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quinta-feira, 23 de julho de 2026

A ODISSEIA

Antonio Carlos Egypto






A ODISSEIA (The Odyssey).  Estados Unidos, 2026.  Direção e roteiro: Christopher Nolan.  Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o.  172 min.

 

O britânico Christopher Nolan é hoje um dos mais destacados cineastas de Hollywood. Para além dos Batmans, vale lembrar de “Oppenheimer” (2023) e “Dunkirk” (2017), entre outros trabalhos de valor.  Agora ele valeu-se de um dos maiores poemas épicos da Grécia antiga, atribuído a Homero (ou seriam vários autores?), escritos por volta do século VII antes de Cristo, entre 850 e 750 a.c.

 

Com um orçamento de 250 milhões de dólares, segundo notícias veiculadas pela imprensa, “A Odisseia” tornou-se um dos maiores exemplos de cinema-espetáculo da história.

 

Assistindo às 3 horas de duração do filme, que absolutamente não cansam porque são repletas de histórias e sequências atraentes e até mirabolantes, ele causa grande impacto.  Eu não tive acesso à sessão IMAX, vi o filme numa boa projeção normal de cinema.  Mas não é preciso estar ligado a toda essa tecnologia para apreciar esse grande evento épico do cinema.

 

Na Odisseia de Homero está toda a concepção das aventuras em suas múltiplas expressões, apoiadas, por um lado, e em conflito, por outro, com os deuses, com criaturas míticas e fantásticas, navegando os mares amparados por Poseidon, o deus do mar.  Também numa jornada interminável em busca de comida e sobrevivência, após a guerra de Troia, encontram-se gigantes, exércitos hostis, além das batalhas domésticas em Ítaca, para onde Odisseus tenta chegar durante 10 anos, sem sucesso.  Enfim, pode-se dizer que as estruturas de todas as aventuras que conhecemos e concebemos estão retratadas nessa fantástica Odisseia.  Mais do que isso, o próprio conceito de herói está aí formado por sua bravura, determinação, resiliência, mas também por suas artimanhas.  Também vem de lá a ideia da volta ao lar, o retorno à mulher amada e ao filho querido.  Penélope é o ideal da mulher – no filme valorizado por uma presença feminina ativa.  O filho Telêmaco, o herói herdeiro, é igualmente fiel e determinado.

 


As batalhas a serem vencidas, os obstáculos que se antepõem, a missão a alcançar, a luta pela justiça, pela mudança, sem dispensar os estratagemas, disfarces e encenações que compõem a narrativa heroica.

 

Quem se propõe a encarar um clássico absoluto como esse, não há como fazê-lo sem vê-lo com os olhos de hoje.  A obra de arte reflete o momento histórico que está sendo pensado e vivido naquele período.  Acho bom que seja assim.  Fazemos a leitura do mundo de hoje a partir de seus arquétipos, dos modelos ancestrais, históricos, dos moldes que embalaram a nossa cultura, ao Ocidente e ao Oriente. O filme respeita o clássico e faz essa leitura do nosso mundo a partir dele.

 

O espetáculo do filme de Nolan é muito evidente.  Os recursos, impressionantes. O som, de arrasar. A fotografia, notável. O elenco é também muito recheado de estrelas.  Matt Damon, como Odisseu, não empolga tanto como herói, mas mostra grande dedicação ao papel.  Anne Hathaway, como Penélope, é uma figura decisiva e forte, em boa atuação.  Tom Holland, como Telêmaco, está bem, mas não é tão vibrante para o papel da importância que tem.  Zandaya está ótima, como a deusa Atena.  Ainda tem Robert Pattinson como Antinous, um vilão moderado, Elliot Page, um ator transgênero, como Sinon, Lupita Nyong’o, brilhando como Helena e Clitemnestra, Samantha Morton, uma ótima Circe e Charlize Theron, como a ninfa Calypso, que manteve Odisseu por anos em sua ilha mítica Ogígia, usando seus encantos e ardis para retê-lo.  Um grande elenco, que dá suporte publicitário a essa grandiosa produção.

 

Como blockbuster, “A Odisseia” ocupa um colosso de salas de cinema por todos os shoppings, cinemas de rua e até alternativos.  Como todos esses filmes de grande lançamento internacional, ocupa espaços demais.  Sem isso, talvez nem conseguisse sequer se pagar, tão alto é o custo de sua produção.  Não costumo ser grande fã do cinema espetáculo, mas esse me agradou bastante.

 

 

  

quarta-feira, 20 de maio de 2026

100 ESSENCIAIS

Antonio Carlos Egypto

 




A ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema – composta por mais de 180 críticos de todo o Brasil, completa 15 anos de existência.  Há 10 anos atrás, entre suas publicações, destacou-se aquela referente aos 100 filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, formada pela votação em que todos nós participamos, após uma discussão prévia na entidade.

 

Agora, chegou a hora de revisar essa lista e com novos debates, curso e votação, chegamos a uma nova relação de 100 filmes essenciais do cinema brasileiro. 

