domingo, 14 de setembro de 2014

O PEQUENO FUGITIVO


Antonio Carlos Egypto




O PEQUENO FUGITIVO (Little Fugitive).  Estados Unidos, 1953.  Direção e roteiro: Morris Engel, Ruth Orkin e Ray Ashley.  Com Richie Andrusco, Rickie Brewster, Winifred Cushing, Jay Williams.  80 min.



“O Pequeno Fugitivo” é uma pequena joia cinematográfica, produzida em 1953, que nunca foi exibida no Brasil e agora chega aos nossos cinemas em cópia restaurada.  O filme foi premiado com o Leão de Prata, no Festival de Veneza 1953, recebeu elogios do famoso crítico André Bazin e foi citado por François Truffaut como um dos inspiradores da nouvelle vague.  E é bom o bastante para ser apreciado com todo o interesse sessenta anos depois de sua concepção.



Trata-se de uma produção, com uma bela fotografia em preto e branco, que retrata as aventuras de um menino de 7 anos, Joey (Richie Andresco), em Coney Island.  Em meio às atrações de uma praia e de um parque de diversões, ele transforma uma fuga num grande brinquedo, em que os perigos o estão rondando a todo instante.

O mote da fuga remete à ingenuidade e à fantasia infantil.  Joey crê na brincadeira de seu irmão mais velho, Lennie (Rickie Brewster), de que o teria matado ao manejar uma arma.  Os garotos da turma o amedrontam, fazendo-o crer que será preso, e aí começa sua aventura.




É muito interessante ver o filme hoje, porque ele nos leva à Nova York dos anos 1950, cheia de detalhes.  Mostra roupas, trajes de banho e hábitos de banhistas numa praia e a relatividade dos perigos de uma época em que um garoto de 7 anos ainda podia passar a noite dormindo na areia, sem grandes consequências.

Mas o melhor de tudo é como as coisas acontecem e são mostradas no filme.  Com muita naturalidade e leveza, sem as amarras determinadas pelo modo clássico de contar histórias no cinema.  Com a simplicidade de produção que caracterizou o neorrealismo, mas sem o enfoque social que o marcava.  Focado no mundo interno e nas ações de uma criança, que se move em função do que lhe parece verdadeiro, mas que nunca deixa de ser marcadamente criança.  Isso vale para o protagonista, mas também para o seu irmão e para as outras crianças que aparecem no filme.  O medo, o desespero, a fuga, a sobrevivência, a procura incessante, o remorso, a necessidade de enganar a mãe e evitar uma punição, tudo isso é vivido de forma lúdica, como é característico das crianças.  Ou seja, o que pode até ser trágico vira brinquedo.




Um admirável trabalho realizado por pessoas que não fizeram história no cinema, a começar pelo ator mirim, Richie Andrusco, ótimo, que não fez carreira e foi cuidar da sua vida, fazendo outra coisa.  Hoje, já idoso e aposentado, pode se lembrar com alegria desse filme tão cativante que ele protagonizou, aos 7 anos de idade: “O Pequeno Fugitivo”.




quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A 100 PASSOS DE UM SONHO


Antonio Carlos Egypto




A 100 PASSOS DE UM SONHO (The Hundred-Foot Journey)Estados Unidos, 2013.  Direção de Lasse Hallström.  Com Helen Mirren, Manish Dayal, Om Puri, Charlotte Le Bon.  122 min.


O diretor sueco Lasse Hallström é bom para contar histórias humanas que envolvam personagens que lutam, sofrem, mas têm determinação no que fazem.  Fez filmes magníficos, como “Minha Vida de Cachorro”, de 1985, na Suécia, e “Regras da Vida”, de 1999, nos Estados Unidos.  Tem desenvolvido sua carreira em Hollywood, também com filmes menos densos, de entretenimento, como “Chocolate”, de 2000, ou “Querido John”, de 2010, por exemplo.  É, inegavelmente, um cineasta competente.




Foi ele o escolhido para dirigir uma produção de Steven Spielberg, Oprah Winfrey e Juliet Blake, chamada “A 100 Passos de um Sonho”, uma história que combina, de fato, com o que o diretor sabe fazer.  E com produtores desse peso deve ter sido bom trabalhar.

A história se passa no sul da França, na localidade de Saint-Antonin-Noble-Val, para onde acaba chegando, por obra da sorte, uma família indiana dona de um restaurante conceituado na Índia, fugindo de perseguições religiosas em seu país.




