sábado, 28 de fevereiro de 2015

NOSTALGIA DA LUZ


Antonio Carlos Egypto




NOSTALGIA DA LUZ (Nostalgia de la Luz).  Chile, 2010.  Direção: Patrício Guzmán.  Documentário.  90 min.


“Nostalgia da Luz”, do cineasta chileno Patrício Guzmán, é um dos melhores documentários que eu vi na vida.  É, ao mesmo tempo, uma obra poética de grande beleza plástica e um dos mais contundentes documentos políticos já feitos.

No deserto de Atacama, no Chile, um lugar com características especiais, situado a 3 mil metros de altitude, estão instalados equipamentos de última geração, que permitem a astrônomos do mundo inteiro a observação de galáxias distantes e a pesquisa dos limites do nosso universo.  O céu translúcido do deserto é favorável a isso.




No filme, enquanto um imenso telescópio é esquadrinhado pela câmera, astrônomos e arqueólogos nos falam de como se podem buscar as origens do mundo quando se miram as estrelas, os planetas, as galáxias.  E como foi possível buscar as origens do homem na terra, escavando e encontrando dezenas de vestígios do ser humano há cerca de dez mil anos.  O calor forte e o clima muito seco permitem a conservação de ossadas por longuíssimo tempo.




Pelo amplo terreno do deserto de Atacama estão espalhados restos mortais de prisioneiros políticos da ditadura militar imposta por Pinochet ao país, a partir de 1973.  Familiares desses “desaparecidos” do regime estão em busca de ossadas que possam identificá-los, para poderem viver e dormir em paz, enterrando seus mortos adequadamente. Depoimentos emocionados dão conta do que é essa procura.  Uma busca que, em muitos aspectos, se assemelha à dos astrônomos: tão difícil quanto, mas muito dolorida.

Guzmán explora essa dupla situação com maestria, combinando, tanto visualmente quanto no sentido de uma busca incessante, descobertas e frustrações, essa batalha de pessoas obstinadas que nunca perdem a esperança.  Olhando o céu ou escavando a terra, elas têm uma missão que não pode ser abandonada.  “Nostalgia da Luz” é um filme notável, belíssimo e politicamente forte.




Foi exibido pela primeira vez por aqui na 34ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no mesmo ano de sua realização, 2010, quando o vi e jamais me esqueci, tal o impacto que me causou.  Em 2012, voltei a vê-lo no cinema, numa mostra de documentários latino-americanos, na Cinemateca Brasileira.  Pensei que nunca seria exibido no circuito comercial dos cinemas.  Cinco anos depois, finalmente, ele entra em cartaz.  É um programa imperdível.




Patrício Guzmán é um dos maiores documentaristas do mundo.  Foi responsável por uma antológica trilogia de documentários, denominada “A Batalha do Chile”, realizada de 1973 a 1979, um retrato impressionante do processo político chileno sob a condução de Salvador Allende, até o bombardeio do Palácio de la Moneda e a morte do presidente.  O vasto material gravado, que deu origem aos três filmes, só conseguiu sair do país graças a estrategemas diversos, apoio decisivo no exterior e, como sempre, contando com uma boa dose de sorte.  Há uma edição em DVD com os três filmes e um quarto volume, sobre o trabalho do cineasta Patrício Guzmán.  Quem ainda não conhece pode ir atrás, que vale muito a pena.  Além de aproveitar a oportunidade para ver “Nostalgia da Luz” nos cinemas.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A HISTÓRIA DA ETERNIDADE


Antonio Carlos Egypto




A HISTÓRIA DA ETERNIDADE.  Brasil, 2013.  Direção e roteiro: Camilo Cavalcante.  Com Irandhir Santos, Marcélia Cartaxo, Cláudio Jaborandy, Zezita Matos, Débora Ingrid, Leonardo França.  120 min.



“A História da Eternidade”, primeiro longa-metragem do pernambucano Camilo Cavalcante, é um filme de grande beleza plástica, que faz um uso magnífico da luz, dos closes de rostos, objetos, detalhes, de belos planos gerais e de enquadramentos impecavelmente construídos.  É um filme para se apreciar do começo ao fim, com atenção e calma.  Deixar fluir suas imagens numa atividade contemplativa, usufruir da sua poesia.




