quarta-feira, 21 de outubro de 2026

MAIS DESTAQUES DA MOSTRA 50

Antonio Carlos Egypto

 

Minotauro

MINOTAURO (Minotaur).  França/Alemanha/Letônia 2026.  Direção: Andrey Zvyagintsev.  Elenco: Dimitri Mazourov, Irís Lebedeva, Boris Koudrine, Yuriy Zavalnyouk.  135 min.

 

O diretor Andrey Zvyagintsev, de filmes importantes, como”Leviatã”, 2014, realiza em “Minotauro” uma obra maiúscula.  Ela combina a trama do filme “Mulher Infiel”, de Claude Chabrol (roteirista e diretor), com a realidade atual da guerra que envolve a Rússia e a Ucrânia.  No interior da Rússia, exige-se que as grandes empresas designem funcionários para o esforço de guerra (ou da intervenção, na linguagem russa).  Isso compromete a vida financeira das empresas. O protagonista Gleb (Dimitri Mazourov) tenta passar ao largo dessas exigências e busca manter o seu status burguês.  Status esse feito de aparência.  Seu casamento com Galina (Irís Lebedeva), com quem tem um filho adolescente, está há muito falido.  Assim como as amizades que o casal cultiva (ou ele, ao menos).  Ainda assim, Gleb vai em busca de punir a infidelidade da esposa e aí é que seu mundo sucumbe e as monstruosidades se revelam.  A violência explode nas relações pessoais, enquanto o papel do Estado autoritário se impõe de forma destrutiva aos cidadãos.  A própria instabilidade do casamento é indicativa da deterioração social e de amarras de gênero, dos dois lados, que a guerra faz colapsar.  Um mundo marcado por traição, vingança, desespero, violência de todo tipo, desencanto e ruptura.  Que um grande cineasta conseguiu transformar num filme inteligente e empolgante, de suspense e político, que entusiasma.

 

O Homem Mais Solitário da Cidade

O HOMEM MAIS SOLITÁRIO DA CIDADE (The Loneliest Man in Town).  Áustria, 2026.  Direção: Tizza Covi e Rainer Frimmel.  Elenco:  Alois Koch, Brigitte Meduna, Alfred Blechinger, Flurina Schneider.  86 min.

Ao contar a história do personagem Al Cook, um homem idoso vivendo na solidão, mas com um belo passado cultural por trás, de músico e criador, que se vê diante do desmoronamento literal de sua vida, o filme vai fundo na questão da velhice.  Quem chega a idades avançadas, acumulando maravilhas que já não valem o que um dia valeram, que vê seus interesses e valores postos de lado pela sociedade, vive e cultiva lembranças, memórias.  Mas também sonhos de juventude.  Quando seu próprio apartamento estará brevemente em demolição, como sobreviver agora?  Suportando uma Viena conservadora que já não lhe diz nada ou indo atrás do antigo amor pelo blues, quem sabe mudando-se para os Estados Unidos?  Essa é a questão aparente.  Mas qual é o sentido da vida na velhice?  O que nos move?  O que nos sustenta?  Quando não há outras pessoas ao lado em que se possam projetar sonhos e projetos?  Qual é a força motriz interna que nos mantém e como fica a situação quando as condições externas mudam irremediavelmente?  Quando um mundo construído ao longo de tantos anos parece perder o sentido?  Um filme que mexe com as pessoas que cultivam sua própria sensibilidade, sejam jovens ou idosos.  Trabalha com as emoções e é cheio de humanidade.  Além de contar com um ator brilhante como protagonista: Alois Koch.

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Documentários curtos, mas encantadores, compõem uma das sessões deliciosas da Mostra 50: “JOY OF JOYS” + “A SOMBRA DE TURIM”.