 

Essa lista de mais votados será apresentada agora sem ranqueamento, em ordem cronológica de produção.  Cada um desses filmes receberá um novo texto crítico, num livro a ser lançado no final do ano, pela editora Letramento, organizado por Ivonete Pinto, Danilo Fantinel e Paulo Henrique Silva.  Confira a lista abaixo:

 


Limite (1931), Mário Peixoto

Ganga bruta (1933), Humberto Mauro

O ébrio (1946), Gilda de Abreu

Também somos irmãos (1949), José Carlos Burle

Carnaval Atlântida (1952), José Carlos Burle

O cangaceiro (1953), Lima Barreto

Rio, 40 graus (1955), Nelson Pereira dos Santos

Rio, zona norte (1957), Nelson Pereira dos Santos

O grande momento (1958), Roberto Santos

O homem do Sputnik (1959), Carlos Manga

Aruanda (1960), Linduarte Noronha

O assalto ao trem pagador (1962), Roberto Farias

O pagador de promessas (1962), Anselmo Duarte

Os cafajestes (1962), Ruy Guerra


Porto das caixas (1962), Paulo Cezar Saraceni

Vidas secas (1963), Nelson Pereira dos Santos

À meia noite levarei sua alma (1964), José Mojica Marins

A velha a fiar (1964), Humberto Mauro

Deus e o diabo na terra do sol (1964), Glauber Rocha

Noite vazia (1964), Walter Hugo Khouri

Os fuzis (1964), Ruy Guerra

A falecida (1965), Leon Hirszman

A hora e vez de Augusto Matraga (1965), Roberto Santos

São Paulo Sociedade Anônima (1965), Luiz Sergio Person

A entrevista (1966), Helena Solberg

O padre e a moça (1966), Joaquim Pedro de Andrade

Todas as mulheres do mundo (1966), Domingos de Oliveira

A margem (1967), Ozualdo Candeias

Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967), José Mojica Marins

O caso dos irmãos Naves (1967), Luiz Sergio Person

O menino e o vento (1967), Carlos Hugo Christensen

Terra em transe (1967), Glauber Rocha

O bandido da luz vermelha (1968), Rogério Sganzerla

A mulher de todos (1969), Rogério Sganzerla

Macunaíma (1969), Joaquim Pedro de Andrade

Matou a família e foi ao cinema (1969), Julio Bressane

O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), Glauber Rocha

O despertar da besta (Ritual dos sádicos) (1970), José Mojica Marins

Sem essa aranha (1970), Rogério Sganzerla

Um é pouco, dois é bom (1970), Odilon Lopez

Bang bang (1971), Andrea Tonacci

S. Bernardo (1972), Leon Hirszman

Toda nudez será castigada (1972), Arnaldo Jabor

Alma no olho (1973), Zózimo Bulbul

Compasso de espera (1973), Antunes Filho

Os homens que eu tive (1973), Tereza Trautman

A rainha diaba (1974), Antonio Carlos da Fontoura

Iracema, uma transa amazônica (1975), Jorge Bodanzky e Orlando Senna

Dona flor e seus dois maridos (1976), Bruno Barreto

Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), Hector Babenco

Mar de rosas (1977), Ana Carolina

A lira do delírio (1978), Walter Lima Jr.

