quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ELIS

  
Antonio Carlos Egypto




ELIS. Brasil, 2015.  Direção: Hugo Prata. Com Andréia Horta, Caco Ciocler, Gustavo Machado, Lúcio Mauro Filho, Júlio Andrade, Zecarlos Machado.  115 min.


Elis Regina (1945-1982) foi a cantora mais perfeita que eu já ouvi.  Voz, dicção, técnica e afinação impecáveis.  E uma intérprete fabulosa da dimensão de Edith Piaf, Amália Rodrigues ou Ella Fitzgerald.  Acompanhei sua trajetória artística desde sempre,  disco a disco, em festivais e programas de TV, em shows e espetáculos teatrais.  Um portento.

Nada mais justo e razoável que uma carreira como essa seja objeto de uma cinebiografia.  A questão é alcançar a qualidade artística necessária para fazer jus ao projeto.  Isso, o filme “Elis”, de Hugo Prata, alcança parcialmente.

Quando você em cena Andréia Horta, Elis realmente revive na tela.  A atriz fez um trabalho notável, digno de muitos prêmios.  A figura de Elis emerge em gestos, movimentos, risos de arreganhar a gengiva, coreografias que acompanham o canto, enfim, no seu conhecido estilo de ser, determinado, irônico e agressivo.  As interpretações de Elis estão lá inteiras, com alta qualidade de som, já que não é Andréia quem canta, ela dubla Elis.  Perfeito!




Bem, nem tanto.  O repertório escolhido é todo muito bom, como aliás era o repertório de Elis Regina em todas as fases de sua carreira.  Mas há ausências inconcebíveis.  Elis foi a principal intérprete de Milton Nascimento e Gilberto Gil.  Nenhuma música deles está no filme.  Como não está nada da antológica gravação que ela fez com Tom Jobim.  Nem suas inovadoras interpretações de Adoniran Barbosa.  Problemas com os direitos das músicas? Falha grave, do ponto de vista artístico.

O começo real da carreira dela também foi deletado.  Vendo o filme, tudo parece ter começado no Rio, com “Menino das Laranjas” (de Theo Barros), embora se faça referência à sua origem gaúcha e trabalho em Porto Alegre.  Só que Elis Regina gravou 2 LPs na gravadora Continental: “Viva a Brotolândia”, em 1961, e “Poema”, em 1962.  São 24 faixas gravadas, de discos escancaradamente comerciais, tentando lançar a cantora para concorrer com Celly Campello (1942-2003), que fazia muito sucesso na época. Elis renegou essa fase de sua carreira, rejeitou esses discos (que não são tão ruins assim), mas é algo que teria de ser registrado numa cinebiografia que deu relevo ao trabalho da cantora.

Da vida pessoal de Elis, não me ocupei tanto, mas sei que o casamento com Ronaldo Bôscoli durou pouco, uns cinco anos, foi muito conturbado, já que ele era mulherengo, infiel.  Seu papel artístico junto a ela acrescentou pouco à arte de Elis.  Pelo filme, ele foi o maior amor da vida dela e teve papel artístico muito relevante.  Uma forma de romancear e fazer uma narrativa atraente?

O fato é que o casamento com César Camargo Mariano foi mais longo e muitíssimo mais importante, do ponto de vista artístico.  No filme, ele perde essa força.  Mas nunca Elis foi tão brilhante como quando entoou canções arranjadas por César.  Era algo de arrasar quarteirão de tão bom, tão sofisticado.  Quem viveu esse período sabe disso.  E as gravações estão aí para comprovar.  Algumas no filme, também, claro. 




Os conflitos políticos que envolveram a ditadura militar, o canto de Elis na Olimpíada do Exército, a reação fulminante de Henfil no Pasquim, colocando-a no cemitério dos mortos-vivos, e a evolução que a levou a entoar o hino informal da anistia, “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, onde se pedia a volta do irmão do Henfil (Betinho), estão muito bem retratados.  A cena em que ela aparece sendo vaiada em show ao vivo me parece excessiva para ser considerada real.

