domingo, 19 de outubro de 2014

A GANGUE


Antonio Carlos Egypto



A GANGUE (Plemya).  Ucrânia, 2014.  Direção e roteiro: Myroslav Slaboshpytskiy.  Com Grigory Fesenko, Yana Novikova, Rosa Bably, Alexander Dsiadevish, Yaroslav Biletsky.  132 min.


Na 38ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, está sendo exibido o filme vencedor do grande prêmio da crítica no Festival de Cannes, o ucraniano “A Gangue”.

Trata-se de um filme sem diálogos, sem narração nem legendas.  Na verdade, há diálogos, sim.  Poucos, mas há.  Só que eles se dão na linguagem dos sinais.  O universo tratado é o dos surdos-mudos.  Você pode me perguntar: mas dá para assistir a um filme assim, sem entender a linguagem dos sinais?  Na realidade, sim.  Perfeitamente.  Os diálogos parecem ser banais, corriqueiros.  Pelo menos, é o que eu suponho.  E as imagens, os sons ou a ausência deles, suprem muito bem o que está acontecendo.



 A dificuldade em ver o filme é de outra ordem.  É que ele é pesado, carregado, pessimista.  Relata um mundo opressor, hostil e criminoso, que parece refletir a realidade atual da Ucrânia, em grave crise e confrontos com a Rússia.

Em todo caso, aqui o ambiente retratado não é o macro do país, mas o microcosmos de um internato para surdos-mudos, onde visceja o crime e a prostituição entre os estudantes, a denominada tribo.




Sergey, um jovem surdo-mudo que vai parar nesse internato, é forçado a seguir as regras do grupo, praticando assaltos e agenciando meninas na prostituição.  Ele próprio está descobrindo a sexualidade, mas tudo se dará no contexto dessa gangue que domina todo o ambiente.  Enquanto ele fizer o jogo exigido, terá sobrevivência garantida.  Mas a hora em que ele violar qualquer regra, ainda que informal, não explicitada, o céu cairá sobre a sua cabeça, como dizia aquele personagem dos quadrinhos de Asterix: o chefe Abracurcix.




“A Gangue” é um filme duro, desencantado, mas que apresenta um amplo domínio do primado da imagem.  Por isso, a gente vive com o personagem Sergey e seu mundo silencioso todas as vicissitudes da sua chegada, rejeição e adaptação a esse ambiente criminoso juvenil, acompanha suas descobertas do amor e do ódio.  E da sordidez humana, já tão estabelecida em pessoas jovens.

Em 132 minutos, que se veem com interesse, o filme mostra sua força e, claro, originalidade: contar essa história do ponto de vista de um garoto surdo-mudo.  A trama não é novidade, outros filmes vindos da Rússia e da Ucrânia têm abordado esse desencantado mundo em que a violência e o crime dão as cartas impunemente.  Mas é o primeiro que o faz só por meio da imagem  e da linguagem dos sinais.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

FORÇA MAIOR

Antonio Carlos Egypto




FORÇA MAIOR (Turist).  Suécia, 2014.  Direção e roteiro: Ruben Ostlund.  Com Johannes Bah Kuhnke, Lisa Loven Konglsi, Clara Wettergren.  118 min.



“Força Maior” é um filme sueco que surpreende em muitos aspectos.  A começar pelo ambiente, onde ocorre a trama, uma estação de esqui que é pura neve, por todos os cantos.  Tudo é intensa e reluzentemente branco: as montanhas, os caminhos, as pistas.  Só o hotel e as construções para uso dos turistas, onde predomina a madeira clara, quebram esse tom monocromático.  Estamos a uma temperatura de 22 graus negativos (ainda bem que no cinema não se pode sentir isso).  Os turistas vão para lá para alguns dias de férias, mas a rigor não há nada a fazer, a não ser esquiar, comer, beber, descansar, já que não há o que ver.  Até aí, tudo bem.  Gosto é gosto e as pessoas curtem esse tipo de programa.