 

JOY OF JOYS, do Reino Unido, dirigido por Jonathan Glazer e Nica Levi, 38 minutos, nos leva aos famosos estúdios de Abbey Road, em Londres.  Crianças vão lá, ver e filmar o desempenho de músicos em ensaios e gravações, enquanto filmam a si mesmas, naquele ambiente tão cheio de equipamentos sofisticados e sons tão marcantes.  Ao mesmo tempo, o doc mostra também crianças filmando em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e no Iêmen, registrando a si mesmas e o ambiente que as cerca, incluindo os destroços de guerras, fazendo um contraste com a beleza da música.  Mas crianças brincam alegres, tanto num ambiente quanto nos outros.

 

A Sombra de Turim

Em A SOMBRA DE TURIM (Du Ling Zhi Ying), do talentosíssimo diretor chinês Jia Zhang Ke, 32 minutos, é a cidade italiana de Torino que se destaca.  A cidade é muito bonita e tem um dos mais belos museus de cinema do mundo.  Que está numa torre belíssima e se destaca em toda a cidade.  E que é um deslumbramento, visto de dentro.  Já tive a oportunidade de fazer essa visita.  Adorei revê-la pelas lentes e enquadramentos de Zhang Ke.  Além disso, ele homenageia o cinema em geral, principalmente o italiano, e o de grandes autores.  Lindo de ver.

 

Lorca:A Voz Partida

LORCA, A VOZ PARTIDA (Lorca: La Voz Quebrada).  Espanha, 2026.  Direção: Manuel Menchón.  90 minutos.

O documentário “La Voz Quebrada” realiza, com um apuro visual bem sofisticado, uma abordagem da vida de Federico García Lorca (1898-1936) ainda não explorada, apesar de tudo o que já se produziu sobre essa que é uma das maiores figuras da história da cultura espanhola.  A partir de documentos inéditos: cartas, poemas, recordações, o filme conta a tragédia do último amor de García Lorca, o jovem Juan Ramiro de Lucas.  Por 90 anos, essa relação homossexual proibida e um plano de fuga para o México nunca tinham vindo à luz.  Juan, no entanto, antes que morresse, queria que sua história finalmente se tornasse pública.  O filme dá voz a Juan, para que ele relate seu relacionamento com Lorca, de quem, segundo diz, nunca deixou de lembrar nem em um único dia de sua longa vida.  O documentário, porém, vai muito além disso, recuperando imagens da vida de Lorca, dando voz também a ele por meio do que escreveu e destacando ainda sua obra e sua batalha humana e política.  Mostra o que veio com a Guerra Civil Espanhola.  A opressão, a matança, e toca na destruição das identidades étnicas.  Enfim, a tragédia que a Espanha viveu, antes mesmo da Segunda Guerra Mundial.  A ascensão do nazifascismo, aqui bem explorada, infelizmente nos remete aos perigos atuais.  Como se os anos 1930 estivessem de volta.  Como diria Marx: a história se repetindo na forma de farsa.

 

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

DESTAQUES DA MOSTRA 50

    Antonio Carlos Egypto

 

A Terra de Meu Pai


A TERRA DO MEU PAI (Fatherland).  Direção: Pawel Pawlikowski.  Elenco: Hanns Zischler, Sandra Hüller, August Diehl, Devid Striesow, Joachim Meyerhoff.

O filme do diretor polonês Pawel Pawlikowski (de “Ida”, 2014), é um belíssimo trabalho em preto e branco, com uma fotografia brilhante, enquadramentos preciosos que nos remetem à Alemanha dividida do pós-guerra, em 1949.  O personagem em questão é o escritor alemão Thomas Mann (1875-1955), autor de obras seminais, como “A Montanha Mágica”, “Morte em Veneza e “Doutor Fausto”, e sua filha Erika, sofisticada e intelectual.  O escritor foi convidado para palestrar em homenagem a Goethe (1749-1832), um dos representantes máximos da cultura alemã.  O convite a essa homenagem implicava não só o retorno à terra natal após anos de exílio nos Estados Unidos em função da guerra, incluindo a adoção da cidadania americana, como um fio da navalha ideológico.  Frankfurt, na Alemanha Ocidental, e Weimar, na Oriental, cidade natal de Goethe, foram as cidades sedes desses eventos.   Situadas em campos opostos e numa competição que tinha ainda o sentido do reerguimento da sociedade alemã em frangalhos.  Uma tragédia familiar também imiscui-se nessa situação já tão difícil.  Por meio dela, muito será revelado sobre as personalidades em ação.  Não só isso: temas e discussões muito relevantes perpassarão essa narrativa.  O que ela tem de brilhante é a forma como condensa as questões em frases ou cenas marcantes, que dizem tudo sem ter de explicar, nem esticar a trama.   O que o filme tem de melhor é ser profundo e sintético, méritos muito pouco encontrados no cinema mundial atual.  82 minutos.  Distribuído no Brasil pela Imovision/MUBI.