Os espetáculos, muito bem produzidos para palco, com ênfase teatral, além do show, como “Transversal do Tempo” e “Saudade do Brasil”, não aparecem.  E o grande sucesso, “Falso Brilhante”, um ano em cartaz, não é retratado, realmente.  Apenas a música cantada surge e não o frenesi que foi aquela montagem teatralmente empolgante.

Em suma, o filme está cheio de lacunas e falhas, que não vão passar despercebidas aos fãs de Elis, que conhecem a sua trajetória.  Ainda assim, é um espetáculo bom de se ver, com uma atriz sensacional e uma música extraordinariamente bela.  Dá muita saudade!



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BALANÇO DA 40a. MOSTRA II


Antonio Carlos Egypto

Os maiores atrativos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ao longo dos 40 anos de sua existência, sempre foram as filmografias a que normalmente não temos acesso, pequenas produções inovadoras ou experimentais e novos cineastas que surgem a cada ano em todo o mundo.  E também a originalidade ou a audácia de certos temas e abordagens.  Dentro dessa linha, posso destacar alguns bons filmes que ainda não haviam sido tratados nas minhas matérias sobre a Mostra.



O CINEMA, MANOEL DE OLIVEIRA E EU, de João Botelho, de Portugal, é um filme precioso, em que o cineasta fala e mostra o trabalho do mestre do cinema português, Manoel de Oliveira, com quem ele aprendeu muito e que é sua fonte de inspiração permanente.  Segundo ele, Manoel não fazia filmes, fazia cinema e sabia extrair o máximo dos recursos disponíveis possíveis.  Um bom exemplo se dá quando se explica que, se você não puder filmar uma carruagem, porque não a tem, filme a roda, mas com toda a precisão, de modo correto, utilizando espelhos, e elimine a sensação frequente em muitas tomadas de que a carruagem está voltando para trás.

João Botelho acoplou a seu documentário um curta, proveniente de um argumento que Oliveira tinha e não realizou.  Fez à sua maneira, sem utilizar diálogos, como no tempo do cinema mudo.  Mas não sem som.  O resultado é ótimo e deu ao filme como um todo um charme especial.  O diretor esteve aqui conversando com o público após a sessão e se mostrou um pensador do cinema e dos nossos tempos, além de muito simpático e realista.


Joâo Botelho no Cinesesc


Também de Portugal vem CARTAS DA GUERRA, de Ivo M. Ferreira, um filme poético, que trata da violenta guerra colonial portuguesa em Angola, numa belíssima fotografia em branco e preto, enquanto um médico escritor compõe lindas cartas de amor, desilusão, ansiedade e solidão.  Beleza e violência até podem combinar, como nesse filme.

Pretensões menores também resultaram em filmes atraentes.  DIÁRIO DE UM MAQUINISTA, de Milos Radovic, da Sérvia, fez do humor negro o trunfo para uma história, a rigor trágica, a dos atropelamentos e mortes que um maquinista de trem vivencia ao longo de seus anos de trabalho.

O filme romeno DOIS BILHETES DE LOTERIA, de Paul Negoescu, é uma comédia ingênua, muito bem construída, com humor leve e nada apelativo.  E é bem engraçada.  Poderia servir de inspiração para muitos realizadores de comédia em todos os cantos.

HEDI, da Tunísia, de Mohamed Ben Attia, trata com leveza da busca de liberdade, de superar limites e controles familiares e sociais e do complexo processo de fazer escolhas e arcar com elas.  Belo trabalho.


HEDI


MAAT, de Saba Kazemi, do Irã, cria um clima interessante ao enredar diversas pessoas num dilema moral, a partir da condição de vítimas de um mesmo apartamento, vendido a quatro compradores diferentes, que lá se encontrarão.  Lá também encontrarão dinheiro e aí a situação muda.  Vai bem, mas perde a força na solução final, que é muito batida no cinema, embora a forma, aparentemente enigmática, tenha impacto.

