Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Duas vezes Juliette Binoche

Tatianna Babadobulos

Estão em cartaz em São Paulo dois filmes franceses que trazem a atriz Juliette Binoche no elenco. Ambos, aliás, estrearam no mesmo dia. Um deles é "Paris" ("Paris") e, como não poderia deixar de ser, o cenário é a própria capital francesa. Mas a cidade mais conhecida do mundo como pano de fundo não é o único atrativo do longa-metragem dirigido por Cédric Klapisch ("Bonecas Russas").

O filme conta a história de Pierre (Romain Duris, de "As Aventuras de Molière") que, segundo seu médico, está em estado terminal, pois precisa de um transplante de coração. A primeira pessoa para quem ele conta a triste novidade é sua irmã Élise (Juliette), mas a primeira mudança que faz em sua vida é começar a observar o mundo ao seu redor e os diferentes personagens que vivem na cidade.

Assim, a história se constrói na medida em que Klapisch aponta suas lentes para os feirantes que disputam a freguesia, para a moça que começa a trabalhar na padaria cuja dona é uma insuportável racista e mandona (Karin Viard), o arquiteto Philippe (François Cluzet), seu irmão, o professor de história Roland (Fabrice Luchini), que se apaixona pela aluna Laetitia (Mélanie Laurent) e fica lhe enviando poemas anônimos por mensagens do celular. O filme também mostra personagens que tratam de problemas com a imigração (tema tratado também em “Bem-Vindo”, de Philippe Lioret).

E é a partir desse mosaico que Cédric Klapisch mostra o cotidiano de Pierre que, como professor de dança, junta seu grupo e mostra coreografias intensas, bem-construídas, embora não tenha fôlego para executar todos os saltos que são propostos. Romain Duris, aliás, é capaz de transmitir ao espectador a dor que sente e mostra que é possível superar esse momento de tensão e esperar, curtindo a vida, brincando com as sobrinhas, sendo feliz.

"Paris" teve três indicações ao César (o Oscar francês), nas categorias Edição, Filme e Atriz Coadjuvante (Karin Viard). Trata-se de um filme belo, capaz de fazer com que o espectador contemple o cenário em que a história se passa e, por que não?, olhe para si e veja que ao seu redor a vida pode ser mais bonita do que lhe parece. Sim, o cinema tem essa capacidade e não se pode perder a chance.

O outro longa é o drama francês "Horas de Verão" (“L'Heure d'Été”), que foi apresentado no ano passado durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Escrito e dirigido por Oliver Assayas, o filme conta a história da matriarca, Hélène Berthier (de "A Questão Humana"), que reúne na casa de campo da família seus filhos e netos para celebrar seu 75º aniversário.

Então, os irmãos, que vivem distantes, se encontram e logo depois a mãe morre. A partir de então eles terão de fazer as divisões que incluem obra de arte de seu tio, um pintor do século 19. Começam pra valer as diferenças entre a designer que vive em Nova York, Adrienne (Juliette), o economista e professor Frédéric (Charles Berling) e o empresário Jérémie (Jérémie Renier), que atualmente vive na China e um dos que não pensam nem em discutir o assunto. No entanto, é preciso enfrentar a discussão, uma vez que Frédéric não quer ter de decidir tudo sozinho já que os outros dois irão embora e darão as costas a essas questões.

“Horas de Verão” se passa praticamente dentro da casa de campo da família e é dentro do imóvel que também fará parte do inventário que acontece o drama familiar que discute o valor da herança e da família, entendimento entre irmãos que têm pouco em comum, principalmente porque cada um quer cuidar da própria vida e não daquela que foi deixada pela mãe deles que muito fala sobre as origens e os valores que objetos têm e que dizem sobre a família em que nasceram.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

BEM-VINDO


Antonio Carlos Egypto



BEM-VINDO (Welcome). França, 2008. Direção: Philippe Lioret. Com: Vincent Lindon, Firat Ayverdi, Audrey Dana e Derya Ayverdi. 105 min.


A questão dos imigrantes na Europa, e na América do Norte, tem alimentado posturas políticas de direita que procuram atribuir a eles a culpa pelas crises e problemas econômicos que vivem, gerando um ódio e uma intolerância que alimentam fanatismos e violência. Os grupos neonazistas representam o extremo dessas posturas, mas elas alimentam também mentes teoricamente mais abertas e civilizadas que as deles. O que assusta é a que ponto podem chegar essas teses.

