quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

PAPA FRANCISCO:CONQUISTANDO CORAÇÕES


Antonio Carlos Egypto




PAPA FRANCISCO: CONQUISTANDO CORAÇÕES (Francisco: El Padre Jorge).  Argentina/Espanha, 2015.  Direção: Beda DoCampo Feijóo.  Com Darío Grandinetti, Silvia Abascal, Anabella Agostini, Gabriel Gallicchio, Leonor Manso.  105 min.



O papa Francisco é uma figura pública das mais admiráveis da atualidade.  Por seu despojamento, sua simplicidade ao exercer o poder que tem, pela procura por ouvir, acolher e entender mais do que julgar ou restringir as pessoas e a diversidade humana.  É um homem que pratica o que prega e o faz com humildade.  Sua inserção neste nosso cada vez mais insensato mundo trouxe um sopro de tolerância e liberdade, que há muito se fazia necessário, sobretudo partindo da poderosa Igreja Católica.

Chega a seu quarto ano de papado e ganha uma cinebiografia para celebrá-lo.  O personagem é cativante e merece o apoio que tem recebido dos homens e mulheres de bem, sejam religiosos ou não.  O problema que esse tipo de filme pode trazer é ser chapa-branca e servir apenas à propaganda ou propagação de uma religião.  Ou só falar aos já convertidos.  O título em português: “Papa Francisco: Conquistando Corações” só reforça essa impressão marqueteira.  No entanto, o título original é outra coisa: “Francisco: El Padre Jorge” e corresponde muito melhor ao que é o filme e ao personagem que retrata.




Jorge Bergoglio, o padre Jorge, que se tornou papa, o primeiro da América Latina, é uma pessoa forjada no convívio com as questões sociais de uma região empobrecida.  Sendo um homem de ir às ruas e ao contato com as pessoas, desenvolveu sensibilidade para ir muito além da doutrina e suas regras, o que seu antecessor Bento XVI, Joseph Ratzinger, não demonstrava.  O filme mostra isso e coloca claramente os dois polos, o inovador e o conservador, mas não só não faz qualquer crítica ao papa que renunciou como cita uma fala de Francisco, colocando como corajoso e revolucionário o seu ato surpreendente de renúncia.  Certamente não convinha a crítica direta ou a comparação de estilos.  Seria quase afrontoso fazê-lo, tão gritante é essa diferença.

Da mesma maneira, o filme cita os escândalos da pedofilia na igreja e o do Banco do Vaticano, mas não lida com esses temas.  Do casamento gay nem se fala.  A questão do aborto aparece numa cena do papa, confortando uma fiel, que chorava e se dizia arrependida de ter tirado o feto.  Terrível, mas algo passível de ser acolhido ou perdoado.  A questão é mais complexa e pode dispensar essa culpa toda, mas já há algum avanço aí.




De resto, o filme mostra a evolução do padre Jorge em cenas muito menos convincentes sobre a sua juventude, relações familiares e interesse por eventuais namoradas do que na sua vida adulta de padre, bispo, cardeal de Buenos Aires.  Em parte, porque o ator que faz o jovem padre Jorge, Gabriel Gallicchio, não é muito expressivo no papel, enquanto o grande ator argentino Darío Grandinetti encarna magistralmente o papa Francisco.  Já conhecido do público brasileiro por filmes como “Fale Com Ela” e “Julieta”, ambos de Pedro Almodóvar, ou “Relatos Selvagens”, de Damián Szifron.

A narrativa explora o período que envolve o conclave que elegeu Ratzinger e depois, o que elegeu Bergoglio, por meio do relacionamento do padre Jorge com a jornalista Ana, papel da ótima atriz espanhola Silvia Abascal, cuja parceria com Grandinetti resulta estupenda.




A trama está longe de apresentar uma história simplificada ou adocicada.  Mostra os conflitos, as dificuldades e as questões que envolveram Bergoglio e a ditadura militar argentina, incluindo as denúncias feitas quando o atual papa assumiu.  Explica e defende o papel que ele teve naquela ocasião, junto aos padres jesuítas sequestrados, além de outros atos de solidariedade que, como mostra o filme, parecem não só comuns como definidores da personalidade e da atuação do padre Jorge.