Tudo bem (1978), Arnaldo Jabor

A mulher que inventou o amor (1980), Jean Garrett

Bye bye brasil (1980), Carlos Diegues

O homem que virou suco (1980), João Batista de Andrade

Pixote, a lei do mais fraco (1980), Hector Babenco

Eles não usam black-tie (1981), Leon Hirszman

Os saltimbancos trapalhões (1981), J.B. Tanko

Das tripas coração (1982), Ana Carolina

Pra frente brasil (1982), Roberto Farias

Onda nova (1983), Ícaro Martins e José Antonio Garcia

Amor maldito (1984), Adélia Sampaio

Cabra marcado para morrer (1984), Eduardo Coutinho

Memórias do cárcere (1984), Nelson Pereira dos Santos

A hora da estrela (1985), Suzana Amaral

A marvada carne (1985), André Klotzel

Filme demência (1986), Carlos Reichenbach

Ilha das flores (1989), Jorge Furtado

Que bom te ver viva (1989), Lúcia Murat

Superoutro (1989), Edgard Navarro

Alma corsária (1993), Carlos Reichenbach

Carlota Joaquina, princesa do Brazil (1995), Carla Camurati

Terra estrangeira (1995), Daniela Thomas e Walter Salles

Baile perfumado (1996), Lírio Ferreira e Paulo Caldas

Central do brasil (1998), Walter Salles

O auto da compadecida (2000), Guel Arraes

Bicho de sete cabeças (2001), Laís Bodanzky

Lavoura arcaica (2001), Luiz Fernando Carvalho

Cidade de Deus (2002), Fernando Meirelles e Kátia Lund

Edifício Master (2002), Eduardo Coutinho

Madame Satã (2002), Karim Aïnouz

Cinema aspirinas e urubus (2005), Marcelo Gomes

O céu de Suely (2006), Karim Aïnouz

Serras da desordem (2006), Andrea Tonacci

Jogo de cena (2007), Eduardo Coutinho

Saneamento básico, o filme (2007), Jorge Furtado

Santiago (2007), João Moreira Salles

Trabalhar cansa (2011), Juliana Rojas e Marco Dutra

O som ao redor (2012), Kleber Mendonça Filho

O menino e o mundo (2013), Alê Abreu

Branco sai, preto fica (2014), Adirley Queirós

Que horas ela volta? (2015), Anna Muylaert

Aquarius (2016), Kleber Mendonça Filho

Arábia (2017), Affonso Uchoa, João Dumans

As boas maneiras (2017), Juliana Rojas e Marco Dutra

Marte um (2022), Gabriel Martins

Mato seco em chamas (2022), Adirley Queirós e Joana Pimenta

Ainda estou aqui (2024), Walter Salles

O agente secreto (2025), Kleber Mendonça Filho

 

 

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

SIRÂT e QUEEN KELLY

Antonio Carlos Egypto

 

 


SIRÂT.  Espanha.  Direção: Oliver Lake.  Elenco: Sergi López, Bruno Nuñez, Stefania Gadda, Joshua Liam Henderson, Jade Oukid. 120 min.

 

“Sirât”, o filme de abertura a 49ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é o representante da Espanha na disputa do Oscar de melhor filme internacional.  É um road movie todo passado nos desertos do Marrocos e tem coprodução francesa.  O diretor Oliver Lake nasceu na França, de uma família de imigrantes espanhóis.

 

“Sirât “ é um filme que comporta muitos adjetivos para defini-lo.  É impressionante, impactante, doloroso emocionalmente, vibrante, desafiador, notável.

 

É um filme que mexe com todo mundo, dá até para detestar, mas não dá para esquecer, nem ficar indiferente.  Reflete o mundo em que vivemos, o clima de guerra que o define, o temor até de uma Terceira Guerra Mundial.  O ambiente explosivo em que estamos todos envolvidos e também o desencanto e o desamparo.  E, mais do que tudo isso, o filme nos mostra que, definitivamente, não estamos no controle das coisas, nem das nossas próprias vidas, nem de nós mesmos.  O século XXI seria uma espécie de “xeque-mate” do que já sabemos desde Darwin, Freud e Marx.  Claro, não dá para ser otimista diante das circunstâncias.  Mas pessimismo inerte é derrota. É preciso agir, da forma que for possível.

 

Um pai e um filho ainda pequeno que circulam por festas rave no deserto marroquino, em busca da filha e irmã que não veem há dois meses, seguem um grupo de jovens errantes, espécie de hippies da atualidade.  Eles tentam viver e dançar ao som das batidas da música, que é puro ritmo, ao lado de centenas, milhares de integrantes dessas festas, que já estão sendo coibidas pela polícia e podem ser as últimas explosões de vida ainda permitidas.  Dançar, interagir, buscar uma saída lisérgica para suportar os fatos pode ser um caminho para eles.

 

Um caminho a que vai se somar a família que busca sua integrante que está distante.  Curtindo o mesmo vigor de música e dança no deserto, pelo que  se sabe dela.  Até onde se pode ir nesse ambiente árido e inóspito, por caminhos quase intransitáveis, num mundo nada protetor, em guerra e opressões diversas?

 

Uma reflexão para lá de relevante, sem dúvida.  O filme também flerta com uma ideia mística.  Se não temos o controle, estamos à mercê dos desígnios de Deus.  Pode ser visto assim, mas simplifica muito as coisas.  E tende a levar à acomodação.  E aí, será que tem saída?  Vamos ficar no clichê: a esperança é a última que morre?  De onde ela virá? Dos povos, espero.

 

 


Um destaque importante da Mostra 49, que inclui clássicos do cinema restaurados, é QUEEN KELLY, dirigido por Erich von Stroheim, em 1929, com Gloria Swanson como atriz principal e também produtora.  A nova cópia e montagem do filme, que permaneceu inacabado e já teve várias versões fragmentadas exibidas, procura incorporar textos e imagens (fotos, por exemplo) do roteiro original do diretor, que tinham sido censurados quando ele foi demitido.  Vale a pena ver essa nova versão restaurada, que acaba revelando, com a segunda parte, as razões de tanta polêmica e desconforto com esse clássico do cinema norte-americano e seu celebrado e destacado diretor austríaco Stroheim.  

                  

@mostrasp                #49mostra

 

 

 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

O AUTO DA COMPADECIDA 2

 

           Antonio Carlos Egypto

 



O AUTO DA COMPADECIDA 2. Brasil, 2023.  Direção: Flávia Lacerda e Guel Arraes.  Elenco: Matheus Nachtergaele Selton Mello, Taís Araújo, Humberto Martins, Luís Miranda, Eduardo Sterblich, Fabíula Nascimento.  113 min.

