segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Amor e Outras Drogas


Tatiana Babadobulos

O Amor e Outras Drogas (Love and Other Drugs). Estados Unidos, 2010. Direção: Edward Zwick Roteiro: Charles Randolph e Edward Zwick. Com: Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway. 112 minutos

Sabe quando você está no consultório médico à espera do atendimento e sai da sala do especialista um homem ou uma mulher com uma malinha? Trata-se de um representante de alguma indústria farmacêutica, que vai apresentar ao profissional seu lançamento para que ele conheça e, claro, receite o tal medicamento.

“O Amor e Outras Drogas” (“Love and Other Drugs”) fala um pouco sobre esse universo (indústria farmacêutica), mas também do relacionamento que acontece entre um desses representantes e uma artista, que, aos vinte e poucos anos, sofre de Parkinson.

Na trama, quem vive os personagens é Jake Gyllenhaal (de “O Segredo de Brokeback Mountain”) e Anne Hathaway (de “O Diabo Veste Prada”). Os dois, aliás, já estiveram juntos no primeiro filme, mas não eram o centro das atenções, tal como são aqui.

Para contar a história, baseada no livro “Hard Sell: The Evolution of a Viagra Salesman”, o diretor Edward Zwick (de “Diamante de Sangue”) começa apresentando o protagonista, Jamie (Gyllenhaal), que nos anos 1990 trabalha em uma loja de eletrônicos e, com seu charme e beleza, tenta convencer as pessoas dos benefícios da câmera filmadora, do microsystem, entre outros lançamentos da época. Até que perde o emprego e busca uma recolocação como representante de medicamentos, já que é ali, segundo ele, que está o dinheiro.

A partir de então, ele vai ter de convencer os médicos a lhe atenderem para dar a oportunidade de mostrar os benefícios do medicamento da Pfizer, empresa para qual trabalha (e cujo merchandising é enorme, assim como da Novartis e outras gigantes do setor), e parar de receitar Prozac.

É aí, caro leitor, que a plateia do cinema vai conhecer o que é feito para o médico indicar determinado medicamento (em detrimento do concorrente ou de remédios manipulados). E vale tudo: conquistar a secretária, jogar as amostras do outro fora, pagar para o médico... Uma lista de “sujeiras” sem fim.

Mas tudo começa a mudar de rumo quando Jamie conhece Maggie (Anne), mais de 15 minutos depois do início do filme. É quando o longa-metragem muda o foco, de maneira que agora passa a ser o relacionamento dos dois, embora ambos prefiram não tratar como tal, mas como sexo casual, sem compromisso. Outra mudança radical é quando Jamie passa a vender o Viagra, medicamento que representa o que poderíamos chamar de “segunda revolução sexual” -- depois da pílula anticoncepcional.

Do título do filme, aí está o amor. E as outras drogas, como o espectador poderá ver, são os remédios, mas também a maconha que Maggie fuma (provavelmente por conta da dor que sente), a bebida das festas, e o que mais pode-se chamar de droga, como as brigas com o concorrente, a patifaria...

Com uma química que funciona, os dois jovens atores (que concorreram ao Globo de Ouro, mas não ganharam) dão ritmo ao filme e prendem a atenção do espectador, em cenas quentes, mas sem ser vulgar. Junte-se a isso a trilha sonora, que tem Regina Spektor, Spin Doctors, Bob Dylan.

A sensibilidade do longa é reforçada pela doença da moça, mas o que só dá um ânimo a mais para ver qual será a atitude do rapaz. Sem ser piegas, mas com final de deixar os olhos cheios de lágrimas, “O Amor e Outras Drogas” cumpre o que promete: ser uma comédia romântica com humor inteligente, jovem, além de escancarar críticas à indústria farmacêutica que, cá entre nós, continua faturando alto -- sabe-se lá em quais condições.

sábado, 29 de janeiro de 2011

INVERNO DA ALMA

           Antonio Carlos Egypto



INVERNO DA ALMA (Winter’s Bone). Estados Unidos, 2010. Direção: Debra Granik. Com Jennifer Lawrence, John Hawkes, Dale Dickey, Lauren Sweetser e Tate Taylor. 100 min.

Quem está acostumado a acompanhar o cinema europeu e de todo o mundo não se surpreenderá com uma história que se centra nas carências humanas, tais como a fome, o abandono familiar e a violência dos produtores de droga, envolvendo uma comunidade rural. Pois esse é o contexto de uma produção norte-americana independente, de baixo orçamento, que tem indicações, inclusive a de melhor filme, na premiação do Oscar: “Inverno da Alma”.

A protagonista da ação é a jovem Ree (Jennifer Lawrence), de 17 anos, que se torna responsável por sua família, quando os pais a abandonam. O pai sumiu, esteve preso. Estaria morto? Envolvido por sua participação na indústria local de drogas (cocaína, maconha, metanfetaminas) é a figura insistentemente procurada por todos, especialmente por ela.

A mãe está fisicamente presente, mas mentalmente ausente. Vive uma existência autista, imprestável para qualquer coisa. É um peso a mais na vida da adolescente Ree, que tem de cuidar da casa e alimentar e educar seus irmãos menores, um garoto de 12 anos e uma menina de 8 anos. E desde que soube pelo xerife que sua própria casa foi dada pelo pai em fiança, para poder sair da cadeia, está à procura dele, passando por provações incríveis, que ela enfrenta com muita coragem. Não tem outra escolha? Pode ser. Ainda assim, é demais para uma garota dessa idade.

O personagem Ree acaba sendo perfeito demais. O contraste é ainda maior com o personagem Sonny, o irmão de 12 anos, que é infantil, dependente e sem qualquer iniciativa, exceto em uma única cena, fugaz. Quem vive nas circunstâncias de penúria em que ele vive já teria de ter aprendido a se virar. Enquanto Ree sabe de tudo aos 17 anos, Sonny não sabe de nada. Na verdade, ambos personagens improváveis.

Os adultos, até mesmo o tio dela, irmão do pai sumido, estão muito comprometidos para conseguir ajudar e acabam relegando as crianças e a adolescente à sua própria sorte. Restam os vizinhos, dispostos à solidariedade diante da fome.

Um retrato do interior dos Estados Unidos sem moldura dourada. As carências e tragédias da chamada “América profunda”. Ou o avesso da América da classe média, da tecnologia e do consumo. “Inverno da Alma” é um filme que pega pesado e é corajoso no retrato que faz de uma realidade bem pouco ou quase nada mostrada por Hollywood. Tem cenas desagradáveis de se ver, mostra lugares pobres, numa estética suja, ausente qualquer glamour e, é claro, nos faz refletir sobre essa crua realidade que também faz parte da América.