Enfim, é um filme que se vê e se aprecia muito bem e que não entra naquela categoria indesejável de filme religioso de propaganda.  É uma boa produção, dirigida por Beda DoCampo Feijóo, cineasta nascido em Vigo, na Espanha, mas radicado na Argentina desde que era bebê, para onde se mudou sua família.  Baseou-se no romance Pope Francis, Life and Revolution, de Elisabetta Pique, jornalista argentina, nascida em Florença, na Itália, correspondente do jornal La Nación, no Vaticano.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

EU NÃO SOU SEU NEGRO


Antonio Carlos Egypto




EU NÃO SOU SEU NEGRO (I Am Not Your Negro).  Estados Unidos, 2016.  Direção: Raoul Peck.  Documentário.  Com participação de Samuel L. Jackson (voz), James Baldwin, Dick Cavett. 95 min.


O escritor James Baldwin (1924-1987) escreveu a seu agente, visando a terminar um livro, Remember This House, que pretendia contar uma parte da história dos Estados Unidos, por meio da morte de três amigos dele, todos que militaram pelos direitos civis ou por um separatismo negro: Medgar Evers (1925-1963), Malcolm X (1925-1965) e Martin Luther King (1928-1968).  Muitos anos depois da morte de Baldwin, o manuscrito veio a inspirar o filme de Raoul Peck “Eu Nâo Sou Seu Negro“. O documentário chega agora aos cinemas com a chancela da indicação ao Oscar em sua categoria.

“Eu  Não Sou Seu Negro” é um filme políticamente forte, muito bem documentado, que mostra como a história dos Estados Unidos é toda impregnada de um racismo atroz, de dar vergonha a qualquer país. Merece ser visto com atenção.

É sempre bom lembrar que o Oscar 2016 foi criticado por sua brancura, injusta para com o talento negro de Hollywood. Deu resultado, este ano há diversos filmes indicados que tratam da questão dos negros e muitos profissionais lembrados. Melhor assim. Entre todos, o que mais se destaca, pela contundência da denúncia e pelas provas cabais de racismo que apresenta, é justamente “Eu Não Sou Seu Negro”.

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Já está em cartaz também MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR. Veja a crítica do cinema com recheio.

https://cinemacomrecheio.blogspot.com.br/2017/01/moonlight-sob-luz-do-luar.html


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

UM HOMEM CHAMADO OVE


Antonio Carlos Egypto




UM HOMEM CHAMADO OVE (En Man Som Heter Ove).  Suécia, 2016.  Direção: Hannes Holm.  Com Rolf Lassgard, Bahar Pars, Ida Engvoll, Filip Berg.  116 min.



Um bom personagem, que fuja dos clichês e estereótipos, que se revele humano e complexo, é meio caminho andado para um bom filme.  Ove é um personagem assim, embora, de início, ele se apresente como um sujeito simplório, pouco inteligente e rígido ao extremo.

Ele se apega a regras que, no fundo, ele mesmo criou como síndico de um condomínio e incomoda todos que por lá circulam, para se assegurar de uma existência pobre, mas segura.  Pobre, no sentido espiritual.  Afinal, estamos na Suécia e a classe média baixa por lá vive bem.  Muito bem atendida em suas necessidades básicas.

Ove chega aos 59 anos já viúvo e agora aposentado contra sua vontade, pouco lhe resta para usufruir da vida.  Pelo menos, é assim que ele encara as coisas: não existiu nada antes de Sonja (sua mulher morta) e nada haverá depois dela.  Com isso, ele se afunda num niilismo pessoal, se afasta de tudo e de todos, de forma mal-humorada e agressiva e, consequentemente, decide se suicidar.  Mas morrer não é nada fácil e suas tentativas costumam ser desastradas.




Existe também a alteridade e mesmo que se desejem negar a existência, os direitos e as necessidades dos outros, eles estão lá e podem se impor, goste-se ou não disso. Quem é o ser humano sem o outro, que pode incomodar, sim, mas também pode ressignificar a sua própria vida?  Que sorte tem o Ove que as pessoas não o abandonem, não porque sejam altruístas, mas porque ele tem algo a dar sempre, apesar das evidências em contrário.

É por aí que o filme avança na humanidade de seu personagem e nos faz refletir sobre o que é a nossa vida.  A partir de situações comezinhas, banais, as coisas se mostram e podem ser descobertas.  Uma história também vai se revelando e, por mais simples e corriqueira que pareça, é emocionalmente forte e marcante.



