domingo, 3 de janeiro de 2021

AZNAVOUR POR CHARLES

Antonio Carlos Egypto

 




AZNAVOUR POR CHARLES (Le Regard de Charles).  França, 2019.  Direção de Marc di Domenico.  Documentário.  Voz de Romain Duris.  83 min.

 

 Charles Aznavour (1924-2018) é um dos maiores ícones da cultura francesa.  Cantor de enorme sucesso internacional, compositor (letrista) e ator de cinema, deixou sua marca indelével nas expressões culturais do século XX.

 

Entre suas canções famosas, basta lembrar algumas que todo mundo conhece (mesmo que não identifique pelo nome): La Bohème, She (Tous Les Visagens de l’Amour), For Me Formidable, Que C’Est Triste Venise, Hier Encore, Il Faut Savoir, The Old Fashioned Way (Les Plaisirs Démodés) estão entre as mais de mil músicas gravadas por ele, ao longo de 80 anos de uma brilhante carreira.

 

Trabalhou como ator de cinema, com diretores importantes, como François Truffaut, em “Atirem no Pianista” (1960), com Claude Chabrol, em “Vidas em Jogo” (1976) e em “Os Fantasmas do Chapeleiro” (1982), com Jean Cocteau, em “O Testamento de Orfeu” (1959), com Claude Lelouch, em “Viva La Vie!” (1984), com Volker Schlöndorff, em “O Tambor” (1979) e com Atom Egoyan, de origem armênia como ele, em “Ararat” (2002).  Foram mais de 60 filmes, que nele tudo foi vasto e grandioso.

 

O que podemos ver agora em “Aznavour Por Charles” é uma nova faceta do talento dele: as imagens que ele filmou ao longo da vida.  É dessa matéria prima que se nutre o documentário construído e editado por Marc di Domenico.

 





Em 1948, a maior cantora francesa de todos os tempos, Edith Piaf (1915-1963), deu a Charles Aznavour um presente que o encantou, uma câmera.  Ele começou a filmar e nunca mais parou.  Registrava o que via e lhe chamava a atenção nas viagens que fazia por todos os cantos.  Interessado nas pessoas, nos costumes, nos lugares e no que o envolvia profissionalmente.  Filmava também suas mulheres, claro.  Por vezes, até “dirigia” as filmagens que suas mulheres faziam dele.  Mas não buscava “selfies”, registrava o que via e lhe interessava no outro, como uma forma de se aproximar do que não conhecia.

 

Guardava esses rolos todos que acumulou ao longo do tempo junto com registros que outros faziam de suas apresentações na carreira musical e nos filmes de que participava.  Para tal, tinha um cômodo especial e secreto só para guardar tudo isso.

 

Percebendo que o final da vida estava próximo, já com mais de 90 anos, abriu seu tesouro ao cineasta Marc di Domenico, para que fizesse o “seu” filme, confiando em que ele saberia como utilizar todo aquele material para que não se perdesse para sempre.

 

Conhecemos, então, um pouco da vida e das imagens que Aznavour escolheu filmar, ao lado das imagens dele próprio, embaladas por sua música.  O acervo também continha cadernos de anotações e reflexões com muitos textos escritos por Aznavour, que foram a base da narração do filme, que conta a história do artista e de suas imagens filmadas pela voz do ator Romain Duris. Fascinante. 

 

O diário filmado de Aznavour se torna, assim, mais um legado da grande obra que marcou sua vida artística.  Imagens da câmera original de Piaf, que ele nunca abandonou, de Super 8, 16 mm, compõem esse painel do trabalho de “cineasta” de Charles Aznavour.  E revela uma sensibilidade e uma curiosidade humanas contundentes, em sua simplicidade.

 

 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

UM BRINDE


Antonio Carlos Egypto



 

 

É hora de desejar boas festas a todos.  Mas haverá festas?  E o que há para festejar?  O fato de estarmos vivos, por certo.  Talvez não haja muito mais coisas a brindar por agora.  A esperança de uma vacina, que está bem mais próxima, e pode ser o começo de algo melhor para o momento.  De qualquer modo, é só o começo.

 

Certamente, desejo que 2021 possa ser muito melhor para todos nós do que 2020.  No entanto, como poderia ser pior?  Não sou nem capaz de imaginar.  De modo que esse desejo é de uma tal obviedade, que é dispensável.  Acontecerá. 

 

Enfim, final de ano, natal, ano novo, são rituais de marcação de tempo, que se tornam estranhos quando o tempo para.  Porque para grande parte da população 2020 não existiu, de fato.  Quem ficou sem trabalho e sem sair de casa vai se lembrar desse ano como?  E quem trabalhou de casa, no tal home office, o que achou da experiência?  Humanamente enriquecedora não creio que tenha sido.  Uma vida sem relações presenciais é um problema, não uma solução.  Quem estudou em casa, se entupiu de cursos on line e de lives, também já deve ter esgotado sua quota.

 

Vamos torcer para que 2021 sirva para nos revermos, nos encontrarmos e buscar novas saídas, que talvez ainda nem conseguimos conceber.  E possamos brindar com entusiasmo: Saúde! 