O estranhamento maior aparece quando as relações que envolvem uma família em férias – pai, mãe e um casal de filhos pequenos – são abaladas por uma questão de confiança.  Não se trata de infidelidade ou traição, nem algum desequilíbrio evidente, como bebedeiras ou alterações por outras drogas.  Não.  Trata-se de uma reação espontânea, indesejada, que pode até ser interpretada como uma resposta instintiva, mas que põe tudo a perder.  Ou se torna muito trabalhoso e difícil de reconstruir.  Quem vir o filme, verá do que se trata.




Quando há confiança entre pessoas muito próximas, como é o caso de um casal, ou de grandes amigos, a tendência é que as relações se transformem radicalmente logo em seguida ao fato gerador do abalo.  E não adianta evitar o assunto, fingir, fazer de conta de que nada importante aconteceu ou que é possível entender.  O cristal se partiu, a reparação se impõe e ela pode ser muito complicada.

Aliás, a simples menção de que algo parecido, em tese, poderia ocorrer com um outro casal da história, já abala quase do mesmo modo.  Se isso acontecesse, como eu reagiria?  O que você faria?  E já não se consegue dormir, só por conta disso.

“Força Maior”, pela densidade que coloca na questão relacional, bebe da fonte maior do cinema sueco: Ingmar Bergman.  Mas se vale de um outro tom, aparentemente despretensioso, banal até, engraçado também, mas irremediavelmente sério.  Pode-se brincar com expressões, estilo, linguagem dos personagens,  explorar o aparente absurdo de situações cotidianas, o que dá leveza ao desenrolar da narrativa.  Produz um clima estranho, meio surreal.  Você quase não acredita no que está vendo.  Mas, pensando bem, é fundamental falar disso.




A confiança está na base da nossa vida: sustenta amizades, casamentos, negócios, escolhas políticas.  A aparente materialidade numérica que aparece na economia, por exemplo, está toda dependente do fator confiança, capaz de produzir oscilações na Bolsa, nos outros investimentos, nas moedas, na inflação, no nível de emprego...

As relações pessoais só podem subsistir na base da confiança mútua.  Se ela se rompe, tudo pode acontecer.  O diretor Ruben Ostlund é bastante hábil para nos levar a ver essas coisas todas expressas nas pequenas, minúsculas questões, nas reações de cada um, no que não aparece claramente.  É um filme que prende do começo ao fim, sem ter de apelar para cenas de ação ou grandes acontecimentos.  Cinema de alta categoria.  Um dos destaques da 38ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. 



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O CINEMA DE ALMODÓVAR


Antonio Carlos Egypto

O cineasta espanhol Pedro Almodóvar é muito conhecido e respeitado no Brasil, assim como no resto do mundo.  Como é comum acontecer, encontra alguma resistência em seu próprio país, mesmo sendo o mais famoso representante do cinema espanhol da atualidade, recheado de prêmios internacionais, inclusive Oscar.  Seus filmes de maior sucesso foram “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos” e “Tudo Sobre Minha Mãe”. Entre os mais recentes destaque para “A Pele Que Habito”

Seu trabalho é o que se pode chamar de autoral, no sentido de que ele cria um universo cinematográfico próprio, marcante e facilmente identificável.  Suas cores fortes, seus excessos cênicos, seus personagens extravagantes, suas improváveis tramas, sua atração pelo melodrama e seu humor, marcam sua obra.  E definem um cinema original e ousado, que tem o reconhecimento da crítica e a simpatia do público.  Esse é, aliás, um mérito incrível e raro: é bastante comum o divórcio entre o que agrada a crítica e o que entusiasma o público.

Pedro Almodóvar consegue esse feito porque seu cinema é popular, aparentemente simples, mas lida com questões complexas, como a superação de preconceitos e de moralismos, em busca de uma ampla libertação no terreno dos costumes e de sua consequente ação política.  Brincando, carnavalizando, ele toca fundo nas mazelas humanas e mexe na ferida.  O público se envolve, ri e, quando percebe, está torcendo por personagens que, em outro contexto, o incomodariam ou seriam objeto de discriminação ou rejeição.  Porque ele é capaz de nos fazer entender que a humanidade é recheada de diversidades e coisas estranhas, mas todos são gente, com seus desejos, medos, méritos, falhas, e todos buscam a felicidade.  Cada um a seu modo.  Seu cinema é profundamente humanista e crítico, e muito bem humorado.  Tem a sexualidade no centro da narrativa e é transgressor por definição.