 

 

Memórias do Cárcere

MEMÓRIAS DO CÁRCERE.  Direção: Sérgio Graciano.  Elenco: Albano Jerónimo, Maria João Bastos, Paulo Pires, Afonso Pimentel, João Pedro Vaz.

Camilo Castelo Branco (1825-1890), um dos maiores escritores portugueses do século XIX e da história da literatura, é o foco do grande filme do cineasta português Sérgio Graciano.  Grande, antes de mais nada, pela duração, 167 minutos.  Mas grande também pelo estilo clássico, que é muito bem explorado, pelas locações, pelo figurino, pelo clima romântico muito adequado à narrativa.  A história adapta o livro “Memórias do Cárcere”, juntando a situação pessoal do escritor preso em função de um processo de adultério e o que ele escreveu sobre o que viu e ouviu na prisão: uma coleção de situações existenciais que envolvem falsários, parricidas, infanticidas e até um rei, que preenchem o filme de interesse e variedades.  A trama nos remete à própria história do Brasil e é bastante explícita ao revelar a imensa distância entre as classes sociais na prisão.  Enquanto prisioneiros pobres já se acumulavam nas celas, os grandes tinham acesso a celas tão espaçosas e bem-dotadas, onde cabiam pianos, belas escrivaninhas, trocas e visitas entre eles e as autoridades e até visitantes ilustres, como o próprio rei.  Ainda mais do que isso, eventos amorosos e sexuais entre o escritor e sua amante, presa em cela ao lado.  Enfim, um filme para se sorver e curtir com atenção na sua beleza, nas informações e reflexões que traz, em ambiente calmo e devidamente pausado.  Sem correrias ou excessos.  Mas recheado de boas histórias.

 

A VIOLÊNCIA DE NINGUÉM (Violence du Corps de l’autre).  Direção: Denis Coté. Elenco: Larissa Corriveau, Philippe Rebbot, Xavier Bergeron, Gabrielle Lazure, Pierrette Robitaille.

O novo filme do diretor canadense, de Quebec, Denis Coté, tem aspectos pesados desde o seu início, centrado na figura de Mira, uma mulher solitária e de poucas palavras.  Com cores esmaecidas e imagens granuladas, passado em período invernal canadense, com muita neve e ambientes escurecidos, é o tédio e o desencontro da personagem o que mais se destaca.  Ela flerta com a morte, mas também vive de auxiliar as pessoas à beira da morte.  Curiosamente, ela encontra a vida em outros personagens que movimentam a narrativa.  São estranhas, mas atraentes figuras: Madeleine e Ludo, pessoas descoladas, hedonistas, que vivem no coração da floresta e um jovem, com quem Mira se envolve, que é o seu oposto.  Louco, falante, dançante, exibicionista, disposto a todo tipo de experiências.  De outro modo, ele também flerta com a morte.  Onde está a violência do título  do filme?  No corpo dos outros, na alma de Mira?  118 minutos.

 

A Violência de Ninguém



NÃO ME LARGUE (Kpáta me).  Direção: Myrsini Aristidou.  Elenco: Christos Passalis, Maria Petrova. 

