sexta-feira, 30 de novembro de 2012

HOLY MOTORS


Antonio Carlos Egypto


HOLY MOTORS (Holy Motors)França, 2012.  Direção: Leos Carax.  Com Denis Lavant, Kilie Minogue, Eva Mendes, Michel Piccoli, Edith Scob.  115 min.


Um homem – o sr. Oscar (Denis Lavant) – é transportado pela noite de Paris numa limusine, tendo uma mulher como motorista e todos os recursos necessários para desempenhar o seu trabalho no interior do carro, tais como roupas, máscaras, perucas.  E se percebe, também, que ele tem uma programação a cumprir, que se espera que ele siga horários.  Não deve se atrasar para a tarefa seguinte.

E o que faz esse homem?  Viaja de uma vida a outra.  Tem um certo tempo, ora, para agir como industrial, ora, como um pai de família que vai buscar a sua filha numa festa, ora, como um assassino ou como um monstro que sai do esgoto, come flores e ataca as pessoas.  Esse último personagem é o mesmo do curta de Leos Carax, incluído no filme “Tokyo”, de 2009.

Viver muitas vidas simultaneamente, experimentando os sentimentos e os riscos inerentes a cada uma delas, pode ser algo muito estimulante.  Mas, enquanto um trabalho, está sujeito à rotina como toda e qualquer ocupação regular.  Falta até tempo para se alimentar.  Ou a variedade de experiências acaba por tirar-lhe o apetite.  A principal vantagem é que tudo pode ser reversível, até mesmo a morte.




Vemos também que a história de Oscar não é única.  Ao recolher, a limusine que o transportou estaciona ao lado de muitas outras e, quando não há mais humanos à vista, elas até trocam impressões, umas com as outras, sobre como foi a jornada que acabaram de viver.

O diretor Leos Carax gosta de trabalhar com personagens intrigantes, que surpreendem, que não se regem pelo realismo e, sim, pela alegoria.  Mas que provocam, fustigam, incomodam.  E deixam para o espectador concluir o que bem entender do que lhe foi mostrado.




Talvez justamente por estar distante dos parâmetros do cinema comercial, Carax filmou relativamente pouco, ao longo de sua carreira até aqui.  Mas é um diretor que tem talento para criar universos próprios, estranhos, algo incompreensíveis, por meio de seus personagens fora do comum e pelo clima noturno e soturno que geralmente os envolve. 

Seu principal trabalho anterior foi “Os Amantes de Point Neuf”, de 1991.  Lá, como aqui, é Paris à noite o cenário.  E é a cidade que, com sua beleza e suas luzes, acaba por fazer um contraponto ao espírito noir e à estética suja dos filmes do cineasta.  “Holy Motors” fez parte da seleção do Festival de Cannes 2012 e foi exibido no Festival do Rio 2012.


terça-feira, 27 de novembro de 2012

EU E VOCÊ

                  
Antonio Carlos Egypto




EU E VOCÊ (Io e Te).  Itália, 2011.  Direção: Bernardo Bertolucci.  Com Jacopo Olmo Antinori, Tea Falco, Sonia Bergamasco, Pippo Delbono, Veronica Lazar.  97 min.
Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori) é um adolescente de 14 anos, em busca de espaço para sua privacidade e autonomia.  Tem problemas e dificuldades no relacionamento com colegas, já que é um tanto intolerante e ríspido.  Em casa, com a mãe, o conflito é ainda mais intenso, já que envolve um amor edipiano explicitado, em meio a constantes brigas e discussões.
Olívia (Tea Falco), irmã mais velha de Lorenzo por parte de pai, fazia com muito talento fotografia artística, até afundar na dependência de drogas, especialmente da heroína, de forma intensa.
Lorenzo e Olívia são os dois personagens que conduzem a trama do novo filme do grande diretor Bernardo Bertolucci.  Por razões diversas, eles acabam convivendo, por um período de tempo, num porão, escondidos das outras pessoas.  O encontro se dá de modo fortuito, inesperado para ambos.  É por aí que se apresenta a oportunidade do convívio que resulta em conhecimento mútuo, já que, apesar de irmãos, eles estavam separados e nunca se viam.
Criar uma situação que confina dois personagens por um período de tempo facilita a exposição das diferenças do mundo de ambos, do que é difícil de enfrentar para cada um e de que modo esses mundos podem se tocar e se entender.  O que interessa ao diretor é trabalhar sentimentos, expectativas e as relações possíveis entre os irmãos.  Consequentemente, o que muda em cada um com esse convívio forçado e confinado.
A transformação dos personagens e da relação entre eles vai sendo mostrada de forma progressiva e realista, apesar da situação artificial criada.  “Io e Te” não cai na cilada da redenção, traz esperanças, mas mantém os limites.  Crescer e mudar é possível, mas não esperemos milagres.  É por aí.