A obra cinematográfica completa de Pedro Almodóvar se compõe de 19 filmes de longa-metragem, realizados entre 1980 e 2013.  Quem quiser conhecer esse trabalho na tela de cinema, que é o melhor meio de aproveitá-lo e avaliá-lo, terá uma grande oportunidade na 38ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, de 16 a 29 de outubro, que irá apresentar uma retrospectiva com os filmes do diretor.  Quem perder essa chance, ainda pode se valer das cópias em DVD dos filmes, das exibições deles on line ou pela TV paga.

Foi lançado, também, o meu livro “Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar”, pela SG-Amarante Editorial.  O livro aborda a obra do cineasta, tratando de todos os 19 longas-metragens realizados por ele, focalizando a sexualidade e a transgressão na sua fabulação.  Considera a importância e a representatividade do trabalho autoral do cineasta na contemporaneidade, enfatizando a compreensão e aceitação da diversidade sexual, e humana, e o tratamento avesso a qualquer tipo de moralismo dado a seus personagens e tramas.  Procura demonstrar a coerência, em toda sua obra, da ideia de sexualidade como libertação.  Além disso, destaca a metalinguagem sempre presente no seu cinema.  Trata, ainda, das relações da obra com o franquismo, origem da postura transgressora que o cineasta adota, buscando esquecer e superar esse passado recente da Espanha.

  

domingo, 12 de outubro de 2014

RELATOS SELVAGENS

Antonio Carlos Egypto




RELATOS SELVAGENS (Relatos Salvajes).  Argentina, 2014.  Direção e Roteiro: Damián Szifrón.  Com Ricardo Darín, Erica Rivas, Leonardo Sbaraglia, Julieta Zylberberg, Rita Cortese, Oscar Martinez, Darío Grandinetti, Nancy Dupláa.  122 min.


“Relatos Selvagens” é um filme argentino, com produção espanhola da El Deseo, dos irmãos Augustín e Pedro Almodóvar.  Uma escolha certeira.  Compõe-se de seis episódios distintos, mas todos funcionam bem, cada um melhor do que o outro.  O que é pouco comum em filmes de episódios.

O que une essa espécie de coleção de curtas é a ideia do descontrole, que pode acometer as pessoas pelas mais diversas razões, individuais ou coletivas, mas que complica a vida.  Geralmente descamba em violência, frequentemente em morte.  O que a gera pode ser uma estupidez qualquer, como um carro provocando o outro, enquanto trafegam numa estrada semideserta.  A partir do nada, pode-se instalar a tragédia.



A descoberta de uma traição em pleno dia do casamento, enquanto a cerimônia decorre, também pode ser motivo para acabar com a festa. O acúmulo de fracassos e frustrações que marcam uma vida podem levar alguém a tentar se vingar das pessoas que ele julga responsáveis pelo seu insucesso.  A sensação de ser extorquido mesmo quando a origem do pedido é antiética e profundamente injusta pode ser intolerável. 

Mas também a sensação de impotência diante de um Estado impessoal, burocrático e que se alimenta de arrecadações injustas e indevidas, pode produzir uma resposta explosiva.




São questões como essas que recheiam o terceiro longa-metragem de Damián Szifrón e que revelam eficiente comunicação com o público.  Por quê?  Todas as situações apresentadas são realisticamente reconhecíveis, passíveis de acontecer com qualquer pessoa, ao menos enquanto sentimento, desejo, intenção.  Quem nunca planejou mentalmente uma vingança violenta contra alguém que o humilhou ou oprimiu que atire a primeira pedra, não é assim?

O roteiro dos episódios é bem amarrado, enxuto.  O elenco de atores e atrizes é de primeira.  E não apenas pela presença sempre marcante  de Ricardo Darín.  As interpretações são um ponto forte do filme.




O clima da película também é capaz de estabelecer boa comunicação com o espectador, porque, embora se valha de cenas violentas e trabalhe em situações-limite, exala bom humor, provoca risadas em momentos dramáticos.  Essa mistura acaba contribuindo para que o espectador pense no que está vendo, se distancie um pouco do envolvimento com os personagens, a partir do inusitado da situação proposta.  Algo como o distanciamento brechtiano acontece quando o drama se traveste em comédia momentânea ou involuntária.  Ou, então, a comédia se vê envolta por tragédia e grande violência, quebra a graça pretendida e nos chama à razão.

