segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Palhaço


Tatiana Babadobulos

O Palhaço. Brasil, 2011. Direção: Selton Mello. Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicato. Com: Selton Mello, Paulo José, Moacyr Franco, Giselle Motta. 90 minutos

Logo no início, a trilha sonora de “O Palhaço” já remete ao “mundo encantado do circo”. É quando os artistas se preparam para cair na estrada e montar o Circo Esperança na cidade vizinha, sempre no interior, no meio do nada, onde vivem comunidade simples e pessoas que se interessam por piadas simples, mas que oferecem boas gargalhadas. Em uma das passagens, um dos palhaços explica que faz “o povo rir, mas é ele que vai me fazer rir”.


A caravana segue com muitos artistas, mas a principal atração é a dupla de palhaços Puro-Sangue e Pangaré, na verdade Valdemar (Paulo José) e Benjamim (Selton Mello), pai e filho que dividem o picadeiro e, claro, as piadas, sempre com grande cumplicidade.

No entanto, embora esteja na profissão desde pequeno, Benjamim se questiona se é isso mesmo o que quer continuar fazendo para o resto da vida. E daí entra o diálogo repetido por seu pai: “A gente tem que fazer o que sabe: o gato bebe leite, o rato come queijo e eu sou palhaço. E você?”

Benjamim está cansado, tem sono, calor (precisa de um ventilador, como aponta a musa Lola, vivida por Giselle Motta), não tem documento de identidade, apenas certidão de nascimento, e ainda conhece uma garota em Passos, que trabalha no Aldo Autopeças.



Depois de se questionar mais uma vez sobre o que fazer, decide ir atrás de todas essas coisas que lhe faltam. Do lado de cá da plateia, o espectador vai acompanhar a saga do circo e a jornada individual do palhaço que está em busca de sua identidade. Algo bastante comum, aliás, capaz de fazer com que cada um, em algum momento, também comece a se fazer a mesma pergunta.

Com participações especiais incontáveis, como Fabiana Karla, Jackson Antunes, Tonico Pereira, Ferrugem, Danton Mello, destaque para a participação impagável de Moacyr Franco, como o delegado, que começa um discurso falando de seu gato e de sua esposa.

“O Palhaço” remete a filmes de grandes diretores especializados em circo, como Charles Chaplin e Federico Fellini, mas usa a graça para discutir a identidade, mas também revela antigos problemas brasileiros, como a propina cobrada pelo fiscal da prefeitura que, em troca da licença, pede uma grana, além do delegado e do mecânico que não trabalha aos sábados…

Em tempos nos quais o cinema brasileiro é focado principalmente em comédias e quase sempre com artistas que fazem sucesso na televisão, “O Palhaço” resgata a sutileza da fantasia que remete à infância de muitos, incentiva a participação de artistas que não têm muito espaço e o melhor: é capaz de fazer rir e chorar em momentos encantadores.

domingo, 30 de outubro de 2011

Entre Segredos e Mentiras




Tatiana Babadobulos

Entre Segredos e Mentiras (All Good Things). Estados Unidos. 2010. Direção: Andrew Jarecki. Roteiro: Marcus Hinchey e Marc Smerling. Com: Ryan Gosling, Kirsten Dunst e Frank Langella. 101 minutos.


É um tanto chocante a história na qual é baseada o longa-metragem “Entre Segredos e Mentiras” (“All Good Things”), que estreia nesta sexta-feira, 21. A fita foi rodada em 2008 nos Estados Unidos, mas levou dois anos para ser lançada naquele mercado. No Brasil, estreia logo após passar pelo Festival do Rio.

No início, pouco se sabe sobre o longa-metragem dirigido por Andrew Jarecki, em sua estreia na ficção. Isso porque o filme é contado de traz para frente, durante um depoimento de uma das personagens, David (Ryan Gosling, de “Amor à Toda Prova”), em um tribunal. Então, a fita começa a narrar a história, e a contar o tempo, já que o início se dá nos anos 1970, em um arco que segue até 1982, auge do problema relatado, e, na sequência, até os dias atuais, já que o caso não foi resolvido.



Na fita, David, que nasceu em uma família rica e atua no mercado imobiliário norte-americano, se casa com Katie (Kristen Dunst, de “Maria Antonieta”), mesmo a contra gosto do pai, o todo-poderoso Sanford (Frank Langella, de “Frost/Nixon”). A partir daí, os dois vão ter de lutar contra as exigências da família, mas ao mesmo tempo ter de se virar para ganhar o dinheiro que precisam para viver.

As personagens são bem construídas e o espectador consegue nutrir um pouco de simpatia (ou antipatia) a cada uma delas, já que o que é apresentado se torna suficiente. O jeito meigo de Kristen ao lado do meio canastrão de Gosling, que depois pode adotar nuances um pouco psicopatas, combinam e demonstram que estão em sintonia nas suas interpretações. Já Langella, com seu jeito de superioridade de mostrar ao filho o que é certo e o que não é, também leva muito a sério.

O caso é real. Portanto, por mais que se tente fazer suspense, não dá muito certo – talvez um dos motivos de não ter feito sucesso no país de origem. De qualquer modo, o espectador ainda pode se envolver com a trama e tentar entender por que a personagem central está sentada no banco dos réus logo no início da fita.

E o espectador brasileiro, desavisado com os acontecimentos dos Estados Unidos, vai comprar a trama e se envolver. Talvez, internamente, até cobrar justiça.

O nome original do filme, “All Good Things”, é o nome que batiza a loja que o casal abre no interior e comercializa produtos saudáveis. No nome em português refere-se ao problema que vamos investigar durante quase duas horas de projeção, que inclui assassinatos, traições e muito mistério.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A PELE QUE HABITO

Antonio Carlos Egypto





A PELE QUE HABITO (La Piel que Habito).  Espanha, 2011.  Direção: Pedro Almodóvar.  Roteiro de Pedro e Agustín Almodóvar.  Com Antonio Banderas, Elena Anaya, Jan Cornet, Marisa Paredes, Roberto Álamo.  120 min.