Bernardo Bertolucci

Bernardo Bertolucci, um dos grandes nomes do cinema italiano, faz mais um trabalho rico e intrigante, focado em relacionamentos humanos, o que é uma constante na sua obra.  Basta lembrar de “Os Sonhadores”, de 2004, ou de “O Último Tango em Paris”, de 1972, ótimos filmes que também colocam personagens em espaços fechados por um bom tempo.
Evidentemente, a trajetória de Bertolucci é tão marcante que há muito mais do que isso em filmes notáveis, como “Antes da Revolução”, de 1964, “O Conformista”, de 1970, “1900”, de 1973, “La Luna”, de 1981, “O Céu que nos Protege”, de 1990, “Beleza Roubada”, de 1996, ou “Assédio”, de 1998.  É um autor cinematográfico, que sempre tem muito a dizer, com belas imagens.
“Io e Te” é um dos filmes da mostra contemporânea do 8º. Festival de Cinema Italiano no Brasil.  Outros destaques dessa mesma mostra são: “César Deve Morrer”, dos irmãos Taviani, “O Comandante e a Cegonha”, de Sílvio Soldini e “Romance de um Massacre”, de Marco Tulio Giordana. 



Giancarlo Giannini

Quem desejar rever a grande cinematografia italiana dos anos 1970 não pode perder a retrospectiva que homenageia o ator Giancarlo Giannini, que veio a esse Festival do Cinema Italiano para conversar com o público e possibilitar a revisão de grandes filmes que estrelou, como “Amor e Anarquia”, de 1973, “Pasqualino Sete Belezas”, de 1976, ou “Mimi, o Metalúrgico”, de 1972, todos dirigidos por Lina Wertmüller.  Será exibido também o filme que ele fez com Ettore Scola: “Ciúme à Italiana”, de 1970, e o último e brilhante de Luchino Visconti: “O Inocente”, de 1976. 




O 8º. Festival de Cinema Italiano no Brasil é uma realização da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, Indústria e Agricultura e do Ministério da Cultura, com o patrocínio da Pirelli, e chega a São Paulo em exibições que vão de 26 de novembro a 13 de dezembro de 2012.                              

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA

                        
Antonio Carlos Egypto

ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA.  Brasil, 2012.  Direção e roteiro: Marcelo Gomes.  Com Hermila Guedes, João Miguel, W. J. Solha, Renata Roberta, Inaê Veríssimo.  90 min.


Verônica (Hermila Guedes) acaba de se formar em Medicina e precisa enfrentar a realidade da prática profissional.  Num hospital público de Recife inicia sua carreira na psiquiatria.  Os questionamentos que tal experiência lhe proporcionará serão enormes.  Medicina social no Brasil implica encarar coisas muito difíceis e complexas: a carência muito forte da população, a falta de condições adequadas ao bom atendimento, a crença cega do paciente no poder do médico e, consequentemente, a desilusão diante de sua fraqueza, o desencanto e descrença dos pacientes, a necessidade de realizar um atendimento humanizado que passa pelo lidar com as emoções da médica, a desilusão dos próprios profissionais da saúde, a competitividade entre eles, e muito mais.  É um desafio enorme.



