quarta-feira, 29 de julho de 2015

TUDO POR AMOR AO CINEMA


Antonio Carlos Egypto




TUDO POR AMOR AO CINEMA.  Brasil, 2014.  Direção e roteiro: Aurélio Michiles.  Documentário.  97 min.


O amazonense Cosme Alves Netto (1937-1996) foi curador da cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, por mais de três décadas.  Nesse período, e mesmo antes dele, se notabilizou na luta pela preservação e divulgação de antigos filmes brasileiros.  E dos filmes que mais admirava na infância, como ele mesmo dizia.

Seu trabalho adquiriu grande significado político, em função do período da ditadura,  que envolvia forte censura, prisões e tortura.  Ele assumiu a cinemateca do MAM, cujo acervo ele constituiu, a partir de agosto de 1964, poucos meses após a deflagração do golpe.  Seu trabalho foi de resistência.  Envolvia o agrupamento e a organização de manifestações culturais, a guarda clandestina de filmes perseguidos pela ditadura e a disposição de procurar exibi-los sempre que uma oportunidade pudesse aparecer.




Basta lembrar que as filmagens interrompidas de “Cabra Marcado Para Morrer”, de Eduardo Coutinho, que puderam ser retomadas duas décadas depois porque ficaram lá guardadas sob o nome falso de “A Rosa do Campo”, permitiram ao diretor realizar um dos mais importantes trabalhos da história da filmografia brasileira.

Cosme foi, mesmo, uma figura apaixonada, como o título do filme “Tudo Por Amor ao Cinema” sugere.  Mas isso deve ser entendido dentro da sua militância política.  Não por acaso foi preso e torturado em duas ocasiões, no período da ditadura militar.

O documentário de Aurélio Michiles, uma cinebiografia de Cosme, é uma homenagem a esse grande batalhador cultural do cinema no Brasil.  Nele, o próprio Cosme expõe algumas de suas ideias em vídeo, 34 entrevistas de pessoas falam dele e de seu trabalho, entremeadas por cenas de 70 filmes e um grande arquivo de imagens fotográficas e objetos ligados à sua vida.  Dá uma dimensão clara da importância do personagem.




O que mais me impressionou, no entanto, foram duas histórias fantásticas.  Uma, a de como Cosme recuperou uma agenda de endereços comprometedora, seis meses depois, dentro de um dos órgãos repressores das Forças Armadas, durante a ditadura militar.  A outra, de como todo o acervo da cinemateca e filmes com nitrato de prata, facilmente inflamáveis, sobreviveu intacto ao incêndio que destruiu o MAM do Rio.  Situações inacreditáveis, que marcaram a história de vida de Cosme Alves Netto e evitaram que novas tragédias acontecessem.




segunda-feira, 27 de julho de 2015

UMA NOVA AMIGA


Antonio Carlos Egypto




UMA NOVA AMIGA (Une Nouvelle Amie). França, 2014.  Direção: François Ozon.  Com Romain Duris, Anaïs Demoustier, Raphäel Personnaz, Isild Le Besco, Aurore Clément. 107 min.



Do cineasta francês François Ozon não se espere nada de convencional.  Ele está sempre em busca de situações e personagens que escapam à rotina e põem em questão a ética chamada burguesa.  Ou seja, ele mexe no que incomoda ao conservadorismo vigente, especialmente na questão dos costumes.

Tem o hábito, também, de estar muito atento aos dramas humanos, ao inesperado das situações e aos mistérios e surpresas que possam ser explorados.  Sabe lidar bem com a afetividade, com o desconcertante do amor, com leveza e suspense na narrativa.




Em “Uma Nova Amiga” ele trata com profundidade e delicadeza da questão do travestismo.  Tentando entendê-lo e mostrá-lo ao espectador, para além dos estereótipos tão comumente associados ao tema.

O protagonista da trama é David/Virgínia (Romain Duris), um homem que fica viúvo e, a partir daí, dá vazão ao seu desejo de se vestir de mulher e experimentar a identidade feminina.  Em paralelo a isso, cuida de sua filha de poucos meses e convive com Claire (Anaïs Demoustier), grande amiga de sua mulher morta, por toda a vida de ambas, e com Gilles (Raphael Personnaz), o marido de Claire.

A história se desenvolve explorando um suspense à la Hitchcock e com um toque almodovariano na narrativa, típica do diretor espanhol, em que a diversidade sexual se destaca.  O roteiro é muito rico em momentos e situações, em que o humor caminha ao lado da ansiedade e da surpresa, sempre com muito respeito aos personagens e à sua condição humana.