Sexualidade tem a ver com origem, identidade e desejo, além da reprodução.  Pode estar relacionada a poder, abuso, violência, e envolver vingança. 

Em “A pele que habito”, Almodóvar criou uma trama extraordinariamente bem urdida e surpreendente, que envolve todos os aspectos da sexualidade que acabei de apontar. Se ele sempre pautou suas histórias e personagens pelos mais variados aspectos da sexualidade, em especial da diversidade sexual, não é diferente aqui.  Mas ele amplia seu leque.

O roteiro dele e de seu irmão Agustín, também produtor do filme, foi baseado em “Mygale”, de Thierry Jonquet.  Mas, como sempre acontece quando ele faz adaptações de outros textos que não os seus, o material fica de tal modo almodovariano que as origens quase se perdem.  Assistindo ao filme, isso ficará mais do que claro, tenho certeza.  Mesmo a gente desconhecendo o texto de origem, como é o meu caso.

A trama incrível de que se compõe o filme, de que é bom se falar muito pouco, para não estragar o prazer de ninguém, parte de uma premissa de ficção científica. Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas), pesquisador médico e cirurgião plástico, faz experimentos com uma nova pele para o ser humano, sensível ao toque, mas protegida contra queimaduras e agressões, com base nas possibilidades da terapia celular.  É um profissional sem escrúpulos, que precisa de uma cúmplice e uma cobaia humana para seus experimentos.

A partir daí, o filme envereda pelo suspense, pelo terror, pelo drama, pela comédia.  O cinema de Almodóvar consegue transitar por praticamente todos os gêneros cinematográficos, subvertendo-os, como de costume. 

Trabalha com questões fundamentais, como a da identidade e a da vulnerabilidade, diante do avanço tecnológico.  E, também, da violabilidade da identidade, num mundo de câmeras em todos os cantos, e telões projetando tudo sobre tudo e todas as pessoas. Assim como em “Kika”, seu filme de 1993, um estupro é filmado e projetado, não mais precisando da mídia, da comunicação de massa, mas contando com os sofisticados equipamentos tecnológicos hoje disponíveis dentro de casa.O personagem do experimento tem sua vida toda controlada, durante todo o tempo, e observada por telões, mas algo sempre pode acontecer que acabe por romper esse controle todo.  É inevitável.






Há a questão dos caminhos sem volta, dos processos irreversíveis.  E também a da liberdade individual de escolha, elemento inalienável de qualquer plataforma liberal, seja no plano dos costumes, seja no do direito ou no da política.  E, é claro, o problema de até onde se pode chegar.  Qual é o limite?

O filme dá margem a um grande número de discussões, é profundo, mas não é intelectualizado.  É um filme que flui e desperta interesse o tempo inteiro, numa narrativa deliciosamente envolvente.  É dos melhores trabalhos do diretor, cuja obra autoral já é bastante extensa, a esta altura: 18 longas metragens, com alguns grandes sucessos de público, como “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, de 1988, ou “Tudo sobre minha mãe”, de 1999.  Almodóvar faz um cinema popular de alta qualidade, criou um formato muito eficiente, que consegue abordar os temas mais complexos e inusitados com humor, poesia e grande capacidade de comunicação com o público.

Em “A pele que habito” sua mise-en-scène dispensa as cores fortes e quentes que costumam caracterizar o seu trabalho.  Prevalece o cinza no espaço do experimento, por exemplo.  As cores estão mais discretas em todo o filme.  Há também menos objetos em cena.  Mas não é por isso um filme soturno ou pesado, de modo algum.  O alto astral, os excessos, a diversão e a crítica corrosiva, às vezes exagerada, continuam lá.  E o humor, também.  Tudo que se espera do seu cinema está lá, e tem algo mais, que a maturidade lhe trouxe: um aprofundamento do enfoque.  Aqui envolvido em um estilo mais sóbrio, o que convém ao tema tratado.

A volta de Antonio Banderas ao cinema de Almodóvar, que o descobriu, se dá em grande estilo, mas não sem dificuldades.  O ator teve de encarar o papel de um personagem contido, cínico e brutal, mas sem sentimentos, uma espécie de psicopata manso e, ao mesmo tempo, refinado.  Muito diferente dos mocinhos e galãs heróicos que Hollywood tem oferecido a ele.  É bom vê-lo de volta a papéis densos e importantes.  Como grande ator que é, ele dá conta magnificamente do personagem do Dr. Robert.






Há Marisa Paredes, no papel da carcereira Marília.  Atriz habitual dos filmes de Almodóvar, o papel lhe cai como uma luva, mais uma vez.  Elena Anaya e Jan Cornet, muito bons, vivem papéis de destaque no filme.  Especialmente Elena, que atua intensamente e com uma entrega corporal muito grande.

Como sempre, podem-se apontar muitas referências cinematográficas a “A Pele que Habito”.  A mais óbvia é “Frankenstein”, filme de 1931, de James Whale, ou de muitos outros, como o “Frankenstein de Mary Shelley”, de Kenneth Branagh, de 1994.  Como a identidade é central, no filme de Almodóvar, é fatal lembrar “As três noites de Eva”, filme de Preston Sturges, de 1941, e de “Um corpo que cai”, do mestre Hitchcock, de 1958, com o duplo de Kim Novak.  Mas há muitas outras relações que podem ser encontradas.  É só ver o filme com atenção.  A história, no entanto, é original e inovadora.  Respira a século XXI.  O filme é uma preciosidade.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O GAROTO DA BICICLETA

  Antonio Carlos Egypto



O GAROTO DA BICICLETA (Le Gamin au Vélo).  Bélgica, 2011.  Direção: Jean Pierre e Luc Dardenne.  Com Cécile de France, Thomas Doret, Jérémie Renier.  87 min.