 

 

 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

MAIS FILMES RUSSOS

Antonio Carlos Egypto


 Mais dois filmes russos atuais do 1º. Festival do Cinema Russo, que está ocorrendo on line até 30 de dezembro, com 8 filmes, na plataforma de streaming  Spcine play.  Todos podem ser assistidos gratuitamente.  Entre eles, “O Texto” e “Bolshoi”.

 

 



O TEXTO.  Rússia, 2019.  Direção de Klim Shipenko.  Com Alexander Petrov, Kristina Asmus, Ivan Yankovsky.  132 min.

 

“O Texto” é um filme de suspense muito bem produzido, com ótimo elenco e os elementos fundamentais para alcançar o público que gosta do gênero.  Tem uma narrativa complexa, cheia de elementos que se desdobram, para dar conta de uma situação tensa, que parece delirante e sem saída.

 

De fato, a trama pode ser chamada de delirante porque, para encaixar os fatos, cria situações inverossímeis, improváveis, impossíveis, tão enlouquecidas quanto as ações do personagem central Ilya, ao sair da prisão, onde viveu por 7 anos, mesmo sendo inocente.  A vingança contra quem armou para ele é um clichê que se combinará com eventos cheios de tragédia e de coincidências difíceis de aceitar do modo como são mostrados.  Tudo bem.  Cinema também é fantasia e aqui se explora ao máximo o smartphone como fonte de acesso de toda uma vida num momento decisivo de sua existência.  A ponto de possibilitar que se realize, por esse meio, assumir a identidade do outro.

 

O que acontece a partir daí também é fantasioso demais e abusa do domínio das possibilidades por um personagem sem os recursos pessoais e de controle necessários para tanto.  Enfim, é preciso embarcar na história, sem muita crítica, para poder se divertir, viver plenamente o suspense.  O clima do filme de Klim Shipenko é muito bom nesse sentido.  Consegue um envolvimento permanente do espectador, não no sentido da identificação com a figura do protagonista, mas da aflição pela situação que ele vive, em que ele mesmo se coloca o tempo todo.  Percebe-se que não pode dar certo, mas angustia ter de viver com ele tudo aquilo.  Essa aflição se prolonga e cada novo ato acrescenta elementos mais preocupantes ainda.  No que isso tudo pode dar?  É o que nos segura, nessa abordagem de suspense moderno, que termina por colocar o personagem num interessantíssimo dilema moral, que redime o espetáculo ao seu final.

 

“O Texto” é um filme que segue as indicações atuais do gênero suspense com competência, mas com muito exagero também. Tem boas possibilidades comerciais.  É o cinema russo atual disputando mercado com os cinemas norte-americano e europeu, seguindo os moldes propostos por eles.


 


 

BOLSHOI.  Rússia, 2016.  Direção e roteiro de Valery Todorovsky.  Com Margarita Simonova, Anna Isaeva, Alisa Fleindilich.  132 min.

 

O título já indica que este drama vai explorar um dos grandes ícones da cultura russa: o balé Bolshoi.  Por meio de uma bela produção, o filme nos põe em contato com esse mundo mágico da dança clássica, potencializado por essa referência mundial.

 

Yulia, a dançarina, é descoberta por um ex-bailarino do Bolshoi, que percebe o seu grande potencial.  E aí começa o já esperado trabalho de lapidação do talento.  Esse processo acaba se mostrando mais complicado e difícil do que se poderia esperar.  Com resultados realmente duvidosos.

 

O temperamento da bailarina, que busca sua autoafirmação, pode ser um complicador.  A senilidade da sua protetora, com alguns esquecimentos fatais, pode pôr tudo fora de controle.  Além do mais, a competição evidentemente entra no jogo, como seria de se esperar.

 

A narrativa explora a complexidade desse mundo, sem apelar para a habitual fantasia da bailarina triunfante.  Se há triunfo, ele passa, não só pelo trabalho dedicado, que às vezes pode ser mesmo excessivo e indesejável, mas também pelos interesses envolvidos, pelas relações pessoais e de poder que podem surpreender, entre outras coisas.  O glamour existe, mas cobra um preço alto que nem todos se dispõem a pagar.  Portanto, no caminho talentos se perdem.  A arte não pode ser uma missão que se coloque acima de tudo, por mais importante que seja.

 

Esse enfoque do filme é bastante interessante, porque, ao mesmo tempo em que oferece espetáculo, induz à reflexão.  A qualidade da produção não deixa margem a dúvidas quanto ao interesse em construir e solidificar uma indústria cinematográfica de peso, na Rússia.

 

Os grandes talentos da história do cinema russo e soviético têm de dar lugar a novos realizadores, como o competente Valery Todorovsky, e a produções esmeradas.  Não é possível viver só do passado, por mais brilhante que tenha sido.  E, claro, Serguei Eisenstein, Andrei Tarkóvsky, Alecksandr Sokurov e Dziga Vertov, são gênios, exceções, não aparecem a toda hora.




quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

2 RUSSOS DO FESTIVAL

Antonio Carlos Egypto

 

Nesta quinta-feira, 10 de dezembro, começa a programação virtual e  gratuita do 1º FESTIVAL DE CINEMA RUSSO, produzido pela ROSKINO – organização promotora de conteúdos russos em todo o mundo - com apoio do Ministério da Cultura Russa. Com oito filmes de gêneros diversos, a mostra acontece na plataforma de streaming Spcine Play até 30 de dezembro. Além do Brasil, a série de festivais acontece de forma online na Austrália, México e Espanha. 

