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segunda-feira, 23 de setembro de 2024

CINEMA FANTÁSTICO

 

Nós, da Abraccine, estamos lançando em São Paulo nesta semana um novo livro da série100 filmes essenciais. Desta vez o foco é o Cinema Fantástico Brasileiro. Confira a matéria a seguir.

 


 

Cinema fantástico brasileiro: 100 filmes essenciais será lançado na mostra 1974 – 50 anos depois, na Cinemateca.

Novo livro da Abraccine destaca filmes brasileiros de horror, fantasia e ficção científica

 


Cinema fantástico brasileiro: 100 filmes essenciais será lançado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) em parceria com o Grupo Editorial Letramento no dia 27 de setembro, a partir das 17h30, na Cinemateca Brasileira, na mostra 1974 – 50 anos depois, na capital paulista. O lançamento precede as sessões de Exorcismo negro, de José Mojica Marins, em cópia restaurada em 4K, e Enigma para demônios, de Carlos Hugo Christensen, em 35mm, ambos contemplados pela publicação. Cinema fantástico brasileiro: 100 filmes essenciais nasce de um desejo de ampliar os estudos acerca desse gênero narrativo, com um recorte abrangente e introdutório, artigos de cunho histórico e abordagens críticas sobre esse universo. No livro, são apresentados cem filmes que questionam e expandem o limite do que se entende por realidade.

Por muito tempo se questionou se haveria um cinema fantástico no Brasil para além do mítico personagem Zé do Caixão, criação de José Mojica Marins. Um olhar atento, no entanto, revela uma filmografia extensa – e cada vez mais numerosa – e de qualidade que brinca com as possibilidades do estranho e do maravilhoso. Filmes de horror, fantasia ou ficção científica foram realizados na Vera Cruz, no Cinema Marginal, na Boca do Lixo e na Retomada; balizaram chanchadas, obras experimentais, infanto-juvenis e animações.

Para Gabriel Carneiro,  que organizou o livro ao lado de Paulo Henrique Silva, “Cinema fantástico brasileiro: 100 filmes essenciais é um marco na relação da crítica de cinema, especialmente a brasileira, com o cinema fantástico. O livro estabelece um diálogo com esse gênero tão popular, mas que historicamente foi - e ainda é - tão menosprezado e diminuído frente a outras formas de representação. Injustamente, vale dizer. Hoje já se vê, com menos preconceitos, o valor e a grandeza de muitas obras filiadas ao horror, à fantasia e à ficção científica. O que é um ganho substancial”.

"O livro nos permite acessar, de forma mais nítida e coesa, a construção de uma linguagem própria dentro de um gênero até então muito atrelado ao cinema norte-americano, além de lançar luz sobre obras subestimadas como as produções eróticas e dos Trapalhões, que não só marcaram uma época como também dizem muito sobre a maneira de ver um país. A fantasia, a ficção científica e o horror tornam possível tratar de questões urgentes e delicadas com uma abordagem criativa, que pode ser divertida ou amedrontadora e, ao mesmo tempo, bastante crítica e reflexiva", observa Paulo Henrique Silva.

Produção que inaugurou o gênero de horror no Brasil e trouxe ao mundo o personagem Zé do Caixão, À Meia Noite Levarei sua Alma (1964) foi escolhido como o melhor filme do cinema fantástico brasileiro, de acordo com levantamento inédito feito pela Abraccine e que serviu de baliza para o livro em questão.

O livro Cinema fantástico brasileiro: 100 filmes essenciais integra a série 100 Filmes Essenciais, antecedido por 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016), Documentário Brasileiro: 100 filmes essenciais (2017), Animação Brasileira: 100 filmes essenciais (2018) e Curta Brasileiro: 100 filmes essenciais (2019).

Confira a lista completa de 100 melhores produções no gênero fantástico: https://abraccine.org/2021/04/19/em-pesquisa-inedita-associacao-de-criticos-elege-os-100-melhores-filmes-do-cinema-fantastico-brasileiro-de-todos-os-tempos/

O livro também pode ser adquirido no site da editora: https://www.editoraletramento.com.br/cinema-fantastico-brasileiro-100-filmes-essenciais

Durante a mostra 1974 – 50 anos depois também serão apresentados os filmes O anjo da noite, de Walter Hugo Khouri, e Zezero, de Ozualdo Candeias, presentes no livro.