O ANJO FERIDO, de Emir Baigazin, do Cazaquistão, trata de quatro contos morais sobre jovens tentando escapar da miséria.  Envereda por situações bizarras, bem louquinhas.  É uma bela realização cinematográfica, marcada pela estranheza, mas que dá para curtir com prazer.  É só entrar no clima.

O VIOLINISTA, de Bauddhayan Mukherji, da Índia, escapa do padrão conhecido do cinema comercial indiano, que é novelesco, com cantos e danças, princesas e luxo.  Mostra um dia na vida de um violinista clássico, que encontra uma oportunidade de fazer um trabalho solo num filme dirigido por um tipo estranho, que o contrata sem dar maiores explicações.  Ele, então, descobrirá que as coisas podem ser mais complicadas do que parecem.  Arte (música, cinema) e sobrevivência podem se relacionar de forma surpreendente.  Um filme simples, que funciona bem.


UMA BANDEIRA SEM PAÍS

 
UMA BANDEIRA SEM PAÍS, do cineasta curdo Bahman Ghobadi, revela num documentário bem realizado a absurda condição de um povo que habita um território, tem uma bandeira, mas não um Estado.  É expulso, perseguido, discriminado em sua região geográfica por Iraque, Irã, Turquia, Síria em guerra, atacado pelo Estado Islâmico (ISIS) e sujeito a todo tipo de sofrimento.  Isso é mostrado por meio de dois personagens: um piloto de aviação e uma cantora pop, que amam o Curdistão.

LOBO E OVELHA, de Shahrbanoo Sadat, do Afeganistão, mostra uma história que envolve pastoreio feito por crianças, meninos e meninas.  É interessante conhecer a realidade rural dessa região, mas não chega a ser novidade.  O que mais chama a atenção é a maneira desbocada, as expressões e os palavrões que essas crianças usam, com toda a naturalidade, sem os adultos por perto.  Crianças não são anjos, no Afeganistão ou aqui.

Uma parte da Mostra eu dediquei a conhecer, ou rever, os filmes de Marco Bellocchio: A INTRUSA, DIABO NO CORPO, A HORA DA RELIGIÃO, SANGUE DO MEU SANGUE, além do novo BELOS SONHOS.  Dos filmes de Andrzej Wajda, só consegui ver CINZAS E DIAMANTES.  Foi uma ótima oportunidade que apreciei ter durante a 40ª. Mostra.

Nota dissonante
Os cinemas Itaú Augusta e Reserva Cultural escolheram as salas erradas para a exibição da Mostra.  O Itaú Augusta utilizou a sala 1, de visibilidade ruim em qualquer sessão normal de cinema.  Que dirá quando se estão projetando legendas eletrônicas abaixo da tela?  É óbvio que a sala 3 seria a mais adequada, como já havia acontecido em anos anteriores.  Qual terá sido o motivo da escolha infeliz?

No Reserva Cultural, a escolhida foi a sala 2, muito mais acanhada do que a sala 1, que comportaria melhor o público que acorre à Mostra.  Por que essa escolha?  Quem recebe a Mostra deveria fazê-lo da melhor maneira possível e não pela metade.  Não dá para entender.




sexta-feira, 11 de novembro de 2016

BALANÇO DA 40a MOSTRA I


Antonio Carlos Egypto


Num festival como a 40ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que exibiu 322 filmes, como fazer um balanço?  Eu vi bastante este ano.  Foram 58 filmes, sendo 54 longas e 4 curtas.  Entretanto, muitas outras pessoas que também viram muita coisa fizeram uma seleção muito diferente da minha.  É aquela história: uns veem a tromba, outros, as pernas ou o rabo, mas ninguém consegue ver o elefante.  Em todo caso, não vou me furtar a destacar o que foi mais importante dentro do que eu pude ver.  Por sinal, em postagens anteriores, já comentei vários filmes da Mostra. 

