quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

PRÊMIO ABRACCINE -- MELHORES DE 2012


Antonio Carlos Egypto



A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), que conta com 90 associados em 15 estados brasileiros, promoveu a votação junto aos críticos, para a escolha dos melhores longas-metragens brasileiro e estrangeiro e o melhor curta nacional.

A Separação

O vencedor do Prêmio Abraccine 2012 foi o iraniano A SEPARAÇÃO, de Asghar Farhadi (ver crítica no Cinema com Recheio -- janeiro de 2012), como melhor filme estrangeiro.  O nacional FEBRE DO RATO, de Cláudio Assis, foi apontado como o melhor longa.  O DUPLO, de Juliana Rojas, foi o vencedor, na categoria curta.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O MESTRE

                         
 Antonio Carlos Egypto




O MESTRE (The Master).  Estados Unidos, 2012.  Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson.  Com Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix, Amy Adams.  143 min.


Fareis tudo que seu mestre mandar?  A frase que ilustra uma brincadeira infantil pode ser vivida por muita gente que abdica da própria liberdade, em busca da hipotética segurança do mestre, visto como um ser superior.  Não importa muito se divino, mítico ou uma personalidade carismática e dominadora. Um punhado de gente à procura de quem decida por eles sobre a sua própria vida é do que necessitam pregadores dispostos a fundar uma seita, que pode se tornar uma religião forte e poderosa um dia.

Como se dá esse processo é o que pretende abordar o filme “O Mestre”, de Paul Thomas Anderson.  O diretor gosta de temas controversos, que podem ser explorados por vários ângulos, como demonstram seus filmes “Magnólia”, de 1998, “Boogie Nights”, de 1999, ou “Sangue Negro”, de 2007.


Um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, Freddie (Joaquin Phoenix), volta destroçado psicologicamente dos campos de batalha.  Descontrolado, com a sexualidade exacerbada e dependente do álcool, ele será presa fácil de um mestre-guru, como Lancaster Todd (Philip Seymour Hoffman), físico e filósofo, que trabalha com uma espécie de hipnose e, na busca por autocontrole e cura espiritual, evoca vidas passadas.  Isso, associado à dependência do mestre, que cria as coisas a seu bel-prazer e as muda como e quando quiser, forma a base de uma organização religiosa demoninada A Causa.  A partir daí, não se pode estranhar mais nada, já que a racionalidade perde espaço para verdades esotéricas que flertam com o absurdo e o non-sense, o que dá um tom até mesmo divertido à trama.  E, claro, é uma provocação.  Muito bem colocada, aliás.

As personalidades dos personagens de Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman dão margem a interpretações espetaculares dos dois atores, que são a alma do filme.  Amy Adams, no papel da mulher do mestre, também tem um desempenho brilhante.  Não por acaso, o filme tem três indicações ao Oscar 2013, todas referentes aos atores e à atriz. 


Essas performances é que dão força ao filme, já que a boa história que ele conta pressupõe um monte de maluquices pretensamente vividas pelos personagens, como se fossem coisas aceitáveis ou admissíveis.  Não é só a dependência do mestre que é absurda, é o que ele diz e faz, em conflito permanente com o bom senso e a racionalidade, e de forma incoerente.  Mas seus seguidores não enxergam isso, ou se omitem cinicamente.  E Freddie, o ex-combatente, ultrapassa todos os limites na adesão à causa e na defesa de seu líder.  Se o papel revela o quão bom ator Joaquin Phoenix é, o mal-estar que ele causa é tão ou mais grave do que o que nos mostra o mestre alucinado que Seymour Hoffman faz com enorme brilho.


A Paris Filmes, no cartaz de divulgação, informa que o filme é sobre a cientologia.  Supostamente, o guru Lancaster Todd seria inspirado no criador dessa doutrina, o escritor L. Ron Hubbard (1911-1986).  Difícil saber quanto o que se mostra no filme tem a ver realmente com a vida de Hubbard, ou se a forma como ele prega e se comporta de fato reflete a cientologia.  O filme não é centrado na exposição ou na crítica direta às ideias da cientologia ou de seu criador. 

É muito mais uma reflexão sobre o que é e o que significa seguir cegamente um mestre e no que isso pode dar.  Nesse sentido, pode valer para a cientologia, mas também para as seitas e religiões, de um modo geral, que se baseiam na figura de uma liderança isolada, onipotente e onisciente.



domingo, 27 de janeiro de 2013

Lincoln



Tatiana Babadobulos

Lincoln. Estados Unidos, 2012; Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tony Kushner; Com: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn. 150 minutos


Apesar de ser conhecido por seus blockbusters, como “ET – O Extraterrestre” (1982), “Tubarão” (1975), “As Aventuras de Tintim” (2011), entre outros, Steven Spielberg também se interessa em fazer filmes que não sejam simples entretenimento, mas que tenham contextos históricos. Foi o caso, por exemplo, de “A Lista de Schindler” (1993), sobre o empresário alemão que salvou a vida de mais de mil judeus durante o Holocausto. Há também “Munique” (2005). O filme narra a retaliação do governo israelense ao ataque do grupo palestino que matou atletas de Israel durante a Olimpíada de 1972.

