sexta-feira, 18 de abril de 2014

O GRANDE MESTRE - de Wong Kar Wai

                         
Antonio Carlos Egypto



O GRANDE MESTRE (Yi Dai Zong Shi)China, 2013.  Direção: Wong Kar Wai.  Com Tony Leung, Zhang Ziyi, Chang Chen.  120 min.


Wong Kar Wai, cineasta chinês nascido em Xangai, mas vivendo e produzindo em Hong Kong, se destacou principalmente por filmes que abordam com sutileza e complexidade o terreno do relacionamento amoroso.  Belíssimos enquadramentos, imagens requintadas, uso sofisticado da luz, da cor e de figurinos, costumam compor criações como “Amores Expressos”, de 1994, “Felizes Juntos”, de 1997, “Amor à Flor da Pele”, de 2000, ou “2046”, de 2004.  As relações humanas no romance adulto e temas como desejo e sexo, fidelidade, traição, ciúmes, fazem parte do seu cardápio fílmico habitual.

Ele também já havia feito pelo menos uma incursão no terreno dos épicos de artes marciais, em “Cinzas do Passado”, de 2008.  Espadachins, assassinos de aluguel e luta pelo poder, se associaram, assim, à relação amorosa, gerando um novo tipo de espetáculo, do gênero cultivado também por outros diretores chineses, como o ótimo Zhang Yimou, o mestre das cores.



O novo filme de Wong Kar Wai, o décimo longa de sua carreira, “O Grande Mestre”, vai na linha do super espetáculo, um novo drama épico de artes marciais, passado na tumultuada China dos anos 1930.  Inspira-se na vida do lendário Yip Man (Tony Leung), considerado mentor de Bruce Lee.  E mostra o kung-fu como uma peça de importância fundamental na história da China, enquanto arte e instrumento de poder.  O que dá margem a lutas muito bem encenadas, de grande beleza plástica, em meio à chuva, à neve e à arquitetura chinesa tradicional.  É tudo muito bonito, espetacular.

Nem por isso, o diretor abandonou suas tramas complexas.  Os elementos da história envolvem guerras, em especial, o domínio japonês sobre a China, as questões familiares, o desejo, a memória e, como não poderia deixar de ser, o amor.  Wong Kar Wai não se perde na superprodução.  Procura dar substância à narrativa, investindo numa dimensão histórica e na de relações pessoais intensamente vividas.  Não há lutas em excesso, as coisas estão devidamente equilibradas.



Os espectadores acostumados à sua abordagem mais intimista podem estranhar o tema principal de “O Grande Mestre” e sua concepção de espetáculo.  Há quem não se interesse por kung-fu ou por Bruce Lee, por exemplo.  Ou não tenha apreço especial por artes marciais.  Quem gosta de cinema, no entanto, não vai se decepcionar.  É um espetáculo que enche os olhos, se destaca pelo som, pela direção de arte, pelas interpretações e tem muitos elementos para prender a atenção, além do kung-fu.

Os mesmos enquadramentos de beleza plástica, as imagens requintadas, o uso sofisticado da luz, das cores e dos figurinos, além da complexidade narrativa, estão lá, como sempre.  É mais um grande filme de Wong Kar Wai.  Num gênero capaz de amealhar, quem sabe, um público maior para as salas de cinema do que aquele que tem acompanhado e curtido a obra do diretor até aqui.  “O Grande Mestre” estreou na 37ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e agora chega ao circuito comercial dos cinemas.




segunda-feira, 14 de abril de 2014

O PASSADO

Antonio Carlos Egypto



O PASSADO (Le Passé).  França, 2013.  Direção: Asghar Farhadi.  Com Bérénice Bejo, Ali Mosaffa, Tahar Rahim, Pauline Burlet.  131 min.


“A Separação”, grande filme de Asghar Farhadi, venceu o Oscar de filme estrangeiro, representando o Irã, em 2012, além de um monte de prêmios internacionais.  Foi apontado como um dos melhores filmes daquele ano, em praticamente todas as listas de destaques da crítica no Brasil, e escolhido como o melhor filme estrangeiro do ano, pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).



O cinema iraniano já havia brilhado intensamente com cineastas como Abbas Kiarostami, Moshen Makmalbaf e Jafar Panahi, os dois primeiros vivendo agora fora do país e o terceiro, em prisão domiciliar, impedido de trabalhar e, mesmo assim, produzindo clandestinamente.  Asghar Farhadi se mostra à altura de seus colegas desde “Procurando Elly”, de 2009, com seu realismo que surpreende a cada passo e introduz dilema sobre dilema, fazendo pensar.  Mas também ele acabou na França.  Seu novo filme, “O Passado”, já não é iraniano, mas francês.  Integra até o Festival Varilux do Cinema Francês, em cartaz em várias cidades brasileiras.  No entanto, o Irã deseja que o filme represente o país novamente nas indicações ao próximo Oscar.  É verdade que há um protagonista iraniano que constituiu família com uma francesa e vem de Teerã para assinar o divórcio em Paris. O personagem é simpático e equilibrado. Quem vive o papel é um ator iraniano.  Mas é só.