Se o título soa estranho e pretensioso, o filme é outra coisa.  Trata de um universo simples e sensível de um pequeno vilarejo no Sertão, onde vicejam a pobreza, a humildade e a frustração dos desejos.  Um mundo que não é capaz de absorver a transgressão da arte e para onde não se retorna, a não ser para tentar fugir de crimes cometidos na cidade.  Um lugar em que a dor pode ser profunda na solidão, mas em que o amor pode surgir de forma surpreendente e inesperada.

A vida de três mulheres, de diferentes faixas de idade, é posta em xeque por meio de seus desejos e da relação deles com a morte, como uma espécie de inevitabilidade.




No contexto árido em que vivem, a aspiração por ver o mar, a música do sanfoneiro cego apaixonado e a vinda de um neto para fazer companhia, preenchem e dão sentido, ao menos provisoriamente, a tudo.  Mas o destino reserva surpresas a todas elas.  Surpresas, na verdade, que podem ser antevistas pelo mundo que as cerca, pequeno e fechado.  Também por seus próprios desejos e instintos capazes de interferir fortemente no rumo dos acontecimentos.




Num elenco afinado e com ótimo desempenho, Irandhir Santos acaba por se destacar porque seu personagem lhe possibilita uma atuação exuberante.  A trilha sonora, muito expressiva, foi criada por Zibgniew Preisner, dos filmes de Krzysztof Kieslowski, e por Dominguinhos, em seu último trabalho.

O filme já ganhou muitos prêmios, entre eles, o do público, para o cinema brasileiro, na 38ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.




domingo, 15 de fevereiro de 2015

SNIPER AMERICANO


Antonio Carlos Egypto




SNIPER AMERICANO (American Sniper).  Estados Unidos, 2014.  Direção: Clint Eastwood.  Com Bradley Cooper, Sienna Miller, Luke Grimes, Jake McDorman.  132 min.


Não há dúvida de que “Sniper Americano”, dirigido por Clint Eastwood, é um filme de guerra muito bom, muito bem realizado, com um bom número de cenas marcantes e efeitos especiais colocados a serviço de contar bem uma história, sem maneirismos ou fios soltos.

O personagem central Chris Kyle, numa interpretação marcante de Bradley Cooper, mostra consistência e, em que pese sua profunda identificação com a guerra, estão lá seus conflitos pessoais e familiares, desequilíbrios, frustrações e inadaptações. É, portanto, um personagem que exibe humanidade.  Não se trata, apenas, de um laudatório da guerra.  Não é raso ou simplista.  Ainda assim, há muito a questionar na ideologia que move o filme.




Atirador Americano, que deveria ser o título do filme por aqui, se baseia na autobiografia de Chris Kyle, o atirador de elite da Marinha Americana, que virou herói, recebeu condecorações e a quem se creditam 160 mortes.  E que foi assassinado no Texas, quando já estava de volta, após quatro incursões pela guerra do Iraque.  A essa altura, ele havia voltado para a família e ajudava veteranos de guerra a superar traumas e dificuldades decorrentes do período bélico.  Ao mesmo tempo em que ele próprio, viciado na guerra, tentava se adaptar à vida pacífica.  O seu assassinato, que o filme não mostra, nem explica, só cita ao final, ainda está sendo julgado e a própria existência e sucesso do filme tendem a interferir no processo atualmente em curso.

“Sniper Americano”, com todos os méritos cinematográficos que tem, é um filme que faz a elegia do herói, aquele que se dedica de corpo e alma e com patriotismo à causa americana.  Que quer proteger os cidadãos norte-americanos de ataques, como o das Torres Gêmeas, e combater os inimigos em seu próprio domínio.




Muito bem, mas que heroísmo é esse a ser valorizado?  O dos Estados Unidos que invadiram uma nação, o Iraque, com base na suposição mentirosa de que lá haveria armas de destruição em massa?  O atirador que mata calculadamente, mas inclui crianças que carreguem artefatos bélicos, é o grande herói da América?  Não dá para engolir tal ideologia, tal modo de pensar.  O país que Chris Kyle defendeu com ardor é o mesmo que produz guerras por toda parte, alimenta com armamento pesado aqueles que depois se tornarão os inimigos a serem combatidos.  Não é assim que funciona?

Não dá para simplesmente colocar no papel de vítima o país que invade outros países, fomenta as guerras e com seu poderio procura impor sua vontade ao mundo.  Mas Clint Eastwood é um homem de direita, do Partido Republicano, apoiou Bush.  Fazer o quê?




