sexta-feira, 16 de outubro de 2026

DESTAQUES DA MOSTRA 50

    Antonio Carlos Egypto

 

A Terra de Meu Pai


A TERRA DO MEU PAI (Fatherland).  Direção: Pawel Pawlikowski.  Elenco: Hanns Zischler, Sandra Hüller, August Diehl, Devid Striesow, Joachim Meyerhoff.

O filme do diretor polonês Pawel Pawlikowski (de “Ida”, 2014), é um belíssimo trabalho em preto e branco, com uma fotografia brilhante, enquadramentos preciosos que nos remetem à Alemanha dividida do pós-guerra, em 1949.  O personagem em questão é o escritor alemão Thomas Mann (1875-1955), autor de obras seminais, como “A Montanha Mágica”, “Morte em Veneza e “Doutor Fausto”, e sua filha Erika, sofisticada e intelectual.  O escritor foi convidado para palestrar em homenagem a Goethe (1749-1832), um dos representantes máximos da cultura alemã.  O convite a essa homenagem implicava não só o retorno à terra natal após anos de exílio nos Estados Unidos em função da guerra, incluindo a adoção da cidadania americana, como um fio da navalha ideológico.  Frankfurt, na Alemanha Ocidental, e Weimar, na Oriental, cidade natal de Goethe, foram as cidades sedes desses eventos.   Situadas em campos opostos e numa competição que tinha ainda o sentido do reerguimento da sociedade alemã em frangalhos.  Uma tragédia familiar também imiscui-se nessa situação já tão difícil.  Por meio dela, muito será revelado sobre as personalidades em ação.  Não só isso: temas e discussões muito relevantes perpassarão essa narrativa.  O que ela tem de brilhante é a forma como condensa as questões em frases ou cenas marcantes, que dizem tudo sem ter de explicar, nem esticar a trama.   O que o filme tem de melhor é ser profundo e sintético, méritos muito pouco encontrados no cinema mundial atual.  82 minutos.  Distribuído no Brasil pela Imovision/MUBI.

 

 

Memórias do Cárcere

MEMÓRIAS DO CÁRCERE.  Direção: Sérgio Graciano.  Elenco: Albano Jerónimo, Maria João Bastos, Paulo Pires, Afonso Pimentel, João Pedro Vaz.

Camilo Castelo Branco (1825-1890), um dos maiores escritores portugueses do século XIX e da história da literatura, é o foco do grande filme do cineasta português Sérgio Graciano.  Grande, antes de mais nada, pela duração, 167 minutos.  Mas grande também pelo estilo clássico, que é muito bem explorado, pelas locações, pelo figurino, pelo clima romântico muito adequado à narrativa.  A história adapta o livro “Memórias do Cárcere”, juntando a situação pessoal do escritor preso em função de um processo de adultério e o que ele escreveu sobre o que viu e ouviu na prisão: uma coleção de situações existenciais que envolvem falsários, parricidas, infanticidas e até um rei, que preenchem o filme de interesse e variedades.  A trama nos remete à própria história do Brasil e é bastante explícita ao revelar a imensa distância entre as classes sociais na prisão.  Enquanto prisioneiros pobres já se acumulavam nas celas, os grandes tinham acesso a celas tão espaçosas e bem-dotadas, onde cabiam pianos, belas escrivaninhas, trocas e visitas entre eles e as autoridades e até visitantes ilustres, como o próprio rei.  Ainda mais do que isso, eventos amorosos e sexuais entre o escritor e sua amante, presa em cela ao lado.  Enfim, um filme para se sorver e curtir com atenção na sua beleza, nas informações e reflexões que traz, em ambiente calmo e devidamente pausado.  Sem correrias ou excessos.  Mas recheado de boas histórias.

 

A VIOLÊNCIA DE NINGUÉM (Violence du Corps de l’autre).  Direção: Denis Coté. Elenco: Larissa Corriveau, Philippe Rebbot, Xavier Bergeron, Gabrielle Lazure, Pierrette Robitaille.