O fato de o filme se passar na França e com personagens e atores franceses parece ter feito muita diferença para o cinema de Asghar Farhadi.  O seu estilo característico, fortemente realista e cheio de reviravoltas e segredos que surpreendem a cada passo, está lá, intacto.  Mas o contexto cultural do país persa não mais.  Isso esvazia um pouco as questões, remetendo-as mais à ambientação psicológica e ao relacionamento interpessoal e familiar, do que ao seu substrato sociólogico. Na verdade, o forte vínculo do psíquico com o sociocultural dos outros filmes é que lhe dava uma dimensão maior e despertava grande interesse pelo desenvolvimento da trama e das ações que engendrava.  Pelo menos, do ponto de vista de quem via os filmes de fora do Irã.



“O Passado” é, sem dúvida, um bom filme, bem construído e interpretado, que trata de compreender como as pessoas podem se enroscar, se enrolar, se perder em relacionamentos marcados por segredos do passado, coisas mal resolvidas, medos, covardias, e escolhas inconscientes, das quais não suspeitam. E que podem comprometer a vida, a felicidade, o fluir dos relacionamentos e as novas construções que se buscam.  Como se vê, não é pouco.  Mas não alcança o padrão da arquitetura fílmica de “A Separação”.

A história envolve muitas conversas face a face, entre dois diferentes personagens, boa parte do tempo.  Isso acaba sendo um problema, às vezes.  Algumas soluções para que os personagens se encontrem a sós soam forçadas. O tempo escapa ao realismo das ações, para que algumas conversas possam acontecer, enquanto alguém espera, sem poder saber o que ocorre.  O filme tem, desta vez, alguns problemas.  Ficou abaixo dos filmes iranianos anteriores.  Mas o cineasta continua merecendo todo o crédito.



Abbas Kiarostami continuou renovando fortemente o cinema, como fazia no Irã, ao filmar na França obras como “Cópia Fiel”, de 2010, e “Um Alguém Apaixonado”, de 2012.  Se Farhadi permanecer na França, poderá reencontrar o seu melhor estilo, talvez refletindo mais fortemente sobre a sociedade francesa contemporânea.  Parece que ele gostaria de voltar a viver no Irã, mas será preciso que encontre condições de trabalho para que isso aconteça.  É evidente que, quando alguém fala do seu quintal, tem maior conhecimento de causa.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

YVES SAINT LAURENT


Antonio Carlos Egypto





YVES SAINT LAURENT (Yves Saint Laurent).  França, 2013.  Direção: Jalil Lespert.  Com Pierre Niney, Guillaume Gallienne, Charlote Le Bon, Laura Smet.  116 min.



Um dos primeiros cuidados a tomar quando se faz uma biografia, seja na literatura, seja no teatro ou no cinema, é o respeito à obra do biografado.  Afinal, se a pessoa foi lembrada para ser retratada, não há de ser pelos porres que tomou, pelas brigas que aprontou, pelas mulheres que teve ou traiu, por ser uma personalidade excêntrica ou algo assim.  Tudo isso pode ser importante e entrar na história.  Mas é a obra que a pessoa realizou o que de fato conta.  E que fez dela alguém importante para ser lembrado.  Por isso, creio que o trabalho que notabilizou a pessoa deve ser bem mostrado e colocado em primeiro plano e não ser eclipsado pelas fofocas, tramas amorosas ou tragédias de sua vida.

Dito isso, posso agora afirmar que considero “Yves Saint Laurent” uma boa cinebiografia de um dos maiores talentos da moda, no século XX.  Para quem não conhece a sua história, o filme explica.  Dá para ver a sua ascensão profissional ao longo do tempo e as suas criações em várias etapas.  Muitos vestidos são mostrados, nos vários estilos que ele foi criando, ao encenar desfiles famosos, ensaios ou eles sendo concebidos e desenhados por Yves.  É possível, até para quem não tem muito interesse ou conhecimento no assunto, avaliar a qualidade do trabalho deste criador de moda, que produziu uma grife das mais famosas do mundo.  Da alta costura ao prêt-à-porter, o seu trabalho está na tela, o que justifica plenamente a existência do filme.