Eu diria que se distancia bastante da produção hollywoodiana típica, tendo mais parentesco com a produção alternativa que se produz pelo mundo afora, embora Hollywood também comporte tragédias humanas realistas, como foi o caso de“Preciosa”, de 2009. Devidamente oscarizada, inclusive (Mo’Nique, como atriz coadjuvante, e roteiro adaptado). Só que “Preciosa” cultivava uma esperança com a qual “Inverno da Alma” não compartilha.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um Lugar Qualquer

 

Tatiana Babadobulos

Um Lugar Qualquer (Somewhere). Estados Unidos, 2010. Direção e Roteiro: Sophia Coppola. Com: Stephen Dorff e Elle Fanning. 97 minutos


Sophia Coppola não tem medo. Apesar do sobrenome que carrega (ela é filha de Francis Ford Coppola, diretor, por exemplo, da trilogia “O Poderoso Chefão”), ela não tem receio de dar sua cara à tapa. Depois de fazer filmes como “Encontros e Desencontros” e “Maria Antonieta”, e mostrar, neste último caso, sua visão sobre a vida da rainha francesa, agora ela chega ao cinema mostrando mais uma obra que escreveu, produziu e dirigiu: “Um Lugar Qualquer” (“Somewhere”), longa-metragem que passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado, e estreia nesta sexta-feira, 28, nos cinemas.

Ronco do motor, câmera parada e o carro preto fica dando voltas em uma estrada vazia. O carro, na verdade, é um supercarro: trata-se de uma Ferrari, e está sendo dirigida por Johnny Marco (Stephen Dorff, de “Inimigos Públicos”), um ator que mora no Chateau Marmont, o lendário hotel de Hollywood.

Tal como outros atores, Marco vive à deriva: não tem mulher, só uma filha adolescente; toma pílulas para dormir, recebe mensagens anônimas e agressivas em seu BlackBerry, bebe cerveja, fuma e reveza as companhias (tem muitas mulheres, mas vive sozinho), além de apreciar shows de pole dance feitos por irmãs gêmeas vestindo trajes, digamos, sumários...

E é justamente por conta da filha Cleo (Elle Fanning, de “Babel”), principalmente após passar um tempo com ela na Itália, para onde foi participar do lançamento de seu filme, que ele começa a se dar conta da vida que leva: nada é levado como proveito para a cabeça ou para o coração, é tudo descartável, volátil.

As cenas se passam principalmente no apartamento onde Johnny Marco vive, mas também no hotel em Milão onde vai passar uns dias. Há também muitas cenas nas largas ruas de Los Angeles. Uma das cenas tocantes é quando Cleo vai fazer sua apresentação de patins no gelo e o pai vai acompanhá-la.

Com poucos diálogos e filme lento, aos poucos Sophia vai falando sobre a vida do rapaz e mostrando a sua rotina. Ou seja: a diretora insere cenas do cotidiano em sua história intimista, e inclui o espectador nela. Afinal de contas, embora se trate de um ator hollywoodiano, o personagem criado por ela poderia ser qualquer outra pessoa da plateia.

A atualização também é clara no filme: a menina usa iPhone para anotar a placa do SUV que provavelmente segue o pai, seu notebook é um iMac e, na hora da diversão, é o videogame de última geração que ela usa para brincar. Referência atual também quando ela cita o livro que está lendo e conta a história de um vampiro...

“Um Lugar Qualquer” é sobre a futilidade e a percepção que o protagonista tem ao ver o quão vã é a sua vida: nada tem de bom para o coração. Cerveja, mulheres a hora que quiser, além da Ferrari, símbolo do luxo e da ostentação. No longa-metragem, Sophia mostra a simplicidade da vida com a filha versus o jeito largado dele e a glamourização de Hollywood na vida dessas pessoas, que sai da entrevista coletiva com perguntas patéticas e cai na festa.

Com poucas palavras, 99 minutos de imagens e rock'n'roll (assim como em “Maria Antonieta”, que é o principal ritmo da trilha sonora de seu filme), Sophia Coppola dá o seu recado. Simples assim.

TIO BOONMEE QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS

                   
Antonio Carlos Egypto

TIO BOONMEE QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS (Lung Boonmee Raluek Chat). Tailândia, 2010. Direção: Apichatpong Weerasethakul. Com Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee. 113 min.

Apichatpong Weerasethakul é o nome impronunciável de um diretor de cinema que vem se destacando nos principais festivais ao redor do mundo, até conquistar a Palma de Ouro em Cannes, em 2010. E é da Tailândia que vem esse talento.

Quem acompanha mostras e festivais de cinema que escapem ao circuito comercial pode ter visto longas-metragens dele, como “Eternamente Sua”, de 2001, “Mal dos Trópicos”, de 2004, ou “Síndromes e um Século”, de 2006. Ou pode ter visto alguns de seus curtas. Mas pela primeira vez um filme dele pode ser apreciado em sessões regulares de cinema por aqui. É Cannes abrindo portas a novidades asiáticas, em meio à enxurrada de agitação, efeitos especiais e 3D, que vem dando o tom do mercado cinematográfico.

O filme premiado é “Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, um produto um tanto inusitado para os nossos padrões e algo difícil de assimilar ou entender, considerando os modos de ser e viver que nos distinguem dos povos orientais e das referências culturais da Tailândia.Provavelmente, quem entender de budismo vai curtir melhor o clima do filme.

Mas todo mundo poderá ver que ali está sendo gestado um cinema inovador e criativo. Um cinema fantástico, capaz de nos remeter ao mais simples do cotidiano, mas em busca de transcendência. E sem qualquer preocupação com o realismo, a forma clássica de narrar histórias ou a continuidade das ações.

Imaginação, sonho, suposição, experimentação, delírio: esses são alguns dos ingredientes do cineasta. Não há, portanto, qualquer necessidade de entender racionalmente o filme. Melhor é mergulhar nele de cabeça e se deixar levar pelas belas imagens, enquadramentos perfeitos, surpresas e “non sense”. A experiência resultará enriquecedora e artisticamente relevante. Mas é preciso se deixar levar por novas formas de usufruir da película e do cinema em geral.