 

25 de dezembro de 2024, dia de Natal, tem lançamento cinematográfico relevante: “O Auto da Compadecida 2”.  Vinte e cinco anos depois de um dos maiores sucessos do cinema brasileiro de todos os tempos, o clássico “O Auto da Compadecida”, Guel Arraes, volta à direção, agora ao lado de Flávia Lacerda, para trazer de volta às telonas dois ícones da cultura nordestina e nacional: João Grilo e Chicó.  Saídos das páginas encantadas de Ariano Suassuna, viraram figuras humanas, ao mesmo tempo concretas e mitológicas, no desempenho de Matheus Nachtergaele e Selton Mello. 

 

Creio que não há brasileiro que não tenha visto o filme ou a série que o antecedeu e, portanto, conheça toda a história que uniu o inteligente, criativo e espertalhão que aprontava tudo para tentar sobreviver, o João Grilo de Matheus Nachtergaele ao frouxo e medroso contador de histórias, o mentiroso Chicó, de Selton Mello.

 

Retomá-los agora para uma continuação, uma homenagem ou uma refacção, nada mais justo.  Porque eles valem muito a pena.  E por que não auferir lucro mais provável com aquilo que já deu muito certo?  Hollywood cansa de fazer isso.  No cinema brasileiro isso ainda é uma novidade.

 

O problema é que raramente essa retomada de algo que deu tão certo que se tornou um clássico indubitável consegue alcançar o nível de excelência do produto original.  E isso é perceptível em “O Auto da Compadecida 2”.  Se os protagonistas e seus intérpretes mantêm a mesma força, a história, não.  Ela acaba trilhando quase os mesmos caminhos do filme anterior, em que pesem os novos personagens e situações criados, em busca da fidelidade ao espírito do trabalho de Suassuna.

 

Foto de Laura Campanella

Taperoá está de volta, mas vinte anos depois, a ação está agora nos anos 1950 e não mais nos 1930.   O sertão nordestino já não é filmado lá, mas feito em estúdio, com uso de tecnologia de ponta.  Se o primeiro filme já rompia com o naturalismo e se permitia uma incursão importante no cinema fantástico, aqui a cidade imaginária está mais descolada da realidade e da literatura de cordel que serviu de base à obra de Ariano Suassuna.

 

É verdade que Chicó vende a vida, paixão e morte de João Grilo por meio de seus santinhos de madeira, na crença da morte de seu amigo desaparecido há tanto tempo.  Mas as figuras arquetípicas ficam um pouco atropeladas pelo modernismo do rádio e da loja Magazin, ambos de seu Arlindo (Eduardo Sterblich), que quer mais poder, e a prefeitura local, também disputada pelo coronelismo tradicional, do coronel Ernani (Humberto Martins).  Aí entra o heroísmo de João Grilo para fazer a diferença e atropelar os dois polos do poder local. Merece destaque a figura de Antonio do Amor (Luís Miranda) que tenta “ajudar” João Grilo a sair de enrascadas, mas arruma outras.

 

E então a narrativa tem, necessariamente, que caminhar rumo à Compadecida, agora vivida por Taís Araújo.  O sentido do dejà vu é inevitável, ainda que tudo seja muito bem feito e engraçado.

 

O trabalho do roteiro que envolveu Guel Arraes, João Falcão e as colaborações de Adriana Falcão e Jorge Furtado deve ter sido bem desafiador e difícil.  Era uma grande e perigosa empreitada.  Não se pode dizer que não tenha sido bem-sucedida.

 

O elenco, que era portentoso na versão original, tem alguns de volta, mas, independentemente disso, é muito, muito bom.  A trilha sonora de João Falcão e Ricco Viana, acrescida de músicas famosas e conhecidas, como a Canção da América, de Milton Nascimento, para celebrar a amizade dos dois protagonistas, ou o Como Vai Você, com Chico César, no encontro de Chicó e sua Rosinha, revisitada por Virgínia Cavendish, agora mulher independente e caminhoneira, funciona bem e dá ritmo ao filme.  Ou seja, é um bom trabalho, que envolveu muitos talentos.  Não dá para comparar com o original, mas até aí tudo bem.




 

domingo, 28 de julho de 2024

3 MOSTRAS DE CINEMA

Antonio Carlos Egypto

 

Em São Paulo tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que se torna difícil escolher o que fazer.  E não é preciso muito dinheiro para isso, não.  Vou falar de três mostras importantes de cinema que ocorrem simultaneamente, com ingressos a preços ultra promocionais ou gratuitos.

 