O filme se baseia no best seller A Man Called Ove, de Fredrik Backman, que eu não conheço, mas percebe-se que o diretor Hannes Holm quis aproveitar as muitas (todas?) situações do romance.  Se é verdade que isso amplia o universo de Ove, por outro lado, dispersa um pouco o interesse.  Muita coisa é dispensável, não acrescenta à temática principal e, se melhor editado, poderia deixar o filme mais enxuto e focado.  No texto escrito, faz mais sentido do que na tela.  Fidelidade excessiva ao romance costuma ser uma armadilha para o cinema.  Aqui há alguma perda, mas “Um Homem Chamado Ove” se sustenta bem no seu clima doce azedo, em que cabem a angústia, o drama, a tragédia do passado e, ao mesmo tempo, muito humor e muita ternura.  O afeto como reparador da rigidez e da intolerância, caminho de descoberta.

Conta-se aqui uma boa história, a partir de um bom personagem.  E isso se faz de uma maneira honesta, limpa.  Não é tão original, mas é muito bom o caminho trilhado pela narrativa.  Rolf Lassgard é ótimo como Ove, sustenta o filme o tempo todo.  Filip Berg, que faz Ove jovem, também dá conta do recado.  E as duas mulheres protagonistas são ótimas: Bahar Pars, que faz a amiga Parvaneh, e Ida Engvoll, a esposa Sonja, têm grande expressividade e beleza.  Acrescentam ao filme uma luminosidade que lhe é essencial.





“Um Homem Chamado Ove” está entre os selecionados para a disputa do Oscar de filme estrangeiro, ou filme de língua não-inglesa.  O que já lhe garante destaque e boa distribuição internacional.  Tem méritos para isso.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

COMENTÁRIOS BREVES SOBRE FILMES EM CARTAZ

Antonio Carlos Egypto

 
LION


LION – UMA JORNADA PARA CASA, dirigido por Garth Davis, é um filme que tem uma causa: a das crianças abandonadas.  Parte da história real do indiano Saroo Bierley, que escreveu o romance autobiográfico A Long Way Home sobre suas lembranças da infância na Índia, da perda nas ruas de Calcutá , da sua adoção por um casal de australianos e da sua vida no novo país.  O retorno à sua aldeia natal na Índia se fará aos 25 anos de idade, a partir do aplicativo Google Earth, capaz de achar uma casa perdida nos confins da Índia.  Como se vê, o filme também serve a interesses de propaganda. É daqueles filmes para emocionar, com a participação do ator mirim indiano Sunny Pawar, muito bom, e um elenco que tem Dev Patel (aquele de “Quem Quer Ser um Milionário?”), Nicole Kidman, Rooney Mara e David Wenham. Cinco indicações ao Oscar 2017. 119 min.


JACKIE


JACKIE, o filme estadunidense do já conceituado diretor chileno Pablo Larraín, é uma cinebiografia de Jacqueline Kennedy.  Mostra sua vida na Casa Branca, no período em que ocorrem o assassinato do presidente John Kennedy e suas exéquias.  Não aborda sua vida anterior, nem posterior, ao lado do milionário grego Onassis.  E o interesse do filme não se prende apenas ao fato histórico, já sobejamente conhecido, nem mesmo a quem era a famosa primeira-dama e suas reações.  Pelo menos não só a isso.  Na verdade, o que Larraín quer discutir é a construção da narrativa.  As versões em jogo, a luta de Jackie para marcar, difundir e valorizar a trajetória do presidente e seu legado, em meio a outros interesses e versões que pretendiam minimizar o episódio e suas consequências.  Ela lutou pela sua verdade, sabendo ser tão manipuladora quanto todas as outras, junto à mídia da época e em busca dos símbolos que um sepultamento marcante pode engendrar na mente das pessoas e na história.  Esse é o grande mérito do filme, em tempos de pós-verdade, em que os fatos nem contam mais, um tiro certeiro.  Natalie Portman vive uma Jackie a um tempo contida nos gestos, expressões e falas, mas forte e decidida, no figurino que marcou época.  O elenco tem ainda Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup e John Hurt. Três indicações ao Oscar 2017.  Duração: 100 min.


