quinta-feira, 21 de maio de 2015

SEGUNDA CHANCE

Antonio Carlos Egypto





SEGUNDA CHANCE (En Chance Til).  Dinamarca, 2014.  Direção: Susanne Bier.  Com Nikolaj Coster Waldau, Ulrich Thomsen, Maria Bonnevies, Nikolaj Lie Kaas.  102 min.


“Segunda Chance”, da cineasta dinamarquesa Susanne Bier, é um filme que lida com decisões tomadas no limite do desespero.  Conflitos morais se estabelecem por meio de tentativas, até bem intencionadas, de resolver ou acomodar problemas, passando por cima de questões legais.  E o filme explora a dúvida: até onde o ser humano pode chegar, numa situação-limite?  Nessas horas, como distinguir entre o que é certo e errado?  É o imponderável.

Para tratar de dilemas relevantes como esses, realiza-se uma boa produção, com cenas muito bem filmadas, porém, de mão muito pesada.  O filme é um soco no estômago!




O que mais incomoda é que bebês estarão no fulcro da narrativa, de modo doloroso.  Um bebê chora constantemente, exigindo dos pais uma disponibilidade que chega ao limite de sair à rua de madrugada com o carrinho ou então levá-lo de carro para passear, para que sossegue.  Há bebê abandonado num canto da casa, inteiramente descuidado, todo sujo.  Há morte e troca de bebês.

Um policial aproveita de sua condição para cometer um crime, envolvendo bebês, uma mulher se desespera, na falta de um bebê para chamar de seu e ameaça se suicidar.  Um casal é acusado de matar seu filho bebê, e por aí vai.  O desespero não atinge só os personagens, o espectador não sai incólume.  Difícil de aguentar.




O filme tem, porém, além da mão pesada, um outro problema: para que a trama possa se estabelecer e se desenvolver, Susanne Bier se vale de muitas cenas e situações inverossímeis.  Não uma ou duas, muitas.  Isso acaba minando a credibilidade de um filme montado numa perspectiva totalmente realista.  Um roteiro melhor elaborado poderia ter costurado a história de um modo mais crível e convincente.

Excessos sempre acabam comprometendo produções artísticas, ainda que suas propostas e intenções sejam muito boas.  “Segunda Chance” padece disso, tem a ver com o estilo que a diretora já mostrou em suas produções anteriores.





O elenco é muito bom, apresenta desempenhos que até compensam os exageros da narrativa, dando ao filme o equilíbrio necessário em meio a tanta dor e desespero.  Não é nas atuações que o filme pesa.  O que talvez mostre o estilo nórdico de agir acaba por evitar que um emocionalismo insuportável prevalecesse.  Assim sobra espaço para a reflexão poder acontecer.




quarta-feira, 13 de maio de 2015

UM POMBO POUSOU NUM GALHO, REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA


Antonio Carlos Egypto





UM POMBO POUSOU NUM GALHO, REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA (En Duva Satt Pa En Gren Och Funderade Pa Tilvaron). Suécia, 2014.  Direção e roteiro: Roy Andersson.  Com Holger Andersson, Nils Westblom, Viktor Gyllenberg.  101 min.


“Um Pombo Pousou num Galho, Refletindo sobre a Existência”, do diretor sueco Roy Andersson, pelo título já diz a que veio.  Não se pode esperar uma narrativa clássica, nem realista. Nem é algo que possa ser apreendido facilmente.

A matéria-prima do filme é o non sense, a farsa.  Mas o elemento humor vai temperado com um indisfarçável amargor, que aponta a tragédia da espécie humana na terra.



O filme se compõe de cenas independentes, por onde circulam alguns personagens que se repetem ou desaparecem no decorrer das situações.  Essas cenas, sequências, estão sempre muito bem estruturadas, do ponto de vista formal, para produzir estranhamento, dúvida, surpresa ou decepção.  A câmera é fixa, a encenação envolve todo o campo visual, muita coisa acontece ao fundo ou ao lado do quadro.  E frequentemente são as coisas mais importantes.