Há momentos no filme em que o exagero ganha o primeiro plano e algo se perde.  Mas o conjunto é muito bom, eficiente.  Isso, num filme de episódios, é uma grande virtude.  A vingança e a perda de controle são os elementos que unificam as histórias e se conectam com o psiquismo de cada um.




 Como de costume, no cinema argentino, os personagens provêm mais da classe média do que de qualquer outro estrato socioeconômico.  Talvez por isso mesmo a bilheteria responde satisfatoriamente.  Afinal, quem costuma ir mais ao cinema senão a classe média?

“Relatos Selvagens” é o filme que abre a 38ª. Mostra Internacional de Cinema de  São Paulo, que acontece entre 16 e 29 de outubro de 2014.




quinta-feira, 2 de outubro de 2014



Estou lançando um novo livro : SEXUALIDADE E TRANSGRESSÃO NO CINEMA DE PEDRO ALMODÓVAR. Será na sexta-feira, após as eleições, à noite, na Livraria do Espaço Itaú de Cinema na Rua Augusta, próximo à Av. Paulista. Espero vocês por lá.
Egypto.




quarta-feira, 1 de outubro de 2014

SEM PENA


Antonio Carlos Egypto



SEM PENA.  Brasil, 2014.  Direção: Eugênio Puppo.  Documentário.  87 min.


“Sem Pena” mostra, com todos os elementos, a validade da tese que sustenta: a da falibilidade do sistema de justiça, do sistema penal, e de como eles refletem uma estrutura socioeconômica perversa.  A questão prisional também é bem abordada.

Com exceção de um julgamento sumário registrado pelas câmeras com autorização, no restante do filme o som nunca corresponde à imagem.  Dialoga com ela direta ou indiretamente.  O recurso é interessante, já que o foco passa a ser o que é dito, as ideias, e não quem fala.  Isso permite colocar todos os entrevistados no mesmo patamar de importância, sem influência da imagem do personagem, se engravatado ou humilde, por exemplo.

A questão é que esse recurso acaba se tornando cansativo ao longo do tempo do filme.  Em muitas situações, a origem do discurso é fácil de supor de onde possa vir, mas a gente acaba sentindo falta da referência imagética.




“Sem Pena” enfrenta uma questão-problema séria e importante, de difícil equacionamento e encaminhamento.  Com base nos dados do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) e da prática dessa organização, o filme de Eugênio Puppo pôde penetrar nos meandros jurídicos, filmar em locais especiais, encontrar depoentes com históricos marcantes e ter acesso a informações relevantes que interessam a toda a população.

Na verdade, não sabemos o que se passa na justiça criminal e no sistema prisional, até que conheçamos alguém ou algum caso mais próximo.  Por desconhecer essa realidade, é que tanta gente acredita que encarcerar as pessoas e endurecer as leis possa levar a algum lugar.  Os telejornais de todas as noites se encarregam de espetacularizar essa realidade e reforçar essa tendência.  Mas é por outros caminhos que temos de trilhar, se quisermos desativar a bomba relógio que está para explodir, segundo nos mostra o documentário “Sem Pena”.

O filme foi o vencedor do júri popular do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2014.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

CINEMA GREGO ATUAL : MISS VIOLENCE e METEORA

                        
Antonio Carlos Egypto


É fato sabido que as crises econômicas, os regimes políticos totalitários, a censura, as guerras, estimulam a criatividade artística.  Grandes expressões da arte resultaram de momentos de crise, em sentido coletivo, mas, também, individual.  Crises existenciais são geradoras de grandes obras. Já que a crise é também oportunidade de rever, repensar, ressignificar, buscar alternativas, o que se poderia esperar da produção cinematográfica do país que foi mais abalado, na comunidade europeia, pela crise do euro?

A Grécia está representada no circuito exibidor com dois filmes que merecem ser vistos e que se vinculam a uma expressiva produção atual, como ficou evidente na 37ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2013, com títulos colhidos nos festivais pelo mundo. Uma presença bem mais significativa do que habitualmente acontecia no evento paulistano.  O cinema grego apareceu com força e qualidade.