Para quem está vivendo um momento de mudança de vida, assumindo compromissos de adulta de fato, mais difícil.  Lidar com o lado afetivo e amoroso da relação com os homens, outra grande complicação para Verônica.  O sexo, sem amor ou maiores vínculos, pode ser uma saída? 

Acrescente-se a isso uma doença grave do pai, a figura mais importante da vida dela, e que exige sua maturidade nesse momento tão conturbado, e Verônica resolve se autoanalisar por meio de um diário ao gravador.  Seus sentimentos, suas incertezas diante da vida e da profissão, sua angústia existencial, são a matéria-prima de “Era Uma Vez Eu, Verônica”, novo trabalho do diretor Marcelo Gomes.



O cineasta pernambucano já nos deu dois grandes filmes: “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de 2005, e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, de 2009, esse último codirigido por Karim Ainouz.  Com “Verônica”, Marcelo Gomes reafirma sua condição de um dos mais importantes cineastas brasileiros contemporâneos.  Deixa sempre um gosto de quero mais e uma expectativa pelos próximos trabalhos.  Os prêmios obtidos no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no Amazonas Film Festival e no Festival de Cinema de San Sebastian, também comprovam isso.



Mas “Era Uma Vez Eu, Verônica” tem um trunfo especial a ser apontado: o desempenho de Hermila Guedes como protagonista.  Ela consegue passar por todos os poros, olhares, expressões, gestos, postura, o que acontece com a intrincada e angustiada Verônica.  O trabalho dela é essencial para que o filme esteja à altura das reflexões sobre a fragilidade e a fluidez da vida a que se propõe.  E também para mostrar o sofrimento da escolha, algo que de algum modo todo mundo vive, em muitas etapas da existência.  É da sua força que se move o personagem, em relação ao enfrentamento do que assusta, dá medo, mostra o despreparo.  A atuação de Hermila Guedes é espetacular.

“Era Uma Vez Eu, Verônica” focaliza uma vida humana em sua complexidade.  Não se preocupa em ter de contar uma história.  Não precisa, mesmo.  A humanidade do filme salta aos olhos.



sábado, 10 de novembro de 2012

ECOS DA 36ª. MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO



Antonio Carlos Egypto
Este ano acompanhei a Mostra com mais parcimônia: vi 38 filmes.  Levando em conta que minha média histórica tem sido ver em torno de 60 filmes, foi um número modesto.  O suficiente, porém, para destacar entre o que vi ótimos filmes, já esperados pelo histórico de seus realizadores, e descobrir algumas pérolas, aqueles de filmografias menos conhecidas e os de diretores de primeiro ou segundo trabalho.


Além das Montanhas


O filme que eu mais apreciei, como um fruto extremamente saboroso, pelo cuidado da sua construção e profundidade de alcance foi ALÉM DAS MONTANHAS, do cineasta romeno Cristian Mungiu, que já havia me entusiasmado por seus trabalhos anteriores 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS, o melhor filme sobre o aborto na ilegalidade que eu já vi, e a ótima comédia CONTOS DA ERA DOURADA, que detona o totalitarismo de forma hilária e foi concepção dele, que também dirigiu um dos episódios.

Gostei muito de ver o inovador TABU, do cineasta português Miguel Gomes, de quem foi exibida a sua produção, ainda pequena.  Já havia visto e apreciado AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, que foi novamente apresentado.  E conheci A CARA QUE MERECES, menos interessante, mas uma brincadeira no mínimo curiosa, apesar de arrastada, para um longa.