Da competição “Novos Diretores”, vale destacar este filme, uma produção que envolve Chipre, Dinamarca e Grécia.  A diretora cipriota Myrsini Aristidou, em seu primeiro filme, mostra com talento o que acontece com uma criança de 11 anos que é deixada por sua conta e risco. Durante o verão, Íris, a menina, cujo pai havia desaparecido e volta, mas sem retornar à casa, e a mãe, que viaja de férias com o novo namorado, fica só com o irmão maior, adolescente, algum dinheiro e comida em casa.  Nada mais.  O irmão está mais interessado em sair com a namorada do que em cuidar dela.  Ou seja, ninguém está nem aí para ela.  Íris convive com uma amiga bem mais velha do que ela, que é seu vínculo afetivo.  E só.  O filme explora, então, o que acontece numa situação dessas.  O que ela vai buscar, explorar, e que confusões pode armar.  No caso, a abordagem se refere a uma menina com vida de classe média.  O abandono não é o mesmo das pessoas mais vulneráveis economicamente ou que estão em situação de rua, por exemplo.  Porém, onde não há educação tudo pode acontecer.  E com uma menina inteligente e destemida quem guiará seus caminhos é ela mesma.  Parafraseando Noel Rosa: Com que roupa?  E no que isso vai dar?  102 minutos.

 

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domingo, 11 de outubro de 2026

4 FILMES DA MOSTRA 50

 

 Antonio Carlos Egypto               

 

Já tive a oportunidade de ver os primeiros filmes da Mostra 50.  Aí vão meus comentários sobre eles.

 

Tigre de Papel


TIGRE DE PAPEL (Paper Tiger).  EUA, 2026.  Direção: James Gray.  Elenco: Adam Driver, Scarlett Johansson, Miles Teller, Gavin Goudey, Roman Engel. 115 min.

O filme de abertura da 50ª. Mostra, “Tigre de Papel”, traz uma relação de dois irmãos muito diferentes, mas colaboradores entre si e com afetividade. Um vem da experiência policial e parece talentoso nos negócios.  O outro, um engenheiro competente, com uma vida de classe média modesta em família.  Quando ambos se unem para realizar o negócio ideal que, além de muito lucrativo, contribuirá para o meio ambiente numa relação com empresários russos, a coisa, obviamente, desanda.  E aí é a relação deles com a máfia russa que dará o tom da ação para lá de arriscada, que abalará até o que estava bem fincado: a relação entre os irmãos.  E a própria vida deles e da família.  “Tigre de Papel” tem um bom ritmo, envolvente, um bom elenco, mas segue um padrão do gênero drama criminal e suspense esquemático, principalmente em relação à maldade dos russos.  E também pela tremenda ingenuidade dos irmãos estadunidenses em crer no tal negócio ideal, sem falhas ou fraudes, e que eles pudessem vir a ser os fiadores morais dessa história.  Entre os muitos produtores que viabilizaram o filme está o brasileiro Rodrigo Teixeira, que tem participação significativa na produção cinematográfica mundial atualmente.  O diretor James Gray virá à 50ª. Mostra, elaborou o cartaz do evento e terá uma retrospectiva de seus filmes.

 

Um Pouco de Esperança

UM POUCO DE ESPERANÇA (Kami Nour), do Irã, 2026, do diretor Alis Asgari, que estará na 50ª. Mostra, é um filme poderoso pelo questionamento que coloca.  A decisão de cometer suicídio pode ser algo mais do que uma decisão pessoal e isolada?  Ela poderá ser compartilhada antes do ato final com as pessoas mais próximas da família?  E o que esperar delas?  Ou seja, é possível a socialização dessa experiência?  É possível contar com a ajuda de parentes e colegas de profissão (no caso, trata-se de um médico)?  O suicídio é uma questão individual ou coletiva, comunitária?  “Um Pouco de Esperança” faz lembrar o grande filme iraniano “Gosto de Cereja”, de Abbas Kiarostami, de 1997, em que um suicida pedia ajuda previamente a pessoas para que pudessem enterrá-lo.  A questão é mesmo complexa e esse tabu merece ser cada vez mais discutido, com evidentes dificuldades quando entra em cena o pensamento religioso.  Este é mais um talentoso filme sobre o tema do suicídio, sendo abordado num país em que essas questões são especialmente delicadas.  E o filme não se esquece de ligar a questão da morte aos bombardeios norte-americanos a Teerã, aos protestos contra o regime dos aiatolás e ao autoritarismo em suas ações que estão na base da decisão radical que o médico tomou.  Atualizadíssimo!  89 minutos.