Talento como cineasta ele tem de sobra, como já mostrou fartamente em sua filmografia, que inclui “Os Imperdoáveis”, de 1992, “Sobre Meninos e Lobos”, de 2003, “Menina de Ouro”, de 2005, “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”, de 2006, “Gran Torino”, de 2008, e “Invictus”, de 2009, entre outros. Em “Sniper Americano”, ele também compôs a música do filme.  Muito boa, por sinal.  São seis indicações ao Oscar 2015 para essa produção que valida a ideologia de guerra dos Estados Unidos da América 



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

SR. KAPLAN


Antonio Carlos Egypto




SR. KAPLAN (Sr. Kaplan).  Uruguai, 2013.  Direção: Álvaro Brechner.  Com Héctor Noguera, Néstor Guzzini, Rolf Becker, Nidia Telles, Leonor Svarcas.  95 min.


Jacobo Kaplan (Héctor Noguera) já passou por muitas dificuldades na vida.  Mas hoje, quando se aproxima dos 80 anos de idade, vive uma existência pacata no Uruguai, casado com a mesma mulher há cinquenta anos.  Sente um pouco de tédio e, refletindo sobre o que foi a sua vida, gostaria de ter deixado uma marca mais forte, para que pudesse ser lembrado pela história.



Uma conversa ao acaso parece abrir-lhe a chance para um lance heróico insuspeitado, quando ele fica sabendo de um homem de origem alemã que toca um modesto negócio numa praia, não muito distante de onde ele vive.  Indícios fazem-no suspeitar de que se trate de um ex-nazista, escondido por essa América do Sul, tal como aconteceu com Josef Mengele, por exemplo.  A origem judaica do sr. Kaplan fala mais alto e ele não pode perder a oportunidade de investigar o caso.  O filme nos leva a acompanhar suas peripécias em torno do assunto.  Apesar das limitações que a idade já lhe impõe, a disposição do sr. Kaplan parece inabalável...

Essa simpática produção uruguaia, dirigida por Álvaro Brechner, cria um clima de suspense, aventura e humor negro, ao contar essa curiosa história.  A narrativa flui muito bem.  Um bom elenco de atores, capitaneado por Héctor Noguera e Néstor Guzzini, este no papel do ex-policial Wilson Contreras, mantém o interesse pela trama, em que pese o fato de ela contar com alguma previsibilidade.




O que é muito interessante é que o filme coloca elementos dramáticos e de suspense em algumas situações que, no fundo, são banais.  A primeira cena, em que o sr. Kaplan se situa num trampolim alto de uma piscina, é ilustrativa disso.  Mas há muitas outras.  Ou seja, cenas bem estruturadas fazem com que pequenas coisas possam mexer com as pessoas.  Não é preciso apelar para todos os super-heróis e infinitas cenas de ação, recheadas de efeitos especiais, para envolver o público.  O cotidiano, os pensamentos, sentimentos, fantasias e incompreensões humanas têm muito mais a nos dizer do que as guerras intergaláticas.  Com inteligência e um pouco de dinheiro, pode-se fazer coisa boa e produzir entretenimento de qualidade, como é o caso aqui.




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

TIMBUKTU


Antonio Carlos Egypto




TIMBUKTU (Timbuktu).  Mauritânia, França, 2014.  Direção: Abderrahmane Sissako.  Com Ibrahim Ahmed aka Pino, Toulou Kiki, Abel Jafri.  97 min.

“Timbuktu” é um dos cinco finalistas na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro.  Representante da Mauritânia, país norte-africano que faz fronteira com o Marrocos, é um trabalho que impacta, tanto pela forma, quanto pelo conteúdo.

Para começar, pela belíssima fotografia que explora a vastidão das tonalidades de bege da região desértica onde se situa a ação. A areia levantada pelo vento, os deslocamentos dos veículos e das pessoas, o sol que reflete, a noite que desce e produz belas silhuetas, o rio que corre e se compõe com a paisagem arenosa e a pequena aldeia com suas tendas e habitações pobres formam um cenário sedutor, que é muito bem esquadrinhado por câmeras que penetram por todos os espaços.  Os enquadramentos são magníficos.  O plano geral que culmina com uma morte em consequência de uma briga no rio é, talvez, o mais deslumbrante momento de “Timbuktu”.  É muita beleza para tanta pobreza e sofrimento.  Mas quem gosta de cinema não vai deixar de apreciar tudo isso na tela grande e insubstituível das salas de cinema, quando se vê um filme como esse.




