quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

RUN & JUMP


Antonio Carlos Egypto




RUN & JUMP (Run & Jump)Irlanda, 2013.  Direção: Steph Green.  Com Maxine Peake, Edward Machiam, Sharon Horgan, Will Forte.  102 min.


Um homem de 38 anos, marceneiro, casado e com filhos, sofre um derrame que deixa funções cerebrais comprometidas e gera transtorno de personalidade.  Após meses de hospitalização, ele volta para casa, para o convívio da família.  Mas volta acompanhado de um observador, pesquisador de problemas mentais, que vai viver com a família durante dois meses, para documentar e escrever relatórios científicos  sobre o processo de recuperação do paciente.

É óbvio que a família toda se sentirá observada e incomodada com a presença do estranho, especialmente a esposa.  E, claro, uma tal experiência não tem como dar certo e é do envolvimento do pesquisador com a família e dos problemas familiares que se tratará daí em diante.  Com direito a uma bizarra relação amorosa.




O ponto de partida, que cria a história do filme, não se sustenta.  Nas ciências humanas, não há como separar o pesquisador do seu objeto de pesquisa, uma vez que ele é parte integrante desse objeto.  A experiência de viver num determinado contexto humano, envolvido com ele, sentindo e interagindo com ele, é possível e pode trazer conhecimentos relevantes.  Desde que não se pretenda um distanciamento do objeto de estudo ou algum tipo de neutralidade, como a observação objetiva do fenômeno.  E aqui era o que se pretendia.

Diante disso, o personagem do pesquisador é apresentado como alguém que diz que não tem família e que vive para o trabalho.  Mais do que isso, ele é travado em coisas simples da vida, como interagir espontaneamente com crianças ou dançar.  Naturalmente, isso vai ter de mudar, ao longo da narrativa.  Mas a construção do personagem soa artificializada, numa situação que já não é crível.

Faltam a ele características humanas básicas que favoreçam a interação social.  Ou estão reprimidas de tal jeito, para que ele possa se dedicar a esse tipo de trabalho, que não lhe permitem viver com naturalidade.  Mas como se explica isso, num estudioso das ciências humanas?  É o contrário do que se supõe que seria alguém que se dedicasse a um trabalho como esse.




De outro lado, há os sentimentos da esposa, que recebe em casa um “novo” marido e um “novo” pai.  Que já não é capaz de cumprir essas funções, nem tem alcance do que se passa à sua volta.  Parece identificar-se com os sentimentos e ações dos animais, mais simples de serem compreendidos.  Portanto, alguém que se ausenta daquilo que lhe diria respeito.  Não obstante, está vivo, presente e atuante naquele espaço.  Embora nem mesmo seu talento com a marcenaria sirva mais para o sustento da família.  Quando a cabeça não funciona bem, tudo se complica.

A esposa, sobrecarregada com o problema do marido, as funções da casa e um estranho que também a observa,  nem percebe direito o que se passa com seu filho mais velho.  E tem de encontrar meios de se entender e se relacionar com esse homem, que está de passagem pela casa, mas que, em tese, seria capaz de resolver muitas questões da vida dela.

“Run & Jump”, o primeiro filme da cineasta Steph Green, acaba soando estranho e um tanto deslocado da realidade, apesar de buscar um tema denso e relevante e de todos os cuidados para a realização de um trabalho sério, sem preocupações ou concessões comerciais.




terça-feira, 9 de dezembro de 2014

MOMMY

 Antonio Carlos Egypto




MOMMY (Mommy).  Canadá, 2014.  Direção e roteiro: Xavier Dolan.  Com Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément.  138 min.


Xavier Dolan é um jovem ator, roteirista e diretor, do Canadá que fala francês, que, aos 25 anos, já está no seu quinto longa-metragem como cineasta.  E abocanhou alguns prêmios importantes em Cannes.

Seu primeiro filme, de 2009, já demonstra o quanto as relações mãe e filho absolutamente conturbadas estão no seu imaginário (e/ou, na sua experiência concreta).  O título é simplesmente “Eu Matei Minha Mãe”, revelador da força do Édipo e de desejos assassinos que povoam  mentes humanas em relações vitais.  Novos e terríveis embates entre mãe e filho ocupam a tela do cinema em seu novo filme, “Mommy”.