Além disso, a personalidade tímida, frágil e conturbada do criador, sua homossexualidade e o papel que seu parceiro, Pierre Bergé, teve em toda sua vida e carreira,  permanecendo até nos períodos em que a relação pessoal degringolou, está bem delineada na narrativa.

Também é curioso como as diversas fases da vida de Yves Saint Laurent são mostradas relacionando-se com fatos da época, como a guerra da Argélia.  Ele era francês porque nascido na Argélia enquanto colônia francesa.  Mas isso estava mudando de forma dramática.  Sua família continuava lá, enquanto ele buscava êxito em Paris. 




Viveu em Marrakech, sua inspiração para os vestidos reflete bem a arte marroquina, suas cores e mosaicos e até o hábito islâmico de cobrir os cabelos nas apresentações, em um de seus períodos criativos.

A aparência de seminarista que ele apresentava no começo do filme sofrerá mudanças radicais de imagem nos anos 1960 da era hippie.  Barba, cabelos longos, muita loucura e drogas refletem esse período.  Tudo se rearrumará depois, quase voltando à antiga forma, assim como o mundo, que encontraria um novo equilíbrio.  Como qualquer vida intensa reflete o mundo em que vive, Yves Saint Laurent é visto como fruto do seu tempo.  Mas com interesses específicos, com um talento particular e um jeito próprio de encarar a vida e os obstáculos que lhe aparecem.  O momento em que é chamado a servir o exército, em plena guerra, é especialmente revelador de uma grande crise e de como ele lidará com ela.  A dependência de Pierre Bergé no relacionamento e nos negócios, também.  Há espaço para a contestação, a rebeldia e o descontrole no seu modo de viver.




Moda remete a sofisticação e riqueza, hábitos e comportamentos elitizados, glamour.  Mas o filme não fica nisso, explora as misérias, contradições e conflitos desse universo fashion.  O que o torna interessante para o público em geral e não apenas para as mulheres.

É uma bem cuidada produção, com narrativa linear, que não exige muito do espectador, mas funciona como entretenimento e informação sobre o assunto tratado.  O filme integra o Festival Varilux do Cinema Francês, que está nos cinemas de várias cidades brasileiras.




terça-feira, 8 de abril de 2014

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO


Antonio Carlos Egypto



HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO.  Brasil, 2013.  Direção: Daniel Ribeiro.  Com Guilherme Lobo, Fábio Audi, Tess Amorim, Lúcia Romano, Eucin Souza, Selma Egrei.  96 min.


É inegável que a adolescência é um período de grandes e pequenas descobertas, tanto sobre o mundo quanto sobre nós mesmos. Frequentemente, estão presentes os conflitos que acompanham o processo de amadurecimento e a sofrida conquista da autonomia.  Varia muito, segundo as circunstâncias históricas, geográficas, culturais e de classe social.  Mas que é um período desafiador da vida, lá isso é.

O longa brasileiro “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” se debruça sobre as questões da adolescência, no universo da classe média, a partir da amizade muito próxima de Leonardo (Guilherme Lobo) e Giovana (Tess Amorim).  Ele, por ser cego de nascença, precisa dela para voltar para casa da escola.  Esse talvez tenha sido o ponto de partida para uma amizade que se solidificou com o tempo.



A chegada de um novo garoto na classe onde ambos estudam, no entanto, vai mexer em muitos sentidos com essa amizade.  O aluno novo é Gabriel (Fábio Audi), que vai compor um trio com Leonardo e Giovana, tornando-se grande amigo e objeto de desejo de ambos, além de ser paquerado por uma outra menina da escola.

O fio condutor da narrativa é Leonardo e as suas questões da adolescência, mescladas à sua deficiência visual.  Essa limitação dificulta muito o seu processo de rompimento com a dependência dos pais, principalmente da mãe, que é, compreensivelmente, preocupada com ele e superprotetora.  O pai tenta entender o anseio de liberdade e autonomia do filho, mas também avalia os riscos.  O filme mostra como essa dificuldade se amplia, no caso de Leonardo, ao mesmo tempo em que reconhece que a necessidade do personagem equivale à de qualquer outro jovem.



Se Giovana não tem problemas para lidar com a cegueira do amigo, os demais adolescentes têm.  Gabriel, por exemplo, propõe programas como ir ao cinema ou ver o eclipse da lua.  O seu despreparo, porém, abre novas portas para a vida de Leonardo. A imensa maioria dos colegas de escola não só não consegue ter sensibilidade para se colocar no lugar do outro, como procura brincar, zoar, com a deficiência de Leonardo, exercendo aquela crueldade característica de muitos jovens nessa fase da vida. 