“O Garoto da Bicicleta” começa nos mostrando uma criança arisca, que foge correndo, a pé ou de bicicleta, e evita o contato com os adultos.  Ela está provisoriamente numa instituição educacional, uma espécie de orfanato.  Mas está obcecada por reencontrar o pai, que a deixou lá.

O personagem é o menino Cyril (Thomas Doret), de 11 anos, já um pré-adolescente.  O pai, vivido por Jérémie Renier, não o quer de volta, mas o garoto reluta em ver isso.  Encontra uma mãe substituta, Samantha (Cécile de France), que o adota, inicialmente nos finais de semana, e tenta ajudar Cyril a superar a dor da rejeição.  Ela tem carinho para dar, disposição e paciência para ajudar.  Mas o tamanho do rombo que a rejeição produz no garoto tornará essa tarefa especialmente difícil e complicada.

Os apelos que o menino encontrará em seu entorno só agravarão a situação.  A bicicleta parece ser sua única companheira permanente, podendo ser objeto de furto, o que exige dele que brigue e até morda por ela.

Estamos num filme dos irmãos Dardenne, diretores com muita sensibilidade para os dramas humanos, em especial, para os elementos que revelam o que o homem tem de mais mesquinho ou cruel.  Não por maldade intrínseca, mas movido por circunstâncias para as quais não está preparado, ou se sente especialmente carente ou abandonado.  Saídas egoístas, cruéis, insensíveis, violentas, são respostas esperadas pelas pessoas que estão ou se colocam em crise.

Os Dardenne são extremamente talentosos para lidar com os dilemas morais que a realidade coloca na vida das pessoas.  O que interessa a eles não são os princípios, mas a resolução moral prática a que estão todos sujeitos em cada situação concreta.


Os diretores demolem qualquer idéia de heroísmo, altruísmo, entrega incondicional ao outro.  Não há ingenuidade na abordagem de tramas e personagens.  Ainda assim, não há descrença absoluta nas atitudes humanas.  Motivados por razões circunstanciais, os personagens podem agir com cautela, delicadeza ou solidariedade.  Desde que não estejam premidos por situações adversas, bem entendido.

Os personagens não são julgados, são mostrados em suas ações, decisões e circunstâncias concretas.  Mostrados muito de perto e sem disfarces, pelas câmeras que parecem invadir o interior de cada um.  Estão lá também o medo, o pavor, as hesitações, os passos dados em falso por pura incompetência para avaliar os fatos e suas consequências.

Numa mise-en-scène seca, sem artifícios e sem dramaticidade, o espectador observa tudo, faz seu julgamento e pode torcer para que o melhor aconteça.  É óbvio que, geralmente, isso não é o que ocorre.  Mas um lance de sorte pode salvar um personagem aparentemente destruído.  Não retira nenhum dos atributos negativos que estavam presentes nas atitudes humanas.  Mesmo assim, a esperança pode vencer.

“O Garoto da Bicicleta” é um filme brilhante, em todos os sentidos.  No meu modo de ver, superior a outros ótimos trabalhos da dupla de cineastas, como “O Filho”, de 2002, que tem muita coisa em comum com este “O Garoto da Bicicleta”, mas era mais amargo.  Dilemas morais também aparecem com força em “A Criança”, de 2005.  Decisões que envolvem terríveis consequências estão no filme anterior deles, “O Silêncio de Lorna”, de 2008.  No filme atual, no entanto, todo o trabalho aparece mais apurado, com mais luminosidade, e com um ritmo impecável, além do excelente desempenho do elenco.  Aliás, via de regra, os Dardenne obtêm sempre desempenhos notáveis de seus atores, mesmo que se utilizem de alguns pequenos truques para obter os sentimentos desejados na atuação deles.

Jean Pierre e Luc Dardenne, os irmãos belgas, já fazem parte da galeria dos grandes diretores do cinema mundial.  “O Garoto da Bicicleta”, filme de abertura e um dos principais destaques da 35ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é uma afirmação eloqüente disso.  O filme ganhou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes.  Os diretores já acumulam, a esta altura, várias premiações em Cannes.

domingo, 16 de outubro de 2011

A CRIANÇA DA MEIA-N0ITE

 Antonio Carlos Egypto

A CRIANÇA DA MEIA-NOITE (La permission de minuit).  França, 2011.  Direção: Delphine Gleize.  Com Vincent Lindon, Quentin Challal, Emmanuelle Devos.  110 min.

O foco do filme ”A criança da meia-noite” é a relação que se estabelece entre o médico e seu paciente, em determinadas circunstâncias, sendo a principal delas a gravidade da doença.  A criança que, na verdade é um pré-adolescente, é o garoto Romain (Quentin Challal), que sofre de um mal genético raro, chamado no filme de XP (xerodermia pigmentosa).  Romain não pode se expor aos raios UV, ou seja, não pode se expor ao sol e à iluminação noturna usual de alguns estádios esportivos.  Daí a menção à meia-noite.  É a hora em que ele pode praticar surfe, na praia, por exemplo.  Durante o dia, usa máscara e roupa especial, para evitar o sol.  É uma doença incurável, até o momento.

David (Vincent Lindon) é seu dedicado médico, que acaba estabelecendo uma relação muito mais próxima e afetiva do que a que costuma existir profissionalmente.  O que se vê é uma espécie de relação pai-filho, por razões que remetem à condição de vida de ambos.

Um novo desafio profissional para o médico pode pôr em risco essa relação e causar conflitos de difícil superação.  Até onde pode caminhar um vínculo médico-paciente, sem comprometer não só o tratamento, mas também a vida pessoal dos envolvidos? O que pode impedir que novos vínculos se estabeleçam?  E por que outros profissionais não poderiam dar seguimento ao caso, sem maiores traumas?  O que prende não só o paciente a seu médico, mas o médico a seu paciente?