Não faltaram bons filmes, mas, para mim, não houve nenhuma grande surpresa.  Alguns dos melhores que foram exibidos são produções caras, destinadas a um público mais amplo do que os chamados filmes experimentais, de reflexão, de arte.  E que já estão, ou em breve estarão, no circuito exibidor. 


THE HANDMAIDEN


ELLE, de Paul Verhoeven, ANIMAIS NOTURNOS, de Tom Ford, BELOS SONHOS, de Marco Bellocchio, DEPOIS DA TEMPESTADE, de Hirokazu Kore-Eda, O IGNORANTE, de Paul Vecchiali, A GAROTA DESCONHECIDA, dos irmãos Dardenne, O PLANO DE MAGGIE, de Rebecca Miller, e THE HANDMAIDEN, de Park-Chan-Wook, já foram comentados aqui.

13 MINUTOS, de Oliver Hirschbiegel, o mesmo diretor de “A Queda – Os Últimos Dias de Hitler”, foca agora Hitler pela ótica do carpinteiro Georg Elser, que em 1939 tentou mudar a história e assassinar o ditador, instalando com sucesso uma bomba no local onde ele fez um discurso.  Errou por 13 minutos. Foi alguém que enxergou tudo que estava ainda por vir e resolveu agir antes de que fosse tarde.  O filme já está nos cinemas e merece ser visto.


13 MINUTOS


O APARTAMENTO, do já conhecido e respeitado cineasta iraniano Asghar Farhadi, também estará brevemente nos cinemas.  Ele volta a lidar com um dilema moral.  Filma bem e nos apresenta uma fotografia exuberante, luminosa.  Mas há alguns excessos comportamentais e na evolução da narrativa que merecem reparo.  Ainda assim, belo filme.

MA’ROSA, do filipino Brillante Mendoza, já também conhecido do público, é um trabalho forte, que lida com pobreza, crime, prisão, polícia e corrupção.  A estrutura, toda montada na captação de dinheiro por uma causa, é muito similar à do seu outro trabalho, “Lola”, de 2009, o que compromete um pouco o filme.  Mas funciona.


ZERO DAYS


ZERO DAYS, de Alex Gibney, é um filme verborrágico que cansa pelo excesso de palavras, mas nos mostra uma coisa muito grave: a guerra cibernética é um fato presente e altamente destruidor. Assustador.  Vale conferir.

MORTE EM SARAJEVO, de Danis Tanovic, da Bósnia, com prêmios importantes em Berlim, também deve ser lançado.  As tensões do Hotel Europa, preparando uma festa de gala para lembrar o assassinato do arquiduque Ferdinando na Primeira Guerra Mundial, trata com ironia dos conflitos insolúveis e do colapso da União Europeia.

Os documentários GAGA – O AMOR PELA DANÇA, de Tomer Heymann, MIFUNE: O ÚLTIMO SAMURAI, de Steven Okazaki, e PITANGA, de Beto Brant e Camila Pitanga, devem aportar logo nos cinemas. Assim como a comédia O REI DOS BELGAS, de Peter Brosens e Jessica Woodworth.  São bons programas cinematográficos, que já comentei por aqui.


MARTÍRIO


O documentário nacional MARTÍRIO, de Vincent Carelli, aborda a política indigenista dos governos brasileiros junto aos índios Guarani-Kaiowá, que sempre buscam recuperar suas terras sagradas e são tratados como invasores.  Constatamos que, de Getúlio Vargas a Dilma Rousseff, pouca coisa mudou no massacre a que estão sujeitas as populações indígenas frente aos interesses do agora assim chamado agronegócio.  O filme é denso e informativo, embora muito longo.  Merecia uma edição mais enxuta, o que seria mais eficaz para os seus objetivos.

Quanto aos filmes que não sabemos se entrarão no circuito exibidor, ou quando isso possa vir a acontecer, deixo para abordar no próximo texto.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

OS PREMIADOS DA 40a. MOSTRA


Antonio Carlos Egypto

Reproduzo abaixo a listagem dos premiados da 40ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, conforme enviado pelo setor de comunicação do evento, numa versão simplificada, mas onde constam todos os prêmios e algumas explicações fundamentais.