Serviço:

Lançamento e sessão de autógrafos de Cinema fantástico brasileiro: 100 filmes essenciais

27 de setembro, sexta-feira, às 17h30

Cinemateca Brasileira (Largo Sen. Raul Cardoso, 207 - São Paulo/SP)

1974 – 50 anos depois

Programação da mostra: https://cinemateca.org.br/series/1974-50-anos-depois/

Cinema fantástico brasileiro: 100 filmes essenciais

Organização: Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva

Grupo Editorial Letramento

Coleção Lumiére

376 páginas, 16x23

Preço de capa: R$ 90,00

ABRACCINE

Criada em 2011 e filiada à Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci), a Associação Brasileira de Críticos de Cinema reúne profissionais de 16 estados. Além da publicação de livros sobre o cinema nacional (num total de dez lançados desde 2016), a entidade realiza traduções de textos estrangeiros sobre cinema e cursos com concessão de bolsas para a diversidade e participa de júris de festivais de cinema no Brasil e no exterior. Site: https://abraccine.org/

Contato:

Gabriel Carneiro - ghpcarneiro@gmail.com

Paulo Henrique Silva - phenriquesilva40@gmail.com

 

 

sábado, 20 de janeiro de 2024

VIDAS PASSADAS

Antonio Carlos Egypto

 




VIDAS PASSADAS (Past Lives).  Coreia do Sul, 2023.  Direção e roteiro: Celine Song.  Elenco: Greta Lee, Teo Yoo, John Magaro, Seung Ah Moon, Leem Seung Min. 105 min.

 

“Vidas Passadas” começa nos mostrando duas crianças, encantadas uma com a outra, inseparáveis, a menina Na Young (Seung Ah Moon) e o menino Hae Seung (Leem Seung Min).  Isso há 24 anos atrás, quando a família dela se muda da Coreia do Sul, enquanto ele permanece lá. O filme irá explorar ao longo do tempo o que acontece com uma conexão tão forte quanto essa.  Partindo do pressuposto, como nos explica ela quando adulta, de que existe o In-Yun, um laço que une as pessoas porque esse vínculo já existia, já veio de vidas passadas.  Essa crença dá à história um sabor de originalidade, um plus que sofistica um amor que sempre teria existido, por isso pode ser reativado muitos anos depois.

 



Com efeito, buscas na Internet possibilitam um encontro virtual entre eles, 12 anos depois da separação, enquanto crianças, quando Na Young já vive em Nova York, desenvolvendo uma carreira literária e adotando lá o nome de Nora (Greta Lee).   Ela está casada com o norte-americano Arthur (John Magaro).  Passam-se mais 12 anos, até que Hae Seung (Teo Yoo) resolva ir pessoalmente a Nova York, para ver Nora.  Como esse vínculo se manifestará agora?

 

O que o filme da diretora e também roteirista Celine Song desenvolve é uma capacidade de dizer muito com muito pouco, explorando olhares, silêncios, ambiguidades.  Tudo com muita sutileza, tanto nos desempenhos dos atores e atrizes, ótimos, quanto na trilha sonora leve e na fotografia que dispensa cores fortes ou muita luminosidade.  Tudo isso num romance em meios tons, sem arroubos ou expressões emocionais intensas.  De um modo oriental.  Ou, quem sabe, mesmo coreano.  Nora explica para Arthur como é Hae Seung, dizendo que ele tem uma virilidade bem coreana.  E dá para entender, vendo o personagem agir com educação, cuidado, respeito pelas pessoas, sem sinais de grossura ou agressividade, mesmo contrariado.  Nora é uma figura de mulher forte, decidida, ambiciosa, mas, ao mesmo tempo, doce, acolhedora, delicada. 

 

Com essas características creio que já dá para ver que “Vidas Passadas” consegue fisgar o espectador, deixando sempre uma dúvida no ar.  Observar a forma como cada personagem lida com as situações, e ao longo do tempo, é um exercício muito interessante a se fazer, enquanto o filme rola.  Incluindo o não-oriental Arthur, o marido de Nora.

 

“Vidas Passadas” é um dos concorrentes ao Oscar.  Seu maior triunfo, em tempos de muita ação, super-heróis e todo tipo de excessos, é essa capacidade de ser envolvente com sutileza.

 


 


 

CINEMA FANTÁSTICO BRASILEIRO 100 filmes essenciais

Esta é a capa de um novo livro da Abraccine, organizado por Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva, que está sendo lançado amanhã (21/01/2024) na 27ª. Mostra de Cinema de Tiradentes, MG. Em breve ele será lançado em São Paulo e em vários outros estados brasileiros. Eu participo dele com uma crítica do filme “O Auto da Compadecida”. Voltarei ao assunto em breve.



sexta-feira, 3 de novembro de 2023

LIVROS NA # 47 MOSTRA (II)

Antonio Carlos Egypto

 

Meu registro fotográfico do lançamento do livro A ARTE DA CRÍTICA, um crítico de cinema reflete sobre o seu ofício, escrito por Luiz Zanin Oricchio.  Quem gosta de ler ou escrever sobre cinema vai se deliciar com a prosa de Zanin, que nos conquista de imediato. Pela clareza, pela reflexão e pela qualidade na informação que nos dá.