A atmosfera é não só estranha como peculiar.  A maquiagem e as roupas acentuam os tons brancos nos personagens, enquanto a coloração das cenas é esmaecida.  Assim, uma tropa de soldados envergando azul ou um forno crematório amarelo-castor se destacam sobremaneira quando aparecem.  O que predomina são os tons claros, cinzentos, escuros ou apagados.  Isso confere um sentido trágico a situações engraçadas.  De modo que você não sabe se assiste a um drama de humor ou a uma comédia trágica, se é que esses rótulos significam alguma coisa importante.




O que é mostrado no filme vai desde o cotidiano mais banal, comezinho, até a tragédia da guerra e do massacre humanos.  Mas tudo se expressa de modo simbólico.  Nada é óbvio, nem evidente, nem realista. 

Frases se repetem, ao longo de todo o filme, como “Estou feliz de saber que você está bem”.  É quase só o que se diz ao telefone, o tempo todo.  E, a rigor, ninguém está bem.




Não tema, que isso não vai atrapalhá-lo em nada, mas vou-lhe contar o fraseado da última sequência.  Alguém entra dizendo: “Hoje já é quarta-feira outra vez”.  Um homem num ponto de ônibus se surpreende e pergunta, mais de uma vez, aos transeuntes: “É mesmo quarta-feira?  Eu pensei que fosse quinta.  Tem toda a cara de quinta”.  Ao que um deles retruca: “Os dias não têm cara.  Você tem que saber que, se ontem foi terça, hoje é quarta e amanhã é quinta”.  E nesse clima termina o filme.

O que isso tem a ver com o que se passou antes?  Aparentemente, nada, até porque esses personagens nem estavam em cena. Mas também pode ter tudo a ver com a forma como lidamos com o tempo e com a nossa própria desorientação diante dele e da aceleração da vida.  Isso tem a ver com todos, de algum modo.  Não é complicado, mas também não é claro.  Há margem para diferentes interpretações.  E por que uma sequência como essa está no fim e não no início do filme?  Cada um pode tirar suas conclusões.




Em que pese toda a fragmentação da narrativa, dois personagens percorrem quase todo o filme.  São vendedores de novidades para o entretenimento das pessoas.  Não têm o menor talento para isso, nem um pingo de humor para convencer os eventuais compradores dos produtos que vendem.  São personagens sem charme esses protagonistas deslocados.  Por que eles?  Porque estamos todos, de algum modo, deslocados nesse mundo?  Para que possamos reconhecer nossa própria idiotice e incapacidade de convívio humano?  Para que possamos nos diferenciar da mediocridade reinante?  “Um Pombo Pousou num Galho, Refletindo sobre a Existência” abre espaço para um festival de questionamentos e reflexões, enquanto a gente observa coisas esquisitas na tela.  O curioso é que o estranho soa absolutamente familiar.

Sem dúvida, a tragédia da existência é a matéria de reflexão do pombo, embora linearmente a reflexão dele num poema tenha sido a respeito do fato de que pombos não têm dinheiro.  Ou que ele, ao menos, não tenha.




Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza 2014, “Um Pombo... “ encerra uma trilogia sobre o ser humano e a morte, magnífica, que começou com “Canções do Segundo Andar”, em 2000, e seguiu com “Vocês, os Vivos”, de 2007.  O talento do diretor Roy Andersson para compor cenas e lidar com atores, geralmente não profissionais, construindo climas surrealistas muito inventivos, fortes, marcantes, em ambiente peculiar, faz dele um autêntico autor de cinema.  Estranho, mas brilhante.



segunda-feira, 11 de maio de 2015

ÚLTIMAS CONVERSAS


Antonio Carlos Egypto




ÚLTIMAS CONVERSAS.  Brasil, 2014.  Direção: Eduardo Coutinho.  Documentário.  85 min.


“Últimas Conversas” é o trabalho derradeiro de um dos maiores documentaristas da história do cinema, no Brasil e no mundo: Eduardo Coutinho.  Ele conversou com adolescentes de escolas públicas do Rio de Janeiro, cursando o ensino médio, em vias de concluí-lo, buscando entender quais seriam os interesses, preocupações e sonhos desses jovens.  Tentando, como sempre, buscar o que possa surgir de novo, intrigante, relevante.  Sempre aberto a ouvir e compreender o ser humano para além de expectativas, teorias ou verdades pré-estabelecidas.  Ou, mesmo, hipóteses a serem comprovadas.