Naturalmente, o caminho será montar um restaurante típico de comida indiana por lá.  E é o que Papa (Om Puri) faz, pondo sua família a cozinhar e tratando de divulgar a novidade de forma até espalhafatosa, com muitas luzes e cores, música alta e tudo o mais.

Acontece que, a apenas 100 passos, está um premiado restaurante francês de alto padrão, com uma estrela do Michelin, dirigido por Madame Mallory (Helen Mirren).  A novidade do concorrente indiano Maison Mumbai aparece como um pesadelo para ela.  Comida de lá, comida de cá, brigas, desentendimentos, competição.  Mas também curiosidade e necessidade de entender o outro lado.  E até um relacionamento amoroso potencial entre o jovem e talentoso chef  Hassan (Manish Dayal), da cozinha indiana, e a jovem chef Margueritte (Charlotte Le Bon), da gastronomia francesa.




Com um filme desses, o mínimo que acontece é que a gente sai de lá salivando, em busca de uma comida saborosa, diferente.  Dá fome e até parece que a gente sentiu o cheiro daqueles pratos fumegantes, maravilhosos, de um lado e do outro daquela rua gastronômica.

Certamente, uma diversão bem realizada, muito agradável de se ver, com ótimos atores, destacando-se, como sempre, a interpretação de Helen Mirren.  Os indianos também são muito bons e Charlotte Le Bon, uma graça.  Como entretenimento, está de bom tamanho.





quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A OESTE DO FIM DO MUNDO


Antonio Carlos Egypto




A OESTE DO FIM DO MUNDO.  Argentina/Brasil, 2012.  Direção: Paulo Nascimento.  Com César Troncoso, Fernanda Moro, Nelson Diniz.  104 min.


Num tempo em que as pessoas são bombardeadas por imagens, estão plugadas o tempo todo, não há o tempo e o espaço indispensáveis para parar, observar, pensar em si mesmas e na vida, um filme que se propõe a ser uma experiência contemplativa cai muito bem.  Ou melhor, cairia, se as pessoas se dispusessem a isso.

É o caso, por exemplo, do filme “A Oeste do Fim do Mundo”, produção argentina e brasileira, rodada na região de Mendoza, em Uspallata, na majestosa Cordilheira dos Andes, na Argentina, nas proximidades do Chile.




A locação, por si só, já vale o filme.  A fotografia realça a beleza da paisagem.  Montanhas imponentes, de uma mansidão que contrasta com sua força.  Um lugar perdido no meio do nada.  Um homem solitário, um posto de gasolina, que recebe, ocasionalmente, algum caminhão ou outro veículo, que param para abastecer.  Numa das primeiras cenas do filme, um furgão  para, mas León (César Troncoso), o homem do posto, está comendo.  Termina calmamente de mastigar, antes de se dispor a atender o freguês.  Sem pressa.  Assim como a paisagem é completamente outra, o tempo também é.

Quem ali vive, ou por ali vai ficando, está fugindo de algo, de si mesmo, dos conflitos e culpas que carrega consigo ou de sua incapacidade de dar conta dos desafios que a vida lhe apresenta.  Ou, quem sabe, de crimes que cometeu.  Poderia até não ser assim.  Mas, no caso dos personagens de “A Oeste do Fim do Mundo”, é assim.



Lá estarão convivendo com o argentino León os brasileiros Silas (Nelson Diniz), motociclista sarcástico que passa sempre pelo posto, trazendo peças para consertar uma moto, e Ana (Fernanda Moro) que, circunstancialmente, teve de parar por ali e foi ficando. A presença dela modifica a vida não só de León como de Silas e, é claro, dela mesma.  Enfrentamentos podem doer muito, mas são coisas necessárias à nossa existência.

O filme faz tudo a seu tempo.  Pouco a pouco vai mostrando os personagens, seus silêncios, medos, suas poucas falas e os mistérios que escondem. A malfadada guerra das Malvinas se faz presente.  Não é uma história original a que vai se revelando.  É até previsível, pode-se inferi-la antes de que seja revelada, mas vale aproveitar esse tempo para conhecê-los, cercados pelas montanhas, apartados do mundo, na Ruta 7, Argentina, na imensidão da estrada transcontinental da Cordilheira.