O filme francês “Bem-vindo” é mais uma das produções artísticas européias a se preocupar com a questão humana dos imigrantes ilegais, sujeitos a todo tipo de exclusão e humilhações, só porque estão em busca de sobreviver, trabalhando com dignidade em outro país. Claro que a lei não está do lado deles, e as condições de vida não lhes permitem enquadrar-se nas leis estabelecidas sobre o assunto.

O filme, dirigido por Philippe Lioret, é extremamente sensível à questão humana que é colocada para os imigrantes, ao focalizar um jovem refugiado curdo, vivendo na França, que só vê uma saída para ir ao encontro de sua amada na Inglaterra: atravessar o Canal da Mancha a nado. Para isso, ele procura a ajuda de um professor de natação, que, buscando impressionar e reconquistar sua mulher, que advoga o tratamento humanitário dos imigrantes, resolve ajudá-lo.

É aí que o filme ganha importância, ao mostrar que uma simples ajuda humanitária pode colocar na cadeia quem a pratica. Está na lei. Veja bem que estamos falando das leis francesas, e a França foi tradicionalmente um país que sempre acolheu democraticamente exilados e dissidentes de seus países de origem, inclusive brasileiros, na época da ditadura militar.

A cena mais chocante do filme se passa num supermercado, onde os imigrantes são reconhecidos e impedidos de comprar itens absolutamente banais que povoam o cotidiano de todas as pessoas. É inacreditável que alguém possa ser impedido até de gastar o seu próprio dinheiro num supermercado, apenas por ter cara e jeito de imigrante, provavelmente ilegal. Se na França está acontecendo isso, o que esperar do resto do mundo?

O alerta que as cenas de “Bem-vindo” nos trazem é que estamos atravessando um terreno perigosíssimo de intolerância e desumanidade, que pode ser altamente destrutivo para nossa pretendida civilização democrática, que antes de mais nada teria de aprender a cultivar a diversidade e a pluralidade, cultural e pessoal.

O cinema contemporâneo de qualidade tem revelado preocupação com essas questões e, no caso de “Bem-vindo”, focalizando de perto os sentimentos das pessoas envolvidas. Isso nos leva a compreender o sofrimento humano que essas políticas equivocadas e truculentas podem produzir nas pessoas. Não só do lado dos imigrantes, mas de todos que participam do convívio social.

Felizmente, ares novos parecem soprar da América de Obama, para nos mostrar que o equilíbrio nas políticas e nas relações humanas, de todos os tipos, é perfeitamente possível. “Bem-vindo” dá a sua contribuição para isso, com uma boa história, uma direção competente e atores e atrizes que convencem, ao viver o drama humanitário que acompanha a imigração nos dias de hoje.

Domingo, 28 de Junho de 2009

CASAMENTO SILENCIOSO





Antonio Carlos Egypto


CASAMENTO SILENCIOSO (Nuta Muta), Romênia, França, Luxemburgo, 2008. Direção: Horatiu Malaele. Com: Meda Victor, Alexandru Potocean e Doru Ana. 87 min.



Do cinema romeno chegaram até nós, nos últimos anos, 2006 e 2007, três ótimos filmes: “A leste de Bucareste”, de Corneliu Porumboiu, “Como eu festejei o fim do mundo”, de Catalin Mitulescu e, principalmente, “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, de Cristian Mungiu. Isto me fez ficar atento ao que mais chegasse da Romênia em forma de cinema.

“Casamento Silencioso” é o novo título que chega aos nossos cinemas. Espero que chegue também ao DVD, uma vez que, dos outros três títulos que citei acima, nenhum deles está disponível até o momento.

Que o novo cinema romeno destile as agruras do regime comunista, imposto e autoritariamente comandado pela então União Soviética, não é surpresa. Nem que Nicolau Ceausescu, o tirano local, seja a lembrança trágica, explicitada ou não, de seus filmes. Mas que o humor seja o veículo para sepultar esses fantasmas é uma grata surpresa.