Em todo caso, vamos a uma possível sinopse do filme. Tio Boonmee, outro nome um tanto impronunciável para nós, está à beira da morte, tem insuficiência renal. Decide passar seus últimos dias de vida na floresta que ele ama, ao lado de pessoas que o amam. Bem, pessoas não é bem a palavra. Quem está lá com ele é o fantasma de sua falecida mulher e seu filho, que desapareceu há tempos e volta, em forma animal, uma espécie de macaco. Não os macacos bonitos e animados, que fazem a festa das crianças no zoológico, nem os gorilas ameçadores, do tipo “King Kong”. Até o macaco de Apichatpong é original: preto, estranho, com olhos luminosos.


Nessa floresta, tio Boonmee relembrará suas vidas passadas como homem ou animal, até chegar ao lugar de origem de sua primeira vida. Em outras palavras: tio Boonmee repassa sua existência, recriando figuras que dela fizeram parte ao longo dos tempos, emoldurado por uma floresta misteriosa e acolhedora. A floresta é a casa que aninha, uma espécie de útero, fonte da vida.

Vagar pela floresta traz surpresas. Que tal uma princesa que se relaciona com um peixe? Será uma lenda tailandesa, do tipo da do nosso boto amazônico? Vai saber... De qualquer modo, é uma fábula, como todo o filme. Que, ao contrário do que possa parecer, não vende peixe nenhum, concepções de mundo, crenças esotéricas. Explora possibilidades, fantasias, climas. Estamos no terreno da arte contemplativa, assim como tio Boonmee contempla e recria a sua existência.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O Turista

Tatiana Babadobulos

O Turista (The Tourist). Estados Unidos, França, 2010. Direção:Florian Henckel von Donnersmarck. Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck e Christopher McQuarrie. Com: Johnny Depp e Angelina Jolie. 103 minutos.

Johnny Depp e Angelina Jolie juntos em um thriller que começa em Paris e termina em Veneza. Ora, o que mais o espectador que vai atrás de diversão no cinema pode querer ver na tela grande? Ele, que já foi eleito o homem mais sexy do mundo, e ela, bom, sem comentários...

Em “O Turista” (“The Tourist”), Angelina Jolie faz o papel de Elise, uma mulher misteriosa e envolvente, que atrai os olhares por onde passa. Neste caso, porém, não é apenas a sua beleza estonteante que faz os homens admirá-la, mas, sim, como veremos adiante, ela está sendo espionada. O objetivo é descobrir o paradeiro de seu amante, Alexander Pearce, que está sendo procurado pela polícia internacional por uma dívida tributária (e por ter roubado milhões de um gângster).

Enquanto toma um chá em um dos simpáticos cafés da capital francesa, Elise recebe uma carta e, após queimá-la assim que termina de lê-la, sai em direção ao metrô. E é no trem, rumo a Veneza, na Itália, que conhece Frank (Johnny Depp).

A partir daí, começam sequências de jogos de mentiras e o espectador é convidado a participar de ambos os lados, sempre com, agora, sim, Veneza como pano de fundo. Seja em lanchas que cruzam o canal da cidade, seja no hotel de luxo por onde passaram famosos escritores do início do século 20, os cenários são magníficos.

A química dos dois atores funciona, embora eles nunca tivessem se visto antes. Mas o que incomoda, claro, é o modo arrumadinho como as coisas acontecem, de maneira que o plano de ambos os lados começa a dar certo.

Enquanto Angelina, que é norte-americana, tenta fazer um sotaque britânico, Depp, também americano, mas que vive na Inglaterra, tenta fazer o sotaque americano e ambos ficam forçados. Uma das passagens engraçadas da fita acontece justamente por conta do idioma. É quando Depp, hospedado no hotel italiano, se comunica em espanhol ao invés da língua nativa, e derrapa ao responder o cordial “bom dia” (buongiorno, no caso), pois ele diz “Bon Jovi”...

Acostumada a fazer longas de perseguição, tal como “Sr. e Sra. Smith” e “Salt”, Angelina  convence no papel que interpreta. E Johnny Depp, que ultimamente é visto em papéis de personagens esquisitos, como o Chapeleiro Maluco, em “Alice no País das Maravilhas”, ou o capitão Jack Sparrow, em “Piratas do Caribe” (só para citar dois...), também está ótimo como o sedutor que é pego de surpresa em uma correria policial.

O problema no filme dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck (de “A Vida dos Outros”), é que, ainda que o longa-metragem seja repleto de diversão, o suspense que tenta criar não funciona, pois, a um dado momento, se torna bastante previsível.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Biutiful



Tatiana Babadobulos

Biutiful, Espanha, México, 2010. Direção e Roteiro: Alejandro González Iñárritu. Com: Javier Bardem, Maricel Álvarez e Hanaa Bouchaib. 147 minutos.

Escancarar os dramas urbanos no cinema está na moda. E qualquer semelhança em filmes provenientes de vários países não terão sido mera coincidência, uma vez que, seja na Europa ou na Amé­rica do Sul, os dramas são pare­cidos. Basta lem­brar dos conflitos com a polícia no brasileiro “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2”, de José Padilha, ou o recente “Abutres”, do argentino Pablo Trapero.

Agora, é a vez de a Espanha mostrar o drama que acontece em Barcelona, aos olhos do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, também autor do roteiro, no filme “Biutiful”, que estreia nesta sexta-feira, dia 21 de janeiro.

Conhecido por ter dirigido filmes escritos por Guillermo Arriaga, que ficou conhecido como a trilogia do caos, formada por “Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel”.

A trilogia tem filmes formados por sequências não-lineares, mas “Biutiful” só tem um detalhe: começa com a cena final e dá a volta para retornar ao ponto de onde parou. Na trama, Uxbal (Javier Bardem) é pai de duas crianças e detém a guarda dos filhos porque a mãe é bipolar, trai o marido e vive bêbada. Embora seja tradicional no modo como cuida da família, seu trabalho não é, digamos, muito ortodoxo. Isso porque ele é espiritualmente sensitivo e ganha dinheiro indo a velórios para ouvir o que os mortos dizem. Outra ques­tão é que ele vive do dinheiro que ganha do mercado paralelo, informal: suborna a polícia para proteger os camelôs africanos que comercializam produtos chineses e piratas, como relógios, bolsas, filmes.

Em meio a esse caos urbano do qual é apenas um sobrevivente, Uxbal quer também se reconciliar no amor, cuidar dos filhos, mas recebe o prazo de dois meses para combater o câncer de próstata que deu metástase e se espalhou para os ossos e para o fígado.