MARGUERITE & JULIEN


MARGUERITE & JULIEN: UM AMOR PROIBIDO procura tratar do incesto como um tema universal, essencial, que independe de contexto.  A sua interdição abrange, de fato, todas as culturas, tempo e lugares.  Mas as reações, as punições e os sentimentos variam, evidentemente.  O filme começa afirmando que Marguerite e Julien viveram há muito tempo atrás, sem precisar em que época.  Mas o que se vê, o castelo, a ambientação rural, a locomoção por cavalos, as roupas, etc., remontam, digamos, ao século XIX.  No final, surge a informação de que o casal morreu em 1603.  Um jogo de pebolim, uma máquina fotográfica Rolleiflex e até mesmo um helicóptero que aparecem procuram embaralhar tudo.  Mas não existe essência sem contexto e a brincadeira não faz sentido, no dramalhão em que se converterá a história.  A narrativa se perde na forma, embora o filme seja visualmente bonito, inclusive com algumas soluções visuais atraentes e até um certo maneirismo, dispensável.  A diretora, Valérie Donzelli, exagerou na dose.  O trabalho do casal de protagonistas Anais Demoustier, como Marguerite, e Jérémie Elkaïm, como Julien, não chega a salvar o filme, porque a moldura que os envolve é inconsistente, mesmo sendo uma livre adaptação de um fato que sucedeu.  Belo, sim, mas carente de veracidade.  105 min.


ATÉ O ÚLTIMO HOMEM


ATÉ O ÚLTIMO HOMEM, de Mel Gibson, com Andrew Garfield, Vince Vaughn, Teresa Palmer, Sam Worthington e Hugo Weaving, é um filme de guerra paradoxal.  Conta a história verdadeira de Desmond Doss, um médico jovem que se alista voluntariamente, por patriotismo, para servir na Segunda Guerra Mundial.  Porém, como objetor consciente, se recusa a pegar em armas e matar alguém, mesmo em meio às batalhas em que participa, cuidando dos que se ferem.  Além disso, é vegetariano.  Sobreviveu e acabou condecorado com a Medalha de Honra, por ter salvado muita gente.  O filme tem aquele estilo religioso e moralista que conhecemos de Mel Gibson.  É longo e violento, com requintes sangrentos.  Mostra os japoneses indestrutíveis, perigosos e sem rosto.  Ou seja, sem humanidade.  E, como observou o crítico Celso Sabadin, não tem negros lutando na guerra.  Pode?  No entanto, “Até o Último Homem” tem seus méritos: você entra na batalha, vive a guerra por dentro, como se fosse um soldado ali metido.  As cenas de guerra são espetaculares e mostradas sob diferentes formas.  A filmagem é requintada e realista.  Para quem curte filmes de guerra, um prato cheio. Seis indicações ao Oscar 2017. Duração: 138 min.



A GAROTA DESCONHECIDA


A GAROTA DESCONHECIDA, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, mais uma vez põe em evidência um dilema moral. Desta vez o de uma jovem médica que não atende a campainha após o expediente e fica sabendo que a pessoa que procurou o consultório morreu. A partir daí o filme vai pouco a pouco moldando as ações movidas pela culpa. É um belo trabalho, mas tem problemas com a verossimilhança e com a solução do caso, que acontece em desacordo com o clima do filme.  Durante os 106 minutos da projeção, não pude evitar de pensar que os badalados irmãos belgas Dardenne já estiveram em melhor forma.  Com Adéle Haenel, Jérémie Renier, Fabrizio Rongione.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A QUALQUER CUSTO


Antonio Carlos Egypto




A QUALQUER CUSTO (Hell or High Water).  Estados Unidos, 2016.  Direção: David Mackenzie.  Com Jeff Bridges, Chris Pine, Ben Foster, Gil Birmingham.  103 min.



“A Qualquer Custo” é um filme que produz um diálogo frutífero entre passado e presente, por meio dos gêneros cinematográficos.  É um western sobre roubo de bancos, mesclado a um road movie, com elementos de comicidade.  Põe em convívio valores do novo e do velho Oeste, que estão em rota de colisão.

O mundo mudou, as cidades mudaram, os bancos se modernizaram, os conceitos morais são outros.  Ainda assim, é possível resgatar uma narrativa que traga de volta os elementos essenciais dos gêneros abordados?  Ainda há pequenas vilas que comportam bancos estruturados primitivamente e, portanto, fáceis de serem assaltados, pelo menos se os valores a serem roubados estiverem à disposição nos caixas.  E nessas localidades pode-se contar com a falta de câmeras e o relaxamento dos controles policiais.  No entanto, ainda haveria policiais às vésperas de se aposentar, convivendo com parceiros comanches dispostos, em nome da lei, a uma caçada aos bandidos implacável, como nos velhos tempos.




É verdade que os bancos, por tradicionais e limitados que sejam seus equipamentos, numa cidadezinha do Oeste norte-americano, manipulam as situações tendo em vista seus interesses e se valem de empréstimos parcimoniosos para perpetuar a pobreza, produzir falências e tomar posse de terras.  E que os chamados bandidos podem estar movidos por razões justas, a defesa das terras da família, juntando dinheiro de pequenos assaltos para recuperá-las.  Trata-se do que pode ser entendido, segundo o diretor, por uma criminalidade redentora, ou seja: pessoas boas fazem coisas más por razões nobres.