São questões muito pertinentes que o filme aborda, possibilitando a reflexão sobre esse tipo de vínculo profissional e de cuidados com a saúde, quando posta fortemente em risco.  Será preciso um distanciamento pessoal para que o tratamento funcione e possa ser acompanhado por um novo médico?  A maturidade pessoal do profissional conta tanto quanto o seu conhecimento técnico ou a sua dedicação à pesquisa?

Há a questão da demanda que se coloca tanto ao médico quanto ao paciente.  Ambos estão vivendo em sociedade, têm expectativas pessoais e sociais e convivem com outras pessoas, cada um no seu mundo.  É uma demanda que extrapola a relação e escapa aos controles.  Estabelece-se um dilema que não é fácil de resolver.

Um tema rico para um filme que trata o assunto com honestidade e veracidade.  Provavelmente, será percebido como algo árido, para quem busca mais entretenimento do que reflexão sobre questões-problema.  Quem se dispuser a acompanhar com atenção a película será tocado por ela e pelas questões que ela levanta.

Não se trata de mais um filme sobre doença e superação, mas de um trabalho que, dentro de uma trama ficcional convincente, esmiúça as complexas relações médico-paciente.  Parte de uma situação limite, um caso muito doloroso e difícil, mas se presta a uma generalização muito mais ampla e se aplica a terapias prolongadas no atendimento à saúde física ou psíquica e aos relacionamentos que se estabelecem em projetos educacionais e de atendimento a carências sociais.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

LEON CAKOFF



Antonio Carlos Egypto

É triste, muito triste, a notícia que tivemos hoje da morte de Leon Cakoff.  Homem de poucas palavras e badalações e de muita ação, realizou um trabalho cultural magnífico, ao longo dos 35 anos da Mostra Internacional de Cinema.  Todos nós, cinéfilos, especialmente os de São Paulo, somos devedores do seu tirocínio cinematográfico.  Em época de vacas magérrimas e censura ditatorial, ele trazia o respiro e o alargamento de horizontes em que bebíamos sedentos.  Se hoje isso parece até mesmo dispensável, é porque suas conquistas mudaram a história da exibição de cinema no Brasil.

Ele tem o grande mérito de difundir, na prática, a diversidade cultural, o multiculturalismo, por meio do cinema como expressão artística, meio de comunicação e reflexão sobre todo o mundo e sobre nós mesmos.  Os frutos do seu trabalho estão aí, palpáveis, evidentes.  Fará falta, é claro, mas cumpriu muitíssimo bem a sua missão.

A 35ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo começa agora, alguns dias após sua morte, em 22 de outubro próximo.  Vamos a ela, que sempre nos enriquece, mas também em homenagem a seu idealizador – Leon Cakoff -- e à sua companheira, Renata de Almeida.

Leon Cakoff



Tatiana Babadobulos


Fundador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Leon Cakoff faleu às 13h desta sexta-feira, dia 14 de outubro. Cakoff, que começou a carreira como jornalista e crítico de cinema, estava internado há duas semanas por conta do câncer no tecido epitelial.

A Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine) divulgou nota de pesar. "Pela importância da Mostra em nossas vidas, a Abraccine sente-se enlutada e envia sinceros votos de condolências à sua família, com a certeza de que sua memória permanecerá presente e forte nos que aprenderam a entender o cinema como arte muito mais diversa e mundial. Tudo faremos para contribuir com a continuidade do seu importante legado cultural."

Segundo a nota, "muitos dos críticos que hoje atuam nos jornais, revistas e espaços digitais optaram por este ofício e ampliaram seu amor pelo cinema assistindo aos filmes programados por Leon Cakoff. Cakoff lutou como poucos pelo que lutamos todos nós, críticos de cinema: para que a diversidade da cinematografia mundial tenha oportunidade de exibição e não seja engolfada pelo cinema mainstream, com seu poder econômico e vocação hegemônica".

A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, também lamentou a morte de Leon Cakoff. "Estou chocada, é uma perda irreparável. Em toda minha vida e formação, ele foi nome de referência. Acompanhei as suas mostras, ele orientava  para o que havia de mais importante no cinema do mundo todo."

Cakoff
Nascido na Síria, em 12 de junho de 1948, Leon Chadarevian veio com a família para o Brasil aos oito anos de idade e formou-se pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Por problemas com o regime militar, adotou o pseudônimo Cakoff, que nunca mais abandonou.

Além de ter lutado contra a Ditadura Militar, foi sua atuação no cinema que mais marcou seus trabalhos, principalmente porque, a partir de 1974, dirigiu o Departamento de Cinema do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e iniciou a programação de mostras e ciclos no museu. Em 1977, para comemorar os 30 anos do Masp, criou a 1ª Mostra Internacional de Cinema, com 16 longas e 7 curtas brasileiros e internacionais. No dia 21 de outubro, começa a 35ª edição da Mostra, que, desde a 13ª edição, é dirigida ao lado Renata de Almeida, esposa de Leon. Os dois foram casados durante 22 anos e tiveram dois filhos, Jonas e Thiago. Leon também deixou dois filhos de seu primeiro casamento, Pedro e Laura.

Sua colaboração com o cinema veio mais fortemente contra a censura imposta pelo regime militar, já que ele trazia filmes até por meio de malas diplomáticas de embaixadas e consulados. Foi assim que a Mostra exibiu filmes inéditos vindos da China, Cuba, União Soviética, França e dos mais distantes países.

Mostra
Ao longo dos 35 anos de Mostra, Leon introduziu no Brasil o cinema de grandes autores que de outra forma não teriam chegado ao público nacional, como Manoel de Oliveira, o cineasta mais velho do mundo em atividade, hoje com 102 anos, de quem a Mostra apresentou regularmente os filmes a partir de "Amor de Perdição" (1979, na 3ª Mostra); o iraniano Abbas Kiarostami, diretor de "Gosto de Cereja" e "Cópia Fiel"; e o israelense Amos Gitai, diretor de "Kadosh" e "Alila".

