quinta-feira, 28 de junho de 2012

FAUSTO

 Antonio Carlos Egypto


FAUSTO (Faust).  Rússia, 2011.  Direção: Alexander Sokurov.  Com Johannes Zeiler, Anton Adasinskiy, Isolda Dychauk, Georg Friedrich, Hanna Schygulla.  135 min.


Fausto, de Johann Wolfgang von Göethe (1749-1832), é uma incontestada obra-prima da literatura mundial.  Poema filosófico e drama em duas partes, do qual o autor se ocupou de 1770 a 1831, conta a lenda do homem, supostamente inspirado em um personagem real, que se dedicou aos saberes do mundo, mas, desiludido, fez um pacto e vendeu sua alma ao demônio.  O personagem já existia na literatura, desde um escrito anônimo de 1587, mas foi Göethe quem lhe deu forma definitiva e o consagrou como um mito universal.

Inspirado em Göethe, o grande cineasta russo Alexander Sokurov realiza seu “Fausto”, procurando reconstruir, por meio da fotografia de Bruno Delbonnel, um mundo e um mito daquela época, situado historicamente e com detalhes impressionantes.  Os planos e os enquadramentos formam verdadeiros quadros.  O filme é de grande riqueza visual.  Segundo o diretor, inspirado em pintores alemães, como Albrecht Altdorfer e Carl Spitzweg, captando suas cores acinzentadas e esmaecidas, seus climas e o caráter claustrofóbico da vida do personagem.  Os espaços se encurtam, os tetos são baixos, as ruas de circulação, estreitíssimas.  E assim se mergulha num universo visual a um tempo estranho e belo.


Lá estão retratados saberes da época, como na cena inicial da dissecação de um cadáver, as inexistentes noções de higiene, as moradias, os animais, a falta de dinheiro e a fome e as doenças endêmicas.  Até os cheiros são incessantemente descritos, já que os recursos do cinema não nos permitem senti-los.  Tudo para revelar um personagem e seu mundo.  Fausto vagueia por esse mundo com Mefistófeles, uma figura repulsiva, mas sedutora, como convém ao diabo. Dessas andanças e desse relacionamento vai-se compondo uma narrativa cinematográfica de rara beleza – apesar de tudo – e que, segundo Sokurov, tem como um de seus objetivos estimular as pessoas a se interessarem por ler o Fausto de Göethe.


O filme tem uma dimensão artística que realmente põe em relevo a importância da obra literária.  E recria cinematograficamente o mito, dialogando com obra análoga de F. W. Murnau (1888-1931), grande diretor do expressionismo alemão da época do cinema mudo: o Fausto de 1926.

A grande parábola do poder que Fausto representa está muito bem apresentada neste filme, que é uma produção russa, falada em alemão, que levou o Leão de Ouro no Festival de  Veneza de 2011.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

SOMBRAS DA NOITE

 Antonio Carlos Egypto



SOMBRAS DA NOITE  (Dark Shadows).  Estados Unidos, 2011.  Direção: Tim Burton.  Com Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Helena Bonham Carter, Eva Green, Chloë Grace Moretz, Jonny Lee Miller.  113 min.

Tim Burton é um diretor reconhecido, não só por seu talento, mas pelo seu estilo gótico, que inclui o gosto por ambientes noturnos, escuros, lúgubres, e uma atração pelo esquisito, mas recheados de bom humor.  Aparentemente, tudo começou com dois filmes da série Batman, que ele dirigiu em 1989 e 1992.  Mas a solidificação desse estilo parece ter alcançado seus pontos altos na parceria com o ator Johnny Depp, capaz de representar os tipos mais estranhos, com total credibilidade.  Ele tem sido o protagonista de vários times de Burton.  Em 1990, “Edward, Mãos de Tesoura”, em 1994, “Ed Wood”, o pior cineasta do mundo, em 1999, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, em 2007, “Sweeney Todd – o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”.  Mesmo quem não viu algum desses filmes percebe do que se trata.  E que nada de convencional pode ser encontrado nesses trabalhos.  Isso nem mesmo acontece nas refilmagens de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” ou “Alice no País das Maravilhas”, outras parcerias do diretor com o ator.