Pela primeira vez, o cine Reag Belas Artes vai promover uma mini-mostra internacional de filmes de todas as partes do mundo.  Estão previstos 20 filmes de 20 diferentes países para o Festival Filmes Incríveis (FFI), que ocorre naquele cinema de 1º a 14 de agosto.  Já estão confirmados o Irã, Camboja, Geórgia, Costa Rica, Índia, Nepal, Arábia Saudita, Tunísia, Cuba, Macedônia do Norte, Romênia, Coreia do Sul, Polônia, Japão, França, Bélgica, Canadá, Estados Unidos e Brasil.  São filmes inéditos, escolhidos por características de produção que escapam ao padrão comercial e não necessariamente têm obtido grandes prêmios em festivais internacionais ou pertençam a diretores já consagrados.  Fazem parte daquele espírito cinéfilo de encontrar pepitas de ouro cinematográficas.  Já vi alguma coisa em cabines de imprensa.  Por exemplo, o filme indiano A NUVEM E O HOMEM, de 2021, que estabelece o vínculo surrealista entre os substantivos do título, valendo-se de uma inesperada abordagem realista, é, no mínimo, curioso.  CAFÉ TEERÃ, do Irã, 2023, mostra a vida e as desventuras pelas quais passa um cineasta impedido de filmar e que espera por uma sentença para passar anos na cadeia.  Enquanto isso, cuida de um café na cidade, homenageando cineastas, como Kieslowski, Woody Allen e Kiarostami, que dão nome e imagem às mesas do estabelecimento.  Em tempos de inteligência artificial e fake News, nada mais surpreende, nem mesmo um filme encontrado, supostamente de 1941, que conta uma história da guerra em Londres, por meio da descoberta, por duas irmãs, de equipamentos de comunicação que são capazes de captar emissões no futuro.  Isso é LOLA, do Reino Unido, 2022, em que se vê, por exemplo, Hitler desfilando em Londres.  Nem sei o que dizer.  Melhor recomendar o filme de Karim Aïnouz, MOTEL DESTINO, que concorreu em Cannes e que ainda não vi.  E o filme do grande diretor Rithy Panh, do Camboja, que é tiro certo na qualidade: o documentário ENCONTRO COM O DITADOR, 2024.  Sessões a R$10,00 e R$5,00, a meia.  Para quem dispõe de tempo, dá para ver dois ou três filmes no mesmo dia.

 


No Cinesesc, ocorre, de 31 de julho a 14 de agosto, a 2ª. edição da Mostra Amor ao Cinema, que traz três filmes inéditos importantes: o indiano A ÚLTIMA SESSÃO, de Pan Nalin, de 2022, COUPEZ! (Corta!) de Michel Hazanavicius, 2023, e principalmente FECHAR OS OLHOS, do diretor espanhol Victor Érice, um dos melhores da 47ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  O Festival, que focaliza o cinema como tema e fonte de amor, tem vários clássicos restaurados, cursos e debates abordando o cinema atual e, ainda, uma programação na plataforma Sesc Digital, streaming gratuito do Sescsp.  Os ingressos no Cinesesc custam R$10,00 e os cursos são gratuitos.  Mais informações e programação completa em sescsp.org.br/amoraocinema

 


Como se não bastasse, a 13ª. Mostra Ecofalante de Cinema, que discute a emergência climática, traz 122 filmes de 24 países sobre as questões ambientais e ocorre de 1º. a 14 de agosto, em diversos cinemas de São Paulo, em sessões totalmente gratuitas.  Os cinemas são o Reserva Cultural, o Bijou (Satyros Bijou), o Centro Cultural São Paulo e o circuito SpCine, em vários CEUs, pela cidade.  As questões urgentes do desarranjo climático que estamos vivendo estão em destaque nesse ciclo de filmes.  Veja a programação em www.ecofalante.org.br .

Que tal experimentar o dom da ubiquidade para ver tudo isso nesse período de 15 dias de agosto de 2024?

 

terça-feira, 5 de abril de 2022

DZIGA VERTOV 2021

Antonio Carlos Egypto




Dziga Vertov (1896-1954) foi um dos mais importantes cineastas da história do cinema.  Seu "O Homem com a Câmera", de 1929, que acompanha uma cidade do amanhecer ao anoitecer, retratando o seu cotidiano e celebrando a modernidade que a cidade russa conquistava, é um grande clássico e inspiração dos documentaristas desde sempre.

Vertov é considerado o criador do cinema verdade, aquele em que a câmera, como o olho humano, registra os fatos, os acontecimentos, sem sentimentalismo, livre das influências teatrais, do palco, dos estúdios.  A realidade, em lugar das coisas encenadas.  Por meio de filmes documentais e experimentais, Vertov fazia um cinema realista, que captava o momento histórico, as tensões, a evolução humana e material, guiado pelo olhar.  E desse modo redescobria as coisas, revia e significava os fatos.  De montador de filmes e noticiários, o diretor soviético se tornou um dos mais famosos documentaristas, além de teórico do cinema.

Reencontrar um filme considerado perdido de Dziga Vertov 100 anos após a sua realização, restaurado por Nikolai Izvolov, para reexibição nos cinemas, num trabalho de dois anos de uma produtora israelense, é um presente e tanto para todos.  O filme HISTÓRIA DA GUERRA CIVIL foi lançado em 1921 e exibido no 3o. Congresso Internacional Comunista em Moscou e nunca mais reexibido antes do seu relançamento em 2021, em festivais pelo mundo e que chega agora aos cinemas do Brasil, iniciando por ser apresentado em uma sessão especial do festival É TUDO VERDADE 2022.