Com a câmera muitas vezes na mão para mostrar o nervosismo e a pobreza nas ruas, Iñárritu também abusa dos closes, principalmente quando mostra a vida familiar em casa, o cochicho do pai e da filha vendo o anel. Há cenas chocantes, como a do porão, mas também é emocionante ver como o pai trata os filhos; ou irritante, quando a mãe larga o filho menor em casa, de castigo, e segue para os Pirineus, na fronteira da Espanha com a França, para ver a neve. A sequência na qual os camelôs saem correndo assim que veem a polícia lembra o centro de São Paulo, tal como quando os camelô veem a polícia se aproximando e gritam: “Olha o rapa!”

Javier Bardem se entrega ao personagem e convence o espectador de seu sofrimento, de sua angústia e do seu amor aos filhos. “Biutiful” trata, sobretudo, da paternidade, mas também do medo do filho perder o pai, tal como diz a garota, em uma passagem, enquanto Uxbal começa a fazer “contagem regressiva” e a filha diz: “Deve ser horrível não ter pai”, justamente quando ele diz que o seu morreu no México, país para onde fugiu quando Franco começou a per­seguir os espanhóis.

Ah, e sobre o nome do filme ser escrito Biutiful, com I, e não com E, como é correto, aguarde para conferir na fita: a explicação é mais simples que parece...
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Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme dirigido pelos irmãos Cohen, “Onde os Fracos Não Têm Vez”, Bardem também fez a comédia de Woody Allen, “Vicky Cristina Barcelona”. Durante o Festival de Cannes, no ano passado, evento no qual a fita fez a sua estreia, Bardem ganhou o prêmio de Melhor Ator. Mas o filme não levou o Globo de Ouro. Para o Oscar, o longa foi pré-selecionado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

TEMPOS MODERNOS

                                                             Antonio Carlos Egypto


TEMPOS MODERNOS (Modern Times), Estados Unidos, 1936. Escrito, dirigido, musicado e produzido por Charles Chaplin. Com Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Stanley Sandford. 83 min.

Tempos Modernos, de Charles Chaplin, é um dos maiores clássicos de toda a história do cinema. Realizado nos anos de 1934 e 1935 e após uma longa viagem de dezoito meses de Chaplin pelo mundo, iniciada em 1931, reflete as preocupações do cineasta com os efeitos da Grande Depressão que se seguiu à crise da Bolsa de Nova York de 1929. O filme coloca em cena, com gags notáveis, a realidade então vivida pelos trabalhadores, desempregados e excluídos, com a mítica figura de Carlitos, o vagabundo, que viria a se despedir nesse filme, após vinte anos de estrondoso êxito, que repercute até os dias de hoje.

Uma parte dos problemas apresentados por meio da comédia, com características de cinema mudo mesmo aos dez anos de existência do cinema falado, permanece atual, porque é de produção capitalista que se trata. Mas a denúncia que o filme apresenta tem significado histórico mais definido. Fala de automação, do homem-máquina, do controle do tempo pela fábrica, da organização racional do trabalho (taylorismo), das linhas de montagem (fordismo). De um tempo em que o rendimento do trabalho aumentava, a produção crescia, os preços dos produtos baixavam, trazendo grandes novidades, ao mesmo tempo em que o trabalho de desumanizava. Com a primeira grande crise mundial do capitalismo industrial, esses avanços também produziram desemprego em massa, fome, desabrigados, revolta social e violência, urbanização explosiva e é também a época de ouro das drogas estimulantes que embalam a agitação moderna. Nada disso escapa à sensibilidade de Chaplin e tudo está contemplado em Tempos Modernos: “uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a humanidade em busca de felicidade”, como diz o prólogo do filme.

A justaposição de imagens dos carneiros com a ovelha negra (Carlitos?) e os operários indo para a fábrica é eloqüente por si só. A aglomeração urbana é mostrada sob ângulos inusitados, que se distinguem do restante do filme. Entram as máquinas e o presidente da fábrica faz quebra-cabeças (trabalho X capital)).

O controle absoluto do tempo, que foi implantado pela administração científica que propunha a organização racional do trabalho (Taylor, Fayol) é satirizado pelos telões que controlam até o tempo no banheiro (Carlitos instado a voltar rapidamente ao trabalho); a máquina de comer, que poderia reduzir o tempo do almoço e é um desastre absoluto, as gargalhadas que a cena produz são demolidoras. O relógio de ponto que não é esquecido, nem quando Carlitos é perseguido por um policial, é outro ícone dessa forma racional de administrar. Racional para quem? pergunta Chaplin. Certamente não para os operários.

A linha de montagem, implantada com grande propaganda por Henry Ford em suas fábricas modernas, otimizou a produtividade e pretendeu reduzir a fadiga do trabalhador, fazendo com que a esteira rolasse, em vez de a pessoa ter de mover-se. Chaplin demole essa idéia, mostrando de forma hábil e hilariante seu contraponto – o esforço exaustivo e repetitivo do apertar parafusos que estressa, aliena e enlouquece.

Carlitos não consegue segurar a sopa, sai apertando tudo que parece parafuso, como os botões dos vestidos. Sai da linha de montagem, dança, espirra óleo na cara de todos e é perseguido. Para se defender, ele liga a máquina, que aciona os operários, desumanizados pelo ritmo da produção e sua velocidade constante e controlada. Só é possível ser um indivíduo e expressar-se fora da linha de montagem (ou acionando loucamente todas as manivelas e botões, explodindo os mecanismos da fábrica). O homem se torna parte da mecânica, um objeto. Carlitos vira ao mesmo tempo engrenagem da máquina, na seqüência mais marcante e antológica de Tempos Modernos.

Mas há mais: a fome, o desemprego e a revolta, nas cenas com a bandeira vermelha dos consertos de rua que acaba liderando uma passeata, que termina em prisão (onde a cocaína é mostrada como estimulante capaz de enfrentar os bandidos) e dá ensejo ao romance com a garota que luta contra a fome, cujo pai desempregado é assassinado em confrontos de rua. Na loja de departamentos, eles compartilham alguns sonhos de consumo inalcançáveis para os que estão à margem. Juntos, eles continuam a luta até o fim, mesmo depois de perder todas as oportunidades.

Antes de pegar a estrada, na cena final, ambos sonham com um mundo mais simples e rural – onde se colhem frutas no pé e se tira leite da vaca ao pé da porta. São os tempos modernos da indústria e do cinema falado, que Chaplin questiona com insuperável talento.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O PRIMEIRO QUE DISSE

                                                      Antonio Carlos Egypto
O PRIMEIRO QUE DISSE (Mine Vaganti).  Itália, 2010.  Direção: Ferzan Ozpetek.  Com Riccardo Scamarcio, Nicole Grimaudo, Alessandro Preziosi, Ennio Fantastichini, Ilaria Occhini.  110 min.