Aqui, um garoto superagitado, provocador e com atos delinquenciais frequentes, aos 15 anos de idade, provoca um pandemônio na vida da mãe.  A ponto de levá-la a interná-lo, para poder se ver livre dele, apesar da culpa que isso lhe acarreta.  Ele é louquinho e carente, perdeu o pai há pouco e isso é um agravante, ou explicação, apresentado pelo filme.  Mas a mãe não fica atrás.  Não podia ser mais inadequada e incompetente a sua atuação como mãe.  E é um completo desastre a sua falta de controle emocional.  Ela só agrava os problemas e põe tudo a perder.  Numa relação assim, é preciso que alguém mais apareça para dar algum equilíbrio ao relacionamento.  Providencia-se, então, uma vizinha perdida, comprometida no seu trabalho de professora por problemas vocais que, embora viva com o marido, parece totalmente desconectada dele.  Por isso, solta no mundo e disponível.

 

Por aí já se vê que tudo está fora do lugar.  Mas o pior é o modo como o diretor conduz a narrativa.  É tudo muito histérico, exagerado, aos gritos.  Cansativo e irritante.  Mas se você, como espectador, for capaz de resistir a esses estímulos agressivos e aguentar o registro over do cineasta, vai perceber que, por trás de toda essa história, há ideias, preocupações válidas e, principalmente, capacidade de encenação.  Há criatividade na composição de muitas cenas, beleza visual, enquadramentos estilosos.  Não é um filme para se desprezar, não.




Está sendo considerado o melhor trabalho do enfant terrible Xavier Dolan.  De seu primeiro filme, a que já me referi, nem se fale, era tosco e equivocado, apesar de já forte e intenso, além de altamente provocador.  Depois vieram “Amores Imaginários”, de 2010, “Laurence Anyways”, de 2012, e “Tom na Fazenda”, de 2013.  Não vi todos, que ninguém é de ferro, e já nem me lembro bem deles, mas, apesar disso, posso apostar que, com “Mommy”, o diretor cresceu artisticamente, amadureceu.  Há quem adore o seu estilo, há quem não o suporte.  Não sei qual será o seu caso, mas, gostando ou não, há que se reconhecer talento no trabalho de Xavier Dolan.




terça-feira, 2 de dezembro de 2014

HOMENS, MULHERES E FILHOS


Antonio Carlos Egypto




HOMENS, MULHERES E FILHOS (Men, Women and Children).  Estados Unidos, 2014.  Direção e Roteiro: Jason Reitman.  Com Ansel Elgort, Keitlyn Dever, Jennifer Garner, Adam Sandler, Rosemarie De Witt.  Narração: Voz de Emma Thompson.  116 min.


“Homens, Mulheres e Filhos”, do diretor canadense Jason Reitman, baseia-se no livro de Chad Kultgen e mergulha de cabeça numa discussão muito importante: o impacto da Internet na vida de todos nós.  Tema atualíssimo e cuja discussão se faz cada vez mais necessária.

Basta frequentar qualquer ambiente, público ou privado, para perceber que os relacionamentos humanos são hoje invariavelmente mediados pelas redes sociais.  As comunicações, mesmo a pessoas que estão fisicamente muito próximas, se fazem on line, muito mais do que ao vivo.  Todos enviam e recebem uma profusão de imagens e, de uma forma ou de outra, cultivam  uma persona virtual.




Como fica a vida sexual e amorosa das pessoas diantes desses recursos e controles?  Novos amores, infidelidades, exposição pública de intimidade, abuso e exploração sexuais, pornografia e consolo masturbatório para solitários, são parte integrante da paisagem virtual.  Parece que a rede pode tudo, para o bem e para o mal.

Como se dá o relacionamento das mães e pais com os filhos?  É possível e desejável protegê-los, controlá-los?  Há tecnologia apropriada e suficiente para isso?  Dominá-la não fará dos pais modelos acabados de autoritarismo? 




