terça-feira, 6 de outubro de 2026

NAZA

Antonio Carlos Egypto



 

NAZA. Reino Unido, 2026.  Direção: Yuval Abraham e Rachel Szor.  Documentário.  80 min.

 

O documentário “Naza”, produzido pelo jornal inglês The Guardian, realizado pela dupla de jornalistas investigativos israelenses, Yuval Abraham e Rachel Szor, é uma peça política muito forte e verdadeira.  Os diretores são os mesmos que venceram o Oscar de documentário em 2024, com “Sem Chão” (No Other Land).

 

Aqui, eles realizam entrevistas com uma série de agentes do Estado de Israel responsáveis pelos ataques à região de Gaza.  Foi tudo filmado à noite, clandestinamente, nos terraços e telhados de Tel Aviv, sem identificação dos rostos e alterando a voz dos depoentes.  Só se vê o entrevistador Yuval em conversas com silhuetas não identificáveis, sendo filmados por Rachel. 

 

O que é dito é espantoso, relata com crueza de detalhes o processo do massacre de civis palestinos na Faixa de Gaza, enquanto se mira nos terroristas do Hamas.

 

Naza é uma expressão que significaria os efeitos colaterais da morte de civis quando se realizam os ataques aos prédios e casas onde moram membros do Hamas.  Significaria porque isso é uma suposição.  Os ataques a civis são assumidos, planejados, calculados.  Veja os exemplos: por que explodir uma casa com toda a família dentro, quando chega à noite o pai da família, um membro do grupo terrorista, e não se faz um ataque a seu trabalho diurno?  Como entender, então, a ação deliberada de snipers, alvejando civis palestinos, enquanto se dirigiam, famintos, às tendas de comidas?

 


Ou seja, o filme não deixa margem a dúvidas: o que se passou, e continua se passando na Faixa de Gaza, é um genocídio do povo palestino, realizado pelo governo de Israel, de Benjamin Nethanyahu.  Tudo claramente admitido pelos responsáveis militares desse genocídio, com algumas dúvidas, mas sem maiores culpas, ancorados pela ideia de que é preciso destruir os palestinos e a demanda pelo seu Estado, para garantir a sobrevivência do Estado de Israel.  Eles cumprem ordens, inquestionáveis, numa missão que revela a banalidade do mal, praticada por agentes graduados das forças repressoras do governo de Israel.  São uma espécie de Bibi boys.

 

Impossível sair dessa sessão sem uma sensação de asco, por um lado, e de desânimo, por outro.  O mundo chegou a tal grau de violência e insensibilidade que interesses imediatos e mal elaborados pretendem justificar o extermínio de todo um povo.  Isso num mundo em que vai sendo ampliado o domínio da extrema direita, e seus tentáculos de guerra, cinicamente mascarados de paz e democracia.

 

“Naza”, falado em hebraico e inglês, é complementado por imagens dos bombardeios, de locais destruídos e imagens em preto e branco do passado da região.

 

O filme, difícil de se ver, mas politicamente muito importante, foi aclamado pelo público com longuíssimos aplausos e venceu o prêmio especial do Júri do Festival de Veneza.