O ótimo ator uruguaio César Troncoso faz o protagonista León, que contracena com o personagem brasileiro de Nelson Diniz, que se expressa em espanhol, e a personagem de Fernanda Moro, que só fala português com ambos.  A importância da língua como marca de um povo é explorada pelo filme, que se preocupa com a questão da identidade e do pertencimento a um agrupamento humano que dê sentido à vida.  Na origem, claro, está sempre a família.

Bom trabalho do diretor  gaúcho  Paulo Nascimento, que realizou “A Oeste do Fim do Mundo”, filmando a história na ordem e nos horários reais das cenas, já que a intensa mudança de luz na Cordilheira tornaria difícil a utilização de outro processo de filmagem.  O filme está sendo apresentado nos cinemas com uma sessão diária acessível, com audiodescrição e legendas.




terça-feira, 26 de agosto de 2014

FILHA DISTANTE


Antonio Carlos Egypto



FILHA DISTANTE (Días de Pesca).  Argentina, 2012.  Direção e roteiro: Carlos Sorín.  Com Alejandro Awada, Victoria Almeida e um grupo de não atores.  78 min. 


O diretor argentino Carlos Sorín tem entre seus filmes “Histórias Mínimas”, de 2002.  À parte de ser um belo trabalho, esse título, na realidade, resume a obra do cineasta e sua postura.

“Filha Distante”, a tradução brasileira para “Dias de Pesca”, é também uma história mínima.  Pouca coisa acontece de fato.  O filme é marcado pelos climas que produz, pelos gestos, olhares, hesitações, tempos mortos e uma locação especialmente atraente por sua beleza, mas também por seu vazio e isolamento.  Estou me referindo à região da Patagônia, o lugar para onde Marco (Alejandro Awada) se dirige para tentar uma virada em sua vida.  Na região, vive sua filha Ana (Victoria Almeida), de quem ele se distanciou por muitos anos.  No meio dessa distância, está o alcoolismo, do qual Marco se sente agora reabilitado, após um longo tratamento.



O reencontro com a filha, por certo difícil, aparece como sendo uma motivação a mais na escolha que Marco faz de adotar a pesca como hobby.  O título original remete a essa escolha.  O título brasileiro, à motivação subjacente, na realidade a mais forte e importante.

O filme nos levará à Patagônia por meio das experiências e emoções vividas por Marco.  Pouco se fala, mas muito se mostra dos sentimentos que ele vive.  A interpretação minimalista de Alejandro Awada cai como uma luva nesse fio de história.  A sua interpretação é sutil, refinada, revela tudo nas pequenas coisas que manifesta.  O ambiente, de uma beleza desoladora, pode tanto remeter à tranquilidade e a uma aposentadoria calma e isolada quanto pode ser hostil e fonte de frustrações.  Há espaço para a somatização das emoções e a perda do controle de si mesmo.  Perder-se e reencontrar-se equilibram-se, de um modo um tanto imprevisível e surpreendente.  Cabem interpretações diversas.



Segundo Sorín, os filmes não são feitos na tela, mas na mente do espectador, que com sua sensibilidade e experiência, completa o filme.  Acho que, além disso, cada um vê seletivamente o que as imagens trazem.  É curioso notar que, em filmes como esse, coisas bem diferentes podem ser retidas e interpretadas por cada crítico ou espectador.

É, de fato, uma jornada pessoal o que se experimenta a partir daquele personagem e seu ambiente.  É um cinema para onde se vai aberto, disposto a pensar e sentir, na condição privilegiada de observador da vida.  Mas o que se capta tem mesmo a ver com as características de personalidade, a experiência e a vivência de cada um.  E o observador entra na tela ou se vê invadido por ela.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

25º. FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURTAS METRAGENS DE SÃO PAULO


Antonio Carlos Egypto

Já começou em São Paulo o Festival Internacional de Curtas Metragens organizado pela equipe chefiada por Zita Carvalhosa.  É a vigésima quinta edição de um festival que reúne o que de mais significativo se produz no formato curta, no Brasil, na América Latina e no mundo, na medida em que traz os premiados dos principais festivais de cinema que incluem os curtas.

Neste ano serão exibidos 337 filmes selecionados entre 3400 inscritos, cerca de metade deles são produções brasileiras e estão representados 51 países.  Os filmes são apresentados em blocos de 3 a 6, agrupados por origem: Mostras Internacional, Latino-Americana, Brasil, Panorama Paulista, Cinema em Curso.  Ou em programas especiais temáticos, como 100 Anos de Cortázar, Diversidade Sexual – Assunto de Família, Mostra Infanto-Juvenil e o muito apropriado Quebrando Muros, que celebra os 25 anos não só do próprio festival, como da queda do muro de Berlim.