No filme, um grupo de adolescentes e seus pais vivem essa realidade virtual, em que ninguém está imune à mudança social que os smartphones, tablets e notebooks produziram e têm de se relacionar com ela.  Os desejos, as esperanças, os sofrimentos, as características da idade, estão lá.  Só que muitas vezes multiplicados pelos recursos tecnológicos hoje disponíveis.  A solidão se torna pública, a intimidade, compartilhada, a infidelidade, mostrada a todos, o preconceito e a crueldade, midiatizados.  Tudo num clique. Os problemas se agravam.  A proliferação de material ilícito é oceânica.  Mas a diversão parece garantida e a vida, preenchida, nem que seja pelo videogame da hora.

Isso tudo não diz respeito só aos jovens.  Os adultos estão na mesma toada.  Descobrindo e contatando novos parceiros ou experiências fugazes, tendo acesso a redes de prostituição sofisticadas, quebrando a cara também, mas igualmente expostos a um mundo de possibilidades que estão bem à mão.  Casamentos de pessoas que moram em países distantes e se conheceram pela Internet, por exemplo.




O que o filme mostra bem é que o mundo mudou e de forma inapelável.  Abrem-se possibilidades infinitas, ao mesmo em que enormes barreiras se erguem.  Ganhos e perdas serão inevitáveis na vida de cada um e do planeta.  Mas o ser humano se desconhece a si mesmo e a quem está ao seu lado.  Praticamente não olha mais para o seu semelhante, a menos que ele apareça numa tela qualquer.  O que é, afinal, a vida real na atualidade?

Como se trata de discutir a Internet, “Homens, Mulheres e Filhos” enche a tela do cinema de ícones do mundo virtual.  Respostas são enviadas, deletadas, sites se abrem, tudo à nossa vista.  O que predomina, no entanto, é a relação entre os personagens de carne e osso.  Felizmente.  Um deles se angustia, ao perceber que, se ele não estivesse mais aqui, o universo nem notaria.  Assim, nada parece ter sentido.




Citando Carl Sagan na abertura do livro que deu origem ao filme: “Em nossa humilde condição, em toda esta vastidão, não há qualquer indício de que alguma ajuda virá de outro lugar para nos salvar de nós mesmos”.  A esperança, se ela ainda puder existir, estará no próprio ser humano, em nenhum outro lugar.

Um filme que mexe nesses temas e dá margem a reflexões como essas merece ser visto.  A par de ser uma produção bem realizada e com bom elenco, tem um diretor que já havia demonstrado sua argúcia em relação a questões contemporâneas, num olhar não convencional, em filmes como “Juno”, de 2007, que mostra a gravidez na adolescência por um prisma pouco convencional, e “Amor Sem Escalas”, de 2009, que discute a demissão de pessoas num ambiente empresarial, pela ótica e com a frieza de quem tem por função fazer isso, viajando de um lado a outro.  São abordagens que sacodem a poeira dos assuntos e estão bem antenadas com o que se passa no mundo.  “Homens, Mulheres e Filhos” é um trabalho ainda mais certeiro do que os seus filmes anteriores.




sábado, 22 de novembro de 2014

CIÚME


Antonio Carlos Egypto




CIÚME (La Jalousie).  França, 2013.  Direção: Philippe Garrel.  Com Louis Garrel, Anna Mouglalis, Rebecca Convenant. 77 min.


O relacionamento amoroso movimenta o mundo, embala o mundo.  Questões como o enamoramento, o encantamento por alguém, a fidelidade e o ciúme, sacodem a humanidade desde sempre.

É um assunto extremamente complicado, de modo que qualquer tentativa de transformá-lo em manual, teste, teoria comprovada, vai inevitavelmente passar longe de entender seu dinamismo, fluidez e complexidade.  Por outro lado, é o assunto mais atraente que se pode encontrar, daí o seu apelo nos romances, novelas, músicas, peças teatrais, filmes.

O ciúme é um dos componentes mais espinhosos do relacionamento amoroso, senão o mais.  Shakespeare o imortalizou em seu “Otelo”.  Será difícil abordá-lo melhor, com mais verdade ou intensidade.  É fácil cair na superficialidade, na caricatura. Tratá-lo com acuidade é uma outra história.