Chegou a vez de “Sombras da Noite”, entrando agora nos cinemas.  O longa toma por base uma série de TV do final dos anos 1960, da qual Tim Burton se diz um fã declarado, sobre a estranha família Collins.  Tal família se desloca de Liverpool, na Inglaterra, para os Estados Unidos, em busca de vida nova.  Já para fugir de uma maldição misteriosa que a atormentava no longínquo século XVIII.

Por intermédio da exploração da pesca, acabam por deter um império e uma riqueza, representados pela mansão Collinwood, em Collinsport, no Maine.  Barnabas Collins (Johnny Depp), uma espécie de playboy da época, parte o coração de Angelique Bouchard (Eva Green), uma bela bruxa que irá puni-lo com algo pior do que a morte: transformá-lo em vampiro e enterrá-lo vivo.  Isso, em 1752.


Ocorre que, dois séculos depois, ele será libertado por engano, aparecerá em 1972 e buscará sua mansão, agora decadente, praticamente em ruínas.  É das peripécias, amores, aventuras e profundo estranhamento com o mundo excessivamente iluminado e colorido, psicodélico, dos anos 1970, que se comporá o longa desse esquisito e divertido personagem.  Mais um vampiro para uma infindável coleção deles, na história do cinema.  Só que a junção dos talentos de Tim Burton e Johnny Depp garante uma diversão de alto nível e qualidade de imagens impecável.  A brincadeira resulta estimulante e tem graça, sem faltar, é claro, os esperados efeitos especiais que agregam charme à trama.  O elenco é estelar.  Inclui, ainda, Michelle Pfeiffer e Helena Bonham Carter, em papéis de destaque.



Isto posto, não dá para reclamar desse gênero de cinema de entretenimento.  Esse vampiro tem muito charme e deve conquistar o público que for vê-lo.  Como se trata de um blockbuster, muito bem divulgado, não devem ser poucos os que irão encará-lo.  Pois, então, relaxem e aproveitem. Se puderem, claro.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Apenas uma Noite


Tatiana Babadobulos

Apenas uma Noite (Last Night). Estados Unidos e França, 2010. Direção e roteiro:Massy Tadjedin. Com: Keira Knightley, Sam Worthington e Eva Mendes. 93 minutos
 

Não apenas o enredo, mas também o trailer, já diz muito sobre o que será visto no longa-metragem “Apenas uma Noite” (“Last Night”), estrelado por Sam Worthington (“Avatar”) e Keira Knightley (“Piratas do Caribe”, “Um Método Perigoso”). A fita tem estreia apontada para esta sexta-feira, 15, depois de passar por uma pré-estreia no último final de semana.

O longa conta a história de um casal, Michael e Joanna (Sam e Keira), que parece perfeito. Os dois são bem sucedidos, atraentes e o principal: se amam. A questão é que nem tudo é perfeito. Quando a moça vai a uma festa do trabalho do marido, conhece sua colega, aqui interpretada por Eva Mendes. Obviamente, ao ver a mulher estonteante, Joanna fica com ciúmes, principalmente porque os dois vão viajar juntos.





É neste contexto que se desenvolve o filme da diretora Massy Tadjedin, em seu trabalho de estreia. Ela também é autora do roteiro e faz a bela Keira também estar linda, embora Eva Mendes seja um tipo de mulher mais provocadora, com uma sensualidade exagerada.

Cheio de mistério, traição e fidelidade, a discussão de “Apenas uma Noite” vai longe, talvez até rompa as barreiras da tela, de modo que invade também a plateia, com expectativa de gerar discussão entre os casais.

Algo parecido pôde ser visto recentemente em “Um Beijo a Mais” (“The Last Kiss”), sobre o rapaz que, antes de ter o seu primeiro filho, se envolve em uma relação extraconjugal, enquanto sua esposa está grávida, e ela descobre, deixando a situação bastante embaraçosa.

No filme de Massy Tadjedin, porém, os cúmplices do que acontece com os casais são os espectadores, que são facilmente manipulados pelos olhos da diretora. E cabe a cada um deles julgar o que foi feito.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A PRIMEIRA COISA BELA

 Antonio Carlos Egypto


A PRIMEIRA COISA BELA (La Prima Cosa Bela).  Itália, 2010.  Direção: Paolo Virzí. Com Valerio Mastrandea, Micaela Ramazzotti, Stefania Sandrelli, Claudia Pandolfi.  122 min.