  As sessões são todas gratuitas, com ingressos distribuídos uma hora antes do seu início.  Os locais que fazem parte do festival são o MIS – Museu da Imagem e do Som, a Cinemateca Brasileira, o Cinesesc, o Espaço Itaú Augusta, o cine Olido, o Centro Cultural São Paulo, o Cinusp e o Circuito Municipal de Cultura, que inclui vários CEUs municipais na programação.

São tantas opções, e tudo ocorre simultaneamente em todos esses espaços, que é difícil indicar o que assistir.  É uma grande variedade e certamente tem muita coisa que vale a pena ver.

Vou destacar alguns que me agradaram, como o colombiano “Leidi”, de Simon Mesa Soto, de 15 minutos, os alemães “Berlim, Berlim”, de Hartmut Jahn, de 4 minutos, uma colagem musical sobre a queda do muro de Berlim, e “Três Pedras para Jean Genet”, de Frieder Schlaich, de 7 minutos.  Há um francês em 3D, bem original, “Diário de uma Geladeira”, de Josephine Robe, de 6  minutos, que trata de trinta anos na vida de uma família, do ponto de vista de uma geladeira.  Espetacular é o brasileiro “Meu Amigo Nietzsche”, de Fauston da Silva, de 15 minutos.  Nele, a leitura reiterada de “Assim Falou Zaratustra”, de Nietzsche, provoca uma hilária e violenta revolução na mente de um garoto, sua família e a sociedade.  Humor muito inteligente, de alta qualidade, em timing perfeito, que produz sonoras gargalhadas na plateia.  Vale a pena garimpar esses curtas e encontrar pérolas como essas.  Deve haver muitas na programação e para todos os gostos.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A PEDRA DE PACIÊNCIA


Antonio Carlos Egypto




A PEDRA DE PACIÊNCIA (Syngué Sabour). Afeganistão/França, 2012.  Direção: Atiq Rahimi.  Com Golshifteh Farahani, Hamidreza Javdan, Hassina Burgan, Massi Mrowat.  102 min.


Imagine-se vivendo uma vida cotidiana no Afeganistão.  Como o país está em guerra constante, sua casa será parcialmente destruída, de tempos em tempos, andar na rua será perigoso, pode faltar trabalho, dinheiro, água, víveres.  Se você não é mulher, imagine-se sendo uma e precisando da burca para sair da porta de casa em diante.  No meio das lutas tribais, seu marido foi baleado e segue vivo, mas em coma.  E ele tem de ficar em casa, não há hipótese de deslocá-lo ou obter um tratamento hospitalar.  Nessas condições, sobreviver vai ser muito difícil, mas quem sabe possa lhe oferecer a possibilidade de conversar com ele e abrir seu coração. Vocês estão casados há dez anos, mas ele não a conhece e nem imagina o que já se passou com você ao longo desses anos, ou antes deles.  Se ele não puder ouvir, pelo menos você fará uma terapia para aliviar sua carga tão pesada de vida.



Mas, à semelhança do trabalho de Pedro Almodóvar no filme “Fale com Ela”, de 2001, é possível ter esperança de que, falando com ele, enquanto provê o soro e cuida de seu corpo, a vida possa retornar e, quem sabe, em outras bases, ao menos no relacionamento conjugal.

É por aí que vai o filme do escritor e cineasta afegão Atiq Rahimi, nascido em Cabul em 1962, que vive na França, onde estudou e trabalha, com dupla nacionalidade.  Sua história remete ao Afeganistão.  “A Pedra de Paciência” foi escrita por ele e roteirizada em conjunto com Jean-Claude Carrière, um dos mais destacados roteiristas do cinema francês.




É uma narrativa tocante.  Vivemos a vida de uma mulher desamparada, que só pode contar com uma tia.  No entanto, para procurá-la, tem de se aventurar nas ruas belicosas da cidade, onde a morte ronda a todo instante, e não sabe o que encontrará quando retornar.  Pode ter sua casa invadida por soldados, terá sempre o risco de ser estuprada, desrespeitada, e a burca que a cobre inteira não a protege de nada.  Apenas a oprime.  Mas ela é forte.  É uma personagem que briga pela vida, sob as condições mais improváveis.




