sábado, 28 de fevereiro de 2026

PECADORES +

Antonio Carlos Egypto  




 PECADORES (Sinners). Estados Unidos, 2025. Direção: Ryan Coogler. Elenco: Michael B. Jordan, Jack O’Connell, Haille Steinfield, Delroy Lindo, Winmi Mosaku. 132 min. 

 “Pecadores” é um filme impressionante e criativo. Sem nenhuma dúvida, muito bem realizado e cinematograficamente bem construído. É talentoso na forma de juntar uma narrativa de inspiração realista na exposição dos fatos do racismo e do conflito com os supremacistas brancos, explorando cenas de ação e humor. Tem muito boas música e dança, que alegram o ambiente num salão de diversões, enquanto a crise não se instala. A música já faz ponte com o demoníaco. Por final, envereda por um autêntico filme de terror, focado no vampirismo. É uma salada bem variada, mas que, surpreendentemente, combina. O que eu não gostei foi da carnificina, consequência mais ou menos inevitável da trama, em que o filme deságua. O elenco é forte e expressivo, com o óbvio destaque para Michael B. Jordan, que faz os papéis dos dois irmãos gêmeos: Smoke e Stock. Os gêmeos, habituados a uma rotina de violência que deixaram para trás, mas que se repetiu na cidade grande, voltaram à pequena cidade de origem para mudar de vida. Qual o quê! Lá como cá, o racismo é que dá o tom e quem não se acostumou a baixar a cabeça não é agora que vai aceitar as provocações e as críticas que lembram o passado deles. Então, tem fogo no circo. Se na questão social pode haver outros caminhos, quando o que há para se enfrentar são os vampiros, que nos transformam em sugadores de sangue como eles, aí a coisa pega. Há quem vá curtir muito e outros que não vão tolerar. É isso. Bem, o filme não só está indicado entre os 10 candidatos a melhor filme para o Oscar 2026, como tem mais 15 indicações: para diretor, ator, atrizes, elenco, roteiro, montagem, fotografia, trilha sonora, canção, som, maquiagem, efeitos visuais e design de produção. Um verdadeiro recorde. Seria para tanto? Acho que não, mas frise-se: não costumo curtir filmes de terror. O que não quer dizer que eu minimize o valor do filme dirigido por Ryan Coogler. 







  A HISTÓRIA DO SOM (The Story of Sound) produção Estados Unidos/Reino Unido,
dirigido por Oliver Hermanus, nascido na África do Sul. Em Boston, em 1917, Lionel e Davi, estudantes de música, se conhecem e, apaixonando-se pelas folksongs, percorrem os Estados Unidos registrando canções para serem reproduzidas no gramofone. Essa longa viagem os aproxima muito e daí surge uma paixão também entre eles, para além da música. Separam-se ao final da viagem, tomando rumos distintos, mas o vínculo que construíram jamais morrerá. O que construíram juntos pela história da música, também não. Bela e cuidadosa produção, com boa música e uma dupla de protagonistas ótima: Paul Mescal e Josh O’Connor. Também no elenco, Hadley Robinson, Emma Canning e Chris Cooper. 127 min.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

SIRÂT

 Antonio Carlos Egypto





SIRÂT.  Espanha.  Direção: Oliver Lake.  Elenco: Sergi López, Bruno Nuñez, Stefania Gadda, Joshua Liam Henderson, Jade Oukid. 120 min.

 

“Sirât”, o filme de abertura da 49ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é o representante da Espanha na disputa do Oscar de melhor filme internacional.  É um road movie todo passado nos desertos do Marrocos e tem coprodução francesa.  O diretor Oliver Lake nasceu na França, de uma família de imigrantes espanhóis.

 

“Sirât “ é um filme que comporta muitos adjetivos para defini-lo.  É impressionante, impactante, doloroso emocionalmente, vibrante, desafiador, notável.