Leon Cakoff também foi o produtor de importantes projetos que reuniram grandes diretores. Em 2004, organizou e lançou na 28ª Mostra o filme "Bem-Vindo a São Paulo", reunião de curtas sobre a cidade dirigidos por 12 cineastas, entre eles Caetano Veloso, Phillip Noyce, Maria de Medeiros, Daniela Thomas, Amos Gitai e Tsai Ming-Liang. Foi também o produtor de "O Mundo Invisível", filme inédito que reúne curtas de Manoel de Oliveira, Wim Wenders e Atom Egoyan, que terá exibição na 35ª Mostra. Leon dirigiu ainda os curtas "Volte Sempre Abbas" (1999) e "Natureza-Morta" (2004), ambos em parceria com Renata de Almeida, e "Esperando Abbas" (2004).

Como escritor, é autor dos livros "Gabriel Figueroa – O Mestre do Olhar", "Ainda Temos Tempo" com crônicas de viagem ligadas a cinema; "Cinema Sem Fim", com a história dos 30 anos da Mostra; e "Manoel de Oliveira", uma grande entrevista sua com o cineasta português.

Além de programador e produtor, Leon também atuou nas outras pontas do mercado cinematográfico. Em 2000, junto com Adhemar Oliveira, Patrícia Durães e Renata de Almeida, formou a distribuidora Mais Filmes, especializada em filmes de autor. Nos últimos anos, mantinha, com Renata de Almeida, a Filmes da Mostra, que lança filmes em cinema e coleções em DVD, em parceria com a Livraria Cultura. Com Adhemar, ele era sócio desde 2001 do Unibanco Arteplex, primeiro cinema do Brasil a usar o conceito de multiplex para incluir filmes de arte da programação.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Meu País - Entrevista


Tatiana Babadobulos

Com filmagens no Brasil e na Itália, “Meu País”, longa-metragem de ficção de estreia de André Ristum, conta a história de uma família que, após a morte do patriarca (Paulo José), os dois irmãos, Marcos (Rodrigo Santoro), que vive com a esposa (Anita Caprioli) na Itália, e Tiago (Cauã Reymond), que vive em São Paulo para cuidar dos negócios da família, precisam decidir os rumos das empresas. Os dois precisam resolver também outra pendenga: o destino a meia-irmã, Manuela (Debora Falabella), fruto de um caso extraconju­gal do pai, que tem problemas mentais e está internada em uma clínica no interior do estado.

Em entrevista coletiva à imprensa, Ristum explica que as filmagens foram feitas na capital paulista, além dos arredores de Paulínia e Indaiatuba, em um casarão, onde foram feitas as cenas internas. “As filmagens na Itália, cenas do início do filme, foram rodadas por último, em Roma.” Durante as filmagens, os dois atores conviviam como uma família, como irmão mais velho e mais novo, de modo que quando a meia-irmã chegou em cena, era como uma estranha, combinando justamente com o tema da fita.

Depois de sucesso no Brasil e no exterior, interpretando personagens que falam inglês e espanhol, Rodrigo Santoro afirma que falar italiano foi mais um desafio de sua carreira, além de a personagem remetê-lo às raízes de suas família. “Sou filho de italiano na vida real. Meu pai veio cedo da Itália, não cresci falando italiano, mas sempre tive vontade de falar. E a única referência que tinha era os meus avós discutindo em italiano para a gente não entender (risos). Fiz aulas intensivas com professores no Rio e em São Paulo, e tive ajuda do André, que é 'mezzo' italiano, 'mezzo' brasileiro, além da atriz Anita, que é italiana. Então, eu estava bem cercado.”

Outra questão é que Rodrio Santoro não precisou aprender a falar italiano, mas precisou trabalhar basicamente as falas do filme. “Foi um mergulho maravilhoso em vários sentidos e em minhas próprias raízes”, diz Rodrigo, lembrando que nunca é confortável interpretar em outra língua. “Nem em português é confortável (risos). Acho um aspecto positivo, pois quando a gente acha que o jogo está ganho, a gente perde. Foi um trabalho constante, um desafio e sempre ficava muito atento”, completa. “Mas é bom, agora eu assisto e tenho certeza que meu avô vai chorar de rir! (risos)”, completa, cheio de humor.

André Ristum conta que a história que escreveu (ao lado dos roteiristas Marco Dutra e Octavio Scopelliti) foi inspirada em sua própria vida, já que nasceu e cresceu na Itália. “É sobre o cidadão que mora fora, distante de suas raízes, de seu país. É uma questão que sempre foi muito presente pra mim. Até uma fase da minha vida, esta era uma questão que eu me colocava. Para quem nasceu, cresceu e mora em um único país, talvez seja difícil de entender, mas quem mora lá e cá e é estrangeiro em qualquer um dos países, é uma sensação forte não saber de onde você pertence. Fui nos últimos 15 anos evoluindo e hoje sou completamente enraizado no Brasil. Essa é uma questão resolvida na minha vida atualmente. A história do Marcos é diferente da minha, mas teve esse ponto de partida para inspiração.”

Rodrigo Santoro conta que, como o filme está sendo lançado, espera que seja bastante visto, mas foi muito importante participar. “O convite veio do Fabiano (Gullane, produtor), parceiro antigo, pois fizemos 'Bicho de Sete Cabeças' e 'Carandiru', que me ligou para mandar o roteiro e eu falei que estava saindo de férias. Mesmo assim, ele falou que mandaria para eu ler. Li à noite, porque é um termômetro ler antes de dormir. E li de uma vez”, diz. Uma semana depois, continuava pensando na história. “Passou uma semana e eu pensando nas férias, no surfe, mas tudo ficava brigando com a história. Pensei bastante e algumas coisas me pegaram (positivamente), como falar de família, de afeto, já que a gente está cada vez mais voltado para si mesmo, difícil de se relacionar, coisas fundamentais na vida do ser humano e adiei as férias para fazer o filme. Experiência incrível de trabalhar com o elenco, o italiano etc.”