O diretor francês Philippe Garrel consegue transmitir realidade psíquica, quando aborda o tema do amor, o que ele faz com frequência, em filmes como “Amantes Constantes”, de 2005, “Fronteira da Alvorada”, 2008, e “Verão Escaldante”, de 2011.  Desta vez, o foco é justamente o ciúme, que impregna a relação de um casal de atores com dificuldades financeiras.  Louis (Louis Garrel, filho do diretor), e Cláudia (Anna Mouglalis), em momentos diferentes de vida, experenciaram outros vínculos amorosos.  E esses vínculos se imiscuem na história que eles constroem juntos.  Até onde será possível administrá-los?  Que desprendimento é necessário para aceitá-los como fatos reais?  Há, inclusive, uma filha de outro relacionamento.  De que modo rompem a fantasia do idílio amoroso?

Philippe Garrel filma em preto e branco, com sutileza e economia, a dimensão psicológica da relação e seus problemas, sem a pretensão de entendê-la.  Mostra sua complexidade, em tom baixo e leve, apesar da intensidade dos sentimentos.  Expõe o que é, como é, sem enrolar, sem simplificar ou enganar.  E, naturalmente, sem seguir as fórmulas tradicionais do cinema clássico.  Garrel se inspira em Truffaut e na nouvelle vague para desenvolver sua narrativa.




Louis Garrel, o protagonista masculino, tem um jeito cool e desarrumado que o projetou no cinema.  Não está lá apenas na condição de filho.  É um ator competente e bem sucedido.  Já filmou muito sob o comando do pai cineasta.  Sua parceira, Anna Mouglalis, a protagonista feminina, tem uma atuação forte e intensa, mas, ao mesmo tempo, sutil.  Belo desempenho.

O filme é uma pequena joia.  Pequena, porque  dura só 77 minutos.  E não precisa mais: está tudo lá, de forma precisa, bem arrumada, sem subestimar a capacidade do espectador de refletir sobre a vida amorosa em geral e o ciúme, em particular.




quinta-feira, 13 de novembro de 2014

VENTOS DE AGOSTO


Antonio Carlos Egypto




VENTOS DE AGOSTO.  Brasil, 2014.  Direção: Gabriel Mascaro.  Com Geová Manoel dos Santos, Dandara de Morais, Antônio José dos Santos, Maria Salvino dos Santos, Rachel Ellis.  77 min.


Um filme de contrastes, estranhamentos, relações improváveis sobre coisas e pessoas que, às vezes, produz drama ou até mesmo terror.  Mas que, de modo muito mais frequente, produz humor.  A gente se diverte pelo inusitado, pelo inesperado e pelo clima que a encenação cria.  Não há uma história condutora única, mas algumas que podem ser vistas como independentes, envolvendo os mesmos personagens, ao lado de outros que surgem, enquanto alguns desaparecem.

O espaço geográfico é uma pacata vila de pescadores e uma fazenda de coco.  Enquanto se faz pesca em alto mar e mergulho, caminhões carregam cocos, onde o casal de protagonistas também faz sexo.  Para isso, é preciso deixar espaço no veículo, essa é a senha do desejo.

Fortes tempestades assolam o local em agosto, época em que um pesquisador de ventos aparece do nada, registrando sons, o que intriga os moradores.  Mas não chega a incomodar tanto.  Muito mais incômoda é a presença de um morto, que escapa de algum modo da sina local: lá, o lugar deles é o mar.  Tanto que um mergulho pode revelar uma caveira, com dente de ouro e tudo.




A morte é uma presença constante, mas tratada sem maior cerimônia e com leveza.  Por exemplo, como conseguir que a polícia se disponha a ir retirar o cadáver que por lá apareceu, se até na cidade ela não está disponível à população?

Tudo isso pode sugerir um registro documental, etnográfico.  Mas não, é tudo ficcional, embora conte com não atores da região retratada.  Nada é puro ou visto como essência, como a nos dizer: isso não existe mais.

A personagem Shirley (Dandara de Morais) é uma moça que vive lá porque foi determinado que ela cuide da avó velhinha.  Ela o faz, mas a contragosto, gostaria de ir embora dali.  Por enquanto, passa seus dias ouvindo rock em som alto, toma sol nua, se banha de coca-cola, transa no caminhão de cocos, e a vida segue.  A própria avó está lá porque não quis sair, há muito tempo atrás, quando oportunidade havia.  E se arrepende.  Mas agradece ter a neta a cuidar dela.  Ou seja, estão deslocadas ali, embora sejam parte essencial da paisagem e da trama.  Não é o destino, são as circunstâncias.




