia de cores, em contraste com o negro que cobre toda a vegetação.  O material que serve das construções à criação artística.  O vulcão é um mundo à parte, complexo e variado.

A questão social mais grave hoje é a dos imigrantes, africanos e do Oriente Médio, que chegam à costa sul da Itália pela ilha de Lampedusa, como mostram os ótimos filmes “Terra Firme”, de Emanuele Crialese, de 2011, e o documentário “Fogo no Mar”, de Gianfranco Rossi, de 2016.  Mas no meu roteiro esse problema não se apresentou.  A geografia nos separou desse grande drama humano dos nossos dias.




A Sicìlia histórica, que remete a Garibaldi e à unificação da Itália, no século XIX, acabou dando margem para que Luchino Visconti dirigisse uma obra-prima, a partir do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, “O Leopardo”.  A Sicília cheia de charme e beleza é presença constante nos filmes de Giuseppe Tornatore, como “Malena”, de 2000, filmado no centro histórico de Siracusa, a bela Ortígia, “Cinema Paradiso”, de 1988, na região de Palermo, e “Baaría”, de 2009, na cidade de Bagheria.

Siracusa, com o museu e seu sítio arqueológico que nos remonta à Magna Grécia, com o teatro grego, a orelha de Dionísio, o templo de Apolo, é um dos pontos altos da bela ilha mediterrânea da Sicília.  O teatro de marionetes da cidade também me encantou.

Tudo isso se completa na beleza da pequena Taormina que, com seu teatro grego descortina uma paisagem estupenda, e com sua  isola bela,  tão charmosa, exigindo, porém, preparo físico para subir e descer seus mais de 120 degraus para poder acessá-la.




Sorrento, no golfo de Nápoles, tem paisagens marítimas maravilhosas, nos faz lembrar da famosa canção napolitana e é onde o limão siciliano é mais abundante, aparentemente.  E o delicioso  limoncello  dá um sabor especial ao passeio.  De lá se vai à cinematográfica Ilha de Capri.  A Marga logo se lembrou de “Tarde Demais para Esquecer” (An Affair to Remember), de Leo McCarey, de 1957, mais por seu ator preferido, Cary Grant, do que por Capri, acho eu.  Mas aqui, também, a paisagem é exuberante.

Na Costa Amalfitana tem Positano, Amalfi, Maiori, onde ficamos.  Percorrer a costa, baixando pela montanha, é ver uma maravilha após a outra, cinema puro.

Só que o filme de que eu deveria me lembrar em detalhes me escapou e o prejuízo foi certo.  Tive minha carteira roubada no metrô/trem que vai de Nápoles a Pompeia.  Nada que o filme “O Batedor de Carteiras” (Pickpocket), de Robert Bresson, de 1959, já não tivesse ensinado em detalhes, didaticamente até, por meio do personagem Michael refinando sua técnica pelas ruas de Paris.  Quem manda não se cuidar e achar que com você não vai acontecer?