MISS VIOLENCE.  Grécia, 2013.  Direção: Alexandros Avranas.  Com Themis Panou, Reni Pittaki, Eleni Roussinou.  98 min.

O melhor dos filmes gregos exibidos, para mim, foi “Miss Violence”, segundo longa-metragem dirigido por Alexandros Avranas, vencedor do Leão de Prata de direção e melhor ator em Veneza.  O filme, corajosamente, expõe a violência, o abuso e a prostituição forçada das mulheres de uma família, em suas várias gerações, e todas as consequências trágicas que daí resultam, com total realismo e procurando produzir suspense.  A crise está presente no desemprego e na dificuldade de sobreviver que agravam o quadro ou, por outro lado, servem para tentar justificar ou validar a monstruosidade apresentada.

Outra leitura é possível, alegórica da situação, se olharmos para a família como representante da sociedade como um todo.  A carência alimenta a opressão, o estupro, a exploração das pessoas e da mãe-pátria.  Também faz sentido.  E uma coisa não exclui a outra.  Ao tratar do tema da exploração sexual da mulher, o contexto subjacente é o da crise social e moral em que se vive na sociedade grega atual.  Mais difícil de aceitar é a visão de uma patologia individual determinando os fatos.  Há um eloquente sentido de opressão coletiva, que se evidencia no desenrolar da trama e nas interpretações do elenco.



METEORA.  Grécia, 2012.  Direção: Spiros Stathoulopoulos.  Com Theo Alexander, Tamila Koulieva.  81 min.

Outro belo filme grego que pude ver naquela Mostra refere-se a uma outra dimensão.  “Meteora” vai em busca de monastérios ortodoxos situados acima de pilares de arenito, suspensos entre o céu e a terra, conforme explica a sinopse que consta do catálogo da Mostra.  Aqui, o que se vai viver é a relação entre a fé, o afeto e o desejo sexual humanos, presentes nas figuras de um casal de religiosos.  Mesmo separados em duas montanhas de pedras diferentes, uma para cada sexo, e uma escadaria interminável para galgá-las, haverá modos de se encontrar e viver essa história de amor.

“Meteora” é o segundo longa do diretor Spiros Stathoupoulos.  É o filme mais bonito visualmente dessa leva de gregos.  Tem locações belíssimas, um clima que o situa fora do mundo real e uma muito eficiente atuação do desenho de animação, que se insere ao longo de toda a trama, pontuando o imaginário, o temido e o desejado. O fato de se distanciar tanto da realidade atual da Grécia não significa, no entanto, que não dialogue com ela.  A busca da beleza, do amor e da fé, não deixa de ser um caminho alternativo, idealizado, quando o mundo real parece tão duro de enfrentar.

Os filmes gregos de novos diretores mostram que está germinando um novo cinema por lá.  Ninguém espere a sofisticação e a estética maravilhosa do mestre grego do cinema, Theo Angelopoulos (1936—2012), é claro.  Mas nem é possível, mesmo, exigir tanto de jovens cineastas.  Que o cinema grego atual mostra talento, não há dúvida.  Isso é muito promissor.



domingo, 14 de setembro de 2014

O PEQUENO FUGITIVO


Antonio Carlos Egypto




O PEQUENO FUGITIVO (Little Fugitive).  Estados Unidos, 1953.  Direção e roteiro: Morris Engel, Ruth Orkin e Ray Ashley.  Com Richie Andrusco, Rickie Brewster, Winifred Cushing, Jay Williams.  80 min.



“O Pequeno Fugitivo” é uma pequena joia cinematográfica, produzida em 1953, que nunca foi exibida no Brasil e agora chega aos nossos cinemas em cópia restaurada.  O filme foi premiado com o Leão de Prata, no Festival de Veneza 1953, recebeu elogios do famoso crítico André Bazin e foi citado por François Truffaut como um dos inspiradores da nouvelle vague.  E é bom o bastante para ser apreciado com todo o interesse sessenta anos depois de sua concepção.



Trata-se de uma produção, com uma bela fotografia em preto e branco, que retrata as aventuras de um menino de 7 anos, Joey (Richie Andresco), em Coney Island.  Em meio às atrações de uma praia e de um parque de diversões, ele transforma uma fuga num grande brinquedo, em que os perigos o estão rondando a todo instante.

