quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

BIRDMAN


Antonio Carlos Egypto




BIRDMAN ou A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance)Estados Unidos, 2014.  Direção, roteiro e produção: Alejandro Gonzáles Iñarritu.  Com Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton, Emma Stone, Amy Ryan, Naomi Watts.  119 min.



Um ator, Riggan Thomson (Michael Keaton), se torna famoso, celebridade, por ter encarnado um super-herói – o Birdman – em três filmes.  Mas, na hora de fazer o Birdman 4, sente que o personagem está esgotado e não aguenta mais repeti-lo.  A busca pela arte versus mero entretenimento sempre se coloca para os que fazem da arte de representar um trabalho sério.

Daí para partir para uma montagem teatral cabeça ou do gênero que lida com sentimentos humanos e reflexão, o caminho parece natural.  Musical da Broadway cheio de tecnologia não serviria, seria mais do mesmo estilo superespetáculo.  Mas como lidar com o que ficou para trás, com as expectativas não correspondidas, com a crítica especializada, com colegas de profissão complicados e com a reação do público?  Definitivamente, não é fácil.  Sair de um personagem de sucesso é muito mais complicado do que entrar nele.



Essa questão, que é central no filme do diretor mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu, de “Babel”, em 2006, e “21 Gramas”, de 2003, mexe com toda a indústria do entretenimento de Hollywood.  Realidade e fantasia entram na história o tempo todo, criando um produto curioso e atraente.  Reflexivo, claro.  Mas muito louco, também.

“Birdman” até tem algumas cenas de ação e efeitos especiais, mas o ator-personagem é um anti-herói confuso e insatisfeito, em busca de algo mais denso para sua vida artística.  O filme é mais para quem já se encheu dessa onda de super-heróis e personagens de quadrinhos no cinema.  Ou para quem se interessa pelos bastidores da criação artística e da indústria do entretenimento.




O importante é que o filme decola, envolve, critica e, ao mesmo tempo, diverte.  Tem um ótimo elenco, em que Michael Keaton se destaca como protagonista, mas ressalte-se o papel de Edward Norton, como Mike Shiner, um ator irresponsável e desequilibrado, mas que testa seus limites e os dos outros em cena, numa entrega total.  Emma Stone faz Lesley, a filha que emerge das sombras da celebridade do pai e consegue ver o jogo em que está envolvida.  Zach Galifianakis faz Brandon, o produtor teatral que precisa arbitrar conflitos para manter a peça em cartaz e promovê-la.  E toda uma gama de personagens compõe o mundo do espetáculo. 




Forte e criativo trabalho de Iñarritu em tom de comédia e recheado de fantasia.  É, ao lado do excelente “O Grande Hotel Budapeste”, de Wes Anderson, quem recebeu mais indicações para o Oscar 2015.  Ambos apontados em nove categorias.


domingo, 25 de janeiro de 2015

GRANDES OLHOS


Antonio Carlos Egypto




GRANDES OLHOS (Big Eyes).  Estados Unidos, 2014.  Direção: Tim Burton.  Com Amy Adams, Christoph Waltz, Kristen Ritter, Terence Stamp.  106 min.


Dos trabalhos do diretor Tim Burton sempre se espera algo inusitado, uma estranheza, uma excentricidade.  Em “Grandes Olhos”, essa expectativa não chega a se cumprir.  Exceto pelos grandes e marcantes olhos que a personagem-pintora Margaret Keane (Amy Adams) coloca nas crianças que retrata em seus quadros.




A história relatada pelo filme, de forma linear, é inspirada em fatos reais e diz respeito a uma farsa da qual a própria Margaret participou.  Seu marido, o também pintor Walter Keane (Christoph Waltz), assumiu publicamente a autoria dos quadros dos grandes olhos, que foram fazendo grande sucesso de vendas, com a conivência da verdadeira autora.  Eram os anos 1950 e as relações de gênero ainda se mostravam muito desequilibradas.  Mesmo assim, o que explicaria o comportamento dela?  Esse é o principal interesse do roteiro.  O que é muito apropriado.

