sábado, 31 de agosto de 2013

LAS ACACIAS

        

Antonio Carlos Egypto



LAS ACACIAS (Las Acacias). Argentina, 2010.  Direção e roteiro: Pablo Giorgelli.  Com German de Silva, Hebe Duarte, Nayra Calle Mamani.  85 min.



Rubén (German de Silva) é um caminhoneiro solitário, de modos simples e rudes, acostumado há anos a percorrer a estrada entre Assunção, no Paraguai, e Buenos Aires, a capital argentina, transportando madeira.  Esse acontecer repetitivo e seco de sua vida pode nem ser confortável, mas  é conhecido.

O que poderá ocorrer se, numa dessas viagens, aparecer uma mulher, Jacinta (Hebe Duarte), com uma criança de colo, a pequena Anahí, um bebê de 8 meses, para compartilhar desse trajeto?  Distância, incômodo, defesa, medo,  dificuldade de se expressar, tensão.  Mas a estrada é longa e essa relação acabará não só por nos revelar, pouco a pouco, quem são Rubén e Jacinta, mas também o que pode surgir entre eles.  Nada de bombástico ou grande revelação, apenas a humanidade que fatalmente terá de se expressar.



Trata-se de um road movie, enquanto gênero cinematográfico, embora a câmera se poste dentro da cabine do caminhão a maior parte do tempo.  É que o que muda está nos detalhes, nas sutilezas do comportamento de cada um, o bebê incluído.  O que importa não é o que está fora, mas o que está dentro, não é a ação, é mais a reação.

Um filme que, a rigor, não só não se centra na ação, como em que aparentemente nada acontece.  E, no entanto, como qualquer um que assistir ao filme poderá perceber, muita coisa acontece na vida dos personagens, durante essa viagem.  Compartilhamos o que se passa com eles e nos tornamos cúmplices dessa viagem humanizadora, a partir da perspectiva do caminhoneiro Rubén.  Um filme para lá de simples, que tenta entender a complexidade das pessoas simples.



Se você encarar com eles esse trajeto, não poderá se esquecer deles tão cedo.  São figuras marcantes, pelo silêncio, pelo não dito, pelo reprimido, pela solidão, pela carência, mas também pela possibilidade de transformação que está latente.  É um cinema de sutilezas, muito bom de se ver.

Pablo Giorgelli, o diretor, nascido em 1967, realiza aqui o seu primeiro longa-metragem e surpreende pelo talento que demonstra para criar climas e pelo minimalismo do trabalho que executa.  “Las Acacias” venceu o prêmio Câmera de Ouro no Festival de Cannes 2011 e foi apresentado na 35ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no mesmo ano.  Agora, dois anos depois, chega às salas de cinema.


 O desempenho dos dois atores que protagonizam a viagem é um trunfo do filme.  Sem essas representações compostas de pequenos gestos, falas, detalhes, não seria possível viver essa rica experiência de compartilhamento que nos une a personalidades aparentemente tão distantes e, no entanto, tão próximas.  Nada precisa ser explicado, tudo pode ser sentido.  Isso vale até para o contexto social que envolve os personagens.  Ele simplesmente está lá, faz parte da vida que levam.  E é só.  Ou melhor, é muito.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Se Puder... Dirija!




Tatiana Babadobulos

Se Puder...Dirija! Brasil, 2013. Direção e roteiro: Paulo Fontenelle. Com: Luiz Fernando Guimarães, Lavínia Vlasak, Leandro Hassum, Bárbara Paz. 90 minutos

Mais uma comédia nacional chega aos cinemas a partir de 30 de agosto. E, para não perder o costume, mais uma comédia nacional chata... Não é má vontade desta repórter achar “Se Puder...Dirija” ruim. O filme já começa mal. O nome brinca com a comédia norte-americana “Se Beber, Não Case!” (cujo nome original é “The Hangover”). A história, que se passa praticamente o tempo todo dentro do carro guiado por João (Luiz Fernando Guimarães), é sobre pai e filho, sobre relacionamento, sobre a conquista da confiança e do amor que acontece aos poucos.

Na trama, João chega atrasado ao aniversário do filho Quinho (Gabriel Palhares) e sua ex-mulher (Lavínia Vlasak) inicia uma verdadeira DR sobre o motivo pelo qual não há fotos dele, o pai, na geladeira, tal como tem da criança com a mãe. Para se redimir da ausência na criação do filho, João promete passar o dia seguinte todo com o pequeno.

Manobrista em um estacionamento juntamente com Edinelson (Leandro Hassum), João se esquece dos compromissos e, para consertar, pega um carro emprestado e passa por situações inimagináveis.