Todas essas questões e outras tão típicas desse período são contempladas com sutileza, delicadeza e humor, ao longo da narrativa de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”.  Como se não bastasse, o roteiro do próprio diretor, Daniel Ribeiro, coloca Leonardo na condição de lidar com um desejo homossexual, o que introduz uma nova e forte variável, que, no caso, só poderia complicar mais a história.



Como os três adolescentes – Leonardo, Giovana e Gabriel – vão lidar com tudo isso e com os colegas da escola?  Que papel exercerão os pais de Leonardo e os professores que estarão envolvidos nisso? 

Daniel Ribeiro consegue dar um fluxo tão positivo e envolvente a seu filme, extraindo o melhor de seus jovens e dedicados atores, que o resultado é emocionante.  A dimensão humana que brota daí é admirável e vai além da discussão do desejo homossexual ou da deficiência visual.  Eles aparecem como elementos de uma dimensão maior, que são o desenvolvimento humano, a capacidade de encarar e promover mudanças e o combate aos preconceitos.



“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, entusiasmante trabalho desse jovem cineasta que é Daniel Ribeiro, já foi exibido, reconhecido e premiado no Festival de Berlim.  Sua origem vem do curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, em que o diretor trabalhou com esses mesmos três personagens principais e seus respectivos atores, em 2010, filme que está disponível na Internet e já teve mais de 3 milhões de visualizações.




quinta-feira, 3 de abril de 2014

PARA VER CINEMA ANTES DA COPA


Antonio Carlos Egypto

Eventos culturais em São Paulo é o que nunca falta.  Em especial, os cinematográficos, que se sucedem nos mais diversos espaços – da Cinemateca Brasileira ao Centro Cultural Banco do Brasil ou ao Museu da Imagem e do Som, Centro Cultural São Paulo, nas unidades do SESC, além de cinemas que promovem mostras, como o Reserva Cultural e as salas do shopping Frei Caneca, entre outros.

Com a aproximação da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, que deverá atrair todas as atenções, o calendário cultural fica comprimido e as coisas se encavalam.  É o caso de dois importantes festivais que já estão ocorrendo simultaneamente: o 19º. Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade” e o 40º. Festival SESC Melhores Filmes.




No “É Tudo Verdade”, que acontece simultaneamente também no Rio de Janeiro, estão previstos 77 títulos, vindos de 26 países, sendo 19 deles fazendo sua première mundial, entre longas e curtas-metragens.  E duas retrospectivas importantes: a dos documentários do diretor japonês Shohei Imamura, muito conhecido pelo seu trabalho ficcional, e os da diretora brasileira Helena Solberg.  Tudo em sessões gratuitas até 13 de abril, em São Paulo e Rio.  Depois, o Festival vai a Campinas, Brasília e Belo Horizonte.





O Festival Melhores Filmes do Cinesesc chega aos 40 anos, mantendo o espírito de apresentar o que foram os destaques do cinema no ano anterior (2013) pela votação da crítica e do público.  Será possível ver e rever ao longo de todo o mês de abril o que de melhor se produziu no Brasil e em todo o mundo.

Quem não viu os brasileiros “O Som Ao Redor”, “Tatuagem”, “Repare Bem”, “Hoje”, “Flores Raras”, “Abismo Prateado”, “Faroeste Caboclo”, “Elena” e outros mais, tem agora nova chance.  E quem perdeu filmes estrangeiros do gabarito de “Era Uma Vez na Anatólia”, “Além das Montanhas”, “Amor”, “O Estranho Caso de Angélica”, “Pais e Filhos”, “Um Toque de Pecado”, “La Jaula de Oro”, “Las Acácias” ou “Caverna dos Sonhos Esquecidos”, vale a pena correr atrás do prejuízo e vê-los na excelente qualidade de imagem e som do Cinesesc, a preços acessíveis.  Quem tiver tempo e disposição para ver 15 filmes, pode adquirir o passaporte para o festival, o que barateia ainda mais os custos de cada sessão. O SESC levará o festival para todas as suas sedes no litoral e interior de São Paulo contemplando mais doze cidades.  