 

É um filme que mexe com todo mundo, dá até para detestar, mas não dá para esquecer, nem ficar indiferente.  Reflete o mundo em que vivemos, o clima de guerra que o define, o temor até de uma Terceira Guerra Mundial.  O ambiente explosivo em que estamos todos envolvidos e também o desencanto e o desamparo.  E, mais do que tudo isso, o filme nos mostra que, definitivamente, não estamos no controle das coisas, nem das nossas próprias vidas, nem de nós mesmos.  O século XXI seria uma espécie de “xeque-mate” do que já sabemos desde Darwin, Freud e Marx.  Claro, não dá para ser otimista diante das circunstâncias.  Mas pessimismo inerte é derrota. É preciso agir, da forma que for possível.

 

Um pai e um filho ainda pequeno que circulam por festas rave no deserto marroquino, em busca da filha e irmã que não veem há dois meses, seguem um grupo de jovens errantes, espécie de hippies da atualidade.  Eles tentam viver e dançar ao som das batidas da música, que é puro ritmo, ao lado de centenas, milhares de integrantes dessas festas, que já estão sendo coibidas pela polícia e podem ser as últimas explosões de vida ainda permitidas.  Dançar, interagir, buscar uma saída lisérgica para suportar os fatos pode ser um caminho para eles.

 

Um caminho a que vai se somar a família que busca sua integrante que está distante.  Curtindo o mesmo vigor de música e dança no deserto, pelo que  se sabe dela.  Até onde se pode ir nesse ambiente árido e inóspito, por caminhos quase intransitáveis, num mundo nada protetor, em guerra e opressões diversas?

 

Uma reflexão para lá de relevante, sem dúvida.  O filme também flerta com uma ideia mística.  Se não temos o controle, estamos à mercê dos desígnios de Deus.  Pode ser visto assim, mas simplifica muito as coisas.  E tende a levar à acomodação.  E aí, será que tem saída?  Vamos ficar no clichê: a esperança é a última que morre?  De onde ela virá? Dos povos, espero.

 

 

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ORWELL:2+2=5

                                      Antonio Carlos Egypto

 


ORWELL: 2 + 2 = 5. França, 2025.  Direção: Raoul Peck.  Narração: Damian Lewis.  Documentário.  119 min.

 

O documentário “Orwell: 2 + 2 = 5”, do diretor Raoul Peck (de “Eu Não Sou Seu Negro”, de 2016, “O Jovem Karl Marx”, de 2017, e “Ernest Cole: Achados e Perdidos”, de 2024), nascido em Porto Príncipe, Haiti, de quem se poderia esperar muito, pelo que já fez, decepciona um pouco.  Não porque não seja bem-feito, nem por falta de uma ampla pesquisa de textos e imagens, menos ainda pelas boas intenções da proposta.

 

O problema é que o filme, ao questionar o mundo atual, opressor, mentiroso, manipulador e cheio de excessos, padece exatamente de um desses pecados: o absoluto excesso de informações que até dificulta a compreensão e não nos permite usufruir e refletir sobre o que nos é mostrado.

 

Para começar, porque a proposta é ambiciosa demais.  Centra-se na figura do grande escritor George Orwell (1903-1950), apresentado como uma espécie de profeta do mundo atual, a partir do que criou e escreveu sobre o autoritarismo e sua capacidade de nos manipular e produzir crenças majoritárias baseadas nas mentiras apresentadas como verdades absolutas, impostas pelos tiranos e sua tecnologia.

 

A partir daí, o filme tenta mostrar que os fatos ligados ao autoritarismo, não só dos nossos tempos como do passado, vinculam-se a Orwell de algum modo.  E desfila um colosso de fatos informativos e imagens atuais e de época sendo narrados ao mesmo tempo em que, muitas vezes, são exibidos também palavras e números escritos na tela.  Para um filme legendado a ser visto por aqui, não dá nem para acompanhar as duas coisas juntas.  As legendas duplas nem cabem na tela.  Assim, o que seria uma denúncia para lá de justa e uma justaposição de situações diferentes revela-se exagerada e irritante.

 

Quem já não se queixou de ser invadido por um turbilhão de imagens e mensagens impossíveis de se processar? E que pelo excesso passam a incomodar muito mais do que contribuir com alguma informação relevante?  Infelizmente, é isso que acontece com “Orwell: 2 + 2 = 5”, na minha opinião.