 O cineasta Abderrahmane Sissako é um esteta talentoso e ousado e sua coragem para abordar a realidade que escolheu tratar não fica atrás.  O filme mostra, por meio de diferentes personagens, o que significa para a pequena localidade de Timbuktu, no norte do Mali, a ocupação da aldeia por islâmicos radicais.

O fundamentalismo religioso determinando ações já tem demonstrado fortemente que resulta em tragédia.  Aqui, a ênfase maior está no sofrimento cotidiano, surdo e opressor, que também produz tragédias, mas que antes expulsa uma população que foge para não ter que suportar barbaridades que inviabilizam seu dia-a-dia.  Como as proibições de música e futebol, além de bebida e de fumo.  As mulheres, além de terem de cobrir a cabeça com véus, são forçadas a usar luvas e vestir meias para tudo.  O convívio conjugal sem casamento religioso é punido enterrando-se os “pecaminosos” até a cabeça e matando-os por apedrejamento. Todas essas coisas, de uma violência ímpar, são impostas sem maiores exteriorizações, em tom baixo, aparentemente religioso, mas sem direito ao perdão e sem piedade.  Julga-se e mata-se em nome de Alá, do Profeta, de Deus.  A justiça e a polícia islâmica ali retratadas são  implacáveis.




Quando se aplicam chibatadas para os pecados mais leves, o grito se impõe.  Como suportar tanta injustiça?  Mas também há lugar para a rebeldia juvenil: uma das boas cenas do filme é o jogo de futebol praticado pelos meninos sem bola. Sensacional!

O diretor não deixa dúvidas quanto ao que ele quer denunciar e quanto à sua posição sobre o fundamentalismo religioso que viceja na sua região e se espalha pelo mundo.  E o tão belo e artístico “Tumbuktu” não deixa de ser um filme de horror.  Triste e muito realista.

O filme da Mauritânia tem todos os méritos para estar na disputa pelo Oscar de filme de língua não-inglesa.   É difícil que seja o escolhido.  Mas ter chegado à disputa final já lhe deu uma visibilidade importante e merecida.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

BIRDMAN


Antonio Carlos Egypto




BIRDMAN ou A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance)Estados Unidos, 2014.  Direção, roteiro e produção: Alejandro Gonzáles Iñarritu.  Com Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton, Emma Stone, Amy Ryan, Naomi Watts.  119 min.



Um ator, Riggan Thomson (Michael Keaton), se torna famoso, celebridade, por ter encarnado um super-herói – o Birdman – em três filmes.  Mas, na hora de fazer o Birdman 4, sente que o personagem está esgotado e não aguenta mais repeti-lo.  A busca pela arte versus mero entretenimento sempre se coloca para os que fazem da arte de representar um trabalho sério.

Daí para partir para uma montagem teatral cabeça ou do gênero que lida com sentimentos humanos e reflexão, o caminho parece natural.  Musical da Broadway cheio de tecnologia não serviria, seria mais do mesmo estilo superespetáculo.  Mas como lidar com o que ficou para trás, com as expectativas não correspondidas, com a crítica especializada, com colegas de profissão complicados e com a reação do público?  Definitivamente, não é fácil.  Sair de um personagem de sucesso é muito mais complicado do que entrar nele.



Essa questão, que é central no filme do diretor mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu, de “Babel”, em 2006, e “21 Gramas”, de 2003, mexe com toda a indústria do entretenimento de Hollywood.  Realidade e fantasia entram na história o tempo todo, criando um produto curioso e atraente.  Reflexivo, claro.  Mas muito louco, também.

“Birdman” até tem algumas cenas de ação e efeitos especiais, mas o ator-personagem é um anti-herói confuso e insatisfeito, em busca de algo mais denso para sua vida artística.  O filme é mais para quem já se encheu dessa onda de super-heróis e personagens de quadrinhos no cinema.  Ou para quem se interessa pelos bastidores da criação artística e da indústria do entretenimento.