A jovem atriz que vive essa mulher é Golshifteh Farahani, brilhante num papel em que ela trabalha sozinha a maior parte do tempo: fala a um homem inerte.  Ela salienta a luta dessa personagem e a sua força, muito mais do que a sua desgraça ou falta de perspectivas.  Isso dá ao filme uma dimensão extremamente interessante e nos envolve com a personagem.  E ainda nos dá uma boa noção do que é viver em alguns países do mundo tomados pelas invasões estrangeiras, pelas guerras internas, pelos fundamentalismos étnicos e religiosos.  Quem sofre são as pessoas simples do povo, a quem não se dá o direito de uma vida minimamente respeitável, digna, corriqueira.  De uma vida humana, enfim.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

AMANTES ETERNOS

Antonio Carlos Egypto




AMANTES ETERNOS (Only Lovers Left Alive).  Estados Unidos, 2013.  Direção e roteiro: Jim Jarmusch.  Com Tilda Swinton, Tom Hiddleston, Mia Wasikowska, Anton Yelchin, John Hurt.  122 min.


Uma história de amor que dura séculos, como a de Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton) não chega a ser surpresa, num filme de vampiros.  Adam and Eve?  Seriam os vampiros mais ancestrais do nosso planeta?  Não importa muito. 

O que mais me chamou a atenção no filme “Amantes Eternos”, de Jim Jarmusch, foi o modo como ele trata das velhas e conhecidas questões vampirescas que sempre estiveram presentes na história do cinema e nas suas constantes atualizações.



Vampiros do século XXI , refinados e sofisticados, já não saem por aí atacando as jugulares das pessoas.  Que coisa mais primitiva e arriscada!  Muito mais elegante e atual é subornar um profissional de saúde de um bom hospital, o que garante não só a boa qualidade do sangue, como já o entrega devida e adequadamente embalado para transporte e armazenagem.  E, em vez de se lambuzar todo de sangue, que tal sorvê-lo convenientemente em pequenas taças, como se faz com o melhor vinho?  Também é possível inovar e fazer picolés de sangue em forma de sorvete, mantidos no congelador.

Vampiros sofisticados será que ainda têm medo de alho?  Não se vê alho no filme e, a não ser por uma frase en passant, o assunto já não se coloca.  E aquela história de cruzes e outros símbolos religiosos, capazes de destruir os seres vampirescos?  Esqueça, isso é um papo antigo, que lembra o período medieval das caças às bruxas.  Bem, é claro que os vampiros se lembrarão não apenas desse episódio histórico, mas de muitos outros que eles viveram nos últimos quinhentos anos.  Só que o mundo mudou e eles mudaram, também. Hoje, os medos e os perigos que os envolvem são outros.



É preciso evitar a luz solar, viver à noite, afinal, isso é da natureza dos vampiros por todos os séculos.  Mas um risco maior, atualmente, é o do sangue contaminado.  Especialmente num mundo globalizado não se pode consumir qualquer sangue, não.  Isso, sim, é capaz de pôr fim à existência de um vampiro que, por exemplo, foi contemporâneo de Shakespeare e, como ele, escritor: Marlowe (John Hurt).

O problema também é que nem todos os vampiros alcançam o nível dos nossos protagonistas.  Ava (Mia Wasikowska), a irmã mais nova de Eve, é um caso sério: é bagunceira, nunca se sacia e não resiste a uma jugular atraente.  A ponto de matar seu fornecedor.  Uma coisa é morder e vampirizar a presa, outra, é matá-la.  Tudo tem limite.



Quanto aos zumbis, os mortos-vivos que convivem com os vampiros, eles podem estar em qualquer lugar, seja na indústria do cinema, em Los Angeles, seja na indústria fonográfica, e atrapalhar muitas coisas.  Mas também podem ser muito úteis em diversas situações, como a relação entre Adam e Ian (Anton Yelchin), que aparece no filme, demonstra. 

Essas são questões que surgem no filme “Amores Eternos”.  Eu pincei algumas das que me pareceram mais atraentes.  Elas perpassam a história de amor, dando-lhe um sabor especial (epa!).  Não significa que façam do filme uma comédia.  “Amantes Eternos” tem muito humor, mas se desenvolve num registro sério e romântico, até com baixo astral.  Adam, por exemplo, é um vampiro sofisticado, que compõe e adora música e instrumentos musicais maravilhosos e especiais, mas é um ser desanimado com a vida, depressivo.  Coisas que acontecem com o passar de tanto tempo.  Só mesmo o reencontro com Eve poderá mudá-lo.  Então, não espere agilidade, rapidez, correria.  Afinal, os vampiros têm todo o tempo do mundo, quando o sangue está à disposição e devidamente armazenado.  Essa estabilidade será rompida e aí as coisas se complicam.  Nem por isso o filme se acelera, mas o suspense cresce.