O caso acaba nos tribunais, como se poderia imaginar.  É nesse ponto que o filme derrapa.  As cenas do tribunal não convencem, não têm credibilidade.  O início imediato e inverossímil de um julgamento em que o réu e o advogado se confundem dá margem a trapalhadas que soam constrangedoras, não engraçadas.  E a solução final estava tão à vista, tão evidente, tão esperada, que se tornou óbvia e sem maior interesse.




É possível que os fatos relatados no tribunal pelo filme até contenham elementos verdadeiros do processo e que sejam fiéis a detalhes da realidade.  Mesmo nesse caso, as cenas não se justificam, poderiam ter sido muito melhor conduzidas, e se o final era tão previsível uns bons cortes aliviariam a sensação de algo que se arrasta sem qualquer necessidade.  Uma montagem mais ágil poderia contar tudo aquilo em poucos planos.

O casal de protagonistas está muito bem.  Christoph Waltz enfatiza na sua atuação o lado sedutor, marqueteiro e malandro do seu personagem.  Amy Adams destaca, com seu desempenho contido, a insegurança e a submissão de seu personagem, capaz de permanecer assim mesmo diante de um talento reconhecido pelas pessoas e pelo mercado, gerando altos lucros e possibilitando um estilo de vida luxuoso.  É daí que provém todo o interesse da trama.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

DEPOIS DA CHUVA


Antonio Carlos Egypto




DEPOIS DA CHUVA.  Brasil, 2013.  Direção: Cláudio Marques e Marília Hughes.  Com Pedro Maia, Sophia Corral, Talis Castro, Aícha Marques, Ricardo Pisani, Victor Corujeira.  90 min.


No começo dos anos 1980, a ditadura civil-militar brasileira perdia força progressivamente, enquanto tentava uma transição para a normalidade democrática, que pudesse se fazer por meio de uma abertura lenta, gradual e segura.  A lei da anistia cimentaria uma espécie de esquecimento dos crimes praticados de lado a lado, ou seja, a resistência armada sendo equiparada à tortura oficial do regime.

O fato é que o movimento pelas diretas já acendeu uma grande esperança no povo, já farto do regime autoritário que se arrastava por duas décadas, infelicitando a nação brasileira.  Os comícios organizados reuniam grandes multidões e diversas tendências políticas, que tinham em comum a luta pela reconstrução do Estado de Direito no Brasil.  O clima era, portanto, tenso, mas promissor.  As reuniões e debates já podiam acontecer à luz do dia.  E, afinal, seria mesmo uma questão de tempo.  Mas, antes que o ideal da redemocratização pudesse acontecer, o país ainda viveria duas enormes frustrações: as eleições diretas para presidente não vieram, foi preciso criar uma engenharia política para eleger Tancredo Neves pela via indireta e, eleito, Tancredo morreu antes de que pudesse tomar posse.  As esperanças geraram frustração, desencanto.  Embora a transição tenha se realizado a contento, com o governo de José Sarney, o vice de Tancredo, passamos da euforia à depressão.




Esse momento político marcante da nossa história está presente na ficção “Depois da Chuva”, de Cláudio Marques (também roteirista do filme) e Marília Hughes, por meio do microcosmo de Caio (Pedro Maia), na sua vida de aluno do colegial, atual ensino médio. 

Nas suas relações pessoais, no envolvimento com o grêmio da escola em vias de reativação, descobrindo o amor, a amizade e o peso da política na vida de cada um, ele vive mergulhado no inconformismo, na contestação, orientado por uma perspectiva genericamente anarquista que olha mais para o desencanto do que para a esperança.  Ainda que flerte com ela: chega a apresentar uma candidatura ao grêmio estudantil, após pregar a anulação do voto.  Seus pais estão distantes dos seus dilemas e preocupações, de uma forma ou de outra, estão cuidando de suas próprias coisas e isso já parece ser muito.




O filme se concentra no clima, no dia-a-dia escolar, nas questões existenciais dos jovens, no rock rebelde que se opunha à MPB contestadora da época, na escala reduzida de uma escola em Salvador, na Bahia, e por meio dela remete ao que se vivia no país.  No instante recortado dessa história, a frustração se impõe, dando a dimensão de um desencontro que, supostamente, ainda esteja aí como consequência de tudo aquilo.