No caso de “Casamento Silencioso”, a mise en scène, por seu tom barroco, em tudo exagerado, e a histeria que aí se revela, nos remetem ao cineasta sérvio Emir Kusturica. Muita agitação, música intensa, dramaticidade e provocação exacerbadas são visíveis desde as primeiras cenas do filme. A fonte de inspiração é o inegável talento de Kusturica. Incomoda um pouco a quem prefere curtir a vida em tom menos estressante e agitado, mas tudo bem. O mais interessante, porém, é o contraste que se estabelece a partir disso, no desenvolvimento da trama.

Num pequeno vilarejo romeno, em 1953, na zona rural, um casamento é o evento marcante daqueles dias. Está tudo pronto para começar a festa, quando chega a notícia da morte de Stálin, do luto internacional que se seguirá, proibindo manifestações públicas, sobretudo alegres, inclusive festas e casamentos. Muitos talvez quisessem comemorar tal morte, que representou para eles um alívio depois de tanta opressão. O stalinismo certamente não deixou saudades. Mas o que fazer diante da festa pronta, que deveria começar, e a mesa farta, que já está até posta? A saída que encontram é realizar um casamento silencioso: sem copos brindando, sem talheres ruidosos, sem discursos ou música audíveis, ou seja, em total silêncio, para não despertar suspeitas de que as normas proibitivas não estivessem sendo seguidas. E é aí que o filme se torna engraçado.

Parar aquela parafernália que nos foi mostrada, contrapondo cenas que exigem um controle impossível para aquela situação e para aqueles personagens, especialmente, é hilário. A originalidade do filme é justamente encenar o inviável: uma festa de casamento sem som (já que proibida e realizada clandestinamente).

O som se torna um personagem do filme nas cenas da festa, qualquer ruído, por menor que seja, nos faz rir. Grande idéia para se explorar em tempos de equipamentos de som sofisticadíssimos nos cinemas. O efeito dessas cenas é tanto mais curioso uma vez que se insere naquele conceito barroco-histérico que dá o tom do filme. O contraste é perfeito e a escolha daquele tom fica, então, inteiramente justificada.

O que se segue não é engraçado e talvez seja explícito demais, mensagem pronta demais, que não deixa espaço à reflexão. É compreensível exorcizar velhas tragédias e seu custo não é mesmo brincadeira, mas na contemporaneidade vilões e mocinhos já não são verdades autoexplicativas, ou seja, não convencem como tais. Opressão e ignorância desmedidas também nos colocam em posição de ceticismo ou desconfiança. E, afinal, o que é excessivo pode iludir. Mas nada disso tira a criatividade que as cenas do casamento silencioso, que dá título ao filme, apresentam. Elas seguramente valem a ida ao cinema.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Jean Charles

Tatianna Babadobulos

O fato não aconteceu há muito tempo, mas, com o intuito de “celebrar a vida” de Jean Charles de Menezes, assassinado por agentes do serviço secreto britânico, em 22 de julho de 2005, em Londres, o diretor Henrique Goldman resolveu contar a sua história no cinema.

O filme leva o nome do eletricista que vivia na capital inglesa, “Jean Charles”, e a produção foi feita em conjunto entre Brasil e Inglaterra.

Embora o episódio não tenha tido uma resolução, uma vez que a família ainda luta por justiça, o diretor diz que o filme, cujas cenas foram escritas com base em pesquisas nos laudos policiais, ajude a solução e que “leis melhores entrem em vigor”.

Para construir a história que revela os últimos meses da vida do eletricista de Minas Gerais, a partir da chegada a Londres de sua prima Vivian, que vai morar com ele e os primos Alex e Patrícia, os roteiristas e os atores conheceram algumas das pessoas que conviveram com Jean Charles durante o tempo que ele passou em Londres. A prima dele, Patrícia Armani, aliás, vive ela mesma no filme e foi uma das pessoas que mais influenciaram na construção das cenas.

Vanessa Giácomo, que interpreta Vivian, conta que não leu o roteiro antes. “Tive dois encontros com ela. Fui para Gonzaga [cidade de Jean Charles] e conheci os pais dela e os de Jean”, diz. Ao chegar ao velho continente, Vivian começa a trabalhar em um restaurante com a ajuda de Jean.