É daqueles filmes que, depois de conhecido o enredo, vale a pena rever, debater, explorar didaticamente o assunto, já que ele foi muito bem exposto na ficção.  Travestis são comumente mostrados no cinema, mas raramente dissecados, como acontece com o personagem central de “Uma Nova Amiga”.  Só mesmo nos filmes de Pedro Almodóvar se pode encontrar algo semelhante.




François Ozon tem uma capacidade de expor as coisas por meio de imagens, praticamente sem palavras, quando assim o deseja, que é cativante.  A história de Claire e sua grande amiga Laura é mostrada em toda a sua inteireza e com riqueza de detalhes, cobrindo da tenra infância à morte de Laura, nos primeiros dez minutos do filme, incluindo-se o preparo do corpo e o enterro.  E o que se mostra nesse início é fundamental para entender o que se passará depois.

Há outros momentos, rápidos e eficientes, em que a imagem diz tudo, quando algo é imaginado ou sonhado, revelando um medo, preocupação ou desejo.  Ou quando a câmera invade a intimidade, praticamente entrando no personagem por seu rosto, seus olhos, sua boca.  Cinema de primeira, enfim.



O desempenho do elenco é igualmente notável.  Todos muito bem nos seus papéis.  Os destaques vão para os protagonistas Anaïs Demoustier, excelente atriz, e especialmente Romain Duris, que se desdobra no papel duplo de David e Virgínia e consegue nos transmitir as ambiguidades da passagem de uma a outra identidade.  Uma exigência pesada a que ele dá conta com sucesso e, a julgar pelo seu sorriso, parece ter se divertido com isso.


sábado, 25 de julho de 2015

ADEUS À LINGUAGEM


Antonio Carlos Egypto





ADEUS À LINGUAGEM (Adieu au Langage).  França, 2013.  Direção e roteiro: Jean-Luc Godard.  Com Héloise Godet, Kamel Abdeli, Richard Chevallier, Zoé Bruneau e o cão Roxy Miéville.  70 min.


Jean-Luc Godard, um dos mais importantes cineastas da França e um dos realizadores da revolução estética da nouvelle vague, é, na verdade, de origem suíça.  É um dos diretores mais inovadores da história do cinema, alguém que sempre procurou renovar a linguagem, experimentar, provocar. 

Desde o início, buscou novas formas de filmar, novos enquadramentos (foi o primeiro a ousar filmar personagens de costas, vistos por meio de suas nucas, filmar pés em primeiro plano, filmar corpos omitindo rostos, etc.), ainda que contasse histórias ou atuasse dentro de um gênero cinematográfico. Aí, a digressão da narrativa, o uso do tempo entrecortado, a originalidade dos personagens e situações, se destacavam




Godard foi, então, se direcionando para um cinema mais diretamente político, reflexivo e questionador, abandonando qualquer convenção narrativa.  Foi um pulo para a negação do chamado cinema comercial.

O cinema de Godard se torna radical, em forma e conteúdo.  Na realidade, sempre foi, mas há um rompimento com os esquemas de produção, distribuição e divulgação.  Consequentemente, com uma rejeição no mercado.  Mas como nada é tão absoluto, Godard, mesmo se dedicando à experimentação, alcança êxitos, não só nos festivais, mas nas salas de cinema mundo afora.  Seu talento é evidente demais para ser ignorado.




Godard pensa o cinema e pensa o mundo, reflete sobre o que vê e nos obriga a olhar para o que precisa ser visto e pensado.  Nunca de forma linear, organizada, com causalidades ou propostas a serem veiculadas.  Não, ele o faz de modo fragmentado, provocador, desorganizador.  Impossível não sair mexido de um filme dele.  Ou irritado, rejeitando aquela aparente confusão mental.  Amando ou odiando, temos de reconhecer sua importância e sua força.

“Adeus à Linguagem”, filme realizado em 2013, quando o cineasta já tinha 83 anos de idade (nasceu em 1930), está sendo lançado agora como o primeiro filme de Godard realizado em 3D, em que ele explora as possibilidades dessa novidade dentro do seu universo peculiar.  É verdade isso.  Mas há um equívoco na afirmação.  Ele já havia realizado um episódio em 3D no filme “3 X 3D”, dividindo a cena com outros cineastas: o inglês Peter Greenaway e o português Edgar Pêra.  Naquela oportunidade, o filme de Godard foi o que menos aproveitou os recursos do 3D, os dois outros diretores se destacaram mais.