No entanto, se olharmos para o que se construiu depois disso, há que se reconhecer o muito que se conquistou na solidificação de uma democracia plena de direitos, das instituições, além de palpáveis avanços econômicos e sociais. Ansiamos hoje por novos modelos de atuação política dentro do espectro democrático, buscando solidificá-la em bases de representação e participação mais sólidas e eficazes.  A batalha do período retratado por “Depois da Chuva” já foi vencida.  E isso não é pouco.




Revisitar esses períodos recentes da nossa história por meio de memória da experiência vivida e de lembrança de seus embates dentro e fora de cada um de nós, como fez o filme baiano, é um bom caminho ficcional que o cinema brasileiro pode explorar mais.  Contribui para a reconstituição das verdades que não só uma comissão nacional designada para esse fim tem a obrigação de resgatar.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

IDA

 Antonio Carlos Egypto




IDA (Ida).  Polônia, 2013.  Direção: Pawel Pawlikowski.  Com Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza, Dawid Ogrodnik, Jerzy Trela.  80 min.


O filme polonês “Ida” nos presenteia com uma grande beleza que resulta de sua aparente simplicidade e humildade.  A começar pelas imagens sóbrias em preto e branco e pelos enquadramentos que, em grande parte do tempo, colocam os personagens na parte baixa da tela, enquanto o ambiente ocupa a maior parte da imagem.  Coisas que nos remetem a um tempo passado e a uma dimensão que ultrapassa os desejos e possibilidades humanos.




A história é toda centrada na figura da noviça Ida (Agata Trzebuchowska) e suas vestes cinzentas, simples e grossas, para enfrentar o frio.  Só seu rosto pode revelar sua beleza.  Os ambientes, além de pobres e discretos, são marcados pelo tempo fechado e pela neve.  O clima é, via de regra, silencioso, para poder dar espaço à dúvida e à reflexão.

Um filme que nos remete, ainda, à história polonesa de dominações e opressão, com destaque para a barbárie nazista.  Mas não é possível esquecer os equívocos do regime comunista lá mantido no pós Segunda Guerra Mundial e o legado anticomunista e conservador que Karól Wojtyla, o longevo papa polonês João Paulo II, legou ao mundo.





O drama da noviça Ida se concentra, no entanto, na questão da identidade.  Sem família, com apenas uma tia viva que desconhece, ela viveu toda sua existência amparada por um convento de freiras.  Sua escolha natural será se tornar ela própria uma freira.  Mas, às vésperas de seus votos, ela é instada a conhecer suas origens judaicas e a tragédia que acometeu sua família nas mãos dos nazistas.  E, além disso, a conhecer o desejo, a sensualidade, a dança e a bebida, coisas absolutamente distantes dela.

A identidade se constrói na sociedade e está representada no modo pelo qual cada um se vê e se reconhece.  Quem é Ida e quem pode ser Ida?  Inevitavelmente, os caminhos traçados têm de ser repensados.  Qual será a identidade resultante do choque que se estabelece com as novas revelações?




O que poderia desembocar num grande drama de tintas fortes e histeria aqui se apresenta em tom baixo e singelo, mas profundo.  São cuidadosos e econômicos 80 minutos de projeção, que revelam seu humanismo e solidariedade às dores pessoais e coletivas. 

Belíssimo filme, já premiado em Toronto, Canadá, e em diversos festivais europeus, aparece indicado como  filme estrangeiro representando a Polônia, em disputas como o Oscar, o Globo de Ouro e o Bafta.  O diretor Pawel Pawlikowski, também roteirista do filme, nasceu em Varsóvia, mas saiu da Polônia aos 14 anos e foi estudar literatura, filosofia e cinema em Londres, onde fez carreira inicialmente como documentarista.  Já venceu o Bafta (o Oscar britânico), com seu filme de estreia, em 2000, e novamente em 2004.


domingo, 11 de janeiro de 2015

MELHORES DO ANO DE 2014


Antonio Carlos Egypto

Para não perder o costume, e atender a pedidos, vamos às listas de melhores filmes do ano de 2014, considerando os que foram lançados regularmente no circuito comercial dos cinemas.  Não entram os filmes exibidos apenas em mostras ou festivais.  Não há distinção entre ficção e documentário.