O novo filme do diretor canadense, de Quebec, Denis Coté, tem aspectos pesados desde o seu início, centrado na figura de Mira, uma mulher solitária e de poucas palavras.  Com cores esmaecidas e imagens granuladas, passado em período invernal canadense, com muita neve e ambientes escurecidos, é o tédio e o desencontro da personagem o que mais se destaca.  Ela flerta com a morte, mas também vive de auxiliar as pessoas à beira da morte.  Curiosamente, ela encontra a vida em outros personagens que movimentam a narrativa.  São estranhas, mas atraentes figuras: Madeleine e Ludo, pessoas descoladas, hedonistas, que vivem no coração da floresta e um jovem, com quem Mira se envolve, que é o seu oposto.  Louco, falante, dançante, exibicionista, disposto a todo tipo de experiências.  De outro modo, ele também flerta com a morte.  Onde está a violência do título  do filme?  No corpo dos outros, na alma de Mira?  118 minutos.

 

A Violência de Ninguém



NÃO ME LARGUE (Kpáta me).  Direção: Myrsini Aristidou.  Elenco: Christos Passalis, Maria Petrova. 

Da competição “Novos Diretores”, vale destacar este filme, uma produção que envolve Chipre, Dinamarca e Grécia.  A diretora cipriota Myrsini Aristidou, em seu primeiro filme, mostra com talento o que acontece com uma criança de 11 anos que é deixada por sua conta e risco. Durante o verão, Íris, a menina, cujo pai havia desaparecido e volta, mas sem retornar à casa, e a mãe, que viaja de férias com o novo namorado, fica só com o irmão maior, adolescente, algum dinheiro e comida em casa.  Nada mais.  O irmão está mais interessado em sair com a namorada do que em cuidar dela.  Ou seja, ninguém está nem aí para ela.  Íris convive com uma amiga bem mais velha do que ela, que é seu vínculo afetivo.  E só.  O filme explora, então, o que acontece numa situação dessas.  O que ela vai buscar, explorar, e que confusões pode armar.  No caso, a abordagem se refere a uma menina com vida de classe média.  O abandono não é o mesmo das pessoas mais vulneráveis economicamente ou que estão em situação de rua, por exemplo.  Porém, onde não há educação tudo pode acontecer.  E com uma menina inteligente e destemida quem guiará seus caminhos é ela mesma.  Parafraseando Noel Rosa: Com que roupa?  E no que isso vai dar?  102 minutos.

 

@mostrasp      #mostrasp       #50mostra



domingo, 11 de outubro de 2026

4 FILMES DA MOSTRA 50

 

 Antonio Carlos Egypto               

 

Já tive a oportunidade de ver os primeiros filmes da Mostra 50.  Aí vão meus comentários sobre eles.

 

Tigre de Papel


TIGRE DE PAPEL (Paper Tiger).  EUA, 2026.  Direção: James Gray.  Elenco: Adam Driver, Scarlett Johansson, Miles Teller, Gavin Goudey, Roman Engel. 115 min.

O filme de abertura da 50ª. Mostra, “Tigre de Papel”, traz uma relação de dois irmãos muito diferentes, mas colaboradores entre si e com afetividade. Um vem da experiência policial e parece talentoso nos negócios.  O outro, um engenheiro competente, com uma vida de classe média modesta em família.  Quando ambos se unem para realizar o negócio ideal que, além de muito lucrativo, contribuirá para o meio ambiente numa relação com empresários russos, a coisa, obviamente, desanda.  E aí é a relação deles com a máfia russa que dará o tom da ação para lá de arriscada, que abalará até o que estava bem fincado: a relação entre os irmãos.  E a própria vida deles e da família.  “Tigre de Papel” tem um bom ritmo, envolvente, um bom elenco, mas segue um padrão do gênero drama criminal e suspense esquemático, principalmente em relação à maldade dos russos.  E também pela tremenda ingenuidade dos irmãos estadunidenses em crer no tal negócio ideal, sem falhas ou fraudes, e que eles pudessem vir a ser os fiadores morais dessa história.  Entre os muitos produtores que viabilizaram o filme está o brasileiro Rodrigo Teixeira, que tem participação significativa na produção cinematográfica mundial atualmente.  O diretor James Gray virá à 50ª. Mostra, elaborou o cartaz do evento e terá uma retrospectiva de seus filmes.