 
Primeiro, sofre tentativa de assalto, depois atropela um rapaz (Reynaldo Gianecchini) de bicicleta... Ao filme falta ritmo e cansam as situações semelhantes, algumas até constrangedoras, e todas sem graça nenhuma. Enquanto isso, o pequeno trata o pai como se fosse super-herói.

Durante entrevista à imprensa em São Paulo, o diretor Paulo Fontenelle (“Intruso”) relata que decidiu fazer um longa-metragem todo em 3D para mostrar pela primeira vez que o Brasil também pode filmar neste formato tão bom quanto os blockbusters norte-americanos, e “abrir caminho para os próximos que virão”. O orçamento foi de 30% a mais (R$ 8 milhões) do que se fosse feito apenas em 2D. Para tanto, foram usados os mesmos equipamentos utilizados em “Homem-Aranha” e a finalização foi feita em Los Angeles.

Como produto final, apenas as primeiras imagens podem ser vistas verdadeiramente em três dimensões; no restante, porém, nada justifica o uso daqueles óculos ruins e pesados durante uma hora e meia de projeção – além de o ingresso nos cinemas custar mais caro.

Há uma cena após os créditos, mas não é preciso esperar. Ela é totalmente dispensável.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA

                       

Antonio Carlos Egypto



O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA.  Portugal, 2010.  Direção e roteiro: Manoel de Oliveira.  Com Ricardo Trêpa, Pilar Lopez de Ayala, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra, Filipe Varga.  95 min.



Grande mestre do cinema, o cineasta português Manoel de Oliveira realizou este “O Estranho Caso de Angélica” aos 102 anos de idade, em 2010.  Em 2012, apresentou nos festivais “O Gebo e a Sombra” e está filmando “A Igreja do Diabo”, baseado em contos de Machado de Assis, com Fernanda Montenegro e Lima Duarte no elenco.  Impressionante, não?

Manoel de Oliveira

Angélica (Pilar Lopez de Ayala), uma mulher lindíssima, morre poucos dias depois de se casar.  Sua família, que está bem de vida, chama com urgência um fotógrafo profissional para registrar a moça morta no auge da juventude e da beleza.  Com efeito, Issac (Ricardo Trêpa, neto do diretor), o jovem fotógrafo, fica impressionado com ela.  Naturalmente, por sua beleza, mas, principalmente, porque ao ser retratada ela se move, pisca para ele.  E só para ele.  Ninguém mais vê.

A partir daí, ele se tornará obcecado por ela.  Procurará encontrar nas fotos que tirou o mistério da criatura e da situação.  Em busca do registro visual revelador, como o de Antonioni, em “Blow-Up”.



Issac passa a conviver com a imagem de Angélica e com ela, como um fantasma.  De sujeito reservado e até antissocial, como comprova seu convívio na pensão onde vivia, o homem passa a ser um enamorado, um romântico.  O amor produzindo mudanças radicais no comportamento das pessoas.  Mas que espécie de amor será esse?  Ao que poderá levar?

Essa história realmente estranha, sobrenatural, dá margem a que Manoel de Oliveira explore efeitos especiais muito interessantes.  Ninguém nunca viu antes pessoas voando nos filmes dele, marcados pelo realismo e pela reflexão sobre a vida.  O que não significa que ele não tenha uma atração pelo inusitado, pelo surreal.  Esse caminho, complementado por uma erudição visível, já foi capaz de produzir belos trabalhos em sua vasta obra cinematográfica.  Muitas vezes, também, ele escolhe textos literários que bebem nessas fontes.

“O Estranho Caso de Angélica” perscruta a alma humana por meio da perplexidade romântica de Issac.  De alguma forma, ele sempre viveu num outro mundo.  Mas, estando à parte, manifestava uma sensibilidade especial.  Isso não dizia respeito apenas à beleza feminina, mas também às questões sociais, como o trabalho na terra que ele registrava, acompanhando trabalhadores rurais portando enxadas.



Sua câmera, assim como a do cinema de Manoel de Oliveira, está atenta a tudo, se interessa pelas agruras e mistérios do mundo e pensa sobre ele.  Constantemente.  Um ser solitário que pesquisa o seu ambiente e o mundo.  A câmera é seu maravilhoso instrumento, o meio de produzir esse conhecimento.  Na fotografia, que se move transformando as coisas, está o próprio cinema.  O centenário realizador continua a crer no seu meio de abordar e compreender as coisas, com uma juventude de fazer inveja a qualquer um de nós.