O número de lançamentos foi grande: 379 filmes em todo o Brasil.  Boa parte deles não atingiu todas as principais cidades do circuito de exibição.  Alguns poucos foram lançados apenas regionalmente.  O circuito São Paulo – Rio foi o que deu conta da quase totalidade dos lançamentos.

Apesar da média de novos títulos do ano se aproximar de um filme por dia, o resultado em termos de qualidade não foi tão entusiasmante assim.  Não que faltassem bons ou ótimos filmes para compor a lista de melhores.  Mas não há os especialmente brilhantes ou inesquecíveis para marcar 2014 na história do cinema.  Há talento e criatividade.  Há inovação e a mão de alguns grandes mestres que já se despedem do cinema.  Registre-se a perda de Alain Resnais e o aniversário de 106 anos de Manoel de Oliveira, em dezembro último.


O elenco de O GEBO E A SOMBRA com Manoel de Oliveira


A lista dos dez filmes internacionais de que mais gostei, por ordem de preferência, entre os lançamentos de 2014, é a seguinte:

1.    O GEBO E A SOMBRA, de Manoel de Oliveira, Portugal.
2.    AMAR, BEBER E CANTAR, de Alain Resnais, França.
3.    O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, de Wes Anderson, Estados Unidos.
4.    A IMAGEM QUE FALTA, de Rithy Panh, Camboja.
5.    INSTINTO MATERNO, de Calin Peter Netzer, Romênia.
6.    NINFOMANÍACA I e II, de Lars Von Trier, Dinamarca.
7.    ELA, de Spike Jonze, Estados Unidos.
8.    MISS VIOLENCE, de Alexandro Avranas, Grécia.
9.    O QUE OS HOMENS FALAM, de Cesc Gay, Espanha.
10. BOYHOOD – DA INFÂNCIA À JUVENTUDE, de Richard Linklater, Estados Unidos.


AMAR, BEBER E CANTAR


Tentei fazer uma lista dos cinco filmes brasileiros que mais me agradaram, que acabou com seis títulos.  Considerei um empate no quinto lugar.  Aí vai ela:

1. HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO, de Daniel Ribeiro.
2. O MERCADO DE NOTÍCIAS, de Jorge Furtado.
3. PRAIA DO FUTURO, de Karim Aïnouz.
4. GETÚLIO, de João Jardim.
5. QUANDO EU ERA VIVO, de Marco Dutra.
    O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra.

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO



quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

IV PRÊMIO ABRACCINE


Antonio Carlos Egypto



A Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema – como faz regularmente desde a sua fundação, em 2011, elegeu os melhores filmes do ano de 2014, entre os longas lançados comercialmente nos cinemas em todo o Brasil.

Em 2014, foram exibidos 379 longas, entre eles, uma safra muito expressiva de filmes brasileiros.  Foram escolhidos o melhor longa internacional e os melhores longa e curta nacionais, com base na votação dos associados, em dois turnos, que incluiu um debate via Internet sobre os filmes indicados.  São cerca de 100 associados, em 15 Estados brasileiros, que compõem a Abraccine.  O objetivo da entidade é o de promover formas de pensamento crítico, reflexão e debate sobre cinema.  É atualmente presidida pelo crítico Luiz Zanin Oricchio.

Os filmes escolhidos foram:

BOYHOOD: DA INFÂNCIA À JUVENTUDE, de Richard Linklater (longa internacional).
O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra (longa nacional).
LA LLAMADA, de Gustavo Vinagre (curta nacional).


O Lobo Atrás Da Porta



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

ACIMA DAS NUVENS


Antonio Carlos Egypto




ACIMA DAS NUVENS (Clouds of Sils Maria).  França, Suíça, 2014.  Direção e roteiro: Olivier Assayas.  Com Juliette Binoche, Kristen Stewart, Chloë Grace Moretz, Lars Eldinger.  123 min.


“Acima das Nuvens”, com roteiro e direção de Olivier Assayas, é um filme que apresenta uma narrativa muito bem estruturada no paralelismo de uma atriz que se prepara para refazer uma peça em que brilhou no passado, em novo papel, que reflete, repercute e modifica a relação dela com sua assistente.  Na vida como na peça.

