sábado, 17 de agosto de 2019

CLAIRE DARLING

Antonio Carlos Egypto





 A ÚLTIMA LOUCURA DE CLAIRE DARLING (Le Derniére Folie de Claire Darling).  França, 2018.  Direção: Julie Bertuccelli.  Com Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni, Samir Guesmi, Alice Taglioni. 94 min. 


Ver Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, mãe e filha na vida real, e grandes atrizes da telona, atuando juntas no mesmo filme, já é um bom motivo para ir ao cinema. 

“A Última Loucura de Claire Darling”, porém, tem algo mais a oferecer.  A história de Claire, que decide que sua vida chegou ao fim e resolve se desfazer de todos os seus ricos, artísticos e sofisticados pertences, a preços meramente simbólicos, tratada aqui como loucura, pode trazer algumas reflexões interessantes.

Sabe-se que, com o avanço da idade, ocorrem algumas perdas mentais, lapsos de memória, esquecimentos, o presente fugidio, aspectos do passado que se borram, coisas assim.  Não se trata de diagnóstico de Alzheimer ou similar.  É a perda natural da vida, que o passar do tempo cobra.  No entanto, trata-se de pessoa lúcida, mais do que isso, inteligente, instruída, de gostos altamente sofisticados. 

O que ocorre é que essa lucidez acaba sendo parcial.  Ou seja, parte dela se perde nesse processo de deterioração natural.  O uso inadequado e a percepção do valor do dinheiro é um bom exemplo.  Coisas são supervalorizadas e pagas regiamente.  Ou bens e valores são esbanjados sem motivo, ou a partir de uma avaliação precária e imediata, ou, ainda, por adesão a uma causa, por exemplo, religiosa, discutível. 




No caso do filme da diretora Julie Bertuccelli, é a ideia de que se possa conhecer o dia ou o momento da própria morte.  Antevê-lo sem estar vivendo nenhuma situação de doença ou dor extremas, é, evidentemente, um delírio, que gera comportamentos extravagantes, capazes de trazer de volta à pequena aldeia, onde vive a mãe, uma filha distante, um vínculo complicado.  Mãe e filha, belas mulheres, grandes atrizes, que encarnam com brilho esses papéis.




quinta-feira, 15 de agosto de 2019

RAFIKI

Antonio Carlos Egypto






RAFIKI (Rafiki).  Quênia, 2018.  Direção: Wanuri Kahiu.  Com Samantha Mugatsia, Sheila Munyiva, Jimmi Gathu, Nini Wacera.  82 min.


Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva) se sentem atraídas uma pela outra e se tornam as “amigas” do título original.  São filhas de dois políticos locais, de uma região de Nairobi, no Quênia, que estão em disputa na eleição municipal, com posicionamentos políticos diferentes.  Só por isso, já não seria muito adequada essa aproximação.

Fica mais complicada a situação, considerando-se que, apesar de o casamento gay entrar nas cogitações políticas, no Quênia a homossexualidade é ilegal e pode ser penalizada com prisão.  Além disso, é fortemente rejeitada e hostilizada pela religião.  Não há garantia dos direitos dos LGBTs.

Tudo isso faz com que o amor entre Kena e Ziki, que se dá de forma quase instantânea – amor à primeira vista? – se torne um drama, impedindo que elas possam experimentar um envolvimento amoroso que escapa dos padrões e expectativas dessa sociedade muito conservadora.




“Rafiki” trabalha essas questões com sutileza, numa produção bem cuidada, e escorando-se no admirável talento da jovem atriz Samantha Mugatsia, que nos conquista desde os primeiros planos do filme.  Sua parceira explora mais a aparência e a feminilidade, mas não tem o mesmo carisma.  O resultado geral é muito bom.  O filme da diretora Wanuri Kahiu merece ser conhecido e apreciado. 


Não precisa nem dizer que a exibição de “Rafiki”, que tem coprodução da África do Sul e França e foi bem recebida nos festivais internacionais de cinema, teve sua exibição proibida no Quênia, por supostamente promover o lesbianismo.  Em pleno século XXI, há países e governos que querem impedir que a diversidade humana exista.  Mostrá-la se confunde com propagá-la.  Temos muito ainda para evoluir, até que o mundo como um todo possa ser um lugar habitável para todos os humanos.


domingo, 11 de agosto de 2019

SIMONAL

Antonio Carlos Egypto






SIMONAL.  Brasil, 2018.  Direção: Leonardo Domingues.  Com Fabrício Boliveira, Ísis Valverde, Caco Ciocler, Leandro Hassum, Mariana Lima.  105 min.