O principal premiado entre os filmes de novos diretores foi um que chegou sem fazer alarde, foi até pouco visto, porém, reúne os méritos para isso.  Foi o venezuelano EL AMPARO, primeiro longa-metragem do diretor Rober Calzadilla, que é ator, roteirista e diretor e fez sua formação em cinema na cidade de Caracas, capital do país.


EL AMPARO


O filme reconstrói uma história política assustadora, mas que infelizmente não nos parece tão estranha assim.  Conhecemos várias, similares.  Há quase trinta anos, na cidade da Venezuela, El Amparo, fronteira com a Colômbia, o exército venezuelano mata “por engano” 14 pescadores, mas cria uma narrativa que os classifica como guerrilheiros e tenta impor sua história a todos, inclusive aos dois pescadores sobreviventes do massacre.  Passaram-se vários governos e o caso se arrasta até hoje, em relação a questões relevantes não resolvidas.  Fundamental conhecer os meandros disso, mostrados por um envolvente roteiro, premiado pela Associação de Roteiristas.  A força do cinema latino-americano tem sido consistentemente registrada nas últimas Mostras, por isso não surpreenderam os prêmios agora conquistados.

A menção honrosa às atrizes dos filmes A BOA ESPOSA, da Sérvia/Bósnia/Croácia, a também diretora Mirjana Karanovic e a de SAMI BLOOD, da Suécia, Lene Cecilia Spark, é absolutamente merecida e os dois filmes são muito bons.  SAMI BLOOD expõe o preconceito, a discriminação e as duvidosas teorias raciais dos anos 1930 em cima do sangue Sami, a etnia oprimida.  Primeiro longa da diretora sueca Amanda Kernell.  A BOA ESPOSA reflete questões de gênero, mostrando bem a condição feminina e o passado terrível que a chamada guerra da Bósnia deixou para a vida das pessoas.

Entre os diretores experientes, a crítica escolheu o ótimo DEPOIS DA TEMPESTADE, do já consagrado cineasta japonês Kore-Eda (de “Pais e Filhos”, 2013, e “Nossa Irmã Mais Nova”, de 2015).  O personagem Ryota, escritor decadente e detetive particular sem rigores éticos, é um anti-herói sem caráter, mas de uma simpatia e de uma capacidade afetiva que acabam por levar as pessoas a relevarem seus comportamentos sempre inconsistentes.  Um excelente personagem, que garante o filme, que tem ainda mulheres muito bem construídas como personagens e um garoto muito bom.  Como sempre, os filmes de Kore-Eda encantam público e crítica.  Grande mérito.

Do documentário PITANGA, brilhante e engraçado, já falei aqui, na última postagem do cinema com recheio. Beto Brant e Camila Pitanga foram os diretores do melhor filme brasileiro da Mostra pela crítica.

O público aprovou e premiou o novo filme do diretor da Coreia do Sul, Park-Chan-Wook, THE HANDMAIDDEN.  Eu também gostei do trabalho, visualmente bonito e com uma trama cheia de reviravoltas, do tipo quem engana quem e quem é o ingênuo aqui.  Um pouco longo e violento, em vários sentidos, mas produz boa diversão.

GAGA -O AMOR PELA DANÇA


GAGA - O AMOR PELA DANÇA, documentário de Israel, também cativou o público.  Mostra o mundo criativo, métodos, ensaios, apresentações do coreógrafo Ohad Naharin, e muito material de arquivo do trabalho da Companhia de Dança Batshava, de Tel-Aviv.  O filme de Tomer Heymann respira dança contemporânea, mas não deixa de abordar as questões políticas aí envolvidas.

Dos outros filmes que constam da lista, não posso falar, porque ainda não vi.