Para o diretor, tratava-se de um roteiro de personagens, atores, não havia tiros, capotamentos. “Para mim, era fundamental contar com atores talentosos que pudessem acrescentar no processo. A busca foi essa e não de escolher atores globais, mas de trazer atores que eu visualiza e que admirava o trabalho. E tive muita felicidade em ver que todas as minhas primeiras escolhas deram certo.”

Ao contracenar com a atriz italiana, Rodrigo diz que ela foi muito parceira e paciente. “Eu pedi para ela me corrigir, porque eu me confundia muito, já que estudei espanhol e, toda vez que tentava me expressar em italiano, cometia algum tipo de erro. Sou muito cara de pau, quando não sei, invento a palavra. Em inglês cansei de fazer isso, colocava o “ation” no final. Eu jogo, se colar, colou! (risos)”, completa Rodrigo Santoro.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

OS TRÊS MOSQUETEIROS

 Antonio Carlos Egypto


OS TRÊS MOSQUETEIROS (The Three Musketeers).  Estados Unidos, 2011.  Direção de Paul W. S. Anderson.  Com Orlando Bloom, Christoph Waltz, Logan Lerman, Milla Jovovich.  93 min.

Se você está interessado em mais esta versão cinematográfica de “Os Três Mosqueteiros”, em função da obra de Alexandre Dumas, de inegável valor literário, esqueça.  A obra de Dumas é apenas o pretexto para mais uma série de filmes de ação, recheados dos efeitos especiais mais atualizados e da tecnologia 3D mais avançada. É mais um mote para a indústria do entretenimento hollywoodiano encher suas burras de dinheiro.  O que não significa que o produto seja ruim.  Vai agradar à garotada, com certeza.

Os óculos para usar nas sessões em terceira dimensão ainda incomodam às  pessoas que usam óculos habitualmente.  Se usar um óculos já é chato, imagine dois, um em cima do outro.  Mas, pensando bem, isso não deve ser um grande problema, porque a maioria das pessoas que têm menos de 40 anos não precisa usar óculos e filmes como “Os Três Mosqueteiros” se dirigem a um público infanto-juvenil e que pode atingir também jovens adultos.  E para por aí, eu acho.

Os elementos constitutivos da história estão lá: o rei, muito jovem, despreparado e abobalhado, os seus fiéis, mas já um tanto desmotivados, mosqueteiros (Athos ,Porthos e Aramis) e um D’Artagnan adolescente heróico, sem qualquer controle ou medida no comportamento, milady traindo para todo lado, o “mau” Cardeal Richelieu, os confrontos com o duque de Buckinghan, etc.  Mocinhos e bandidos bem marcados.  São personagens sem nuances, sem medo ou dúvida, que, afinal, já conhecem o fim da história.  Assim como o público que vai ao cinema.


A capa e a espada também estão lá, mas as armas de fogo e os dirigíveis que voam e seus canhões têm a primazia.  Acabam produzindo dentro da aventura uma espécie de disaster movie.  Um dirigível tromba com e pousa sobre a igreja de Notre Dame, símbolo turístico de Paris.  Destrói pelo menos uma de suas famosas gárgulas, é perfurado por sua torre e em seu topo se desenvolvem batalhas decisivas da história.  Claro que uma das gárgulas também vai ser usada para sustentar D’Artagnan, no auge da luta.

Nova York já foi muitas vezes destruída, agora será a vez de Paris?  Isso ainda não sabemos, o filme acaba na cena que dá início à Parte 2, prometendo uma guerra muito maior do que a que acabamos de ver.  E assim a franquia se estabelece.  Quantas partes terá?  Para mim, essa primeira já bastou, dispenso a sequência, como fiz com “Piratas do Caribe”, por exemplo.

Mas quem gosta mesmo do gênero aceita tudo, por mais absurdo que seja, em nome da diversão.  Eu desconfio de que esse conceito de diversão é um tanto idiotizante, porque, afinal, não é preciso parar de pensar para se divertir.  Mas parece que é assim.

Quanto às possíveis mensagens que ficarão implícitas na cabeça dos jovens, pelo menos uma me parece inadequada.  Logo no início do filme, D’Artagnan, adolescente, parte para Paris disposto a tudo, a todo tipo de briga e provocação para “vencer na vida” mosqueteira.  A mãe tenta freá-lo, dizendo que ele evite provocações.  O pai, ao contrário, a desautoriza e o aconselha a ir atrás das provocações e mostrar suas habilidades, treinadas pelo próprio pai. O filme todo reforça a correção dessa estratégia. Embora o personagem leve algumas invertidas, a impetuosidade e a total falta de limites do jovem é premiada com um êxito sem precedentes.

D’Artagnan dá novo sentido à vida dos três mosqueteiros, cai nas graças do rei e conquista sua amada, sem nunca parar para pensar ou avaliar uma de suas atitudes sequer.  O descontrole e a exposição gratuita ao risco são valorizados como virtudes.  Responder agressiva e provocadoramente a qualquer um, sem nem mesmo remotamente saber com quem está lidando, também acaba sendo correto, já que a figura ignorada seria o grande vilão, com muito poder, mas que acabará levando a pior.

É típico da fase adolescente uma tendência onipotente: a de que nada vai acontecer comigo e de que eu posso tudo.  A identificação com o personagem mais importante, um adolescente que reina soberano na história, com mais força do que os mosqueteiros experientes do rei, será óbvia.  Um pouco de temperança e equilíbrio para esse personagem tornaria as coisas menos idealizadas, mais humanas, e poderia se constituir num modelo mais apropriado para a realidade já arriscada, em que grande parte dos jovens se encontra.  Para que botar mais lenha na fogueira?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

MEU PAÍS

 Antonio Carlos Egypto


MEU PAÍS.  Brasil, 2010.  Direção: André Ristum.  Com: Rodrigo Santoro, Débora Falabela, Cauã Reymond, Paulo José.  90 min.