  Neste primeiro longa, “Adeus à Linguagem”, a história é outra. Godard explorou muito bem a nova possibilidade tecnológica.  Fez um filme altamente sensorial, vigoroso, questionador e, como sempre, levantando uma profusão de temas e questões que tratam do papel do Estado na vida contemporânea, do que resta de função ao conhecimento,  do impasse da literatura, de um mundo que se desintegra em imagens, dos direitos dos animais.  Isso tudo se apresenta enquanto um casal se relaciona e se desentende e um cachorro anda entre eles.

Fica tudo claro?  Absolutamente!  Nem Godard busca qualquer coisa semelhante à clareza.  Mas o filme brilha nas cores, por vezes estouradas, nas ideias jogadas, em que muitas se perdem à nossa mente, na provocação que incorpora a beleza que a tecnologia do 3D pode acentuar.  E até na superposição de algumas imagens, o que embaralha a visão nessa técnica.  O que ele consegue produzir é, paradoxalmente, mais cativante do que vinha fazendo nos últimos tempos.  O octogenário realizador está em grande forma.


Héloise Gadet e Kamel Abdeli no Reserva Cultural


Héloise Godet e Kamel Abdeli, protagonistas do filme, estão no Brasil para o lançamento, já que Godard, obviamente, não faria esse tipo de trabalho.  São ótimos, alegres, desinibidos.  E, em São Paulo, o cine Reserva Cultural inaugura seu equipamento em 3D com “Adeus à Linguagem”, de Jean-Luc Godard, em projeção impecável.


terça-feira, 7 de julho de 2015

O SÉTIMO SELO


Antonio Carlos Egypto





O SÉTIMO SELO (Det Sjunde Inseglet).  Suécia, 1957.  Direção e roteiro: Ingmar Bergman.  Com Max Von Sydow, Gunnar Bjornstrand, Bengt Ekerot, Bibi Andersson, Gunnel Lindblom.  96 min.


A morte, única certeza inevitável da nossa vida, causa muito medo e insegurança a todos.  Ingmar Bergman expressava esse medo reconhecendo-o em si como algo muito forte e o associava às vulnerabilidades infantis.  A questão da existência ou não de Deus, que serve para aplacar as ansiedades da morte nos registros religiosos, foi fonte de grandes questionamentos e preocupações ao longo de toda a vida e obra do mestre sueco do cinema.

O grande clássico de Bergman, “O Sétimo Selo”, é uma parábola sobre a morte, situada no mundo medieval.  Um cavaleiro, Antonius Block (Max Von Sydow), retorna das Cruzadas e só vê morte ao seu redor.  A peste dizima a todo instante, as pessoas caem como moscas.  A Inquisição sacrifica as bruxas, que nada mais são do que mulheres que, por sua juventude, beleza, desejo ou sensualidade, merecem literalmente o fogo do inferno.




Antonius não poderá se surpreender quando vir a morte chegar até ele.  E a morte se aproxima de uma forma muito concreta, para buscá-lo.  É quando Bergman materializa a morte (Bengt Ekerot), uma figura de capa preta e semblante tranquilo, sem caveira ou foice.  É possível conversar com ela, argumentar e até negociar um tempo, enquanto se disputa uma partida de xadrez.  Simples e audacioso.

A partida de xadrez em que a morte, naturalmente, sorteia as pedras pretas, constitui-se em uma das mais belas e inesquecíveis sequências da história do cinema. Cada espectador pode, então, conviver cavalheirescamente e dispondo de tempo, durante a projeção do filme, com a morte, seus mistérios e demônios.  Ou seja: é o momento de encarar a inevitabilidade da morte, procurando encontrar-se diante dela e de si mesmo.  Tentar superar o susto da presença da morte, bastante discreta, apesar de incisiva e apavorante.  Não pelo que ela é, mas pelo que ela nos tira.  E pelo grande vazio que se abre, em que a incerteza se impõe.




No momento em que concretiza em imagem a figura da morte, Bergman nos familiariza com ela, nos possibilita não só encará-la, interagir com ela, ser capaz de enfrentá-la, como superar a angústia que ela nos causa.  É possível jogar, mesmo sabendo que, no fim, a gente vai acabar perdendo. Afinal, o que é a vida, senão um eterno jogo com a morte?  Não exatamente um jogo macabro, mas uma experiência fascinante e enriquecedora.