Os diálogos são tão bem construídos que em boa parte das cenas não se consegue distinguir claramente se eles se referem a um trecho da peça ou à relação presente que estamos vendo.  Se é ficção, ensaio da peça, ou realidade, a relação que se dá entre a atriz e a assistente.




Se a peça original falava de uma relação amorosa entre duas mulheres a partir de um contexto profissional, o que assistimos acontecer agora é, a rigor, a mesma coisa.  O substrato do conflito é também o mesmo: a passagem do tempo, a diferença de idade e as características de ambas, que criam o contexto no qual a mais nova domina a relação e subjuga, de algum modo, a mais velha.

A personagem jovem na peça é Sigrid, que foi vivida no esplendor dos vinte anos de idade por Maria Enders (Juliette Binoche), atriz respeitada e consagrada.  Hoje, caberia a ela o papel da mais velha, Helena, que sente a passagem do tempo e é a que sofre a dominação da outra.  Um desafio e tanto, porque a faz conviver com seus medos e fantasmas.  Que se materializam na peça por uma nova Sigrid, a atriz Jo-Ann Elis (Chloë Grace Moretz), jovem audaciosa e amante de polêmicas.  E, ao mesmo tempo, podem se encontrar em Valentine (Kristen Stewart), a jovem assistente, viva, inteligente e objeto de desejo não explicitado.



Se o autor da peça envelhece e morre, sendo objeto de homenagens, o diretor teatral é jovem, talentoso e ambicioso.  Quer Maria Enders para viver Helena, depois de ter vivido Sigrid: um atrativo a mais para a montagem.  A personalidade e a notoriedade da atriz que fará a nova Sigrid garante o restante da publicidade.

O dilema de Maria Enders, em meio às montanhas suíças de Sils Maria, são o centro e a razão de ser da trama, magnificamente costurada.  O clima de ansiedade, tensão, desejo e hesitação que povoam a personagem são vividos com grande competência e sutileza por Juliette Binoche.  Pelas mãos hábeis de Olivier Assayas, o filme transmite a verdade psíquica de uma personagem rica, complexa e cheia de conflitos.  Fala-se de uma relação amorosa que oscila entre a repressão dos sentimentos e desejos e a disputa pelo poder.  Ou melhor, de duas situações similares, que ocorrem simultaneamente.  De amores adultos entre mulheres e do que o tempo significa para cada uma.



Valentine, em bom desempenho de Kristen Stewart, faz o contraponto perfeito para a grande atriz madura.  Chloë Grace Moretz tem a força e a vitalidade necessárias na representação de Jo-Ann Elis, a que será a nova Sigrid.  O jogo de cena entre as três principais personagens, três mulheres fortes, prende a atenção do espectador todo o tempo.  Há suspense e revelações à espreita.  A dubiedade que vive a personagem de Juliette Binoche nos envolve de tal modo que nos sentimos enredados na sua história.

“Acima das Nuvens” foi exibido na 38ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro último.  Foi um dos melhores títulos ali apresentados.  Não cheguei a incluí-lo na minha lista dos melhores do evento porque só o vi agora.  Um grande filme, em todos os sentidos

  

sábado, 20 de dezembro de 2014

CINEMA PARA AS FÉRIAS ESCOLARES


Antonio Carlos Egypto

Cinema ainda é uma boa atração para a garotada em férias, apesar da profusão de imagens que habita sua vida diária desde que nasceram?  Posso apostar que sim.  E não creio que só ação desmesurada, efeitos especiais em profusão ou vampiros em comédias românticas sejam capazes de interessá-la.


As Aventuras do Avião Vermelho

Estão entrando em cartaz filmes dirigidos às crianças e aos adolescentes que remetem a um outro tempo, a um tempo nostálgico, tanto nas histórias que contam quanto na sua criação.  A começar da animação “As Aventuras do Avião Vermelho”, dirigida por Frederico Pinto e José Maia, com base na obra de Érico Veríssimo.  Uma história em que a imaginação corre solta, realizada em moldes tradicionais. O filme foi feito com mais de 50.000 desenhos. Um avião de brinquedo vive grandes aventuras pelo mundo da imaginação de um menino que viaja com seus amiguinhos, brinquedos de estimação que ganham vida. Vozes de Milton Gonçalves, Lázaro Ramos, Wandi Doratiotto e Pedro Yan. São 70 minutos de alegria e muita fantasia.  Uma graça.