Ao contrário da atriz, Selton Mello não teve acesso a nenhuma imagem em movimento de Jean Charles. “Só vi fotos e ouvi muitas histórias. Nasci em Passos, no sul de Minas Gerais, fui criado em São Paulo, e a maneira como ele se assombrou com Londres não é muito diferente de como foi comigo. Eu queria ir à estação de metrô de Stockwell, onde há um santuário em homenagem a ele, pedir licença porque eu ia interpretá-lo, mas o Henrique achou melhor eu não ir porque eu estava lá para fazer a vida dele e não sua morte”, diz Selton. Outra coisa foi que ele não conheceu os pais dele.

Se um dos últimos filmes que Selton Mello fez foi "Meu Nome Não É Johnny", sobre a vida de João Estrella, agora ele atua em “Jean Charles”, filme sobre a vida do rapaz assassinado. Sobre essas semelhanças, ou seja, interpretar vida de pessoas, ele diz que a diferença básica é que o João “sempre ia ao set de filmagem”. “Tinha contato direto. E ‘Jean Charles’ eu penso que é um filme sobre um brasileiro. Londres é o terceiro lugar do mundo onde há mais brasileiros, só fica atrás de Nova York e Massachusetts – aliás é difícil falar Massachusetts”, brinca. “Fiquei muito comovido com o filme, adorei. Acho que o Henrique foi preciso. Ele veio de uma escola documental e conseguiu fugir das armadilhas que poderia glorificar o cara”, aponta Selton.

Em destaque nas cenas também estava o personagem Alex, vivido por Luís Miranda, que morava no mesmo apartamento de Jean Charles. Ele conta que o toque de humor de que deu ao seu personagem é uma característica sua, uma vez que trabalhou no “Terça Insana”, além de seu personagem em "Meu Nome Não É Johnny" também ter esse bom-humor. “Este personagem só tomou vida quando cheguei em Londres e lá me deparei com o cara ímpar que é o Alex. Tentei me aproximar dele, beber dos diálogos que ele usa para construir os meus”, diz.

Segundo Henrique Goldman, não há fantasias na história contada no cinema, mas algumas partes foram inventadas para sintetizar a narrativa. “A história foi ficcionalizada para ser mais real. É estranho, mas foi isso”, completa ele.

De um modo linear, Goldman aponta suas lentes para os cartões postais da cidade, como London Eye, Big Ben, Tower Bridge, rio Tâmisa, e para o dia a dia não apenas desses brasileiros, mas também de outros que trocam seu país natal para viver muitas vezes ilegalmente em busca de um bom punhado de libras.

Na primeira versão da montagem havia uma cena que, antes de Jean Charles ser assassinado no metrô, ele falava com os policiais. No entanto, essa cena foi cortada. Segundo o produtor Carlos Nader, aquela cena não existia nos laudos. “Alex me ligou e disse que era para tirarmos a cena porque não havia sido assim. Vimos que tinha procedência real e moral e cortamos os três segundos.”

O diretor afirma que os policiais fizeram de tudo para colocar a culpa em Jean Charles, alegando que ele havia recebido voz de prisão por ter sido confundido com um terrorista, mas isso não aconteceu de fato. “As 19 testemunhas afirmaram isso e o argumento da polícia era que seus agentes se viram diante de um homem-bomba e atiraram em autodefesa. Colocando a cena no filme, mudaríamos os fatos”, conclui. “Cheguei a ligar para o chefe da corregedoria da polícia britânica para checar todos os detalhes. Mesmo porque a cena pode ter implicações legais e buscamos ser o mais preciso possível”, completa o roteirista Marcelo.

Não resta dúvida que se trata de uma boa história a ser contada, uma vez que, mesmo depois de quatro anos, o episódio não teve resolução, haja vista a família que ainda lutar por justiça. O destaque, porém, é principalmente para a interpretação de Selton Mello, que com seu timing de humor apresenta um personagem engraçado e ao mesmo tempo emotivo, por exemplo quando fala com a família ao telefone. O que não se sabe, contudo, é se de fato Selton está interpretando ou se é ele mesmo quem está em cena, uma vez que Jean Charles, um matuto do interior, talvez não tivesse a malevolência do ator, que também é mineiro, mas foi criado em São Paulo.

Destaque também para as tiradas de sarro de Luís Miranda, como quando ele apresenta para Vivian as maravilhas que os eletrodomésticos são capazes de fazer na cozinha.