A caracterização da Idade Média, locais, agrupamentos, roupas, comportamentos, é perfeita, em “O Sétimo Selo”.  O filme nos transporta para uma outra realidade.  Mas a intenção de Bergman não era, simplesmente, fazer um filme de época.  Como sempre, ele está em busca do que é essencial, nas questões filosóficas que levanta.  O que  não impede que o filme, realizado em 1956, também reflita o ambiente do pós II Guerra Mundial, encerrada há onze anos, e a Guerra Fria, com a polarização política mundial e com a ameaça de uma hecatombe nuclear.  Intolerâncias e pestes contemporâneas não faltavam para os cidadãos modernos que, como todos, tinham que se entender com a morte.




Em outros momentos da filmografia de Bergman, a morte aparece como muito mais assustadora e, dolorida, como se pode ver em “Gritos e Sussurros” (1973), por exemplo.  A opressão em nome de um Deus está também em grande parte da obra bergmaniana.  De forma muito evidente, em “Fanny e Alexander” (1982), um de seus últimos filmes, com fortes toques autobiográficos.




Quem nunca viu “O Sétimo Selo”, ou quem só conseguiu vê-lo na tela da TV, não pode perder a oportunidade que se apresenta do seu relançamento nos cinemas brasileiros, em julho de 2015.  Uma cópia digital restaurada será exibida, iniciando uma série do catálogo Clássica (Zeta Filmes e FJ Cines), que pretende trazer de volta às telonas filmes indispensáveis da história do cinema.  Em agosto, será relançado “A Doce Vida”, de Fellini (1960), em setembro, “Nosferatu – O Vampiro da Noite”, de Werner Herzog (1978), em outubro, “Mamma Roma”, de Pasolini (1962), em novembro, “Morangos Silvestres”, de Bergman (1957), em dezembro, “Fitzcarraldo”, de Herzog (1982) e, em janeiro de 2016, “8 ½”, de Fellini (1963).  As cidades onde os filmes serão exibidos nos cinemas são: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Salvador, Porto Alegre, João Pessoa e Santos.  Uma iniciativa magnífica.  Indispensável, sobretudo para que os mais jovens possam usufruir da magia do grande cinema na tela em que ele merece estar.

  

sábado, 27 de junho de 2015

CASADENTRO


Antonio Carlos Egypto




CASADENTRO (Casadentro).  Peru, 2013.  Direção e roteiro: Joanna Lombardi.  Com Elide Brero, Grapa Paola, Delfina Paredes, Anneliese Fiedler.  87 min.


O envelhecimento costuma trazer quase inevitavelmente limitações físicas.  Pode também trazer a solidão, a acomodação e a rotina, como uma espécie de ritual protetor.

É o caso da senhora Pilar, de 81 anos, vivendo num vilarejo do interior do Peru, apegada a sua cadela Tuna, em relação afetiva muito intensa com ela.  Quase nada acontece em sua vida, dia após dia.  Todo dia ela faz tudo sempre igual, como diria Chico Buarque.




Até que sua monotonia é quebrada por um telefonema.  Sua filha Patrícia vem vindo visitá-la, acompanhada da própria filha, neta de Pilar, e de seu bebê, recém-nascido.  Uma reviravolta se processará na vida de D. Pilar, ou, pelo menos, ela sente isso assim, como uma intromissão, uma ameaça.

Mulheres, mães de três gerações, irão conviver por um tempo, evidenciando as diferenças que o papel materno foi tomando no mundo de cada uma delas.  E ao longo do tempo histórico de suas vidas.




“Casadentro”,  primeiro longa-metragem de Joanna Lombardi, é convincente ao falar de quase nada, ou seja, da rotina dessa mulher idosa dentro de casa, às voltas com sua cachorra, e recebendo a visita da família da filha.  Onde aparentemente nada acontece, podem-se compreender as marcas emocionais do passado, os significados da rotina na sobrevivência psíquica e da maternidade.

Destaque para o desempenho de Elide Brero como D. Pilar, atriz veterana de grande talento, incentivada pela jovem diretora a aceitar o papel, quando já se considerava aposentada, o que acabou gerando novas atuações no cinema para ela, após essa interpretação marcante.




A diretora e roteirista de “Casadentro” é filha de um conceituado e premiado cineasta peruano, Francisco Lombardi, com 13 longas no currículo e pelo menos um êxito internacional, “La Ciudad y Los Perros”, de 1985.