Este ano, a novidade do cineasta é “Lincoln”, longa-metragem sobre a vida do ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln, que luta para pôr fim à escravatura. Na trama, 11 estados querem se separar nos Estados Unidos. Quando o sul e o norte foram colocados em lados opostos, o país, pronto para assumir lugar de destaque no cenário econômico e político mundial, acabou contraindo uma guerra, pois questões internas freavam o crescimento.

A Guerra da Secessão, que veio para decidir qual caminho os Estados Unidos deveriam seguir – o escravocata do sul, ou o cosmopolita e industrial do norte –, tem início em 1861. Foi a guerra mais sangrenta daquele país – deixou mais de 600 mil mortos, civis e militares.

Tal como em “Django Livre”, de Quentin Tarantino, o longa mostra os negros escravos. Aqui, embora o presidente dê atenção a eles, o foco é na política e na 13ª Emenda que ele pretende passar na Câmara para libertar os escravos, e não exatamente nos maus tratos que os escravos recebem, como em “Django Livre”, que estreou na semana passada.




O longa também mostra como Lincoln era dentro de casa, no difícil relacionamento com a mulher (Sally Field) e com o filho (Joseph Gordon-Levitt). O jovem queria se alistar para lutar na guerra, por questão de honra, mas a mãe é contra a perda do filho.

Daniel Day-Lewis transita de maneira extraordinária pelos papéis de pai de família e de presidente, mostra que sabe o que está fazendo e, sobretudo, convence o espectador.

A primeira hora de “Lincoln” é bastante lenta, com muitos diálogos, negociações, discussões políticas. Spielberg, porém, tem uma boa história para contar. Outro defeito de sua produção é a constante contagem no tempo, com letreiro que informa o dia de determinadas sequências. Em se tratando de um filme histórico até que se justifica, mas os episódios são do século 19, ninguém mais lembra como os fatos se sucederam com exatidão…

Em uma das sequências, o espectador percebe que o presidente, republicano tal como o ex-presidente George W. Bush, também tem o seu “jeitinho” para passar a Emenda que pretende na Câmara, com o cálculo dos votos necessários, por exemplo.

A ideia de contar a Guerra da Secessão no cinema não é nova. Outros filmes já tocaram no assunto, começando pelos clássicos “O Nascimento de uma Nação” (1915) e “E o Vento Levou…” (1939). Entre os mais recentes, “Dança com Lobos” (1990), “Cold Mountain” (2003).

Pela obra, que estreia nesta sexta-feira, 25, nos cinemas brasileiros – mas foi apresentada no ano passado no país de origem –, Spielberg recebeu indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar. Na primeira premiação, realizada no dia 13, recebeu sete indicações, mas só levou um prêmio – Melhor Ator, para Daniel Day-Lewis. Já para o Oscar, o longa teve o maior número de indicações – 12 no total. O resultado só será conhecido no dia 24 de fevereiro.

domingo, 20 de janeiro de 2013

AS AVENTURAS DE PI

                    
 Antonio Carlos Egypto


AS AVENTURAS DE PI (Life of Pi).  Estados Unidos/China, 2012.  Direção: Ang Lee.  Com Suraj Sharma, Irfan Khan, Adil Hussain, Tobey Maguire, Ayush Tandon, Gérard Depardieu.  127 min.


Acredite no inacreditável é a chamada publicitária que anuncia “As Aventuras de Pi”, do grande diretor Ang Lee, aquele que transita com êxito pelos mais variados gêneros e estilos cinematográficos.  Aqui é a fantasia que dá o tom do trabalho.

O garoto Pi é um indiano, filho do dono de um zoológico.  Pi = 3,1416?  Não, nada disso.  Pi é o diminutivo de Piscine (piscina).  Simples assim.  A história brinca com esses nomes estranhos.  Tanto que o personagem do tigre, que contracena com Pi, se chama Richard Parker.


O fato é que o tal zoológico particular do pai de Pi está de mudança, da Índia para o Canadá.  Mas vem uma terrível tempestade e o navio que transportava a família do dono e os animais naufraga.  Pi e o tigre-de-bengala, Richard Parker, sobrevivem  e têm de conviver no mesmo barco salva-vidas, ou quase isso, já que uma pequena distância será possível de se criar entre eles, mas não todo o tempo.  Imagine o que pode vir daí.  E acredite, se quiser.

O ponto forte do filme – além do visual deslumbrante – é exatamente esse: é possível crer em tudo, ou em nada, ou naquilo que parece mais interessante, mais bonito, mais romântico, mais edificante.  Cada um escolhe aquilo em que deve acreditar.  É justamente aí que se situa a crença em Deus, um belo produto da imaginação e desamparo humanos?  Ou algo tão tangível e real, como o relacionamento entre um garoto e um tigre, sobrevivendo em alto mar?  Sempre é possível marcar nenhuma das alternativas anteriores e grafar uma melhor.  Tudo bem.  Mas seja lá qual for a resposta, só é verdade porque você acredita.  É isso.