O importante é que o filme decola, envolve, critica e, ao mesmo tempo, diverte.  Tem um ótimo elenco, em que Michael Keaton se destaca como protagonista, mas ressalte-se o papel de Edward Norton, como Mike Shiner, um ator irresponsável e desequilibrado, mas que testa seus limites e os dos outros em cena, numa entrega total.  Emma Stone faz Lesley, a filha que emerge das sombras da celebridade do pai e consegue ver o jogo em que está envolvida.  Zach Galifianakis faz Brandon, o produtor teatral que precisa arbitrar conflitos para manter a peça em cartaz e promovê-la.  E toda uma gama de personagens compõe o mundo do espetáculo. 




Forte e criativo trabalho de Iñarritu em tom de comédia e recheado de fantasia.  É, ao lado do excelente “O Grande Hotel Budapeste”, de Wes Anderson, quem recebeu mais indicações para o Oscar 2015.  Ambos apontados em nove categorias.


domingo, 25 de janeiro de 2015

GRANDES OLHOS


Antonio Carlos Egypto




GRANDES OLHOS (Big Eyes).  Estados Unidos, 2014.  Direção: Tim Burton.  Com Amy Adams, Christoph Waltz, Kristen Ritter, Terence Stamp.  106 min.


Dos trabalhos do diretor Tim Burton sempre se espera algo inusitado, uma estranheza, uma excentricidade.  Em “Grandes Olhos”, essa expectativa não chega a se cumprir.  Exceto pelos grandes e marcantes olhos que a personagem-pintora Margaret Keane (Amy Adams) coloca nas crianças que retrata em seus quadros.




A história relatada pelo filme, de forma linear, é inspirada em fatos reais e diz respeito a uma farsa da qual a própria Margaret participou.  Seu marido, o também pintor Walter Keane (Christoph Waltz), assumiu publicamente a autoria dos quadros dos grandes olhos, que foram fazendo grande sucesso de vendas, com a conivência da verdadeira autora.  Eram os anos 1950 e as relações de gênero ainda se mostravam muito desequilibradas.  Mesmo assim, o que explicaria o comportamento dela?  Esse é o principal interesse do roteiro.  O que é muito apropriado.

O caso acaba nos tribunais, como se poderia imaginar.  É nesse ponto que o filme derrapa.  As cenas do tribunal não convencem, não têm credibilidade.  O início imediato e inverossímil de um julgamento em que o réu e o advogado se confundem dá margem a trapalhadas que soam constrangedoras, não engraçadas.  E a solução final estava tão à vista, tão evidente, tão esperada, que se tornou óbvia e sem maior interesse.




É possível que os fatos relatados no tribunal pelo filme até contenham elementos verdadeiros do processo e que sejam fiéis a detalhes da realidade.  Mesmo nesse caso, as cenas não se justificam, poderiam ter sido muito melhor conduzidas, e se o final era tão previsível uns bons cortes aliviariam a sensação de algo que se arrasta sem qualquer necessidade.  Uma montagem mais ágil poderia contar tudo aquilo em poucos planos.

O casal de protagonistas está muito bem.  Christoph Waltz enfatiza na sua atuação o lado sedutor, marqueteiro e malandro do seu personagem.  Amy Adams destaca, com seu desempenho contido, a insegurança e a submissão de seu personagem, capaz de permanecer assim mesmo diante de um talento reconhecido pelas pessoas e pelo mercado, gerando altos lucros e possibilitando um estilo de vida luxuoso.  É daí que provém todo o interesse da trama.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

DEPOIS DA CHUVA


Antonio Carlos Egypto




DEPOIS DA CHUVA.  Brasil, 2013.  Direção: Cláudio Marques e Marília Hughes.  Com Pedro Maia, Sophia Corral, Talis Castro, Aícha Marques, Ricardo Pisani, Victor Corujeira.  90 min.


No começo dos anos 1980, a ditadura civil-militar brasileira perdia força progressivamente, enquanto tentava uma transição para a normalidade democrática, que pudesse se fazer por meio de uma abertura lenta, gradual e segura.  A lei da anistia cimentaria uma espécie de esquecimento dos crimes praticados de lado a lado, ou seja, a resistência armada sendo equiparada à tortura oficial do regime.