“A Primeira Coisa Bela” é um título que não funciona bem em português.  Pode até atrapalhar a carreira comercial do filme de Paolo Virzí.  Seria uma pena, porque se trata de uma comédia bem construída e muito agradável de se ver, faz a gente se lembrar dos velhos tempos das comédias italianas, que tanto nos divertiram.  E que sempre tinham algo a dizer.  Acrescentavam alguma coisa, com inteligência e apelos eróticos bem calibrados.

“A Primeira Coisa Bela” se revela um produto que não faz feio diante de seus antecessores.  Aqui vemos Bruno e sua irmã Valéria em diferentes fases de suas vidas, tendo que conviver com Anna, uma mãe belíssima, que esbanja sensualidade e desinibição, atrai o interesse de muitos homens, deixando ciumento e abalado seu marido.  Se Valéria criança consegue se entusiasmar com o êxito da mãe, já em 1971, em Livorno, eleita “Miss Mamma”, o mesmo não se dá com Bruno, que acha tudo aquilo muito embaraçoso.  Claro, Valéria toma a mãe como um modelo bem sucedido, enquanto Bruno vai se identificar com o pai, traído e mortificado de ciúme.


Se Valéria continuará convivendo com a mãe, Bruno vai se afastar dela, da família e de sua cidade natal, a ponto de perder os fortes laços que o uniam à irmã, na infância.  Só quando Anna passa a sofrer de uma doença terminal é que Bruno voltará a conviver com ela.  Mas Anna não perde a exuberância, nem as atitudes arrojadas, porque sua vida está por um fio.  Ela continua a mesma.  E assim será até o fim.  Por que haveria de ser diferente?

Caberá a Bruno ressignificar a figura da mãe e o seu relacionamento com ela, e com os homens que povoaram a vida dela.  E também, evidentemente, reencontrar os laços perdidos com a irmã.


Descrito assim, parece um assunto muito sério.  E é mesmo.  Mas o tom do filme é leve, envolvente, divertido.  Se o público conseguir descobri-lo, ou seja, se o filme não for retirado rapidamente das telas dos cinemas, dá para prever boa bilheteria e reações de satisfação.

Não se trata de nenhuma obra-prima cinematográfica, por certo.  Mas é uma produção caprichada, que tem ideias, é bem humorada e comunicativa com os espectadores, sem exigir deles maiores esforços.


É bom ver um filme que funciona bem sendo apreciado pelas plateias, estimulando mais pessoas a ir ao cinema.  Afinal, nem só de filmes-cabeça ou aventuras carregadas de violência e efeitos especiais vive o cinema contemporâneo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Madagascar 3 - Os Procurados


Tatiana Babadobulos

Madagascar 3 - Os Procurados. (Madagascar 3: Europe's Most Wanted). Estados Unidos, 2012. Direção: Eric Darnell e Tom McGrath. Roteiro: Eric Darnell e Noah Baumbach. Com vozes de: Ben Stiller, Jada Pinkett Smith, Chris Rock, David Schwimmer. 85 minutos

“Madagascar”, “Madagascar 2 – A Grande Escapada” e, agora, quatro anos depois, estreia nos cinemas brasileiros “Madagascar 3 – Os Procurados” (“Madagascar 3: Europe's Most Wanted”). Embora nos formatos 35 mm e 3D, prefira a tridimensional, que é uma das mais engraçadas e cuja tecnologia funciona e diverte o espectador.

Desta vez, o leão Alex (com voz de Ben Stiller, na versão original), a zebra Marty (Chris Rock), a hipopótama Gloria (Jada Pinkett Smith e Heloisa Périssé, na versão brasileira) e a girafa Melman (David Schwimmer) estão em plena selva africana, mas decidem que querem voltar pra casa, ou seja, para o zoológico do Central Park, em Nova York. A questão é que eles precisam encontrar os pinguins (aqueles do mal e engraçadíssimos), que estão apostando dinheiro no cassino em Monte Carlo.

Da África para a Europa e depois para a América. Este será o caminho dos animais e, durante todo o trajeto, eles vão arrumar confusão, fazer arruaça pelas ruas de Mônaco com a agente de controle de animais francesa, Chantel DuBois (Frances McDormand). A policial está em território francês, mas não fala o idioma de Molière. No filme, ela fala inglês com sotaque francês. Talvez seja uma falha, mas, ao mesmo tempo, era de se esperar, uma vez que trata-se de um filme produzido nos Estados Unidos, cujo povo prefere filmes sem legendas. O mesmo pôde ser observado em “Ratatouille”, por exemplo, longa que se passa em Paris, mas os personagens conversam sempre no idioma de Shakespeare.