Conhecer a obra de Manoel de Oliveira é beber dessa fonte inesgotável de saber, culto e elegante.  Ao mesmo tempo, encarar uma provocação intrigante e misteriosa, como a história de Angélica e do seu fotógrafo póstumo.



“O Estranho Caso de Angélica” foi o filme de abertura da sessão Un Certain Regard, no Festival de Cannes 2010, e foi também o filme de abertura da 34ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  Só agora chega à exibição comercial nos cinemas.  Antes tarde do que nunca.

A obra de Manoel de Oliveira em DVD no Brasil ainda é também muito modesta, em relação à sua produção.  Poucos títulos estão disponíveis.  Está mais do que na hora de suprir essa lacuna.  Estão esperando o quê?


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

FESTIVAL DE CURTAS

                         

Antonio Carlos Egypto


Já está acontecendo o 24º. Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.  O evento, já tradicional, reúne este ano mais de 400 filmes de 50 países, distribuídos em sessões com 5 ou 6 curtas, cada uma, de diferentes mostras.  Há a mostra panorama paulista, dedicada ao cinema que é feito no Estado, há a mostra Brasil, que cobre a maioria dos estados brasileiros, a mostra latino-americana e a internacional.  Além dessas, há uma série de mostras temáticas, como cinema de desbunde, estado crítico, black brasil, dark side, libercine, etc.  É tanta opção, que é difícil escolher.  E é tudo gratuito, com ingressos distribuídos antes de cada sessão.




Os cinemas que exibirão os filmes são o Cinesesc, a Cinemateca Brasileira, o Museu da Imagem e do Som, o Espaço Itaú Augusta, o Cine Olido, o Centro Cultural São Paulo e o CINUSP.  Há também cursos, encontros e debates, e o cinema na comunidade, sendo apresentado em vários CEUs e centros culturais da zona leste da cidade.  Além disso, a mostra itinerante chegará às cidades de Sorocaba e Votorantim.

Na abertura, realizada ontem (22/08/2013), foram exibidos cinco filmes selecionados, que puderam mostrar a criatividade da produção em curta-metragem e o seu caráter de experimentação.

CALCUTTA TAXI, do Canadá e Índia, é brilhante, ao compor uma história que surpreende a cada momento dos 20 minutos do filme.  O brasileiro MALÁRIA, de Edson Onda, usa a linguagem gráfica com enorme talento e criatividade, nos seus 6 minutos de duração.  Um bando de girafas, numa sequência de mergulhos acrobáticos radicais, é o tema do francês 5 METRES 80, de 6 minutos.  A MULHER QUEBRADA, do Uruguai, cria, em 8 minutos, um suspense bem eficiente.  E WALKING THE DOGS, da Inglaterra, apresenta um diálogo da rainha com um homem simples do povo, no Palácio de Buckingham.  São 25 minutos de um papo interessante entre alguém que tem toda a fama e conhecimento e alguém sem nenhuma.  Um momento de felicidade da rainha foi passear com seus cachorros.  Hoje leio notícia no jornal, dando conta de que a presidenta Dilma saiu de moto passeando por Brasília, sem que, praticamente, ninguém soubesse.  Coisas banais, inacessíveis à solidão do poder, lá e cá. 


A SORTE EM SUAS MÃOS

                         

Antonio Carlos Egypto




A SORTE EM SUAS MÃOS (La Suerte En Tus Manos).  Argentina, 2012.  Direção: Daniel Burman.  Com Jorge Drextler, Valeria Bertuccelli, Norma Aleandro, Luis Brandoni.  110 min.


Há quem creia que o que tem de nos acontecer acontece.  A nossa vida pode já estar pautada por um destino ao qual não temos acesso, mas intuímos seus caminhos.  Quem sabe nos coloquemos inconscientemente em sua rota.  Ou, talvez, façamos escolhas que nos parecem não terem sido feitas por nós.  Decidimos, sem nos darmos conta do que fizemos ou por que fizemos.  Escolhas conscientes e planejadas também existem e, seguramente, direcionam nossos rumos.  Embora nem sempre se realizem como gostaríamos.  Algumas vezes, apesar de nosso empenho, o que se dá é o fracasso da proposta ou da tentativa.  Há casos em que nós mesmos solapamos nossas escolhas, inviabilizando-as com atitudes que as contradizem ou põem tudo a perder.  De qualquer modo, pode-se dizer que a sorte está, de alguma forma, em nossas mãos.



Estas são algumas das questões suscitadas pelo novo filme de Daniel Burman, “La Suerte en Tus Manos”.  Ele é um cineasta muito hábil em lidar com os incômodos e ambiguidades dos relacionamentos humanos e, de um ponto de vista contemporâneo, considerar as influências de valores morais, étnicos e religiosos.