A história, fabulosa e complicada, da carreira de Wilson Simonal (1938-2000) tinha se tornado um tabu, do qual ninguém mais tratava, até que o documentário “Simonal, Ninguém Sabe o Duro que Dei”, de 2009, corajosamente enfrentou a questão.  Seus diretores, Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, foram capazes de lançar luz sobre o paradoxo de um dos maiores cantores da história da MPB,  e de um domínio de palco absoluto, ter sumido do mapa, por conta de suas ligações com órgãos de repressão da ditadura militar.  Simonal se valeu de ligações com o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) para pressionar e, ao que tudo indica, torturar seu contador, acusado de roubá-lo.  Injustamente, porém.  Foi também acusado de dedo-duro  junto a colegas artistas, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, que teriam sido apontados como subversivos, ou comunistas, algo jamais provado, diga-se.  Ao tratar daquele filme, procurei fazer uma síntese sobre o assunto, que pode ser acessada aqui: https://cinemacomrecheio.blogspot.com/2009/05/simonal-o-documentario.html

Agora, chega aos cinemas a produção ficcional “Simonal”, de Leonardo Domingues, tratando a rigor das mesmas coisas, acrescentando alguns detalhes do caso, que podem ser importantes.  Mas tudo já parecia estar razoavelmente esclarecido.  Então, o destaque vai para os êxitos de sua carreira, interpretações e desempenhos marcantes nos palcos, e para a rejeição que se seguiu.




Um bom musical para vender novamente os grandes sucessos do cantor.  Quem acompanhou aquela escalada vai se lembrar, com certeza, de “Sá Marina”, “Nem Vem, que Nâo Tem”, “Mamãe Passou Açúcar Ni Mim”, “Vesti Azul”, “Aqui é o País do Futebol”, “Carango”, “Tributo a Martin Luther King”, o grande “País Tropical”, de Jorge Ben, e o clássico “Meu Limão, Meu Limoeiro”, de 1937, de José Carlos Queiroz Burle (1910-1983), que Carlos Imperial (1935-1992) registrou como se fosse composição dele.  E o nome disso, na época, não era roubo, desonestidade, era pilantragem.  Fácil assim, não é?

Constam da trilha sonora também músicas do que seria a primeira fase de sucesso de Simonal, inspirada na bossa-nova, jazz, blues.  A mais marcante, “Balanço Zona Sul”, está lá.  Outras que aparecem são, porém, inadequadas.  “Lobo Bobo”, todo mundo sabe que é uma das mais marcantes interpretações de João Gilberto, e “De Manhã”, um baita sucesso de Caetano, na voz de Maria Bethânia. Simonal também as gravou, assim como gravou, por exemplo, “Disparada” e “A Banda”, mas são apenas regravações à sua moda.  Só isso.  Não são sucessos dele.

Outra coisa que me incomodou foi uma sequência em que Simonal ensina a Jorge Ben (ou Benjor, como ficou depois) o suíngue de “País Tropical”, com a novidade do corte das últimas sílabas.  Pouca gente na MPB tem mais ritmo, balanço e humor, do que Jorge Benjor.  É muita pretensão achar que Simonal foi quem ensinou isso a ele.  Que é o criador, o compositor da música.

Enfim, recuperar os méritos, o talento de Wilson Simonal, tudo bem.  Mas não é aceitável exagerar dessa forma.  A MPB da época dele era, e ainda é, uma geração brilhante, além de comprometida com a luta pela liberdade e pela democracia.  Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius, Edu Lobo, Jorge Benjor, Caetano, Gil, Milton Nascimento, Vandré, Tom Zé, tanta gente.  Simonal fazia o lado mais comercial e divertido da história.  Descompromissado, na base da alegria, alegria, em tempos de opressão.  É válido, mas devagar com o andor que, na real, o santo se mostrou mesmo de barro.




A produção do filme “Simonal” é boa, bem cuidada.  Fabrício Boliveira, que interpreta o cantor, consegue passar o pique e a força do Simonal dos tempos de glória e da fase de derrocada.  Ísis Valverde tem destaque na trama, no papel da esposa Tereza.  O elenco, como um todo, é muito bom.