Um filme simples, intimista, minimalista, com enfoque feminino, que resulta num produto artístico de boa qualidade, fonte de reflexão e demonstração de talento do cinema peruano, ainda muito pouco presente no nosso mercado exibidor.




quarta-feira, 24 de junho de 2015

O ÚLTIMO POEMA DO RINOCERONTE


Antonio Carlos Egypto





O ÚLTIMO POEMA DO RINOCERONTE (Fasle Kargadan).  Turquia/Irã, 2012.  Direção e roteiro de Bahman Ghobadi.  Com Behrouz Vossoughi, Monica Bellucci, Ylmaz Erdogan, Caner Cindoruk, Beren Saat.  103 min.


Quem conhece os longas “Tempo de Embebedar Cavalos”, de 2000, e “Tartarugas Podem Voar”, de 2004, sabe que os trabalhos cinematográficos de Bahman Ghobadi são esteticamente impecáveis e absolutamente sedutores.

Ghobadi é um dos mais importantes cineastas iranianos, faz parte de uma fantástica leva de criadores, como Abbas Kiarostami, de quem foi assistente, Moshen Makmalbaf, Jafar Panahi, Asghar Farhadi, entre outros. 




O cineasta tem origem curda, uma etnia sem Estado, mas presente numa ampla região cultural e geográfica que inclui Turquia, Irã, Iraque, Síria, Azerbaijão.  Tem se dedicado a contar histórias de exclusão e opressão de seu povo, em especial dos que habitam o Irã.

“O Último Poema do Rinoceronte”, produzido por Martin Scorsese, baseia-se nos diários do poeta iraniano-curdo Sadegh Kamangar e conta a história do poeta Sahel e sua esposa Mina, encarcerados sem justificativa plausível durante a Revolução Islâmica, dos aiatolás, que pôs fim ao regime do Xá, em 1979.




Ao componente da opressão política, se agrega uma estranha questão amorosa: um dos motoristas-seguranças do novo regime se enamorou de Mina e procurou protegê-la, enquanto o poeta Sahel amargaria longa prisão.  Mais do que isso: o poeta foi declarado oficialmente como morto, tendo até um simulacro de túmulo, mesmo sem que o corpo tivesse sido mostrado. 

O retorno do poeta ao mundo dos vivos, 30 anos depois, é o centro da filmagem de “O Último Poema do Rinoceronte”, em que percepções, sentimentos, estranheza e exclusão ocupam a cena, sem preocupação com a cronologia dos fatos ou explicações de nenhuma ordem.  Isso pode dificultar um pouco o entendimento de um caso desconhecido para nós, mas, por outro lado, dá margem a uma elaboração estética absolutamente admirável.




O que se vê são maravilhosos e variados enquadramentos, uso criativo da luz, da água, de fusões de imagens, de belas e estranhas locações na Turquia.  A estética é tão envolvente que revela, mas quase chega a sufocar, a temática política, mesmo sendo concebida para ela e se colocado a seu serviço.  Cada plano é digno de admiração e as sequências são brilhantes.  Referências a seus outros filmes também aparecem: há cavalos em close e tartarugas que voam por aqui, além, é claro, dos rinocerontes do poema.  A história vai sendo tecida a partir das citações poéticas de Sahel, palavras que para ele são salvação e maldição a um só tempo.

A atriz italiana Monica Bellucci, em belo desempenho, diz: “Para mim, esse é um dos papéis mais fortes que já fiz.  Eu não sou iraniana, mas consigo entender as mulheres de lá”.  O ator Behrouz Vossoughi deve ter se inspirado em sua própria experiência de ser removido de sua cultura, fugiu do Irã em 1978 e trabalha para a TV americana, atualmente.  O diretor Bahman Ghobadi, assim como quase todos os expoentes do cinema iraniano, também  teve de se exilar em 2009.  Arte e fundamentalismo religioso definitivamente não combinam.  


segunda-feira, 22 de junho de 2015

O CIDADÃO DO ANO


Antonio Carlos Egypto



O CIDADÃO DO ANO (Kraftidioten).  Noruega, 2014.  Direção: Hans Petter Moland.  Com Stellan Skarsgard, Birgitte Hjort Sorensen, Kristofer Hivju, Bruno Ganz.   116 min.