Foram ótimos programas PERDER A RAZÃO, de Joachim Lafosse, diretor que já havia me entusiasmado com LIÇÕES PARTICULARES, de 2008, e PROPRIEDADE PRIVADA, de 2006.  Marco Bellocchio fez um belo filme sobre a eutanásia, em A BELA QUE DORME.  O dinamarquês Thomas Vinterberg filmou o outro lado do abuso sexual, a incriminação de um inocente, em A CAÇA, que complementa o seu famoso FESTA DE FAMÍLIA, de 1998.  O mestre português Manoel de Oliveira, aos 104 anos de idade, não decepcionou com O GEBO E A SOMBRA, uma peça teatral filmada com beleza e simplicidade, que fala ao nosso tempo, apesar da aparência em contrário.  Gostei também de REALITY, o novo filme do italiano Matteo Garrone, de GOMORRA, de 2008.  E revi O ESPELHO, do Tarkóvski, o que valeu a pena.  Mas, convenhamos, não há grandes surpresas aí.

Já os filmes O GUIA PERVERTIDO DO CINEMA e O GUIA PERVERTIDO DA IDEOLOGIA para mim foram boas surpresas.  Os filmes dirigidos pela inglesa Sophie Fiennes abrem espaço para as ideias, às vezes originais, às vezes polêmicas, do filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek e, apesar do estilo palestra, ela encontrou meios visuais ligados aos filmes abordados, colocando o intelectual dentro deles, o que realçou alguns aspectos do assunto tratado e driblou o cansaço, inevitável, nesses casos.


Slavoj Zizek e Os Pássaros


SONATA SILENCIOSA, de Janez Burger, da Eslovênia, conta uma história sem palavras, faladas ou escritas (exceto Circus Fantasticus, no caminhão da trupe), e o faz com eficiência.

Gostei também do filme alemão-turco de Shiar Abdi, VIDAS CURDAS, visualmente bonito, embora com elementos de difícil compreensão para nós.  Também trata de vidas curdas em vias de cometer suicídio a produção do Irã e Iraque, 111 GAROTAS, de Nahid Ghobadi e Pijan Zamanpira, uma viagem alegórica de belas imagens, que acaba por nos remeter à dura realidade daquele povo.  A ÚLTIMA SEXTA-FEIRA, de Yahya Alabdalla, da Jordânia, também tem uma bela fotografia e uma trama razoavelmente estruturada.  Mais intenso e ao mesmo tempo econômico no uso da fala e das emoções, ESTUDANTE, de Darezhan Omirbayev, do Cazaquistão, faz uma boa adaptação de “Crime e Castigo”, de Dostoievski.  O faroeste português ESTRADA DE PALHA, de Rodrigo Areias, não chega a ter uma trama muito bem armada, mas é bonito, visualmente.  E, óbvio, curioso.

EM FAMÍLIA, primeiro filme do diretor norte-americano de ascendência oriental, Patrick Wang, trouxe uma abordagem do relacionamento humano forte e madura.  ISTAMBUL, de Török Ferenc, da Hungria, trata com propriedade da libertação feminina, ainda digna de estranheza em certas situações e contextos.

O documentário LADO A LADO, de Chris Kenneally, dos Estados Unidos, discute os métodos de criação no cinema digital e em película, a partir de depoimentos de quem faz cinema: cineastas, técnicos, artistas.  O AMANTE DA RAINHA é uma produção dinamarquesa, de Nikolaj Arcel, capaz de agradar públicos diversificados.  Já O REI DO CURLING, de Ole Endresen, da Noruega, é bem mais específico, tanto pelo assunto, quanto pelo tipo de humor. Mas funciona.  RENOIR, de Gilles Bourdos, da França, tem a beleza plástica das locações e da procura dos tons das cores dos quadros do pintor retratado.  Vale por isso.

Dos brasileiros da Mostra, o destaque foi para O SOM AO REDOR, uma situação que vai se construindo com muita perícia e nos impacta ao final.  Sem falar do som, que é mesmo envolvente e personagem da história. O trabalho de Kleber Mendonça Filho é muito bom.