Por aí se vê que “A Qualquer Custo” é um filme moderno com aparência de velho, incluindo-se uma bela fotografia que remete aos antigos westerns, marcados por suas belas paisagens, por seus ambientes de pequenos espaços e pelos tons bege das suas ruas empoeiradas.  Ele joga com os elementos tradicionais dos gêneros, para produzir uma discussão moral muito atual, nada esquemática, nem maniqueísta.




Um roteiro inteligente costura os elementos da saga dos irmãos texanos Toby (Chris Pine) e Tannar (Ben Foster), juntando grana de pequenos roubos a bancos, com bons propósitos, e o inevitável confronto com a lei, que favorece os poderosos, e que é aplicada pelo delegado Marcus (Jeff Bridges) e seu parceiro indígena Alberto (Gil Birmingham).


O filme dedica um bom espaço aos relacionamentos e ao clima que produz as ações e desenvolve sua narrativa com grande eficiência.  Um filme estadounidense até a medula, que revisita a história, em busca de um produto tradicional renovado, curiosamente foi dirigido por um cineasta britânico, David Mackenzie, com base em roteiro de Taylor Sheridan, também roteirista de “Sicário, Terra de Ninguém”, de 2015.  Um elenco masculino muito afiado, capitaneado pelo veterano Jeff Bridges, garante um bom espetáculo. “ A Qualquer Custo” está indicado ao Oscar 2017 em quatro categorias, incluindo a de melhor filme.



segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O ÍDOLO


Antonio Carlos Egypto





O ÍDOLO (Ya Tayr El Tayer).  Palestina, 2015.  Direção: Hany Abu-Assad.  Com Tawfeek Barhorn, Kais Attalah, Hiba Attalah.  100 min.



“O Ídolo” é uma produção palestina que conta com o apoio de vários outros países, como Reino Unido, Holanda, Catar e Emirados Árabes.  O diretor Hany Abu-Assad, palestino da cidade de Nazaré, já realizou um belíssimo trabalho que foi exibido por aqui: o filme “Paradise Now”, de 2005, vencedor do Globo de Ouro de filme estrangeiro e premiado em Berlim.  Mostra os preparativos que realizam dois “homens-bomba” suicidas palestinos, com suas convicções e suas dúvidas.  Um libelo pela paz, um trabalho que provoca, incomoda e tenta entender e explicar o que parece incompreensível.

“O Ídolo” é um filme mais simples, mais singelo.  Mas muito capaz de nos envolver na improvável, mas verídica, história do cantor Mohammed Assaf, morador da Faixa de Gaza, que venceu o concurso Arab Idol, em 2013, o equivalente árabe do American Idol, copiado também por aqui.




Parece pouco para provocar em nós emoções intensas.  No entanto, o que o cineasta nos mostra é a opressão que atinge os palestinos em Gaza, dependendo das permissões israelenses para se locomover e convivendo com os verdadeiros escombros em que se transforma o seu ambiente bombardeado, semidestruído.

Crianças e jovens, mesmo vivendo em condições adversas e de restrição de liberdade, se encantam com a música, formam bandas, cantam e têm sonhos que ultrapassam em muito a restritiva vida que levam. Quando alguém se distingue por um talento especial, como uma rara habilidade vocal para o canto, um concurso como o Arab Idol pode funcionar como saída para voos antes inimagináveis. 




De fato, Mohammed Assaf passará a brilhar com a música no mundo árabe e se tornará um ídolo real, não apenas de um programa televisivo.  Grande parte do seu sucesso virá da necessidade de um povo oprimido ser ouvido, mostrar que existe, que pode vencer, triunfar.  É isso que faz dessa uma história cativante, não tanto a batalha pela superação das dificuldades, o que vem sendo muito explorado pelo cinema.

A arte como meio de expressão, no caso, a música, que transcende o cotidiano e alcança repercussão inesperada e significados surpreendentes, é o que “O Ídolo” mostra melhor.  Ir ao Egito, chegar às finais do tal programa no Líbano, receber uma torcida entusiasmada, tomando as ruas na Palestina e em outras partes do mundo árabe, gerou uma expectativa inusitada de que a bela voz de um jovem que canta possa transformar o mundo.  Ainda que seja uma grande ilusão, é bonito poder acreditar nisso.