O personagem Uriel (Jorge Drextler) confia pouco em si mesmo, na relação com as mulheres.  Está vivendo um divórcio recente, cuidando de dois filhos, e teme pela aceitação delas, já que devem lhe faltar atributos sedutores.  No entanto, é um bem sucedido empresário de finanças, tocando um escritório que herdou do pai, e um talentoso e autoconfiante jogador de pôquer.  Vai daí que uma antiga namorada, que o deixou tempos atrás, reaparece do nada.  E também está saindo de um relacionamento.  Buscando reconquistá-la, ele mente.  Ou, melhor, quando vê já mentiu.  Hábitos de um jogador bem sucedido, que costuma enganar seus parceiros no baralho?  Como uma mentira para se sustentar exige outras, o imbroglio está formado.



Conversando com um rabino, Uriel procura validar seus atos mentirosos frente à Torá e pede sua ajuda.  Mas isso é complicado demais.  A verdade é essencial para o livro sagrado.  O que será que a Torá fala sobre o pôquer?  Parece que nada contra.  Como é possível ter êxito no pôquer sem mentir?  Impossível.  Então...

Afinal, por que é tão difícil lidar com a verdade dos fatos?  A sedução, por definição, engendra uma mentira?  Glória (Valeria Bertuccelli), a ex-namorada que está de volta, o abandonou por causa de suas manias e mentiras.  Não seria justamente o momento de reconstruir a relação em outras bases?  Mas se, já no primeiro encontro, ele omitiu que não poderia transar com ela naquele dia porque havia acabado de se submeter a uma vasectomia, como evitar que ela se sinta rejeitada?

“A Sorte Em Suas Mãos” é, sem dúvida, um filme inteligente, instigante, rico de sugestões e possibilidades.  Argentino, judaico e universal.  Como, aliás, todos os filmes de Daniel Burman.  Eu destacaria três outros trabalhos dele, de que gosto muito: “O Abraço Partido”, de 2004, “As Leis de Família”, de 2006, e “Dois Irmãos”, de 2010.  São filmes que também tratam do cotidiano atual, com ironia e bom humor, sempre provocando reflexões com base em elementos e situações concretos.



Chama a atenção, ainda, que o protagonista masculino do filme seja o ótimo cantor e compositor uruguaio Jorge Drextler, que levou o Oscar pela canção El otro lado del río, incluída no filme de Walter Salles, “Diários de Motocicleta”.  Aqui, ele trabalha como ator principal, dá conta do recado e não canta.  Mais um talento que ele nos revela.

A atriz Valeria Bertuccelli é muito expressiva e comunicativa, nos conquista ao desempenhar muito bem o seu papel.  Passa todas as sensações e sentimentos de que precisa para provocar nossas reflexões a respeito do que vemos.




Ainda temos a veterana e brilhante Norma Aleandro, no papel da mãe de Glória, que faz um programa de rádio sobre literatura, de alto nível.  Dá para imaginar?  Em suma, um filme envolvente e cativante, que quando acaba a gente ainda queria mais.


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Os Sabores do Palácio


Tatiana Babadobulos




Os Sabores do Palácio (Les Saveurs du Palais). França, 2012. Direção e roteiro: Christian Vincent. Com: Catherine Frot, Jean d'Ormesson, Hippolyte Girardot, Arthur Dupont. 95 minutos


Filme integrante do Festival Varilux de Cinema Francês, evento que aconteceu em maio em São Paulo e em outras cidades brasileiras, “Os Sabores do Palácio” (“Les Saveurs du Palais”) estreia esta semana nos cinemas.

O longa-metragem conta a história real (mas com boa dose de ficção) de Hortense Laborie (Catherine Frot), renomada chef de cozinha que mora no interior da França, na cidade de Périgord, e é nomeada pelo presidente da República a ser a sua cozinheira no Palácio do Élysée, em Paris.

A história é contada em flashback quando Hortense está executando um trabalho na Antártica e uma equipe da televisão australiana descobre que a chef passou dois anos trabalhando no palácio, enquanto François Mitterrand era presidente. Por trabalhar diretamente com o presidente, e ter algumas audiências com ele para conhecer o seu gosto, ela precisa enfrentar a inveja e o machismo dos chefs da cozinha central. Mas ela se impõe e seus pratos coloridos e saborosos logo o seduzem.

Entre pratos salgados e doces de encher os olhos, “Os Sabores do Palácio” conta uma história de bastidores da presidência, com interpretações bem humoradas, além do lado jovial, que conta com a atuação de Arthur Dupont, no papel do confeiteiro.