Nunca Houve Um Irmão Melhor


Deixei para o final a citação de uma verdadeira pérola da Mostra: o filme do Azerbaijão, NUNCA HOUVE UM IRMÃO MELHOR.  Fui a uma sessão regular do evento, apenas para conferir, garimpar alguma curiosidade ou novidade, e fiquei muito bem impressionado.  O filme do diretor Murad Ibragimbekov tem um tratamento visual rico e caprichado.  A construção da trama é consistente, sensível.  Consegue lidar com o conflito entre intenção e desejo com sutileza e ainda conta com a metáfora das abelhas para explicitar/explicar o desfecho.  Só para encontrar um filme como esse já vale o empenho em frequentar regularmente essa Mostra.


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

HISTERIA


            
Antonio Carlos Egypto



HISTERIA (Hysteria).  Inglaterra, 2011.  Direção: Tanya Wexler.  Com Hugh Dancy , Maggie Gyllenhaal, Jonathan Pryce, Rupert Everett, Felicity Jones.  99 min.


 “Histeria” é um filme de época, que tem uma história curiosa e cativante para contar: a da invenção dos vibradores elétricos.  São objetos que hoje pertencem ao sex shops, ou congêneres, que não escondem sua função de oferecer prazer às mulheres.  Pois é bom saber, e é isso que o filme mostra, que eles já foram encarados como objetivos científicos, capazes de promover a cura, ou pelo menos o alívio, da histeria, doença que acometia grande número de mulheres em fins do século XIX e que perdurou sendo vista como doença até 1952.




 Londres, anos 1880.  Dr. Robert Dalrymple (Jonathan Pryce) tem um consultório médico especializado em tratar da histeria, e procura fazê-lo por meio de massagens no interior da vagina.  Como a histeria era a doença do útero, esperava-se que, com esse tratamento, as mulheres alcançassem o paroxismo.  Sim, porque as mulheres seriam incapazes de chegar ao orgasmo.  E não se tratava de prazer, de sexo ou de sexualidade.  Era uma coisa meramente física, mecânica.
 A clínica foi tendo sucesso e acabou por incorporar o jovem médico, Dr. Mortimer Granville [1833-1900] (Hugh Dancy), que fará muito sucesso  com a massagem manual e acabará entrando para a história por ter criado e patenteado o vibrador elétrico, contando com a colaboração de um amigo rico, fascinado pela eletricidade, papel de Rupert Everett.





 Em meio a essa descoberta, Mortimer vive uma história de amor, ou duas, para ser mais preciso.  Seus romances servem para mostrar o papel da mulher naquele período, os limites impostos a elas e as mudanças que estavam a caminho.  Além disso, confronta-se a medicina tosca, que predominava, com a descoberta dos germes, que mudariam os hábitos de higiene, incorporando a água e o sabão no lavar as mãos, por exemplo.  Põem-se, lado a lado, a prática da medicina da elite e a do atendimento ao povo, exigindo posicionamentos claros dos personagens.





 Enfim, é uma boa discussão, embora o filme a trate de forma leve e ligeira, inclusive divertida. O que mais impressiona é mesmo a negação da sexualidade, mesmo se fazendo massagem nas vaginas das mulheres, manualmente, ou descobrindo o vibrador.  Parece incrível que se pudesse aplicar a masturbação feminina como tratamento assexuado da histeria.
 Foi preciso que virasse o século e os estudos de Freud trouxessem à tona não só o desejo sexual feminino como a sexualidade infantil e se criasse um tratamento terapêutico por meio da palavra, sem massagens ou objetos estimuladores, e descartando, posteriormente, também a hipnose.  A ciência, os tratamentos médicos e psicológicos avançaram enormemente, mas o famoso vibrador continua tão charmoso e sedutor quanto foi no final do século XIX.  Atravessou todo o século XX e continua firme e forte no século XXI.  Conhecer a sua história é, portanto, algo muito interessante e atual.