Morreu tragicamente antes de poder concluir o seu filme, em fevereiro de 2014, esfaqueado pelo próprio filho, em surto psicótico.  Trágica perda para o nosso cinema.




“Últimas Conversas” foi, então, concluído pelo também excelente documentarista João Moreira Salles, produtor habitual dos filmes de Coutinho.  A montagem ficou a cargo de Jordana Berg, montadora que já havia realizado junto com o cineasta diversos projetos.

Como consequência, o filme acabou tendo uma presença intensa do próprio Coutinho em cena, o que não teria ocorrido se ele estivesse vivo.  A ideia foi mostrar o método de trabalho dele, suas exigências e insatisfações.  Já de início, Coutinho fala à câmera sobre a frustração que é colher depoimentos de adolescentes: por um lado, lhes faltam a experiência e história de vida suficientes, por outro, já perderam a espontaneidade e a graça da infância.  Tudo parecia estar pouco satisfatório no que ele havia feito até ali.  Mas as entrevistas já estavam em fase final de coleta, a essa altura.




Sucedem-se os depoimentos que, de algum modo, mostram um retrato da chamada classe C, a classe média emergente que vem tendo acesso ao estudo e ao consumo nos últimos anos.  O quadro familiar também aparece claramente em sua diversidade e pluralidade.  É inegável que os depoimentos selecionados nos falam de coisas importantes, nos ensinam coisas relevantes sobre essas pessoas.  E que a emoção brota de forma clara.  Parecia pouco ao mestre do documentário no Brasil, mas não é nada irrelevante.  Confirma que seu método de conversar e realizar documentários é um caminho muito rico e proveitoso para o cinema.  Na sua aparente simplicidade está sua força.  Aliás, tudo que é brilhante, especialmente talentoso, parece simples aos olhos de quem vê.  A simplicidade é o maior mérito do artista ou do escritor.




A edição termina com uma entrevista com uma menina de 6 anos, uma criança viva, inteligente e muito expressiva.  Como que a realizar o último desejo manifesto de Eduardo Coutinho.  Mas aí há um equívoco: a menina entrevistada é de classe alta, filha de médico e patologista, bem distante da realidade dos adolescentes mostrados anteriormente.  Não é possível comparar.  Podemos supor que as crianças das outras classes sociais também poderiam exibir tal encanto, diante das câmeras, mas seu repertório certamente seria outro.  Os universos apresentados não guardam muita relação entre si.




“Últimas Conversas” pode não ter sido um grande coroamento para uma carreira de excepcional qualidade.  Mas os clássicos que Coutinho realizou antes continuarão a servir de bússola na busca de um humanismo sempre muito necessário nos tempos atuais.

“Cabra Marcado Para Morrer”, de 1964-1984, “Santo Forte”, de 1999, “Edifício Master”, de 2002, “Peões”, de 2004, “Jogo de Cena”, de 2007, e “As Canções”, de 2011, entre outros, são filmes preciosos, em que a marca do trabalho de Eduardo Coutinho permanecerá viva para todos que gostam de pensar e gostam de cinema.


sábado, 9 de maio de 2015

WINTER SLEEP


Antonio Carlos Egypto




WINTER SLEEP (Kis Uykusu).  Turquia, 2014.  Direção: Nuri Bilge Ceylan.  Com Haluk Bilginer, Melisa Sözen, Demet Akbag, Ayberck Pekcan.  196 min.


O turco Nuri Bilge Ceylan é um dos mais importantes cineastas em atividade no mundo.  Seus trabalhos cinematográficos são muito elaborados, têm densidade, complexidade e grande apuro visual.  Seus filmes “Climas”, de 2006, e “Era Uma Vez na  Anatólia”, de 2011, são reveladores do requinte e da qualidade técnica de sua obra.  Não surpreendeu, portanto, que seu novo filme, “Winter Sleep”, tenha levado a Palma de Ouro do Festival de Cannes. 