 TROFÉU BANDEIRA PAULISTA 2016

PRÊMIO DO JÚRI INTERNACIONAL                                                                                    
Após serem exibidos na 40ª Mostra, os filmes da seção Competição Novos Diretores mais votados pelo público foram submetidos ao Júri Internacional, que escolheu os vencedores do Troféu Bandeira Paulista (uma criação da artista plástica Tomie Ohtake), nas categorias melhor filme de ficção, Menção Honrosa para duas atrizes e Prêmio Abbas Kiarostami.
MELHOR FILME –
  • EL AMPARO, (EL AMPARO) de Rober Calzadilla.
| 2016 │ cor│ 99 min.│ Ficção│VENEZUELA. 
MENÇÃO HONROSA DO JÚRI –
  • ATRIZ - MIRJANA KARANOVIC, por A BOA ESPOSA (DOBRA ZENA).
|2016 | cor | 94min.| Ficção| SÉRVIA, BÓSNIA-HERZEGOVINA, CROÁCIA. 
  • ATRIZ - LENE CECILIA SPARK, por SÁMI BLOOD (SAMEBLOD).
|2016 |cor| 110min. | Ficção | SUÉCIA. 
PRÊMIO ABBAS KIAROSTAMI  –
  • MAAT (MAAT), de Saba Kezemi.
|2016 | cor | 92min. | Ficção| IRÃ. 
Júri Internacional: Lita Stantic, Vasco Pimentel, Nicolas Klotz, Jeferson De, Bette Gordon e Peter Brosens.

PRÊMIO DO PÚBLICO                                                                                                            
A escolha do público é feita por votação. A cada sessão assistida o espectador recebeu uma cédula para votar com uma escala de 1 a 5, entregue sempre ao final do filme. O resultado proporcional dos filmes com maiores pontuações é: 
MELHOR FILME DE FICÇÃO INTERNACIONAL
  • THE HANDMAIDEN, de Park Chan-wook.
|2016 | cor| 145 min. | Ficção | Coréia do Sul.
MELHOR DOCUMENTÁRIO INTERNACIONAL
  • GURUMBÉ – CANCIONES DE TU MEMORIA NEGRA, de Miguel Ángel Rosales.
| 2016 | cor | 72min. | Doc| ESPANHA. 
  • GAGA – O AMOR PELA DANÇA, Tomer Heymann.
|2015 | cor | 100min.| Doc. | ISRAEL, SUÉCIA, ALEMANHA, HOLANDA.
MELHOR FILME BRASILEIRO DE FICÇÃO – Prêmio Spcine: R$ 35 mil
  • ERA O HOTEL CAMBRIDGE, de Eliane Caffé.
| 2016| cor| 93min.| Ficção| BRASIL, FRANÇA.
MELHOR DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO – Prêmio Spcine: R$ 15 mil
  • MARTÍRIO, de Vincent Carelli, de Vincent Carelli.
| 2016| cor| 160min.| Doc.| BRASIL.

PRÊMIO DA CRÍTICA                                                                                                         
MELHOR FILME INTERNACIONAL
  • DEPOIS DA TEMPESTADE (Umi Yori Mo Mada Fukaku), de Hirokazu Koreeda.
| 2016 │ cor│ 117 min.│ Ficção│Japão.
MELHOR FILME BRASILEIRO
  • PITANGA, (Pitanga) de Beto Brant, Camila Pitanga
|2015| cor| 90min. | doc.| Brasil.

PRÊMIO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ROTEIRISTAS E AUTORES          
MELHOR ROTEIRO DA COMPETIÇÃO NOVOS DIRETORES 
  • EL AMPARO, (EL AMPARO) de Rober Calzadilla.
| 2016 │ cor│ 99 min.│ Ficção│VENEZUELA.
Júri ABRA: Mariana Morgon, Paulo Weences Duarte e Lilian Iaki 

PRÊMIO DA ABRACCINE                                                                                            
MELHOR FILME
  • A MULHER DO PAI (MULHER DO PAI), Cristiane Oliveira.
|2015| cor| 94min. |Ficção| BRASIL, URUGUAI. 
JÚRI ABRACCINE - Humberto Silva, Luciana Veras e Willian Silveira.