O fato é que o movimento pelas diretas já acendeu uma grande esperança no povo, já farto do regime autoritário que se arrastava por duas décadas, infelicitando a nação brasileira.  Os comícios organizados reuniam grandes multidões e diversas tendências políticas, que tinham em comum a luta pela reconstrução do Estado de Direito no Brasil.  O clima era, portanto, tenso, mas promissor.  As reuniões e debates já podiam acontecer à luz do dia.  E, afinal, seria mesmo uma questão de tempo.  Mas, antes que o ideal da redemocratização pudesse acontecer, o país ainda viveria duas enormes frustrações: as eleições diretas para presidente não vieram, foi preciso criar uma engenharia política para eleger Tancredo Neves pela via indireta e, eleito, Tancredo morreu antes de que pudesse tomar posse.  As esperanças geraram frustração, desencanto.  Embora a transição tenha se realizado a contento, com o governo de José Sarney, o vice de Tancredo, passamos da euforia à depressão.




Esse momento político marcante da nossa história está presente na ficção “Depois da Chuva”, de Cláudio Marques (também roteirista do filme) e Marília Hughes, por meio do microcosmo de Caio (Pedro Maia), na sua vida de aluno do colegial, atual ensino médio. 

Nas suas relações pessoais, no envolvimento com o grêmio da escola em vias de reativação, descobrindo o amor, a amizade e o peso da política na vida de cada um, ele vive mergulhado no inconformismo, na contestação, orientado por uma perspectiva genericamente anarquista que olha mais para o desencanto do que para a esperança.  Ainda que flerte com ela: chega a apresentar uma candidatura ao grêmio estudantil, após pregar a anulação do voto.  Seus pais estão distantes dos seus dilemas e preocupações, de uma forma ou de outra, estão cuidando de suas próprias coisas e isso já parece ser muito.




O filme se concentra no clima, no dia-a-dia escolar, nas questões existenciais dos jovens, no rock rebelde que se opunha à MPB contestadora da época, na escala reduzida de uma escola em Salvador, na Bahia, e por meio dela remete ao que se vivia no país.  No instante recortado dessa história, a frustração se impõe, dando a dimensão de um desencontro que, supostamente, ainda esteja aí como consequência de tudo aquilo.

No entanto, se olharmos para o que se construiu depois disso, há que se reconhecer o muito que se conquistou na solidificação de uma democracia plena de direitos, das instituições, além de palpáveis avanços econômicos e sociais. Ansiamos hoje por novos modelos de atuação política dentro do espectro democrático, buscando solidificá-la em bases de representação e participação mais sólidas e eficazes.  A batalha do período retratado por “Depois da Chuva” já foi vencida.  E isso não é pouco.




Revisitar esses períodos recentes da nossa história por meio de memória da experiência vivida e de lembrança de seus embates dentro e fora de cada um de nós, como fez o filme baiano, é um bom caminho ficcional que o cinema brasileiro pode explorar mais.  Contribui para a reconstituição das verdades que não só uma comissão nacional designada para esse fim tem a obrigação de resgatar.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

IDA

 Antonio Carlos Egypto




IDA (Ida).  Polônia, 2013.  Direção: Pawel Pawlikowski.  Com Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza, Dawid Ogrodnik, Jerzy Trela.  80 min.


O filme polonês “Ida” nos presenteia com uma grande beleza que resulta de sua aparente simplicidade e humildade.  A começar pelas imagens sóbrias em preto e branco e pelos enquadramentos que, em grande parte do tempo, colocam os personagens na parte baixa da tela, enquanto o ambiente ocupa a maior parte da imagem.  Coisas que nos remetem a um tempo passado e a uma dimensão que ultrapassa os desejos e possibilidades humanos.




A história é toda centrada na figura da noviça Ida (Agata Trzebuchowska) e suas vestes cinzentas, simples e grossas, para enfrentar o frio.  Só seu rosto pode revelar sua beleza.  Os ambientes, além de pobres e discretos, são marcados pelo tempo fechado e pela neve.  O clima é, via de regra, silencioso, para poder dar espaço à dúvida e à reflexão.

Um filme que nos remete, ainda, à história polonesa de dominações e opressão, com destaque para a barbárie nazista.  Mas não é possível esquecer os equívocos do regime comunista lá mantido no pós Segunda Guerra Mundial e o legado anticomunista e conservador que Karól Wojtyla, o longevo papa polonês João Paulo II, legou ao mundo.