 

Um Pouco de Esperança

UM POUCO DE ESPERANÇA (Kami Nour), do Irã, 2026, do diretor Alis Asgari, que estará na 50ª. Mostra, é um filme poderoso pelo questionamento que coloca.  A decisão de cometer suicídio pode ser algo mais do que uma decisão pessoal e isolada?  Ela poderá ser compartilhada antes do ato final com as pessoas mais próximas da família?  E o que esperar delas?  Ou seja, é possível a socialização dessa experiência?  É possível contar com a ajuda de parentes e colegas de profissão (no caso, trata-se de um médico)?  O suicídio é uma questão individual ou coletiva, comunitária?  “Um Pouco de Esperança” faz lembrar o grande filme iraniano “Gosto de Cereja”, de Abbas Kiarostami, de 1997, em que um suicida pedia ajuda previamente a pessoas para que pudessem enterrá-lo.  A questão é mesmo complexa e esse tabu merece ser cada vez mais discutido, com evidentes dificuldades quando entra em cena o pensamento religioso.  Este é mais um talentoso filme sobre o tema do suicídio, sendo abordado num país em que essas questões são especialmente delicadas.  E o filme não se esquece de ligar a questão da morte aos bombardeios norte-americanos a Teerã, aos protestos contra o regime dos aiatolás e ao autoritarismo em suas ações que estão na base da decisão radical que o médico tomou.  Atualizadíssimo!  89 minutos.

 

O OUTRO LADO DAS REDES (The Social Reckoning).  EUA, 2026.  Dirigido por Aaron Sorkin, que já tinha sido roteirista do filme “A Rede Social”, dirigido por David Fincher, volta ao tema de forma ainda mais crítica do que em 2010.  Se lá estava se descobrindo o peso e a importância da rede social e já se levantavam questões críticas, agora as consequências maléficas estão aí, à vista de todos.  O que o filme aborda já sabemos por aqui, com um agravante, as decisões não são tomadas pelos Zuckerbergs da elite estadunidense, como lá, mas fora do próprio país, no caso do Brasil.  Enfim, o filme não traz muita novidade, nem no tema, menos ainda na forma, tradicional, acadêmica.  112 minutos.

 

Variações sobre um Tema

O filme da África do Sul indicado para a disputa do Oscar internacional pelo país, VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA (Variasies op’n terna), é dirigido por Jason Jacobs e Devon Delmar.  Tudo se passa nas montanhas de Namaqualand, na África do Sul, em que variações e recorrências tanto visuais quanto de diálogos mostram, por meio de uma pastora de cabras idosa, uma fraude que se repete, uma espera contínua que perde o sentido com o aniversário dos 80 anos dela, sempre aguardando por um dinheiro que nunca chega.  A base da fraude é bem conhecida, é preciso ficar pagando uma quantia para que o dinheiro prometido chegue um dia.  Ele nunca chegará e a vida se esvairá em espera, resistência e perda.  Tudo mostrado com simplicidade, beleza, um uso magnífico da luz e uma fotografia exuberante, numa estética da precariedade que é reflexo da cultura local do ambiente rural das aldeias, onde a rotina se repete incansavelmente.  Média metragem de 65 minutos.

 

@mostrasp           #mostrasp       #50mostra



quinta-feira, 8 de outubro de 2026

MOSTRA 50 CHEGANDO

Antonio Carlos Egypto


coletiva de imprensa da mostra 50

 

A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que tanta contribuição deu à arte e à cultura cinematográfica, desde que surgiu pela batalha incansável de seu idealizador, León Cakoff, chega aos 50 anos, sob a brilhante coordenação de Renata de Almeida e uma equipe dedicadíssima.

 

É motivo de muito orgulho para todos nós que vivemos na cidade de São Paulo esta celebração cinquentenária, que acontece de 15 a 29 de outubro de 2026, em 57 salas de cinema, espaços culturais e CEUs, exibindo 380 títulos de 93 países, entre longas, curtas e séries,100 brasileiros.

 

Serão muitos os eventos comemorativos.  Vou citar apenas alguns.  Vocês podem conferir tudo no site oficial da 50ª. Mostra.  Acessos: @mostrasp, #mostrasp, #50mostra, #50ª.mostra,#3ª.mostrinhasp.