A forma como a história é contada foca demais em Simonal, deixando toda a brilhante MPB da época na sombra.  É um erro, dá uma dimensão excessiva ao personagem, em prejuízo do contexto que o envolvia, que não era só o da ditadura militar, mas a da resistência a ela, brava e poderosa, por parte dos artistas do período com quem Simonal convivia.  E dos que compartilharam de seu tempo, em paralelo à sua carreira.  Fica muito mais fácil entender a rejeição que ele sofreu no contexto mais amplo de onde ela se deu.  Fica mais claro, politicamente, e bem menos paradoxal.



terça-feira, 6 de agosto de 2019

FESTA DO CINEMA ITALIANO

Antonio Carlos Egypto


De 08 a 14 de agosto aporta em São Paulo, no Espaço Itaú Augusta, a já tradicional “8 ½ Festa do Cinema Italiano”.  Muita coisa boa no cardápio dessa festa.  A começar pela apresentação em duas partes do grande filme de Marco Tullio Giordana, de 2003, “O Melhor da Juventude”.  (La Meglio Giuventú).  Uma família em que dois irmãos vivem juntos e separados em momentos da história recente da Itália, dos anos 1960 aos 2000.  Vão a Roma, passam pelas origens em Ravena, estudam em Bolonha, se encontram em Florença em plena cheia que castigou a cidade, em eventos de radicalismo político e repressão em Turim, nos julgamentos de Milão, na máfia siciliana, em Palermo, onde também se dá o assassinato do juiz Giovanni Falcone e outros, no tempo da Brigada Vermelha, e por todos os cantos, ao longo desse período contemporâneo italiano. Uma jovem com problemas mentais compõe o trio de protagonistas, o que permite discutir o descalabro dos hospitais psiquiátricos e a revolução promovida por Basaglia no mundo, a partir da Itália.




A costura dos fatos e personagens é muito bem feita, a filmagem exala humanidade, afeto e compreensão, em meio aos inevitáveis conflitos da vida, desencontros amorosos e familiares.  Recheada por ótimos atores de um elenco jovem e música da mais alta qualidade, e não só italiana.  Vai de Dinah Washington a Cesária Évora.  Todos perseguem seus sonhos, se iludem, se magoam e seguem em frente, na busca incessante por uma vida que possa ser melhor.

É um dos grandes filmes do cinema italiano de todos os tempos.  Grande na qualidade, mas também no tamanho.  São 6 horas de duração, por isso as sessões são divididas em dois dias, de 3 horas cada um.  Talvez você diga: nem pensar!  E não tente.  Se você disser: vou ver só a primeira parte para conferir como é, eu lhe garanto, você não vai querer perder a segunda parte, por nada desse mundo.  E se chegar ao final da saga vai sentir um gosto de que ainda queria mais.

Mas além de “O Melhor da Juventude”, a mostra tem filmes que abordam a grande arte italiana: “Michelangelo Infinito” e “Caravaggio, a Alma e o Sangue”, em dois documentários que ainda pretendo ver.  Tem o novo filme de Paolo Sorrentino, que trata do personagem político Silvio Berlusconi e sua trupe corrupta de direita, em “Silvio e os outros”, e muito mais.


NOITE MÀGICA

“Noite Mágica”, o novo filme de Paolo Virzì, que já vi, é outra bela opção.  A partir de uma morte acidental, ou intencional, num carro que mergulha no rio Tibre, os personagens desta investigação penetram no universo cinematográfico da grande fase italiana dos anos 1960 e 1970.  Para quem acompanhou e conhece esse período do cinema italiano, há um sem-número de citações e insinuações reconhecíveis e divertidas.  O espectador comum pode não percebê-las, mas ainda assim acompanhará o ritmo feérico do filme, os bastidores do cinema e seus tipos característicos, a partir de três jovens talentosos roteiristas, que são os suspeitos investigados, em sua tumultuada jornada pelas ruas de Roma, o epicentro desse fenômeno cinematográfico tão marcante que a Itália legou ao mundo e à história.