 

Na ocasião do lançamento, houve um debate coordenado por Maria do Rosário Caetano, com Paulo Henrique Silva, Orlando Margarido e o autor.  Paulo Henrique, de Belo Horizonte, é o coordenador da coleção Lumière, da editora Letramento, cujo primeiro livro é justamente A ARTE DA CRÍTICA.  Ele foi presidente da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema --, assim como Ivonete Pinto, de Porto Alegre, que assina o prefácio da obra.  Zanin foi o primeiro presidente da Abraccine, de 2011 a 2015, e crítico de cinema do Estadão há 30 anos.

 

Em seguida, passou-se à indispensável sessão de autógrafos.  Esse foi um evento promovido pela 47ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na Cinemateca Brasileira.

 

Obs. A foto com Orlando foi tirada em outro momento.



 







@mostrasp

terça-feira, 31 de outubro de 2023

LIVROS NA # 47 MOSTRA (I)

Antonio Carlos Egypto


Meu registro fotográfico do lançamento do novo livro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), INÁCIO ARAÚJO – OLHOS LIVRES PARA VER, das edições Sesc, organizado por Sérgio Alpendre e Laura Loguercio Cânepa.  Foi no dia 26 de outubro de 2023, na Cinemateca Brasileira, como parte integrante dos eventos da 47ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.  Neusa Barbosa coordenou o debate sobre o livro, com Inácio Araújo e Sérgio Alpendre.  Foi uma tarde muito prazerosa e o livro, que já comecei a ler, é ótimo.  Estará à venda nas unidades do Sesc.  Paula Ferraz, da Sinny, era uma das muitas pessoas ligadas ao cinema que estavam por lá. Maria do Rosário Caetano, por exemplo, fez muitas fotos, inclusive algumas daqui.







@mostrasp

sábado, 21 de outubro de 2023

2 DOCS E 1 LIVRO NA # 47 MOSTRA

    Antonio Carlos Egypto

 

 


 SETE INVERNOS EM TEERÃ (Sieben Winter in Teheran).  Alemanha, 2023. Direção de Steffi Niederzoll.  Documentário. 97 min.

 

O fllme retrata o caso da jovem iraniana Reyhaneh Jabbari, que, aos 19 anos, esfaqueou e matou um médico, homem importante, que tentou estuprá-la.  Como ele vinha de uma família poderosa e profundamente religiosa, a tentativa seria uma marca ultrajante moralmente para a família.  Assim, seria preciso mostrar que a jovem havia mentido.  Num julgamento manipulado, decretou-se a pena de morte a ela.  A razão é a dívida de sangue que, na prática, equivale ao direito à vingança, olho por olho.  Neste caso, só o perdão da família do morto poderia salvá–la da execução.  O documentário detalha o processo, mostrando vídeos gravados secretamente pela família Jabbari, cartas dela da prisão e imagens dela e da família antes do crime, além de depoimentos da mãe, do pai, da irmã e de outras detentas.  Acompanha a repercussão internacional do caso.  Ela se tornou símbolo de resistência e dos direitos das mulheres, não só do Irã.  A produção é da Alemanha, onde vivem hoje a mãe e a irmã de Reyhaneh.  Regimes autoritários e de matriz religiosa tendem a justificar e produzir grandes injustiças, como se deu aqui.

 



RAZÕES AFRICANAS.  Brasil, 2023.  Direção de Jefferson Mello.  Documentário.  90 min.

 