Logo a seguir, virá o Festival Varilux de Cinema Francês, em vários cinemas, e a retrospectiva “Tão Longe, Tão Perto – O Cinema Canadense”, no Centro Cultural Banco do Brasil.  E, certamente, ainda haverá espaço para mais mostras de cinema antes de a Copa chegar.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Noé

Tatiana Babadobulos



Noé (Noah). Estados Unidos, 2014. Direção: Darren Aronfsky. Roteiro: Darren Aronofsky e Ari Handel. Com: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Anthony Hopkins. 138 minutos 



Existe uma teoria (dita por um professor durante o curso de crítica de cinema na pós-graduação) de que todos os roteiros de filmes podem ser lidos na Bíblia, independentemente de a história ser acerca de temas bíblicos ou não. Não sei se TO-DOS estão lá, mas tenho certeza de que “Noé” (“Noah”) está.
O longa-metragem, que estreia nesta quinta-feira, 3, conta a história do homem (Russell Crowe) escolhido pelo Criador para salvar a vida dos inocentes, visto que um dilúvio – quando a água do céu encontrará a água da terra – está prestes a acontecer e acabar com o mundo.
Diferentemente de outras versões do filme, cuja primeira foi “A Arca de Noé”, de Michael Curtiz, mostrada em 1928, ou até mesmo da paródia estrelada por Steve Carrell, em “Todo Poderoso”, aqui a trama é levada a sério pelo diretor Darren Aronofsky (“Cisne Negro”), com roteiro escrito por ele e por Ari Handel (“A Fonte da Vida”), inspirados nas páginas do livro de Gênesis.
Quando se fala em Noé, as pessoas, obviamente, o associam à arca que ele constrói. O filme, porém, conta a história desde o início, desde quando não existia nada, e o Criador fez Adão, Eva, a maçã que eles comeram e foram expulsos do paraíso. Adão e Eva comeram o fruto do pecado e tiveram três filhos: Caim, Abel e Set. Caim matou Abel e se separou de Set, dando origem a outra linhagem e à eterna briga entre o bem e o mal.
Noé, neto de Matusalém (Anthony Hopkins, de “O Silêncio dos Inocentes”), pertence à linhagem de Set e é o escolhido para construir uma arca e salvar os animais, sempre aos pares,a fim de perpetuar a espécie após o dilúvio. Os homens (e as mulheres) estão descartados dessa salvação. Matusalém, neste filme, é retratado como mentor de Noé. É dele as ações que vão encontrar muitos desdobramentos ao longo da trama.
Religioso, Noé acredita que o Criador não quer que a humanidade seja salva. Para construir a arca, recebe ajuda dos Guardiões, anjos de luz que ganharam a forma de pedra (e lembra os personagens de “Transformers”…) como castigo para fincarem no pé na Terra por ter desobedecido a uma ordem.
Mas como existe a luta do bem contra o mal, Noé será confrontado por uma legião de humanos que também querem subir na arca. Os humanos são liderados por Tubal Caim (Ray Winstone, “Os Infiltrados”), descendente de Caim. Daí nasce o confronto e a maldade.

A construção da família perfeita de Noé é composta por sua mulher, Naameh (Jennifer Connelly, com quem Russell formou par romântico em “Uma Mente Brilhante”), e três filhos: Sem (Douglas Booth), Ham (Logan Lerman) e Jafé (Leo Carroll ). Emma Watson (a Hermione da série “Harry Potter”) é Ila, mulher de Sem. Lá pelas tantas, é ela quem protagoniza sequências dramáticas do filme, que tinha ares de, vá lá, ficção científica com um tema bíblico – com, por exemplo, a presença dos Guardiões.

Na visão de Aronofsky, Noé é religioso, segue à risca a missão que lhe foi passada e não tem compaixão, além de ser extremamente prático e confiante. “Noé” preza pelo cinema de espetáculo, com efeitos especiais, barulho e três dimensões. Erra, por exemplo, ao se levar a sério e ao fazer dramalhão quando questiona sobre “fazer justiça com as próprias mãos”.


A maior bilheteria do fim de semana passado nos Estados Unidos, “Noé” poderá ser visto no Brasil em 2D e 3D e na versão Imax. Embora a tridimensional coloque o espectador dentro da tela, não é indispensável para o espetáculo conseguido, em sua maior parte, com a ajuda da computação gráfica.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Belém, Zona de Conflito

Tatiana Babadobulos


Belém, Zona de Conflito (Bethlehem). Israel, Alemanha e Bélgica, 2013. Direção e roteiro: yuval Adler. Roteiro: Ali Waked. Com: Shadi Mar'i, Tsahi Halevy, Tarek Copti. 99 minutos

A briga que não tem fim no mundo, entre judeus e palestinos, pode ser entendida de maneira bastante estreita e pessoal no longa-metragem israelense “Belém, Zona de Conflito” (“Bethlehem”). A fita tem estreia apontada para o dia 3 de abril, mas já está em pré-estreia paga em algumas salas paulistanas.