As Férias do Pequeno Nicolau

Se a criançada gostou da adaptação cinematográfica de “Le Petit Nicolas”, de Jean-Jacques Sempé e René Goscinny, vale recomendar “As Férias do Pequeno Nicolau”. As fantasias do pequeno Nicolau e sua turminha são um exemplo de humor inteligente, que é capaz de encantar crianças e adultos.  Ver crianças de terninhos de calças curtas e gravatas, por si só já soa tão estranho, que parece que o mundo em que vivemos é hoje irreconhecível. Agora o que vai chamar mais atenção é a moda: vestidos, penteados, roupa de praia, carros. “As Férias do Pequeno Nicolau” também é dirigido por Laurent Tirard, assim como o primeiro filme, e tem no elenco Mattheo Boisselier, Valérie Lemercier, Kad Merad e  Dominique Lavanant.  A duração é de  97 minutos.


O Segredo dos Diamantes

E será que os adolescentes vão curtir uma história de aventuras que se passa numa pequena cidade mineira, nas proximidades de Diamantina, onde um tesouro perdido pode estar enterrado?  O diamante e seus segredos fazem parte do imaginário dos habitantes da região desde sempre.  E ele serve aqui a um filme infantojuvenil de aventura que segue os referenciais do gênero e pode ser um bom entretenimento para a garotada. E não só a das pequenas cidades das Minas Gerais ou a da zona rural.  “O Segredo dos Diamantes”, de Helvécio Ratton, tem no elenco Matheus Abreu, Rachel Pimentel, Alberto Gouveia, Dira Paes e Rodolfo Vaz.  Dura 86 minutos.

Os três filmes aqui citados são produções de 2013 e estão sendo lançados no final de 2014. Parecem coisa do passado, mas daquele passado cujas lembranças continuam encantando as pessoas, grandes ou pequenas.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

RUN & JUMP


Antonio Carlos Egypto




RUN & JUMP (Run & Jump)Irlanda, 2013.  Direção: Steph Green.  Com Maxine Peake, Edward Machiam, Sharon Horgan, Will Forte.  102 min.


Um homem de 38 anos, marceneiro, casado e com filhos, sofre um derrame que deixa funções cerebrais comprometidas e gera transtorno de personalidade.  Após meses de hospitalização, ele volta para casa, para o convívio da família.  Mas volta acompanhado de um observador, pesquisador de problemas mentais, que vai viver com a família durante dois meses, para documentar e escrever relatórios científicos  sobre o processo de recuperação do paciente.

É óbvio que a família toda se sentirá observada e incomodada com a presença do estranho, especialmente a esposa.  E, claro, uma tal experiência não tem como dar certo e é do envolvimento do pesquisador com a família e dos problemas familiares que se tratará daí em diante.  Com direito a uma bizarra relação amorosa.




O ponto de partida, que cria a história do filme, não se sustenta.  Nas ciências humanas, não há como separar o pesquisador do seu objeto de pesquisa, uma vez que ele é parte integrante desse objeto.  A experiência de viver num determinado contexto humano, envolvido com ele, sentindo e interagindo com ele, é possível e pode trazer conhecimentos relevantes.  Desde que não se pretenda um distanciamento do objeto de estudo ou algum tipo de neutralidade, como a observação objetiva do fenômeno.  E aqui era o que se pretendia.

Diante disso, o personagem do pesquisador é apresentado como alguém que diz que não tem família e que vive para o trabalho.  Mais do que isso, ele é travado em coisas simples da vida, como interagir espontaneamente com crianças ou dançar.  Naturalmente, isso vai ter de mudar, ao longo da narrativa.  Mas a construção do personagem soa artificializada, numa situação que já não é crível.

Faltam a ele características humanas básicas que favoreçam a interação social.  Ou estão reprimidas de tal jeito, para que ele possa se dedicar a esse tipo de trabalho, que não lhe permitem viver com naturalidade.  Mas como se explica isso, num estudioso das ciências humanas?  É o contrário do que se supõe que seria alguém que se dedicasse a um trabalho como esse.