Assisti-lo hoje é uma experiência incrível, emocionante.  Ver imagens captadas durante a guerra civil russa, de 1918 a 1921, com cenas filmadas em pleno campo de batalha, com a movimentação de tropas, armamentos e equipamentos, os confrontos, os momentos de relaxamento e cuidados pessoais, as imagens dos líderes e heróis do governo e do exército vermelhos, inclusive com uma breve aparição de León Trotsky, os prisioneiros, os julgamentos, as vestimentas e tudo o mais, nos coloca dentro dos acontecimentos.  Somos envolvidos por eles e por aquelas imagens distantes no tempo, mas magnificamente realizadas e recuperadas.  É como entrar num novo tempo e espaço.  Não importam os detalhes, a preocupação com tentar contar a história da guerra civil em sua cronologia real, recuperar e rearranjar suas partes.  Mais do que tudo, o que fica é o mergulho real naquele mundo, naquele período, naquela região geográfica.

Como um filme mudo, centenário, em preto e branco, pode ser tão empolgante?  A trilha sonora realizada por Roger Miller e Terry Donahue por certo contribui para isso e é uma criação à parte.  Não há registros do que Vertov utilizou como acompanhamento musical de seu filme silencioso à época.  Também não importa a conotação ideológica de apoio declarado ao regime soviético que se consolidava.  Porque, para Vertov, os fatos se expressam como são, podem ser vistos pela câmera como pelo nosso olhar atento, apurado.

Num tempo em que as narrativas tentam se impor aos fatos, como temos visto muito por aqui, o trabalho de Dziga Vertov segue atual e revolucionário.  Nos ensina a ver o que se passa, a observar.  As conclusões de cada um vêm depois.  No jornalismo sério, são os fatos que nos guiam.  Podemos observá-los sob diferentes ângulos e visões e interpretá-los de diferentes maneiras, mas ainda assim eles estão lá e é preciso respeitá-los.  93 min.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

AMOR, ESTRANHO AMOR

Antonio Carlos Egypto

 




AMOR, ESTRANHO AMOR.  Brasil, 1982.  Direção e roteiro: Walter Hugo Khouri.  Com Tarcísio Meira, Vera Fisher, Marcelo Ribeiro, Xuxa Meneghel, Mauro Mendonça, Íris Bruzzi, Walter Forster.  120 min.

 

Um filme erótico-histórico, produção caprichada, realizada com grande elenco por um dos diretores brasileiros mais competentes da nossa cena cinematográfica: Walter Hugo Khouri (1929-2003).  Essa é uma boa e correta apresentação para “Amor, Estranho Amor”, que ficou tanto tempo sem poder ser exibido por força de decisões judiciais, que o impediram de ser visto no Brasil, a partir de ações impetradas pelos representantes de Xuxa Meneghel, que detinha os direitos de exibição.  Isso desde os anos 1980.  Somente agora o filme volta a ser exibido, pela TV, no Canal Brasil, em operadoras de TV por assinatura.

 

Polêmicas à parte, a trama do filme se desenrola a partir das memórias de um homem hoje poderoso, que morou somente alguns dias numa luxuosa mansão em que vivia sua mãe, uma prostituta que compartilhava com os políticos e outros figurões uma vida de luxo e submissão ao poder.  Esse homem, Hugo, papel de Walter Forster, descobriu a sexualidade aos 12 anos de idade nesse ambiente altamente erotizado, cercado pelo interesse de belas mulheres.  O papel de Hugo menino coube a Marcelo Ribeiro, que não seguiu carreira como ator, apesar de já ter trabalhado com Khouri em “Eros, o Deus do Amor”, no ano anterior.  Talvez por conta mesmo da polêmica que se seguiu a “Amor, Estranho Amor”.

 

As memórias de Hugo adulto, esse personagem que quase não fala no filme, remetem a algo muito intenso e muito forte, que marcou sua vida a ponto de ele preservar essa mansão, um patrimônio arquitetônico, e desejar transformá-la em um centro cultural, muitas décadas depois.  O bordel de luxo dando lugar a um acervo cultural.

 




Anna, papel de Vera Fisher, lindíssima, mas frágil como atriz, a mãe de Hugo, não era a dona do bordel, mas a figura mais importante do local pelo que representava para um grande político paulista, o dr. Osmar, em ótimo desempenho de Tarcísio Meira.  Íris Bruzzi, a Laura, era a dona do negócio.

As memórias remetem ao mês de novembro do ano de 1937, quando eclodiria o Estado Novo, de inspiração fascista, decretado por Getúlio Vargas.  Mas, no prostíbulo, as relações políticas se dão na base da dobradinha café com leite.  São Paulo e Minas tentavam se cacifar para vencer as próximas eleições, que acabariam não acontecendo.  Os personagens do dr. Osmar e do dr. Benício, político mineiro vivido por Mauro Mendonça, urdem uma aliança eleitoral em que uma bela e suposta virgem entrará como presente, moeda de troca na aliança. Aí é que entra Xuxa Meneghel, no papel de Tamara, o “presente”.  Além de servir ao político mineiro, a jovem se envolve na trama com o pré-adolescente Hugo em cenas eróticas e com direito a nudez de Xuxa.  Vamos lembrar que ele tinha apenas 12 anos.  Ela, não muito mais idade, 18 ou 19 anos, mas, obviamente, mais experiente e dona de si.