JUSTIFICATIVA
Pela maneira terna e delicada no tratamento da relação entre um pai que não enxerga, uma filha adolescente e a professora de artes dos dois, que se insere entre os dois como presença disruptiva;  pela dimensão humana com que são tratados personagens prosaicos na fronteira entre Brasil e Uruguai; pelo domínio de uma narrativa em que contrastes na psique dos personagens centrais se revelam de forma sutil; pelo equilíbrio entre estilística autoral e diálogo com o público, o prêmio Abraccine de melhor longa-metragem de diretor estreante na 40ª Mostra de Cinema de São Paulo vai para “Mulher do Pai”, de Cristiane Oliveira.

PRÊMIO HUMANIDADE                                                                                         
  • ANDRZEJ WAJDA
O Prêmio Humanidade da 40ª. Mostra, que o evento outorga todo ano a um diretor cuja obra reflete questões humanísticas, foi homenagem póstuma ao cineasta Andrzej Wajda, que ganhou uma retrospectiva especial, dentro do Foco Polônia. O prêmio foi entregue ao crítico polonês Tadeusz  Lubelski, que levou o troféu para a Escola Wajda.

 PRÊMIO LEON CAKOFF                                                                                          
  • MARCO BELLOCCHIO  
  • WILLIAM FRIEDKIN 
  • ANTÔNIO PITANGA




domingo, 30 de outubro de 2016

O CINEMA COMO FOCO EM FILMES DA 40a MOSTRA

       
Antonio Carlos Egypto


Cinéfilos costumam gostar de filmes que falam de cinema.  Na 40ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, encontramos alguns exemplos.

BENCH CINEMA, de Mohammad Rahmanian, do Irã, apresenta um personagem improvável, que decora filmes inteiros para apresentá-los ao público, como teatro, tendo em vista restrições e censura na circulação de produtos audiovisuais, como os VHS, no Irã dos aiatolás. E, com isso, homenageia grandes clássicos e sucessos do cinema comercial. É divertido, dá bem para curtir, embora o recurso canse, ao longo do tempo.


MIFUNE:O ÚLTIMO SAMURAI

Linda homenagem faz Steven Okazaki, do Japão, àquele que pode ser considerado um dos maiores e mais talentosos atores do cinema japonês e mundial: Toshiro Mifune (1920-1997).  Quem aprecia a obra de Akira Kurosawa (1910-1998), o diretor com quem o ator mais trabalhou, vai relembrar cenas antológicas de filmes, como “Rashomon”, “Yojimbo”, “Os Sete Samurais”, “Trono Manchado de Sangue”, entre muitos outros. MIFUNE: O ÚLTIMO SAMURAI  também aborda outros aspectos da vida do ator, como a sua paixão por carros e bebida, às vezes simultânea, o que é problemático.


PITANGA

Outra bela homenagem prestam Beto Brant e Camila Pitanga ao nosso grande ator Antonio Pitanga, de uma vasta contribuição ao cinema brasileiro, em obras de grande porte e importância, duas delas exibidas nessa Mostra, “A Grande Cidade”, de Cacá.  Diegues, e “Barravento”, de Glauber Rocha.  O documentário PITANGA revela as características de uma personalidade forte, mas sedutora, firme, mas negociadora, e, sobretudo, de um bom humor contagiante.  Aliás, eu nunca ri tanto assistindo a um documentário como aconteceu com PITANGA.  Parecia uma comédia.

Relembrar o grande Abbas Kiarostami (1940-2016) foi o mérito do documentário 76 MINUTOS E 15 SEGUNDOS COM KIAROSTAMI, resgatando gravações feitas com o cineasta iraniano fotogrando, filmando, escrevendo e convivendo com pessoas no trabalho.  Quem gosta de cinema e sente a perda de sua arte inovadora vai apreciar o esforço de compilação de imagens de Seifollah Samadian, amigo e colaborador do cineasta, para nos trazer Kiarostami de volta à telona.  Oportuno e emocionante.