De outro lado, há os sentimentos da esposa, que recebe em casa um “novo” marido e um “novo” pai.  Que já não é capaz de cumprir essas funções, nem tem alcance do que se passa à sua volta.  Parece identificar-se com os sentimentos e ações dos animais, mais simples de serem compreendidos.  Portanto, alguém que se ausenta daquilo que lhe diria respeito.  Não obstante, está vivo, presente e atuante naquele espaço.  Embora nem mesmo seu talento com a marcenaria sirva mais para o sustento da família.  Quando a cabeça não funciona bem, tudo se complica.

A esposa, sobrecarregada com o problema do marido, as funções da casa e um estranho que também a observa,  nem percebe direito o que se passa com seu filho mais velho.  E tem de encontrar meios de se entender e se relacionar com esse homem, que está de passagem pela casa, mas que, em tese, seria capaz de resolver muitas questões da vida dela.

“Run & Jump”, o primeiro filme da cineasta Steph Green, acaba soando estranho e um tanto deslocado da realidade, apesar de buscar um tema denso e relevante e de todos os cuidados para a realização de um trabalho sério, sem preocupações ou concessões comerciais.




terça-feira, 9 de dezembro de 2014

MOMMY

 Antonio Carlos Egypto




MOMMY (Mommy).  Canadá, 2014.  Direção e roteiro: Xavier Dolan.  Com Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément.  138 min.


Xavier Dolan é um jovem ator, roteirista e diretor, do Canadá que fala francês, que, aos 25 anos, já está no seu quinto longa-metragem como cineasta.  E abocanhou alguns prêmios importantes em Cannes.

Seu primeiro filme, de 2009, já demonstra o quanto as relações mãe e filho absolutamente conturbadas estão no seu imaginário (e/ou, na sua experiência concreta).  O título é simplesmente “Eu Matei Minha Mãe”, revelador da força do Édipo e de desejos assassinos que povoam  mentes humanas em relações vitais.  Novos e terríveis embates entre mãe e filho ocupam a tela do cinema em seu novo filme, “Mommy”.




Aqui, um garoto superagitado, provocador e com atos delinquenciais frequentes, aos 15 anos de idade, provoca um pandemônio na vida da mãe.  A ponto de levá-la a interná-lo, para poder se ver livre dele, apesar da culpa que isso lhe acarreta.  Ele é louquinho e carente, perdeu o pai há pouco e isso é um agravante, ou explicação, apresentado pelo filme.  Mas a mãe não fica atrás.  Não podia ser mais inadequada e incompetente a sua atuação como mãe.  E é um completo desastre a sua falta de controle emocional.  Ela só agrava os problemas e põe tudo a perder.  Numa relação assim, é preciso que alguém mais apareça para dar algum equilíbrio ao relacionamento.  Providencia-se, então, uma vizinha perdida, comprometida no seu trabalho de professora por problemas vocais que, embora viva com o marido, parece totalmente desconectada dele.  Por isso, solta no mundo e disponível.

 

Por aí já se vê que tudo está fora do lugar.  Mas o pior é o modo como o diretor conduz a narrativa.  É tudo muito histérico, exagerado, aos gritos.  Cansativo e irritante.  Mas se você, como espectador, for capaz de resistir a esses estímulos agressivos e aguentar o registro over do cineasta, vai perceber que, por trás de toda essa história, há ideias, preocupações válidas e, principalmente, capacidade de encenação.  Há criatividade na composição de muitas cenas, beleza visual, enquadramentos estilosos.  Não é um filme para se desprezar, não.




Está sendo considerado o melhor trabalho do enfant terrible Xavier Dolan.  De seu primeiro filme, a que já me referi, nem se fale, era tosco e equivocado, apesar de já forte e intenso, além de altamente provocador.  Depois vieram “Amores Imaginários”, de 2010, “Laurence Anyways”, de 2012, e “Tom na Fazenda”, de 2013.  Não vi todos, que ninguém é de ferro, e já nem me lembro bem deles, mas, apesar disso, posso apostar que, com “Mommy”, o diretor cresceu artisticamente, amadureceu.  Há quem adore o seu estilo, há quem não o suporte.  Não sei qual será o seu caso, mas, gostando ou não, há que se reconhecer talento no trabalho de Xavier Dolan.