O mote da fuga remete à ingenuidade e à fantasia infantil.  Joey crê na brincadeira de seu irmão mais velho, Lennie (Rickie Brewster), de que o teria matado ao manejar uma arma.  Os garotos da turma o amedrontam, fazendo-o crer que será preso, e aí começa sua aventura.




É muito interessante ver o filme hoje, porque ele nos leva à Nova York dos anos 1950, cheia de detalhes.  Mostra roupas, trajes de banho e hábitos de banhistas numa praia e a relatividade dos perigos de uma época em que um garoto de 7 anos ainda podia passar a noite dormindo na areia, sem grandes consequências.

Mas o melhor de tudo é como as coisas acontecem e são mostradas no filme.  Com muita naturalidade e leveza, sem as amarras determinadas pelo modo clássico de contar histórias no cinema.  Com a simplicidade de produção que caracterizou o neorrealismo, mas sem o enfoque social que o marcava.  Focado no mundo interno e nas ações de uma criança, que se move em função do que lhe parece verdadeiro, mas que nunca deixa de ser marcadamente criança.  Isso vale para o protagonista, mas também para o seu irmão e para as outras crianças que aparecem no filme.  O medo, o desespero, a fuga, a sobrevivência, a procura incessante, o remorso, a necessidade de enganar a mãe e evitar uma punição, tudo isso é vivido de forma lúdica, como é característico das crianças.  Ou seja, o que pode até ser trágico vira brinquedo.




Um admirável trabalho realizado por pessoas que não fizeram história no cinema, a começar pelo ator mirim, Richie Andrusco, ótimo, que não fez carreira e foi cuidar da sua vida, fazendo outra coisa.  Hoje, já idoso e aposentado, pode se lembrar com alegria desse filme tão cativante que ele protagonizou, aos 7 anos de idade: “O Pequeno Fugitivo”.




quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A 100 PASSOS DE UM SONHO


Antonio Carlos Egypto




A 100 PASSOS DE UM SONHO (The Hundred-Foot Journey)Estados Unidos, 2013.  Direção de Lasse Hallström.  Com Helen Mirren, Manish Dayal, Om Puri, Charlotte Le Bon.  122 min.


O diretor sueco Lasse Hallström é bom para contar histórias humanas que envolvam personagens que lutam, sofrem, mas têm determinação no que fazem.  Fez filmes magníficos, como “Minha Vida de Cachorro”, de 1985, na Suécia, e “Regras da Vida”, de 1999, nos Estados Unidos.  Tem desenvolvido sua carreira em Hollywood, também com filmes menos densos, de entretenimento, como “Chocolate”, de 2000, ou “Querido John”, de 2010, por exemplo.  É, inegavelmente, um cineasta competente.




Foi ele o escolhido para dirigir uma produção de Steven Spielberg, Oprah Winfrey e Juliet Blake, chamada “A 100 Passos de um Sonho”, uma história que combina, de fato, com o que o diretor sabe fazer.  E com produtores desse peso deve ter sido bom trabalhar.

A história se passa no sul da França, na localidade de Saint-Antonin-Noble-Val, para onde acaba chegando, por obra da sorte, uma família indiana dona de um restaurante conceituado na Índia, fugindo de perseguições religiosas em seu país.




Naturalmente, o caminho será montar um restaurante típico de comida indiana por lá.  E é o que Papa (Om Puri) faz, pondo sua família a cozinhar e tratando de divulgar a novidade de forma até espalhafatosa, com muitas luzes e cores, música alta e tudo o mais.

Acontece que, a apenas 100 passos, está um premiado restaurante francês de alto padrão, com uma estrela do Michelin, dirigido por Madame Mallory (Helen Mirren).  A novidade do concorrente indiano Maison Mumbai aparece como um pesadelo para ela.  Comida de lá, comida de cá, brigas, desentendimentos, competição.  Mas também curiosidade e necessidade de entender o outro lado.  E até um relacionamento amoroso potencial entre o jovem e talentoso chef  Hassan (Manish Dayal), da cozinha indiana, e a jovem chef Margueritte (Charlotte Le Bon), da gastronomia francesa.