Hortense não era uma pessoa fácil de lidar e a atriz Catherine Frot sabe exatamente como dosar mau humor e rispidez necessários para se manter no comando. A intimidade com Mitterrand é retratada com cuidado e, entre uma taça de vinho e outra, chef e presidente conversam sobre os sabores da infância.

A direção de Christian Vincent foca na cozinha, mas o realizador não se esquece da elegância que o palácio possui. Para as filmagens, ele conseguiu autorização especial enquanto o presidente Nicolas Sarkozy (então presidente durante as  filmagens) estava fora, mas a maioria das cenas foi feita longe do Élysée. Já as cenas geladas da Antártica foram filmadas na Islândia.

“Os Sabores do Palácio” é daqueles filmes para assistir e encher os olhos. O caminho após a sessão de cinema pode ser o restaurante francês mais próximo!

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Por Que Você Partiu?



Tatiana Babadobulos


Brasil, 2013. Documentário. Direção: Eric Belhassen. Com: Emmanuel Bassoleil, Erick Jacquin, Laurent Suaudeau, Frédéric Monnier, Alain Uzan, Roland Villard. 94 minutos

O que seis chefs de cozinha selecionados e o documentarista Eric Belhassen têm em comum? Todos saíram da França e vieram para São Paulo e Rio de Janeiro. O diretor questiona a si mesmo o motivo de sua viagem, mas faz a mesma pergunta aos renomados chefs: “Por Que Você Partiu?” 

Este é o nome do documentário de longa-metragem falado em português e francês que está em cartaz em pequeno circuito em São Paulo e Rio de Janeiro. A obra desvenda os diferentes motivos pelos quais as pessoas deixam as suas casas e suas famílias em busca de um objetivo às vezes nem sempre traçado.

Emmanuel Bassoleil, do restaurante Skye (localizado no alto do Hotel Unique, em São Paulo), adorava viajar e é ele quem começa com a sua história, abre a porta de sua casa e conta, de frente para a câmera de Belhassen, por que saiu de casa e decidiu ser cozinheiro do outro lado do oceano Atlântico.

Já Frédéric Monnier, da Brasserie Rosário no Rio de Janeiro, teve uma desilusão amorosa e decidiu sair de onde estava. Erick Jacquin, de La Brasserie Erick Jacquin também em São Paulo, recebeu uma proposta e veio ao Brasil. Aqui, descobriu muitas coisas agradáveis e a plateia confere traços de sua personalidade forte. “Me mostrei [no filme] do jeito que eu sou. Eu bebo, eu fumo, eu xingo. Se bem que o filme foi feito em 2009 e eu já parei de fumar”, disse Jacquin em entrevista concedida à imprensa.

Há ainda as histórias de cortar o coração de Alain Uzan, do restaurante Avek, Laurent Suaudeau, da Escola de Arte Culinária Laurent, e Roland Villard, do Sofitel.

 
Entre talheres e panelas, o espectador desvenda o que há por trás dos sabores que eles preparam em suas cozinhas, muitas vezes local solitário para um chef. Além dos depoimentos deles, o realizador percorre dois mil quilômetros por estradas francesas atrás de repostas de suas famílias. Belhassen quer saber não apenas da mãe de Jacquin o motivo pelo qual ela acredita que ele tenha partido, mas também de seus próprios pais, que lamentam a sua fuga e sentem saudades. “Por Que Você Partiu?” é um filme que desvenda os mistérios de seis personagens, mas é também um documentário de autoconhecimento. Ao mesmo tempo, o diretor ainda faz o espectador refletir e se fazer a mesma pergunta – caso seja pertinente, claro.

“Por Que Você Partiu” fala de gastronomia, de sabores, apresenta pratos de dar água na boca, mas fala principalmente de família, de separação, de despedida, de reencontro. Há momentos em que é fácil perder as estribeiras e sentir aquele nó na garganta. Há também momentos em que não é possível se policiar... quando se dá conta, há lágrimas escorrendo dos olhos.

Em seu filme de estreia que não teve qualquer patrocínio, Eric Belhassen participou do Festival do Rio e foi convidado para a abertura do 30th Miami International Film Festival, na categoria culinária. O diretor afirmou que pretende ainda fazer mais dois documentários para formar uma trilogia. Um será sobre a separação amorosa e o outro, sobre a última separação – a morte.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

FLORES RARAS


Antonio Carlos Egypto




FLORES RARAS (Reaching for the Moon).  Brasil, 2013.  Direção: Bruno Barreto.  Com Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf, Treat Williams, Marcelo Airoldi, Lola Kirke.  118 min.