O filme tem um bom elenco, além de boa música, um pouco diferente do que estamos acostumados a ouvir, mas bem bonita. 



            

sábado, 28 de janeiro de 2017

MISTÉRIO NA COSTA CHANEL


Antonio Carlos Egypto





MISTÉRIO NA COSTA CHANEL (Ma Loute).  França, 2016.  Direção e roteiro: Bruno Dumont.  Com Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi, Jean-Luc Vincent, Brandon Lavieville, Ralph, Didier Despres.  123 min.



Uma comédia surrealista é o que o diretor Bruno Dumont, também roteirista e montador do seu filme “Mistério na Costa Chanel”, nos oferece.  Um elenco estelar, de grandes atores e atrizes, constrói personagens insanos, estranhos, exagerados, ambíguos ou que se inspiram em clichês, e tipos familiares à história do cinema.




Ma Loute (Brandon Lavieville), que dá o nome original ao filme, é uma figura bizarra.  Ele transporta pessoas de um lado ao outro da água, carregando-as nos braços, mas também levando-as, junto com o pai, por meio de um barco, para mais longe.  As pessoas que vão podem não voltar mais e esse é o mistério que se passa, no começo do século XX, numa pequena cidade costeira, no litoral norte da França. 

Há muitos desaparecidos por lá, mas uma dupla de detetives desastrada, inspirada em o Gordo e o Magro do cinema, não percebe nada.  Nem mesmo a existência de uma família de canibais da qual Ma Loute faz parte.  O Gordo (Didier Despres) rola morro abaixo, enquanto a família Van Peteghem: André (Fabrice Luchini), Isabelle (Valeria Bruni Tedeschi) e dois filhos utilizam uma enorme e confortável casa com uma vista privilegiada do local.  Receberão a visita de Aude (Juliette Binoche) e sua filha/filho Billie (Ralph).  A ambiguidade de gênero do personagem Billie percorre todo o filme: será uma menina que gosta de se vestir de menino ou um menino feminino?  Androginia, transexualidade, travestismo ou caso de intersexo?  Também não importa muito.  Quem disse que os mistérios existem para serem solucionados?




Ali  ninguém se entende ou se comunica para alcançar algo, muito menos qualquer tipo de racionalidade.  Reações histéricas para fatos corriqueiros convivem com uma placidez diante de coisas muito graves que estão acontecendo.  As reações não combinam com os fatos.  E, naturalmente, o amor que se estabelece entre Ma Loute e Billie pode ser um problema.

Há um contexto de luta de classes implícito na trama que contrapõe a alta burguesia esnobe aos pescadores pobres que com eles convivem.  Mas ninguém se salva no exagero da caricatura e da farsa.  Não há bem e mal, embora estejam caracterizadas diferenças sociais extremas.  A maldade e a loucura dominam a cena e detonam tudo.




É preciso, evidentemente, entrar na onda do filme, surfar no non sense e rir do besteirol que ele traz.  Mas não é uma bobagem qualquer.  Trata-se de um diretor talentoso, capaz de criar sequências muito bem feitas e de um elenco magnífico que atrai todo o interesse. As locações são muito bonitas. Não é só na Baía de Slack, na França, em 1910, que a insanidade se instala.  Ela parece estar à nossa volta o tempo inteiro.  O mundo é uma loucura só.  E sempre foi, parece nos dizer Bruno Dumont.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

MOONLIGHT - SOB A LUZ DO LUAR

  
Antonio Carlos Egypto





MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR (Moonlight).  Estados Unidos, 2016.  Direção: Barry Jenkins.  Com Alex Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Naomie Harris, André Holland, Mahershala Ali.  111 min.



“Moonlight” entra na corrida para o Oscar com a vantagem de ter sido escolhido como melhor filme na categoria drama, no Globo de Ouro.  E tem uma história envolvente e emocionalmente forte, capaz de tocar a sensibilidade das pessoas.

O personagem central, um afro-americano vivendo num bairro violento, em Miami, será mostrado em três etapas fundamentais da vida: a infância, a adolescência e a vida de jovem adulto, de modo a compor a trajetória de uma tragédia que envolve raça, sexualidade, masculinidade e o mundo das drogas que a circunda. 




Chiron, esse é o nome do personagem, primeiro é Little (Alex Hibbert), um garoto inseguro, largado, sem o necessário apoio familiar e com poucas chances de encontrar seu lugar no mundo, vivendo com Paula (Naomie Harris), mãe solteira, dependente de drogas, mais perdida do que ele próprio.  Poderá encontrar uma figura paterna, acolhedora e provedora, em um amigo da mãe, que é fornecedor de drogas.  Esse personagem, Juan (Mahershala Ali), é uma bela figura humana, mas não pode ostentar a dignidade, que na realidade ele tem, em função de sua atividade danosa e ilegal.

Chiron  adolescente (Ashton Sanders) não tem coragem para enfrentar o bullying que sofre, se sente covarde, desencontrado dos outros, subjugado e agredido.  A cena em que ele mergulha o rosto numa banheira de gelo, para se recuperar de agressões, é muito bonita e tocante.  A revelação do desejo homossexual é um grande complicador a mais, algo marcante e, ao mesmo tempo, fonte de rejeição e opressão social.




Que alternativas teria Chiron, também conhecido como Black, já adulto (Trevante Rhodes), senão  impor-se pela violência, que é o que ele sempre conheceu,  valendo-se do caminho do tráfico?  Uma fileira de dentes de ouro simboliza esse rumo, fonte de dinheiro e de algum poder num mundo de pobreza e ausência de perspectivas dignas de vida.

Uma história que nos traz uma reflexão social e poética sobre a questão da identidade, que o diretor Barry Jenkins conduz com sensibilidade, colocando ênfase nas emoções.  Sua câmera se nutre de cada situação, sofrimento ou esperança, nos levando para dentro dos personagens, que se dirigem ao espectador para mostrar o que é a vida que eles vivem.  Impossível ficar indiferente.





Um filme que exala a negritude como uma força e um drama.  Que denuncia a violência, mas reconhece a beleza.  Afinal, “sob a luz da lua, garotos negros parecem azuis”.  De um conto que tinha esse título, acabou saindo esse trabalho, que foi sendo composto ao longo dos anos.  Um elenco muito talentoso deu vida a essa trama.  E com os três atores que representam Chiron, consegue-se compor a continuidade de um personagem, de uma trajetória de vida, de forma coerente.



domingo, 22 de janeiro de 2017

MANCHESTER À BEIRA-MAR


Antonio Carlos Egypto




MANCHESTER À BEIRA-MAR (Manchester By The Sea).  Estados Unidos, 2016.  Direção: Kenneth Lonergan.  Com Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges, C. J. Wilson.  138 min.



“Manchester à Beira-Mar” é um filme estadunidense que não trata de heróis em quadrinhos, seres fantásticos ou de outro planeta.  Aborda gente de verdade, seres humanos.  Ou seja, conversa com um público adulto, interessado em refletir sobre a vida cotidiana e o ser humano, como ele é.

Esclarecido isso, dá para dizer que o filme trata de um tema psicologicamente muito relevante e que pesa fortemente na vida das pessoas: a culpa.  A culpa não trabalhada, não elaborada, que faz com que os comportamentos inadequados e destrutivos se repitam e acaba por não conduzir a lugar nenhum.




Lee (Casey Affleck) é uma figura humana desencontrada de si mesma, consumida pela culpa.  O alcoolismo, que está na origem do seu problema, se acentua, passando da irresponsabilidade alegre para uma tristeza taciturna.  Ele se torna muito agressivo, antissocial e utiliza seu potencial no grau mínimo, contentando-se com uma ocupação manual que o dispensa de pensar.  Mas não de se indispor com os clientes.

Esse homem terá de enfrentar um desafio para o qual, evidentemente, não está preparado: cuidar de um sobrinho adolescente que perdeu o pai e que não pode viver com uma mãe distante, descontrolada, que oscila entre a dependência do álcool e a de uma religião e de um novo casamento, que possam freá-la.

O convívio entre o tio e o sobrinho, sua problemática, nuances e impasses, ocupam grande parte da trama.  O centro disso é a preocupação com a caracterização do personagem protagonista, os desacertos e descaminhos que ele produz, seu despreparo, seu modo infantil de negar as coisas que se lhe apresentam, suas reações tardias, quando ocorrem.  Como se chega a isso?  Na origem e na base de tudo, a culpa, que corrói.




A relação com a ex-esposa se torna impossível para ele, em qualquer circunstância.  Está consumida pelo fogo, que destruiu aquele casamento e os filhos.  E destruiu a vida dela pós-separação, também, pelo que se vê.  Não há espaço para nenhuma reparação, pelo menos da parte dele.

Estamos diante de um drama?  Mais do que isso, de uma tragédia.  Que se manifesta de muitas formas, ao longo da narrativa.  O espectador tende a pedir: menos, menos.  É tragédia demais nessa vida.