“O Cidadão do Ano” é um thriller de grande intensidade dramática, boas doses de sangue, muitas reviravoltas e imagens muito atraentes.  Vem da Noruega, dirigido por um dos mais destacados cineastas da Escandinávia, Hans Petter Moland. Exibido na mostra competitiva do Festival de Berlim 2014 traz no elenco um ator sueco, a esta altura já bem conhecido do público brasileiro: Stellan Skarsgard, presença frequente nos filmes do diretor dinamarquês Lars von Trier e de muitas outras produções, inclusive de Hollywood.  Grande ator, aqui em mais um papel marcante. E contracenando com outro grande ator, o suiço Bruno Ganz, de larga carreira no cinema europeu.




Stellan Skarsgard faz Nils, que dirige um caminhão pesado, limpador de neve, nas montanhas norueguesas.  Recentemente recebeu um prêmio como Cidadão do Ano na sua cidade.  Mas quando um filho dele é assassinado por algo que não fez, esse cidadão decide fazer justiça na base da vingança e se propõe a matar os culpados.  O problema é que suas ações desencadeiam uma guerra entre um gângster vegetariano e o chefe de uma máfia sérvia, que tinham até então um acordo de não-agressão.  É daí vêm a violência que por meio do sangue tinge a paisagem branca da neve com frequência.



Mas não é preciso se assustar: o filme explora o visual da neve com tamanho encanto, movimentos de câmera sofisticados  e sutileza em algumas das mortes que conquistam até o espectador que tenda a rejeitar filmes considerados violentos.

A neve ocupa a tela sob muitas formas todo o tempo, ela é central na narrativa.  A história não faria sentido sem ela. Funciona como elemento opressor, sufocador, encobridor, ao mesmo tempo em que é elemento decorativo, sedutor, revelador de uma paisagem de grande beleza e fonte de dinamismo para as cenas.  Além disso, o filme tem um roteiro muito bem engendrado, cheio de situações inusuais, com tensão e suspense constantes e uma resolução criativa e surpreendente.




Um filme todo branco, mas que não deveria passar em branco em sua temporada nos cinemas.  É um filme de primeira linha, no seu gênero cinematográfico. 


quinta-feira, 18 de junho de 2015

ENQUANTO SOMOS JOVENS

  
Antonio Carlos Egypto




ENQUANTO SOMOS JOVENS (While We’re Young).  Estados Unidos, 2014.  Direção e roteiro: Noah Baumbach.  Com Ben Stiller, Naomi Watts, Amanda Seyfried, Adam Driver.  97 min.


“Enquanto Somos Jovens” é uma simpática, inteligente comédia do mesmo diretor de “Frances Ha”, êxito dos cinemas em 2013.  E que conta com um bom elenco.

Josh (Ben Stiller) e Cornélia (Naomi Watts) formam um casal quarentão de Nova York, que vive bem e feliz.  Eles não tiveram filhos, mas isso não é visto como problema, mas como opção.  Apelos evidentes vêm por meio de outros casais amigos, que estão engravidando ou cuidando de crianças pequenas, aí incluídos os programas e festinhas a que eles também costumam ser convidados.




A aproximação com um casal mais jovem, na faixa dos 25 anos, põe em xeque a aparente acomodação que tomou conta da vida de Josh e Cornélia. 

Jamie (Adam Driver) e Darby (Amanda Seyfried) são espontâneos, têm espírito livre e aventureiro.  A juventude de que desfrutam exerce um forte atrativo para o casal quarentão, que começa a querer se renovar, sintonizar com os novos tempos.

Desse confronto entre acomodação versus liberdade, próprio de diferentes faixas etárias, se alimenta o espírito da comédia.  Mas há dados muito interessantes, que irão mostrar a relatividade dessa história.  A constatação de que os mais jovens se sentem atraídos por uma tecnologia antiga, revalorizando as máquinas de escrever, as vitrolas, os LPs e os videocassetes, por exemplo, enquanto os mais velhos não dispensam seus smartphones, Ipads, netflix.




As diferenças geracionais, no entanto, estão mais relacionadas a questões éticas, jeito de viver a vida, ambições e caminhos para solucionar problemas profissionais e a forma de lidar com o dinheiro do que às questões tecnológicas.  E é por aí que o filme vai enveredar.  Não só para produzir o riso, mas para questionar o valor dessas diferenças.  O grande mérito dessa comédia é não ficar na mera superfície e nos fazer ver que, muitas vezes, o que nos parece errado, inadmissível, pode não significar maldade, falta de caráter ou bandidagem, mas obedecer a outro padrão ético.   Questionável como todos os outros, mas não certo ou errado por princípio.  Afinal, a ética e a moral são frutos do tempo e da estrutura social vigente ou em gestação. Não há como escapar disso.  Nem há valores ahistóricos.