“Flores Raras”, de Bruno Barreto, trata de um triângulo de amor lésbico, real, que envolveu duas mulheres historicamente importantes, no Rio de Janeiro, nos anos 1950 e 1960.

O vértice do triângulo é Lota (Maria Carlota) de Macedo Soares (Glória Pires), arquiteta e paisagista autodidata, uma figura forte, empreendedora, autoconfiante e dominadora.  Ela foi responsável por grande parte do projeto do Parque do Flamengo, no famoso aterro, durante o governo de Carlos Lacerda, que também é personagem do filme, interpretado por Marcelo Airoldi.  Acabou perdendo o controle sobre o projeto, mas sua contribuição parece ter sido a mais importante para essa obra.

Outro lado do triângulo é a grande poetisa norte-americana, Elizabeth Bishop (Miranda Otto), uma mulher de estrutura frágil e grande sensibilidade, que fazia das viagens seu modo de vida, e de fuga, e tinha no alcoolismo sua válvula de escape.  Vencedora do Prêmio Pulitzer de 1956, quando estava vivendo e trabalhando na casa construída para ela por Lota, no terreno de propriedade da arquiteta, onde também vivia e convivia com Mary (Tracy Middendorf). 



A julgar pelo que mostra o filme, Mary teve pouca atuação pública.  Teve papel relevante como assistente de Lota na construção do Parque do Flamengo, mas seu principal papel nessa história foi o de mãe de uma criança adotada por elas, que amou e de quem cuidou com carinho.

A história amorosa homossexual que envolveu as três mulheres foi muito intensa e bonita, embora marcada por muitos conflitos e trazendo, inevitavelmente, ciúmes e perdas.  E Bruno Barreto não fez dela um dramalhão carregado.  Ao contrário, traz beleza e leveza à trama, além das imagens de cartão postal do Rio de Janeiro e de Nova York, onde se passa parte da história. O filme é limpo e bonito todo o tempo.



Grandes atrizes garantem o espetáculo.  Glória Pires, como sempre brilhante, explorou muito bem o que poderíamos caracterizar como o seu lado masculino e construiu um grande personagem, expressando-se na maior parte do tempo em inglês, no relacionamento com as outras mulheres, alternando-se com a interação com os brasileiros da trama, falando em português.

A atriz australiana Miranda Otto dá a dimensão da grandeza da poetisa, dos seus estados de alma alterados, com sutileza, e faz uma dependente do álcool que foge dos clichês.  Belo desempenho.  A norte-americana Tracy Middendorf completa o triângulo, dando a dimensão dramática apropriada para um personagem em permanente conflito na situação. 



Bruno Barreto, diretor de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976, “Gabriela”, de 1983, e “O Que É Isso, Companheiro”, de 1997, chega com “Flores Raras” ao seu 19º. filme.  É uma produção brasileira com ares internacionais, falada a maior parte do tempo em inglês.  Pode disputar o Oscar sem cair na categoria de filme estrangeiro.  Apesar de o diretor declarar que teve dificuldades de financiamento, em função do tema gay, que ainda persiste como preconceito junto a empresas e investidores, o número de financiadores que aparece nos créditos iniciais do filme é enorme.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

VENDO OU ALUGO


Antonio Carlos Egypto




VENDO OU ALUGO.  Brasil, 2012.  Direção: Betse de Paula.  Com Marieta Severo, Nathalia Timberg, Marcos Palmeira, Sílvia Buarque, Bia Morgana, Pedro Monteiro. 88 min.

Um casarão no alto do morro, no Rio de Janeiro, é herança de família para várias gerações de mulheres.  Maria Alice (Marieta Severo) vive lá com sua mãe, Maria Eudóxia (Nathalia Timberg), sua neta Madu (Bia Morgana) e sua filha Baby (Sílvia Buarque), essa última, quando não está viajando, em busca de conexões cósmicas com o planeta.  Se a família já esteve bem, no  passado, agora as coisas andam muito mal, as dívidas se acumulam, o IPTU já não é pago há dez anos e, a continuar nessa balada, a própria casa irá a leilão.


 Sucede que a casa, embora esteja velha e descuidada, é obviamente valiosa.  Porém, há um problema: ela agora está cercada pela favela.  Quem irá comprá-la ou alugá-la nessa situação?Bem, parece que pode haver gosto para tudo e uma casa nessas condições pode interessar a um gringo, para nela instalar um hotel que prometerá ampla inserção na comunidade e na cultura local, com muito risco e aventura.  Perfeito!  Mas a casa pode interessar também a um pastor, para nela situar sua igreja e ter todos os pecadores ao alcance da mão, como os traficantes e dependentes, com a perspectiva de crescimento rápido da sua religião.