É mais um grande filme desse diretor.  Grande, não só no talento, mas também na duração: são nada menos do que 196 minutos de projeção.  Mas vale a pena encará-los, o ritmo é lento, mas o filme trata com profundidade de questões pessoais, de relacionamentos e conflitos, altamente reveladores de sentimentos, mágoas acumuladas, opressões, humilhações, concessões, catarses.  Referências literárias e teatrais, como Tchekov, Dostoiewski e Strindberg, são visíveis.  Muitos momentos lembram os diálogos fortes e cortantes dos filmes de Ingmar Bergman.

Também estão marcadamente trabalhadas as manifestações de classe social, não só as diferenças de poder e interesses, os inevitáveis confrontos, mas as barreiras e impossibilidades que surgem das tentativas ingênuas ou equivocadas de reduzi-las ou negá-las.




Os níveis psicológico e social se interpenetram nos dramas vividos pelos personagens, em meio à beleza turística da região da Capadócia, na Anatólia Central.  O personagem principal da narrativa é Aydin (Haluk Bilginer), dono de um hotel, escritor e ex-ator,  com grande poder na pequena localidade onde vive, em função do dinheiro que acumulou.  Benfeitor ou opressor, nos limites da própria casa ou da propriedade que comanda, manipulador das relações que maneja, é colocado em xeque pelo casamento que realizou com uma mulher muito mais jovem, Nibal (Melisa Sözen), que constrói sua própria visão de mundo e questiona sua realidade e seu vínculo matrimonial.
Questões intelectuais ligadas à ética da criação literária ao autoengano e à filosofia da existência emergem das relações com a irmã que mora com ele, Necla (Demet Akbag), e opõem um ao outro. 


 

Em relação aos empregados e aos inquilinos com aluguel em atraso, se tecerá uma rede de conflitos sociais capaz de agravar as relações de todos, naquele ambiente, em que até mesmo os turistas, que se servem do hotel, podem entrar na dança.




A Capadócia, em suas estranhas formas, é explorada visualmente como referência de aridez, isolamento, instintos e expressões selvagens, como a dos cavalos soltos no ambiente.  A neve que advirá no inverno congela os corações e as possibilidades, enquanto o fogo aquece temporariamente, mas é também destruidor de ilusões.  Os enquadramentos e o trabalho de câmera, sutil e delicado, se valem da beleza da região para produzir o requinte visual que marca a produção do cineasta.  Os atores e atrizes que dão vida a todas as reflexões propostas pelo filme são muito convincentes e competentes na tarefa que abraçaram.  E Nuri Bilge Ceylan, como diretor, e também roteirista, vai construindo uma obra cinematográfica como poucas na atualidade.




segunda-feira, 27 de abril de 2015

CASA GRANDE


Antonio Carlos Egypto




CASA GRANDE.  Brasil, 2014.  Direção: Felipe Barbosa.  Com: Marcello Novaes, Suzana Pires, Thales Cavalcanti, Clarissa Pinheiro, Marília Coelho, Bruna Amaya.  115 min.


O cinema brasileiro tem sido pródigo em retratar a realidade dos pobres, dos miseráveis, dos excluídos, dos perseguidos, dos que vivem nas periferias dos grandes centros urbanos.  E desde o Cinema Novo esquadrinhou as questões da vida no campo, da luta pela terra, da violência e do misticismo.  Mas, ao contrário do cinema argentino, que habitualmente se debruça em tratar da classe média, por aqui isso é raro.  Mais raro ainda, quando se trata de abordar com seriedade a realidade dos ricos, especialmente seus conflitos e agruras.




“Casa Grande” mira o seu olhar para essa classe social, a partir da figura de um adolescente superprotegido, que, acostumado a todo o conforto de sua casa e do acesso a todo tipo de facilidades e consumo, tem de conviver com a derrocada econômica da família, nunca expressada claramente.  E, aos 17 anos, em vias de prestar vestibular, a buscar sua própria afirmação como homem e seu caminho autônomo.