 “Histeria” faz uma bela reconstituição de época.  Lugares, trajes, transportes mostram uma direção de arte bem cuidadosa.  O seu tom leve, com um elenco que dá bem conta da proposta, serve bem ao intuito do entretenimento.  Mas também ensina enquanto diverte.
 A diretora americana Tanya Wexler fez um bom trabalho, que foi bem recebido no Toronto International Film Festival, de 2011, onde o filme foi lançado.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Um Alguém Apaixonado



 Tatiana Babadobulos

Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love). França e Japão, 2012. Direção e roteiro: Abbas Kiarostami. Com: Tadashi Okuno, Rin Takanashi, Ryo Kase. 109 minutos


Abbas Kiarostami contou muitas histórias no cinema sobre seu país, o Irã, em filmes como “Através das Oliveiras” (1994), “Gosto de Cereja” (1997) e outros. Tal  como o cineasta norte-americano Woody Allen, que andou filmando longe de casa, na Europa (Inglaterra, Espanha, França, Itália), Kiarostami também anda fazendo excursões cinematográficas. Exemplo anterior é “Cópia Fiel” (2010), que se passa na França e na Itália e tem Juliette Binoche como protagonista.


Desta vez, porém, ele vai para a Ásia, mais precisamente para Tóquio, capital japonesa, para contar a sua história que, aliás, demora a desenrolar, tal como é sua característica.


“Um Alguém Apaixonado” (“Like Someone in Love”) mostra uma japonesa ao telefone celular em um bar. Nitidamente está contando uma cascata ao namorado ciumento, que, claro, desconfia da garota.

Mas ela não dá a mínima. Obedece a um homem, entra no carro e viaja para outro lugar. Dorme no caminho e mente, ao telefone, para a avó. Diz que não pode encontrá-la. E, ao desligar, chora. Se arrepende. Mas não volta atrás.




Quando chega ao destino, encontra um velho, de quem não sabe nada, mas até se interessa por sua vida. Faz perguntas, vê fotos espalhadas pela sala, recusa o jantar, vai para o quarto e dorme.


Lentamente, o espectador começa a entender que não trata-se de uma relação qualquer. Ele está interessado em companhia; ela, em oferecer o seu corpo – e a ganhar por isso. Mesmo assim, ainda existe uma relação de respeito, um pouco como se tratasse de uma relação avô/neta.


Kiarostami não é um cineasta que entrega tudo mastigado ao espectador. Ao contrário – deixa para aqueles que se envolvem com a história decidirem o final, que ainda inclui o rapaz, o namorado da garota de programa.


Além das características típicas de seus filmes, com planos lentos, diálogos bem construídos e sem final definido, “Um Alguém Apaixonado” traz o mesmo plano de “Cópia Fiel”, quando Juliette Binoche se olha no espelho e passa um batom bem vermelho, pronta para encontrar o seu amor. Aqui, a japonesinha faz o mesmo e mostra que é uma garota que não vai bem na escola, mas não está de brincadeira – na profissão que escolheu.


“Um Alguém Apaixonado” esteve em cartaz durante a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e estreia em 9 de novembro nos cinemas em um pequeno circuito.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ARGO


Antonio Carlos Egypto


ARGO (Argo).  Estados Unidos, 2011.  Direção: Ben Affleck.  Com: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea Duvall.  100 min.


1979.  O Irã se livra do regime opressivo, comandado pelo Xá Reza Pahlevi, com a vitória da revolução islâmica, que levou ao poder o regime dos aiatolás, sendo Khomeini o primeiro e mais importante deles.  A opressão tomaria outro rumo no país, mas não se extinguiria. 

Nesse momento histórico, no entanto, os ventos traziam mudanças e um sentimento de vingança contra o Xá.  E contra os Estados Unidos, que não só tinham dado todo o suporte àquele regime ditatorial, como recebiam o Xá em seu país, como exilado.  O Irã buscava a extradição dele.  A população resolve agir e, quebrando qualquer protocolo diplomático, invade a embaixada americana em Teerã e faz 52 reféns.  Esses viverão um longo cativeiro, de que as notícias da época dão conta.