 

 



ARRITMIA.  Rússia, 2017.  Direção de Boris Khlebnikov.  Com Irina Gorbacheva, Alexander Yatsenko.  116 min.

 

“Arritmia” nos põe em contato com a realidade diuturna dos profissionais de saúde que atuam em serviços de emergência em hospitais e no atendimento domiciliar. São, lá como cá, pessoas extremamente dedicadas a seus trabalhos, que colocam o atendimento aos pacientes até à frente da própria vida pessoal. É o que acontece com Oleg e Katia, os personagens desse drama ficcional, que enfrentam muitas dificuldades no relacionamento de casal, principalmente, por conta da grande demanda que provém do trabalho.  Mas não só.  Se Katia consegue se equilibrar e manter seu eixo, Oleg é mais desregulado, descontrolado no seu dia-a-dia, além de abusar do álcool.  É muito dedicado ao que faz, a ponto de jogar para o alto certas regras de ação, pensando em salvar vidas, ou em dar um atendimento adequado ao momento.  Com isso, cria problemas.  Ou melhor, esbarra nas estruturas burocráticas do trabalho na saúde, que, muitas vezes, são absurdas, por exemplo, querendo controlar tempo e destinação a uma outra equipe, deixando sem atendimento, por momentos, uma pessoa que está à morte.  Por outro lado, se outro atendimento não acontece, também pode produzir a morte de alguém.

 

O que fica claro é que a estrutura do serviço não dá conta de toda a demanda e que as decisões burocráticas e centralizadas, sem ouvir adequadamente os profissionais que estão na linha de frente, não só não resolvem o problema como complicam a situação.

 

Como se pode ver, essa ficção tem muito de caráter documental, já que desvela um setor fundamental da vida e o papel do Estado nele: o sistema de saúde, que atende à população. A Rússia não fica muito bem nessa fita, não.

 

O casal que vive o seu drama, se separando, se aproximando, se entendendo, se perdoando ou não e, sobretudo, se amando, mesmo em meio ao caos, traz um profundo sentido de humanidade e até romantismo a um mundo profissional tão complicado e desafiador.  Esse paralelo relacional nos permite respirar um pouco, rir um pouco das situações, mesmo sabendo que aquilo tudo que eles vivem é muito sério, não pode se reduzir a comportamentos inadequados de um ou de outra. Seus problemas imbricam-se com o mundo em que estão, num amálgama.

 

“Arritmia” é um bom filme, bem conduzido e interpretado, numa chave realista, que contempla também elementos absurdos, ou até surreais, como o colchão aerado que, por falta de espaço, tem de ser colocado na cozinha para separar o casal nos momentos de crise.

 




O HOMEM QUE SURPREENDEU A TODOS.  Rússia, 2018.  Direção de Natasha Merkulova e Aleksey Chupov.  Com Evgeniy Tsyganov, Natalya Kudryashova.  104 min.

 

Na tentativa de enganar a morte, você corre o risco de ser morto a pauladas.  Esta frase me parece, sintetiza o sentido do filme “O Homem que Surpreendeu a Todos”, que pode ser visto como uma fábula sombria, passada numa aldeia siberiana.  Envolve incompreensão, preconceito e intolerância quanto à questão de gênero, mesmo diante da fragilidade humana frente à morte e mesmo partindo daqueles com quem se vive uma relação familiar de respeito e amor.

 

A questão de que a mudança choca, e parece impossível de entender, jamais poderia justificar a agressão pura e simples, sem motivo.  Se fôssemos destruir tudo o que não somos capazes de entender e aceitar, acabaríamos com a própria ideia de humanidade.

 

Se o filme me trouxe essas questões importantes, é porque ele foi competente, na forma, para mostrar essas coisas.  A narrativa se desenvolve num sentido, muito claro e compreensível, para mudar de rumo, nos surpreendendo, tanto quanto as decisões do personagem Egor.  O que passa a importar agora é outra coisa e logo será outra mais, já que nada se sucede como poderíamos esperar, realisticamente falando.

 

Quando tudo parecia selado, volta a nos surpreender, restabelecendo algo que havia sido perdido.  É um belo trabalho esse, conduzido pelo casal de diretores e roteiristas Natasha Merkulova e Aleksey Chupov.  O fato é que eles conduzem muitíssimo bem a trama, surpreendem e inovam no tratamento da narrativa.  A motivação, digamos, fantástica, fabular, se encaixa com facilidade no contexto realista, produzindo um híbrido para lá de interessante.

 

Cinema russo de caráter autoral e muito boa qualidade, também no desempenho do elenco.  Por sinal, o casal de atores protagonistas é brilhante, ao passar sensações e sentimentos com um mínimo de recursos e dispensando a necessidade de palavras, a maior parte do tempo.  Para Evgeniy Tsyganov, o desafio é maior, porque é ele que tem de segurar a mudança e a surpresa na figura de um personagem que, afinal, tem duas vidas e contextos de relacionamento completamente distintos.

 

“O Homem que Surpreendeu a Todos” é um pequeno grande filme.  Excepcional na sua simplicidade de recursos que, partindo de algo trivial, chega a uma dimensão reflexiva notável.




terça-feira, 8 de dezembro de 2020

FESTIVAIS EM CASA

Antonio Carlos Egypto

 

Neste final de ano é necessário ficar em casa, evitar viagens que não sejam indispensáveis, fazer encontros virtuais ou com muito pouca gente reunida.  É bom que haja boas opções cinematográficas, com talento e arte, sem precisar sair de casa, não é?  Pois bem, há ótimas opções.  Festivais acontecendo em plataformas digitais, por streaming.  E o que é melhor, gratuitamente.

 



Comecemos pelo 15º. Festival do Cinema Latino-Americano de São Paulo 2020, que acontece de 09 a 16 de dezembro, nas plataformas Spcine play, Sesc digital e Looke.  Filmes recentes do Brasil e dos países da América Latina, que devem nos reservar boas surpresas.  Trata-se de uma produção rica e variada culturalmente, que nos diz respeito de perto e traz reflexões sociais importantes.  Os filmes não são os mesmos nas três plataformas, embora um ou outro possam ser repetidos.

 

Aproveito para lembrar que o Spcine play tem muitos outros filmes importantes e disponíveis gratuitamente.  Por exemplo, clássicos brasileiros e internacionais e produções que fizeram parte de outras mostras, inclusive da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  Entre eles, filmes de Manoel de Oliveira que nunca saíram em DVD no Brasil. Enfim, é só entrar, fazer login com o e-mail, uma senha, e usufruir de tudo isso e do Festival Latino, que já está começando.

 

O Sesc digital é outra dica indispensável.  Tudo sempre gratuito, programação de qualidade, como sempre foi a do  Cinesesc.  Títulos renovados semanalmente, agora o Festival Latino e ainda mais: de 10 a 23 de dezembro, entra lá também a 21ª. Retrospectiva do Cinema Brasileiro, que tradicionalmente aporta no Cinesesc, e está on line.  É só procurar por Sesc digital, cinema e vídeo, se inscrever com login e senha e aproveitar tudo o que está lá.  E é muito coisa.  sescsp.org.br/cinemaemcasa é uma forma de entrar.  Ou #emcasacomsesc.

 



Tem mais, está chegando o 1º Festival de Cinema Russo, com uma seleção de filmes recentes, de 2017 para cá, promovido pelo Ministério da Cultura da Rússia e pela Roskino.  Os 8 filmes selecionados poderão ser vistos de 10 a 30 de dezembro, na plataforma Spcine play, gratuitamente, até o limite de visualizações que os promotores estabeleceram.  Vi 5 filmes dessa Mostra Russa, que vou comentar com vocês nas próximas postagens do cinema com recheio.  Já adianto que valem bastante a pena.  Tem uma boa variedade e muito boa qualidade de produção.

 

Interessante notar que ainda está em andamento uma outra famosa Mostra de filmes russos e soviéticos clássicos, em sua 7ª. edição, promovida pela Mosfilm e o CPC da UMES, que também comercializa grande parte desses filmes em DVD.  Ou seja, temos à disposição filmes famosos de grandes diretores, russos e soviéticos numa Mostra que ainda segue e já entra em cena a produção russa atual.  Para conferir, CPC-UMES filmes no Youtube e www.cpcumesfilmes.org.br.

 

Todas essas Mostras foram pensadas e aconteciam nos cinemas.  Em 2020, foram parar no sistema on line.  O 1º. Festival de Cinema Russo nem teve chance de experimentar a edição nos cinemas.  Teve que sair pela primeira vez via Internet.  Sinal dos tempos.  Já que tenha de ser assim, que seja.  E que possamos aproveitar o máximo que pudermos, explorando esse recurso e nos preservando, que a vida não está fácil.

 

 

domingo, 6 de dezembro de 2020

TODOS OS MORTOS

Antonio Carlos Egypto

 



TODOS OS MORTOS.  Brasil, 2019. Direção de Caetano Gotardo e Marco Dutra.  Com Mawusi Tulani, Clarissa Kiste, Carolina Bianchi, Thomás Aquino, Thaia Perez e o menino Agyei Augusto.  120 min.

 

 “Todos os Mortos”, o filme dirigido por Caetano Gotardo e Marco Dutra nos leva à São Paulo do final do século XIX (1899-1900), no período logo após o fim do regime escravista no Brasil, país que foi o último do Ocidente a aboli-lo.  Isso, evidentemente, tem um custo, que pagamos até hoje, na forma de um racismo estrutural, tão odiento quanto negado.  A casa grande e a senzala estão entre nós, atavicamente, mal encobertas por uma suposta democracia racial.

 

Pois bem, o filme focaliza, por meio das mulheres, uma aristocracia que se percebe decadente, com o fim do modelo econômico da escravidão.  Os símbolos da ruína são evidenciados pela família branca dos Soares, por meio de doenças mentais (demência precoce, histeria, hipocondria, loucuras diversas) e desagregação familiar.  As mulheres na cidade, o pai, na fazenda.  Há uma falta de perspectivas e uma tentativa de se agarrar a privilégios que já não estão disponíveis.

 



Enquanto isso, a família negra dos Nascimento, escravizados por muito tempo, tenta juntar os cacos, reconstruir uma história, encontrando um lugar para viver com decência, um modo de sobreviver pelo trabalho livre e reencontrar o pai que está distante, veio para São Paulo e não deu mais notícias. A verdade é que não há lugar para eles na sociedade paulistana.  São excluídos, largados à própria sorte.

 

O canto da sereia vem da casa grande, buscando reavê-los, de alguma forma.  O menino, que nasceu livre, até se encanta com o ambiente e quer ficar muito tempo por lá, sem perceber que sua presença traz de volta a subserviência escravista.

 

Há também o confronto de crenças, cantos, danças, tradicionais, de diferentes origens africanas, discriminadas, ao mesmo tempo que domesticadas, postas a serviço das classes dominantes e do catolicismo que as representa, por meio da freira que pertence à família Soares. O filme abre, lindamente, com uma canção em dialeto africano, entoada por Alaíde Costa, em participação especial.

 



Mergulhar nesse mundo é visitar as origens dos problemas intensos que vivemos hoje, em busca de uma democracia que só será plenamente possível se, finalmente, formos capazes de enfrentar o racismo que produz assassinatos como o de João Alberto, no Carrefour de Porto Alegre, e põe em risco toda a população jovem, preta e parda, que vive majoritariamente na periferia das grandes cidades como São Paulo.

 

“Todos os Mortos”, os fantasmas da escravidão, estão à solta no competente trabalho de Gotardo e Dutra que, apoiados num elenco maravilhoso de atrizes e atores que a gente percebe bem empenhados no projeto, lança luz a uma história, que o próprio filme de época nos remete aos dias de hoje.


(crédito das fotos Hélène Louvart)



sábado, 28 de novembro de 2020

O ORFANATO

Antonio Carlos Egypto

 



O ORFANATO (Parwareshghah).  Afeganistão, 2019.  Direção de Shahrbanoo Sadat.    Com: Qodratollah Qadiri, Sediqa Rasuli, Masihullah Feraji, Anwar Hashimi.  90 min.

 

 

São tão raras as possibilidades de ver um filme realizado no Afeganistão que, quando elas aparecem, vale a pena conferir.  É o caso agora de “O Orfanato”, que estará disponível por streaming (Now, Vivo Play), a partir de 03 de dezembro.  Uma jovem mulher cineasta, Shahrbanoo Sadat, dirige uma história baseada num diário não publicado de Anwar Hashimi, um dos atores do filme, que faz o papel de supervisor do orfanato.

 

A ação se passa num orfanato soviético no Afeganistão, na época de Gorbatchev no poder na URSS.  O local recolhe meninos em situação de rua, como Qodrat (Qodratollah Qadiri), aos 15 anos, que perambula pelas ruas de Cabul, ganhando algum dinheiro como cambista de ingressos de cinema esgotados.  Aí já se vê o apelo do cinema, que entrará na narrativa como fantasia.

 

O orfanato oferece boas condições de moradia, alimentação e estudo aos meninos, tanto que os conflitos acabam sendo as lutas de poder entre eles e o domínio autoritário de um líder mais velho da turma.  Sem ele, no entanto, a camaradagem consegue imperar entre os demais.  Quando ele deixa o orfanato, a gente fica pensando: e agora, o que restará do filme?

 

A questão proposta por "O Orfanato” é que esse mundo em razoável equilíbrio desmoronará com a queda do governo e a chegada da milícia muçulmana armada ao poder.

 



Do jeito em que isso é apresentado fica esquemático, os soviéticos eram bons, o Estado Islâmico que se instalou, péssimo.  Por exemplo, alguns meninos vão para um acampamento de férias em Moscou, onde são bem recebidos, ensinados e estimulados a jogar xadrez e se divertem.  O braço armado muçulmano já chega ao orfanato atirando no diretor, sem mais, nem menos.  Não há nuances.  Ficam o bem e o mal mostrados de forma absoluta.

 

A gente custa a crer que a barbárie exista mesmo, desse modo, sem meias medidas.  Mas que ela existe, existe.  Então, pode ter sido mais ou menos assim mesmo, conforme o relato dos diários filmados.  Enfim, a coisa foi sentida e vivida assim pelo escritor.  Esse escritor/ator compõe o personagem do diretor do orfanato, que será atacado, como um bom educador, equilibrado e justo.

 

O que o filme acrescenta de interessante a tudo isso é a fantasia.  Qodrat é obcecado pelo cinema indiano de ação, com lutas e sopapos, e o musical, com cantos e danças.  Enquanto ele vive a realidade, a sua imaginação encontra soluções em cenas típicas de filmes de Bollywood, a Hollywood da Índia, em Bombaim (Mumbai).  É o cinema colorindo a vida de um menino sem família, em situação de rua, acolhido pelo orfanato que, como todo mundo, tem de lidar com frustrações, decepções e perdas.  Vale-se do cinema para suportar tudo isso.

 

 

terça-feira, 24 de novembro de 2020

VALENTINA

Antonio Carlos Egypto

 



VALENTINA, Brasil. 2020.  Direção de Cássio Pereira dos Santos.  Com Thiessa Woinbackk, Guta Stresser, Rômulo Braga, Letícia Franco, Ronaldo Bonafrio.  95 min.

 

 O filme brasileiro “Valentina”, de Cássio Pereira dos Santos, em seu primeiro longa-metragem, vem recebendo prêmios importantes em festivais.  Na 44ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo venceu o prêmio do público de melhor ficção nacional, além de receber menção honrosa pelo júri internacional para o desempenho da atriz principal, Thiessa Woinbackk.  Ela recebeu prêmio pela interpretação também no festival Outfest, de Los Angeles.  O filme foi, ainda, fartamente premiado no recém-encerrado Festival Mix Brasil 2020, pela interpretação da atriz, pelo melhor roteiro, melhor longa, pelo júri popular, e o prêmio Coelho de Ouro de melhor longa.  Grande reconhecimento para um trabalho que procurou mostrar o drama da identidade na vida de uma pessoa transexual.

 

A narrativa, bastante realista, enfatiza o quanto a identidade legal importa para que transexuais, como Valentina, possam ser quem são e serem reconhecidos pelos outros.  E quanto esse processo pode ser muito custoso, sofrido, extremamente dolorido.  Alguém que se sente mulher, se apresenta como mulher, é mulher, não pode mostrar um documento de identidade do sexo masculino, com nome masculino.  É possível corrigir isso, mas quando se tem, como ela, 17 anos, exige toda uma burocracia e a ativa participação dos pais.  Sem isso resolvido, como frequentar a escola?  Com que nome, registro oficial, diploma, etc.?  Diploma é modo de dizer, já que, conforme o filme nos informa ao final, 82% das transexuais abandonam a escola.  A documentação é o primeiro e relevante problema, o preconceito, a agressão inclusive física, o desrespeito e a humilhação completam o quadro desse absenteísmo. 

 

Sem educação formal, o próximo passo pode ser a pobreza e a exclusão na vida em sociedade.  É preciso impedir que o processo prossiga.  Uma família acolhedora poderia ajudar muito.  No caso de “Valentina”, a mãe cumpre muito bem esse papel.  Só que o casal está separado, o pai sumiu e até mudou de celular sem comunicar-lhes.  Poderá ser encontrado?  Pelo menos, para assinar os papéis? 

 

A escola, atualmente, no Brasil, é obrigada legalmente a aceitar o nome social em lugar do de nascimento, nesse caso.  A reação de uma comunidade pequena e religiosa, quanto a isso, já é outra história. A propósito, o enredo leva Valentina e sua mãe a sair da cidade grande e ir para uma localidade pequena, exatamente para tentar fugir das consequências decorrentes da condição da transexualidade que já se tornavam insuportáveis.  Aquela conhecida tentativa de recomeçar tudo do zero.

 



Onde há desinformação e preconceito também pode haver solidariedade.  Até porque, por trás das aparências, a vida segue com sua diversidade, tanto nos grandes como nos pequenos centros populacionais.  Há de tudo em todos os lugares, desde sempre. 

 

As locações de “Valentina” foram a pequena Estrela do Sul e Uberlândia, nas Minas Gerais.  O diretor e roteirista do filme, Cássio Pereira dos Santos, é da região.  Nasceu em Patos de Minas e estudou cinema em Brasília.  Começa muito bem, com conhecimento de causa.

 

É fácil entender por que o filme “Valentina” vem conquistando o público.  A personagem traz uma novidade.  Situações e problemas que o espectador por vezes desconhece totalmente.  Ou avalia de modo muito diverso.  Às vezes, até jocoso, sem conseguir uma empatia, um envolvimento com a situação da transexual.  Na medida em que os fatos vão se desenrolando, a identificação vai ocorrendo, ajudada pelo excelente desempenho da atriz tão merecidamente premiada e de nome difícil, Thiessa Woinbackk.  Que, além de atriz, é youtuber de sucesso.  Assim me informaram, pelo menos.  A atuação como atriz é ótima e tem muito peso no desenvolvimento da narrativa.  Mas todo o elenco é muito bom também.

 

A outra possível explicação para o interesse do público liga-se à atualidade do tema.  A quebra de um tabu que aparece, com certa surpresa, nas candidatas trans que lograram se eleger vereadoras, pelo Brasil afora.  Já houve até prefeita trans, se bem me lembro, mas era uma completa exceção.  Agora, o número parece ser representativo, indicando uma mudança importante.  Outros debates, livros, peças, filmes, estão aparecendo sobre o tema.  Minha última postagem, antes desta, no cinema com recheio, incluiu o filme “Maria Luíza”, documentário sobre a primeira trans nas Forças Armadas brasileiras.  A transexualidade vai conquistando o seu espaço e colocando as questões pertinentes à sua condição de vida para a reflexão da sociedade.  Muito justo e oportuno.

 


                                                                                                                   

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

DOCS BRASILIENSES

Antonio Carlos Egypto

 



Dentro do cabo da Aeronáutica José Carlos sempre houve a Maria Luíza.  Desde criança, muito antes de que a paixão por aviões a levasse a optar pela carreira militar.  A primeira transexual da Força Aérea acabou conquistando, a duras penas, sua festejada carteira de identidade castanha.  Depois de sofrer muito preconceito na vida e de ter amargado as consequências de uma rejeição de sua identidade feminina que a impediu de ser ela mesma.  Pela via da ciência, com tratamentos para reforçar a identidade masculina que recebeu da sociedade e aplacar suas características femininas.  A começar por uma raspagem das cordas vocais para engrossar a voz.  E também, claro, pela via moral que, no limite, a impediu de usar o fardamento feminino da Aeronáutica e a aposentar por invalidez depois de 22 anos de serviços impecáveis, sem qualquer mancha ou questionamento em seu desempenho.  Com um salário abaixo do merecido.

 

O documentário do diretor brasiliense Marcelo Diaz, MARIA LUÍZA, primeiro longa do cineasta, dedica-se a nos apresentar essa história contada pela própria Maria Luíza e por outras pessoas que com ela conviveram ou que procuram explicar a transexualidade.  É um tema tabu até hoje, tanto que ninguém na hierarquia militar da Aeronáutica quis prestar qualquer depoimento.  Existe no documento, mas ainda não existe no reconhecimento da realidade.

 

Um tema como esse, que implica rejeição, sofrimento, negação da própria identidade, julgamento moral com base na ignorância e no preconceito, inevitavelmente resvala por emoções fortes.  Não por acaso, o documentário nos envolve e emociona, apesar de Maria Luíza ser tímida, econômica nos relatos e relutante na revelação da opressão que sofreu.  Seu catolicismo a faz capaz de perdoar e entender a ignorância dos pais, não os culpando por nada do que viveu.

 

Faz-nos lembrar da reação espontânea do dr. Dráuzio Varella naquele episódio do abraço à transexual abandonada na cadeia, exibido pela TV e Internet, que virou polêmica.  Naquele caso havia um crime, mas houve a solidariedade humana de uma pessoa da qualidade do médico, que é muito admirado por seu trabalho e sua capacidade de comunicação como profissional e como escritor.

No caso de Maria Luíza, não há crime algum, pelo contrário, há uma dedicação impressionante à Força Aérea Brasileira, nunca contestada.  Ainda assim, o reconhecimento não acontece.  O preconceito fala mais alto.

 

MARIA LUÍZA, o filme sobre a primeira mulher trans das Forças Armadas Brasileiras merece ser visto e divulgado.  Não é possível que continuemos a manter tabu daquilo que mexe com a gente, que a gente não entende, que nos incomoda.  Até quando vamos fingir que a diversidade humana não existe?  Bem, notícias de candidatas trans sendo eleitas neste 2020 pelo Brasil  são alvissareiras. 80 minutos.

 




Documentário CANDANGO – MEMÓRIAS DO FESTIVAL, do cineasta brasiliense Lino Meireles, em seu primeiro longa, realiza um importante trabalho histórico em relação ao cinema brasileiro, num período de 50 anos.  O filme reconstrói, por meio da chamada história oral, o que aconteceu no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o maior evento relacionado ao nosso cinema, ao longo de todo esse período.

 

Ouviu todo o pessoal envolvido, atores, atrizes, diretores, técnicos, organizadores, críticos e jornalistas, relembrando vitórias, derrotas, solidariedade, competições, brigas e longas discussões, costurando a história em que se destacam a luta cultural contra a censura e a ditadura militar, que já estava instalada quando o Festival de Brasília começou, em 1965.

 

Sabemos que a memória é seletiva, coisas são esquecidas, outras, superdimensionadas ou distorcidas, elas vêm recheadas de afetos, que vão do eufórico ao incômodo.  É importante resgatá-las, revisitá-las.  É o que o documentário faz, nos pondo em contato com as memórias de todas as grandes figuras do cinema brasileiro, que por lá passaram.  Para quem gosta de cinema, e conhece, acompanha o cinema nacional, o filme flui, delicia, encanta.  Para quem está menos ligado, dá para perceber como é difícil fazer cinema no Brasil, os vai-e-vens das leis, das ações governamentais, do abandono à própria sorte, da perseguição política e da censura, dos interesses comerciais que inviabilizam projetos e até do próprio preconceito do público.

 

Quando se percorre todo esse caminho árduo, fica difícil simplesmente criticar ou comparar nosso cinema ao que se faz em outros lugares em que há muito mais apoio e condições econômicas bem diversas.  É forçoso reconhecer a qualidade do cinema brasileiro, sua diversidade e criatividade, inclusive nos momentos mais tensos e desalentadores.

 

As obras maiúsculas premiadas ao longo desses 50 anos no Festival de Brasília deixam muito claras a força e a importância do nosso cinema.  O cinema que mostra a nossa cara, o nosso ambiente, a nossa cultura, as nossas preocupações, os nossos problemas, o nosso jeito de amar.  119 minutos.