Portanto, deixe-se levar pela maravilhosa história do menino e do tigre, que tem lances incríveis, que envolvem coragem, acaso, descobertas, vínculo humano-animal e, é claro, magia.  Não é difícil embarcar na história, porque Ang Lee é um grande diretor e produz imagens tão belas e sedutoras que a gente até poderia dispensar a trama.  Fantástico!  E ainda mais arrebatador em 3D.  A técnica aqui é utilizada com talento e brilho, sem exageros, a serviço da beleza plástica, não de efeitos pirotécnicos.  O resultado é excelente.



Uma diversão e tanto, um exercício do culto à beleza das imagens e um convite à reflexão.  Tudo junto.  Mais uma demonstração inequívoca da capacidade criativa e versatilidade de Ang Lee, o diretor chinês, nascido em Taiwan, que faz filmes tão díspares quanto artisticamente bem realizados, como “Comer, Beber e Viver”, de 1994, “Razão e Sensibilidade”, de 1995, “Tempestade de Gelo”, de 1997, “O Tigre e o Dragão”, de 2000, “O Segredo de Brokeback Mountain”, de 2005, e “Desejo e Perigo”, de 2007.

“As Aventuras de Pi” tem roteiro de David Magee, baseado em livro best-seller de Yann Martel.  Recebeu 11 indicações para o Oscar 2013, inclusive as de melhor filme e diretor.
  

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Django Livre




Django Livre (Django Unchained). Estados Unidos, 2012. Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Com: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson. 165 minutos



Tatiana Babadobulos


Um faroeste ambientado no sul dos Estados Unidos, dois anos antes da Guerra Civil (1858), época na qual os negros escravos ainda não haviam sido libertados. É a história de um escravo negro, que consegue a sua alforria, o tema do longa-metragem “Django Livre” (“Django Unchained”), que estreia nesta sexta-feira, 18.

Escrito e dirigido por Quentin Tarantino, o longa chega aos cinemas brasileiros depois de ganhar o Globo de Ouro nas categorias Melhor Roteiro Original e Ator Coadjuvante (Christoph Waltz). Na categoria de Melhor Diretor, Tarantino perdeu para Ben Affleck, que dirigiu “Argo”.

Mas não tem nada, não. “Django Livre” vale a pena ser visto não apenas pelos fãs do diretor, que vem conquistando cada vez mais pessoas desde que ele mostrou ao mundo “Pulp Fiction – Tempos de Violência”, em 1994. De lá pra cá, ele filmou duas partes de “Kill Bill” e veio com mais vontade ainda com “Bastardos Inglórios”, em 2010.



O Django da história é Jamie Foxx, o sexto escravo da fila de sete que é comprado e libertado por um dentista alemão, que está exercendo a função de caçador de recompensas, dr. King Schultz (Christoph Waltz, ótimo!). Schultz se aproveita do conhecimento do escravo para chegar aos irmãos Brittle – mortos ou vivos.

Mesmo depois de ter a alforria, Django continua ao lado do dentista a fim de caçar mais pessoas procuradas e, assim, ganhar dinheiro para libertar a sua esposa, Broomhilda (Kerry Washington), que atualmente é escrava de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), o proprietário de Candyland, uma enorme propriedade agrícola.

Com habilidade de oração e convencimento, Schultz resolve ajudar Django na sua busca. E questiona: “Vocês escravos acreditam em casamento?” Eles, porém, despertam a suspeita de Stephen (Samuel L. Jackson), o escravo doméstico de confiança de Candie.

Em uma época na qual o homem negro sobre o cavalo era olhado com desconfiança pelos senhores de cartola, o dentista alemão quebra as regras e pede ajuda ao próprio escravo, promete libertá-lo e o faz com gosto. Nos diálogos escritos por Tarantino, toques de bom humor encharcados de ironia, como só ele poderia fazer.

Por falar em ironia, enquanto estão em Candyland, o “senhorio” oferece ao dentista e ao “escravo livre” um bolo branco – e fica repetindo exaustivamente o nome da sobremesa.

Outra ironia é quanto ao apelido do escravo, D’Artagnan. O dentista questiona se o nome é em homenagem aos “Três Mosqueteiros”, obra de Alexandre Dumas, mas ele ignora. Em compensação, Shultz explica que Dumas era negro. Sem contar os trocadilhos, que podem ser identificados no idioma original.


DiCaprio, que foi ignorado pelas premiações de cinema, interpreta um personagem caricato, cheio de trejeitos. O ator, mais uma vez, prova que não é apenas um rostinho bonito que chegou a Hollywood em busca da fama.

Foi o próprio DiCaprio, aliás, quem ligou para Tarantino em busca de um papel, depois de ter acesso ao roteiro. A declaração foi dada durante entrevista do diretor à revista “Playboy” de janeiro.

Mas o ator Christoph Waltz, que ficou encarregado dos discursos e dos deboches na maior parte dos diálogos, tem mais destaque. Um show à parte de interpretação, que combina um bom texto à competência do ator.

Com ajuda de atores de primeira linha (e com participação especial em uma ponta do filme), Tarantino constrói a mise en scene perfeita, prende o espectador durante quase três horas de projeção, porque tem algo a dizer.

Com violência, tiros, morte e aquele sangue jorrado típico do diretor, “Django Livre” é um filme que deve estar na lista de todo cinéfilo que se preze.