 

A sala Petrobrás na Mostra, este ano, está montada no Solar Fábio Prado, na Av. Faria Lima, 2705, onde ocorrerá o VI Encontro de Ideias Audiovisiuais e a Exposição “Tempo e Movimento: os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo”.  Fotografias inéditas do grande cineasta iraniano Abbas Kiarostami estarão sendo exibidas no MIS – Museu da Imagem e do Som.

 


Vários livros serão lançados, com destaque para “Antes Que Eu Me Esqueça”, com memórias da organizadora da Mostra, Renata de Almeida, um livro dos cartazes da Mostra ao longo dos 50 anos, em tamanho que permite enquadrar e utilizar como quadro, e até o livro da Abraccine, “100 Filmes Brasileiros Essenciais”, organizado por Danilo Fantinel, Ivonete Pinto e Paulo Henrique Silva, em que eu participei com o texto sobre “Cinema, Aspirinas e Urubus”.  A Mostrinha, dedicada a animações de filmes para crianças e adolescentes, chega à sua 3ª. edição.

 

Sessões especiais no teatro Cultura Artística trazem o clássico “Aurora”, de F. W. Murnau, com trilha sonora ao vivo, executada pela Orquestra Jazz Sinfônica, nos dias 23 e 24/10.  O filme “Fjord”, de Cristian Mungiu, Palma de Ouro em Cannes, será exibido lá em 19/10.  Ao longo da programação, será possível ver ou rever a trilogia “A Batalha do Chile”, de Patricio Guzmán, que infelizmente nos deixou há pouco.  Um show de André Abujamra e banda, com as vinhetas da Mostra ao longo dos anos, acontecerá no Sesc 24 de maio, em 21/10.

 

De resto, a seleção de filmes, como já é habitual, traz premiados e destaques dos principais festivais ao redor do mundo, indicados ao Oscar por seus países, e uma safra de novos diretores a serem conhecidos pelo público.  O filme de abertura é “Tigre de Papel”, de James Gray, que é também o autor do cartaz deste ano. E na sessão inaugural será exibido também o curta “Sul de Teerã”, de Kleber Mendonça Filho. 

 

Haverá uma retrospectiva de filmes produzidos por Paulo Branco, que receberá pessoalmente o prêmio León Cakoff, por sua contribuição ao cinema.  O prêmio Humanidade será recebido pessoalmente por Marco Bechis, chileno de origem italiana, que cresceu em São Paulo e Buenos Aires, foi preso e deportado e viveu em Milão, Nova York, Los Angeles e Paris, onde trabalhou com cinema, elaborando as questões traumáticas que viveu.  Volta ao tema em “Retorno a Buenos Aires”, apresentado na 50ª. Mostra.

 

Como estão vendo, é muita coisa acontecendo neste período da Mostra em São Paulo.  Não será por falta de opção ou de alternativas que alguém deixará de curtir essa Mostra especial dos 50 anos.  Os pacotes de ingressos poderão ser adquiridos por meio do aplicativo da 50ª. Mostra, já disponível para ser baixado.

 

CIRCUITO EXIBIDOR

 

Espaço Petrobrás de Cinema Augusta

Cinesesc

Cinemateca Brasileira

Cultura Artística

Reserva Cultural

Cine Belas Artes

Cinesystem Frei Caneca

Cinesala

Cine Tutu

Cine Segall (Museu Lasar Segall)

Cine Sato

Cine Satyros Bijou

IMS Paulista

MIS

Solar Fábio Prado

Sala São Paulo (sessão especial)

Centro Cultural São Paulo

SpCine Olido, Circuito SpCine gratuito e exibições nos CEUs da cidade

Cinusp

Itaú Cultural

Bulevar do Rádio (Sesc Paulista)

Teatro Sérgio Cardoso

 

 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

NAZA

Antonio Carlos Egypto



 

NAZA. Reino Unido, 2026.  Direção: Yuval Abraham e Rachel Szor.  Documentário.  80 min.