Mas se você preferir conferir outras cinematografias que não a italiana e quiser dispensar os filmes estadunidenses e franceses que ocupam o circuito, nos mesmos dias da mostra italiana, o Cinesesc tem a mostra “Mundo Árabe”, com produções recentes que merecem ser conhecidas.  E está em cartaz também, até 14 de agosto, distribuído em diversos locais, o “23º. Festival do Cinema Judaico”.   Esse acontece na Hebraica, no Museu da Imagem e do Som, no Instituto Moreira Salles e no Sesc Bom Retiro.  Por falta de opção é que você não vai deixar de ir ao cinema.  Até porque os preços dessas mostras são inferiores aos dos bilhetes de cinema convencionais.  E esse frio que está fazendo em São Paulo não convida para um cineminha também, num ar condicionado mais quentinho?  




quinta-feira, 1 de agosto de 2019

MISTÉRIOS + CORAÇÃO DO MUNDO

Antonio Carlos Egypto



O MISTÉRIO DO GATO CHINÊS

O MISTÉRIO DO GATO CHINÊS  (Kûkai).  China, 2017.  Direção: Chen Kaige.  Com Huang Xuan, Shôta Sometani, Kitty Zang Yugi.  129 min.


O filme “O Mistério do Gato Chinês” é uma produção chinesa de luxo, de alto padrão e beleza visual.  Não só pelos palácios suntuosos, figurino exuberante e exotismo histórico, mas pela profusão de sofisticados efeitos especiais.  É, por esse aspecto, um espetáculo deslumbrante.

A trama, porém, é apresentada de um modo complicado, confuso, de difícil entendimento.  Mostra um monge e um poeta que buscam pistas misteriosas, envolvendo uma morte.  Que remete a um gato preto demoníaco a quem se atribuem crimes no período da China medieval, após a reunificação do país, durante a dinastia Tang (618 a 906 d.C.).  Coisa de mais de mil anos, portanto.

A verdade é que a história importa menos do que a criação visual, no caso.  No entanto, quando a técnica fica muito evidente e é usada em demasia, como acontece aqui, algo sai do tom.

O cineasta Chen Kaige, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1993, por “Adeus, Minha Concubina”,  parecia caminhar para uma carreira de sólido sucesso, que acabou não acontecendo.  Ele não conseguiu repetir o feito de então, mesmo tendo realizado bons filmes.  Faltou maior elaboração ou um roteiro mais consistente e empolgante.  Em “O Mistério do Gato Chinês”, o espetáculo visual está garantido, mas passou um pouco do ponto e deixou o espectador imerso no mistério.
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O MISTÉRIO DE HENRI PICK

O MISTÉRIO DE HENRI PICK (Le Mystère Henri Pick).  França, 2019.  Direção: Rémi Bezançon.  Com Fabrice Luchini, Camille Cottin, Alice Isaaz, Bastien Bouillon, Hanna Schygulla. 100 min.

O filme “O Mistério de Henri Pick” começa com um programa da TV, supostamente aberta, pela repercussão, em que se discutem lançamentos literários, com debates e análises críticas das obras comentadas.  Algo que parece tão distante do nosso dia-a-dia, que dá inveja.  A importância e a dimensão do livro na vida das pessoas na França parece exponencialmente superior a qualquer coisa que observemos por aqui.  Esse preâmbulo é importante para marcar a diferença de contextos, porque a própria trama tende a ser estratosférica para nós, se não atentarmos para essas diferenças.

Numa cidade do interior da França, uma biblioteca bretã cria uma inacreditável sala de manuscritos rejeitados pelas editoras para publicação.  E é lá que uma jovem profissional editora acaba por encontrar uma joia preciosa, que deve ter passado despercebida pelos editores que a leram.  Era um texto tão talentoso que, ao ser publicado, se torna um imenso sucesso editorial.

O autor já morreu há dois anos e é desconhecido.  Ou melhor, descobre-se que ele era um pizzaiolo que, ao que se sabe, jamais teria lido um livro.  Quanto mais escrever um.   Desse mistério é que se faz o filme.

Fabrice Luchini, grande ator, faz o papel de crítico literário, Jean-Michel Rouche, da TV, que questiona e investiga os fatos, ao lado da filha do autor Henri Pick, Joséphine, vivida por Camille Cottin.  Alice Isaaz faz a editora Daphné Despero e Bastien Bouillon, o autor Frédéric Kostas.  E nesse belo elenco ainda cabe uma ponta para a grande Hanna Schygulla.  O filme de Rémi Bezançon é divertido e bom de se ver, apesar de se valer de reviravoltas demais, até chegar ao desvendar do mistério.
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NO CORAÇÃO DO MUNDO

NO CORAÇÃO DO MUNDO.  Brasil, 2019.  Direção: Gabriel Martins e Maurílio Martins.  Com Kelly Crifer, Leo Pyrata, Grace Passô, Bárbara Colen, Robert Frank.  120 min.


Contagem, Minas Gerais, pode ser vista como o coração do mundo, por algum dos personagens do filme de Gabriel e Maurílio Martins.  Na realidade, é um contexto de periferia bastante sofrido, com poucas possibilidades de sobrevivência digna e tranquila.  Há o desemprego, hoje já uma característica marcante do momento nacional atual, mas também os trabalhos intermitentes, mal remunerados, que não abrem perspectivas para que algum tipo de sonho pareça viável.   E o filme pega esse veio documental por meio de personagens colados a esse contexto social empobrecido.

Na ausência de saídas, a transgressão se oferece como caminho, para alcançar o impossível, nas circunstâncias dadas.  Mais do que transgressão, crime, mesmo.  E “No Coração do Mundo” muda o registro para entrar num mundo hollywoodiano de filme policial, de suspense e ação, fazendo assim uma combinação de realismo e espetáculo de gênero, que surpreende, mas funciona.  Não chega a ser água e óleo, não, embora corra o risco de desagradar, pelo menos em parte, tanto os que buscam a reflexão sobre a realidade social, quanto os que esperam pelo entretenimento.

O desempenho do elenco é bastante desigual.  Traz Grace Massô, uma atriz de forte presença, inflexão e dicção perfeitas, mas traz também, em papel central, Leo Pyrata, que tem problemas de dicção que acabam comprometendo a compreensão de parte de seus diálogos.  Não é um problema só dele, quando se combinam dicção imperfeita com linguagem regional e gíria específica, fica complicado.  Várias sequências do filme exigem atenção redobrada do espectador para ouvir e entender as falas.  Talvez uma legendagem possa ser recomendada em alguns locais de exibição, também no Brasil.



sexta-feira, 26 de julho de 2019

3 FRANCESES

Antonio Carlos Egypto


O cinema francês tem tido uma presença constante no mercado cinematográfico brasileiro.  Cada vez mais filmes são exibidos e têm conquistado um bom público para seus produtos.  Com o aumento da quantidade, porém, perde-se um pouco a qualidade. Filmes apenas medianos e mais comerciais ocupam espaço e, por vezes, frustram as expectativas desse público que já se acostumou e se identificou com o cinema francês contemporâneo.  Vejamos alguns títulos que estão nos cinemas.



OS DOIS FILHOS DE JOSEPH

OS DOIS FILHOS DE JOSEPH (Deux Fils) tem um fio condutor interessante.  O adolescente Ivan (Mathieu Capella), de 13 anos, tem seu pai Joseph (Benoît Poelvoorde) e seu irmão mais velho, Joaquim (Vincent Lacoste), como referências masculinas importantes .  Só que os dois o decepcionam significativamente nesse papel.  O pai, porque após a morte do irmão abandona a profissão de médico para tentar ser escritor.  Joaquim, porque deixou sua tese de lado e só vive atrás de mulheres e bebida.  Exemplos que ele não quer seguir, mas... sabe como é, né?
O elenco é excelente, mas não rende tudo o que podia, nem a trama consegue se aprofundar no assunto.  Os personagens não são tratados como fracassados, embora estejam sendo, mas não são categorias, são pessoas que sentem, se confundem, se perdem, mas merecem respeito.  Já é alguma coisa, claro.  Mas não é o suficiente.
O tom é leve, no entanto o filme não chega a ser engraçado.  E o drama dos personagens fica no meio do caminho.  90 min.

O PROFESSOR SUBSTITUTO (L’Heure de la Sortie), de Sébastien Marnier, começa de forma impactante.  Vê-se que o professor de uma turma de alunos superdotados se joga da janela, tentando o suicídio.  E quem vai enfrentar esses alunos que têm comportamentos muito estranhos, em vários sentidos, é justamente o professor substituto.  Acontecerá o mesmo com ele?  Qual o segredo que esses alunos escondem?  Por que rejeitam e são rejeitados pelos outros jovens da escola?  E a coisa toda passa do ambiente educacional para o campo do suspense e do terror, indo para um outro registro.  Um bom elenco e questões relevantes contemporâneas, que recheiam a trama, não chegam a produzir um filme que empolgue.  104 min.