Sabemos que a música é a maior e mais evidente contribuição da negritude à cultura mundial.  “Razões Africanas”, então, se ocupa de três manifestações musicais africanas que estão na base de uma vasta e variadíssima produção ao redor do mundo.  O blues, desenvolvido como música negra norte-americana, tem a ver com o jazz, é fator gerador da country music, do rock, dos spirituals.  Um pouco dessa história é explorado em depoimentos e “causos” que envolvem performances com vários instrumentistas ao piano, violão, gaita e outros mais.  A rumba nos remete à musicalidade negra de Cuba, que se espalhou da pequena ilha para o mundo, danças sensuais, tambores, muita festa e muita vida, são mostrados e explicados aí.  A percussão dos tambores, entre muitos outros instrumentos, está também na origem do jongo, do Rio de Janeiro, originário de Angola, com vínculos nos terreiros, parente do maracatu e do maxixe, que gerou o nosso ritmo nacional, o samba, e até hoje mostra sua força no hip hop, por exemplo.  Com filmagens também nos influenciadores originários, como não só Angola, mas o Congo e o Mali, podemos usufruir da música, da dança e das vestimentas maravilhosas que inspiram também nossas Escolas de Samba no Carnaval.  É triste constatar que grande parte de tudo isso se desenvolveu pela rica troca cultural que reuniu escravizados de vários pontos no Brasil, em Cuba ou nos Estados Unidos.  Da sobrevivência à resistência, das senzalas e quilombos, foi nascendo e se desenvolvendo uma cultura fulgurante, uma arte capaz de encantar a todos.  “Razões Africanas” é uma amostra disso.

 


LIVRO: A ARTE DA CRÍTICA

Luiz Zanin Oricchio, um dos mais importantes nomes da crítica de cinema da atualidade, ou melhor, dos últimos 30 anos de sua atividade no Estadão, lança livro novo: “A Arte da Crítica”, da Editora Letramento.  O lançamento será às 17 h do dia 26 de outubro, na Cinemateca Brasileira (Largo Sen. Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, São Paulo), durante a # 47 Mostra.  Zanin busca responder, com uma escrita ao mesmo tempo leve e elaborada, questões fundamentais sobre o exercício da crítica.  O que é crítica de cinema?  Qual é a sua finalidade?  A que estilo de escrita deve pertencer?  O que é preciso para ser um crítico?  E mais.  Na oportunidade, haverá um bate-papo, após a sessão de autógrafos, com Luíz Zanin, José Geraldo Couto e Paulo Henrique Silva, mediado por Maria do Rosário Caetano.

 

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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

DESTAQUES DA # 47 MOSTRA

                      Antonio Carlos Egypto

 

 



ANATOMIA DE UMA QUEDA (Anatomie d’une chute).  França, 2023.  Direção: Justine Triet.  Elenco: Sandra Huller, Swann Arland, Milo Machado Graner, Antoine Reinartz.  150 min.

 

Filme de abertura desta Mostra 47, “Anatomia de uma Queda” vem com a chancela da Palma de Ouro no Festival de Cannes.  Em essência, trata-se de um filme de tribunal, que é onde ocorre a grande maioria das sequências.  E o assunto é esclarecimento de uma queda que resultou em morte.  Homicídio?  Suicídio? A investigação adentra a vida do casal Sandra e Samuel e de seu filho de 11 anos, que passou por um acidente aos 4 anos e deixou marcas profundas na relação do casal.  Essa relação sempre foi difícil, conturbada.  Sem escarafunchá-la, não se chegará a nada.  A questão é que a verdade, mesmo a factual, está sempre sujeita à subjetividade, aos sentimentos, aos desejos e às preferências.  O filme da já experiente diretora Justine Triet explora bem os meandros dessa relação e o contexto dessa morte.  Dela também fazem parte importante o garoto e seu cachorro.  Está menos preocupada em definir o caso do que em explorar seus meandros.  A narrativa é clássica, valendo-se de gravações de som e vídeos exibidas, para ir além do espaço formal do tribunal.   Por sinal, as formalidades conhecidas e esperadas acontecem bem pouco.  Como se já fosse possível uma conversa coloquial, com a participação dos envolvidos, réplica e tréplica de forma relativamente independente da acusação e da defesa.  Até a juíza é informal no modo de botar ordem na discussão.  Parece bem melhor assim do que aquilo a que estamos acostumados a ver, pelo menos nos filmes de tribunal.  Mas tem acontecido na prática, no século XXI, ao menos na França?  Não tenho notícia.  No fim das contas, um filme centrado muito mais nas questões psicológicas do que nas jurídicas, mas usando uma forma tradicional que o cinema já utilizou largamente.

 



LIÇÕES DE BLAGA (Blaga’s Lessons).  Bulgária, 2023.  Direção: Stephan Komandarev.  Elenco: Eli Skorcheva, Gerasin Georgiev, Rozalia Abgarian, Ivan Barnev.  114 min.