Mas também é difícil estabelecer valores amplos que valham para os diferentes extratos geracionais, as diversas classes sociais e os diferentes referenciais da cultura a que as pessoas e os grupos se vinculam.

Como se entender em meio a todas essas distinções e perceber que o seu modo de pensar e agir pode não servir de baliza aos outros e até soar estranho a eles?  E o que fazer com isso?  Desesperar-se, tentar mudar o mundo, relaxar e gozar?  Façam suas apostas, enquanto se divertem com “Enquanto Somos Jovens”.

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Aproveitem para conferir a programação do PANORAMA DO CINEMA SUIÇO CONTEMPORÂNEO, já em andamento. Há muita coisa boa para ver. No CINESESC e Centro Cultural do Banco do Brasil.  E a programação do cinema sueco atual na Cinemateca Brasileira.




quarta-feira, 17 de junho de 2015

MINHA QUERIDA DAMA


Antonio Carlos Egypto



MINHA QUERIDA DAMA (My Old Lady).  Estados Unidos/Reino Unido, 2014.  Direção e roteiro: Israel Horowitz.  Com Kevin Kline, Maggie Smith, Kristin Scott-Thomas.  106 min.


“Minha Querida Dama” marca a estreia na direção cinematográfica do escritor Israel Horowitz.  Ele também fez o roteiro, adaptou para o cinema, a sua própria peça teatral: My Old Lady.

É uma daquelas peças que vão abrindo, camada a camada, os interditos, os segredos, as mágoas, as frustrações, as expectativas e dificuldades de relacionamento que acometem a vida familiar, desde sempre.  Revelações mudam a dimensão das coisas e dos fatos conhecidos, abrindo novas possibilidades.  É um texto intrigante, capaz de envolver o espectador na narrativa.




Embora fundamentalmente entrem em cena apenas três personagens num mesmo ambiente, um apartamento muito grande, o filme escapa da armadilha de virar teatro filmado.  O diretor e dramaturgo Israel Horowitz fez uma adaptação dinâmica, colocando alguns personagens secundários para contracenar com dois dos protagonistas pelas ruas e ambientes parisienses, acrescentando dados novos ao cerne da história e arejando a cena.  O resultado é bastante convincente.

Um dos protagonistas da trama é Mathias, um homem atormentado, triste, insatisfeito com a vida, umbilicalmente ligado à sua infância e às carências que identifica nela e nas relações conflituosas com o pai, a quem ele muito rejeita, e com a mãe, que sucumbiu diante do que não podia suportar.  O ator norte-americano Kevin Kline encara o desafio desse personagem com inegável competência.




Outra protagonista é Chloé,  uma mulher ainda jovem e muito ativa, mas que não se encontrou muito bem na vida, tanto profissional quanto afetiva, e, na realidade, gira ao redor de sua mãe, com quem sempre morou, num imenso apartamento em Paris.  A atriz inglesa Kristin Scott-Thomas é muito eficiente ao revelar, no seu desempenho, o que há por trás dessa mulher e as mudanças que se efetivarão.





A terceira protagonista é a velha senhora Mathilde, de 92 anos, vivida pela grande atriz inglesa Maggie Smith, num show de interpretação.  Ela é brilhante nos detalhes, nas sutilezas do que sente e faz a sua personagem e em como ela lida com o que desconhece da história.  Ela não sai de casa, pouco consegue se movimentar, mas é a figura mais forte e marcante da trama.  É em torno dela que tudo acontece.





Com um belo texto, bem trabalhado em termos cinematográficos por seu autor e atuações desse porte, o filme deslancha.  Tem muito espaço para reflexão e bom ritmo.  Envolve, surpreende, emociona.  Vale a pena ver.




sábado, 13 de junho de 2015

SAMBA


Antonio Carlos Egypto



SAMBA (Samba).  França, 2014.  Direção: Eric Toledano e Olivier Nakache.  Com Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim, Izia Higelin, Issaka Sawadogo.  118 min.


A história de um imigrante, do Mali ou do Senegal, fugitivo das guerras africanas, vivendo há dez anos em Paris, tentando obter seu visto de residência, sem conseguir, e sofrendo todo tipo de dificuldades para sobreviver, pode ser um bom mote para uma comédia?  A julgar pelos cineastas Eric Toledano e Olivier Nakache, sim.  Afinal, eles dirigiram “Os Intocáveis”, em 2011, que tratava de um tetraplégico e seu cuidador nesse tom e se deram bem.  O filme foi um sucesso.  Repetem a dose agora e com o mesmo ator, Omar Sy, muito bom, protagonista nos dois trabalhos.