A história é contada a partir de Sanfur (Shadi Mar’i), um adolescente palestino que tem uma relação quase paternal com Razi (Tsahi Halevy). Sua família é próxima, embora o pai esteja sempre cobrando que ele faça mais. O problema do envolvimento é que Razi é agente do serviço secreto israelense. Como tem experiência, ele usa sua influência sobre o garoto para obter informações que precisa, uma vez que Sanfur é o irmão mais novo de Ibrahim (Tarek Copti), militante palestino muito procurado pelos israelenses.


Quando completa 17 anos, Sanfur se divide entre as exigências de Razi e a lealdade a seu irmão. Neste meio tempo, o rapaz faz uma aposta com os amigos da sua idade de que pode ser baleado usando um colete, pois não será atingido.


Este é o primeiro longa que Yuval Adler, um judeu israelense, dirige e escreve. Para o roteiro, aliás, teve a colaboração de Ali Waked, jornalista árabe que passou anos na Faixa de Gaza e em Ramallah. Os dois levaram muito tempo para escrever a história uma vez que, segundo o material de informação para a imprensa, não foi fácil fazer militantes palestinos das Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa e do Hamas se abrirem, nem entender sobre o Shabak, o serviço secreto. 


Com este ponto de vista, “Belém, Zona de Conflito” consegue mostrar características de ambos os povos que não estamos acostumados a conhecer, a não ser em notícias trágicas de jornais, quando se tem a guerra instalada. O cenário é basicamente Belém, cidade localizada na Palestina, mas que vive cercada por um muro de segurança israelense, país que controla as entradas e as saídas na cidade.


O thriller nasceu justamente da conversa do diretor com um agente do serviço secreto israelense que disse que “a chave para recrutar e cultivar informantes não é a violência ou a intimidação ou o dinheiro; a chave é desenvolver uma relação íntima com o informante, num nível bem humano”. E é esta a proposta de “Belém, Zona de Conflito”. Quando os dois “amigos” desenvolvem a cumplicidade durante anos, não se sabe quem está enganando quem. À medida dos acontecimentos, o espectador vai acompanhando o drama e torcendo para que algum dos dois não traia o outro.


O cenário escolhido contribui para o desenvolvimento da trama, assim como os atores conseguem transmitir a paixão pela qual cada um luta e defende, como quando um dos personagens morre e os líderes de cada grupo escolhem, em detrimento da família, como vai ser o velório.

Com a câmera, Adler se aventura no meio da discussão, dos conflitos e insere o espectador neste ambiente, que pode vivenciar cada passo dado por cada um dos lados.

“Belém, Zona de Conflito” não é tendencioso, quando se trata do conflito árabe-israelense; a ideia aqui é mostrar os dois lados e o que cada um acredita e defende. Cada um defende a sua verdade. E quem vai mudar isso?

O longa-metragem chega aos cinemas brasileiros após receber 12 indicações para o Israel Film Academy, ser selecionado para os festivais de Toronto, Veneza e do Rio de Janeiro.

domingo, 30 de março de 2014

ENTRE NÓS

Antonio Carlos Egypto



ENTRE NÓS.  Brasil, 2013.  Direção: Paulo Morelli.  Com Caio Blat, Carolina Dieckman, Maria Ribeiro, Paulo Vilhena, Júlio Andrade, Martha Nowill, Lee Taylor.  101 min.


O reencontro anos mais tarde de um grupo de amigos, que se curtiam na juventude e se afastaram, é um tema que tem sido explorado tanto na literatura quanto no cinema.  Há margem, mesmo, para muitas histórias diferentes.

No caso de “Entre Nós”, o novo longa de Paulo Morelli, trata-se de um grupo de jovens, na faixa dos 20 e poucos anos, que tem em comum o gosto pela literatura e pretensões a viver dela, seja como escritores, seja como crítico literário.  São sete amigos, quatro rapazes e três moças, que passam um tempo juntos na casa de Silvana (Maria Ribeiro), num paradisíaco recanto da Serra da Mantiqueira, em São Francisco Xavier. 



Há aspirantes a escritor terminando seus livros, outros, tentando começar, muitas expectativas e muitos planos, sobretudo de publicações, para o futuro.  Cartas são escritas para serem lidas bem depois, quando cada um poderá avaliar para si mesmo e diante dos outros como as coisas se deram.  Mas nem tudo sai muito bem, nesse período.

Ainda assim, o grupo manterá o combinado e se reunirá quando já estiverem se aproximando da emblemática casa dos 40 anos, isto é, dez anos depois.  Reencontrar as pessoas e suas aspirações passadas pode ser um desafio e tanto, diante das muitas coisas que aconteceram e da tragédia que ocorreu naquele encontro original.  O que fazer com as frustrações amorosas, os fracassos e sucessos profissionais, as lembranças, tanto doces, quanto trágicas?