A personagem também é engraçadíssima e tem um quê de Cruela (a vilã de “101 Dálmatas”) misturada com Edith Piaf, já que ela interpreta uma música da cantora francesa.

Em Mônaco, os animais se juntam a um circo e a outros animais na Itália - uma maneira de conseguirem carona de volta para Nova York.

As piadas rolam soltas o tempo inteiro. Em uma determinada cena, a zebra, que está no banco do passageiro do carro enquanto os pinguins se revezam na direção e acelerador, é convocada a dirigir. Mas alerta: “Sou de Nova York, e não sei dirigir!” Os pinguins também soltam as suas piadas, e acaba sendo meio que o alter ego do espectador, quando diz, durante um dos clipes musicais, que a “boa notícia é que não falta muito para acabar a música”. Esses clipes são sempre inseridos nos filmes infantis para agradar principalmente as crianças, uma tradição que começou com os longas-metragens de Walt Disney e permanece até hoje.



Além dos pinguins, o rei Julian, o lêmure, é muito divertido! É quando ele está em cena que a trilha sonora se torna pop e empolgante, com hits do momento. Por falar em hit, aquele que se tornou símbolo do filme (“I like to move it” ou “Eu me remexo muito”, em português) só é lembrado no final, quando os créditos começam a subir.

A fita novamente é dirigida pela dupla Eric Darnell e Tom McGrath, escrita por Eric e Noah Baumbach, e produzida pela DreamWorks SKG, estúdio dos sócios Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg (ex-chairman da Disney) e David Geffen.

Assim como os longas do gênero, “Madagascar 3” traz inovações em tecnologia de produção, visual com desenhos que rementem, de fato, às locações originais, de projeção (3D de verdade!), mas sem se esquecer de contar uma boa história, com personagens divertidos, psicologicamente bem estruturados e bem feitos. Um filme engraçado, que encanta a plateia e traz novidades para a história, já que outros personagens são inseridos na trama, de modo a acrescentar emoção, além de tornar a história inédita, ainda que os protagonistas tenham vindo do primeiro filme.

domingo, 10 de junho de 2012

O VENDEDOR

   Antonio Carlos Egypto


O VENDEDOR (Le Vendeur).  Canadá, 2011. Direção: Sébastien Pilote.  Com: Gilbert Sicotte, Nathalie Cavezzal, Jérémy Tessier.  107 min.


O filme começa nos mostrando uma pequena cidade, Lac Sain-Jean, na província de Quebec, Canadá.  Suas casas, lojas, edifícios públicos e ruas estão tomados pela neve.  E o inverno da estação se coaduna com o momento invernal da economia mundial.  A crise chegou e atinge todos, de um jeito ou de outro.  Isso exige de todo mundo mudanças no jeito de viver e de consumir.  Até aqueles que parecem estar firmemente instalados em seus patamares econômicos sentirão o abalo.

Marcel Léves (Gilbert Sicotte) é um vendedor de carros tão experiente que é, simplesmente, “o vendedor do mês” de sua concessionária há dezesseis anos consecutivos.  Já está na hora de se aposentar, mas ele gosta do que faz, não sabe fazer outra coisa e sua vida repousa sobre essa glória.

Toda gente já se deparou com alguém como o personagem Marcel.  Ele convence o comprador potencial com um estilo sutil, mas eficiente. É visto como amigo pelo consumidor.  Como esse vendedor poderá encarar a crise que se estabelece na cidade, com a derrocada que viverá a fábrica responsável por gerar empregos para a maioria dos habitantes dali?  Bem, Marcel talvez seja capaz de vender carro a desempregados, produzindo uma dívida que não poderá ser paga.  Manterá a aura de melhor vendedor, mas e o custo ético dessa história?

A crise econômica, a falta de perspectivas imediatas quanto ao futuro, o envelhecimento e a morte, são desafios que o nosso personagem terá de encarar.  Há horas em que o chão cede aos nossos pés e ainda com tanta neve parece impossível não escorregar.



Marcel tem na filha e no neto, que também vivem na cidade, seu esteio e compensação afetiva para sua solidão de viúvo.  E algum alento para se distrair da falta de trabalho e de clientes.  A vida segue seu rumo e ele trabalha, apesar de tudo.  Mas isso também pode mudar um dia...