“Meu País” é um filme brasileiro, dramático, bem realizado, com atores qualificados, e que conta uma história marcante.  Se distingue, pela sobriedade, de grande parte da produção nacional da atualidade, ligada à comédia de padrão televisivo.  Em compensação, talvez lhe falte maior expressividade emocional.  Para o tema de que trata, as atuações acabaram sendo contidas demais, esfriando as conturbadas relações que expõe.

O personagem do pai, Armando, vivido por Paulo José, é o único que, em seu pequeno papel, se mostra emocionalmente intenso.  Até Débora Falabela, que enfrenta um papel difícil e sofrido, o de Manuela, é comedida em sua atuação.

O personagem Marcos, vivido por Rodrigo Santoro, acaba dando o tom a todo o filme.  Marcos é uma espécie de executivo da era da globalização, muito bem sucedido, mas totalmente distante da família.  Vive há dez anos na Itália, quase sem contato com seu pai e irmão.  Procura se apartar da história familiar e dos envolvimentos afetivos do passado e do presente, vivendo longe e fazendo uma vida à parte, até mesmo no idioma.  Está casado com uma mulher italiana e é um jovem de comportamento moderado e formal.  Muito sério e responsável.  Esse personagem é muito bem matizado por Rodrigo Santoro, em ótimo desempenho.  Mas acho que acabou “contaminando” todo o clima do filme.  A direção procurou evitar o melodrama e seus excessos, mas abaixou demais a temperatura.  O filme ficou muito parecido com o personagem Marcos.


Esse personagem viverá uma transformação pessoal muito importante quando, ao ter de vir para o Brasil, para tratar de uma questão familiar inadiável, acaba se deparando com o irmão Tiago (Cauã Reymond), que só acentuou um comportamento irresponsável que possa ter tido no passado, e descobre uma irmã com problemas mentais, de quem nem sequer o irmão e ele sabiam da existência.

É dessas relações que se compõe a interessante trama de ”Meu País”, aquele espaço que designa um lugar no mundo, a algum mundo em que se esteja vinculado emocionalmente.

A personagem Manuela acabará sendo a detonadora das defesas emocionais que marcam a história, sobretudo por meio da negação e do apartamento do seu ser.  O contraste entre as figuras de Marcos e Manuela é bastante intenso, mas poderia estar emocionalmente mais marcado.  Afinal, é um turbilhão que está em ação aqui.  Débora Falabela dá bem conta do recado, nesse papel desafiador e delicado, que ela criou muito bem.

O personagem de Cauã Reymond poderia estar mais desenvolvido, com mais nuances.  Ele se aproxima do estereótipo puro e simples, apesar do bom desempenho do ator.

Uma parte dos diálogos é feita em italiano.  As relações de Marcos com sua mulher, vivida pela atriz italiana Anita Capriol, exigiram de Santoro que aprendesse (ou decorasse) suas falas no idioma que, apesar de ser de seus ancestrais, o ator nâo domina.  O resultado, nesse aspecto, é bastante convincente e dá pleno sentido ao personagem.

O primeiro longa de André Ristum é um trabalho digno e respeitável.  É um realizador  fadado a alçar grandes voos daqui para frente.  Tem talento para isso.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

BÉLA TARR – UM CINEASTA RADICAL

Antonio Carlos Egypto



Béla Tarr é um cineasta húngaro, nascido em 1955, que tem um trabalho autoral rigoroso e radical. Uma retrospectiva de sua obra foi exibida em São Paulo, na Mostra de Cinema Independente INDIE 2011, e poderá ser vista no Festival do Rio 2011, com a presença do diretor.

A oportunidade de ver seus filmes de forma concentrada, por um lado, enriquece a percepção de um trabalho artístico denso, esteticamente notável. Por outro lado, é uma proposta exigente para o espectador: é um cinema lento, que demanda concentração e uma atitude contemplativa. Seu cinema é feito de longos planos sequência, com muitas repetições de atos silenciosos e brigas ou desentendimentos verbais, onde as palavras e expressões de ofensa ou mágoa também se repetem muito. É um trabalho artístico, que põe sua beleza a serviço de uma visão desesperançada do mundo.

Para quem nunca viu um filme de Béla Tarr, o que escrevi até agora pode assustar ou desestimular o interesse por seu cinema. Sim, é um cinema sofrido, porém, desafiador, capaz de nos transportar a universos e situações em que mergulhamos tão intensamente que saímos da experiência tocados por sensações e sentimentos fortes, mas que nos levam a refletir sobre o que vivenciamos ali.


O Cavalo de Turim

O CAVALO DE TURIM (WA Torinói Ló). Hungria, 2011. Direção e roteiro: Béla Tarr. Com János Derzsi, Erika Bók, Mihály Kormos. 146 min.

O mais recente filme do diretor, concluído em 2011 e agraciado com o Urso de Prata do Festival de Berlim, é “O Cavalo de Turim”, que o cineasta afirma que deve ser sua última produção cinematográfica. Uma pena, se essa intenção se confirmar.

No texto de abertura do filme lê-se o seguinte: “Em Turim, em 03 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche sai do imóvel da Via Carlo Albert, número 6. Não muito longe dali, o condutor de uma carruagem de aluguel está tendo problemas com um cavalo teimoso. O cavalo se recusa a sair do lugar, o que faz com que o condutor, apressado, perca a paciência e comece a chicoteá-lo. Nietzsche aparece no meio da multidão e põe fim à cena brutal, abraçando o pescoço do animal, em prantos. De volta à sua casa, Nietzsche então permanece imóvel e em silêncio, durante dois dias, estendido em um sofá, até que pronuncia as definitivas palavras finais (“mãe, eu sou um idiota”) e vive por mais dez anos, mudo e demente, sendo cuidado por sua mãe e suas irmãs. Não se sabe que fim levou o cavalo.”
O filme passa, então, a mostrar a vida de um condutor de uma carroça, de sua filha e do cavalo. Não há qualquer referência a Nietzsche, além do texto inicial. “O Cavalo de Turim”, na realidade, nos mostra a vida miserável desses personagens, numa habitação do século XIX. Os únicos pertences são uns poucos móveis rústicos, alguma roupa, lenha, fogão, água e batatas.