 

O documentário “Naza”, produzido pelo jornal inglês The Guardian, realizado pela dupla de jornalistas investigativos israelenses, Yuval Abraham e Rachel Szor, é uma peça política muito forte e verdadeira.  Os diretores são os mesmos que venceram o Oscar de documentário em 2024, com “Sem Chão” (No Other Land).

 

Aqui, eles realizam entrevistas com uma série de agentes do Estado de Israel responsáveis pelos ataques à região de Gaza.  Foi tudo filmado à noite, clandestinamente, nos terraços e telhados de Tel Aviv, sem identificação dos rostos e alterando a voz dos depoentes.  Só se vê o entrevistador Yuval em conversas com silhuetas não identificáveis, sendo filmados por Rachel. 

 

O que é dito é espantoso, relata com crueza de detalhes o processo do massacre de civis palestinos na Faixa de Gaza, enquanto se mira nos terroristas do Hamas.

 

Naza é uma expressão que significaria os efeitos colaterais da morte de civis quando se realizam os ataques aos prédios e casas onde moram membros do Hamas.  Significaria porque isso é uma suposição.  Os ataques a civis são assumidos, planejados, calculados.  Veja os exemplos: por que explodir uma casa com toda a família dentro, quando chega à noite o pai da família, um membro do grupo terrorista, e não se faz um ataque a seu trabalho diurno?  Como entender, então, a ação deliberada de snipers, alvejando civis palestinos, enquanto se dirigiam, famintos, às tendas de comidas?

 


Ou seja, o filme não deixa margem a dúvidas: o que se passou, e continua se passando na Faixa de Gaza, é um genocídio do povo palestino, realizado pelo governo de Israel, de Benjamin Nethanyahu.  Tudo claramente admitido pelos responsáveis militares desse genocídio, com algumas dúvidas, mas sem maiores culpas, ancorados pela ideia de que é preciso destruir os palestinos e a demanda pelo seu Estado, para garantir a sobrevivência do Estado de Israel.  Eles cumprem ordens, inquestionáveis, numa missão que revela a banalidade do mal, praticada por agentes graduados das forças repressoras do governo de Israel.  São uma espécie de Bibi boys.

 

Impossível sair dessa sessão sem uma sensação de asco, por um lado, e de desânimo, por outro.  O mundo chegou a tal grau de violência e insensibilidade que interesses imediatos e mal elaborados pretendem justificar o extermínio de todo um povo.  Isso num mundo em que vai sendo ampliado o domínio da extrema direita, e seus tentáculos de guerra, cinicamente mascarados de paz e democracia.

 

“Naza”, falado em hebraico e inglês, é complementado por imagens dos bombardeios, de locais destruídos e imagens em preto e branco do passado da região.

 

O filme, difícil de se ver, mas politicamente muito importante, foi aclamado pelo público com longuíssimos aplausos e venceu o prêmio especial do Júri do Festival de Veneza.



domingo, 27 de setembro de 2026

VOTO

Antonio Carlos Egypto

 



Permita-me hoje dirigir-me a você para falar de eleições em vez de cinema, na reta final do pleito geral que está à nossa porta. No próximo domingo, 04 de outubro de 2026, vamos votar numa eleição muito importante, e disputadíssima, que vai indicar os rumos do país.

 

De minha parte, eu quero contribuir com o meu voto para que o Brasil seja democrático e soberano, em um tempo em que golpes e entreguismo (uma palavra antiga que, infelizmente, está de volta) não tenham vez.  Precisamos combater a extrema desigualdade em que ainda vivemos, desenvolver a economia, acabar com a fome e a miséria, proteger os vulneráveis com programas sociais robustos.  Investir na proteção ao meio ambiente, em infraestrutura, na saúde, na educação, na segurança pública.  E priorizar a cultura, as artes, que constituem a nossa própria identidade.

 

É importante ter no poder um estadista com capacidade de diálogo e propostas para o mundo, com uma visão multilateralista e em busca da paz mundial.

 

Também é importante renovar o Congresso Nacional, escolhendo deputado federal e os senadores (são duas candidaturas a serem escolhidas), que se engajem nesses princípios norteadores que listei acima.  O mesmo vale para o âmbito dos estados da Federação, com a opção por governador e deputado estadual que melhor se adaptem à resolução das necessidades locais.