Ao retratar a trajetória do rapaz, o filme faz uma radiografia das relações que permeiam a vida de sua família e o que está envolvido na riqueza e na decadência dela.  O que ocupa e aflige cada membro da família também revela o seu determinante social e histórico.  O patriarcado, a anulação da figura feminina, o espírito escravocrata que marca a relação de subserviência e paternalismo junto aos empregados, o autoritarismo, negócios escusos que estão na origem do padrão de vida nababesco, a penalização dos outros ou a socialização dos prejuízos como meio de lidar com o declínio e a manutenção da falsa aparência, na tentativa de negar as evidências, são elementos constitutivos da narrativa.




Mais do que contar histórias, “Casa Grande” é um painel de uma classe social abastada, no discurso e nas ações reveladoras dos valores, expressos e sonegados, que a movem.  O título do filme não se refere apenas ao casarão onde vive a família, mas ao contraponto indispensável da senzala, que possibilita a casa grande e lhe dá subsistência. 

Um assunto é tratado com mais relevo e destaque em duas cenas importantes do filme: o das cotas para negros na universidade, no contexto de políticas compensatórias e reparadoras de injustiças sociais históricas e de desigualdades gritantes, como também é o caso do Bolsa Família.  A discussão chega a ser didática, mas me parece oportuna porque está permeando, de fato, as preocupações dos personagens da trama.  Aliás, nada no filme me parece gratuito.  Tudo tem relevância na vida daquelas pessoas.  Mesmo que, vendo-se de fora, possa não parecer assim.  Esse é um dos maiores méritos do filme: o retrato fiel de uma realidade mais ampla, mostrado por meio da ficção, em personagens particulares.  O roteiro está muito bem construído e a escolha das cenas, muito adequada.  Não se percebem grandes faltas nem excessos.




O elenco, de modo geral, dá conta do recado, apesar de uma certa irregularidade nos desempenhos.  Sem maior brilho, mas a média é boa, realiza a proposta do filme.

Felipe Barbosa, diretor e roteirista carioca em seu primeiro longa de ficção, demonstra inegável talento e senso de oportunidade, a partir de uma experiência que inclui muito de autobiográfico.



quarta-feira, 22 de abril de 2015

NÃO OLHE PARA TRÁS


Antonio Carlos Egypto




NÃO OLHE PARA TRÁS (Danny Collins).  Estados Unidos, 2014.  Direção e roteiro: Dan Fogelman.  Com Al Pacino, Annette Bening, Jennifer Garner, Bobby Cannavale, Christopher Plummer.  103 min.


“Não Olhe Para Trás” tem uma história sedutora, um ator de se tirar o chapéu, Al Pacino, e remete a um ídolo marcante da história da música popular e importante referência comportamental de sua época, John Lennon.  Com elementos como esses, é de se esperar que o filme alcance sucesso junto ao público.

A história é apresentada no filme como um pouco baseada em fatos reais.  Não sabemos, ao certo, qual é esse pouco.  Provavelmente, o mote da trama.  E qual é ele?  Steve Tilson, um cantor folk inglês de sucesso teria recebido uma carta manuscrita de John Lennon, que só  chegou  às suas mãos quase quatro décadas depois.  Datada dos anos 1970, só teria sido entregue a ele em 2010.




No filme “Não Olhe Para Trás”, o cantor de sucesso é convertido no roqueiro Danny Collins (Al Pacino), que há trinta anos repete as mesmas músicas de apelo comercial em grandes turnês, já que não conseguiu produzir mais nada de novo, desde então.  Sua carreira sempre lhe deu muito dinheiro, mas agora se tornou de uma mesmice insuportável, sendo seu público composto por pessoas maduras e idosos saudosistas, ainda capazes de se divertir com as amenidades e infantilidades das letras de sucesso de Danny.

Aí entra a carta de Lennon, que transforma não só a carreira desse cantor como sua vida pessoal, incluindo as relações com um filho que abandonou solenemente em nome da trajetória musical.  Esse filho, já casado, lhe nutre ódio, sua nora o estranha, mas sua neta o recebe alegremente.  Reconstruir essa vida familiar renegada será um enorme desafio.