Há mais um dado importante: justamente quando a casa está sendo visitada, com vistas à venda, uma UPP – Unidade de Polícia Pacificadora – promete ocupar o local e afastar os traficantes do controle do morro.  Será que isso vai ajudar ou prejudicar a venda?


 Com esse ponto de partida, “Vendo ou Alugo” procura fazer comédia, contando com um grande elenco, a atualidade do tema e adotando uma postura de não moralizar o assunto.  Evita, também, qualquer tipo de apelação ao sucesso fácil: não explora cenas de sexo, grosserias, muitos palavrões ou escatologia.  Poderia, até, aproveitar melhor o desejo sexual que envolve dois protagonistas: Maria Alice e o traficante Jorge (Marcos Palmeira).  Quando aborda o consumo de drogas, isso aparece com leveza.

A base de toda a ação é formada por personagens caricaturizados.  Na realidade, são estereótipos, seguem o padrão esperado pelo público.  Nesse sentido, não inovam.  Isso até que poderia resultar muito divertido, mas não é o que acontece.  Algumas situações são realmente engraçadas, mas não são muitas.  Acabam caindo no lugar comum, o da situação cômica que já foi vista ou é muito parecida com outras que já foram vistas muitas vezes.  Um pouco mais de criatividade na elaboração dessas situações, com esses mesmos personagens, poderia ter resultado num trabalho muito atraente e envolvente.  Como está, fica no meio do caminho.  Serve como entretenimento que respeita o espectador, é fácil de ver, tem alguma graça.  Mas deixa a sensação de que falta alguma coisa para que o filme funcione realmente.  Claro que não é o fator apelativo.  O elenco é ótimo, a direção é boa, a trama proposta é apropriada.  Mas, para uma comédia, falta um timing de humor mais forte e eficiente.  E um bocado de boas piadas, para rechear a trama com mais risos.



“Vendo ou Alugo” veio carregado de prêmios do 17º. Cine PE.  Conquistou em Recife doze premiações: melhor filme, direção, roteiro, montagem, trilha sonora, direção de arte, atrizes protagonista e coadjuvante (Marieta Severo e Nathalia Timberg), ator coadjuvante (Pedro Monteiro), tendo sido agraciado tanto pela crítica quanto pelo júri popular.  Vem, portanto, cacifado para conquistar bom público nos cinemas 

domingo, 4 de agosto de 2013

APENAS O VENTO

Antonio Carlos Egypto



 

APENAS O VENTO (Csak A Szél).  Hungria, 2012.  Direção: Benedek Filegauf.  Com Katalin Toldi, Gyöngyi Lendvai, Lajos Sárkány.  86 min.


 

O filme húngaro “Apenas o Vento”, que levou o Urso de Prata no Festival de Berlim 2012, trata de crimes étnicos cometicos contra ciganos pobres e trabalhadores.  Numa aldeia da Hungria, próxima de uma floresta, vive uma população carente, em que o principal, e quase único, símbolo de contemporaneidade é o celular.  No mais, falta tudo: condições de moradia dignas, comida, roupa, atendimento à saúde.  Há escolas, aparentemente bem equipadas, que podem ser alcançadas por meio de caminhadas a pé e percurso de ônibus.  Mas nelas parece faltar a presença de educadores atentos, a julgar por uma cena de tentativa de estupro no próprio espaço escolar.

 

As pessoas se acomodam e se adaptam como podem a uma vida de sofrimento e penúria, mas seguem vivendo.  Ou seguiriam, se não houvesse um plano incompreensível de eliminação de famílias de ciganos, que executa um a um de seus membros, inclusive crianças e idosos.  Isso sem nenhum motivo ou razão aparentes e sem que nada se resolva, nem se descubra ou se puna quem pratica tais crimes.  Nem mesmo uma brigada de vigias da própria comunidade cigana consegue impedir que os crimes sigam ocorrendo. 



 

Com base nesses fatos lamentáveis, o diretor Benedek Filegauf constrói uma abordagem fílmica ficcional, que se centra numa família, dessas marcadas para morrer apenas pelo fato de serem ciganas.