Há a beleza, há poesia no ambiente tão próximo à natureza, há os desafios do clima, do vento, das marés.  O mar que avança não pode ser contido.  Até o cemitério de mortos, fincado na areia, não resiste.  O meio ambiente se expressa de forma poderosa.

“Ventos de Agosto” se espalha pela natureza e pelas pessoas da região e o tipo de experiências que podem viver de uma forma encantadoramente poética, mas sem ingenuidade.  Tudo se mistura, se contaminha, se rearranja o tempo todo.  Tudo é possível e nada é verdade.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

DESTAQUES DA 38ª. MOSTRA

Antonio Carlos Egypto



A 38ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo terminou, como de costume, exibindo ótimos filmes que vieram de todas as partes do mundo.  Houve decepções, também, mas não muitas.  Pelo menos, na seleção de filmes a que consegui assistir gostei da grande maioria.  Foram 46 filmes, em maior número de origem europeia, que apresentaram um padrão de qualidade e inovação bem acima da média do que vem sendo habitualmente lançado no circuito comercial dos cinemas, ao longo do ano.

Da Suécia, vieram dois trabalhos brilhantes e originais no tratamento cinematográfico: FORÇA MAIOR, de Ruben Ostlund (ver crítica no cinema com recheio) e UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA, de Roy Andersson, cujo título já mostra a que veio, com seu humor non sense, crítico e cáustico, que é um primor.  Do Azerbaijão veio o mais belo dos filmes da Mostra, visualmente falando, NABAT, de Elchin Musaoglu (ver crítica no cinema com recheio).


Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo A Existência

A força do cinema russo esteve presente em LEVIATÃ, de Andrey Zvyagintsev, e O IDIOTA, de Yuriy Byrov, ambos tratando das questões que impedem o bom fluir da existência na Rússia atual, tomada pela corrupção, pelas máfias, pela burocracia, pela violência, pela ausência da ética na utilização de bens públicos, pela opressão desmedida ao cidadão.  Um quadro desalentador, pessimista, que parece refletir um sentimento coletivo forte, já que esse também é o tom de outros bons filmes russos  que têm sido exibidos por aqui nos últimos anos.  LEVIATÃ se destaca pela narrativa bem costurada e envolvente. Da Ucrânia, vem A GANGUE, de Myroslav Slaboshpytskiy, que vai no mesmo tom de violência e opressão às pessoas, com a originalidade da utilização criativa da ausência de diálogos e da linguagem dos sinais (ver crítica no cinema com recheio).

Dois filmes bonitos e delicados vieram do Japão: O SEGREDO DAS ÁGUAS, de Naomi Kawase (ver crítica no cinema com recheio), e A PEQUENA CASA, de Yoji Yamada, que nos trouxe uma história pungente vivida por uma mulher que trabalhou como empregada e babá para uma família na juventude e tem segredos que podem vir à tona em seu diário. Da Islândia, PARIS DO NORTE, de Hafsteinn Gunnar Sigur, mostra as agruras da autonomia e da independência com um humor dramático, muito bem dosado. 

O Segredo Das Águas

Entre os franceses, destaque para RETORNO A ÍTACA, de Laurent Cantet, que, por meio do encontro de velhos amigos, relembra e reflete sobre a vida em Cuba, suas vicissitudes, prazeres e opressões na jornada política que se implantou, a partir de 1959, e mexeu com a vida de todo mundo, de um jeito ou de outro. Da Nova Zelândia, TUDO QUE AMAMOS PROFUNDAMENTE encontrou um prisma original para falar do sequestro de crianças (ver crítica no cinema com recheio). 

Além dos filmes acima, que incluí na lista dos meus melhores, é importante destacar RELATOS SELVAGENS, de Damián Szifrón, da Argentina (ver crítica no cinema com recheio), que entrou em cartaz ainda durante a Mostra, e a saga OS MAIAS – CENAS DA VIDA ROMÂNTICA, da obra de Eça de Queiroz, dirigido por João Botelho, de Portugal.