 Um grande destaque desta Mostra 47 para mim é o filme da Bulgária, “Lições de Blaga”, dirigido por Stephan Komandarev.  É o indicado para o Oscar de filme internacional pelo seu país.  Ele parte de algo bem conhecido dos nossos dias, os golpes por telefone que levam uma pessoa desavisada a crer que corre perigo e entrega senhas, cartões, joga dinheiro pela janela, etc..  Mesmo se tratando de alguém inteligente, letrado.  O método de criar pânico e exigir ação imediata acaba funcionando.  A pessoa crê que está se protegendo e entrega tudo aos bandidos.  Sendo uma senhora idosa, que acaba de ficar viúva e, embora professora de língua búlgara, dependente da gerência econômica do marido, as coisas podem se complicar muito.  Que empregos existem, na Bulgária ou aqui, para uma mulher de 70 anos de idade, que precise voltar a trabalhar?  Bem, alguma coisa pode existir, mas como pode-se imaginar, à margem da lei.  Algo como passar para o outro lado, viver como algoz ou colaborador, no lugar de vítima.  Questões éticas e comportamentais põem à prova a personagem central.  A forma como a trama é conduzida, com as questões muito bem amarradas e consistentemente encadeadas, revela um excelente roteiro.  Ao lado de uma interpretação muito convincente de Eli Skorcheva, uma grande atriz, que sustenta o filme do começo ao fim.  O final, aliás, é a coroação de uma evolução da situação muito feliz e reveladora das voltas que o mundo dá na cabeça das pessoas.

 

 

Abraccine lança livro sobre Inácio Araujo na Mostra de São Paulo

Publicado pelas Edições Sesc, “Inácio Araujo: Olhos Livres Para Ver” reúne textos do influente crítico de cinema e artigos que refletem  sobre sua trajetória profissional






A Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema lança o seu mais recente livro, “Inácio Araujo: Olhos Livres Para Ver”, durante a programação da 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. No próximo dia 26 de outubro, às 15h, na Cinemateca Brasileira,  o público poderá adquirir a publicação e participar de uma sessão de autógrafos com o crítico de cinema Inácio Araujo e um dos organizadores do livro, Sérgio Alpendre. O evento contará ainda com um bate-papo entre ambos com mediação de Neusa Barbosa.



"Inácio Araujo: Olhos Livres Para Ver" é organizado por Sérgio Alpendre e Laura Loguercio Cánepa. O livro analisa a trajetória de quatro décadas do crítico de cinema, cineasta, escritor e professor, refletindo sobre o seu estilo de análise elegante e sintético, além de suas contribuições para o pensamento sobre o cinema brasileiro e a formação de novos críticos e espectadores. Ao mesmo tempo, a publicação é uma homenagem a Inácio, cuja influência perpassa diferentes gerações de leitores e cinéfilos.

 

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quarta-feira, 15 de maio de 2019

A ESPIÃ VERMELHA

Antonio Carlos Egypto







A ESPIÃ VERMELHA (Red Joan).  Reino Unido, 2018.  Direção: Trevor Nunn.  Com Judi Dench, Sophie Cookson, Tom Hughes, Stephen Campbell Moore, Tereza Srbova, Ben Miles.  101 min.


Quando se fala de espionagem, a ideia imediatamente associada a ela é a de traição.  Traição a seu país, à sua causa política, aos seus companheiros de trabalho ou militância, a seus amores, amigos, familiares.  Mas o mundo é complexo e muitos elementos entram nessa equação.  Por exemplo, num tempo de guerra, há alianças. Será correto que um país aliado esconda informações essenciais do outro?  A lealdade a um país não poderia ser um entrave ao equilíbrio necessário para reconquistar a paz mundial? 

No terreno das relações pessoais, como amar e se dedicar a alguém que professa teses arriscadas, que soam parciais ou manipuladas?  Enfim, é possível e desejável dormir com o inimigo?  É justo excluir amigos e familiares de informações que podem colocá-los em risco?  Por outro lado, deixá-los na ignorância pode ser uma forma de protegê-los?  E aos companheiros de militância política ou científica é possível omitir ou compartilhar dados sigilosos?  Em que medida e com que objetivo?

Todas essas questões perpassam a leitura do romance “A Espiã Vermelha” (Red Joan), de Jennie Rooney, uma criação inspirada em fatos e personagens reais da história, no Reino Unido, no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, passou por toda a conflagração e continuou após a bomba atômica, em Hiroshima, e a vitória dos aliados ocidentais e da União Soviética. 

A personagem da espiã Joan Stanley é complexa e cheia de nuances, sentimentos, valores, lealdades pessoais e políticas.  Inspirada livremente numa espiã britânica, Melita Norwood, que agiu municiando a União Soviética de informações sigilosas.  Só foi descoberta 50 anos após, quando já contava com 87 anos de idade, levando uma vida calma e tranquila nos subúrbios londrinos, viúva e com um filho advogado.

O filme homônimo, de Trevor Nunn, adapta essa história surpreendente e atraente, respeitando a proposta do livro, mas reduzindo significativamente o impacto político e a força que esse envolvimento tem na vida da personagem principal e de seus contatos mais importantes: Max, Leo, Sonya, William, Nick. 






O comunismo como ideia força dessa juventude retratada, o papel heróico e ambíguo de Stalin na guerra (haja visto o pacto de não-agressão firmado com Hitler), a opressão que se seguiu, assim como o papel do Reino Unido como aliado preferencial dos norte-americanos, porém, reticente em relação aos soviéticos, o rompimento do que restava do pacto civilizatório com o ataque brutal da bomba em Hiroshima e Nagasaki e o desequilíbrio do mundo com a emergência da superpotência dos Estados Unidos, tiveram um papel de fundamental relevo na trama.  Que é claro no livro, mas tímido no filme.

Os elementos romãnticos da narrativa são mais explorados pelo filme do que talvez fosse necessário.  Parece que houve uma preocupação de tornar mais palatável ao grande público uma trama que deixasse a contextualização política num plano mais geral, sem entrar em muitos detalhes.  No entanto, a espionagem em si é apenas um elemento do sentimento político reinante nesse período da história.  Não é o centro dela, embora seja o elemento detonador que une o hoje ao passado.

Evidentemente, o nome da grande atriz inglesa Judi Dench, que faz Joan idosa nos dias atuais, vai atrair o público aos cinemas.  Seu papel, porém, é relativamente pequeno, já que o maior tempo é dedicado ao relembrar do passado que está sub judice  da Joan jovem, papel de Sophie Cookson, que está bem, mas não passa a densidade política que a personagem precisaria ter.  O elenco como conjunto é muito bom, a produção é bem cuidada, a caracterização de época é ótima, oferecendo um programa cinematográfico de boa qualidade.  O livro que inspirou o filme, lançado pela editora Record, aprofunda questões que “A Espiã Vermelha”, no cinema, não conseguiu explorar suficientemente. 





quinta-feira, 28 de junho de 2018

HISTÓRIA DO CINEMA EM LIVRO



Antonio Carlos Egypto





O cinema é uma das invenções mais fascinantes da humanidade.  E sua história, que remonta ao final do século XIX, é muito rica em criação, descoberta, estabelecimento de uma linguagem, estilos, gêneros, escolas e movimentos.  E na evolução tecnológica, que nunca parou.  Para dar conta da história do cinema, foram escritas algumas obras enciclopédicas, que os estudiosos têm de conhecer e consultar.  Mas, num mundo e numa época em que tudo tem de ser rápido, todos têm pressa e ninguém parece ter tempo, é muito bem-vindo um trabalho que, de modo sintético, consegue dar conta dessa bela e emocionante história.

Trata-se do livro recém-lançado “A História do Cinema Para Quem Tem Pressa (dos irmãos Lumière ao século XXI em 200 páginas) “, do crítico de cinema, e meu amigo, Celso Sabadin.  Ele escreve de forma simples e direta sobre tudo o que foi, e é, importante na história do cinema, com muito talento e objetividade.  Com um admirável poder de síntese.  Não se perde em divagações, detalhes secundários ou meras curiosidades.  Lida com o essencial do assunto e, o que é muito importante, de forma crítica.  Contextualiza os fatos e situações, sem perder de vista os ambientes político e e econômico os envolvem.  Deixa, assim, as coisas muito mais claras e compreensíveis.  Qualquer pessoa que goste de cinema vai apreciar e se sentirá melhor informada sobre a chamada sétima arte.




O livro cobre da pré-história das imagens em movimento às cinematografias atuais da Índia, Nigéria, China, Japão, Irã, Dinamarca, Coreia do Sul.  Com destaque para o cinema norte-americano, sua ascensão, crises e declínio, o expressionismo alemão, o impressionismo, o realismo poético e a nouvelle vague franceses, o neorrealismo italiano, a Rússia e o realismo soviético e, é claro, a história do cinema brasileiro.  Debruça-se sobre as relações entre as duas grandes guerras mundiais e o cinema.  Enfim, traça um panorama bastante amplo e completo do seu apaixonado objeto de estudo.

Como consegue tudo isso em meras duzentas páginas, que podem ser lidas em pouco tempo?  Não é uma tarefa fácil, mas Celso Sabadin consegue um ótimo produto, porque fala daquilo que conhece bem.  E quando a gente domina um assunto, tendo habilidade na escrita, dá para explicar as coisas muito bem, de forma clara e em poucas palavras.  Esse é o grande mérito de “A História do Cinema Para Quem Tem Pressa”, da editora Valentina.  Esse mote para quem tem pressa não é exclusivo do livro do Celso Sabadin, faz parte de uma coleção de história que aborda outros assuntos dessa forma sintética e panorâmica.  No caso da história do cinema, o resultado é altamente sedutor e esbanja competência.



domingo, 1 de novembro de 2015

OUTRAS NOTAS SOBRE A 39a. MOSTRA


Antonio Carlos Egypto

-- A origem dos filmes é, inegavelmente, um dos atrativos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.  Neste ano de 2015, do Quirguistão veio um belo filme:  NÔMADE CELESTIAL, em que uma família de pastores, vivendo em montanhas remotas do país, tem de enfrentar os chamados da cidade e do extinguir inevitável da vida.  E, como é comum acontecer, sobrou para as mulheres de três gerações manter a tradição rural de sua história familiar.  Simplicidade e belas locações garantiram um bom programa.

NÔMADE CELESTIAL

-- Já no caso do Azerbaijão, a decepção foi completa.  O filme JANEIRO SANGRENTO, que pretende exaltar o heroísmo das lutas pela independência frente à União Soviética, é maniqueísta, apelativo e, sobretudo, mal encenado.  E com atuações muito fracas.  É muito erro num filme só.  Pena!

-- Da Croácia veio uma boa realização, O CEIFADOR, escuro e assustador, em todos os sentidos.  Uma mulher, numa estrada escura, fica sem combustível no carro e recebe a ajuda de um agricultor que trabalhava com seu trator à noite e a leva a um posto de gasolina, em lugar isolado.  Em seguida, a convida para um chá em sua casa, bastante deteriorada.  Ecos da guerra ressoam na vida das pessoas, aqui. E o medo nos acompanha em toda a narrativa, que tem elementos inesperados e consequências não previstas.

-- Da Romênia, que tem apresentado bons filmes na Mostra, todos os anos, veio AFERIM, vencedor do Urso de Prata de Direção, em Berlim.  Refere-se a uma Romênia do século XIX, mas parece um mergulho na época medieval, com crendices, demônios e preconceitos adequadamente mostrados numa boa fotografia em preto e branco.  O diretor é Radu Jude, um nome a lembrar.


AFERIM

-- Das Filipinas, o já nosso conhecido e respeitado cineasta, Brillante Mendoza, nos brindou com um filme de alto padrão: ARMADILHA.  A vulnerabilidade da pobreza pode virar tragédia, quando um incêndio consome uma casa-tenda, com quase toda a família morrendo, exceto o homem, seu provedor. Se a isso se agregam desastres naturais, como tempestades e um tsunami a caminho, o que se vê é o quadro mais angustiante e desolador possível.  Uma filmagem bela e envolvente nos gratifica, apesar de toda a desgraça que exibe. 

-- Grandes diretores reaparecem, como é o caso do italiano Ermano Olmi, que dirigiu o inesquecível A ÁRVORE DOS TAMANCOS, em 1978, e A LENDA DO SANTO BEBERRÃO, em 1988, e sumiu da nossa vista.  Pelo menos, da minha.  OS CAMPOS VOLTARÃO, seu filme de 2015, trata de um grupo de soldados na Primeira Guerra Mundial, em meio a fortes nevascas e a um silêncio ensurdecedor, de frente para a trincheira austríaca, vivendo um cotidiano de doenças, do desejo de voltar para casa e da iminência de bombardeios.  Em meio a uma beleza natural de que não podem desfrutar.  Bela fotografia em preto e branco.  Trabalho de mestre, esse filme de Olmi, aos 84 anos de idade.


OS CAMPOS VOLTARÃO

-- TIGRES, do diretor bósnio Danis Tanovic, de TERRA DE NINGUÉM, em 2001, é um filme-denúncia, sobre as formas antiéticas com que multinacionais impõem seus produtos nutricionais e remédios pelo mundo.  No caso concreto tratado aqui, a atuação da Nestlé no Paquistão é objeto de questionamento.  A substituição ou complementação do leite materno associada à água local produz sérios problemas de saúde nos bebês.  Como enfrentar isso?  Quem deve ser responsabilizado, quando as evidências não podem mais ser negadas?:

-- A questão dos imigrantes que tentam chegar à Europa e as mortes que vêm acontecendo atingem uma ilha turística, como a de Lampedusa, na Itália. Muito próxima da África, é uma porta de entrada para os refugiados de guerra, da fome e da opressão.  Conhecemos não só esse problema como os da sobrevivência da pequena comunidade local, quando sua balsa é destruída pelo fogo, pescadores brigam por novo barco, registra-se uma greve.  Tudo isso no inverno, dominado pela ausência dos turistas.  LAMPEDUSA NO INVERNO é um documentário que mostra tudo isso e também a bela ilha siciliana, indicando até nos créditos finais o melhor período para visitá-la.  Assunto sério e difusão turística.  Por que não? O cinema é um bom meio de se conhecer muitos lugares.  Ou de se ser estimulado a ir vê-los ao vivo.

LIVRO DA MOSTRA




A Mostra lançou o livro “Memórias do Cinema – Um Idioma Universal”, resgatando os encontros realizados nos anos de 2013 e 2014, que reuniram muitos depoimentos sobre o cinema na vida de cada um, com ênfase no elemento afetivo da memória.  Já li alguns dos depoimentos e todos me agradaram e me interessaram muito: os dos cineastas Jia Zhang-Ke, da China, e Walter Salles e os dos jornalistas e críticos Cássio Starling Carlos e Maria do Rosário Caetano.  Para quem gosta de cinema, uma leitura muito gostosa e agradável, com a qual é possível se identificar em muitos pontos.  A organização do livro, como da Mostra, é de Renata de Almeida.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O CINEMA DE TRUFFAUT


Antonio Carlos Egypto




François Truffaut (1932-1984) foi um dos maiores cineastas de todos os tempos.  Deixou marcas profundas na mudança de rumos que o cinema conheceu, a partir de novas filmografias, como a nouvelle vague, de quem foi um dos expoentes.  Seu trabalho como crítico no Cahiers du Cinéma teve grande importância na revisão de conceitos a respeito do cinema na França e no mundo.  Foi grande responsável pelo reconhecimento artístico do cinema de Alfred Hitchcock.  O livro de entrevistas “Hitchcock/Truffaut” é um clássico, tanto quanto os filmes dos dois grandes diretores.




A obra de Truffaut é magnífica na concepção fílmica, na elaboração de personagens, sempre atraentes por sua humanidade, e na dedicação à questão do amor, sob as suas mais variadas formas, da mais banal à mais bizarra.  Ele jamais perdeu de vista a necessidade de se comunicar com o público, fazendo só o que acreditava, sem concessões comerciais, mas também sem hermetismo.  Um autor, na acepção completa do termo, que ele tanto cultivava. 




Quem não conhece bem a obra cinematográfica de François Truffaut tem agora uma boa oportunidade para fazê-lo.  De um lado, pela exposição “Truffaut – Um Cineasta Apaixonado”, no MIS – Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, onde seus filmes e objetos relacionados a eles estão sendo mostrados.  Há muito que ver lá para conhecer ou reconhecer o trabalho do grande cineasta francês, além de alguns aspectos de sua história pessoal.  De outro, porque o cine Belas Artes, também em São Paulo, está exibindo na tela do cinema 17 dos 21 longas do diretor, até o final do mês de setembro, em sessões da retrospectiva “A Nova Onda de François Truffaut”.  São filmes que existem em DVD/Blu-Ray ou podem ser vistos em outras mídias, mas que ganham muito com a exibição no telão.



Vale a pena ver, ou rever, a série de filmes que têm como personagem Antoine Doinel (vivido sempre pelo ator Jean-Pierre Léaud): “Os Incompreendidos” (1959), “Beijos Proibidos” (1968), “Domicílio Conjugal (1970), “O Amor em Fuga” (1978).  Grandes pedidas são: “Jules e Jim, uma Mulher Para Dois” (1961) e “O Último Metrô” (1980).  Vale ver também “O Garoto Selvagem” (1970) e “Na Idade da Inocência” (1976), que tratam de crianças em situações, digamos, de risco.  Os dois últimos trabalhos também estão lá: “A Mulher do Lado” (1981) e “De repente, num Domingo” (1983).  Não esquecer de “A História de Adèle H”, com grande desempenho de Isabelle Adjani (1975).  Quer saber, tudo vale a pena.  O que você não conhecer, aproveite para ver com prioridade, já que, mesmo os filmes considerados menores, são, inegavelmente, muito bons. 




Uma outra sugestão para os que se interessam pela obra do cineasta é o livro “O Cinema segundo François Truffaut”, uma reunião de entrevistas e textos coletados ao longo de muitos anos, reunidos e editados por Anne Gillain.  Aqui ele fala da construção fílmica, da sua visão do cinema e de cada filme que dirigiu.