Como já se sabe o final da história, uma vez que o fato foi noticiado em todos os jornais na época, não existem muitas novidades no filme, a não ser o modo como Henrique Goldman conta a história. No entanto, "Jean Charles" é uma ótima oportunidade de se conhecer o que aconteceu naquele trágico dia, uma vez que o roteiro foi escrito com base nos laudos policiais e nos depoimentos dos amigos próximos. Assim, será possível entender que os policiais, em seus depoimentos, tentaram forjar o ocorrido, alegando que atiraram em autodefesa. Balela.

Domingo, 21 de Junho de 2009

TINHA QUE SER VOCÊ




Antonio Carlos Egypto


TINHA QUE SER VOCÊ (Last Chance, Harvey), Estados Unidos, 2008. Direção: Joel Hopkins. Com Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkins e Kathy Baker. 93 min.


Uma história de amor maduro, num filme que segue as convenções do gênero, incluindo o drama, o humor, as reviravoltas e surpresas da trama, o suspense e o desfecho. Tudo muito bem feito, embora sem grandes novidades.

O que o filme tem de interessante é o fato de abordar o enamoramento na maturidade, o que torna tudo mais complexo, cheio de nuances e mais difícil. As feridas de outras experiências, as decepções, as expectativas que vão repetidamente se frustrando e até a falta de disponibilidade para a experiência amorosa, que também aparece, tornam improvável esse enamoramento. Acresce-se a isso o investimento no trabalho ou no estudo, como fatores também compensatórios, e o declínio deles gerando um verdadeiro impasse na vida.

A solidão fala mais alto, se faz necessário enfrentá-la e superá-la, mas pode-se já estar acostumado a ela e pouco disposto ou disposta a mudar de hábitos, de lugar ou de vida. As relações familiares já constituídas formam uma barreira que, às vezes, parece intransponível. É esse conjunto de questões-problema que interfere no amor em plena maturidade. O amor parece que se apresenta fora de hora, desajeitado.

Ele parece encontrar sua tábua de salvação, ela procura fugir, com medo da rejeição e, sobretudo, de sofrer. Ele é Harvey (Dustin Hoffman), nova-iorquino que está prestes a perder um emprego de compositor de jingles, que limita seus dotes artísticos e que explora sua última chance de se enamorar, conforme o título original do filme. Ela é Kate (Emma Thompson), londrina, cuja vida se limita ao trabalho, a um curso sobre literatura e à atender e cuidar de uma mãe que exige a atenção dela o tempo todo. Ambos viverão a experiência amorosa que vai mudar suas vidas em plena maturidade.

O que o filme tem de melhor, mais cativante, é a fantástica interpretação, tanto de Dustin Hoffman, quanto de Emma Thompson. O filme é deles, que conseguem passar emoções complexas, com uma expressão, um olhar, um movimento. Aquele tipo de interpretação que pode dispensar as palavras. Elas são supérfluas porque os gestos e as ações já mostraram tudo. A sutileza impera onde transborda o talento. E é bonito de ver.
Eles fazem de seus personagens gente de carne e osso, dando a dimensão humana que os engrandece. “Tinha que ser você” é um filme de ator e atriz em estado de graça, desfrutando de sua maturidade de forma muito mais plena e tranquila do que a de seus personagens.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

A Mulher Invisível

Tatianna Babadobulos

“A Mulher Invisível”
, comédia dirigida por Cláudio Torres (“Redentor”), estreou no dia 5 de junho e, em sua segunda semana de exibição (12 a 14/06), atingiu o primeiro lugar do ranking de bilheterias do final de semana. Nesses três dias, mais de 276 mil pessoas foram assistir ao filme estrelado por Selton Mello e Luana Piovani, que soma quase 800 mil espectadores.

Além de dirigir o longa-metragem, Cláudio Torres também é responsável pelo roteiro e pela produção. Sendo assim, ele escreveu a personagem que dá nome ao filme, a tal mulher invisível, pensando na atriz Luana Piovani. Na trama ela é Amanda, vizinha de Pedro (Selton), que começa a fazer parte de sua vida, assim que sua esposa (Maria Luiza Mendonça) o deixa e viaja com um alemão.

