Antonio Carlos Egypto
NAZA. Reino Unido, 2026. Direção:
Yuval Abraham e Rachel Szor.
Documentário. 80 min.
O documentário “Naza”, produzido pelo jornal inglês The Guardian, realizado pela dupla de jornalistas investigativos
israelenses, Yuval Abraham e Rachel Szor, é uma peça política muito forte e
verdadeira. Os diretores são os mesmos
que venceram o Oscar de documentário em 2024, com “Sem Chão” (No Other Land).
Aqui, eles realizam entrevistas com uma série de agentes do Estado de
Israel responsáveis pelos ataques à região de Gaza. Foi tudo filmado à noite, clandestinamente,
nos terraços e telhados de Tel Aviv, sem identificação dos rostos e alterando a
voz dos depoentes. Só se vê o
entrevistador Yuval em conversas com silhuetas não identificáveis, sendo
filmados por Rachel.
O que é dito é espantoso, relata com crueza de detalhes o processo do
massacre de civis palestinos na Faixa de Gaza, enquanto se mira nos terroristas
do Hamas.
Naza é uma expressão que significaria os efeitos colaterais da morte de
civis quando se realizam os ataques aos prédios e casas onde moram membros do
Hamas. Significaria porque isso é uma
suposição. Os ataques a civis são
assumidos, planejados, calculados. Veja
os exemplos: por que explodir uma casa com toda a família dentro, quando chega
à noite o pai da família, um membro do grupo terrorista, e não se faz um ataque
a seu trabalho diurno? Como entender,
então, a ação deliberada de snipers,
alvejando civis palestinos, enquanto se dirigiam, famintos, às tendas de
comidas?
Ou seja, o filme não deixa margem a dúvidas: o que se passou, e continua
se passando na Faixa de Gaza, é um genocídio do povo palestino, realizado pelo
governo de Israel, de Benjamin Nethanyahu.
Tudo claramente admitido pelos responsáveis militares desse genocídio,
com algumas dúvidas, mas sem maiores culpas, ancorados pela ideia de que é
preciso destruir os palestinos e a demanda pelo seu Estado, para garantir a
sobrevivência do Estado de Israel. Eles
cumprem ordens, inquestionáveis, numa missão que revela a banalidade do mal,
praticada por agentes graduados das forças repressoras do governo de
Israel. São uma espécie de Bibi boys.
Impossível sair dessa sessão sem uma sensação de asco, por um lado, e de
desânimo, por outro. O mundo chegou a
tal grau de violência e insensibilidade que interesses imediatos e mal
elaborados pretendem justificar o extermínio de todo um povo. Isso num mundo em que vai sendo ampliado o
domínio da extrema direita, e seus tentáculos de guerra, cinicamente mascarados
de paz e democracia.
“Naza”, falado em hebraico e inglês, é complementado por imagens dos
bombardeios, de locais destruídos e imagens em preto e branco do passado da
região.
O filme, difícil de se ver, mas politicamente muito importante, foi
aclamado pelo público com longuíssimos aplausos e venceu o prêmio especial do
Júri do Festival de Veneza.