Relatos Selvagens

Foi muito divertido ver A PEQUENA MORTE, de Josh Lawson, da Austrália, lidar com as variações sexuais de forma inteligente e nada apelativa.  Engraçado, mesmo! Entre os filmes espanhóis, destaco HERMOSA JUVENTUD, de Jaime Rosales, um retrato duro dos desafios a que estão expostos os jovens num momento de crise econômica que fecha portas e amplia as dificuldades esperadas nessa fase de vida.

Foi interessante ver DÓLARES DE AREIA, filme da República Dominicana, com a participação de Geraldine Chaplin no elenco (ela esteve aqui na Mostra), com direção de Laura Amelia Guzmán.  Mas a realização deixa um tanto a desejar. Também apreciei A ILHA DOS MILHARAIS, de George Ovashvili, da Georgia. Bonito, apesar de problemas no roteiro, como um personagem que simplesmente desaparece e ponto.

ENTRE MUNDOS, o filme alemão de Feo Aladag, trata do convívio dos soldados alemães em missão no Afeganistão, às voltas com as diferenças de crenças e valores e o poder do Talibã.  Um bom filme.  FUGA DA REALIDADE, ainda da Alemanha, de Christian Bach, trata da questão da esquizofrenia de um pai que põe a vida de seu jovem filho em suspenso.  É um retrato muito competente da questão.  Outro belo filme.

Nabat


De Bruno Dumont, a série francesa O PEQUENO QUINQUIN, um antipolicial, melhor para se ver em partes, não tudo de uma vez, como foi agora exibida, merece atenção.  E o que dizer do sempre tão esperado novo filme dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne?  Para mim, DOIS DIAS, UMA NOITE, apesar do talento em filmar, que é evidente, é  um filme menor deles, utilizando um dilema moral que parte de uma premissa inverossímil do ponto de vista legal.  SAM, de Elena Hazanov, da Suíça, é bem interessante ao mostrar a paternidade como uma grande dificuldade para alguns homens.  Uma criança pode ser capaz de ensinar seu próprio pai a exercer a função?

Além de tudo isso que eu gostei de ver, ainda tive a oportunidade de assistir a três filmes antigos.  O belo O SOL DO MARMELO, de Victor Érice, de 1992, um documentário sobre o método e o processo criativo de um pintor, e MELÔ, do grande Alan Resnais, de 1986.  O terceiro, BAAL, de 1969, do grande diretor Volker Schlöndorff, adaptando textos de Bertolt Brecht, tendo Rainer Werner Fassbinder, Hanna Schygulla e Margarethe von Trotta no elenco, surpreendentemente, decepcionou.  O filme não resistiu ao tempo, é chato, arrastado, intelectualizado fora da medida.  Uma pena!  Nem tudo corresponde ao que a gente espera.  Fazer o quê?

Força Maior

Registre-se, ainda, a oportunidade que a Mostra deu aos espectadores de rever a maioria dos filmes de Pedro Almodóvar na telona e o belo cartaz assinado por ele.  Pena que ele não tenha podido vir, em função de uma operação recente, que inviabilizou que ele enfrentasse voos de muitas horas de duração.

Aí vai, então, a minha lista dos 10 mais da Mostra:

1.    FORÇA MAIOR, Suécia.
2.    NABAT, Azerbaijão.
3.   UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA, Suécia.
4.    A GANGUE, Ucrânia.
5.    LEVIATÃ, Rússia.
6.    O SEGREDO DAS ÁGUAS, Japão.
7.    A PEQUENA CASA, Japão.
8.    PARIS DO NORTE, Islândia.
9.    RETORNO A ÍTACA, França.
10. TUDO QUE AMAMOS PROFUNDAMENTE, Nova Zelândia.




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

INTERESTELAR


Antonio Carlos Egypto




INTERESTELAR (Interestelar).  Estados Unidos, 2014.  Direção: Christopher Nolan.  Com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, John  Lithgow, Ellen Burstyn, Michael Caine.  169 min.


Se você gosta de ficção científica e de aventuras espaciais, certamente vai curtir “Interestelar”, o novo blockbuster em cartaz nos cinemas.  É uma suntuosa produção, dirigida por um cineasta que já tem muitos fãs no Brasil: Chistopher Nolan, que fez a série “Batman”, “A Origem” e “Amnésia”, entre outros.