Fora da casa, um poço que provê a água e o estábulo, com o cavalo e a carroça. Passamos a viver intensamente o cotidiano dessa casa, onde os movimentos e os gestos se repetem, quase nada se fala e um vento forte e permanente aparece quando se sai da casa, se abre a porta ou se olha pela janela.


A paisagem externa é desoladora, assim como o interior da casa. Se não existisse uma reserva de batatas, a fome se imporia de forma absoluta. Ou se o poço um dia secar...

As imagens em preto e branco, os enquadramentos perfeitos, mas quase imutáveis e a rotina minimalista dos personagens, captadas por meio de planos sequência longuíssimos, conseguem nos transportar para a vida no limite da fome e da morte, em pleno final do século XIX.

Os poucos elementos em cena são também essenciais para a obtenção desse efeito. Estamos em outra época, em outro mundo. No entanto, nos deparamos com uma questão que permanentemente tem desafiado a existência humana em todas as épocas: a erradicação da miséria. Impossível não se sensibilizar para essa questão, após assistir a “O Cavalo de Turim”.

O símbolo do cavalo é também muito bem explorado, desde a sua movimentação intensa, no início do filme, até sua paralisia completa, em que ele prenuncia e como que escolhe seu fim.

Uma obra de arte soberba, extremamente sofrida, difícil mesmo de assistir. Mas uma obra maiúscula. Radical em todos os sentidos. Será lançada comercialmente nos cinemas? Espero que sim. De qualquer modo, atingirá um público reduzido, que terá condições de apreciar tal experiência cinematográfica. Os que entrarem no cinema desavisados ou serão tocados fortemente pelo filme, ou se ausentarão antes do seu final. Experimentos radicais geralmente produzem respostas de amor intenso ou ódio profundo. Não é assim?

Os outros filmes

“Ninho familiar”, de 1977, o primeiro longa de Béla Tarr e “Pessoas pré-fabricadas”, de 1982, têm em comum a discussão da vida, num regime planificado, centralizador e opressor, como foi a Hungria no período comunista ou do chamado socialismo real. Nesse sentido, são filmes datados. Tratam, por exemplo, da seriíssima questão das moradias. A ausência de um espaço para viver ou a aglomeração de pessoas em pequenos apartamentos gera angústia, discórdia, desentendimentos de todo tipo. A opressão que essa situação traz é mostrada, geralmente, com a câmera na mão e os atores focalizados muito de perto, sem espaço para o respiro. A sensação é aquela que a gente tem quando alguém chega muito perto, invadindo nosso espaço, e nos faz afastar-nos dessa pessoa. “Ninho familiar” se centra nisso e na repetição verbal exacerbada do quanto é importante ter um espaço próprio de moradia, mínimo e decente.

“Pessoas pré-fabricadas” enfoca mais os desentendimentos no casamento, em função de que a vida, as casas e os empregos são planejados e resolvidos pelo Estado, sendo as pessoas joguetes nesse processo. Se digladiam, se ofendem, brigam, fazem escândalos e não são donas de seus destinos. As duas películas são filmadas em preto e branco.

“Almanaque de Outono”, de 1984, é um filme colorido. Aqui se exploram as tonalidades cinza-azuladas e vermelho-alaranjadas, num espaço agora grande, onde vivem mãe, filho e mais três pessoas que, embora se conheçam e se relacionem, estão em conflito permanente. Brigam, discutem, se acusam, se atacam em jogos de poder violentos e desproporcionais. As relações se esgarçam, se desgastam, a confiança se quebra. Um clima hostil, cheio de medos e obsessões, que remete aos filmes de Bergman.

Dentre os principais filmes dele não vi “Maldição”, de 1987, nem o famoso “Satantango”, de 1994, um filme com 7 horas e meia de duração, que, no Festival INDIE foi exibido no Cinesesc, das 21:30 às 5:30 h, com intervalos. Para mim, seria demais todo esse tempo para ver um panorama amplo do fim do comunismo na Europa Oriental. Quem viu, garante que vale a pena.


“Harmonias de Werckmeister”, de 2000, é mais um filme em preto e branco, como são quase todos os que Béla Tarr fez, que tem uma linda plasticidade, uma atmosfera estranha e soturna, focalizando uma cidade que espera por um circo. A principal atração é uma enorme baleia ,a maior do mundo, que está fora d’água, num grande caminhão, cheirando mal, e há a promessa de um misterioso príncipe que deve se apresentar. Filme sujeito a inúmeras possibilidades interpretativas, surpreende pelo inusitado, tanto da situação proposta quanto dos comportamentos, e também por uma violência que irrompe, selvagem e aparentemente sem sentido ou direção.

“O Homem de Londres”, de 2007, foi o primeiro filme que vi de Béla Tarr, durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Sua estética de filme noir, obviamente em preto e branco, com direito a assassinato e mala de dinheiro que é encontrada, é irresistível. Enquadramentos belíssimos nos fazem esquecer completamente os ritmos lentos, os longos planos sequência e a quase ausência de diálogos. Fotografia impecável, mostra uma estação ferroviária do litoral e um homem que pensa, vive dilemas éticos, testemunhou algo terrível e importante. O que fazer agora? Uma releitura do filme noir, que se interioriza.

Béla Tarr é um autor de cinema marcante, num tempo em que o espaço para o trabalho autoral é muito pequeno diante da avassaladora industria do entretenimento. Seu cinema aspira à mais alta dimensão artística e não tem qualquer olhar para o mercado. Opção rara e radical nos dias de hoje.