A partir de então, ele passa a viver a vida de solteiro indo a festas raves, alternando a companhia na cama, de modo que a cada noite uma mulher nova ocupa o espaço deixado. Até que, depois de se isolar (dar "um tempo do mundo", como ele diz em uma passagem), bate a sua porta a mulher próxima ao ideal (ou seja, faz parte de sua ideia): bela, dedicada, adora futebol e não tem crise de ciúme. No entanto, como não é mistério, já que é o mote do filme, ela simplesmente não existe, é fruto da imaginação do rapaz que está desolado por conta da perda da esposa, uma vez que ele tinha o sonho de passar a vida toda com ela, ter filhos etc. Amanda passa a cuidar dele, os dois se apaixonam e vivem a vida de casal.

Então, seu amigo e colega no trabalho (ambos trabalham como controladores de trânsito), Carlos (Vladimir Brichita), começa a desconfiar da paixão, pois ainda não a viu. Cético com relação ao amor, Carlos conhece a vizinha de Pedro, Vitória (Maria Manoella), que acabara de ficar viúva, mas é apaixonada pelo vizinho. Os personagens estão no Rio de Janeiro, mas a história poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, uma vez que a maior parte das cenas acontece no apartamento de Pedro, em restaurantes, cinemas etc.

Selton Mello, como já é conhecido do público, vive o personagem de maneira intensa, com senso de humor que lhe é peculiar, timing perfeito para comédia e sempre se destaca quando em cena. Aqui, assim como em "Meu Nome não é Johnny", quando Selton vive o protagonista que se envolve com drogas se tornando um traficante internacional, cortam a luz do seu apartamento (e ele passa a usar luz de velas), assim como cortam o telefone por falta de pagamento. É como se o ator conseguisse lidar muito bem com esses episódios.

Luana utiliza mais os seus atributos físicos para viver esta personagem, uma vez que na maior parte das cenas ela aparece vestindo lingeries (a maioria das peças é dela mesma): um perfeito desfile de calcinha e sutiã, ora comportado, ora ousado, incluindo cinta-liga e corpete. Um dos momentos de destaque do filme é com a participação de Fernanda Torres, que vai à casa de sua irmã, Vitória, para também ouvir a conversa do vizinho através da parede com ajuda de um copo. E Maria Manoella, aliás, é a tal mulher real, de carne e osso, com defeitos, como uma gordurinha aqui, outra ali, com ataque de ciúme.

No longa-metragem "A Garota Ideal" (que será lançado em DVD em julho), o protagonista se apaixona por uma boneca que encomendou pela internet, e de fato acredita que ela é real, fazendo com que o espectador se sinta um pouco constrangido com as cenas em que os dois dialogam. No filme de Cláudio Torres, porém, o protagonista também dialoga com algo irreal, mas o espectador, ao contrário do outro filme, fica mais confortável, uma vez que a personagem, vez ou outra aparece, conversa com o rapaz e faz parecer que é real.

Destaque também para a trilha sonora, que acompanha o estado de espírito dos personagens: música incidental fúnebre quando ele está triste tentando retomar as atividades cotidianas, e rock and roll quando vai dançar, se divertir etc., principalmente músicas de Ramones, Janes Joplin, Lobão.

Embora "A Mulher Invisível" seja um filme previsível e sem grandes aprofundamentos, é possível que conquiste o espectador que vai correr às salas de cinema para acompanhar o novo trabalho de Selton Mello que, de fato, está bem, embora não seja a sua melhor interpretação; as belas curvas de Luana Piovani e a certeza que a tal mulher ideal não existe.

Seja como for, "A Mulher Invisível" é um filme de qualidade, que vale a pena ser conferido, ainda que seja para homenagear o cinema brasileiro ou apenas dar duas ou três gargalhadas com as poucas piadas que de fato são engraçadas e fazem pensar.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

A PARTIDA



Antonio Carlos Egypto


A PARTIDA (Okuribito). Japão, 2008. Direção: Yojiro Takita. Com: Masahiro Motoki, Ryoko Hirosue e Tsutomi Yamazaki. 131 min.

O filme japonês “A Partida”, vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2008, surpreendeu ao derrotar favoritos de peso, como o israelense “Valsa com Bashir”. Do ponto de vista da técnica cinematográfica, pode-se dizer que o israelense inova mais, ao fazer uma animação não só adulta e seríssima, mas também pelo seu caráter questionador e pacifista, tão importante para o momento atual do Oriente Médio. Meu favorito seria “Entre os muros da escola”, em que a educação como processo se revela por inteiro. (vide postagem anterior).