Com um filme desses, o mínimo que acontece é que a gente sai de lá salivando, em busca de uma comida saborosa, diferente.  Dá fome e até parece que a gente sentiu o cheiro daqueles pratos fumegantes, maravilhosos, de um lado e do outro daquela rua gastronômica.

Certamente, uma diversão bem realizada, muito agradável de se ver, com ótimos atores, destacando-se, como sempre, a interpretação de Helen Mirren.  Os indianos também são muito bons e Charlotte Le Bon, uma graça.  Como entretenimento, está de bom tamanho.





quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A OESTE DO FIM DO MUNDO


Antonio Carlos Egypto




A OESTE DO FIM DO MUNDO.  Argentina/Brasil, 2012.  Direção: Paulo Nascimento.  Com César Troncoso, Fernanda Moro, Nelson Diniz.  104 min.


Num tempo em que as pessoas são bombardeadas por imagens, estão plugadas o tempo todo, não há o tempo e o espaço indispensáveis para parar, observar, pensar em si mesmas e na vida, um filme que se propõe a ser uma experiência contemplativa cai muito bem.  Ou melhor, cairia, se as pessoas se dispusessem a isso.

É o caso, por exemplo, do filme “A Oeste do Fim do Mundo”, produção argentina e brasileira, rodada na região de Mendoza, em Uspallata, na majestosa Cordilheira dos Andes, na Argentina, nas proximidades do Chile.




A locação, por si só, já vale o filme.  A fotografia realça a beleza da paisagem.  Montanhas imponentes, de uma mansidão que contrasta com sua força.  Um lugar perdido no meio do nada.  Um homem solitário, um posto de gasolina, que recebe, ocasionalmente, algum caminhão ou outro veículo, que param para abastecer.  Numa das primeiras cenas do filme, um furgão  para, mas León (César Troncoso), o homem do posto, está comendo.  Termina calmamente de mastigar, antes de se dispor a atender o freguês.  Sem pressa.  Assim como a paisagem é completamente outra, o tempo também é.

Quem ali vive, ou por ali vai ficando, está fugindo de algo, de si mesmo, dos conflitos e culpas que carrega consigo ou de sua incapacidade de dar conta dos desafios que a vida lhe apresenta.  Ou, quem sabe, de crimes que cometeu.  Poderia até não ser assim.  Mas, no caso dos personagens de “A Oeste do Fim do Mundo”, é assim.



Lá estarão convivendo com o argentino León os brasileiros Silas (Nelson Diniz), motociclista sarcástico que passa sempre pelo posto, trazendo peças para consertar uma moto, e Ana (Fernanda Moro) que, circunstancialmente, teve de parar por ali e foi ficando. A presença dela modifica a vida não só de León como de Silas e, é claro, dela mesma.  Enfrentamentos podem doer muito, mas são coisas necessárias à nossa existência.

O filme faz tudo a seu tempo.  Pouco a pouco vai mostrando os personagens, seus silêncios, medos, suas poucas falas e os mistérios que escondem. A malfadada guerra das Malvinas se faz presente.  Não é uma história original a que vai se revelando.  É até previsível, pode-se inferi-la antes de que seja revelada, mas vale aproveitar esse tempo para conhecê-los, cercados pelas montanhas, apartados do mundo, na Ruta 7, Argentina, na imensidão da estrada transcontinental da Cordilheira.




O ótimo ator uruguaio César Troncoso faz o protagonista León, que contracena com o personagem brasileiro de Nelson Diniz, que se expressa em espanhol, e a personagem de Fernanda Moro, que só fala português com ambos.  A importância da língua como marca de um povo é explorada pelo filme, que se preocupa com a questão da identidade e do pertencimento a um agrupamento humano que dê sentido à vida.  Na origem, claro, está sempre a família.

Bom trabalho do diretor  gaúcho  Paulo Nascimento, que realizou “A Oeste do Fim do Mundo”, filmando a história na ordem e nos horários reais das cenas, já que a intensa mudança de luz na Cordilheira tornaria difícil a utilização de outro processo de filmagem.  O filme está sendo apresentado nos cinemas com uma sessão diária acessível, com audiodescrição e legendas.