 

Uma edição mais enxuta, seletiva e menos agitada, poderia ter dado origem a um documentário excelente.  Mas não aconteceu.

 

 

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

PRÊMIO ABRACCINE 2025


 Reproduzo aqui a matéria, publicada no site da Abraccine, que revela a escolha que fizemos dos melhores filmes de 2025. Trata-se do 15o. Prêmio Abraccine, que corresponde aos 15 anos de existência da própria associação.

Antonio Carlos Egypto


Revelados os vencedores do 15º Prêmio Abraccine – Melhores do Ano

“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foi escolhido o melhor longa-metragem brasileiro de 2025 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Durante a esperada live do Prêmio Abraccine – Melhores do Ano, ocorrida na noite de  5 de fevereiro, também foram anunciados “Uma Batalha Após a Outra”, dirigido por Paul Thomas Anderson, na categoria melhor longa-metragem internacional, e “A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero”, de Rodolpho de Barros, como melhor curta-metragem. 

Em sua 15ª edição, marca que acompanha a existência da entidade, o Prêmio Abraccine – Melhores do Ano vem se juntar a uma bem-sucedida trajetória comercial e de premiações dos títulos escolhidos. “O Agente Secreto”, visto no Brasil por mais de dois milhões de espectadores, largou no Festival de Cannes do ano passado com os troféus de direção e ator para Wagner Moura, e está indicado a quatro estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme e melhor ator. Terá batalha difícil com o longa de Thomas Anderson, outro dos favoritos para os prêmios da Academia de Hollywood, em disputa por 13 Oscars. Já o longo e curioso título do curta vencedor é um velho conhecido da Associação. Levou o Prêmio Abraccine no Fest Aruanda 2025, entre outros reconhecimentos no mesmo festival.

Além dos três títulos vencedores, a Associação também elegeu o top 10 de cada categoria.

O processo de eleição ocorreu durante a última quinzena de janeiro com a participação dos associados, em quadro composto atualmente por cerca de 180 nomes estabelecidos em todas as regiões do País, entre jornalistas, críticos, acadêmicos, estudiosos, curadores e programadores da área de cinema. 

Confira as listas completas de melhores do ano de 2025 segundo a Abraccine:




Melhor Longa-Metragem Brasileiro

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho

Top 10 Longas-Metragens Brasileiros (em ordem alfabética)
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Baby, de Marcelo Caetano
Os Enforcados, de Fernando Coimbra
O Filho de Mil Homens, de Daniel Rezende
Homem com H, de Esmir Filho
Kasa Branca, de Luciano Vidigal
Manas, de Mariana Brennand
A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo
Oeste Outra Vez, de Erico Rassi
O Último Azul, de Gabriel Mascaro. 



Melhor Curta-Metragem
A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, de Rodolpho de Barros

Top 10 Curtas-Metragens (em ordem alfabética)
A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, de Rodolpho de Barros
Boiuna, de Adriana de Faria
Casulo, de Aline Flores
Como Nasce um Rio, de Luma Flôres
E Seu Corpo é Belo, de Yuri Costa
O Faz-Tudo, de Fábio Leal
Laudelina e a Felicidade Guerreira, de Milena Manfredini
O Mapa em Que Estão meus Pés, de Luciano Pedro Jr.
O Rio de Janeiro Continua Lindo, de Felipe Casanova
Samba Infinito, de Leonardo Martinelli





Melhor Longa-Metragem Internacional

Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson

Top 10 Longas-Metragens Internacionais (em ordem alfabética)
Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson
Dreams, de Dag Johan Haugerud
Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi
Levados pelas Marés, de Jia Zhang-Ke
The Mastermind, de Kelly Reichardt
Misericórdia, de Alain Guiraudie
Pecadores, de Ryan Coogler
A Semente do Fruto Sagrado, de Mohammad Rasoulof
Sorry, Baby, de Eva Victor
Valor Sentimental, de Joachim Trier

 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

MAIS INDICAÇÕES AO OSCAR

Antonio Carlos Egypto

 



SONHOS DE TREM (Train Dreams).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Clint Bentley.  Elenco: Joel Edgerton, Felicity Jones, Kerry Condon, William H. Macy, Will Patton.  113 min.

 

Um lenhador e trabalhador ferroviário, figura solitária, desloca-se todo o tempo, para cumprir seus trabalhos no Oeste estadunidense, no início do século XX.  Época que traz novas tecnologias que transformaram as vidas: os trens e a eletricidade, especialmente.  Robert (Joel Edgerton) acaba encontrando um amor, Gladys (Felicity Jones), um casamento e uma filha.  Uma tragédia familiar, no entanto, abalará sua vida tanto quanto as mudanças tecnológicas, frente à natureza selvagem.  O filme foca na vivência concreta e onírica de Robert, assim como em suas memórias.  Explora magnificamente bem a natureza que está sendo devastada pelo intenso corte de madeira, ralentando as florestas.  Na época, o sentido ecológico ainda não estava presente.  A madeira colhida era vista como infinita, que se reproduziria para sempre na mesma proporção do que era cortada, ou quem sabe até mais.  Alguns já desconfiavam que nem tudo estava tão bem quanto parecia, mas era ainda uma visão minoritária e pouco crível.  O filme tem um ritmo lento, mas é belo e muito antenado com as preocupações do presente, sem fazer qualquer tipo de pregação.  As imagens falam por si.  Aliás, como já foi amplamente divulgado, o diretor de fotografia de “Sonhos de Trem” é o brasileiro Adolpho Veloso, que concorre ao Oscar pelo filme e é a nossa 5ª. indicação, além das quatro obtidas por “O Agente Secreto”.  É inegável que uma das maiores virtudes do filme é precisamente a sua fotografia, daí a justa indicação.  Além de Adolpho Veloso, a obra está indicada para melhor filme, roteiro adaptado (baseado em novela de Denis Johnson) e canção original.  Uma produção da Netflix.




AS GUERREIRAS DO K-POP (K-Pop Demon Hunters). Coreia do Sul/ Estados Unidos, 2025.  Direção: Chris Appelhans e Maggie Kang.  Animação: 95 min.

 

Não acompanho regularmente os lançamentos em animação.  Mas, de vez em quando, é preciso conferir o que de melhor está sendo exibido. No caso de “As Guerreiras do K-Pop”, por suas indicações ao Oscar de animação e canção original para Golden, que são citadas como favoritas nessas categorias.  Já venceu nas mesmas categorias o Globo de Ouro.  E o Grammy 2026 de canção escrita para mídia visual.   O desenho, muito bom, centra sua narrativa numa trinca de meninas estrelas da música pop, Huntrix (Rumi, Mira e Zoe), que têm milhares de fãs que as adoram e dependem delas para serem felizes.  Elas são dedicadíssimas aos fãs.  Mas, além de estrelas da música, Huntrix tem uma missão secreta, são guerreiras que combatem os demônios que ameaçam a humanidade e o bem-estar geral, este buscado como mágica.  Acabam encontrando como rivais, tanto na música quanto no caráter demoníaco, a banda Saja Boys.  Claro que está aí a sempre colocada luta do bem contra o mal e um mundo que precisa de salvadores e discípulos.  A trama, porém, inova, ao colocar elementos demoníacos a serem assimilados pelo bem e algumas figuras demoníacas que também buscam se aproximar do bem.  Trata-se de uma animação musical empolgante e agitada.  As músicas são ótimas.  O universo musical e de dança da Coreia do Sul está aqui muito bem representado.  Produção da Sony, distribuída pela Netflix.




terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

LIVING THE LAND


                                      Antonio Carlos Egypto

 


LIVING THE LAND (Sheng Xi Zhi Di).  China, 2025.  Direção: Huo Meng.  Elenco: Wang Sang, Zhang Yanrong, Zhang Chuwen.  130 min.

 

O filme “Living the Land” do cineasta chinês Huo Meng, em seu segundo longa, é uma obra cinematográfica refinada pela beleza das imagens, fotografia, uso das cores vivas, bom aproveitamento das locações e pelo enquadramento das ações, sendo que a maior parte delas envolve muitos personagens em deslocamento.