Uma família tradicional italiana, da Toscana, dona de uma indústria de macarrão, tem papel de destaque na cidade.  Vincenzo (Ennio Fantastichini) é o patriarca, preocupado com a continuidade dos negócios da família.  Ele tem a seu lado o filho Antonio (Alessandro Preziosi) e espera contar também com seu outro filho, Tommaso (Riccardo Scamarcio).
Tommaso, no entanto, tem outros planos.  Acaba de retornar de Roma, onde cursou Letras, enquanto a família pensa que estudou Administração. Lá, já estabeleceu um vínculo amoroso forte com Marco, por quem é apaixonado.  Seu interesse agora é fixar-se em Roma e se livrar das obrigações familiares que o esperam. Resolve, então, sair do armário, ou seja, declarar sua homossexualidade, numa refeição familiar, certo de que será expulso de casa e, então, ficará livre para viver sua vida.
Mas as coisas não acontecem como o planejado.  E não é que seu irmão Antonio se antecipa e se declara gay antes dele?  O que fazer agora, já que Antonio foi, conforme o título brasileiro do filme, “o primeiro que disse”?
Esse é o mote de uma comédia que busca explorar as confusões, contradições, desinformações e preconceitos que cercam o tema da homossexualidade.  E acaba por descobrir que nem tudo é tão nebuloso assim.  Quem está menos centrado em si mesmo, observa, percebe e pode entender o que se passa.  Bem, não é o caso do pai Vincenzo, que combinará sofrimento real com muita teatralização, para tentar lidar com o assunto no plano pessoal, familiar e nas relações com a comunidade.
A questão não é só a da homossexualidade posta em evidência, mas a dos desejos não realizados, dos sonhos abafados, do jogo de aparências.  E, brincando, a trama do filme vai mexendo nesses pontos sensíveis da experiência humana. 
É quando um personagem que nem nome tem, a avó, vivida por Ilaria Occhini, emerge como a figura mais densa e humana de toda a história.  Ela, que viveu toda uma vida, trabalhando ao lado de seu amado, mas casada com o irmão dele, entende de desejos sufocados, sublimados, deslocados.  E sabe o valor que tem um sonho a ser perseguido.
Se Tommaso pode contar com alguém, é com ela, não só para viver o seu amor proibido, mas para realizar o seu imenso desejo de ser um escritor, e com romance publicado.  Para ela, o macarrão, que aprendeu e ensinou a fabricar, foi um objeto de puro amor, mas ela entende que Tommaso rejeite o macarrão para ser escritor.  Cada um com seus amores.
“O Primeiro que Disse” resulta sendo um filme bem construído, com cenas bem elaboradas, que conseguem imprimir um espírito libertário e humanista à trama e aos seus personagens.
O elenco é muito bom e dá bem conta do recado, com destaque para Ilaria Occhini: a avó que ela cria é um primor de interpretação.  Ricardo Scamarcio transmite bem os sentimentos de Tommaso, num registro sutil e convincente.  Nicole Grimaudo é Alba, a tentação feminina ao lado de Tommaso, na fábrica.  E que tentação: é uma mulher lindíssima, de rosto perfeito.  E também boa atriz.  Alessandro Preziosi e Ennio Fantastichini também estão bem nos seus respectivos papéis, o primeiro, mais discreto e contido, como convinha ao personagem, enquanto o pai se apresenta histriônico, já que o personagem pedia muita teatralidade.
Isso tudo dá ao filme o clima de que ele precisa para fazer rir, fazer pensar.  Sem ser uma comédia que produza intensas gargalhadas, nem ser um filme que alcance grande densidade ou profundidade, o resultado é bom e o filme, simpático.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

DESENROLA

                    Antonio Carlos Egypto



DESENROLA. Brasil, 2010. Direção: Rosane Svartman. Com Olívia Torres, Kayky Brito, Lucas Salles, Daniel Passi, Juliana Paiva. Participações especiais de Pedro Bial, Juliana Paes, Cláudia Ohana. 88 min.

A primeira vez, ou a virgindade das meninas na adolescência, sempre foi um tema palpitante e polêmico. Antigamente, porque era uma obrigação social e religiosa preservá-la até o casamento. E que dificuldade! Cabia à mulher não só controlar-se como controlar os rapazes. Esses, ávidos por sexo, buscando as brechas para conseguir o seu intento ou se valendo das prostitutas, que acabavam sendo as que garantiam a virgindade das moças. Isso ainda existe, mas hoje é posição minoritária. Mesmo porque a Aids, a partir dos anos 1980, mudou esse quadro.

De qualquer modo, as adolescentes imaginam, fantasiam, fazem planos para esse momento especial. Há muitas expectativas na cabeça delas. Como, onde, com quem será? E será que engravida? Tem de usar camisinha? E muitas questões mais.

“Desenrola” é uma comédia romântica, adolescente, centrada nesse tema e nos assuntos a ele relacionados, como o relacionamento com os meninos, a competição entre as amigas e a participação dos adultos na história.

Tudo começa quando Priscila (Olívia Torres), de 16 anos, tem a primeira experiência de ficar sozinha em casa, por vinte dias, em função de uma viagem da mãe. Será o período em que tudo acontecerá e a vida dela mudará. Pelo menos, no terreno amoroso e sexual. Mas a verdade é que, para os adolescentes, isso muda quase todo o resto.

Priscila buscará em Rafa (Kayky Brito) seu objeto de desejo, enquanto Boca (Lucas Salles) a deseja. Tize (Juliana Paiva), irmã de Rafa, funciona como facilitadora ou dificultadora da relação Priscila-Rafa e será, de um lado, rival, de outro, amiga e confidente. Caco (Daniel Passi) é o amigo algo misterioso, que está sempre com Priscila e não a vê como possível namorada.

A participação da música e do esporte nesse jogo de atração e desejo está lá. Assim como a preocupação com corpos sarados perpassa as artimanhas das conquistas. E a inevitável mentira dos meninos quanto ao sexo, como era de se esperar nos dias de hoje, acaba na Internet.

Outras coisas ficaram de fora, porque o filme está focado na sexualidade dos adolescentes. Mas a sensação que fica é justamente a de que falta algo. É uma geração saudável, que não se liga em droga, não abusa da bebida alcoólica, não é sacana, nem maldosa. Pelo menos, não além de certos limites toleráveis nessa faixa de idade.

