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domingo, 11 de outubro de 2026

4 FILMES DA MOSTRA 50

 

 Antonio Carlos Egypto               

 

Já tive a oportunidade de ver os primeiros filmes da Mostra 50.  Aí vão meus comentários sobre eles.

 

Tigre de Papel


TIGRE DE PAPEL (Paper Tiger).  EUA, 2026.  Direção: James Gray.  Elenco: Adam Driver, Scarlett Johansson, Miles Teller, Gavin Goudey, Roman Engel. 115 min.

O filme de abertura da 50ª. Mostra, “Tigre de Papel”, traz uma relação de dois irmãos muito diferentes, mas colaboradores entre si e com afetividade. Um vem da experiência policial e parece talentoso nos negócios.  O outro, um engenheiro competente, com uma vida de classe média modesta em família.  Quando ambos se unem para realizar o negócio ideal que, além de muito lucrativo, contribuirá para o meio ambiente numa relação com empresários russos, a coisa, obviamente, desanda.  E aí é a relação deles com a máfia russa que dará o tom da ação para lá de arriscada, que abalará até o que estava bem fincado: a relação entre os irmãos.  E a própria vida deles e da família.  “Tigre de Papel” tem um bom ritmo, envolvente, um bom elenco, mas segue um padrão do gênero drama criminal e suspense esquemático, principalmente em relação à maldade dos russos.  E também pela tremenda ingenuidade dos irmãos estadunidenses em crer no tal negócio ideal, sem falhas ou fraudes, e que eles pudessem vir a ser os fiadores morais dessa história.  Entre os muitos produtores que viabilizaram o filme está o brasileiro Rodrigo Teixeira, que tem participação significativa na produção cinematográfica mundial atualmente.  O diretor James Gray virá à 50ª. Mostra, elaborou o cartaz do evento e terá uma retrospectiva de seus filmes.

 

Um Pouco de Esperança

UM POUCO DE ESPERANÇA (Kami Nour), do Irã, 2026, do diretor Alis Asgari, que estará na 50ª. Mostra, é um filme poderoso pelo questionamento que coloca.  A decisão de cometer suicídio pode ser algo mais do que uma decisão pessoal e isolada?  Ela poderá ser compartilhada antes do ato final com as pessoas mais próximas da família?  E o que esperar delas?  Ou seja, é possível a socialização dessa experiência?  É possível contar com a ajuda de parentes e colegas de profissão (no caso, trata-se de um médico)?  O suicídio é uma questão individual ou coletiva, comunitária?  “Um Pouco de Esperança” faz lembrar o grande filme iraniano “Gosto de Cereja”, de Abbas Kiarostami, de 1997, em que um suicida pedia ajuda previamente a pessoas para que pudessem enterrá-lo.  A questão é mesmo complexa e esse tabu merece ser cada vez mais discutido, com evidentes dificuldades quando entra em cena o pensamento religioso.  Este é mais um talentoso filme sobre o tema do suicídio, sendo abordado num país em que essas questões são especialmente delicadas.  E o filme não se esquece de ligar a questão da morte aos bombardeios norte-americanos a Teerã, aos protestos contra o regime dos aiatolás e ao autoritarismo em suas ações que estão na base da decisão radical que o médico tomou.  Atualizadíssimo!  89 minutos.

 

O OUTRO LADO DAS REDES (The Social Reckoning).  EUA, 2026.  Dirigido por Aaron Sorkin, que já tinha sido roteirista do filme “A Rede Social”, dirigido por David Fincher, volta ao tema de forma ainda mais crítica do que em 2010.  Se lá estava se descobrindo o peso e a importância da rede social e já se levantavam questões críticas, agora as consequências maléficas estão aí, à vista de todos.  O que o filme aborda já sabemos por aqui, com um agravante, as decisões não são tomadas pelos Zuckerbergs da elite estadunidense, como lá, mas fora do próprio país, no caso do Brasil.  Enfim, o filme não traz muita novidade, nem no tema, menos ainda na forma, tradicional, acadêmica.  112 minutos.

 

Variações sobre um Tema

O filme da África do Sul indicado para a disputa do Oscar internacional pelo país, VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA (Variasies op’n terna), é dirigido por Jason Jacobs e Devon Delmar.  Tudo se passa nas montanhas de Namaqualand, na África do Sul, em que variações e recorrências tanto visuais quanto de diálogos mostram, por meio de uma pastora de cabras idosa, uma fraude que se repete, uma espera contínua que perde o sentido com o aniversário dos 80 anos dela, sempre aguardando por um dinheiro que nunca chega.  A base da fraude é bem conhecida, é preciso ficar pagando uma quantia para que o dinheiro prometido chegue um dia.  Ele nunca chegará e a vida se esvairá em espera, resistência e perda.  Tudo mostrado com simplicidade, beleza, um uso magnífico da luz e uma fotografia exuberante, numa estética da precariedade que é reflexo da cultura local do ambiente rural das aldeias, onde a rotina se repete incansavelmente.  Média metragem de 65 minutos.