 

A mãe, chamada de Passarinha, vive com seu pai inválido e dois filhos, um menino e uma adolescente, numa rotina que envolve dois empregos de faxineira.  Isso exige que ela desperte ainda de madrugada, deixe sua família à sua própria sorte, caminhe, ande de ônibus, faça o seu trabalho pesado e retorne à noitinha, fatigada.  Seu marido está em Toronto, no Canadá, e há a perspectiva de que, quando houver algum dinheiro, a família possa ir lá ter com ele.  Se a sentença de morte, latente, não se concretizar.  Vemos as andanças e problemas da adolescente Anna e, principalmente, do menino Rói, que, em vez de ir à escola, perambula pela mata, faz pequenos roubos nas casas das famílias dizimadas que ali moravam e descobre um esconderijo onde possa ficar e deixar suas coisas.



 

Esses personagens e essa situação em que se encontram nos são mostrados por câmeras que estão tão próximas, que, em alguns casos, mal se pode distinguir o que está acontecendo.  Especialmente em cenas escuras, como o despertar da Passarinha antes do nascer do sol, na casa sem luz.  Por outro lado, tal proximidade traz a experiência de viver intensamente o que cada personagem experimenta.  A dureza da vida é mostrada da maneira mais concreta possível e a angústia que os cerca, de forma difusa, também.

 

É um filme muito eficiente no propósito de realizar essa denúncia de crimes étnicos gratuitos que ficam sem solução.  Além dos preconceitos que aparecem em diversas cenas, em que a agressividade e o destrato às pessoas revelam que isso acontece apenas porque são ciganos.  Mostrar ciganos sozinhos, e não em grupo, cantando e dançando, também é uma forma de desconstruir o estereótipo a respeito da etnia.  A discussão tem um alcance que não se restringe ao contexto húngaro ou só aos ciganos, se aplica a todas as discriminações racistas. 




O senão é que o filme é também difícil, exige muito do espectador.  Não se preocupa em explicar ou tornar mais facilmente compreensível o que acontece ou ao que se vincula cada cena ou situação mostrada.  Produz um quebra-cabeças que vai fazendo sentido ao nos mostrar uma realidade vivida pelos discriminados, os excluídos, literalmente falando.  Não é agradável tolerar cenas sofridas, com muita miséria, lixo, escuridão.  Mas que tudo isso mexe com a gente, e muito, não há dúvida.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

NA QUADRADA DAS ÁGUAS PERDIDAS

Antonio Carlos Egypto




NA QUADRADA DAS ÁGUAS PERDIDAS.  Brasil, 2011.  Direção: Wagner Miranda e Marcos Carvalho.  Com Matheus Nachtergaele.  74 min.



“Na Quadrada das Águas Perdidas” tem dois diretores, Wagner Miranda e Marcos Carvalho, e um só ator, o brilhante Matheus Nachtergaele.  E esse ator único não diz uma palavra durante todo o filme.  Emite sons, diferentes ruídos decorrentes de sua movimentação, grunhidos e até um grito, mas não palavras.



Não há falas, mas há belas imagens e uma trilha sonora espetacular do grupo Matingueiros, de Geraldo Azevedo e de Elomar Figuera Melo, que preenche toda a narrativa exclusivamente com música instrumental.  Essa bela trilha pode ser apreciada, também, independentemente da película.

O filme todo se passa na caatinga e mostra um nordestino lutando para sobreviver, em meio a uma natureza seca e inóspita, convivendo com os animais.  Entre eles, os urubus estarão sempre à espreita, trazendo o agouro da morte como perspectiva.



O catingueiro realiza sua odisseia pela sobrevivência naquele ambiente típico do nordeste brasileiro, marcado por pequenas árvores espinhosas, sem folhas durante a seca, mas ali também há cactus suculentos que podem servir de alimento e, apesar de escassa, alguma água pode ser encontrada.  A aridez não é absoluta, embora o custo da sobrevivência possa ser alto.  O burro que o catingueiro levava não resiste, assim como seu precário instrumento de locomoção.  Uma cabrita tem de ser entregue à onça, que irrompe no ambiente, para que seja possível prosseguir a caminhada.

Mas o convívio do ser humano com a natureza se mostra possível e até harmonioso, apesar de tudo.  Esse enfoque é um trunfo do filme.  Mostra algo conhecido por outro prisma, oferecendo ao espectador uma nova oportunidade de reflexão. 



A fotografia dessa poética produção pernambucana, rodada no vale do São Francisco, ressalta a inegável beleza da caatinga, além de sua originalidade.  A caatinga é considerada o único bioma exclusivamente brasileiro.

Um grande ator, Matheus Nachtergaele, viabiliza tudo isso por meio de uma interpretação visceral, valendo-se dos seus muitos recursos de expressão corporal, que dispensam quaisquer palavras, até mesmo as de uma poesia que poderia estar emoldurada numa letra de música.  Grande desempenho.