A trama simples de “O Vendedor” nos coloca em contato emocional com mais esta crise do capitalismo globalizado e mostra seus contornos humanos, o sofrimento que produz, os dilemas que daí emergem e a quebra da autoestima até dos chamados “vencedores”.  O filme se centra na figura do vendedor Marcel, vivido pelo ótimo ator Gilbert Sicotte, compartilhamos de sua rotina, de seus sucessos e fracassos, de seus desafios, de seus afetos e medos.  Sem nunca nos esquecermos de que o meio onde ele se move lhe é hostil, ainda que isso apareça com brandura, na maior parte do tempo.  Tudo vai acontecendo pouco a pouco, de forma discreta, porém, inexorável.

“O Vendedor” é uma película que reflete o tempo que estamos vivendo, as agruras de um presente incerto e nevado.  Em outros lugares, as coisas podem se dar de um modo um pouco diferente.  Em outros momentos, lá mesmo, alguma esperança poderá surgir com o verde ocupando o lugar do branco.  Afinal, a vida não para de se renovar.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

VIOLETA FOI PARA O CÉU

 Antonio Carlos Egypto

VIOLETA FOI PARA O CÉU (Violeta se Fue a los Cielos).  Chile, 2011.  Direção: Andrés Wood.  Com Francisca Gavilán, Cristián Quevedo, Thomas Durand, Luis Machin, Gabriela Aguilera.  110 min.

Violeta Parra (1917-1967) foi um dos maiores talentos da história da música chilena.  Ainda assim, poucos a conhecem no Brasil, na condição de compositora e intérprete de um tipo de música de fortes raízes na cultura popular e engajamento social e político inequívocos.  Seu lema era “criar a partir do que existe”, recriando a cultura tradicional chilena, ao produzir obras-primas musicais a partir desse material, geralmente esquecido.
Duas gravações brilhantes realizadas no Brasil, a partir de músicas dela, atestam isso facilmente.  Elis Regina, no show e disco “Falso Brilhante”, de 1976, gravou “Gracias a la Vida” de forma tão competente e exuberante que quem conhece não esquece.  Outra gravação marcante de música de Violeta Parra foi feita por Milton Nascimento, com a cantora argentina Mercedes Sosa, em “Volver a los 17”, no LP “Geraes”, também em 1976.  Quem conhece essas gravações, mesmo que não conheça mais nada sobre Violeta Parra, pode aquilatar a importância do seu trabalho.

“Violeta foi para o céu” é uma cinebiografia, um filme homenagem dedicado a ela,  realização do cineasta chileno Andrés Wood, o diretor de “Machuca”, um belo filme de 2004, que teve boa divulgação no Brasil.  O roteiro teve como base o livro homônimo de Ángel Parra, filho de Violeta e grande cantor e compositor, que sobreviveu à perseguição do regime de Pinochet e teve de viver no exílio.  A produção tem participação brasileira, por meio da Bossa Nova Films.
Se o trabalho musical de Violeta Parra é pouco identificado no Brasil, imagine a sua produção de artista plástica.  Além de cantora, autora, poetisa, ela foi também pintora, escultora, bordadeira e ceramista.  Em 1964, teve uma exposição de seus trabalhos no museu do Louvre, em Paris, a primeira latino-americana a conseguir esse espaço. O jornal “Le Figaro” publicou uma matéria, na época, com o título: “Leonardo Da Vinci terminou no Louvre, Violeta Parra começa nele”.

É evidente que Andrés Wood, ao filmar, e Ángel Parra, ao escrever o livro da vida de sua mãe, devem ter sido ambos motivados pela admiração à figura que ela foi.  Isso não impediu, no entanto, que, na trajetória relatada na película, viessem à tona as contradições, a inquietude e desespero da pessoa, sua volubilidade afetiva e um destemor e arrojo que se aproximavam da irresponsabilidade e geravam consequências sérias.
“Violeta foi para o céu” vai mostrando, por meio de cenas, que percorrem diferentes tempos e momentos da vida da artista, um ser complexo, apaixonado e comprometido com seu tempo e, sobretudo, com seu povo.  A figura de Violeta Parra emerge, se constrói, a partir de uma narrativa sem preocupação didática ou em estabelecer muitas informações solidamente.  E nós, brasileiros, que pouco a conhecemos, captamos perfeitamente a dimensão humana e artística dessa mulher.  Méritos do roteiro e da direção, mas também da intérprete de Violeta no filme, a atriz Francisca Gavilán, que, por sinal, se revela  também boa cantora.  A trilha sonora do filme é preciosa.