 

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terça-feira, 24 de outubro de 2023

CINEMATOGRAFIAS PERIFÉRICAS NA # 47 MOSTRA


Antonio Carlos Egypto

  


A situação proposta pelo filme do Quirguistão PRESENTE DE DEUS (Teniberdi) é bastante interessante e muito bem realizada.  Ele conta com um andamento previsível até um certo ponto, mas consegue ir além do esperado.  O que se passa no filme da diretora Asel Zhuraeva é que um casal de idosos, na faixa dos 80 anos, com a saúde já debilitada, vivendo num pequeno lugarejo, encontra um bebê de 6 meses deixado à porta da casa e tem de resolver o que fazer com isso.  Assumir e cuidar?  Entregar para a polícia?  Para o governo, por meio do Serviço Social?  Subornar autoridades para conseguir a adoção do bebê, legalmente inviável?  A trama vai por aí, num filme afetivo, terno até, com excelentes atores, que se comunica muito bem com o público.  Na sessão em que eu assisti, o filme recebeu aplausos ao final.  Isso tudo num filme sintético, de apenas 75 minutos.

 


UMA ESTRADA PARA UM VILAREJO (Gau ayeko bato), filme do diretor Nabin Subba, do Nepal, é uma pequena joia fílmica, que tem um fascinante ator mirim num bom elenco.  Tudo começa com a chegada do primeiro ônibus à localidade isolada até então.  A modernidade, a partir do ônibus, é saudada como grande avanço por parte das autoridades locais.  Agora será possível ir à cidade regularmente e conhecer as novidades do mundo moderno, como a coca-cola (com descarada propaganda do refrigerante no filme), os modernos celulares e as grandes e sofisticadas TVs atuais.  Se isso vai mexer nas necessidades dos adultos e da comunidade, imagine numa criança esperta e interessada em tudo.  Essa criação de necessidades, típica do capitalismo de consumo, vai criar uma nova dinâmica na família do tecelão Maila, pai do menino.  Mas vai mexer também nos costumes e tradições da aldeia e tudo começa a mudar.  Como o vínculo à aldeia versus ir ao estrangeiro.  Como o modo de trabalhar e sobreviver, com a necessidade de ganhar muito mais dinheiro para ter acesso aos bens tecnológicos da atualidade.  Um mundo que desmorona, se desorganiza, mas que, de algum modo, tenta equilibrar os novos apelos com a sua história.  Um filme que tem beleza, ritmo, e que estimula a reflexão do público.  105 minutos.

 


O filme de Camarões, MAMBAR PIERRETTE, de Rosine Mbakan, centra-se na figura que dá nome ao filme.  Mambar, costureira de prestígio na sua comunidade, a cidade de Douala, tenta viver com dignidade do seu ofício, numa realidade de pobreza, da qual ela faz parte.  É uma liderança junto a seus clientes, a quem ajuda de outras formas, como confidente e conselheira.  No entanto, tem de enfrentar enormes dificuldades quando é assaltada, um temporal inunda sua casa e oficina, entre outros infortúnios que fazem parte da rotina do lugar.  Quem tem um bom personagem como Mambar pode dispensar uma história, como é o caso aqui.  E o filme mantém o interesse.  93 minutos.

 


EXCURSÃO (Ekskurzija), da Bósnia-Herzegovina, indicado ao Oscar de filme internacional, da diretora Una Gunzak, nos remete à importância do trabalho de educação sexual nas escolas.  Num colégio de Sarajevo, uma adolescente do ensino fundamental conta, num jogo, que fez sexo com um garoto maior, do ensino médio.  Leva adiante a mentira, simulando ter ficado grávida.  Isso acaba criando um ruído e uma série de problemas, afetando o dia-a-dia da escola e uma excursão que está sendo planejada.  Aponta para o fato de que, no gênero feminino, a fama de ser experiente tem o efeito contrário à do masculino.  Se dá prestígio ao menino, tende a abalar a moral da menina.  No caso, agravado por uma mentira reiterada.  O filme não vai muito longe na discussão do tema, mas trata corretamente da questão, numa abordagem fílmica convencional. 93 minutos.

 


BEIJANDO O CHÃO ONDE VOCÊ PISOU (Hai Ou Lai Guo De Fong Jian), de Macau, dirigido por Hong Heng Fai, decepciona por excesso de pretensão, ao tratar de dois personagens do âmbito artístico.  Um escritor em crise e um ator que não alça o voo desejado convivem num apartamento, atraídos um pelo outro de formas distintas. Enquanto isso, a tela faz citações literárias, com música sofisticada, mas não chega a lugar nenhum.  94 minutos.

 


GAUGUIN E O CANAL (Gauguin y el Canal), filme do Panamá, dirigido pelo cineasta português Frank Spano, trata da estada do pintor francês Paul Gauguin (1848-1903) no Panamá, na época da construção do famoso Canal.  O momento é turbulento, ele enfrenta um julgamento, uma doença e uma dívida que o obriga a pintar uma grande tela.  Viveu os seus últimos dias entre a loucura e a sanidade.  O filme recorre às visões do inconsciente de Gauguin com as pessoas com quem ele convivia, de forma alegórica, trazendo uma grande intensidade às cenas. Essa parte da história de Gauguin, retratada no filme, é menos conhecida.  O que cria um interesse a mais para o espectador.  95 minutos.

 

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