“A Partida”, no entanto, é uma película notável, sob muitos aspectos. Antes de mais nada, pela forma simples, direta e, ao mesmo tempo, sutil e sensível de tratar do tema da morte. Mais do que tratar, enfrentar o tabu da morte, não apenas como algo simbólico, mas também como algo muito concreto.

Os corpos devem ser cuidados e preparados para serem colocados no caixão e, depois, cremados, como acontece no filme. Esse preparo supõe um ritual cuidadoso e profissional que alguém tem de fazer. E que no Japão, ao que parece, costuma ser realizado na presença dos familiares e amigos. Em todas as classes sociais? Parece que não, pelo que aparece numa cena significativa do final da trama.

O fato é que tal trabalho, justamente por mexer no tabu da morte concreta, pode ser muito mal visto ou mal interpretado. Um músico – violoncelista – com sua habilidade para lidar com o instrumento, poderia ser um desses profissionais da morte? Tocando, limpando, arrumando e maquiando corpos, não tocando seu instrumento nos funerais. O talento artístico aproxima uma coisa da outra, embora a admiração pelo músico seja incondicional, ao passo que a admiração pelo profissional dos funerais só se revela diante da delicadeza dedicada ao sofrimento e à dor da perda, quando se cuida de um corpo que já perdeu a vida. Cenas tocantes e que emocionam, porque colocam a morte concreta diante de todos. Tudo aquilo que a gente não está costumada a ver, nunca viu ou não quer ver.

Trata-se, portanto, de um filme pesado, difícil de assistir? Na realidade, não. A desmistificação e o cuidado com a morte, mostrados em “A Partida”, emocionam e, ao mesmo tempo, nos remetem à reflexão. Mas há espaço até para o humor, principalmente na primeira parte do filme. A conquista de um emprego tão especial como esse, passa por situações engraçadas, na medida em que o não dito, o suposto, o escamoteado, dão margem a interpretações duvidosas e conclusões equivocadas. É nesses momentos bem humorados que o tabu da morte concreta fica mais evidente.

A trama é contada de forma quase linear. O início se explica ao final mas não há grandes saltos, inversões ou mistérios a desvendar, no modo como ela se desenvolve. O mistério está na forma como encaramos a morte e nos relacionamos com ela e está nos medos que nos afastam de sua realidade concreta, na tentativa de negar a única certeza que acompanha a vida, produzindo uma interdição – um tabu.

As cenas do violoncelista em plano geral, destacando-se na natureza, enquanto as imagens da vida do personagem se inserem na sequência, são muito bonitas.

No filme, há espaço para os muitos climas que cercam o trabalho com a morte e com a música. O relacionamento com o pai, tão problemático pelo abandono, e o papel da mãe na formação do personagem principal são mostrados pela intensidade dos sentimentos. A relação com a mulher, tão companheira, revela a afetividade, mas também o distanciamento, em momentos chaves da vida. O clima da volta às origens e o reencontro com figuras que haviam ficado no passado, e que, no entanto, preservaram tradições importantes, é outro elemento relevante da história. E tem, ainda, a relação com a comida, o cheiro, o nojo, as coisas simples da vida que, de um modo ou de outro, importam para todos.

O filme é denso e rico em imagens e assuntos que povoam a vida das pessoas. Especialmente daquelas que se aproximam da morte como algo real e concreto. O que esse trabalho de Yojiro Takita faz, notavelmente, com todos os espectadores.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

OS FALSÁRIOS



Antonio Carlos Egypto


OS FALSÁRIOS (Die Fälscher). Áustria, 2007. Direção: Stefan Ruzowitzky.
Com: Karl Markovics, Augusto Diehl, Devid Striesow e Martin Brambach. 98 min.


O nazismo e o holocausto parecem um tema absolutamente inesgotável, tantos e tão variados filmes já foram feitos sobre o assunto, assim como toneladas de coisas foram escritas, que a sensação que a gente poderia ter é de que não há mais nada a dizer, documental ou ficcionalmente, que já não tenha sido dito.