A película é inteiramente competente em delinear a figura humana e artística da homenageada.  Procura seguir os passos dela, ao apresentar a plateias de todo mundo a tradição musical chilena que emana do seu trabalho.
Há uma entrevista por meio da qual conhecemos a postura dela, ideias centrais que a moveram e sua expressão poética.  Veja só essa sugestão que ela faz a novos artistas, instada pelo entrevistador:
“Escreva como você gosta, use os ritmos que aparecerem, tente diferentes instrumentos, sente-se ao piano, destrua o que é linear, grite, ao invés de cantar, arrase na guitarra e toque a buzina.  Odeie matemática e ame redemoinhos. Criação é um pássaro sem um plano de voo, que nunca irá voar em linha reta”.
“Violeta foi para o céu” foi vencedor do Grande Prêmio do Júri Internacional do Cinema Mundial Dramático, no Sundance Film Festival, 2012.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

DEUS DA CARNIFICINA

Antonio Carlos Egypto


DEUS DA CARNIFICINA (Carnage).  Polônia, França, Alemanha, 2011. Direção: Roman Polanski.  Roteiro: Yasmina Reza e Roman Polanski. Com Jodie Foster,Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly.  80 min.

O filme “Deus da Carnificina” deriva da peça da autora francesa Yasmina Reza (Le Dieu du Carnage).  O roteiro foi adaptado para o cinema por ela e pelo diretor Roman Polanski.  Essa obra teatral foi também traduzida para o português e montada recentemente nos palcos brasileiros.
O texto, muito bem escrito, com diálogos cortantes e que insinuam coisas o tempo inteiro, trata de uma questão aparentemente trivial.  Dois garotos, na faixa dos 11 anos de idade, brigam e um deles acerta com um bastão o rosto do outro, que se machuca e quebra dois dentes.
Os pais do garoto que foi vítima da agressão, Alan (John C. Reilly) e Penélope (Jodie Foster) convidam os pais do agressor, Michael (Christoph Waltz) e Nancy (Kate Winslet) para uma conversa cordial, com vistas a esclarecer as coisas e pôr um fim no caso.  Tudo muito civilizado e apropriado.

Já dá para intuir que o que está por trás desse comportamento envolve sentimentos antagônicos, ódios e preconceitos, de modo que a cordialidade, que se expressa inicialmente também por alfinetadas eventuais, pode chegar a produzir fortes ofensas e desaguar numa espécie de carnificina verbal.  Que tem correlatos físicos.
Com exceção de uma cena filmada à distância, no início da película, e outra, ao final, tudo se passa no apartamento do casal que teve o filho agredido.  Isso, naturalmente, conduz a uma espécie de filmagem teatral, em que o texto prevalece sobre todo o resto.  Mas o diretor é Roman Polanski.  Ele, habilmente, busca enquadramentos que vão revelando o que se passa com os personagens, além de explorar bem as cenas que trazem movimento e surpresa.  O mal-estar de um dos personagens, as tulipas que voam ou um celular que se molha, abrem espaço para a intensidade dramática e colocam ação na dinâmica marcada pela encenação teatral.
Inevitável lembrar de “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?”, o filme de Mike Nichols, de 1966, que trouxe interpretações viscerais de Elizabeth Taylor e Richard Burton, com base na peça de Edward Albee.  Não é o caso aqui, não há atores ou atrizes desse porte, nem interpretações especialmente marcantes.  Mas há um subtexto que questiona não só as convenções sociais como as bases frágeis que mantêm os impulsos e os preconceitos domesticados.  As consequências dessas fragilidades podem gerar ressentimentos desproporcionais, acusações infundadas e a satanização daquele que se distingue, de algum modo, do padrão dominante.

As bases em que se assenta a educação das crianças é igualmente posta em xeque.  O que ela poderá produzir no meio social para gerações vindouras?  A tecnologia, quebrando normas de conduta educadas, está representada pelo onipotente telefone celular, que, de modo exasperante, interfere nos contatos humanos.
É possível rir de uma certa desgraça, de cuja exposição e envolvimento não escapamos.  Mas não espere diversão e gargalhadas.  Polanski está muito mais interessado em explorar os signos e os desencontros do nosso tempo do que se divertir com personagens excêntricos.  Se há excentricidade, ela está em todo lugar, nos cerca.  Não é algo que se coloque à parte, do qual possamos rir sem culpa ou preocupação.