UM HOMEM FIEL

UM HOMEM FIEL (L’Homme Fidèle), de Louis Garrel, se inspira na tradição da nouvelle vague, lidando com um quarteto amoroso, formado por Abel (Louis Garrel), Marianne (Laetitia Casta), Paul (Joseph Engel) e Eve (Lily-Rose Depp), envolvendo separações, perda da mulher para o amigo, retorno no tempo, expectativas amorosas que vêm desde a meninice, suas alternativas, possibilidades e impedimentos.  Nada de tão novo, exceto o foco na fidelidade masculina, mas o filme flui bem, envolve e trata de gente real.  As relações amorosas, sob os mais diversos ângulos, sempre foram o forte do cinema francês.  O filme foi escrito pelo diretor e ator Louis Garrel, Florence Seyvos e ninguém menos do que Jean-Claude Carrière, um dos maiores roteiristas da história do cinema francês.  E isso faz toda a diferença.  O filme dá seu recado sem enrolar nem perder tempo, em apenas 75 minutos, bem aproveitados.






domingo, 21 de julho de 2019

ALADDIN

Antonio Carlos Egypto






ALADDIN (Aladdin).  Estados Unidos, 2019.  Direção: Guy Ritchie.  Com Will Smith, Mena Massoud, Naomi Scott, Marwan Kenzari.  128 min.


A história árabe de Aladdin e de sua lâmpada maravilhosa remonta a muitos séculos. Difícil identificar sua origem no tempo.  Ela foi incorporada aos contos das Mil e Uma Noites e encantou o Ocidente.  Tanto que são incontáveis os produtos e as diferentes adaptações da trama de Aladdin. 

Em 1992, em forma de desenho animado da Disney, Aladdin fez um sucesso estrondoso.  O que justifica sua refacção agora, na forma live action, ou seja, a repetição da animação, agora com atores, e tantos efeitos especiais quanto possível, para tornar humano o desenho.  Um gênio tem de sair da lâmpada, tapetes têm de voar, as peripécias, saltos e quedas do personagem principal não são nada realistas, e assim por diante.  No entanto, os recursos que o cinema tem hoje permitem criar com pessoas o que só o desenho poderia fazer no passado.

É preciso lembrar, porém, que a fantasia nasceu junto com o próprio cinema.  Georges Méliès (1861-1938) já fazia todo o tipo de truque, como jogar cabeças de um corpo a outro, por exemplo, antes mesmo de o século XX chegar.  A viagem à lua completa agora 50 anos, mas Méliès já tinha feito sua viagem à lua no cinema em 1902.  Um dos filmes mais emblemáticos da sétima arte.




Em “Aladdin”, a fantasia chega a níveis alucinantes, combinada com a ação e o ritmo vertiginoso que o filme tem, a garotada não tem do que reclamar.  Especialmente a criançada.  Constatei isso indo a uma sessão diurna cheia de crianças, algumas bem pequenas, e imaginei que a zoeira durante a projeção seria inevitável.  Para minha surpresa, não foi.  Interesse e silêncio foi o que mais se pôde perceber naquela ocasião.  “Aladdin” prendeu a atenção da turma de uma forma incrível.

Mérito da concepção original da animação e do diretor inglês, Guy Richtie, responsável pela refacção atual.  O cineasta já fez filmes como “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes’ (1998), “Sherlock Holmes: o Jogo de Sombras” (2011) e “Rei Arthur: a Lenda da Espada” (2017).  É bom de taco para o entretenimento e personagens mitológicos.

Claro que podemos questionar essa história de o Oriente ser pura fantasia, extravagante, exótica ou, então, de virar terra de fanáticos terroristas islâmicos.  Além disso, há muitas e diferentes visões de mundo e comportamentos no chamado Oriente, que tem grande diversidade e não cabe em generalizações que pretendam anular essas diferenças.  Clichês, seja de que tipo forem, não servem para se entender as pessoas, os povos, as culturas.  “Aladdin” não escapa aos estereótipos de costume, mas que é bom entretenimento, é.

Will Smith faz um gênio exuberante e divertido e o casal formado por Aladdin e a princesa (Mena Massoud e Naomi Scott) consegue conquistar a simpatia do público.





quarta-feira, 10 de julho de 2019

ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

Antonio Carlos Egypto





ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR.  Brasil, 2018.  Documentário.  Direção e roteiro: Marcelo Gomes.  85 min.


“Cinema, Aspirinas e Urubus”, 2005, primeiro longa-metragem do diretor pernambucano Marcelo Gomes, está para mim entre as melhores produções brasileiras do século XXI.  “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, 2009, dirigido por  Marcelo Gomes e Karim Ainouz , é um filme experimental brilhante e um dos produtos mais criativos da nossa filmografia recente.  O que recomenda vivamente o trabalho do cineasta.  Marcelo Gomes fez ainda “Era Uma Vez Eu, Verônica”, 2012, e “Joaquim”, 2017, e codirigiu com Cao Guimarães “O Homem das Multidões”, 2013.  Uma trajetória bastante sólida e consistente.