 

Quanto à nudez, todas as lindas mulheres do filme são mostradas nuas, numa beleza requintada, típica dos trabalhos de Walter Hugo Khouri, cuja inspiração maior sempre foi Ingmar Bergman.  Portanto, estamos diante do chamado filme de arte, que se diferencia da pornografia.  Não visa meramente à excitação do espectador, mas oferece a beleza feminina embalada pela reflexão histórico-política, fazendo uma equiparação muito interessante entre a vida no bordel e as articulações político-partidárias.  O sexo e o poder imbricados em conluio permanente.  E a corrupção entre eles, alimentando tudo.  Muito atual tudo isso, não?

 




Bem, mas por que o tabu, a proibição?  O filme foi lançado em 1982.  Apenas dois anos depois, Xuxa enveredaria para a função de apresentadora de programas infantis na TV e acabaria tornando-se a “rainha dos baixinhos”, na Globo.  Como essa rainha seria vista nua, em cenas eróticas, com um “baixinho” na cama?  Dá para entender a preocupação com a imagem da apresentadora naquele momento.  Mas não para aceitar o banimento de uma obra de arte que, na realidade, em nada compromete a pessoa ou a atriz em questão.

 

É uma pena que o moralismo tacanho vença certas batalhas, provocando retrocessos incompreensíveis.  A própria Xuxa recomenda hoje que se veja o filme, liberado para exibição em 2018.  Um pouco tarde, mas sempre é possível resgatar coisas.  No caso de “Amor, Estranho Amor”, o filme, sem dúvida, merece ser visto ainda hoje.  Tem muito a dizer.  E sua apreciação estética é gratificante.  Até porque a cópia veiculada pela TV está com muito boa qualidade.  O filme já foi exibido há poucos dias, mas fiquem atentos.  Em breve, será possível vê-lo novamente no Canal Brasil.

   


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A FORMA DA ÁGUA e O MONSTRO DA LAGOA NEGRA


Antonio Carlos Egypto


A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water).  Estados Unidos, 2017.  Direção: Guillermo del Toro.  Com Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Stuhlbarg.  123 min.

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (Creature from the Black Lagoon)Estados Unidos, 1954.  Direção: Jack Arnold.  Com Julie Adams, Richard Carlson, Richard Denning, Nestor Paiva.  80 min.





Reconheço que “A Forma da Água” é um título poético para o filme de Guillermo del Toro, que conseguiu o maior número de indicações para o Oscar 2018: 13.  No entanto, sendo mais concreto, o filme poderia se chamar A Forma na Água ou A Criatura na Água ou, ainda, O Monstro na Água, porque é disso que se trata.  Uma criatura estranha, uma espécie de homem-anfíbio, que remete a “O Monstro da Lagoa Negra”, o filme de Jack Arnold, de 1954, em que se falava de um homem-peixe, algo que cientistas pesquisavam, em busca de encontrar um elo perdido na evolução humana.

Em “A Forma da Água”, não é muito diferente.  Aqui estamos num laboratório estadunidense, em que se fazem experimentos secretos com o tal homem-anfíbio, que vive na água, já não mais na romântica lagoa negra da Amazônia brasileira, mas num conteiner dentro do laboratório.  Embora almejando as águas abertas que levem ao mar.

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA

 Pois bem, as duas figuras se assemelham muito, evidenciando que a inspiração de “A Forma da Água” foi o monstro da lagoa negra.  Essa figura humana-animal aparece como um ser que assusta, aterroriza, ao mesmo tempo em que atrai o interesse.  O que é estranho, diferente, é perigoso e, no limite, deve ser destruído.  Antes, porém, vamos explorá-lo, extrair dele o que nos interessa.  No contexto da Guerra Fria dos anos 1960, é a competição com a União Soviética, vista como inimiga, que move as ações.  Suspeita-se do que é diferente, daquele que traz perigo. Como sempre acontece.

Diferentes também se atraem e uma moça muito bonita como Kay (Julie Adams), em “O Monstro da Lagoa Negra”, ou, pelo menos, muito gentil e afetiva, como a Elisa (Sally Hawkins), de “A Forma da Água”, produzem uma atração no tal monstro.  Aí, a referência à história de A Bela e a Fera é óbvia.  No filme de Guillermo del Toro, com um elemento novo, talvez politicamente correto, a bela é uma moça portadora de deficiência comunicativa, ou seja, é muda.  Isso introduz uma variável interessante, ao contar a história, porque facilita que ela esconda seu segredo dos patrões.  Não é da sua deficiência que o filme se ocupa, ela é a heroína da situação, sua coragem e determinação são os elementos que a destacam.  Partindo de uma condição bem modesta, a de funcionária de limpeza do laboratório.  Um pouco de Cinderela vai bem, também.


A FORMA DA ÁGUA

 Se, em “O Monstro da Lagoa Negra”, a aventura toma o primeiro plano, em “A Forma da Água” é o conto de fadas que emerge do substrato líquido da trama. O cineasta Guillermo del Toro busca o estranho, o bizarro, para criar seu mundo e o relaciona com a realidade do que pode ser visto nos telejornais diários, as notícias do mundo.  Foi assim, também, em seu “O Labirinto do Fauno”, de 2006, em que a fantasia interagia com a ditadura franquista espanhola.  O resultado é híbrido, como o monstro humano aquático dos dois filmes, o de 1954 e o de 2017, mas tem seu encanto, assim como eles.