Se você gostou do que apresentei neste meu relato, não vai deixar de ver esse filme, claro.  Se você acha tudo isso irrelevante, tente uma outra estreia cinematográfica.  Simples assim.




terça-feira, 5 de agosto de 2014

O MERCADO DE NOTÍCIAS


Antonio Carlos Egypto




O MERCADO DE NOTÍCIAS.  Brasil, 2013.  Direção e roteiro: Jorge Furtado.  Documentário.  94 min.


“O Mercado de Notícias”, o documentário de Jorge Furtado, visa a discutir critérios e práticas jornalísticos, defender o bom jornalismo e o importante papel que tem na consolidação da liberdade de expressão e da democracia e, também, avaliar como a notícia é produzida, manipulada e difundida, enquanto negócio, o seu poder, os riscos que tudo isso envolve e o futuro da profissão.

Contou com a contribuição de treze importantes jornalistas brasileiros, que apresentaram sua visão dessas questões em entrevistas e depoimentos.  São profissionais de grande porte e experiência: Mino Carta, Jânio de Freitas, Luís Nassif, Raimundo Pereira, Paulo Moreira Leite, Bob Fernandes, José Roberto Toledo, Geneton Moraes Neto, Maurício Dias, Leandro Fortes, Cristiana Lôbo, Renata Lo Prete e Fernando Rodrigues.


JÂNIO DE FREITAS


O documentário, porém, não se resume só às falas dos jornalistas e a alguns vídeos esclarecedores de situações tratadas na conversa.  Há, também, o resgate de uma peça de título homônimo, “Mercado de Notícias”, no original, “Staple of News”, escrita por Ben Jonson, em 1625, que teve sua primeira tradução realizada agora, por Jorge Furtado e Liziane Kugland.  Trechos da peça são lidos e encenados, com roupas de época e tudo, e fazem a delícia e a originalidade desse filme. Ben Jonson, grande dramaturgo da renascença inglesa, contemporâneo de William Shakespeare, a escreveu nos primórdios da existência da imprensa e surpreende pelas questões que constata e prevê.  É impressionante a atualidade da peça.



Ela aborda um personagem jovem, Pila Jr., cujo tio Pila lhe deixa uma herança polpuda, desde que ele seja capaz de conquistar a bela e rica Pecúnia, ou seja, o dinheiro e o poder.  A dama é cortejada por muitos e tem como servas Hipoteca, Norma, Promissória e Taxa.  A novidade em Londres é o recém-criado mercado de notícias, um negócio que  parece muito promissor.  Emoções e novidades, que constituem o cerne da notícia, são o objeto de venda.  Custam mais ou menos caro, conforme o interesse do comprador.  As notícias podem ser aumentadas, inventadas, modificadas, se os compradores assim o desejarem.  A venda de fofocas é um sucesso, naturalmente.  E o departamento comercial é criado para ditar o rumo da produção e distribuição das notícias.



Na peça de Ben Jonson, fica evidente a denúncia da mercantilização da informação, num período imediatamente posterior ao nascimento da própria imprensa.  Ali já havia trambicagem, manipulação, venda de notícias por dinheiro e a maquiagem da informação.  Ao mesmo tempo em que mostra a valorização e, portanto, o poder, de quem detém a notícia.  Apresenta a discussão política sobre o interesse constante pelo dinheiro nesse negócio e como ele transforma a informação e relativiza a verdade.  Colocações incrivelmente atuais e que não se esperava que já estivessem tão claras no século XVII.

O filme de Jorge Furtado mostra alguns exemplos contemporâneos e brasileiros dessa manipulação das notícias.  Um caso marcante e já bastante citado é o das “denúncias” de abuso sexual na Escola Base, de Educação Infantil, que destruiu reputações e é emblemático do poder demolidor que pode ter a mídia.