O drama da noviça Ida se concentra, no entanto, na questão da identidade.  Sem família, com apenas uma tia viva que desconhece, ela viveu toda sua existência amparada por um convento de freiras.  Sua escolha natural será se tornar ela própria uma freira.  Mas, às vésperas de seus votos, ela é instada a conhecer suas origens judaicas e a tragédia que acometeu sua família nas mãos dos nazistas.  E, além disso, a conhecer o desejo, a sensualidade, a dança e a bebida, coisas absolutamente distantes dela.

A identidade se constrói na sociedade e está representada no modo pelo qual cada um se vê e se reconhece.  Quem é Ida e quem pode ser Ida?  Inevitavelmente, os caminhos traçados têm de ser repensados.  Qual será a identidade resultante do choque que se estabelece com as novas revelações?




O que poderia desembocar num grande drama de tintas fortes e histeria aqui se apresenta em tom baixo e singelo, mas profundo.  São cuidadosos e econômicos 80 minutos de projeção, que revelam seu humanismo e solidariedade às dores pessoais e coletivas. 

Belíssimo filme, já premiado em Toronto, Canadá, e em diversos festivais europeus, aparece indicado como  filme estrangeiro representando a Polônia, em disputas como o Oscar, o Globo de Ouro e o Bafta.  O diretor Pawel Pawlikowski, também roteirista do filme, nasceu em Varsóvia, mas saiu da Polônia aos 14 anos e foi estudar literatura, filosofia e cinema em Londres, onde fez carreira inicialmente como documentarista.  Já venceu o Bafta (o Oscar britânico), com seu filme de estreia, em 2000, e novamente em 2004.


domingo, 11 de janeiro de 2015

MELHORES DO ANO DE 2014


Antonio Carlos Egypto

Para não perder o costume, e atender a pedidos, vamos às listas de melhores filmes do ano de 2014, considerando os que foram lançados regularmente no circuito comercial dos cinemas.  Não entram os filmes exibidos apenas em mostras ou festivais.  Não há distinção entre ficção e documentário.

O número de lançamentos foi grande: 379 filmes em todo o Brasil.  Boa parte deles não atingiu todas as principais cidades do circuito de exibição.  Alguns poucos foram lançados apenas regionalmente.  O circuito São Paulo – Rio foi o que deu conta da quase totalidade dos lançamentos.

Apesar da média de novos títulos do ano se aproximar de um filme por dia, o resultado em termos de qualidade não foi tão entusiasmante assim.  Não que faltassem bons ou ótimos filmes para compor a lista de melhores.  Mas não há os especialmente brilhantes ou inesquecíveis para marcar 2014 na história do cinema.  Há talento e criatividade.  Há inovação e a mão de alguns grandes mestres que já se despedem do cinema.  Registre-se a perda de Alain Resnais e o aniversário de 106 anos de Manoel de Oliveira, em dezembro último.


O elenco de O GEBO E A SOMBRA com Manoel de Oliveira


A lista dos dez filmes internacionais de que mais gostei, por ordem de preferência, entre os lançamentos de 2014, é a seguinte:

1.    O GEBO E A SOMBRA, de Manoel de Oliveira, Portugal.
2.    AMAR, BEBER E CANTAR, de Alain Resnais, França.
3.    O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, de Wes Anderson, Estados Unidos.
4.    A IMAGEM QUE FALTA, de Rithy Panh, Camboja.
5.    INSTINTO MATERNO, de Calin Peter Netzer, Romênia.
6.    NINFOMANÍACA I e II, de Lars Von Trier, Dinamarca.
7.    ELA, de Spike Jonze, Estados Unidos.
8.    MISS VIOLENCE, de Alexandro Avranas, Grécia.
9.    O QUE OS HOMENS FALAM, de Cesc Gay, Espanha.
10. BOYHOOD – DA INFÂNCIA À JUVENTUDE, de Richard Linklater, Estados Unidos.


AMAR, BEBER E CANTAR


Tentei fazer uma lista dos cinco filmes brasileiros que mais me agradaram, que acabou com seis títulos.  Considerei um empate no quinto lugar.  Aí vai ela:

1. HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO, de Daniel Ribeiro.
2. O MERCADO DE NOTÍCIAS, de Jorge Furtado.
3. PRAIA DO FUTURO, de Karim Aïnouz.
4. GETÚLIO, de João Jardim.
5. QUANDO EU ERA VIVO, de Marco Dutra.
    O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra.

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO