terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

DIAS PERFEITOS

  Antonio Carlos Egypto

                                                 



DIAS PERFEITOS (Perfect Days).  Japão, 2023.  Direção: Wim Wenders.  Elenco: Koji Yakusho, Tokio Emoto, Arisa Nakano, Aoi Yamada.  123 min.

 

O grande cineasta alemão Wim Wenders declarou publicamente que o cineasta japonês clássico Yasujiro Ozu (1903-1963) é um mestre muito admirado por ele.  Em 1985, Wenders foi a Tokio fazer um documentário, “Tokyo-Ga”, sobre a cidade de seu mestre no cinema e as mudanças que se operaram 20 anos após a morte de Ozu.

 

Não surpreende, portanto, que “Dias Perfeitos”, que concorre ao Oscar, representando o Japão na disputa de filme internacional, seja dirigido por Wim Wenders, numa produção nipo-alemã, com roteiro de Wenders e de Takuma Takasaki. 

 

E qual é a temática de “Dias Perfeitos”?  Eu diria que é viver em harmonia consigo mesmo e com a natureza, mesmo diante das adversidades e de questões não resolvidas no passado.  Parece que mais do que isso: viver feliz, com um sorriso no rosto e um otimismo que parece estar em desacordo com os fatos.

 

Senão, vejamos.  Hirayama (Koji Yakusho) é um senhor (de meia-idade? Esta expressão é estranha) que vive só e cumpre uma rotina de trabalho que ele faz cuidadosa e esmeradamente.  Qual seja, a de limpar banheiros públicos, envergando um macacão da The Tokyo Toilet, com um jovem ajudante pouco interessado nesse serviço: Takashi (Tokio Emoto).

 


Vemos que, na rotina de Hirayama, cabem a leitura de bons livros, a fotografia das árvores, o cuidado com as plantas e a música, que ele ouve por meio de fitas cassetes no veículo que usa para o trabalho.  Não, não estamos no passado, nem nos anos 1980.  As músicas ouvidas, sim.  Mas aprendemos que, com a revalorização do analógico, as fitas cassetes de som podem ser vendidas num sebo, por 80 a 120 dólares.  Ele nem está interessado nisso.  Esse emprego não deve lhe render um alto salário, claro, mas ele coleciona não só fitas, como livros, fotos tiradas com uma máquina antiga, que revela regularmente. Seu assistente reclama da falta de dinheiro até para namorar, mas ele não se queixa de nada.  Aliás, fala muito pouco, quase nada.

 

Acompanhar o dia-a-dia desse personagem e o que, eventualmente, acontece com ele é o que importa ao filme.  O personagem é, na sua vida simples, bastante interessante e muito bem interpretado pelo ator Koji Yakusho, que sustenta o filme quase sem falar.  Sua rotina é sua segurança, seu meio de vida, seu porto seguro.  E, como dizia o título em português do último filme de Yasujiro Ozu, “A Rotina tem seu Encanto” (Sanma No Aji).

 

O filme flui muito bem e nos desafia a pensar o que é que vale nessa vida, afinal?  O conformismo do personagem, evidentemente, provoca estranheza.  Mas faz sentido para ele e é certamente útil para a comunidade.  Quem é que não aprecia um banheiro público limpo, bem higienizado, na hora em que precisa usá-lo?

 

Uma curiosidade: nunca tinha visto o banheiro público envidraçado que se torna opaco e colorido ao ser trancado por dentro.  Coisas da tecnologia, coisas do Japão.



quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

ZONA DE INTERESSE

        Antonio Carlos Egypto

 

 


ZONA DE INTERESSE (The Zone of Interest).  Reino Unido, 2023.  Direção: Jonathan Glazer.  Elenco: Christian Friedel, Sandra Hüller, Johann Karthaus, Medusa Knopf.  103 min.

 

O comandante Rudolf Höss (Christian Friedel) do campo de concentração, na verdade, de extermínio, de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial, vive com sua família numa bela casa, exatamente ao lado do campo, separada por uma muralha.  Com sua mulher, Hedwig (Sandra Hüller), filhos, a sogra que aparece para visitá-los e outros, todos têm uma vida aparentemente normal e muito confortável.  Esse é o ponto de partida do filme, baseado em obra de Martin Amis.

 

Convenhamos que, por mais negacionismo que se pratique, por mais que se queira ignorar o que acontece ao lado, isso é impossível.  Fornos crematórios emitem fumaça, há sons de tensão, gritos e, ainda mais óbvio, as roupas de judeus que aparecem para serem aproveitadas pelos empregados da casa e até um casaco de peles que Hedwig recuperará.  Banalidade do mal é pouco.

 

Pois bem, o que faz o diretor Jonathan Glazer? Não mostra nada de Auschwitz, tudo está extracampo.  O que é importante não está em cena, não é mostrado, com exceção daquilo que interfere na vida familiar de Höss.  Uma maneira de não explorar o Holocausto sensacionalisticamente?

 

Isso é possível na medida em que já se conhece toda a história.  Pequenos indícios são suficientes para relembrá-la e condená-la.

 


Um grande número de filmes já abordou o tema no cinema, das mais variadas formas e estilos.  Uma obra seminal é “Noite e Neblina”, um curta de Alain Resnais, de 1956, que mostra o que foi Auschwitz, quando o tema ainda estava quente.  Hoje tudo já foi dito e feito, direta ou indiretamente, por personagens distintos, de forma documental, dramática e até de humor. Lembram-se de “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni?  E já houve polêmicas sobre o que se deve ou não mostrar sobre um assunto tão sensível e dolorido.

 

A escolha de “Zona de Interesse” pelo distanciamento está não apenas na ausência de imagens do Holocausto, mas também na filmagem de longe e no desempenho dos atores e atrizes, sem nenhum close de rostos, expressões, movimentos.  As performances estão bem contidas, evitando as manifestações emocionais.  Tudo ascético, supostamente neutro.  E sem detalhes, exceto em algumas flores vermelhas, que acabam transformando toda a tela em vermelho, representando o sangue.  Assim como a morte aparece, no início e no fim do filme, em tela toda escura.  A fotografia também é escura.  O filme é lúgubre, desagradável de se ver.  O grande mérito está no uso do som para revelar os horrores escondidos.

 

“Zona de Interesse” está indicado ao Oscar de melhor filme, melhor filme internacional, direção, roteiro adaptado e som.  Se, porventura, eu tivesse direito a voto, cravaria o som.  E só.




 

 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

POBRES CRIATURAS

 Antonio Carlos Egypto

 

 



POBRES CRIATURAS (Poor Things). Estados Unidos, 2023.  Direção: Yorgos Lanthimos.  Elenco: Emma Stone, Willem Dafoe, Mark Ruffalo, Ramy Youssef.  141 min.

 

Ficção científica desvairada em tom de comédia um tanto amalucada, mas nem sempre engraçada.  “Pobres Criaturas”, produção norte-americana dirigida pelo cineasta grego Yorgos Lanthimos, é um filme bastante estranho para merecer 11 indicações ao Oscar (perde somente para “Oppenheimer” com 13).

 

Nele se veem cabeças de porco em ave, animal metade pássaro-metade cachorro e carruagem dirigida apenas pela cabeça do cavalo.  Isso só para entrar no clima.

 

A personagem principal é Bella Baxter, num desempenho espetacular de Emma Stone, também produtora do filme e indicada ao Oscar de atriz.  Bella foi salva da morte por um experimento “científico” no começo do século XX, que lhe implantou o cérebro do bebê que ela estava gerando, quando resolveu se suicidar.  E ela se tornou uma mulher adulta e bonita num cérebro que nada conhecia do mundo e que precisava crescer e se desenvolver.  Mulher com cabeça e comportamento de criança, ou seja, uma espécie de Frankenstein de saias.

 

Seu “pai”, o estranho cientista Godwin Baxter (Willem Dafoe) também é uma espécie de Frankenstein e mais claramente marcado, com cortes intensos por todo o rosto, consequências dos experimentos de seu pai, também cientista.  Lembrem-se de que, no Frankenstein original, criador e criatura sempre foram confundidos.  Pois é! Vale a brincadeira.

 


Isso é só o começo de uma história delirante que, no entanto, pretende abordar o desenvolvimento, conhecimento e a libertação de Bella, no seu processo de amadurecimento rápido e avançado.  Uma espécie de ode ao feminismo.  Será?  Mas como assim?  Que liberdade e decisões autênticas e bem pensadas podem vir de uma pessoa despreparada e ingênua?

 

Aí vai um exemplo do filme.  Quando Bella descobre a pobreza e a morte de crianças por fome, ela toma todo o dinheiro espalhado que o amante ganhou no jogo, guarda numa caixa e o entrega a dois tripulantes do navio onde estavam vivendo, para que seja entregue aos pobres que precisam, ficando o casal sem dinheiro para nada, a partir daí.  Socialismo ou pura ingenuidade? 

 

Na mesma linha, suas descobertas dos prazeres do corpo, na masturbação, experimentando relações sexuais variadas e na prostituição que ela não chega a conceituar propriamente, não podem ser entendidas como libertação ou autonomia feminina. Falta consciência nessas ações infantilizadas de Bella.

 

Reconheço que o filme é bem feito e até divertido, embora cometa muitos excessos.  Quando, por exemplo, o personagem Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo, também indicado ao Oscar de ator coadjuvante) bate voluntariamente a cabeça contra o balcão ou contra a parede, por causa do ciúme de Bella, absolutamente inexplicável, dadas as circunstâncias, sabendo-se quem ela é.

 

Enfim, é um filme para quem gosta de curtir o non sense, o fantástico, o amalucado.  Não cabem muitas reflexões nesse terreno, apesar das intenções dos realizadores.  Fica tudo bem artificial e esquisito.  Pelo menos para mim.



domingo, 18 de fevereiro de 2024

EU, CAPITÃO

 Antonio Carlos Egypto

 

 



EU, CAPITÃO (Io, Capitano).  Itália, 2023.  Direção: Matteo Garrone.  Elenco: Seydou Sarr, Moustapha Fall, Issaka Sawadogo, Hichen Yacoubi.  121 min.

 

Migrar é um direito humano, o de ir e vir em busca de melhores condições de vida.  Nosso mundo de fronteiras, muros e burocracias, torna a vida dos imigrantes um problema constante a desafiar governos e instituições mundiais.  Mesmo em situações de guerra, extrema pobreza, fome, perseguições políticas e religiosas, é tudo muito complicado para se encontrar a paz em algum canto.  A ilegalidade torna-se a regra da imigração em nossos tempos conturbados.

 

“Eu, Capitão” é um drama ficcional, obviamente inspirado nessa realidade flagrante da atualidade, forte e denso, que nos leva a viver intensamente a saga da imigração ilegal de dois adolescentes africanos, senegaleses, em busca do sonho de viver melhor na Europa.  Partindo de Dakar, passando pelo deserto do Saara e pela Líbia, com vistas à Sicília, na Itália.

 

O filme é uma aventura, uma narrativa muito bem construída sobre um tema duro, difícil.  Matteo Garrone diz que essa saga dos imigrantes, suas histórias, são provavelmente as únicas possíveis narrativas épicas dos nossos tempos.  Para isso, se valeu do testemunho dos que estão mergulhados nessa situação, viveram as agruras dessa imigração.

 

O ponto de vista do filme é o dos imigrantes, no caso, os dois adolescentes, Seydou (Seydou Sarr) e Moussa (Moustapha Fall) e tudo o que eles vão experimentando nessa travessia.  O dinheiro que eles conseguiram guardar, que vai sendo todo consumido de forma exploradora, sem direitos, sem respeito, com maus tratos.  Abandono no deserto, prisão, tortura, trabalho escravo, delírios e fantasias necessários para enfrentar o que se vive (e isso é bem explorado visualmente) e uma travessia de barco inusitada, que fica a cargo de um dos jovens como condutor.  É isso que dá o nome de “Eu Capitão” ao filme.

 


Entender o sentimento dos jovens imigrantes a cada experiência radical a que são submetidos, sem que possam reagir à altura, revela-nos a face desumana dos nossos dias.  Ao mesmo tempo em que mostra as enormes possibilidades de luta e resistência que os seres humanos alcançam nas situações mais desesperadoras.

 

Durante as duas horas de duração do filme, somos levados a uma jornada de empatia com os protagonistas e a população mais ampla que os circunda, num filme realista de aventura e suspense que, apesar de tudo, destila esperança e, sobretudo, respeita seus retratados.

 

Para quem, porventura, ainda não conheça a obra do diretor e roteirista Matteo Garrone recomendo que veja também “Dogman”, de 2018, e “Gomorra”, de 2008.  “Eu, Capitão” está na disputa pelo Oscar de filme internacional como representante da Itália.




sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

ANATOMIA E COLONOS

 Antonio Carlos Egypto

 

 


 

ANATOMIA DE UMA QUEDA (Anatomie d’une chute).  França, 2023.  Direção: Justine Triet.  Elenco: Sandra Huller, Swann Arland, Milo Machado Graner, Antoine Reinartz.  150 min.

 

Filme de abertura da  47ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo , “Anatomia de uma Queda” vem com a chancela da Palma de Ouro no Festival de Cannes e concorre ao Oscar.  Em essência, trata-se de um filme de tribunal, que é onde ocorre a grande maioria das sequências.  E o assunto é o esclarecimento de uma queda que resultou em morte.  Homicídio?  Suicídio? A investigação adentra a vida do casal Sandra e Samuel e de seu filho de 11 anos, que passou por um acidente aos 4 anos e deixou marcas profundas na relação do casal.  Essa relação sempre foi difícil, conturbada.  Sem escarafunchá-la, não se chegará a nada.  A questão é que a verdade, mesmo a factual, está sempre sujeita à subjetividade, aos sentimentos, aos desejos e às preferências.  O filme da já experiente diretora Justine Triet explora bem os meandros dessa relação e o contexto dessa morte.  Dela também fazem parte importante o garoto e seu cachorro.  Está menos preocupada em definir o caso do que em explorar seus meandros.  A narrativa é clássica, valendo-se de gravações de som e vídeos exibidas, para ir além do espaço formal do tribunal.   Por sinal, as formalidades conhecidas e esperadas acontecem bem pouco.  Como se já fosse possível uma conversa coloquial, com a participação dos envolvidos, réplica e tréplica de forma relativamente independente da acusação e da defesa.  Até a juíza é informal no modo de botar ordem na discussão.  Parece bem melhor assim do que aquilo a que estamos acostumados a ver, pelo menos nos filmes de tribunal.  Mas tem acontecido na prática, no século XXI, ao menos na França?  Não tenho notícia.  No fim das contas, um filme centrado muito mais nas questões psicológicas do que nas jurídicas, mas usando uma forma tradicional que o cinema já utilizou largamente.

 



 

OS COLONOS (Los Colonos) indicado chileno ao Oscar 2024 de filme internacional, dirigido por Felipe Gálvez Haberle, é um western.  O gênero sempre marcado pela ação e aventura aqui tem uma inflexão mais crítica e social. Mostra que as incursões civilizadoras do país no começo do século XX incluíam a matança indiscriminada dos indígenas, apenas imaginados como ameaçadores. Um autêntico genocídio estava em curso.  Além disso, a vida humana em geral valia muito pouco. Para o patrão, um braço perdido do empregado podia justificar o sacrifício imediato da vida, como acontece aos animais.  Os personagens da viagem pelas belas paisagens da cordilheira dos Andes: um jovem mestiço chileno, um mercenário americano e um tenente britânico entrarão em conflito.

Elenco : Camilo Arancibia, Mark Stanley, Benjamin Westfall, Alfredo Castro, Marcelo Alonso. 97 minutos.

 

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

OS REJEITADOS, AS BESTAS e SERVIDÃO

Antonio Carlos Egypto

 


OS REJEITADOS (The Holdovers).  EUA, 2023.  Direção: Alexander Payne.  Elenco: Paul Giamatti, Dominic Sessa, Da’vine Joy Randolph, Carrie Preston.  134 min.

 

“Os Rejeitados” trata da questão educacional em forma de comédia, buscando uma reflexão bastante interessante sobre a humanização do processo de ensino-aprendizagem e especialmente das estruturas escolares.  O contexto é o de um internato nos anos 1970, no interior dos Estados Unidos, em que alguns alunos devem permanecer durante o período de festas natalinas e de ano novo, com um dos professores que deve acompanhá-los didaticamente e como protetor.  Os alunos, por razões de desempenho ou de família, são os rejeitados.  O professor, igualmente, foi escolhido como uma espécie de punição, já que é bastante impopular, tanto junto aos alunos quanto junto ao corpo docente.  Somente a cozinheira-chefe da escola, que os acompanhará, está em situação distinta, vivendo um luto pela perda do filho jovem na guerra do Vietnã.  No final das contas, a trama afunila para o professor, um aluno dito problemático e a cozinheira.  É a partir daí que o universo escolar, seus julgamentos, avaliações e a relevância do que ensina serão postos em cheque.  No começo, tudo parece um tanto caricato, antiquado e valendo-se de clichês.  Mas, com a evolução dos fatos, as coisas vão mudando substancialmente e nos trazem para a vida real das pessoas e para além dos papéis, das diferenças de status, de geração, de gênero, de raça ou de classe.  Aí, sim, “Os Rejeitados” ganha musculatura e reveste-se de humanismo.  O diretor, Alexander Payne, de “Nebraska” (2013), parece pôr todos os obstáculos e dificuldades à frente do que é essencial e que se revelará depois de muita água passando pela ponte, Em “Nebraska” a estrutura é semelhante. Mas o encanto acontece, nos dois casos.  O elenco de “Os Rejeitados” tem o ótimo Paul Giamatti no papel do professor Paul Hunham e se mostra um livro aberto no que toca à vida do seu personagem e de suas emoções, embora acredite que engana seus alunos e convivas em geral.  Dominque Sessa faz o personagem Angus, o aluno problema que, na verdade, é ativo, inteligente, perspicaz e rebelde, no caso com causa.  O ator é muito bom, embora seja mais velho do que o papel que pretende representar. Tanto que a gente estranha quando lhe é negado o direito à bebida alcoólica, por ser menor de 18 anos.  Da’vine Joy Randolph é outro grande destaque do filme. Ela faz Mary Lamb, a cozinheira boa gente, com expressividade, na medida certa para cada cena.  E é bastante exigida emocionalmente, em todas as variações de sua participação na trama.  O filme é um dos  indicados ao Oscar 2024.

 

Também estão entrando em cartaz nos cinemas dois outros filmes que vale a pena mencionar.




AS BESTAS, filme espanhol, de 2022, premiado com Goyas, dirigido por Rodrigo Sorogoyen, é um drama e suspense que traz um ponto de partida provocador. Um casal de franceses maduros, por circunstâncias aleatórias, decide se estabelecer como agricultores orgânicos numa aldeia espanhola.  Com toda a boa intenção do mundo e em busca de paz e concórdia.  Mas encontra o oposto: hostilidade e guerra.  Ocorre que os objetivos deles colidem com as expectativas da comunidade, que deseja obter dinheiro suficiente para partir dali, deixando o espaço para os aparatos da energia eólica.  Compreensível e politicamente aceitável, claro.  Em todo caso, a evolução da história será, como já seria presumível de imediato, trágica. E a segunda parte do filme surpreende pela ruptura que produz.  No entanto, um elemento de cena, a filmagem para registrar agressões, denunciar e se proteger perante a lei, antecipa o que esperar do final, irremediavelmente.  Bem previsível, mas não tira o prazer de usufruir do filme.  Elenco: Denis Ménochet, Marina Fois, Luís Zahera, Diego Anido, Marie Colomb.  137 min.

 


E, por fim, um documentário brasileiro que merece nossa atenção pelo que revela de forma muito clara: a abolição da escravidão ainda não se processou de fato, embora tenha sido formalmente decidida ainda no século XIX.  SERVIDÃO, dirigido por Renato Barbieri, mostra condições de trabalho análogas à escravidão existindo fartamente no Brasil do século XXI.  Apesar de contar com uma legislação adequada e moderna sobre o tema, a realidade no campo e na cidade, na Amazônia e no Brasil profundo como um todo, revela as pessoas vivendo sob o jugo de uma mentalidade colonial, escravista, opressora e exploradora.  Alimentada por grilagens, pelo grande latifúndio e por mecanismos políticos e econômicos que a perpetuam.  O filme também trata dos caminhos de resistência e mudança que existem em torno desse assunto.  Narração da artista Negra Li.  73 min.






sábado, 20 de janeiro de 2024

VIDAS PASSADAS

Antonio Carlos Egypto

 




VIDAS PASSADAS (Past Lives).  Coreia do Sul, 2023.  Direção e roteiro: Celine Song.  Elenco: Greta Lee, Teo Yoo, John Magaro, Seung Ah Moon, Leem Seung Min. 105 min.

 

“Vidas Passadas” começa nos mostrando duas crianças, encantadas uma com a outra, inseparáveis, a menina Na Young (Seung Ah Moon) e o menino Hae Seung (Leem Seung Min).  Isso há 24 anos atrás, quando a família dela se muda da Coreia do Sul, enquanto ele permanece lá. O filme irá explorar ao longo do tempo o que acontece com uma conexão tão forte quanto essa.  Partindo do pressuposto, como nos explica ela quando adulta, de que existe o In-Yun, um laço que une as pessoas porque esse vínculo já existia, já veio de vidas passadas.  Essa crença dá à história um sabor de originalidade, um plus que sofistica um amor que sempre teria existido, por isso pode ser reativado muitos anos depois.

 



Com efeito, buscas na Internet possibilitam um encontro virtual entre eles, 12 anos depois da separação, enquanto crianças, quando Na Young já vive em Nova York, desenvolvendo uma carreira literária e adotando lá o nome de Nora (Greta Lee).   Ela está casada com o norte-americano Arthur (John Magaro).  Passam-se mais 12 anos, até que Hae Seung (Teo Yoo) resolva ir pessoalmente a Nova York, para ver Nora.  Como esse vínculo se manifestará agora?

 

O que o filme da diretora e também roteirista Celine Song desenvolve é uma capacidade de dizer muito com muito pouco, explorando olhares, silêncios, ambiguidades.  Tudo com muita sutileza, tanto nos desempenhos dos atores e atrizes, ótimos, quanto na trilha sonora leve e na fotografia que dispensa cores fortes ou muita luminosidade.  Tudo isso num romance em meios tons, sem arroubos ou expressões emocionais intensas.  De um modo oriental.  Ou, quem sabe, mesmo coreano.  Nora explica para Arthur como é Hae Seung, dizendo que ele tem uma virilidade bem coreana.  E dá para entender, vendo o personagem agir com educação, cuidado, respeito pelas pessoas, sem sinais de grossura ou agressividade, mesmo contrariado.  Nora é uma figura de mulher forte, decidida, ambiciosa, mas, ao mesmo tempo, doce, acolhedora, delicada. 

 

Com essas características creio que já dá para ver que “Vidas Passadas” consegue fisgar o espectador, deixando sempre uma dúvida no ar.  Observar a forma como cada personagem lida com as situações, e ao longo do tempo, é um exercício muito interessante a se fazer, enquanto o filme rola.  Incluindo o não-oriental Arthur, o marido de Nora.

 

“Vidas Passadas” é um dos concorrentes ao Oscar.  Seu maior triunfo, em tempos de muita ação, super-heróis e todo tipo de excessos, é essa capacidade de ser envolvente com sutileza.

 


 


 

CINEMA FANTÁSTICO BRASILEIRO 100 filmes essenciais

Esta é a capa de um novo livro da Abraccine, organizado por Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva, que está sendo lançado amanhã (21/01/2024) na 27ª. Mostra de Cinema de Tiradentes, MG. Em breve ele será lançado em São Paulo e em vários outros estados brasileiros. Eu participo dele com uma crítica do filme “O Auto da Compadecida”. Voltarei ao assunto em breve.



quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

MAL VIVER

Antonio Carlos Egypto 



MAL VIVER.  Portugal, 2023.  Direção: João Canijo.  Elenco: Anabela Moreira, Rita Blanco, Madalena Almeida, Cléia Almeida, Vera Barreto.  127 min.

 

A família é vista como um ambiente de acolhimento, afetividade e apoio para os seus membros.  Idealmente falando, é claro.  Porque na família podem se dar os grandes confrontos, rejeições e opressões.  Nelson Rodrigues foi pródigo em mostrar isso nas suas peças teatrais.  Pois bem, “Mal Viver”, o filme do cineasta português João Canizo, foca neste lado negativo da família.  Em especial, nas relações mãe e filha.

 

Mostra uma família vivendo num hotel de propriedade de Sara (Rita Blanco), mãe de Piedade (Anabela Moreira), cujas relações são péssimas.  Sara acusa Piedade de incompetência, incapacidade de tocar a própria vida e teme por ela, se vier a morrer.  Acusa a filha de não assumir, rejeitar, a neta, a jovem Salomé (Madalena Almeida).  Salomé apareceu de surpresa  após a morte do pai, com quem vivia.  Isso incomodou muito Piedade, que não a esperava, nem desejava que viesse.  Mas assim como Piedade não ama Salomé, está claro que Sara não ama Piedade.

 

Outras mulheres da família participam desse clima no hotel, e uma família de hóspedes aparece, com a mãe e a filha às turras.  Ou seja, mães que não amam suas filhas e, por consequência, filhas que não respeitam as mães, tornam todo o ambiente muito sofrido e doloroso.  Essa é uma boa palavra, o filme de João Canijo é doloroso, difícil de assistir por esse aspecto.

 

No entanto, é um belo filme do ponto de vista do seu visual e também em relação aos tempos e ao clima que revela.  A locação no hotel permite circular por ambientes bonitos, bem cuidados, com boa comida.  Piscina ao ar livre no alto da montanha, desvelando uma paisagem atraente.  Mais do que isso: o diretor explora muito bem as luzes, os reflexos, as vidraças que se antepõem, os caminhos internos, em belos enquadramentos. E nos ambientes externos também.

 


Um ritmo lento ajuda a compor um clima pesado, hostil, seco, com muita competência.  A incapacidade de Piedade em acariciar os cabelos de Salomé quando ela se deita ao seu lado, é algo que repugna, mas mostra a que ponto pode chegar a ausência do afeto maternal.  Isso é ainda mais grave quando contrastado com a pequena cadela que Piedade carrega, mima e procura desesperadamente quando ela some.

 

Um ambiente de mulheres marcado pela crueldade nas relações tem algo de desesperador.  As mulheres são associadas à sua capacidade de cuidar e de serem acolhedoras, na maioria das vezes.  Aqui, não.  Quando os homens já estão ausentes, porque sumiram ou morreram, o que ficou foi a hostilidade entre elas.   “Mal Viver” não dá trégua nesta triste constatação.  Há choro e ranger de dentes, mas não há redenção, nem reparação.  É angustiante esse jeito de mal viver.  Porém, é real, incomoda, mas existe.

 

O diretor João Canijo mostra talento e tem seu filme reconhecido, venceu o Urso de Prata, em Berlim, pelo Juri. Vem de uma grande escola de cinema.  Foi assistente de Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Alain Tanner e Werner Schroeter.  “Mal Viver” se relaciona com outro filme dele, que ainda não vi, mas que chegará aos cinemas logo em seguida: “Viver Mal”.  Pelo jeito, tem mais crueldade por aí.

 

 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

PARE COM SUAS MENTIRAS

Antonio Carlos Egypto

 

 


PARE COM SUAS MENTIRAS (Arrête avec tes Mensonges). França, 2023.  Direção: Olivier Peyon.  Elenco: Guillaume De Tonquédec, Victor Belmondo, Gulaine Londez, Jérémy Gillet, Julien De Saint-Jean.  105 min.

 

Um primeiro amor que ficou no passado distante, 35 anos atrás, retorna com força quando o escritor Stephane (Guillaume De Tonquédec) recebe e aceita um convite para retornar à sua cidade natal, a pequena Cognac, para uma homenagem.  Apesar de Cognac ter dado origem à bebida mundialmente famosa, Stephane não bebe, não gosta de bebidas alcoólicas e já não tem nenhum interesse na visita à destilaria local.  Aliás, não é só em relação à bebida, que marca a cidade, que o escritor se sente deslocado. Ele não esconde sua homossexualidade e isso, ainda hoje, incomoda por lá.

 

Por que, então, ele teria sido escolhido para participar de festividades da cidade e receber uma homenagem?  De quem partiu essa ideia?  Claro que ter se tornado um escritor de sucesso e ser de lá pode explicar isso, ainda assim, algo mais deve haver. E ele sabe disso, apenas deixou de lado ao longo de tantos anos distante.

 

Tudo começa a clarear quando, ao autografar um livro, ele percebe que um dos organizadores do evento tem o mesmo nome de seu antigo caso de amor adolescente.  Encontrar o filho de seu amado trará tudo de volta à sua mente, reavivando suas lembranças.

 

O filme “Pare Com Suas Mentiras” vai, então, alternando presente e passado, sem deixar de continuar sendo linear, tanto no que está ocorrendo agora como na sucessão de fatos daquele passado.  A forma clássica, acadêmica, segue preservada.

 


A abordagem do tema, no entanto, traz a novidade da transformação pelo passar do tempo.  Ninguém permanece o mesmo tanto tempo depois.  Nem mesmo a cidade que cultiva escrupulosamente suas tradições.  Por esse caminho, o filme emociona, até surpreende.  Verdade que o discurso que Stephane vai tentando construir, enquanto vive essas novas e perturbadoras emoções do presente, se torna bastante previsível com a evolução da história.  O filme tenta fazer suspense disso, mas não consegue.

 

O personagem adolescente do escritor, vivido pelo ator Jérémy Gillet, é muito diferente dele, enquanto tipo físico, o que provoca uma certa estranheza.  O jovem Stephane é também muito contido e isolado, embora já se destacasse pela boa escrita.  Seu parceiro amoroso, Thomas (Julien De Saint-Jean), que ficou restrito ao espaço de Cognac, cuidando dos negócios da família, era mais expressivo e ativo, mas não alçou voo.  A imagem que ficou de Thomas, a partir do relato de seu filho, foi a mais fechada possível.  O casamento não lhe trouxe felicidade e ele quase não se comunicava com o filho.  Enfim, uma história de amor e desejo intensos que flopou, como se diz atualmente.

 

A redescoberta do escritor, que é a essência da história, baseada na obra original de Philippe Besson, resultou num filme bem realizado por Olivier Peyon, que desperta interesse.




quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

FILMES BRASILEIROS 2023

Antonio Carlos Egypto

 

 Aí vai a minha lista dos melhores filmes nacionais em 2023, entre o que pude ver ao longo do ano, lançados nos cinemas.  Excluem-se mostras, festivais e streaming.  Como estava tendo dificuldade de chegar aos chamados top 10, resolvi deixá-la com 12 filmes, em ordem decrescente de preferência, ou seja, o primeiro que aparece foi o melhor do ano para mim.  Quase todos os filmes têm críticas publicadas aqui, no cinema com recheio e podem ser acessadas no campo de pesquisa pelo nome ou virando as páginas no celular:

http://cinemacomrecheio.blogspot.com

 

Elis & Tom

OS MELHORES LONGAS BRASILEIROS DE 2023

 

ELIS & TOM... SÓ TINHA QUE SER COM VOCÊ.  Roberto de Oliveira e Tob Azulay.

RETRATOS FANTASMAS. Kleber Mendonça Filho.

O RIO DO DESEJO. Sérgio Machado.

JAIR RODRIGUES – DEIXA QUE DIGAM... Rubens Rewald.

MARINHEIRO DAS MONTANHAS. Karim Aïnouz.

ANDANÇA, OS ENCONTROS E AS MEMÓRIAS DE BETH CARVALHO. Pedro Bronz.

ROBERTO FARIAS, MEMÓRIAS DE UM CINEASTA.  Marise Farias.

O HOMEM CORDIAL. Iberê Camargo.

NOITES ALIENÍGENAS. Sérgio de Carvalho.

SEUS OSSOS, SEUS OLHOS.  Caetano Gotardo.

MATO SECO EM CHAMAS.  Joana Pimenta e Adirley Queirós.

MEU NOME É GAL. Dandara Ferreira e Lô Politi.

 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

FILMES INTERNACIONAIS 2023

 

    Antonio Carlos Egypto

 

Começo de ano é propício para que listemos os melhores filmes do ano que passou.  Geralmente, os 10 melhores, como tradição.  Ou, de forma mais esnobe, os chamados top ten.  Seja lá como for, aí vão os meus melhores de 2023, por ordem de preferência, considerando os lançamentos dos filmes realizados nos cinemas, ao longo do ano.  Excluídos mostras, festivais e streaming.  Primeiro, a lista dos filmes internacionais. Na próxima postagem, vou apresentar a minha lista dos brasileiros.

 

Importante – Todos os filmes da lista que se segue têm críticas publicadas aqui no cinema com recheio.  Para acessar qualquer um deles, é só virar as páginas ou escrever o nome do filme (ou parte dele) no campo de pesquisa do blog: 

https://cinemacomrecheio.blogspot.com

 

Folhas de Outono

MELHORES LONGAS INTERNACIONAIS 2023

FOLHAS DE OUTONO.  Aki Kaurismaki (Finlândia)

ASSASSINOS DA LUA DAS FLORES. Martin Scorsese (EUA)

MONSTER. Kore-Eda (Japão)

AFIRE. Christian Petzold (Alemanha)

EO. Jerzy Skolimowski (Polônia)

OS FABELMANS. Steven Spielberg (EUA)

NOSTALGIA. Mario Martone (Itália)

A MENINA SILENCIOSA. Colm Bairéad (Irlanda)

SEM URSOS. Jafar Panahi (Irã)

OPPENHEIMER. Christopher Nolan (EUA)