No material de divulgação para a imprensa, Quentin Tarantino afirma que “sempre quis fazer um faroeste”. “Eu gosto de todos os faroestes, mas como os ‘spaghetti westerns’ sempre foram os meus favoritos, eu pensei que, no dia em que eu fizesse um, seria naquele universo do Sergio Corbucci.”

O nome “Django”, aliás, é familiar aos fãs de faroestes spa­ghetti: Franco Nero interpretou o personagem pela primeira vez em 1966, em “Django”.

Mais prêmios?
No dia 24 de fevereiro, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood vai entregar o Oscar. “Django Livre” concorre nas categorias Roteiro Original, Filme, Ator Coadjuvante, Edição de Som e Direção de Fotografia.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

AMOR

                                    
Antonio Carlos Egypto




AMOR (Amour).  Áustria/França, 2012.  Direção e roteiro: Michael Haneke.  Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuele Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud.  127 min.

Depois de “A Fita Branca”, de 2009, temos agora a oportunidade de assistir a “Amor”, do diretor austríaco Michael Haneke.  Ambos os filmes faturaram a Palma de Ouro em Cannes.  “Amor” já conquistou o Globo de Ouro 2013 de melhor filme em língua estrangeira, foi o grande vencedor do prêmio do cinema europeu, do círculo de críticos de Nova York e de Los Angeles.  E recebeu 5 indicações para o Oscar 2013, inclusive melhor filme e melhor filme em língua estrangeira.  Impressionante, não?

O filme focaliza um casal de octogenários que se amam e vivem juntos há muitos anos: Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuele Riva).  Os dois, ex-professores de música, pessoas cultas e independentes, vivendo um relacionamento maduro e equilibrado.  Até que Anne sofre um derrame e seu estado de saúde se deteriora progressivamente.  Acompanhamos passo a passo o dia-a-dia deles, antes disso e, principalmente, a partir daí.



É duro e penoso acompanhar o sofrimento de Anne pela evolução da doença e o de Georges, se permitindo exigir até o limite, em nome do amor que sente por ela.  Como administrar o sofrimento de alguém que se ama?  Não é fácil.  Principalmente, porque todos os detalhes desse convívio dolorido parecem fazer parte da película.  Impossível não se comover.

“Amor” me faz lembrar um livro de Simone de Beauvoir que li há um bom tempo: “A Cerimônia do Adeus”.  Nele, Simone também detalhava os cuidados que dedicou a Jean-Paul Sartre, quando a deterioração física se impôs ao grande amor da vida dela e o grande filósofo que tanto nos influenciou, com sua inteligência e seu brilho intelectual.  Ou seja, o declínio físico se impõe a todos, quando não é acompanhado do mesmo processo na mente, o que é ainda mais triste.

Meu amigo e crítico de cinema, Luciano Ramos, comentou ao final da sessão em que vimos o filme: “Esse devia ser proibido a maiores de 60 anos”.  Pois é.  Quem está mais distante, no tempo, das doenças do envelhecimento, e da morte, pode se defender melhor psicologicamente do que vê.  Mesmo assim, não deixará de se envolver, já que provavelmente convive com pessoas mais velhas que ama: pais, avós, professores, amigos.  Quem já está na chamada Terceira Idade tenderá a encarar com mais peso tudo isso.  Mesmo que goze de saúde plena e tenha companheiros na mesma condição.  Afinal, a vida é tão maravilhosa porque a morte é certa.  É ou não é?




O trabalho de Michael Haneke é reconhecidamente de alta qualidade artística e sem concessões ao gosto comercial.  Não facilita nem alivia para o espectador.  Que seja tão reconhecido por quem entende e gosta de cinema, e tão premiado, é algo a ser festejado.  Ele é um dos grandes mestres do cinema, na atualidade.  Pesado e pessimista, mas absolutamente brilhante.

Os atores do filme são uma atração à parte.  Jean-Louis Trintignant, de volta ao cinema por insistência do diretor, é um talento mais do que conhecido e admirado.  Emmanuele Riva, atriz de “Hiroshima Mon Amour”, de 1959, de Alain Resnais, aos 85 anos, está ótima num papel difícil, que exige muito dela.  E ainda tem Isabelle Huppert, no papel de filha, sempre em boa forma.  Quem pode querer mais?

A CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS

Antonio Carlos Egypto




Finalmente estreia em São Paulo, no Cinesesc e em 3D, o excelente documentário de Werner Herzog "A Caverna dos Sonhos Esquecidos".Vale lembrar a qualidade da projeção e do cinema de rua da Augusta, além dos preços bem mais acessíveis do que os cobrados pelos Shopping Centers.
A crítica do filme foi publicada no Cinema com Recheio em novembro de 2011.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Louis Garrel



Tatiana Babadobulos

Um dos jovens atores de maior prestígio do cinema francês ganha mostra com 17 filmes confirmados no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo. “Louis Garrel, O Ator Fetiche do Cinema Francês” está em cartaz até 27 de janeiro.

O ator, de 29 anos, já participou de 21 filmes de diretores consagrados, como Christophe Honoré e seu pai, Philippe Garrel, além de Bernardo Bertolucci, que o apresentou ao mundo no longa-metragem “Os Sonhadores” (2003).

Em três sessões diárias, o espectador poderá acompanhar a versatilidade do ator que, além de atuar, também canta (como no longa “Canções de Amor”) e dirige. São de sua autoria os curtas-metragens “Meus Camaradas” (2008) e “Aprendiz de Alfaiate” (2010), que também serão exibidos na mostra.

O primeiro filme no qual atuou, dirigido por Philippe Garrel, “Les Baisers de Secours” (1989), porém, não está previsto para estar no CCBB. Do cineasta, estará, por exemplo, “Amantes Constantes” (2005), obra premiada por melhor direção e fotografia no Festival de Veneza. O longa focaliza um romance intenso nascido entre grupo de jovens dedicado a dopar-se após ter vivido os acontecimentos de 1968.



No preto e branco “A Fronteira da Alvorada” (2008), Garrel interpreta um fotógrafo fascinado por uma musa (Laura Smet). O relacionamento de ambos não é nada comum, já que ela é casada. Com fotografia impecável, o jogo de luz e sombra vai mostrar um pouco do relacionamento doentio que existe entre os amantes. O último longa que atuou de autoria de seu pai foi “Um Verão Escaldante” (2010), ao lado de Monica Bellucci, sobre paixão, amizade, desejo e traição.

Honoré
Não é apenas nos filmes de seu pai que Louis Garrel tem lugar garantido. Do cineasta francês Christophe Honoré, Garrel protagonizou diversos, começando por “Minha Mãe” (2004). Depois desse, não parou mais. Em 2006 estreou “Em Paris”, cuja história, contada a partir do ponto de vista do estudante e arrasa-corações Jona­than (Garrel), fala sobre a separação de seu irmão mais velho (Romain Duris). O longa é intimista, cheio de detalhes e aproxima o espectador da narrativa.

Foi nas músicas de Alex Beaupain que Honoré se inspirou para escrever roteiro final do musical “Canções de Amor”. Na tela, ele coloca os atores para interpretar e cantar. Aqui, muitos trechos são filmados em locações da capital francesa e nos apartamentos dos pais, onde eles se revezam e acabam formando, digamos, um “ménage à trois”.

No filme, Louis Garrel é Isma­el, um rapaz que vive em Paris e namora Julie (Ludivine Sagnier), que mora com Alice (Clotilde Hesme), que trabalha no jornal com Ismael. Assim está fechado o círculo amoroso, que inclui relacionamentos homossexuais não apenas entre as meninas, mas também, como é possível conferir adiante, entre Ismael e um outro personagem.

Em “A Bela Junie” (2008), uma garota de 16 anos muda de escola após a morte de sua mãe. Além de chamar a atenção de um dos garotos, o professor de italiano (Garrel) é atraído por sua foto que é deixada sobre a mesa na classe. O roteiro é livremente inspirado no romance “La Princesse de Clèves”, de Madame de La Fayette, escrito no século 17. Dramático, Honoré revela a preferência pelos desfechos trágicos.



Também dirigido por Honoré, “Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar” (2009) tornou-se o maior sucesso do diretor, com mais de 400 mil espectadores na França. Mais uma vez o diretor reúne no elenco Louis Garrel e Chiara Mastroianni, tal como em “Canções de Amor” e “A Bela Junie”. Após ela se separar, tenta seguir a vida com seus dois filhos. Ao deixar Paris, reencontra os pais e um amigo (Garrel), cinco anos mais novo. O drama discute, com diálogos bem construídos, problemas familiares e Honoré também mostra que homens e mulheres não nasceram para levar vidas solitárias.

“Bem Amadas” (2011) retrata a história de uma mulher (Catherine Deneuve) e sua filha (Chiara Mastroianni), e o relacionamento delas com os homens de suas vidas. Honoré repete a fórmula do seu cinema francês, incluindo dramas familiares e canções escritas por Alex Beaupain. Para desenvolver esta história, o diretor, também autor do roteiro, volta no tempo e, na Paris dos anos 1960, conta, em ordem cronológica, como a mãe francesa se apaixonou por um tcheco. E, na Londres dos anos 2000, a filha se apaixona por um inglês.

Há ainda a oportunidade de ver “Atrizes” (2007), dirigido por  Valeria Bruni Tedeschi, irmã da ex-primeira-dama da França, Carla Bruni, e atual namorada de Garrel.

 A mostra, que tem curadoria do cineasta Francisco Cesar Filho e produção da Associação do Audiovisual, é uma das raras oportunidades de conferir obras que não chegaram ao país, ou até mesmo de rever os que fizeram sucesso.

Programação
11 de janeiro (sexta-feira)
15h00   Em Paris
17h00   Minha Mãe
19h00   Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar

12 de janeiro (sábado)
15h00   Um Casamento a Três
17h00   Um Verão Escaldante
19h00   Amantes Constantes

13 de janeiro (domingo)
15h00   A Bela Junie
17h00   Os Sonhadores
19h00   Amores Imaginários

16 de janeiro (quarta-feira)
15h00   Este É Meu Corpo
17h00   Escolhendo Amar
19h00   Meus Camaradas + Aprendiz de Alfaiate

17 de janeiro (quinta-feira)
15h00   Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar
17h00   Um Casamento à Três
19h00   Em Paris

18 de janeiro (sexta-feira)
15h00   Minha Mãe
17h00   Um Verão Escaldante
19h00   Canções de Amor

19 de janeiro (sábado)
15h00   A Fronteira da Alvorada
17h00   Este É Meu Corpo
19h00   Atrizes

20 de janeiro (domingo)
15h00   Escolhendo Amar
17h00   Meus Camaradas + Aprendiz de Alfaiate
19h00   Amantes Constantes

23 de janeiro (quarta-feira)
15h00   Amores Imaginários
17h00   A Fronteira da Alvorada
19h00   Bem Amadas

24 de janeiro (quinta-feira)
15h00   Escolhendo Amar
17h00   Um Verão Escaldante
19h00   Este É Meu Corpo

25 de janeiro (sexta-feira)
15h00   Um Casamento à Três
17h00   A Bela Junie
19h00   Atrizes

26 de janeiro (sábado)
15h00   Minha Mãe
17h00   Canções de Amor
19h00   Os Sonhadores

27 de janeiro (domingo)
15h00   Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar
17h00   Meus Camaradas + Aprendiz de Alfaiate
19h00   Em Paris Serviço:

CCBB-SP
Rua Álvares Penteado, 112, Centro
Tel.: (11) 3113-3651 / 3113-3652
Ingresso: R$ 4

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

ALÉM DAS MONTANHAS

                         
Antonio Carlos Egypto



ALÉM DAS MONTANHAS (Dupã Dealuri).  Romênia, 2012.  Direção e roteiro: Cristian Mungiu.  Com Cosmina Stratan, Cristina Flutur, Valeriu Andriuta, Dana Tapalaga.  155 min.


O diretor romeno Cristian Mungiu venceu a Palma de Ouro de Cannes, em 2007, com seu segundo longa-metragem, “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, o melhor filme já feito sobre a questão do aborto na ilegalidade.  Ele focalizava o período opressor de Ceausescu como ambiente, mas acabou fazendo um filme universal.  Dá conta da questão na sua complexidade em qualquer contexto de repressão.  Trabalho brilhante.

Em 2009, coordenou um filme de episódios, dirigindo um deles, uma comédia que desmoraliza o totalitarismo: “Contos da Era Dourada” (veja crítica no cinema com recheio – outubro de 2010 ).


Seu novo trabalho é “Além das Montanhas”, também premiado em Cannes como o melhor roteiro, além do prêmio duplo de atriz para as duas protagonistas do filme.  Mungiu fez o roteiro, produziu e dirigiu “Além das Montanhas”, tomando por base o que está sendo chamado de romances de não-ficção, escritos por Tatiana Niculescu Bran.  Ela é jornalista da BBC de Bucareste e escreveu dois romances a partir de incidente ocorrido em 2005, no monastério de Tanacu, na Moldávia romena e de um julgamento que se seguiu aos fatos, em 2007.

O filme, portanto, parte dos romances que se valeram dos fatos jornalísticos.  Mas o roteiro é uma recriação ficcional, que procurou não se prender somente ao que aconteceu, mas acrescentou elementos que seriam pertinentes à situação, para gerar novos questionamentos.  A história é impressionante e filmada da maneira mais intensa e profunda possível.  Vamos apenas situá-la, para que se possa saber do que se trata.

Duas amigas: Alina (Cristina Flutur) e Voichita (Cosmina Stratan).  Alina vem da Alemanha, onde estava vivendo, em busca de Voichita, a única pessoa a quem amou na vida e por quem foi amada.  Só que Voichita recolheu-se a um convento isolado nas montanhas e agora ama Deus acima de todas as coisas.  E está disposta a qualquer sacrifício por Ele.  Com um concorrente assim, Alina perde o chão e as estribeiras.  Será acolhida como visitante no convento, onde tudo acontecerá.


De que amor estamos mesmo falando?  O que significa o livre arbítrio na vida das pessoas?  Será a indiferença um mal maior do que a própria intolerância?  O que é pecado?  Que papel pode ter a fé, o fanatismo, na produção de enormes erros cometidos em seu nome?

Bem e mal, afinal, são coisas relativas.  Em princípio, ninguém agiria visando ao mal em si.  Talvez o seu bem, em detrimento de outros, mas não o próprio mal.  E, paradoxalmente, a bondade e a crença podem ser altamente destrutivas.  O que a experiência de vida e a religião têm a oferecer diante de momentos de muito sofrimento?  E como lidar com coisas demoníacas que podem acometer as pessoas?  A doença pode estar na mente, no desejo não realizado?  Pode ser sobrenatural a sua origem?


São inúmeros os dilemas morais colocados pelo filme, que nos fazem refletir calmamente sobre tudo, sem julgar, sem tomar partido, revelando, mas deixando sempre a dúvida. 

Cristian Mungiu constrói uma narrativa em que os fatos, embora graves, importam menos do que a compreensão de cada aspecto daquela vida, o que se experimenta, o que se pensa e, sobretudo, o que se sente a cada passo.  Penetramos no convento, naquela montanha gelada, na pobreza da vida monástica, no desejo das criaturas, nas convicções do padre e da madre superiora, e também nas suas hesitações, em cada religiosa que presencia e participa de tudo.  Conhecemos as vestes, a comida, os ambientes, os hábitos.  E, porque vivenciamos tudo isso, o que se conta faz tanto sentido e chega tão fundo.

Cristian Mungiu
Mais uma vez, estamos numa história romena da atualidade, contada por uma jornalista/escritora romena, filmada por um cineasta romeno, numa produção do país, com atores locais.  As duas atrizes principais, premiadas em Cannes, são da cidade natal do diretor, Iasi.  E o alcance desse trabalho é universal.  O filme é envolvente, embora de ritmo lento, como a vida desse convento, antes da correria que se formará diante dos fatos narrados.  Quem não resistir à sua proposta e se entregar ao sentimento e à reflexão que o filme apresenta, sairá gratificado, qualquer que seja o seu posicionamento diante de Deus.  Obras de arte consistentes não fazem proselitismo.  É esse o caso aqui.

“Além das Montanhas” foi lançado na 36ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, sendo um dos maiores destaques desse Festival.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

MELHORES FILMES DE 2012

              
Antonio Carlos Egypto
Todo começo de ano os críticos elaboram suas listas de melhores filmes do ano anterior.  Geralmente, distingue-se a produção nacional da estrangeira, a ficção do documentário.  Há quem faça listas por gênero.  Desse modo, acabei fazendo listas com algumas diferenças para a Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema), a Confraria Lumière e o site Pipoca Moderna.  Aqui, vou ficar com os dez melhores nacionais e estrangeiros, não importando se ficção ou documentário.
FAUSTO

MELHORES DE 2012

1. FAUSTO. Alexander Sokurov.
2. O MOINHO E A CRUZ. Lech Majewski.
3. A INVENÇÃO DE HUGO CABRET. Martin Scorsese.
4. A SEPARAÇÃO. Asghar Farhadi.
5. MOONRISE KINGDOM. Wes Anderson.
6. AS QUATRO VOLTAS. Michelangelo Frammartino.
7. PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN. Lynne Ramsay.
8. DEUS DA CARNIFICINA. Roman Polanski.
9. O ARTISTA. Michel Hazanavicius.
10. SHAME. Steve McQueen.

TOM JOBIM

MELHORES FILMES BRASILEIROS

1. A MÚSICA SEGUNDO TOM JOBIM. Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim.
2. TROPICÁLIA. Marcelo Machado.
3. ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA. Marcelo Gomes.
4. XINGU. Cao Hamburger.
5. LUZ NAS TREVAS – A VOLTA DO BANDIDO DA LUZ VERMELHA. Helena Ignez e Ícaro C. Martins.
6. EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS. Beto Brant e Renato Ciasca.
7. CARA OU COROA. Ugo Giorgetti.
8. DISPAROS. Juliana Reis.
9. MARIGHELLA. Isa Grinspum Ferraz.
10. UMA LONGA VIAGEM. Lúcia Murat.


domingo, 6 de janeiro de 2013

O SOM AO REDOR

                          
Antonio Carlos Egypto

O SOM AO REDOR.  Brasil, 2012.  Direção e roteiro: Kléber Mendonça Filho.  Com Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irma Brown, Sebastião Formiga.  131 min.


“O Som ao Redor” se destaca na produção cinematográfica atual por apresentar um produto diferenciado e criativo que, mesmo preocupado com a qualidade artística do trabalho, não deixa de buscar comunicar-se com o público, que não se pretende que seja restrito.

Trata com realismo, e produzindo reflexão, da temática da segurança nas grandes cidades e que atinge as populações mais pobres, mas também a classe média.  No caso, um quarteirão de uma zona residencial central de Recife.  Ficamos conhecendo seus moradores, seus hábitos, dificuldades e riscos.  A violência se apresenta sempre em potencial.  Põe em evidência o papel da segurança privada que, aparentemente por pouco dinheiro, traz tranquilidade aos moradores do local.


Se há um roubo aqui ou ali, há também moradores especiais, com quem não se pode mexer.  Mesmo que indícios claros de roubos levem aos tais moradores poderosos.  Os seguranças particulares, no entanto, vão se inteirando de tudo a respeito de todos.  Situações muito concretas são mostradas: um cachorro que não para de latir e torna a vida de sua vizinha um inferno, por exemplo, parece ser uma questão insolúvel.

Os elementos vão sendo introduzidos com muita perícia e constróem uma história que intriga, traz suspense, surpresa, e impacta ao final.  Um roteiro muito competente e uma filmagem capaz de gerar climas tão realistas quanto estranhos e misteriosos prende o espectador à história que vai sendo armada.  Os detalhes são tão importantes que acabam por se descolar por vezes da trama, como que a gerar novas possibilidades.

Esse clima todo é garantido pelo que o título da película indica: o som ao redor.  Os sons urbanos vão revelando fatos e sentimentos e acabam se tornando não só um personagem, mas o mais importante deles.  É por meio dos sons que construímos os fatos, percebemos suas implicações e consequências.  O som produz medo, suspense, expectativa. 

“O Som ao Redor” é um filme que nos remete ao mundo complexo e potencialmente hostil do ambiente urbano contemporâneo, onde o risco se insinua em qualquer esquina ou espaço escuro das ruas, dos prédios, das casas, do mar.  Sem deixar de levar em conta os conflitos de classe e a história passada, que acabarão por ser determinantes para a trama.



O diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho produz uma obra impactante que nos envolve, não só pelas formas convencionais com que o cinema gera medo, tensão, suspense, como porque nos faz olhar para dentro de nós mesmos, esquadrinhando o meio urbano que nos circunda.  Esse realismo, digamos, psicológico, é o que assusta.  Mas não é simples fruto da imaginação.  É sociológico, também.  É real em suas diversas dimensões.

Grande filme, premiado em diversos festivais, que já se apresenta como candidato aos melhores de 2013.  A não perder.  É cinema de primeira.  Abre um caminho muito criativo a ser explorado pelo cinema brasileiro.  Resulta num produto artístico muito bem elaborado e que, ao mesmo tempo, se comunica com um público mais amplo, na medida em que não é hermético, e conduz uma trama que pode interessar a qualquer um que viva em ambiente urbano, pois facilmente se identificará com os personagens ou a situação apresentados.

Como diz a sinopse divulgada do filme “O Som ao Redor”, é “uma crônica brasileira e uma reflexão sobre história, violência – e barulho”.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Som ao Redor




Tatiana Babadobulos
 
O Som ao Redor. Brasil, 2012. Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho. Com: Irma Brown, Sebastião Formiga, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, WJ Solha, Lula Terra. 131 minutos




Cachorro latindo, sirene, crianças brincando no quintal. Além dos problemas do cotidiano de um bairro em Recife, como a segurança, é o som que tem maior destaque no primeiro longa-metragem de ficção de Kleber Mendonça Filho.

Depois de ganhar diversos prêmios no Brasil e no exterior, e de ser lembrado pelo crítico A.O. Scott, do jornal norte-americano “The New York Times” em sua tradicional lista dos dez melhores filmes do ano, “O Som ao Redor” estreia nesta sexta-feira, 4, nos cinemas.

Em sua cidade Natal, Kleber Mendonça Filho faz uma crônica mostrando os problemas e as soluções possíveis para cada caso. Como diz a fita, os ruídos mostram quem somos.

Em uma pacata rua no centro de Recife, o rádio do carro de uma moça é furtado, enquanto ela está, pela primeira vez, com um rapaz que conheceu na noite anterior.

O ladrão tem tanto cuidado, que não chega a quebrar o vidro; ele é cuidadosamente retirado, intacto. Mas do lado de dentro, o rádio e os CDs de músicas não ficaram para contar a história.



O problema pode começar a ter solução quando a milícia, representada por Clodoaldo (Irandhir Santos, de “Tropa de Elite 2”), se mete a fazer a ronda na vizinhaça e a cobrar por ela, é claro. Uma quantia pequena de cada morador, mas oferece a garantia de que a paz voltará a reinar – além de fazer um acerto.

O som vem com tudo, porém, quando perturba a paz de Bia (Maeve Jinkings), mãe de duas crianças que tem crises de dor de cabeça por conta do latido do cachorro do vizinho que não cessa. Para aliviar a tensão, usa algumas artimanhas que começa com a compra de galões d’água...

A narrativa escrita e dirigida por Mendonça foca em diversos personagens, mas não se aprofunda em nenhum. O espectador não conhece, por exemplo, a história de Sofia (Irma Brown), a menina que tem o rádio do carro roubado. A plateia não sabe, por exemplo, se é para torcer para ela ficar com o rapaz com quem dormiu na primeira noite, ou se é melhor ela ir embora de vez.

Sobre este rapaz, João (Gustavo Jahn), que é corretor e sobrinho de Francisco (WJ Solha, de “Era Uma Vez Eu, Verônica”), homem que mais casas possui na mesma rua, também pouco se sabe. A milícia, ao contrário, o conhecimento é aprofundado, já que o mistério é revelado no final.



Apesar dos poucos problemas, o longa tem sensibilidade de discutir, durante 131 minutos, violência e barulho urbano de uma capital brasileira em uma trama agradável e rara de se ver no cinema nacional. Discute também o poder e o que o dinheiro pode comprar para garantir que a sua vontade seja ouvida – e aceita. Provoca no espectador uma reflexão: até que ponto cada um pode chegar para justificar os seus atos, como o furto de um rádio ou o calmante para um cachorro, além da corrupção.

Além de ter sido citado pelo jornal nova-iorquino, “O Som ao Redor” foi premiado nos festivais do Rio, de Gramado e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, além de festivais internacionais, como o de Copenhague e o de Roterdã, no qual foi apresentado no início de 2012.

Ex-crítico e ex-programador de cinema, o cineasta já fez vários curtas-metragens (“Enjaulado”, “A Menina do Algodão”, “Vinil Verde”, “Eletrodoméstica”, “Noite de Sexta Manhã de Sábado”, “Recife Frio”) e um documentário de longa-metragem (“Crítico”) antes de se aventurar no longa de ficção – costumeiramente o maior desejo de qualquer realizador.