 

O OUTRO LADO DAS REDES (The Social Reckoning).  EUA, 2026.  Dirigido por Aaron Sorkin, que já tinha sido roteirista do filme “A Rede Social”, dirigido por David Fincher, volta ao tema de forma ainda mais crítica do que em 2010.  Se lá estava se descobrindo o peso e a importância da rede social e já se levantavam questões críticas, agora as consequências maléficas estão aí, à vista de todos.  O que o filme aborda já sabemos por aqui, com um agravante, as decisões não são tomadas pelos Zuckerbergs da elite estadunidense, como lá, mas fora do próprio país, no caso do Brasil.  Enfim, o filme não traz muita novidade, nem no tema, menos ainda na forma, tradicional, acadêmica.  112 minutos.

 

Variações sobre um Tema

O filme da África do Sul indicado para a disputa do Oscar internacional pelo país, VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA (Variasies op’n terna), é dirigido por Jason Jacobs e Devon Delmar.  Tudo se passa nas montanhas de Namaqualand, na África do Sul, em que variações e recorrências tanto visuais quanto de diálogos mostram, por meio de uma pastora de cabras idosa, uma fraude que se repete, uma espera contínua que perde o sentido com o aniversário dos 80 anos dela, sempre aguardando por um dinheiro que nunca chega.  A base da fraude é bem conhecida, é preciso ficar pagando uma quantia para que o dinheiro prometido chegue um dia.  Ele nunca chegará e a vida se esvairá em espera, resistência e perda.  Tudo mostrado com simplicidade, beleza, um uso magnífico da luz e uma fotografia exuberante, numa estética da precariedade que é reflexo da cultura local do ambiente rural das aldeias, onde a rotina se repete incansavelmente.  Média metragem de 65 minutos.

 

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

MOSTRA 50 CHEGANDO

Antonio Carlos Egypto


coletiva de imprensa da mostra 50

 

A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que tanta contribuição deu à arte e à cultura cinematográfica, desde que surgiu pela batalha incansável de seu idealizador, León Cakoff, chega aos 50 anos, sob a brilhante coordenação de Renata de Almeida e uma equipe dedicadíssima.

 

É motivo de muito orgulho para todos nós que vivemos na cidade de São Paulo esta celebração cinquentenária, que acontece de 15 a 29 de outubro de 2026, em 57 salas de cinema, espaços culturais e CEUs, exibindo 380 títulos de 93 países, entre longas, curtas e séries,100 brasileiros.

 

Serão muitos os eventos comemorativos.  Vou citar apenas alguns.  Vocês podem conferir tudo no site oficial da 50ª. Mostra.  Acessos: @mostrasp, #mostrasp, #50mostra, #50ª.mostra,#3ª.mostrinhasp.

 

A sala Petrobrás na Mostra, este ano, está montada no Solar Fábio Prado, na Av. Faria Lima, 2705, onde ocorrerá o VI Encontro de Ideias Audiovisiuais e a Exposição “Tempo e Movimento: os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo”.  Fotografias inéditas do grande cineasta iraniano Abbas Kiarostami estarão sendo exibidas no MIS – Museu da Imagem e do Som.