Não que fosse necessário fazer uma trama pesada ou pessimista, a respeito dos jovens. Mas sabemos que as questões podem ser maiores ou mais complexas do que as que aqui são mostradas. O foco da trama talvez tenha se fechado mais do que deveria. Acabou dando uma sensação de artificialidade ao universo adolescente de uma certa classe média que tem na escola particular e na praia os seus principais pontos de encontro.

É um filme que possibilita a discussão com os adolescentes sobre a tal “primeira vez” e as diferenças entre os gêneros, o que já é interessante. É uma fita simpática e sem maiores pretensões. Ao tratar do momento enrolado da sexualidade adolescente com cuidado, acaba justificando o título um tanto estranho que escolheu para abordar o tema da virgindade.

O Mágico

Tatiana Babadobulos


O Mágico (L'Illusionniste). França e Reino Unido, 2010. Direção: Sylvain Chomet. Roteiro: Jacques Tati. 90 minutos.

Em tempos nos quais reinam as animações feitas por computador e os efeitos especiais de ponta, também há espaço para a animação tradicional. Essa, aliás, foi a utilizada por Walt Disney, quando lançou “Branca de Neve e os Sete Anões”, em 1939. Mas, a partir de 1994, quando a Pixar mostrou ao mundo “Toy Story”, pouco se fez com lápis e papel. 

Nem “Tron: O Legado” nem “Enrolados”, ambos da Disney. Assisti à animação francesa “O Mágico” (“L'illusionniste”) assim que ela estreou naquele país, enquanto eu estava em férias por lá, em junho do ano passado. No Brasil, a fita estreia nesta sexta, 14, e é dirigida por Sylvain Chomet, o mesmo de “As Bicicletas de Belleville”. 

Um dos seus diferenciais, além da arte tradicional, é claro, é o roteiro, escrito pelo francês Jacques Tati no final dos anos 1950. Na época, ele escreveu para sua filha Sophie Tatischeff, e a história  foi encontrada nos arquivos do CNC (Centro Nacional da Cinematografia) sob o apelido de “Film Tati N° 4”. Tati morreu em 1982 e deixou um legado de filmes cômicos, como “Meu Tio”, de 1958, no qual atuou e dirigiu, além de outras obras, como “As Férias do Sr. Hulot”, “Tempo de Diversão”, “As Aventuras do Sr. Hulot no Trânsito Louco”.

Após meio século, a história sensível e delicada criada por Tati chega aos cinemas trazendo magia e emoção. Na trama, o mágico é um artista já velho e é forçado a andar em diversos lugares à procura de um palco para apresentar seus números a fim de ganhar dinheiro. Até que conhece Alice, uma garota simples, que mal conhece a energia elétrica, mas que se faz de mulher.

Entre mentiras de ambos os lados, os dois vão se encontrar em Edimburgo, na Escócia, on­de ele fará uma apresentação e ela o segue a partir de Londres. Então, passam a dividir a sopa e o apartamento. Ele se encanta pela jovialidade dela, e ela, pela sabedoria e pelos truques de mágica dele. Mas também pelos presentes caros que ele lhe dá, e que acredita serem truques mágicos.

Praticamente sem utilizar diálogos (e, quando há, são em francês), o longa apresenta a mudança de comportamento dos personagens de maneira delicada e sensível, principalmente porque o relacionamento dos dois vai entusiasmando, e o amor vai crescendo com o tempo, ainda que vivam muitas vezes em meio à mentira.  


Os traços dos desenhos comprovam que o diretor é o mesmo de “As Bicicletas de Belleville”, já que ambos são muito parecidos. E foi enquanto fazia o filme, em 2003, que Sylvain Chomet entrou em contato com a filha de Tati para pedir autorização de exibição de um trecho de sua obra “Há Festa na Aldeia”, para uma cena na qual as trigêmeas estão assistindo televisão na cama. “Achei que seria divertido as personagens visualizarem um clipe de filme parecido em sentimento à história ciclística do Tour de France.”

Na ocasião, segundo o material de divulgação à imprensa, ela mencionou ao produtor Didier Brunner um roteiro não filmado de seu pai e deu a entender que o desenho se adequaria a ele. Infelizmente, Sophie morreu quatro meses após o primeiro contato, mas os parentes que assumiram o espólio concordaram com a decisão dela.

No roteiro há lamentações melancólicas, sentimento que quase não se vê em filmes de Tati, uma vez que ele sempre preferiu os pastelões. “O Mágico”, com sua história, aproveita para fazer o espectador refletir sobre sua própria vida, sobre o que tem feito de seu trabalho, suas ambições e conquistas, sempre envolvido em imagens lindas, bem feitas e com um senso de humor sofisticado, como só Tati e Chomet poderiam fazer.

A fita já ganhou alguns prêmios em 2010, paricipou da Seleção Oficial do Festival de Berlim e foi nomeado ao Globo de Ouro 2011, na categoria Melhor Longa-Metragem de Animação, quando concorre com “Meu Malvado Favorito”, “Como Treinar o Seu Dragão”, “Enrolados” e “Toy Story 3”.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Enrolados


Tatiana Babadobulos

Enrolados (Tangled). Estados Unidos, 2010. Direção: Nathan Greno e Byron Howard. Roteiro: Dan Fogelman. 92 minutos

"Enrolados" é o que poderíamos chamar de uma releitura da clássica história de Rapunzel, escrita pelos Irmãos Grimm, sobre a menina de longos cabelos loiros que vive isolada pela "mãe" em uma torre.

Depois de contar uma breve história (narrada pelo apresentador Luciano Huck) sobre a menina que fora tirada do berço da casa de seus pais por uma velha, já que ela tinha os cabelos mágicos, é a vez de o ladrão Flynn Rider (voz de Huck) roubar a coroa da rainha e sair fugindo. Até que encontra a tal torre e conhece Rapunzel.

Entre celtas e vikings no meio do bar imundo, os dois vão partir por vários locais antes de chegarem ao reino, local de onde são lançadas as lanternas todos os anos em comemoração ao aniversário da princesa perdida.

Assim como em todo o filme produzido pela Disney, neste também não houve trégua para aquelas pausas nas quais a personagem de repente começa a cantar e dançar... E, ainda que duble o vilão, quando começa a cantar, não é a voz de Huck. Ótimo por um lado, pois sabemos que desafinaria facilmente, mas não há como negar o quão bizarro isso fica.

A exibição é em 3D e, como manda o figurino no final "todos felizes para sempre", Flynn acaba se tornando o príncipe que chegou para salvar a princesa montado em seu cavalo branco, o engraçado Máximos!