76 MIN.E 15 SEG. COM KIAROSTAMI

O CINEMA, MANOEL DE OLIVEIRA E EU, do português João Botelho, conterrâneo e contemporâneo do mestre Oliveira, com quem conviveu, é um prato cheio, em especial para os cinéfilos da Mostra, que já conhecem o diretor João Botelho (de “Os Maias – Cenas da Vida Romântica”, de 2014, por exemplo) e acompanharam a trajetória de Manoel de Oliveira (1908-2015), ao longo de muitos anos, vendo seus filmes sendo lançados aqui .  Ainda não vi o filme, mas já tirei ingresso para vê-lo.  Não iria perdê-lo por nada.



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

ANIMAIS NOTURNOS

Antonio Carlos Egypto




ANIMAIS NOTURNOS (Nocturnal Animals).  Estados Unidos, 2016.  Direção e roteiro: Tom Ford.  Com Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher.  115 min.



O filme “Animais Noturnos” focaliza a personagem Susan (Amy Adams), sua galeria de arte e seu marido, com quem visivelmente ela mantém um relacionamento distante e conturbado.  Pouco afeto e pouco interesse em investir na relação parecem existir ali.  Ela tenta algo, mas não encontra ressonância nele que, uma vez mais, parte para uma viagem.

Enquanto isso, Susan recebe de seu ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal) os originais de um romance chamado Animais Noturnos, dedicado a ela. Ele costumava chamá-la assim. O romance será lido por ela e visto pelos espectadores em partes, progressivamente, como um livro é lido.

 O texto que Susan lê vai se tornando incômodo, por muitas razões.  Primeiro, porque se revelará um thriller violento, que se agrava aos poucos.  Segundo, porque parece uma confissão em primeira pessoa que desmerece o narrador.  Terceiro, porque parece se constituir numa vingança em relação a ela.  E vai evoluindo para uma atmosfera aterradora.





Por um lado, ela vai sendo atraída pelo livro, por outro, o contesta e rechaça.  Interrompe a leitura, mas sempre voltará a ela.  Nos intervalos da leitura, acompanhamos o que ela faz e o encontro que se dará com o próprio autor da obra, seu ex-marido.  Eles se relacionam em meio à fruição da obra literária, que mexe tanto com ela e parece ter sido feita para contar algo importante, que pode mudar muita coisa.  Com que função?  Para alcançar o quê, a essa altura, depois de muitos anos de distanciamento?

A narrativa de “Animais Noturnos” inova num jogo de ficção e realidade, presente e passado, passado que volta a ser presente, lembranças incômodas e fantasia e, afinal, amor e ódio.  Desta forma, se constrói como um thriller forte e empolgante, cheio de subentendidos, mistérios e motivações simbólicas.

Os personagens soam autênticos, mostram as fraquezas humanas, a busca por modificar a percepção do outro, escancaram frustrações e todo tipo de fragilidade, incluindo as doenças do corpo.




O elenco que dá vida a esses personagens complexos e realistas é muito bom e nos apresenta desempenhos muito convincentes.  O principal destaque é, naturalmente, Amy Adams, já que é Susan que conduz a trama.  Ao mesmo tempo, a narrativa “ficcional” do romance é que dá o tom do espetáculo e aí o grande condutor é Jake Gyllenhaal, o escritor e personagem do livro.

Tom Ford, o diretor e também renomado estilista, reafirma o seu talento neste seu segundo filme.  O primeiro, “Direito de Amar”, de 2011, já havia se constituído numa bela surpresa na apresentação de conflitos e relacionamentos amorosos que podem produzir tragédias.  Em “Animais Noturnos”, ele mantém essa linha, trabalhando no gênero suspense de forma bem envolvente.

O filme integra a programação da 40ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, como um de seus destaques.  Chegará mais tarde ao circuito comercial dos cinemas.