É bom salientar também que, apesar do título e do diretor poderem remeter à violência e sangue, não é disso que se trata.  É a violência psicológica que é abordada aqui, internalização de uma sociedade que se digladia sob máscaras de democracia, respeito humano e bem viver.
Diretor de origem polonesa de carreira internacional, Roman Polanski tem uma vasta filmografia, de grande peso e valor artístico, que inclui obras como “A Faca na Água”, de 1962, “Repulsa ao Sexo”, de 1965, “A Dança dos Vampiros”, de 1967, “O Bebê de Rosemary”, de 1968, “Macbeth”, de 1971, “O Inquilino”, de 1976, “O Pianista”, de 2002, e de uma nova versão de “Oliver Twist”, de 2005.

sábado, 2 de junho de 2012

UM VERÃO ESCALDANTE

   Antonio Carlos Egypto


UM VERÃO ESCALDANTE (Un Été Brulânt).  França, 2011.  Direção: Phillippe Garrel.  Com Monica Bellucci, Louis Garrel, Céline Sallette, Jérôme Robart.  95 min.

Uma amizade que se constrói entre dois homens, o convívio deles e de suas mulheres num mesmo ambiente por um bom tempo, as rivalidades, os ciúmes, as inseguranças, a questão do casamento e de filhos e, é claro, as infidelidades que se revelam, são a matéria prima do novo filme de Phillippe Garrel: “Um Verão Escaldante”.  Até aí, nada de novo.  Tudo isso já foi fartamente abordado pelo cinema, em especial pelo cinema francês.
O que importa aqui é que estamos diante de um cineasta que acredita na imagem e mostra o que acontece, o que se passa com os sentimentos de cada personagem, faz enquadramentos magníficos, filma com rigor e delicadeza.
O filme pode não estar falando nada de novo, em matéria de relacionamentos humanos, principalmente amor e amizade.  Seus diálogos são simples, inteligentes e inventivos em alguns momentos, mas do cotidiano, sem grandes elaborações.  Soam verdadeiros, mas são triviais.  Não há, propriamente, uma trama.  O foco está nas pessoas, convivendo e enfrentando dificuldades, criando expectativas, sofrendo, se encantando, traindo e sendo traídas, como acontece na vida.  E uma amizade entre dois homens que parece resistir, incólume, a tudo.  Inabalável, mas também inexplicável.
Phillippe Garrel faz dessa matéria um filme requintado, bonito de se ver, de apreciar sua elegância e, principalmente, de acompanhar seu clima.  Está claro que não estou falando do verão do título, mas do clima que rola entre as pessoas e no ambiente.
Do convívio de dois casais numa temporada em uma bela casa em Roma, sem problemas financeiros, não se depreende um mergulho alienado do mundo.  Suas histórias e convicções pessoais nos remetem também ao período da Segunda Guerra Mundial, à resistência francesa, ao confronto então decisivo entre as ideologias do fascismo e do comunismo e o que elas podem ainda influir no comportamento dos jovens, na atualidade.  Isso é mostrado, aparece nos personagens, em seus diálogos.  Não para que algo se resolva, mas porque está lá, simplesmente.
“Um Verão Escaldante” é isso: uma beleza de filme, aparentemente sobre pouca coisa. Puro cinema. Aliás, está lá também o cinema dentro do cinema. Os personagens estão ligados profissionalmente à sétima arte. Isso dá margem a que se mostre uma filmagem e o incômodo que sente uma atriz sendo observada nos bastidores de sua atividade.