Apesar disso, o tom do filme não é trágico.  É mais um relato triste, desesperançado, sem saída.  Mas também sem exageros, arroubos interpretativos, escândalos.  As coisas se colocam em tom baixo.  Desanimador, não histérico.  Para isso contribuem os desempenhos dos atores, em especial, o de Casey Affleck.  Ele dá o tom certo, minimalista, ao personagem Lee.  O elenco todo compõe bem o clima da história.




O vai-e-vem da narrativa no tempo e as cenas que vão se apresentando, exigindo que a plateia fique atenta e monte, pouco a pouco, o quebra-cabeça de quem é quem e o que está fazendo aqui, também colabora para esfriar as emoções, evitando o envolvimento intenso com o drama que está sendo mostrado.  Isso dá margem ao distanciamento necessário para se refletir sobre o que se vê.  O resultado é muito bom, talvez com menor apelo comercial.  Mas como o filme deve figurar na lista do Oscar, isso vai ser compensado.



            

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A MORTE DE LUÍS XIV


Antonio Carlos Egypto





A MORTE DE LUÍS XIV (La Mort de Louis XIV).  França, 2016.  Direção: Albert Serra.  Com Jean-Pierre Léaud, Patrick d’Assumçao, Marc Susini, Irene Silvagni.  105 min.



Os últimos dias de Luís XIV (1638-1715), o rei Sol, não foram alegres, iluminados ou ostentatórios.  Foram deprimentes.  Mas como poderia deixar de ser deprimente a agonia da morte?  Principalmente numa época em que a medicina sabia muito pouco, quase nada, sobre o corpo humano e tudo se esvaía sem esperança.

O filme do cineasta catalão Albert Serra, “A Morte de Luís XIV”, procura reconstruir os momentos finais da vida de um rei que marcou enormemente a história da França, num reinado de 72 anos.

Tudo começa com uma dor na perna, depois de uma caminhada.  A partir daí, a febre, a fraqueza, a inapetência e o sono intranquilo, vão nos mostrando a agonia do monarca, cercado por seus serviçais, fiéis seguidores e médicos, que pouco sabiam fazer além das tradicionais sangrias.  O quadro evolui para uma gangrena fatal.




Acompanhamos todos esse processo, passo a passo, no leito de morte real.  É duro, traz desconforto ao espectador, mas é muito realista.  Vale para todo mundo, não só para as figuras reais, ou famosas.  Estar cercado de pessoas e cuidados, como o filme mostra, acaba ajudando pouco, porque as agruras da morte têm de ser enfrentadas por cada um consigo mesmo.

A pessoa responde ao desafio da morte com suas características próprias e as das doenças que adquiriu.  As dores variam, os cuidados, também.  Melhor para quem tem processos rápidos, fulminantes.  Não foi o caso de Luís XIV, que sofreu, irremediavelmente, em função dos parcos recursos de seu tempo, mesmo sendo o que teve acesso a tudo o que era possível na época.

O grande ator Jean-Pierre Léaud, que conhecemos desde menino, em função dos filmes de François Truffaut (1932-1984), que ele protagonizou com brilhantismo em várias fases da vida, tem agora a oportunidade de novo grande desempenho no ocaso da vida do rei Sol, aos 77 anos de idade.




Vê-lo sofrer o tempo todo do filme, nesse papel, incomoda.  Desejaríamos tanto ao rei,  quanto ao ator, que é muito exigido nessa atuação, melhor sorte.  Ou, quem sabe, é do espelho da nossa morte que se trata.  O cineasta Ingmar Bergman (1918-2007) dizia com todas as letras que tinha muito medo da morte, não exatamente de morrer, mas da agonia que a morte pode trazer.  A julgar pelo filme “A Morte de Luís XIV”, o rei Sol não foi poupado dessa exasperante agonia.  

Albert Serra dirigiu e roteirizou com Terry Lounas uma obra detalhista e desconcertante sobre o fim da vida, tirando o espectador da zona de conforto.  É muito pesado, mas é um belo trabalho cinematográfico.


Aproveito para lembrar que o filme de Roberto Rossellini (1906-1977) “A Tomada do Poder por Luís 14”, de 1966, que retrata a ascensão do rei, foi relançado recentemente na coleção da Folha, “Grandes Biografias no Cinema”, concebida e coordenada pelo crítico Cássio Starling Carlos, o livro-DVD ainda pode ser encontrado nas bancas de jornais.