Outro recurso para divertir a história é o camaleão Pascal, um bichinho que conversa com Rapunzel a seu modo, fazendo caras e bocas e mudando de cor. Um destaque que faz as crianças caírem na gargalhada!

Não dá para negar que após a direção criativa da Disney passar às mãos de John Lasseter, diretor de "Toy Story", os filmes melhoraram, e muito, em qualidade. Já começou com "Bolt - O Sulpercão" e foi confirmado em "A Princesa e o Sapo".

E a magia da princesa da Disney renasce quando reconta, de maneira atual e engraçada, a história da menina que joga as tranças para a mãe subir na torre e todo o encantamento do conto de fadas em cores e em três dimensões!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Além da Vida


Tatiana Babadobulos

Além da Vida (Hereafter). Estados Unidos, 2010. Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Peter Morgan. Com: Matt Damon, Cécile de France, Bryce Dallas Howard. 129 minutos.

Clint Eastwood é daqueles diretores esperados pelo seu público cativo, assim como Woody Allen, Pedro Almodóvar, Martin Scorsese. Quando vai lançar um longa-metragem, não importa o assunto ou o elenco; o cinéfilo estará lá para conferir se ele continua em boa forma ou se seria melhor fazer outra coisa da vida.

A partir de sexta, dia 7 de janeiro chega aos cinemas “Além da Vida” (“Hereafter”). Sim, mais um longa sobre vida após a morte, se o leitor quer saber logo de cara. E já na primeira sequência, Eastwood provoca o espectador a ponto de lhe tirar o fôlego. Sem dizer onde está a francesa Marie Lelay (a atriz belga Cécile de France), uma grande onda, que ficou conhecida como tsunami, arrasa a praia onde ela se encontra. E, a partir de então, a jornalista muda um pouco o rumo da sua vida profissional e afetiva.

A vida de muitas pessoas acaba mudando e é exatamente o que mostra o longa que tem roteiro escrito por Peter Morgan (o mesmo de “Frost/Nixon”, “A Rainha”). A fita se passa na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde vive o protagonista vivido por Matt Damon. O ator faz o papel de George, um vidente que deixou de fazer previsões por achar que não se trata de um dom, mas uma maldição.

Nos primeiros 15 minutos de exibição, Eastwood faz as apresentações dos personagens de cada lugar, ou seja, Marie que está em férias na Tailândia e depois retorna para a emissora onde trabalha, em Paris; dos gêmeos ingleses Marcus e Jacob (George e Frankie McLaren), que tentam fazer com que a mãe não perca a guarda deles, já que vive drogada, e os assistentes sociais estão atrás dela. Além, é claro, do médium.

Embora os três personagens sejam bastante diferentes entre si (um garoto, uma jornalista e um vidente), o que faz sentido na história toda é um denominador comum: o fato de todos terem tido re­cente ligação com a morte e, por algum motivo, precisam aprender a viver o agora. E, para não fugir do final clichê e previsível, os três, de alguma maneira e em algum lugar, vão se encontrar.

Embora não atue no filme, tal como fez em longas anteriores, como “Gran Torino”, “Menina de Ouro”, entre outros, Clint Eastwood é também produtor do filme (juntamente com Steven Spielberg) e responsável por duas canções que compõem a trilha sonora, que, aliás, é belíssima.

Depois de fazerem “Invictus”, filme que contou a história da equipe de rúgbi da África do Sul de Nelson Mandela, Matt Damon e o diretor retornam a parceria de sucesso. Os dois mostram a cumplicidade de ator e diretor e quem apro­veita é a plateia.

Se a sequência mais marcante é a do início, principalmente pela grande produção, ou seja, a do tsunami (que na verdade fora filmada no Havaí e não na Tailândia, como sugere a história), a mais cativante é uma próxima ao final, que envolve o espectador e mostra a ele que é hora de se emocionar...

Um dos pontos altos de “Além da Vida” é que, apesar de falar sobre aquilo que desconhecemos, ainda que o personagem de Damon diga o que está ouvindo dos mortos, o filme não explora demais o lado espírita, tal como os filmes “Chico Xavier” ou “Nosso Lar”, duas produções brasileiras. Como disse Clint Eastwood no material de divulgação para a imprensa, “não sabemos o que acontece do lado de lá, mas, do lado de cá, tudo acaba”.

“Além da Vida” é desses filmes para sair do cinema e continuar pensando sobre a mensagem transmitida, principalmente se o espectador já teve, em algum momento, contato com a morte. E que destino, apesar de parecer surreal, pode ser mais convencional do que imaginamos. 

A propósito: sim, Eastwood continua em plena forma! 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Francis Ford Coppola

Tatiana Babadobulos

Qual é o primeiro filme que lhe vem à cabeça quando se fala em Francis Ford Coppola? Se for "O Poderoso Chefão", saiba que não é o único. A trilogia, que começou em 1972, rendeu ao diretor fama, dinheiro, prêmios e a lembrança de milhares de pessoas ao redor do mundo, mesmo mais de 38 anos depois.

Além da trilogia, Coppola é autor de outras obras igualmente importantes, como "Apocalypse Now". Hoje, aos 71 anos, ele nem pensa em se aposentar. No início de dezembro, o cineasta esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro para lançamento de sua mais nova obra: "Tetro". O longa-metragem tem roteiro original de sua autoria e é o primeiro desde "A Conversação" ("The Conversation"), de 1974. A trama se passa na Argentina e conta a história de dois irmãos: Bennie (Alden Ehreinreich), de 17 anos, e Tetro (Vincent Gallo). A bordo de um navio, Bennie chega a Buenos Aires com o objetivo de encontrar seu irmão mais velho, que está desaparecido há mais de uma década.

A família dos rapazes, de sobrenome Tetroccini (daí o nome Tetro), se mudou da Itália para a Argentina quando eles ainda eram crianças mas, graças ao sucesso do pai (Klaus Maria Brandauer) como maestro, logo foram viver em Nova York. E depois Tetro, que na verdade nasceu Angelo, voltou para a América do Sul, onde se casou com Miranda (Maribel Verdú), médica que conheceu enquanto estava no manicômio. Mas quando Bennie encontra o irmão, não é quem esperava. Isso porque Tetro tornou-se um poeta melancólico, bem diferente da pessoa que Bennie se lembrava.

Qualquer semelhança com a sua vida real e com o longa-metragem "O Selvagem da Motocicleta" ("Rumble Fish"), lançado em 1983, com Matt Dillon no elenco, não terão sido meras coincidências. E quem atesta é o próprio Coppola, durante a entrevista coletiva realizada no auditório da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo. A começar de seus pais que foram da Itália para os Estados Unidos.