Essa é a trama de um filme que se foca em personagens de classe média, às voltas com seus dilemas e questões éticas importantes.  Felipe (Caio Blat), escritor, e Lúcia (Carolina Dieckman), agora casados e com um filho pequeno, Cazé (Júlio Andrade), crítico literário, e Drica (Martha Nowill) também vivem juntos, mas sem filhos, Gus (Paulo Vilhena) não se encontrou, nem na profissão, nem no amor, e Rafa (Lee Taylor), um talento literário, já não está entre eles.  Quanto à Silvana, andou pelo exterior e não pensa em vínculos estáveis ou filhos.



O momento do reencontro é o ano de 2002, mas as mulheres estão mais voltadas para o ambiente familiar, seja por não terem conseguido realizar intentos literários, seja porque dão mais importância à vida doméstica.  Os homens se voltam para a profissão e, quando falham, como no caso de Gus, se sentem inúteis.  No filme, os comportamentos são abertos, descolados até, mas, paradoxalmente, os padrões de gênero não estão suficientemente avançados quanto à esfera pública.  Em casa, os homens cozinham, arrumam as coisas e tal, mas para as mulheres acaba sobrando a preocupação com os filhos ou a ausência deles.  No caso de Silvana, que tem uma bela propriedade,  é viajada e independente, não fica clara a origem do seu dinheiro e alguma possível atuação profissional.  Riqueza familiar?  O fato é que, de um jeito ou de outro, cada um tem seus segredos, esconde algo dos amigos ou até de si mesmo.

“Entre Nós” faz pensar, é esteticamente bonito, tem belíssimas locações e enquadramentos de câmera, cria suspense, reflete sobre relacionamentos humanos e as consequências não só da passagem do tempo em si, mas do que foi feito com ele a partir do que aconteceu antes.  Tem um bom elenco, sobretudo feminino, e Caio Blat vive o papel mais atormentado com competência.



Tem um bom mote que segura o interesse do filme: cartas foram escritas e enterradas em 1992, para serem lidas dez anos depois, e o significado delas, ainda que aparentemente pudesse ser banal, vai contar muito quando forem desenterradas e lidas por seus autores.  A carta de Rafa, que já não está ali, especialmente.  A história criada a partir da pedra que marca o local  do enterro das cartas é um bom recurso narrativo, também visual.  O espectador se mantém no suspense, interessado pelo desfecho. 

O argumento e o roteiro são do próprio diretor Paulo Morelli e de seu filho Pedro, que atuou ainda como codiretor.  Eles escreveram um drama sério e denso, mas que inclui humor e leveza.  Nem tudo está tão claro ou bem amarrado, como conviria a uma história como essa, mas isso não chega a atrapalhar a eficácia da narrativa, nem a capacidade de comunicação com o público.


quarta-feira, 26 de março de 2014

INSTINTO MATERNO


Antonio Carlos Egypto



INSTINTO MATERNO (Pozitia Copilului).  Romênia, 2012.  Direção: Calin Peter Netzer.  Com Luminita Gheorghin, Bogdan Dumitrache, Florin Zamfirescu.  112 min.


“Instinto Materno” é mais uma manifestação da qualidade do cinema romeno atual.  Obteve o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2013 e foi um dos mais destacados filmes da 37ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  É um trabalho que impacta.

Cornélia (Luminita Gheorghin), sexagenária, tem um único filho: Barbu (Bogdan Dumitrache), com 34 anos de idade, e um instinto maternal fora do comum.  Ela quer decidir tudo na vida do filho, interferir no modo como ele vive e com quem se relaciona.  Ele tenta levar sua vida com autonomia, mas é fraco, deixa-se dominar.



Tal situação se exacerba quando Barbu se envolve num acidente de carro e é acusado pela morte de um rapaz.  Aí Cornélia entra em cena com tudo o que tem, e mais um pouco, para salvar seu filho da condenação e da cadeia.  Vale tudo por essa causa.

Até aqui, estamos no terreno das relações familiares e da dependência mãe-filho.  Mas o filme vai além, já que um dos recursos dessa mãe é sua posição social e o jovem morto pertence a uma família de poucas posses.  “Instinto Materno” mostra o perfil socioeconômico de grande desigualdade que vigora na Romênia pós-comunista.



Por um lado, uma mãe que sufoca e não mede esforços por seu filho.  Mas o trata como se ele fosse incapaz de se virar sozinho.  De outro, o sofrimento dos familiares do morto põe em evidência o que não chega a ser uma novidade: a de que a corda arrebenta do lado mais fraco.  O filme mostra o clima tenso, tanto das relações familiares, como das relações sociais.  Uma câmera nervosa acentua o drama.