 

Há uma descrença generalizada na política, mas sem ela não há solução para nenhuma das questões mais emergentes e fundamentais que o Brasil enfrenta.  Melhor a gente não se omitir e fazer boas e cuidadosas escolhas e não deixar que os outros o façam por nós.






quarta-feira, 23 de setembro de 2026

TRÊS VEZES ADEUS

Antonio Carlos Egypto

 

TRÊS VEZES ADEUS (Tre Ciotole).  Itália/Espanha, 2025.  Direção: Isabel Coixet.  Elenco: Alba Rohrwacher, Elio Germano, Francesco Carril, Silvia D’Amico, Lorenzo Terenzi.  120 min.

 


Não há nada que seja mais humano do que o amor e a perda.  E é essa temática, explorada de forma intimista e existencial, que move os personagens da história.  Inspirada em livro semibiográfico de Michela Murgia, morta em 2023, a diretora Isabel Coixet penetra na profundidade da situação, mexendo intensamente com as emoções do público, que se identifica facilmente com o sofrimento e as reviravoltas de vida que sofre a personagem principal: Marta, vivida magnificamente por Alba Rohrwacher.

 

Começamos vendo um conflito relativamente banal que ela protagoniza com seu marido de sete anos de convívio: Antônio, em interpretação admirável de Elio Germano.  Do que parecia pouco, resulta uma perda, uma separação, que pesará na vida de ambos.  Marta se recolhe, perde o apetite, enquanto Antônio se refugia no trabalho, como chef de cozinha.  Esse aparente paradoxo é revelador de que a vida nos surpreende e nos leva a caminhos insuspeitos.  O futuro previsto pode se desfazer a qualquer momento, exigindo de todos uma incrível capacidade de adaptação e de reestruturação da existência.  O presente é o que vale, o que nos move e nos desafia.

 

Outras surpresas, outras perdas e frustrações acontecerão com a vida, com a saúde, com o amor.  Há coisas que são inevitáveis e definitivas, cuja solução nos escapa ou porque não há mesmo retorno.  Formas inesperadas de reconstruir a vida se impõem e novas possibilidades se abrem, mas com limites não ultrapassáveis.

 


Enquanto tudo acontece e a finitude se projeta, há muita vida para usufruir.  Marta, com sua bicicleta, que é como se fosse parte de seu corpo, percorre sua Roma que encanta, não só por seus já conhecidos ícones turísticos, pouco explorados no filme, mas por seus cantinhos, ruelas, pracinhas, casas antigas, parques e flores.  “Três Vezes Adeus” faz uma grande homenagem a Roma, ao longo de todo o filme.

 

Há também um interessante percorrido pelo mundo do trabalho dela, no esporte, na educação de crianças e jovens, na dedicação que há em tudo isso.  Especialmente na amizade com o colega Agostino, também em ótima performance de Francesco Carril.  Afeto, amizade, amor? 

 

Sensacional é o modo como o filme aborda a imaginação e a fantasia como antídoto da solidão no envolvimento da nossa Marta com a bela e improvável figura de um jovem astro coreano do k-pop, que está disponível em sua casa, em papelão.  Tudo que está dentro de nós, de alguma forma, existe.  E a manjada citação de Fernando Pessoa torna-se obrigatória: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

 


Isabel Coixet, a diretora espanhola, natural de Barcelona, realiza um belo filme italiano.  Demonstra familiaridade para trabalhar em diferentes lugares e idiomas.  Já dirigiu filmes falados em espanhol, catalão, inglês, francês, japonês e agora italiano.  Já filmou em Portugal, na Argentina, no Canadá, na Irlanda, nos Estados Unidos, no Japão, na França, além deste, em Roma, na Itália.  É uma cineasta sem fronteiras.  E que versatilidade!

 

Citando matéria do Correio Braziliense, a diretora destacou que filmar em outras línguas a obriga “a ouvir de outra maneira”.  Na Itália, exemplificou como “cozinhar na casa de outra família com as panelas deles”, enquanto o Japão a ensinou “o valor do silêncio” e o mercado anglo-saxão, a disciplina do roteiro.  Da cultura das mulheres, aprendeu que “o doméstico pode ser épico”.