Só que no processo de invasão da embaixada, 6 norte-americanos, que lá estavam, escaparam e obtiveram refúgio na casa do embaixador canadense.  Soube-se depois que haviam voltado aos Estados Unidos, sãos e salvos.  Mas como? Isso foi uma história secreta, só revelada pelo presidente Bill Clinton, em 1997.  Os fatos se passaram durante o governo Jimmy Carter.

A história do resgate dessas 6 pessoas é tão incrível e absurda, que seria inteiramente inverossímil, não fosse que é... verdadeira.  Hollywoodiana em todos os sentidos, maluca, mesmo.  Essa é a narrativa do filme “Argo”, dirigido e estrelado por Ben Aflleck.



Difícil imaginar uma história melhor do que essa, que envolve a produção de um filme fictício, o tal “Argo”, para lograr o resgate de cidadãos que estavam entre a vida e a morte e arriscaram tudo.  Assim como a CIA e o Departamento de Estado arriscaram a própria reputação.

Se a história é mesmo fascinante, a realização do filme, nem tanto. O suspense é muito intenso e bem realizado, as tiradas de humor, adequadas e oportunas, sem comprometer a credibilidade da tal trama absurda.  Destaque para o trabalho, sempre notável, de Alan Arkin e John Goodman.  Só que o filme segue em tudo as convenções de gênero.  O que mais incomoda é aquele mais do que manjado final em que tudo tem de se resolver no último instante do último minuto.  Sendo que o final é, obviamente, previsível.



Não dá para esperar demais de um filme com tais características.  É curtir a história, aprender algo novo, que ainda não estava plenamente divulgado, e que surpreende.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Frankenweenie


Tatiana Babadobulos

Frankenweenie, Estados Unidos, 2012. Direção: Tim Burton. Roteiro: Leonard Ripps baseado na história de Tim Burton. Com vozes de Winona Ryder, Catherine O'Hara e Martin Short na versão original. 87 minutos

Tim Burton não é um cineasta comum. Nunca foi. Quando resolveu fazer longa-metragem de animação, produziu e escreveu “O Estranho Mundo de Jack” (1993) e dirigiu “A Noiva Cadáver” (2005), um filme no qual a morte é colorida e a vida, preto e branco. A alegoria do casamento é representada pela ausência da cor, um mundo triste.

Agora, ele volta a se enveredar pela animação, também em preto e branco, o que não quer dizer que não há vida nem alegria. “Frankenweenie”, filme escolhido para ser apresentado na cerimônia de encerramento da 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dia 1º de novembro, estreia em versão tridimensional nos cinemas no dia 2.

A fita é uma animação stop-motion preto e branco em 3D. A técnica lembra a massinha, já que é fotografado quadro a quadro (24 quadros por segundo).

A história conta sobre a vida de um menino, Victor (com voz de Charlie Tahan, de “Eu Sou a Lenda”, na versão original), um geninho da ciência, que tem uma verdadeira adoração por seu cachorro, Sparky. A questão é que, depois de ser atropelado, o cachorro morre, mas o garoto, conhecendo técnicas científicas que aprende na escola do bairro, consegue trazê-lo de volta à vida.

A técnica que ele utiliza tem um quê de Frankstein, daí o nome do filme (e de seu sobrenome). Não é à toa, também, já que o filme todo remete aos clássicos filmes de terror e que têm influência na construção do diretor como um dos cineastas mais festejados do mundo. Mas também lembra um pouco a animação da Disney, “Bolt – Supercão”, quando conta a história do garoto e seu inseparável cachorrinho.


Embora a ideia original do filme seja de Tim Burton (ele fez um curta com este nome em 1984), o roteiro é de John August, o mesmo de “A Noiva Cadáver” e “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, por exemplo, dois filmes do diretor.