A atriz Luminita Gheorghin já traz no nome a luz de um desempenho que toma conta da tela.  Excepcional.  Ela vive uma mãe tão forte e intensa com uma sutileza interpretativa que é notável.  Só por ela já valeria a ida ao cinema.  Só que o filme tem também um belo roteiro, de Razvan Radulescu, um jovem e competente diretor, Calin Peter Netzer, e trata de questões que vão muito além da sociedade romena.  Tem a ver com todos nós.



terça-feira, 25 de março de 2014

Rio 2

Tatiana Babadobulos


Rio 2. Estados Unidos, 2014. Direção: Carlos Saldanha. Roteiro: Carlos Saldanha e Don Rhymer. Com vozes (na versão original) de: Jesse eisenberg, Anne Hathaway, Rodrigo Santoro, Leslie Mann, Jamie Foxx. 101 minutos.

Com a nítida proposta de fazer propaganda para o mundo do Brasil e, principalmente, do Rio de Janeiro, em 2011 o diretor Carlos Saldanha lançou “Rio”, longa-metragem de animação sobre duas ararinhas azuis que se encontraram depois de o macho ter sido levado para os Estados Unidos.
Um dos diretores de “A Era do Gelo” e “A Era do Gelo 3”, Saldanha fez um belíssimo filme, colorido, com a cara de sua terra natal, cheio de samba e bossa nova. Na ocasião do lançamento, o longa ficou em primeiro lugar na bilheteria em pelo menos três semanas seguidas.
A fita tratava das belezas brasileiras, mas com ênfase no tráfico de animais e sem se esquecer da alegria do povo e das belezas naturais. Em ano de Copa do Mundo no Brasil, o realizador aproveita para surfar nesta onda e traz “Rio 2”, longa-metragem que entra em cartaz nesta, quinta, 27.
Embora o filme se chame “Rio 2”, o enredo se passa bem longe dali. O novo cenário explorado por Saldanha é a Amazônia.
A fita começa na noite de Ano-Novo, com as pessoas vestidas de branco e comemorando na praia de Copacabana, assistindo aos fogos de artifício.
As ararinhas azuis ameaçadas de extinção, Blu e Jade, têm três filhos: Tiago, Carla e Bia. Enquanto Jade, criada na natureza, tem hábitos da sua espécie, Blu, que era uma ararinha de estimação criada nos Estados Unidos, tem hábitos humanos. Jade sai para caçar o alimento, enquanto Blu abre a lata de castanha com o bico.
Durante um café da manhã, eles ouvem uma notícia na televisão: seus antigos donos, Linda e Tulio Monteiro (com voz de Rodrigo Santoro nas versões original e em português), descobriram outras ararinhas azuis na floresta amazônica, provando que a espécie está salva da extinção. Jade, a aventureira, diz que quer atravessar o país e conhecer o seu bando.
Mais urbano, Blu luta contra, mas cede às vontades da amada. Então, a família toda segue em direção à Amazônia. Blu se agarra ao GPS e à pochete que carrega na cintura com canivete, escova de dentes e papel higiênico e vai.
“Rio 2” continua lindo, tal como o primeiro, cheio de cores, movimento perfeito dos animais, que até parecem reais, além da reprodução dos locais por onde passam ser fiel à realidade. Mas “Rio 2” se vale de muitos clichês para contar uma história que nem se passa na Cidade Maravilhosa.
Antes de chegarem ao destino final, o mapa mostra onde estão e passam por Ouro Preto (MG), Salvador (BA) e Brasília (DF).
As canções, a cargo de Carlinhos Brown e Sérgio Mendes, não param, cansam o espectador do início ao fim. Todos os filmes da Disney, por exemplo, têm cantoria, mas este repete a fórmula à exaustão.
Desta vez, nem só de samba e bossa nova vive a trilha sonora. Há influências do Norte e do Nordeste do país, além de ópera. Há ainda referências à obra “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, protagonizadas pela cacatua do mal, Nigel, e pela rã rosa (e venenosa) Gabi, personagem que chegou neste filme. Eles, aliás, só pensam em vingança e perseguem as ararinhas durante a viagem.
Continuações de filmes geralmente são difíceis de seguirem o sucesso do antecessor. Há exceções, como o caso da franquia “Toy Story” e do próprio “A Era do Gelo”, do mesmo estúdio, dois exemplos para ficar na animação. Não é o caso, infelizmente, de “Rio”, cuja primeira parte é muito mais empolgante do que este que chega aos cinemas, inclusive em 3-D.
De acordo com o material de divulgação para a imprensa, o primeiro filme foi exibido em 120 países, para mais de 70 milhões de pessoas. A bilheteria rendeu 486 milhões de dólares.