Em “O Monstro da Lagoa Negra”, o vínculo com a realidade se dá mais claramente pela ciência e pelo uso estratégico que pode gerar, com menos vínculo político com a realidade imediata.

“A Forma da Água” é aposta quase certa para vários Oscar.  O filme atrai, agrada, mesmo a quem não faz conjecturas ou associações e curte simplesmente a história de amor e o suspense da narrativa.  Ou se encanta com a linda trilha sonora de Alexandre Desplat, já premiada, assim como o diretor del Toro, com o Globo de Ouro 2018.  Uma gravação de Babalu, de Margarita Lecuona, com Caterina Valente e Silvio Francesco, aparece na trilha e nos faz lembrar da gravação magistral de Ângela Maria, que acompanhou toda sua vida artística.  Tem Carmen Miranda aparecendo na TV cantando Chica Chica Boom Chic


O MONSTRO DA LAGOA NEGRA

 O Brasil estava presente também no antigo monstro, a ação toda supostamente se passava na distante Amazônia brasileira, uma preservada zona do globo, que teria mantido elementos ancestrais da evolução terrena.  Talvez tivesse sentido em 1954, hoje, certamente, não mais, com o desmatamento a todo vapor.

Bem, mas por que estou falando de “O Monstro da Lagoa Negra”, um clássico do distante 1954, junto com “A Forma da Água”, de 2017?  Não só pela influência de um sobre o outro, mas porque é possível vê-los, a ambos, no cinema, agora mesmo, sendo “O Monstro da Lagoa Negra” exibido em cópia restaurada em 3D.  O filme foi realizado originalmente em 3D, quando a moda apareceu, e depois sumiu.  Está em exibição no cinema do Instituto Moreira Salles, que também exibe, assim como outras salas de espetáculo, “A Forma da Água”.  Um programa duplo que vale a pena. 

  


sábado, 18 de março de 2017

A BELA E A FERA


Antonio Carlos Egypto


A BELA E A FERA (La Belle et La Bête).  França, 1946.  Direção: Jean Cocteau.  Com Jean Marais, Josette Day, Marcel André, Mila Parely, Nane Germon.  93 min.

A BELA E A FERA (Beauty and the Beast).  Estados Unidos, 2015.  Direção: Bill Condon.  Com Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson.  92 min.



“A Bela e a Fera” é um tradicional conto de fadas francês, originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, em 1740.  Mas a versão mais conhecida da história é mais compacta e simplificada em número de personagens e situações.  Foi escrita por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, publicada em 1756.  A versão de Beaumont é a que serviu de base ao filme de Jean Cocteau (1889-1963), realizado em 1946, que se tornou um grande clássico do cinema fantástico. 




Cocteau foi um renovador da estética cinematográfica.  Seu filme contém imagens oníricas, surrealistas, e efeitos especiais.  Tem uma fotografia, em preto e branco, belíssima, que trabalha muito bem com a bruma, a neblina, a fumaça.  A direção de arte construiu um universo de mistério e riqueza, que explora o contraste entre feiúra e beleza interior.  A magia do conto está lá, numa dimensão dramática.  O cineasta nos convida a que deixemos fluir um pouco de nossa inocência infantil para acompanhar essa narrativa fantastica e acreditar na história.  Ou seja, ele se dirige ao público adulto, não às crianças.




Bem diferente da versão da Disney, em desenho animado, de 1991, dirigida ao público infantil, que transformou o conto trágico-romântico num bem-humorado musical.  A versão 2015 de “A Bela e a Fera”, também da Disney, que está agora nos cinemas, dirigida por Bill Condon, é uma live-action baseada naquela animação, muito popular e grande sucesso de público.  É o chamado filme-família.  As crianças provavelmente vão adorar.  Mas os adultos vão se divertir também.  É uma produção grandiosa, musical, com elenco forte e objetos que ganham vida e se destacam na narrativa, como o candelabro, o relógio, o bule, a xícara.  E o monstro é charmoso, quase tanto quanto a Bela. Leveza e humor tomam o lugar do drama, o romantismo vence o trágico, galhardamente.  Mas não sem antes uma boa luta, recheada de efeitos especiais.  Tem pouco a ver com o clássico de Jean Cocteau, embora a história seja basicamente a mesma.  Mas quanta diferença!

O Centro Cultural Banco do Brasil – SP está promovendo neste mês de março a Mostra “Jean Cocteau: O Testamento de um Poeta” e incluiu “A Bela e a Fera”, de 1946, entre as películas exibidas.  Esse filme também pode ser encontrado em DVD e em sites da Internet.


“A Bela e a Fera”, de Bill Condon, tem uma carreira promissora.  Está levando grande público às salas de exibição.  Não é novidade.  Afinal, marketing é o que não falta e o número de salas, como sempre acontece com os blockbusters, é arrasador.