Mudar os rumos da carreira após tantos anos construindo uma imagem popularesca também será tarefa complicadíssima.  Será tarde demais para corresponder a palavras de incentivo e cobrança ética de John Lennon?  E fica a inevitável questão: como teria sido a vida de Danny Collins se tivesse recebido aquela carta na época em que foi escrita?

Há espaço para uma tentativa de Danny de conquistar uma mulher que lhe interessou quando mudou seu rumo de vida.  É o papel de Annette Bening, outro destaque do elenco.  E o grande e veterano Christopher Plummer aparece muito bem no papel de agente e antigo amigo do cantor.  Mas o que o filme tem de melhor é, mesmo, o desempenho de Al Pacino.  Ele relativiza as cenas melodramáticas, dá credibilidade à virada de vida do personagem, transmite humor e simpatia.  A gente até acredita mesmo que ele cante e encante plateias com sua música.  Sem ele, o filme não iria muito longe, ou poderia se tornar inverossímil, já que a história é atraente, mas esdrúxula.  E seus desdobramentos, mera especulação.




A música marcante de Lennon também aparece no filme, em doses modestas.  Mas o suficiente para agradar o público que for ver o filme também por causa do apelo que o grande Beatle até hoje continua exercendo.

  

segunda-feira, 20 de abril de 2015

AS MARAVILHAS


Antonio Carlos Egypto




AS MARAVILHAS (Le Maraviglie). Itália, 2014.  Direção e roteiro: Alice Rohrwacher.  Com Maria Alexandra Lungu, Sam Lonwyck, Alba Rohrwacher, Saline Timoteo, Monica Bellucci.  111 min.



“As Maravilhas” é um filme que vai interessar àqueles que gostam de observar tipos humanos, complexos, algo indecifráveis ou mesmo simbólicos.  Figuras que circulam por ambientes tão concretos quanto etéreos, tão realistas quanto sonhadores.  O filme explora contrastes tanto nas condições objetivas de vida, em face das fantasias, quanto nas expectativas e desejos, dentro de cada personagem.




Há apenas um fio de história no universo de uma família em zona rural longínqua da Itália, vivendo harmonicamente da apicultura.  Tudo está no lugar, na visão do pai, naquela unidade produtiva que faz da simplicidade e do mel, meticulosamente cuidado, seu honesto e respeitado ganha-pão.  Já para a mãe e suas filhas talvez falte fantasia e, principalmente, sonhos e perspectivas de futuro.  Caberia ainda providenciar uma ajuda masculina para o trabalho, o que surgirá de uma figura adolescente, em conflito com a lei, com quem não é possível se comunicar pela fala.  Mas ele tem força, colabora e assobia muito bem.  Há todo um mistério em torno dele.  Está aí uma presença capaz de modificar a estrutura de vida dessa família, em algum nível.

Mas será uma equipe de TV aparecendo para filmar por lá, explorando as belezas naturais do lugar e tendo à frente  Milly (Monica Bellucci), uma mulher encantadora, estranha e misteriosa, que irá sacudir a vida das mulheres daquela família.  Em especial, a de Gelsomina (Maria Alexandra Lungu), a jovem trabalhadora que nutre anseios por uma vida com horizontes mais amplos do que os que sua aldeia pode oferecer.  A TV traz até elas “A Ilha das Maravilhas”, uma  sedutora competição com prêmios, que supostamente respeita e valoriza as comunidades que exibe no programa.




Há maravilhas na simplicidade da vida com as abelhas, integrada à natureza, e na fantasia glamourosa que a TV representa, irrompendo sem avisar na vida das pessoas.  Ou o encantamento sempre se desfaz quando a câmera se aproxima reveladora?  Ainda existe espaço para um mundo intocado, puro e isolado ou esta é também uma fantasia destinada a se desfazer?




“As Maravilhas”, com roteiro e direção da jovem toscana Alice Rohrwacher, em seu terceiro filme, foi o vencedor do grande prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014.  Não se destina ao entretenimento, nem tem comunicação fácil ou atraente com o grande público, por sua narrativa e personagens não convencionais, além do clima estranho e seco por onde circulam as figuras humanas ali retratadas.  Explora ambiguidades e incertezas que tendem a incomodar quem for buscar linearidades.  Mas é um belo filme.

  

sábado, 11 de abril de 2015

AMOR À PRIMEIRA BRIGA


Antonio Carlos Egypto




AMOR À PRIMEIRA BRIGA (Les Combattants).  França, 2014. Direção: Thomas Cailley.  Com Adèle Haenel, Kévin Azaïs, Antoine Laurent, Brigitte Roüan, William Legbhil. 98 min.


Dizer que “Amor à Primeira Vista” é uma história de amor em que opostos se atraem e o improvável acontece entre dois jovens, Arnaud (Kévin Azaïs) e Madeleine (Adéle Haenel) que, aparentemente, não teriam nada a ver um com o outro, seria sugerir algo pouco original, previsível e que beira o clichê.  No entanto, o filme do diretor francês estreante Thomas Cailley (também roteirista em parceria com Claude Le Pape), está bem distante disso.  Ele tem um roteiro muito bem estruturado, uma pegada firme que explora situações dramáticas e cômicas com a mesma eficiência e escapa completamente dos clichês.




O que mais contribui para isso é a construção dos personagens, inteligente e surpreendente.  Que amplia e subverte a questão de gênero.  Mulheres têm o direito de serem rudes, agressivas, dominadoras, teimosas, obcecadas, atraídas pelo combate e pelo desafio às capacidades físicas, mas, como esses comportamentos são atribuídos socialmente ao gênero masculino, um personagem feminino que reúna todas essas características soa como novidade.  Se fossem apenas uma ou duas características desse tipo e em destaque, seria mais naturalmente assimilável.  Mas não há como negar que o conjunto de atributos que fazem parte da personalidade de Madeleine produzem estranheza.

O personagem Arnaud, por seu lado, é um rapaz tranquilo, pacífico, pouco competitivo, com uma sensibilidade e um trato com as pessoas educado e até refinado.  Ele incorpora um conjunto de atitudes que o fazem mais “feminino” do que a média dos homens.  Não é gay nem afeminado, mas sua masculinidade se apresenta de forma mais sutil, sem alarde.  Colocado ao lado de Madeleine, o contraste se evidencia mais.




As diferenças entre os dois personagens, além de não serem intransponíveis, mostram que os universos do masculino e do feminino podem ser ampliados, com vantagens para os dois gêneros.  É preciso talento para conduzir uma história de amor com personagens assim, sem cair não apenas no clichê, mas também na obviedade ou no didatismo.  Thomas Cailley consegue isso.

É bom lembrar que as relações desses personagens tratam também de sobrevivência e não apenas de amor e desejo.  O que torna a trama mais curiosa e interessante.  Trata-se de um combate que inclui um embate não só com o outro, mas consigo mesmo e a respeito do que se sente.  Por isso, o título original do filme é “Les Combattants” (“Os Combatentes”). O título brasileiro “Amor à Primeira Briga” não é absurdo, remete a uma cena importante do início da narrativa, contudo, sugere algo bem mais banal do que aqui se pretende.




Os prêmios que o filme recebeu em várias categorias da Quinzena de Realizadores no Festival de Cannes 2014 são um reconhecimento da qualidade do trabalho apresentado.  Merecidos.

  

domingo, 5 de abril de 2015

MANOEL DE OLIVEIRA (1908-2015)




Antonio Carlos Egypto

Faleceu nesta semana o grande mestre português do cinema, aos 106 anos.  Seu último filme, lançado no ano passado, foi o curta “O Velho do Restelo”, inspirado em Camões.  Ele acalentava um projeto que muito nos honraria que tivesse conseguido  realizar: pretendia filmar “A Igreja do Diabo”, um conto de Machado de Assis, com Fernanda Montenegro e Lima Duarte no elenco.  Mas o tempo é finito, mesmo quando a morte se mostra generosa na espera.  É que os desejos humanos não se esgotam enquanto a vida pulsar com intensidade.  Foi o caso do mestre Manoel.

O Cinema com Recheio falou de Manoel de Oliveira em diversas oportunidades.  Se você não viu, veja agora, clicando em um ou mais dos links abaixo:

MANOEL DE OLIVEIRA: REALIZADOR CENTENÁRIO

O GEBO E A SOMBRA

MANOEL DE OLIVEIRA: UMA HISTÓRIA DO CINEMA

O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA

SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA

  

segunda-feira, 30 de março de 2015

UM MOMENTO PODE MUDAR TUDO


Antonio Carlos Egypto




UM MOMENTO PODE MUDAR TUDO (You’re Not You).  Estados Unidos, 2014.  Direção: George C. Wolfe.  Com Hillary Swank, Emmy Rossum, Josh Duhamel, Loretta Desire.  112 min.


Kate (Hillary Swank) é uma sofisticada pianista, casada com Evan (Josh Duhamel), que desfruta com ele de um bom padrão de vida.  Tudo vai bem até ela aparecer com os primeiros sintomas da doença degenerativa, conhecida como ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).  A partir daí, sua vida vai ter de ir mudando radicalmente. A doença a incapacita em termos de mobilidade, atingindo os membros inferiores e superiores, pés e mãos, impossibilitando, portanto, a sua atividade como pianista.  Atinge a fala, a respiração e o exercício de funções vitais.  As funções cognitivas estão preservadas, mas a autonomia, irremediavelmente comprometida.  Torna-se imperiosa a presença de alguém no papel de cuidadora.

A cuidadora que ela escolha parece, a princípio, muito inadequada e despreparada.  É a estudante Bec (Emmy Rossum), aspirante a cantora, perdida, com a vida em desordem, e que só apareceu por lá numa tentativa desesperada de arranjar emprego.  Mas Kate gosta dela, porque não se sente como paciente, o que acontecia quando estava na mão de uma enfermeira profissional.  Na realidade, a vida de ambas está caótica.  O casamento de Kate entrou em crise, tudo é um grande desafio.




O filme “Um Momento Pode Mudar Tudo” se concentra principalmente na relação entre as duas mulheres e o que pode resultar daí.  O título adotado por aqui não é muito feliz, já que não é o momento que muda tudo, até porque o diagnóstico da doença não é simples, nem rápido, e tudo vai se dando num processo.  O título original alude ao fato de que você já não pode mais ser você mesmo diante das incapacitações e limitações decorrentes da doença.  No caso de Kate, muito claramente, a identidade de pianista é das primeiras coisas que o personagem perde.  A partir daí, ela passa a ser outra pessoa, de algum modo.  Preservam-se a história, a memória e a capacidade intelectual, mas uma nova vida se impõe.




O caso do grande cientista Stephen Hawkings, que também tem ELA, ilustra muito bem essa questão.  E o filme “A Teoria de Tudo”, que concorreu ao Oscar 2015, mostra bem essa história.  O ator Eddie Redmayne levou a estatueta pelo brilhante desempenho no papel do cientista.

Aqui o desafio se apresenta para a ótima Hillary Swank, que pesquisou bastante sobre a doença e os sintomas, observou casos e construiu brilhantemente seu personagem.  Ela, como de costume, vale o filme.  E aprender sobre a outra ELA, a enfermidade, é também muito importante.  A população pouco conhece ainda sobre esse mal.  Tenho uma amiga que é portadora dessa doença e luta para viver bem, com muita tenacidade.  Mas não tem sido fácil.



Como disse George C. Wolfe, o diretor do filme: “Às vezes, na vida, quando você vai de encontro a um obstáculo não negociável, qualquer que ele seja, esse obstáculo se torna uma oportunidade para que você se torne outra versão de si mesmo”.  Uma boa observação para a proposta de “Um Momento Pode Mudar Tudo”.  Vale para o personagem Kate, mas também para o personagem Bec e, ainda, para o personagem Evan.  Todos acabam tendo de reinventar-se.  Como é da vida, por sinal.  Por conta de uma doença, mas também de um sem-número de outros fatores.