Confesso que assisti a “Samba” um tanto incomodado.  Não porque o filme não funcionasse, mas por achar que a questão do imigrante clandestino, excluído, rejeitado, explorado, extremamente sofrido, sem conhecer os seus direitos e sem dominar os caminhos para se integrar, era algo dramático demais para o tom leve adotado pelo filme.  Também, porque as questões ficavam um tanto esvaziadas de sentido em algumas cenas engraçadas ou em algumas brincadeiras.  A questão social, as diferenças de classe, os problemas de identidade gerados pela clandestinidade e as revoltas, ficavam escamoteados.  Ao serem particularizados, perdiam sua real dimensão.

Também me incomodaram alguns clichês, como o argelino que se passava por brasileiro e falava algumas palavras em português para exibir sua desinibição, sua alegria, sua dança e, assim, ter mais chance de conquistar mulheres.  Ainda bem que algumas das músicas escolhidas para pontuar aparições dele traziam o talento de Gilberto Gil ou Jorge Benjor.  Mas o personagem Wilson (Tahar Rahim) é apenas uma caricatura carnavalizada de uma situação muito séria. O envolvimento de Samba (Omar Sy) e Alice (Charlotte Gainsbourg) carecia de aprofundamento e mostrava pouca consistência.  Enfim, o tom do filme não me satisfez.




Fui ler, então, o livro no qual se baseia o filme, também recém-lançado e com os atores na capa.  E a sensação foi de perplexidade. A autora de Samba, Delphine Coulin, é escritora e cineasta.  Fiquei imaginando que filme ela faria de seu próprio livro.  Com a certeza de que algo muito diferente teria que sair dali.  O livro é bem escrito e especialmente interessado em mostrar os sentimentos, as percepções, as expectativas, os desejos e os sonhos, tanto os de olhos abertos quanto os vividos sob a proteção de Morfeu.

A França, tradicionalmente associada ao acolhimento do estrangeiro e à democracia, é fortemente questionada nos relatos das ações legais, burocráticas e policiais, que envolvem os imigrantes.  O sofrimento é mostrado em detalhes, às vezes sujos, às vezes sórdidos, a dor é sempre presente e o respeito aos personagens oferece uma dimensão que está perdida no filme. 




Não se trata de comparar resultados: evidentemente, as linguagens literária e cinematográfica são coisas diferentes.  Só que a escritora, por ser também cineasta, tem uma escrita própria para adaptação ao cinema, ela descreve cenas inteiras que estão prontas para serem filmadas.  São fortes, dramáticas.  O tom é completamente outro.  Dá conta, de uma forma muito mais apropriada, da temática abordada.

A impressão que se tem é de que o filme “Samba” traiu a proposta da autora, quase invertendo o seu rumo.  A busca pelo êxito comercial tornou tudo um tanto pasteurizado e a seriedade do assunto submergiu.  Isso acontece apesar de o filme contar com um elenco de alta qualidade.  Não só pelo excelente desempenho de Omar Sy e também do de Tahar Rahim, mesmo com as armadilhas de seu personagem, mas também por contar ainda com Charlotte Gainsbourg, no papel de Alice, quase inexistente no livro, mas que adquire uma importância central no filme.  Enfim, todos os atores e atrizes estão muito bem.




A pergunta que fica é: tudo pode ser objeto de comédia?  Podemos admitir que sim, haja vista que Roberto Begnini em “A Vida é Bela”, de 1997, conseguiu fazer de um campo de concentração nazista uma brincadeira, e há muitos outros exemplos.  Ou seja, poder, pode.  Resta saber se é o mais apropriado.  Em muitos casos, creio que não é.

Rir da pobreza, da exclusão, da exploração do ser humano, de grupos que são discriminados ou perseguidos é possível.  Mas só admissível com profundo respeito aos retratados, para superar preconceitos e estereótipos.  Ou seja, com espírito libertador e não de exploração comercial ou para subjugar ainda mais os que já estão subjugados.

“Samba” é um dos destaques do Festival Varilux do Cinema Francês, que acontece todos os anos por aqui e alcança vários Estados brasileiros.  Após o Festival, os filmes começam a ser lançados em sessões normais nos cinemas.