 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

MEU BALANÇO DA #44 MOSTRA

Antonio Carlos Egypto

 

Como já afirmei aqui, mais de uma vez, sempre fui um frequentador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que foi para mim uma verdadeira escola de cinema.  Fiz isso por mais de 40 anos, todos os anos, vendo o máximo de filmes que podia.  Já há um bom tempo, minha média tem girado em torno de 50 ou 60 filmes por edição.

 

Aí veio a pandemia, o fechamento dos cinemas, mas havia a esperança de que até outubro fosse possível realizar a Mostra.  Logo se viu que não e, como tudo tem que ser providenciado com muita antecedência, Renata de Almeida e a equipe da Mostra resolveram realizá-la pela primeira vez on line.  De um lado, fiquei muito feliz.  Apesar de tudo, a Mostra resistia e aconteceria.  De outro, temia pelos problemas.  Nunca me entusiasmei por streaming, ver cinema em casa sempre foi por meio do DVD, geralmente para conhecer filmes que já não estavam disponíveis ou para rever filmes conhecidos e importantes.  Como fazer com as oscilações de Internet, o travamento na hora de assistir?  Daria para ver quantos filmes dessa forma? E como avaliá-los assim?  Sem falar nas famosas interrupções domésticas.




 

O que não tem remédio remediado está.  Não é assim que diz o ditado?  Pois é, se é a única maneira de ver os filmes da Mostra, vamos a ela.  Até porque de nada adiantaria se tivesse sido mantido o esquema presencial.  Mesmo com os cinemas abertos, eu não teria coragem de passar horas e horas nas salas, enfrentando aglomerações, ar condicionado e tudo o mais.  Iria simplesmente saltar esse ano, pela primeira vez.

 

A frustração foi grande, porque a Mostra é uma oportunidade de conviver com pessoas, que a gente só de vez em quando, alguns só nessa época.  De rever os conhecidos cinéfilos de sempre.  De conversar sobre filmes com desconhecidos. A troca de informações, de ideias é importante. E a falta que faz a imprescindível tela grande e o som da sala de cinema.

 

Bem, encarei a nova proposta e, para minha surpresa, deu tudo muito certo.  O esquema montado pela 44ª. Mostra foi muito competente e profissional.  Os filmes entravam e rodavam muito bem.  As orientações recebidas funcionaram.  Foram raros, diminutos, os problemas.  Acabei me acostumando a ver os filmes na tela do notebook, e gostando.

 

Tanto é verdade, que acabei de contar o que consegui ver desde a semana anterior à Mostra, com cabines virtuais, até a repescagem e foram 50 filmes, exatamente.  Ou seja, ficou na média do que eu costumava assistir nos cinemas.  Não é a mesma coisa, mas não posso negar que gostei da experiência.

 

A 44ª. Mostra manteve a qualidade, mesmo com pouco mais da metade dos títulos usualmente exibidos.  Foram 198 filmes, quando outras edições chegaram a alcançar perto de 400 títulos.  Reduziu-se o cardápio para escolha.  Considerando, porém, que, quando a oferta é muita a gente se perde, acho que perdemos pouco.  Não pretendo trocar a sala de cinema pelo cinema em casa e espero que a próxima edição da Mostra possa se realizar no esquema habitual.

 

No entanto, se houve perdas, também houve ganhos.  Acredito que muitas pessoas puderam conhecer um pouco da Mostra e possam ter descoberto a sua importância.  Os que se acomodam em casa desta vez puderam conhecer um cinema menos comercial, mais elaborado, em sua produção mais atual.  E quem está fora de São Paulo não precisou vir até aqui ou deslocar-se para acompanhar a Mostra.  O Brasil inteiro pôde usufruir da Mostra on line.  Já vi gente reivindicando a manutenção do esquema virtual nas próximas edições, visando a alcançar uma abrangência nacional.

 

Viajar atualmente também é um problema e envolve riscos.  Tudo está mudando, se ajustando, até que possamos encontrar um modus vivendi  com o novo coronavírus.  A vacina vai ajudar, não vai resolver tudo.  Depende de nós o que faremos no novo estilo de vida.  Cultura para todos, sem aglomeração?  Difícil, não?  A cultura virtual é uma solução provisória, pois nada pode substituir o contato humano, na arte e na vida. Quem viver, verá.

 




FILMES QUE LEVARAM PRÊMIOS NESSA MOSTRA

 

Júri Internacional – Novos Diretores

Ficção: EIYMOFE - ESSE É O MEU DESEJO (Nigéria)

Documentário: 17 QUADRAS (Estados Unidos)

Menção Honrosa ao documentário brasileiro: CHICO REI ENTRE NÓS e à atriz Thiessa Woinbackk, de VALENTINA.

 

Prêmio do Público

Ficção internacional: NÃO HÁ MAL ALGUM (Irã)

Ficção nacional: VALENTINA

Documentário internacional: WELCOME TO CHECHNYA (Estados Unidos)

Documentário nacional: CHICO REI ENTRE NÓS

 

Prêmio da Crítica

Melhor filme estrangeiro: MOSQUITO (Portugal)

Melhor filme nacional: GLAUBER, CLARO

 

Prêmio Abraccine para diretores brasileiros estreantes

ÊXTASE, de Moara Passoni

@mostrasp