Outro exemplo é o da famosa bolinha de papel que atingiu o então candidato presidencial José Serra e foi noticiada como agressão com um objeto pesado, com direito a ida a um pronto-socorro e realização de exame tomográfico.  Diferentes vídeos de várias emissoras de TV, por ângulos diversos, exibidos no filme, mostram claramente que era mesmo só uma bolinha de papel e levantam dúvidas sobre quem a teria atirado. Sempre estiveram disponíveis, mas essa “investigação” não interessou aos grandes órgãos da mídia naquele momento.



Chega a ser hilário um outro caso relatado: o da presença de um desenho original de Picasso, ornando uma sala do INSS.  Merece atenção e foi pouquíssimo divulgado.

Enfim, o filme “O Mercado de Notícias” é uma excelente oportunidade para refletir sobre o jornalismo e o consumo da notícia na atualidade.  Ajuda-nos a perceber ao que podemos estar expostos numa absorção ingênua da informação manipulada.  Valoriza a busca da informação qualificada, fruto de investigação e verificação, que é fundamental para a vida moderna.  E a separar o que é notícia, necessariamente dependente dos fatos, do que é opinião ou interpretação ideológica dos acontecimentos.  Ou seja, a colocar cada coisa no seu devido lugar.

Mais um ótimo trabalho de Jorge Furtado e da Casa de Cinema de Porto Alegre, que já nos deram filmes como “Ilha das Flores”, curta de 1989, “Houve Uma Vez Dois Verões”, de 2002, “O Homem que Copiava”, de 2003, “Meu Tio Matou um Cara”, de 2004, e “Saneamento Básico, o Filme”, de 2006.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

COMO NA CANÇÃO DOS BEATLES: NORWEGIAN WOOD

Antonio Carlos Egypto




COMO NA CANÇÃO DOS BEATLES: NORWEGIAN WOOD (Noruwei no Mori). Japão, 2010.  Direção e roteiro: Tran Ahn Hung.  Com Ken’ichi Matsuyama, Rinko Kikuchi, Kiko Mizuhara, Kengo Kôra.  133 min.


O cineasta vietnamita Tran Ahn Hung realiza um trabalho estético sofisticado no cinema.  Como atestam seus filmes, “O Cheiro do Papaia Verde”, de 1993, e “Luzes de um Verão”, de 2000.  Não é diferente com este “Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood”.  Ele realiza enquadramentos belíssimos, sobretudo em locais de natureza exuberante, ou pequenos espaços que contemplem plantas e objetos marcantes para a trama e passeia sua câmera pelos ambientes e pelas pessoas.  Faz um uso intensivo do close, para mostrar rostos, objetos, detalhes relevantes.  É algo para ser sorvido, apreciado sem pressa, cultivando a beleza.

No filme, a fotografia de Ping Bin Lee, que também trabalhou com Wong Kar Wai, em “Amor à Flor da Pele”, tem uma participação fundamental nessa estética.  As locações, como sempre, são de tirar o fôlego, de tão belas.  Nos filmes anteriores, mostravam belezas do Vietnã, agora, do Japão.  Como a ação se passa parte em Tóquio, parte, no interior, e numa região de montanhas, o verde exuberante, o branco da neve, o pôr-do-sol se destacam na tela, emoldurando um drama de amor baseado no romance de Haruki Murakami.



A questão central colocada pela narrativa indaga sobre o amor verdadeiro e que vicissitudes ele pode suportar.  Esse amor pode resistir ao suicídio da pessoa amada?  Resistirá a uma espera longa, quase infinita?  E à presença de um outro ou outra junto ao ser amado?  Enfrentará o desequilíbrio mental da pessoa amada e suas dificuldades sexuais?

Não são perguntas retóricas.  Elas estão contextualizadas na história de cada personagem, seus desejos, medos e expectativas.  E são expostas de forma clara, como na situação da personagem Naoko (Rinko Kikuchi) que apresenta um quadro de vaginismo associado a outros desequilíbrios emocionais.


 

A morte, sempre presente e interferindo na relação dos amantes, a imperiosidade da escolha, o tempo que decorre, as frustrações que se apresentam, são partes integrantes e determinantes do drama vivido pelo protagonista Watanabe (Ken’ichi Matsuyama) junto a Naoko, namorada do amigo morto Kizuki (Kengo Kôra), que vivem uma complicada paixão.  A isso se junta a relação de Watanabe com Midori (Kiko Mizuhara), que também o ama, mesmo sabendo de sua relação com Naoko.  E que, por outro lado, tem um namorado.  Por aí segue a roda dos amores e dos desejos.