 

A obra focaliza uma pequena comunidade rural tradicional chinesa, em suas múltiplas e variadas ações produtivas de sobrevivência, mas no momento em que as mudanças socioeconômicas do país o levam aceleradamente para a modernidade: os anos 1990.  Recheada de personagens típicos das pequenas vilas, com seus problemas, conflitos, dificuldades, preconceitos, mas que formam uma liga afetiva, praticamente familiar.  Consequentemente, o controle social dos comportamentos é muito intenso.

 

Em tempos de fortes mudanças, as novas tecnologias e as novas diretrizes econômicas e sociais alteram radicalmente a vida de todos e o caminho natural é ir para a cidade, em busca de novas oportunidades.  Uma questão muito mais de sobrevivência do que da própria busca por uma vida melhor.

 


O filme nos coloca numa imersão na vida em comunidade e nas transformações que vão ocorrendo, afetando as pessoas.  Mostra também a história de personagens representativos na figura das crianças que ficam, mas precisam partir para existir no novo modo de vida chinês.  Apesar disso, os personagens não são desenvolvidos ou aprofundados.  É o seu conjunto em ação que funciona como protagonista.  Ou seja, o protagonista é a comunidade.  É nesse sentido um filme sociológico.  Ilumina a sociedade, as pessoas são peça e consequência do coletivo. 

 

Vamos ouvir um pouco do que diz o diretor Huo Meng: “Eu queria retratar como, quando políticas sociais coletivistas colidiram com tradições moldadas ao longo de milênios, as pessoas foram forçadas a se adaptar de maneiras que desafiaram seu próprio modo de vida” e acrescenta: “Também senti que era importante retratar as imensas pressões que as mulheres enfrentaram... que deixaram danos duradouros e irreversíveis”.

 

As personagens femininas são muito claramente as mais afetadas por todo o processo que subverte a vida familiar tradicional.  Isso tudo se percebe ao longo da narrativa que, apesar dessas palavras do cineasta, é leve, respeitosa e sem julgamento ou moralismo.  O que é, sem dúvida, um mérito do realizador.

 

“Living the Land” venceu o Urso de Prata de melhor diretor em Berlim e recebeu muitas críticas elogiosas mundo afora.  E é, de fato, um belíssimo filme.





sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

2 FILMES

 Antonio Carlos Egypto

 


 

A ÚNICA SAÍDA (Eojjeol  Suga Eopda).  Coreia do Sul, 2025.  Direção: Park Chan-wook.  Elenco: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Cha Seung-won.  139 min.

 

A Única Saída”, de Park Chan-wook, baseado no romance The Ax, de Donald E. Westlake, de 1997, é uma nova filmagem do mesmo romance que havia dado origem ao filme “O Corte”, de Costa Gavras, em 2005.

 

“O Corte”, até onde me lembro, era uma comédia discreta e realista, que denunciava os cortes empresariais abruptos derivados das mudanças organizacionais que deixavam ao desespero os desempregados, a ponto de fazerem o que seria até impensável: eliminar fisicamente os concorrentes.

 

Essa mesma trama, enfatizando mais a questão tecnológica, é o mote propulsor do filme “A Única Saída”, mas aqui a comédia é rasgada, cheia de trapalhadas, em que se sobressai a dificuldade que é matar alguém e como é complicado efetuar a ação.  Hitchcock já abordou isso em vários filmes dele.  Afinal, matar é difícil, não só pela falta de coragem, destreza ou plano mal realizado, mas por questões morais.  E também pela dificuldade objetiva da realização.

 

O filme não brilha pela profundidade de proposta, nem pelo humor escrachado, sendo uma realização apenas mediana.  Mas tem um grande mérito: o seu impacto final, que não só é inteligente e motivador de debates como compõe uma sequência muito bem realizada visualmente.  Será preciso que você curta o filme até o final para aproveitar isso.

 

“A Única Saída” teve indicações ao Globo de Ouro.  Não conseguiu nenhuma indicação ao Oscar, embora estivesse concorrendo.

 

 


 

DOIS PROCURADORES (Zwei Staatsanwälte).  Europa, 2025.  Direção: Sergey Loznitsa.  Elenco: Alexander Kuznetsov, Anatoly Beily, Dimitrius Denisiukas.  118 min.