É fato que o longa-metragem que estreia neste final de semana já poderia ter sido feito anteriormente, já que traz o mesmo nome que Burton batizou o curta nos anos 1980. No entanto, naquela época, ele queria fazer um longa de animação stop-motion, mas não tinha dinheiro para tanto. Foi aí que o transformou em um curta live-action para a Disney. Agora, muitos desenhos são originais e outros foram feitos para novos personagens do filme.


Além de Victor, o filme traz outros personagens interessantes, como os seus pais, senhor e senhora Frankenstein. Ele, um agente de viagens que quer que o filho seja mais sociável e por isso o incentiva a praticar esportes; ela, uma mãe amorosa, estimula os interesses científicos do filho. Mas é Edgar “E” Gore quem tem a função primordial no desenrolar do filme, já que ele é o garoto deslocado da escola, que não tem amigos, mas quer ser parceiro de Victor na feira de ciências. Para isso, ele descobre o seu segredo e o chantageia para ser aceito.

Animação
Não é por acaso que Tim Burton produz e dirige longas de animação. Assim como John Lasseter, diretor de “Toy Story”, filme que mudou a animação no mundo, Burton cursou o CalArts e depois entrou para a Disney como animador. Além de “A Noiva Cadáver”, Tim Burton fez a animação “O Estranho Mundo de Jack” (1993).

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

ELEFANTE BRANCO


 Antonio Carlos Egypto

ELEFANTE BRANCO (Elefante Blanco).  Argentina, 2011.  Direção: Pablo Trapero.  Com Ricardo Darín, Martina Gusman, Jérèmie Renier.  110 min.


Um projeto para construir o maior hospital da América Latina, em Buenos Aires, foi concebido e iniciado em 1937.  Abandonado, retomado e novamente abandonado, acabou se tornando o elefante branco do título do novo filme de Pablo Trapero.  Em seu entorno, se formou uma favela com cerca de 30 mil moradores, foco de violência e disputa pelo controle do tráfico de drogas entre gangues fortemente armadas.

Nesse ambiente se situa a paróquia de Jesus Operário, onde atua o Padre Juan (Ricardo Darín), respeitado e admirado pela comunidade, a assistente social Luciana (Martina Gusman) e para onde vai também o padre francês Nicolás (Jérèmie Renier), que conseguiu sobreviver a um violento ataque durante uma missão na selva amazônica.



A questão social é tão fortemente abordada no filme de Trapero que é como se estivesse gritando aos nossos ouvidos, nos ensurdecendo.  A mise-en-scène do diretor nos coloca dentro do ambiente da favela, vivendo tudo o que aquela comunidade experimenta de pobreza, de insegurança, de revolta, de risco, de intolerância.  E ele não coloca os habitantes da favela simplesmente como vítimas.  Eles também cometem erros muito grandes e injustiças flagrantes.  Mas, é claro que, no ambiente em que vivem, acaba sendo inevitável.  A assistente social e os padres sabem disso.

O papel da igreja na história é bem ambíguo.  De um lado, os padres dedicados, corajosos e solidários, que vivem junto à comunidade.  De outro, uma hierarquia católica que se revela incompetente e pouco sensível ao drama das pessoas.  Tudo é muito bem matizado em “Elefante Branco”.  Não há mocinhos, nem bandidos.  Mas uma realidade social nua e crua, que Pablo Trapero nos obriga a encarar com suas imagens contundentes.



O trio de atores que conduz a trama do filme é excelente, muito convincente em suas atuações.  Dá força ao drama humano que decorre diante de nossos olhos.

Pablo Trapero,, um dos mais brilhantes cineastas latino-americanos, já nos deu outras obras de grande densidade e força como essa.  É só se lembrar de filmes como “Leonera”, de 2008, e “Abutres”, de 2010 (veja a crítica de “Abutres” no cinema com recheio – novembro/2010).  “Elefante Branco” foi exibido no Festival do Rio 2012