 


Vários livros serão lançados, com destaque para “Antes Que Eu Me Esqueça”, com memórias da organizadora da Mostra, Renata de Almeida, um livro dos cartazes da Mostra ao longo dos 50 anos, em tamanho que permite enquadrar e utilizar como quadro, e até o livro da Abraccine, “100 Filmes Brasileiros Essenciais”, organizado por Danilo Fantinel, Ivonete Pinto e Paulo Henrique Silva, em que eu participei com o texto sobre “Cinema, Aspirinas e Urubus”.  A Mostrinha, dedicada a animações de filmes para crianças e adolescentes, chega à sua 3ª. edição.

 

Sessões especiais no teatro Cultura Artística trazem o clássico “Aurora”, de F. W. Murnau, com trilha sonora ao vivo, executada pela Orquestra Jazz Sinfônica, nos dias 23 e 24/10.  O filme “Fjord”, de Cristian Mungiu, Palma de Ouro em Cannes, será exibido lá em 19/10.  Ao longo da programação, será possível ver ou rever a trilogia “A Batalha do Chile”, de Patricio Guzmán, que infelizmente nos deixou há pouco.  Um show de André Abujamra e banda, com as vinhetas da Mostra ao longo dos anos, acontecerá no Sesc 24 de maio, em 21/10.

 

De resto, a seleção de filmes, como já é habitual, traz premiados e destaques dos principais festivais ao redor do mundo, indicados ao Oscar por seus países, e uma safra de novos diretores a serem conhecidos pelo público.  O filme de abertura é “Tigre de Papel”, de James Gray, que é também o autor do cartaz deste ano. E na sessão inaugural será exibido também o curta “Sul de Teerã”, de Kleber Mendonça Filho. 

 

Haverá uma retrospectiva de filmes produzidos por Paulo Branco, que receberá pessoalmente o prêmio León Cakoff, por sua contribuição ao cinema.  O prêmio Humanidade será recebido pessoalmente por Marco Bechis, chileno de origem italiana, que cresceu em São Paulo e Buenos Aires, foi preso e deportado e viveu em Milão, Nova York, Los Angeles e Paris, onde trabalhou com cinema, elaborando as questões traumáticas que viveu.  Volta ao tema em “Retorno a Buenos Aires”, apresentado na 50ª. Mostra.

 

Como estão vendo, é muita coisa acontecendo neste período da Mostra em São Paulo.  Não será por falta de opção ou de alternativas que alguém deixará de curtir essa Mostra especial dos 50 anos.  Os pacotes de ingressos poderão ser adquiridos por meio do aplicativo da 50ª. Mostra, já disponível para ser baixado.

 

CIRCUITO EXIBIDOR

 

Espaço Petrobrás de Cinema Augusta

Cinesesc

Cinemateca Brasileira

Cultura Artística

Reserva Cultural

Cine Belas Artes

Cinesystem Frei Caneca

Cinesala

Cine Tutu

Cine Segall (Museu Lasar Segall)

Cine Sato

Cine Satyros Bijou

IMS Paulista

MIS

Solar Fábio Prado

Sala São Paulo (sessão especial)

Centro Cultural São Paulo

SpCine Olido, Circuito SpCine gratuito e exibições nos CEUs da cidade

Cinusp

Itaú Cultural

Bulevar do Rádio (Sesc Paulista)

Teatro Sérgio Cardoso

 

 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

NAZA

Antonio Carlos Egypto



 

NAZA. Reino Unido, 2026.  Direção: Yuval Abraham e Rachel Szor.  Documentário.  80 min.

 

O documentário “Naza”, produzido pelo jornal inglês The Guardian, realizado pela dupla de jornalistas investigativos israelenses, Yuval Abraham e Rachel Szor, é uma peça política muito forte e verdadeira.  Os diretores são os mesmos que venceram o Oscar de documentário em 2024, com “Sem Chão” (No Other Land).

 

Aqui, eles realizam entrevistas com uma série de agentes do Estado de Israel responsáveis pelos ataques à região de Gaza.  Foi tudo filmado à noite, clandestinamente, nos terraços e telhados de Tel Aviv, sem identificação dos rostos e alterando a voz dos depoentes.  Só se vê o entrevistador Yuval em conversas com silhuetas não identificáveis, sendo filmados por Rachel. 