O começo do filme já traz uma bela e impactante sequência de um carro sendo dirigido por um jovem, percorrendo a estrada à noite.  A iluminação do caminho vai nos mostrando que o carro acelera, agora anda em alta velocidade e bate fortemente contra um obstáculo.  O som revela a intensidade do acidente.  Quem pode duvidar, a partir daí, que o que virá em seguida é bom cinema?
O quarteto principal de atores e atrizes é formado por Monica Bellucci, de múltiplos trabalhos no cinema italiano e mundial, Louis Garrel, ator em alta no cinema francês e filho do diretor, e por Céline Sallette e Jérôme Robert.  Todos estão bem nos papéis, embora o casal formado por Monica e Louis não convença muito.  A diferença de idade entre eles pesa.  Ele é muito jovem para ela, embora a figura de Monica siga sendo jovial.  O outro casal está mais equilibrado.  Jérôme Robert, bom ator, simpático, me pareceu sorridente em excesso para o papel.  Mas esses são detalhes que em nada prejudicam a qualidade do filme.
O diretor é o mesmo de “Amantes Constantes”, exibido em 2005, e “A Fronteira da Alvorada”, de 2008, filmes que também primam por serem produtos cinematográficos artisticamente sofisticados.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR

Antonio Carlos Egypto

BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR (Snow White and the Huntsman).  Estados Unidos, 2011.  Direção: Rupert Sanders.  Com Charlize Theron, Christen Stewart, Chris Hemsworth, Bob Hoskins, Ray Winstone. 127 min.

A princesa Branca de Neve veste uma armadura e comanda um pequeno exército que vai atacar o castelo medieval fortificado, onde vive a rainha madrasta e má.  Ela tem poderes sobrenaturais, é capaz de parar monstros, gigantes e horrendos, com sua força interior e seu jeito delicado.  Esteve à beira da morte, tida mesmo como morta, mas um beijo salvador veio do caçador, que tinha a missão de capturá-la para a rainha má, que pretendia devorar o coração da moça, mas acabou se apaixonando por ela.
A rainha má tem um espelho que amolece e se transfigura numa forma humana dourada, que fala.  A rainha é capaz de se transformar magicamente, não só numa nuvem de corvos como no irmão de Branca de Neve.  Cria um exército artificial que se estilhaça em milhares de partículas negras, semelhantes aos corvos.  É uma história que envolve muita violência, inúmeras brigas e combates, em que todos os personagens revelam muita coragem na ação, inclusive os anões.
Não está reconhecendo a história da Branca de Neve?  Não é assim que ela passou pela sua infância?  Desse jeito está se parecendo com outros blockbusters que andam por aí, esbanjando porrada para todo lado e fazendo tudo virar guerra?

Pois é isso mesmo.  “Branca de Neve e o Caçador” não tem nada a ver com aquela história divertida de candura e solidariedade, em que os anõezinhos se encantavam com a Branca de Neve e encantavam a garotada, com direito a lindas canções de João de Barro, o Braguinha.  “Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou...”.  Esquece.
O que interessa agora são os efeitos especiais, muita ação, muita fantasia e magia, porém, explícitas, sem qualquer sutileza.  Grande espetáculo, porém, vazio de ideias e humanidade.
Do ambiente onde vivem os anões transborda tamanha beleza, com o colorido das plantas e flores, cercado de animais maravilhosos e árvores de borboletas, que aí fica demais, soa falso, evidentemente.  Mas para chegar a ele quanta sujeira, lama, insetos e monstros em ambiente cinzento e lúgubre temos de aguentar.  A floresta negra é um horror.  A maldade da rainha não está só no seu coração, mas na sua capacidade concreta de matar pessoas e dominar pela magia, submetendo todos a seus desejos.  O espelho, coitado, é só um coadjuvante.  A relação da madrasta com ele e a necessidade de evitar o envelhecimento e a feiura que determinariam sua perda de poder parecem uma combinação de “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, com filme de vampiro.  É delirante.  Excessivo.

O que me incomoda nesse tipo de produto hollywoodiano é que é tudo igual.  A fórmula se repete sempre.  Trate-se de “Gengis Khan”, “Os Três Mosqueteiros”, “Thor”, “Hulk” ou “Branca de Neve”, você já sabe o que vai encontrar.  É sempre muita ação, efeitos em profusão, violência de videogame, monstros, elementos fantasiosos.  E nada a dizer.  Será que o público jovem, a quem é dirigido primordialmente esse tipo de filme, se satisfaz assim?  Ou ainda não descobriu que cinema pode ser uma coisa muito diferente disso?
São esses os filmes que ocupam um colosso de salas de cinema a cada semana, impedindo que haja espaço adequado para o cinema de reflexão, que costuma nos elevar a um patamar artístico e humano superior.  Ocorre que o marketing é avassalador, investem-se fortunas para levantar grandes bilheterias, e o público contribui, parecendo gostar de ver sempre variações sobre a mesma coisa, contadas do mesmo jeito.