 

Do cinema brasileiro, ela destaca “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, pela estética da precariedade como posição política.  E o que acontece atualmente no Brasil, como extraordinário, com “O Agente Secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho, e “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles.  Diz que cresceu ouvindo Elis Regina e que “Águas de Março”, de Tom Jobim, e as letras de Vinicius de Moraes têm mais sabedoria do que a maioria dos tratados de filosofia.  Incrível essa mulher, não?




sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DICAS DE BRASILEIROS

Antonio Carlos Egypto

 

O cinema brasileiro tem estado muito ativo com grande número de lançamentos que têm muita dificuldade em alcançar o público, numa realidade de mercado complicada, dominada pelo cinema estrangeiro.  Aí vão algumas dicas de filmes bem diversos da produção nacional atual.

 


O documentário VIVA MARÍLIA, 2025, dirigido por Zelito Viana, de longa contribuição ao cinema desde os anos 1970, com roteiro de Nelson Motta, trata da vida e da arte da grande atriz Marília Pêra. Com uma vasta obra, que ela mesma comenta e apresenta ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, reflete o próprio país e a força das mulheres na cultura brasileira. Isso foi possível graças ao vasto acervo de imagens e vídeos raros de Marília que foram preservados. 87 min.

 


MORTE E VIDA MADALENA, 2025, direção e roteiro de Guto Parente, é um filme sobre cinema. Ou sobre o desafio de se fazer cinema independente no Brasil.  Porém, isso se dá de modo caótico numa comédia e drama que se alternam e se complementam de forma histriônica.  A personagem que conduz a narrativa é Madalena (excelente trabalho de Noá Bonoba), uma produtora de cinema que tem de lidar com a morte recente do pai, tocar um roteiro dele de um filme de ficção científica, está grávida de 8 meses e o diretor do filme, e marido dela, Davi (Marcus Curvelo), simplesmente desaparece.  Ela conta com o bom senso de Natasha (Nataly Rocha), mas escolhe para diretor Oswaldo (Tavinho Teixeira), um ator que se comporta de um jeito totalmente desequilibrado e fora dos eixos.  Mas se diz medicado e apoiado por um psiquiatra.  Já viram para onde isso vai, não é?  É muitas vezes engraçado.  Mas é tudo over demais, cheio de clichês e improbabilidades.  Quem gosta de filmes louquinhos, como alguns que eu conheço, vai curtir muito.  85 min.

 


PRECISAMOS FALAR, 2024, thriller psicológico, dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, inspirado no livro “O Jantar”, do escritor holandês Herman Koch, trata de um tema importante e moralmente desafiador.  O filme começa com uma filmagem tosca e tremida de um crime, uma moradora de rua é assassinada por um grupo de três adolescentes, porque estava dormindo num caixa eletrônico, impedindo o uso da máquina.  Agressões, estouros e essa filmagem dão conta da seriedade do ocorrido.  O principal responsável foi o que filmou a cena.  Mas todos estavam comprometidos e envolvidos nesse crime bárbaro.  Além do comportamento errático e desencontrado dos garotos, incluindo um irmão adotivo pardo numa família de brancos e um sobrinho racista, a narrativa se concentra num jantar marcado pelos pais dos jovens adolescentes, para decidir como agir diante dessa gravíssima questão.  Por trás de toda essa crueldade, há pais e mães preocupados com os filhos, amando e protegendo e/ou se sentindo abalados por qualquer decisão que tomem.  A identificação dos criminosos não havia acontecido.  Para complicar, o pai dos dois irmãos, incluindo o adotado, é político, está em processo eleitoral e as pesquisas o mostram muito bem na disputa.  Que efeito isso terá sobre a sua candidatura?  Temos aqui uma questão de classes sociais, de como as coisas andam diante da enorme desigualdade encontrada na sociedade.  O livro que deu origem ao roteiro de Sérgio Goldenberg vem de um escritor europeu.  Mas a questão, além de universal, cai como uma luva na realidade brasileira.  O filme poderia até ter sido inspirado por notícias de jornais brasileiros, como fazia Hitchcock em alguns de seus filmes.  Elenco: Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes, Emílio de Mello.  101 min.