Seu novo trabalho, “Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar”, peca pelo título quilométrico, que remete a uma música de Chico Buarque.  No entanto, é um documentário com uma abordagem simples, clara e direta, que dá conta de uma realidade bem mais complexa do que a sua aparência faria supor e alcança uma dimensão reflexiva surpreendente.

Como um filme que se constrói ao caminhar sobre o tema e ao encontrar elementos novos a cada passo, a narrativa se estabelece à medida em que é capaz de ouvir o outro com atenção e, de algum modo, interagir,  participar e intervir no seu objeto de estudo.




O personagem do documentário é a cidade de Toritama, no Agreste de Pernambuco, que era uma localidade pacata, que Marcelo Gomes conheceu quando criança, acompanhando seu pai em visitas de trabalho.  Era, não é mais.  Foram justamente a agitação e as mudanças em Toritama, visíveis ao passar pelas estradas locais, que chamaram a atenção dele.  Agora Toritama se define como a capital do jeans,  20% de toda a produção de jeans  do Brasil vem de lá, cerca de 20 milhões de peças por ano produzidas em fábricas de fundo de quintal, que são chamadas de facções.  É surpreendente que uma cidade com 40.000 habitantes tenha uma produção assim tão grande para ostentar.  E por que isso acontece?  Em síntese, porque tudo que se faz lá, o tempo inteiro, é trabalhar.  Cada casa ou conjunto delas vira uma oficina de costura individual ou coletiva.  Quase todos parecem preferir trabalhar por sua conta e risco, como e quando quiser, sem carteira assinada na fábrica.  Com a certeza de que o que produzirem vai ser comprado.  Ou porque já foi combinado ou porque vai ser vendido nas grandes feiras que atraem público de todos os cantos.

Como mais peças ou partes de peças costuradas resultam em pequenas quantidades de dinheiro, quanto mais se faz mais se ganha. Conclusão, a maioria dos moradores/produtores da cidade trabalha continuamente desde cedo até tarde da noite.  Em casa mesmo, sem horário.  Ou melhor, sem horário para viver, só para trabalhar, comer e dormir, com direito a uma hora de TV, provavelmente para ver a novela. Uma espécie de escravidão não só consentida, mas buscada pela população.  Que dela não se queixa, com poucas exceções.  Acha que está muito bom assim, sente-se livre e dona do seu nariz.  Ou melhor, do seu negócio.  Muito curioso esse microcosmo do capitalismo que toma de assalto e transforma radicalmente uma pequena localidade, que já não tem espaço nem para criar galinhas ou fazer caminhar os bodes que restaram pela cidade, cruzando a rodovia.

Se isso parece estranho e surpreendente, o que dizer da obsessão absoluta de toda a população em, obrigatoriamente, passar o Carnaval na praia?  Custe o que custar, ninguém fica, todos saem para tomar banhos de mar, beber, fazer alguma fantasia, batucar e dançar no Carnaval.  Se não tiver dinheiro, vende o que tem – fogão, geladeira – ou toma emprestado, para depois pagar ou recomprar o que vendeu.  O que não pode é perder o Carnaval.

Marcelo Gomes filmou a cidade nos dias de Carnaval e só então reencontrou o silêncio e as ruas vazias do seu tempo de criança. O mundo do trabalho e o do  lazer (ou férias) se colocam em oposição.  Oposição não é bem a palavra.  Talvez espaço e tempo estanques, separados.  Trabalho todo o tempo.  Parada no Carnaval, fora da cidade, como obrigação incontornável.  Trabalho parece ser só dinheiro e o dinheiro vira uma dependência, é só ele que importa.  Prazer  no período mágico do Carnaval, tratado como obrigação tanto quanto a atividade produtiva. Mas há também prazer no trabalho e nos resultados obtidos. Por que não é possível integrá-los, mesclá-los, equilibrar algumas coisas, diante da obsessão em fabricar cada vez mais e mais e obter o dinheiro desejado?