 

O que é dito é espantoso, relata com crueza de detalhes o processo do massacre de civis palestinos na Faixa de Gaza, enquanto se mira nos terroristas do Hamas.

 

Naza é uma expressão que significaria os efeitos colaterais da morte de civis quando se realizam os ataques aos prédios e casas onde moram membros do Hamas.  Significaria porque isso é uma suposição.  Os ataques a civis são assumidos, planejados, calculados.  Veja os exemplos: por que explodir uma casa com toda a família dentro, quando chega à noite o pai da família, um membro do grupo terrorista, e não se faz um ataque a seu trabalho diurno?  Como entender, então, a ação deliberada de snipers, alvejando civis palestinos, enquanto se dirigiam, famintos, às tendas de comidas?

 


Ou seja, o filme não deixa margem a dúvidas: o que se passou, e continua se passando na Faixa de Gaza, é um genocídio do povo palestino, realizado pelo governo de Israel, de Benjamin Nethanyahu.  Tudo claramente admitido pelos responsáveis militares desse genocídio, com algumas dúvidas, mas sem maiores culpas, ancorados pela ideia de que é preciso destruir os palestinos e a demanda pelo seu Estado, para garantir a sobrevivência do Estado de Israel.  Eles cumprem ordens, inquestionáveis, numa missão que revela a banalidade do mal, praticada por agentes graduados das forças repressoras do governo de Israel.  São uma espécie de Bibi boys.

 

Impossível sair dessa sessão sem uma sensação de asco, por um lado, e de desânimo, por outro.  O mundo chegou a tal grau de violência e insensibilidade que interesses imediatos e mal elaborados pretendem justificar o extermínio de todo um povo.  Isso num mundo em que vai sendo ampliado o domínio da extrema direita, e seus tentáculos de guerra, cinicamente mascarados de paz e democracia.

 

“Naza”, falado em hebraico e inglês, é complementado por imagens dos bombardeios, de locais destruídos e imagens em preto e branco do passado da região.

 

O filme, difícil de se ver, mas politicamente muito importante, foi aclamado pelo público com longuíssimos aplausos e venceu o prêmio especial do Júri do Festival de Veneza.



domingo, 27 de setembro de 2026

VOTO

Antonio Carlos Egypto

 



Permita-me hoje dirigir-me a você para falar de eleições em vez de cinema, na reta final do pleito geral que está à nossa porta. No próximo domingo, 04 de outubro de 2026, vamos votar numa eleição muito importante, e disputadíssima, que vai indicar os rumos do país.

 

De minha parte, eu quero contribuir com o meu voto para que o Brasil seja democrático e soberano, em um tempo em que golpes e entreguismo (uma palavra antiga que, infelizmente, está de volta) não tenham vez.  Precisamos combater a extrema desigualdade em que ainda vivemos, desenvolver a economia, acabar com a fome e a miséria, proteger os vulneráveis com programas sociais robustos.  Investir na proteção ao meio ambiente, em infraestrutura, na saúde, na educação, na segurança pública.  E priorizar a cultura, as artes, que constituem a nossa própria identidade.

 

É importante ter no poder um estadista com capacidade de diálogo e propostas para o mundo, com uma visão multilateralista e em busca da paz mundial.

 

Também é importante renovar o Congresso Nacional, escolhendo deputado federal e os senadores (são duas candidaturas a serem escolhidas), que se engajem nesses princípios norteadores que listei acima.  O mesmo vale para o âmbito dos estados da Federação, com a opção por governador e deputado estadual que melhor se adaptem à resolução das necessidades locais.

 

Há uma descrença generalizada na política, mas sem ela não há solução para nenhuma das questões mais emergentes e fundamentais que o Brasil enfrenta.  Melhor a gente não se omitir e fazer boas e cuidadosas escolhas e não deixar que os outros o façam por nós.