 

O filme do grande diretor ucraniano Sergey Loznitsa remete à União Soviética, no ano de 1937, sob o domínio de Stalin.

 

Mostra os próprios presos do regime sendo destacados para queimar uma montanha de pedidos e reclamações dirigidos ao próprio Stalin e à máquina policial e judiciária da época. Uma dessas manifestações, escrita a sangue por um prisioneiro, não foi destruída e acabou chegando à promotoria de justiça.

 

O promotor recém-formado, iniciante na profissão, Kornyev, vai em busca de realizar o seu papel e investigar o que se passa com o prisioneiro.  Vê o que acontece na prisão e, com dificuldade, tem acesso reservado ao tal prisioneiro e percebe que será bem difícil atuar nessa missão.  Mas persiste.  Consegue chegar ao Promotor Geral, em Moscou, e aí descobre como as coisas estavam acontecendo no regime comunista stalinista.

 

O filme é bem realizado, numa narrativa clássica, que é adequada à exposição dos fatos e situações da trama.

 

A produção envolve diversos países europeus. Já está em pré-estreia no cinema, mas chegará ao circuito no dia 05 de fevereiro de 2026.



sábado, 24 de janeiro de 2026

A VOZ DE HIND RAJAB

                       

Antonio Carlos Egypto

 




A VOZ DE HIND RAJAB (Sawt Hind Rajab).  Tunísia, 2025.  Direção: Kaouther  Ben Hania.  Elenco: Amer Hiehel, Clara Khouri, Motaz Malhees, Saja Kilani.  89 min.

 

“A Voz de Hind Rajab” é um filme tenso, angustiante e de suspense.  Infelizmente baseado em fatos reais que nos assustam e às vezes nos fazem descrer da própria humanidade.  O filme da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania é uma encenação de uma situação que não só ocorreu como vem acontecendo seguidamente na Faixa de Gaza. 

 

Trata-se de uma menina de 6 anos que conseguiu pedir ajuda por telefone à Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, quando o carro em que estava com o tio e sua família foi bombardeado por um tanque israelense e todos ao redor da menina estavam mortos.  A mãe e o irmão dela não estavam com eles.

 

O Crescente Vermelho é um órgão independente e reconhecido, que atua com voluntários e é vinculado ao Movimento Internacional da Cruz Vermelha.  Para atuar no resgate de pessoas em Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza, precisa de uma coordenação que passa pela autorização de várias partes para gerar uma rota segura.  Muitos voluntários já perderam a vida nessa atividade. 

 

O que o filme mostra é a atuação do serviço de retaguarda ao telefone que abre a coordenação do resgate.  Um carro de socorristas estava teoricamente a oito minutos do veículo onde a menina clamava por ajuda, para que fossem buscá-la, mas com o tempo decorrido de três horas o assunto ainda não estava resolvido.

 


O que estavam fazendo e sentindo os atendentes do posto telefônico pode-se imaginar, e é o que o filme faz, mas as conversas ao telefone que aparecem no filme foram resgatadas e são os áudios originais reais.  O que só torna a experiência ainda mais aterrorizante e nos coloca na situação de impotência e, ao mesmo tempo, chama à nossa responsabilidade pelo que está acontecendo no nosso mundo nesse momento.

 

O filme praticamente se passa no tempo decorrido das muitas conversas mantidas com a menina Hind, com sua mãe e também com os diversos órgãos que precisam ser acionados para que a operação possa acontecer.  Tudo isso se passa a seco, sem trilha sonora musical.  É realidade na veia, não tem por onde escapar.

 

“A Voz de Hind Rajab” é um dos cinco filmes selecionados para a disputa do Oscar de filme internacional, agora em 15 de março de 2026.  Seus concorrentes são: “O Agente Secreto”, do Brasil, “Valor Sentimental”, da Noruega, “Foi Apenas um Acidente”, da França/Irã, e “Sirât”, da Espanha.  Um quinteto de grandes filmes, sem nenhuma dúvida.   O filme da Tunísia não entra como favorito nessa disputa, mas merece toda a nossa atenção.  Afinal, as vozes de todos os que estão sendo massacrados precisam ser ouvidas e esse genocídio precisa acabar.