Fico pensando nos mecanismos da Internet – e-mails, WhatsApp, outras redes sociais – nos tomando um tempo absurdo de trabalho não remunerado, quando a tecnologia teria de ter vindo para nos poupar tempo e permitir o ócio criativo.  Parece que também aqui nos deixamos escravizar com gosto, ou simplesmente o esquema nos engole.  Isso também tem a ver com abdicar da liberdade para seguir um salvador da pátria, um mito qualquer?  O ótimo documentário de Marcelo Gomes nos faz pensar em muitas coisas como essas, que não estão no filme, mas na minha cabeça, nesse momento.

A música do Chico Buarque, que está no filme, e tem como estribilho Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar  fazia alusão á liberdade que o sujeito viveria com o fim da ditadura militar opressora, restritiva de todas as liberdades e que tinha como oposição o Carnaval libertador.  Não é o sentido, aqui, o Carnaval, no caso, é uma liberação momentânea de um trabalho que, no fim das contas, embora não pareça, é também opressivo, mas que dura pouco e nada muda.

Este filme do Marcelo Gomes, cujo título me permito não ficar repetindo, por ser longo demais, ganhou o prêmio do Júri Oficial e o da Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema) no Festival  É Tudo Verdade  2019.  E está na sessão Vitrine, com preço reduzido, em grande número de cidades brasileiras.

CINEMA AFRICANO
Começa agora a Mostra de Cinemas Africanos, no Cinesesc São Paulo.  Serão exibidos 24 filmes de 14 países do continente, de 10 a 17  de julho.  Uma boa oportunidade para conhecer melhor um cinema ainda pouco divulgado por aqui.




quinta-feira, 4 de julho de 2019

A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS

Antonio Carlos Egypto






A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS (Ahlat Agaci).  Turquia, 2018.  Direção: Nuri Bilge Ceylan.  Com Aydin Dogu Demirkol, Murat Cemcir, Bennu Yildirimlar, Hazar Ergüçiü.  188 min.


“A Árvore dos Frutos Selvagens” é o novo trabalho do diretor turco Nuri Bilge Ceylan, que prima por imagens de grande elaboração e beleza nos seus filmes.  Enriquece o seu apuro visual com locações na Anatólia, a região turca de sua origem, que tem paisagens exuberantes.  É, portanto, com grande prazer que vemos a natureza magnificamente enquadrada, as expressões humanas se revelando, em meio a um ambiente amplo, mostrado por planos gerais e panorâmicas, mas também por detalhes significativos do contexto cultural abordado.

Não fica por aí.  Ceylan discute o mundo contemporâneo e a conquista da identidade, a partir do personagem Sinan, um jovem que deixou sua aldeia para estudar em Istambul e encontrar sua paixão por literatura e o desejo de se realizar como escritor.  Mas o que significa literatura, a quem ela interessa, que papel exerce hoje num mercado tão distante de suas pretensões?  E como ele se vê, no contexto rural de sua origem?  Sua ex-namorada, seu pai endividado, os limites da vida na aldeia, que papel tem tudo isso nessa jornada em busca de autoconhecimento e de realização pessoal?




Como o islamismo é visto e compreendido pelos jovens?  Que polêmicas envolvem a aceitação e a interpretação do Corão no contexto atual?  Muitas reflexões filosóficas e debates sobre a contemporaneidade, a vida e os projetos dos jovens, e também dos adultos, fazem parte dos diálogos do filme.  Como se vê, é um produto artístico muito encorpado e consistente, em todos os seus aspectos.  Nuri Bilge Ceylan é, mesmo, um dos maiores cineastas do cinema atual.  Faz filmes de longa duração, como este, que tem 188 minutos, mas que envolve e encanta durante todo esse tempo.

Os filmes de Ceylan subvertem a narrativa clássica e exigem do espectador tempo para fruir os eventos e descobrir o que está submerso na ação.  Em contra partida, oferecem uma beleza visual permanente, de embasbacar os olhos.  É cinema de altíssimo padrão, já várias vezes reconhecido pelo Festival de Cannes, que em 2008 lhe conferiu o prêmio de melhor diretor por “Três Macacos”, o Grande Prêmio do Júri, em 2011, por “Era Uma Vez na Anatólia”, e a Palma de Ouro e prêmio da crítica do Festival de Cannes, em 2014, por “Sono de Inverno”.

“A Árvore dos Frutos Selvagens” foi exibido na 42ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que, em várias oportunidades, também premiou o cineasta.  Ao levantar os destaques daquele evento, apontei o filme como o melhor entre os exibidos que pude ver.  Tem um requinte e uma qualidade técnica admiráveis.