O contexto em que tudo isso se dá é o Japão do final dos anos 1960, a agitação política que tomou conta do mundo e tem sua expressão em grandes cidades, como Tóquio.  Mas esse é apenas o pano de fundo da história, não tem maior peso ou significado nas ações dos personagens.




A trilha sonora inclui a música dos Beatles, incorporada ao título, e tem a autoria de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.  Música que serve para acentuar a arte do belo que o filme cultua.

Em São Paulo, ele está sendo exibido no cine Belas Artes, devidamente reformado e reincorporado à vida cultural da cidade, graças a uma campanha popular que teve o apoio da Prefeitura e o patrocínio da Caixa.


terça-feira, 29 de julho de 2014

O HOMEM DAS MULTIDÕES


Antonio Carlos Egypto



O HOMEM DAS MULTIDÕES.  Brasil, 2013.  Direção e roteiro: Cao Guimarães e Marcelo Gomes.  Com Paulo André, Sílvia Lourenço, Jean-Claude Bernadet.  95 min.


“O Homem das Multidões”, ou melhor, o homem solitário em meio à multidão.  Que caminha só, no mar de gente que circula pelas plataformas urbanas de trens.  Que caminha junto aos trens e aos seus trilhos.  Que entra no trem.  Que observa do alto a passagem dos trens.  Sua vida parece se resumir aos trens.

Esse homem é Juvenal (Paulo André), maquinista de metrô em Belo Horizonte.  Vive e mora só e cumpre bem sua função no trabalho.  Relaciona-se na função com Margô (Sílvia Lourenço), controladora do fluxo dos trens.  Há mais silêncios do que contatos verbais nessa relação.



Margô está para se casar, põe convite para seu casamento na oficina de trabalho.  Mas é igualmente uma mulher solitária.  O casamento resultou de um site de relacionamentos na Internet, em que encontrou o perfil ideal para ela.  E, supõe-se, valha o mesmo para o consorte. Relacionamentos virtuais se complicam quando passam para o mundo real.  Coisas prosaicas, como ter um padrinho, podem se tornar um problema, porque aí não valem as categorias utilizadas pelas redes sociais.  Amigos não se obtêm com um toque.

É dessa substância reflexiva -- solidão, isolamento, incomunicabilidade, virtualidade – no esgarçado tecido urbano das grandes cidades, que se nutre o filme de Marcelo Gomes e Cao Guimarães.




Há muita beleza nas imagens que eles produzem, nos enquadramentos expressivos, que dizem muito, nos tons esmaecidos, sem vida, que compõem com precisão a forma que relata o que experimentam os personagens.  Mas há outro fator que é ainda mais marcante: a redução intencional da imagem.

Quando a projeção começa, você vê que o filme ocupa pouco mais do que o terço central da tela do cinema.  Quase dois terços estão vazios, há espaço semelhante ao projetado, tanto à direita, quanto à esquerda.  E mais: o tamanho da tela parece pequeno para o que se quer mostrar.  As coisas estão espremidas na imagem, pessoas que interagem ficam fora do quadro, às vezes, ou alguém cobre parte do quadro, como que a mostrar que o resto da tela que não está sendo usado faz falta.  O mundo se apequena, se espreme, se reduz.  As possibilidades humanas de viver estão limitadas pela solidão profunda em meio à multidão.  Isso está na utilização da tela, tanto quanto ou mais do que nas cenas mostradas.



A redução da existência incomoda, prende, limita também o espectador.  O tempo custa a passar, dá vontade de sair dali, respirar com desenvoltura, ocupar o espaço e interagir com os outros.  Sair do sufoco.

Como se pode ver, o filme incomoda porque é muito bem feito, atinge seus objetivos.  Certamente, não diverte.  É um filme experimental, que está buscando outras coisas. E explorando as múltiplas possibilidades da linguagem cinematográfica.




O trabalho do pernambucano Marcelo Gomes e seus parceiros, no caso, aqui, o mineiro Cao Guimarães, tem sido marcado pela busca de renovação dessa linguagem, como atestam filmes como “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de 2005, e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, de 2009, trabalhos indispensáveis para quem quer apreciar o que de melhor se fez no cinema brasileiro, nos últimos anos.  “Era Uma Vez Eu, Verônica” (veja crítica publicada aqui, em novembro de 2012), embora menos inovador, é um trabalho igualmente denso e consistente.  “O Homem das Multidões” é um filme que merece toda a atenção, embora se dirija a um público restrito, por sua concepção.