"Tetro" marca um retorno para as histórias familiares. Como lembra Stéphane Delrome, autor da edição "Master of Cinema", dos Cahiers du Cinéma, o papel de Bennie seria de Matt Dillon, sugerindo que Rusty James, de "Rumble Fish", pode ter se tornado um desiludido garoto da motocicleta.

Francis tem um irmão cinco anos mais velho e queria ser como ele. Daí o tema central de "Tetro": irmão que vai atrás do outro e o admira. No filme, aliás, o mais novo também se torna escritor. Dono de vinícolas no estado da Califórnia, Coppola hoje em dia usa o dinheiro que ganha com a venda de seus vinhos para financiar os seus filmes e, assim, não precisa de outros produtores, principalmente porque faz filmes de baixo orçamento e sempre com a intenção de aprender alguma coisa. “Quero fazer filmes que explorem minha vida, pois você acaba aprendendo sobre você mesmo e entendo sobre a minha família coisas que eu não entendia. O grande prazer da vida é aprender”, afirma.

Ele conta também que seria um presente se acordasse de manhã com um assunto e pudesse fazer um filme. “Eu não faço filmes para ganhar dinheiro ou ficar famoso, mas para aprender a fazer cinema e aprender sobre mim mesmo. Se você come muito, fica gordo. Se corre atrás de belas garotas, deixa sua mulher furiosa. Aprender não é só uma alegria, mas faz bem para você.” 

Durante a coletiva, Coppola aproveitou para elogiar o trabalho da filha, Sofia (autora de "Encontros e Desencontros", "Maria Antonieta" e de "Um Lugar Qualquer", ganhador do Leão de Ouro em Veneza, e ainda sem data de estreia no Brasil) e falou sobre um dos momentos mais impactantes de "Tetro": quando o pai fala para o filho que "só há lugar para um gênio" na família. "A frase não foi dita por mim nem para mim, embora seja muito dolorosa."

Em "Tetro", há uma crítica de teatro, Alone, que é interpretada por Carmen Maura. Ele conta que o papel foi inspirado na obra "Noturno do Chile", do chileno Roberto Bolaño, no qual há um personagem que é um crítico. “No Chile, há um crítico chamado Alone. Javier Barden faria este papel, mas depois do Oscar ele não pôde. Eu ia usar outro nome para o personagem, mas como é uma mulher que fez o papel, resolvi manter o nome do crítico verdadeiro.”

Coppola diz também que acha saudável se inspirar em outro artista. “Meu pai, que é músico, tem um slogan: 'roube sempre dos melhores'. Músicos estão sempre roubando. Quando eu estudava teatro, admirava Tenessee Williams, Elia Kazan e Marlon Brando. Só agora tive a chance de colocar isso nos meus filmes."

O cineasta este à vontade durante a entrevista e disse, assim que chegou, que estava sonolento, então que os jornalistas o perdoassem se estivesse esquecendo os nomes. No entanto, ignorou o apelo das assessoras de imprensa quando pediu para terminar a entrevista e ele ainda deu oportunidade para que mais quatro perguntas fossem feitas pelos repórteres. De bom humor e com modéstia extrema, ele afirma que, no geral, as pessoas são generosas com ele, de modo que olham os filmes que fez há 30 anos, como a trilogia de "O Poderoso Chefão", e os admiram. Mas ele brinca quando diz que não vai estar aqui em 30 anos para saber o que as pessoas acham dos filmes que fez agora.

Sobre o futuro do cinema, Coppola afirma não gosta muito da tecnologia 3D, principalmente porque não gosta de usar os óculos necessários. Segundo ele, "o cinema é feito de roteiro e atuação”. “O meu novo filme tem duas cenas em 3D. Uma no meio e uma no final. Mas o 3D é o menos importante." 

Na época do colorido, imagens que extrapolam a tela, Francis Ford Coppola resolve lançar um filme em preto e branco e é elogiado. “Eu queria fazer 'Tetro' em preto e branco porque acho bonito. O preto e o branco têm diferentes tons de cinza e os fotógrafos expressam melhor as luzes e as sombras. Fiz preto e branco tal como fiz 'O Selvagem da Motocicleta' ('Rumble Fish')”, explica. E o colorido em algumas cenas foi usado para diferenciar as imagens em flashback de um modo que as pessoas pudessem entender que se tratava do passado.

O diretor ainda comentou sobre a escolha de atores não muito consagrados, às vezes até desconhecidos, e atores jovens. Ele conta que gosta de trabalhar com todas as idades e que prefere os desconhecidos porque é o que pode pagar. Sobre possível dificuldade de trabalhar com Vicent Gallo, ele conta que não teve nenhum problema, nem com com o Val Kilmer, que vai estrelar sua próxima obra, 'Twixt Now and Sunrise', também pessoal, mas em cor.

Biografia
Nascido em Detroit, nos Estados Unidos, dia 7 de abril de 1939, Coppola teve sua primeira nomeação para o Globo de Ouro de Melhor Atriz com a versão para cinema do musical da Broadway, "Finian's Rainbow", protagonizado por Petula Clark e pelo veterano Fred Astaire.

Em 1971, o cineasta ganhou um Oscar pelo seu roteiro em "Patton". Em seguida, foi indicado como roteirista e diretor de "O Poderoso Chefão", assim como para "O Poderoso Chefão II", em 1974, quando ganhou de Melhor Filme.

Após o sucesso dos dois longas-metragens, Coppola dedicou-se a "Apocalypse Now", baseado em "Heart of Darkness", de Joseph Conrad. A realização do filme foi marcada por inúmeros problemas, desde tufões e abuso de drogas, até o ataque de coração de Martin Sheen e à aparência inchada de Marlon Brando, que Coppola tentou esconder, filmando-o na sombra. O filme foi adiado tantas vezes, que chegou a ser alcunhado de "Apocalypse Whenever".

Somente em 1982 é que Francis voltou à realização, com o filme "One From the Heart", um grande fracasso, quando contraiu uma dívida de US$ 30 milhões. Isso, somado a falência de seu estúdio, o American Zoetrope, fez com que o diretor entrasse em um período conturbado e teve que aceitar dirigir e associar seu nome a diversos trabalhos encomendados.

Em 1990, completou a série de "O Poderoso Chefão" que, apesar de não ter sido tão aclamado pela crítica como os anteriores, foi um grande sucesso de bilheteira. Em 1992, ganhou um Leão de Ouro concedido pela sua carreira.