O filme mostra o que seria uma viagem a outras galáxias, especulando a partir de conceitos científicos existentes, como os polêmicos buracos negros.  E a tal viagem seria indispensável para a humanidade, uma vez que a vida na Terra já teria se exaurido.  Os humanos convivem com insuportáveis níveis de poluição, invadidos por uma poeira permanente, entre outras desgraças.  Daí a missão de viajar para fora desta galáxia, para descobrir se a humanidade poderia ter futuro além das estrelas.

Como diz o personagem Cooper (Matthew McConaughey), “não é porque a humanidade nasceu na Terra que ela deve morrer aqui”.  Essa sobrevivência dos humanos, de qualquer modo, tem um plano A e um plano B.  Tudo depende do que se encontrar do outro lado.





A aventura dá muitas voltas, mas retorna a uma espécie de essência, que envolve fortes vínculos familiares.  Como diz o diretor Nolan, “quanto mais longe vamos ao espaço, mais essa viagem se torna sobre o que somos e o que é o ser humano”.

O espetáculo está garantido: belas imagens, que ganham grande impacto na tela Imax, e mergulha-se no espaço intergalático.  Nolan não abusa da tecnologia digital para produzir tal espetáculo.  Ele cria bastante na realidade não-virtual.  Por exemplo, as tempestades de poeira que atravessam o filme são produzidas concretamente, obrigando os atores a conviver com elas de fato.  Fica menos artificial do que de costume, neste tipo de filme.




Beleza e aventura não faltam, pesquisa e assessoria especializada para lidar com as noções científicas, também não.  O elenco é igualmente bom, de nomes que se destacam na produção hollywoodiana atual, como Anne Hathaway, Jessica Chastain e o protagonista Matthew McConaughey, com direito a um papel para Michael Caine, como o professor Brand.  A duração do filme, no entanto, é excessiva.  Quem não curte especialmente esse gênero de filme vai acabar se cansando.  Quase três horas de filme é demais.  Se a trama fosse mais condensada, seria melhor, mais impactante e atraente.  Possibilitaria uma edição mais enxuta, fortalecendo o entretenimento.



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

MÃO NA LUVA


Antonio Carlos Egypto



MÃO NA LUVA.  Brasil, 2013.  Direção: José Joffily e Roberto Bomtempo.  Com Roberto Bomtempo, Miriam Freeland, Chico Pelucio, Mário Cezar Camargo.  70 min.


Uma peça teatral de Oduvaldo Vianna Filho como ponto de partida não poderia ser um melhor começo.  Vianinha, como era mais conhecido, é um dos grandes nomes da cultura brasileira.  Seus textos tratam da realidade concreta das pessoas, nos seus ambientes mais próximos, e nas influências de contextos maiores, como o país, o mundo, a época, numa visão crítica.  Os diálogos são preciosos: coloquiais, verdadeiros.




“Mão na Luva”, o filme de José Joffily e Roberto Bomtempo, teve roteiro adaptado por Susana Schild e faz jus ao trabalho de Vianinha.  A teatralidade da situação proposta flui bem no cinema, não só pela forte atuação dos protagonistas, mas pela qualidade e sofisticação do ambiente retratado e do trabalho de câmera.  O filme é bonito, intenso, e tem a duração adequada e suficiente para não cansar o espectador.



Afinal, trata-se de um casal em crise, que está se separando, mas sem o conseguir.  Parece impossível continuar junto, mas também é complicadíssima a separação. O amor é grande, as traições e decepções também.  E o que vemos quase todo o tempo é o embate/atração entre Lúcio (Roberto Bomtempo) e Sílvia (Miriam Freeland), hoje quando estão se separando e ao longo da história amorosa de treze anos que construíram juntos.  O filme vai e volta todo o tempo.  Roberto Bomtempo aparece de barba no tempo presente e sem ela, nos momentos passados.




O universo retratado não se esgota neles, ou apenas nos envolvidos nas traições mútuas que existiram ao longo do processo, mas também no contexto profissional, nas escolhas de vida e nas concessões que o trabalho, o meio social e o mercado fizeram aflorar em suas vidas.  É um texto denso e rico, valorizado por uma simples mas boa produção.  É um filme que se vê com prazer e que nos deixa elementos de reflexão muito interessantes.



Roberto Bomtempo aparece aqui como o homem de sete instrumentos: é produtor, diretor e ator principal do filme.  Dá bem conta do recado.  Miriam Freeland está muito bem como a protagonista feminina da trama.  Os respectivos papéis de Lúcio e Sílvia exigem muito deles, pela variedade de sentimentos e reações, mudanças rápidas de humor, pelo erotismo que está sempre fortemente presente.  Os diálogos são tão convincentemente concebidos que talvez sejam o elemento facilitador do desempenho. O fato é que eles sempre soam muito verdadeiros nas atuações dos personagens.




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

NABAT

 Antonio Carlos Egypto



NABAT (Nabat).  Azerbaijão, 2014.  Direção: Elchin Musaoglu.  Com: Fatemeh Motamed Arya, Vidadi Aliyev, Sabir Mamadov, Farhad Israfilov.  105 min.


Um dos grandes prazeres em acompanhar a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é descobrir pérolas escondidas numa vasta programação de mais de 300 filmes.  São, muitas vezes, pequenas produções de países distantes e que não se destacam especialmente pelo cinema.  As poucas sessões dedicadas a filmes como esses podem ter sido mal localizadas, em salas menos centrais, por isso menos concorridas.

Foi exatamente esse o caso do filme “Nabat”, produção do Azerbaijão, do diretor Elchin Musaoglu, estreando em longas-metragens.  Ele teve sessões na sala da biblioteca Mário de Andrade, na Matilha Cultural, na Cinemateca e apenas uma, na região da Av. Paulista: no cine Livraria Cultura.  Como gosto de garimpar em busca das tais pérolas, arrisquei essa escolha e fui até a Cinemateca.  Fiquei maravilhado com o que vi.  A começar pela qualidade da projeção: impecável.  A sala nem estava cheia, mas tinha um público razoável.  O filme, de uma beleza incrível.

Cada plano daria um quadro, um filme luminoso, de encantar o olhar.  A locação, uma pequena vila rural cercada de montanhas, de uma natureza exuberante, perfeita para compor a obra cinematográfica do ponto de vista plástico.




Confesso que o que acontecia, ou deixava de acontecer, me envolvia muito menos do que apreciar a fotografia, os enquadramentos, a luz, a beleza do lugar.  Quem diria que um diretor de cinema estreante, da ex-república soviética do Azerbaijão, seria capaz de produzir tanta beleza?  Ele cursou o Instituto de Arte e Cultura do seu país e o Instituto Estatal de Arte Teatral de Moscou, que devem ter sido de grande valia para desenvolver o seu talento, sobretudo, visual.

A trama remete à vida numa pequena vila, que vai sendo atingida por uma guerra que só cresce.  Nabat (Fatemeh Motamed Arya) vive com seu marido velho e doente, afastada do centro da vila.  O filho foi morto em batalha.  Mas não se vê a guerra, só se ouvem os tiros, os animais que vão sumindo e as pessoas que vão abandonando suas casas.  Restará uma loba.

A sobrevivência vai se tornando cada vez mais difícil, à medida em que o leite da única vaca que possuem já não tem nem mesmo quem pague para consumi-lo.  Apesar disso, a fome não é iminente: sobram coisas nas casas, há árvores frutíferas despencando seus frutos.  Mas Nabat vai vivendo uma experiência cada vez mais solitária.




Acompanha-se essa narrativa sofrida e quase sem diálogos, porque cada vez há menos gente, mas o filme se mantém forte e belo o tempo todo.  Duvido  que mesmo os que não suportam o ritmo lento e os tempos mortos no cinema consigam sair da sessão num filme tão belo como esse.  Na em que eu estive, ninguém saiu.  Todos apreciaram no maior silêncio e, surpreendentemente, sem que os celulares acendessem, atrapalhando a concentração dos demais.  Bom sinal.

No entanto, vocês podem me perguntar: por que escrever sobre um filme que ninguém mais vai ver e que não vai entrar no circuito dos cinemas?  E eu lhes digo.  Primeiro, porque eu gosto de escrever sobre os filmes que têm a capacidade de me maravilhar.  Até para não esquecê-los.  Segundo, porque quem sabe assim eu contribua para que algum exibidor brasileiro se anime a trazê-lo para o nosso circuito.  Os cinéfilos certamente agradeceriam.