No cinema, a guerra, e o holocausto em particular, chegam a se constituir num gênero, com a previsibilidade de personagens e situações que costumam caracterizar os gêneros cinematográficos. No entanto, parece que há sempre algo de novo ou original, ou pelo menos algum ângulo novo que ainda merece ser mostrado. Filmes como “O Leitor” e “O menino do pijama listrado” são exemplos de tramas criativas e que abordam o tema do holocausto sob aspectos incomuns, e justificam plenamente a sua existência como películas capazes de estimular o nosso espírito crítico e a nossa sensibilidade. Já a refacção de “Operação Valquíria” é um exemplo frágil da abordagem do assunto, sem acrescentar nada de novo,

Chega até nós, agora “Os Falsários”, filme austríaco de 2007 que venceu o Oscar de Filme Estrangeiro do ano. E novamente um aspecto inusitado, mas relevante do período nazista na Segunda Guerra Mundial, aparece. A história de um falsificador de dinheiro, judeu, que acaba num campo de concentração e lá concorda em participar de uma operação de falsificação que pretendia financiar esforços de guerra nazistas, além de minar as economias dos aliados. Isto em troca de ter sua vida preservada, além do acesso a alguns confortos inimagináveis naquelas circunstâncias, como camas com colchões macios.

A “Operação Bernhard”, como foi chamada a verdadeira oficina de falsificação montada com a ajuda de prisioneiros selecionados de outros campos para compor uma equipe técnica e tecnologicamente evoluída, sob o comando do personagem central Salomon Sorowitsch (Karl Markovics), é uma coisa espantosa, difícil de conceber, naquele momento e naquele lugar.

A história é muito boa, não importando até onde ela é fiel aos fatos reais que a teriam inspirado. Como ela coloca uma questão limite, dá margem a muitos questionamentos éticos. Por exemplo: Como posso me sentir protegido e tranquilo, quando tudo à minha volta é horror e morte? Até onde vale a pena colaborar para salvar a vida? Até onde se pode ir para preservar a própria vida? Qual o limite que, se ultrapassado, já não valeria mais a pena viver? O que pode ser heróico numa situação dessas? Ou como se sustenta uma postura de enfrentamento heróico, como a mostrada em um dos personagens? Nesse sentido, as questões que podemos nos colocar a partir do que o filme traz ultrapassam o contexto concreto em que estão inseridas.

A trama, porém, nos coloca novamente em contato com o nazismo e o holocausto. Não será um assunto muito batido, já esgotado? Vejamos o que diz o diretor Stefan Ruzowitzky, respondendo à questão: “Você tem um interesse especial pela Era Nazista?

A resposta: “Quando você vive num país como a Áustria, onde os partidos de direita FPÖ e BZÖ, com a sua aproximação intolerável com a ideologia nazista, que constantemente conseguem abocanhar 20% dos votos e ainda têm o direito de participar da administração do governo do país, o que já seria intolerável – você simplesmente tem necessidades urgentes de confrontar esses assuntos agora e sempre”.

Claro, é por aí mesmo. Que tudo isto tenha existido e possa voltar a existir, por mais remota que seja essa chance, credencia essa filmografia séria que trata do assunto. E que ele continue a ser abordado, para que ninguém possa se esquecer desses horrores. E, pelo jeito, ainda haverá muita trama criativa a ser engendrada a partir de tudo isso que a humanidade não deveria ter vivido, mas, infelizmente, viveu.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

BUDAPESTE, O LIVRO E O FILME

Antonio Carlos Egypto





Quando li o romance “Budapeste”, de Chico Buarque, admirei muito sua escrita e o intrigante jogo do ser e não ser do escritor / ghost-writer. Encontrar-se e perder-se entre as mulheres, enfrentando o desconhecido, muito bem representado pelo húngaro, “a única língua que o diabo respeita”, é o drama do nosso protagonista, o José Costa, que em Budapeste vira Zsoze Kósta. A admiração pelo idioma húngaro, com seus desafios e sonoridade surpreendentes, encontra eco no amor ao idioma português, ofício do escritor e por meio do qual o ghost-writer vive sua experiência anônima. Ele a viverá também em húngaro. É, portanto, um livro sobre a dualidade da experiência e da vivência da língua e de sua cultura.

A Budapeste, onde desembarca o personagem, é também dual – é mistério, imaginação e realidade que se apresentam. Para o autor Chico Buarque, o mistério prosseguiria, era uma cidade que ele não conhecia até escrever o romance, embora tivesse colhido informações e imagens sobre ela. Era, portanto, uma Budapeste etérea aquela que o personagem experimenta ao longo do livro. O que é real ou imaginado se confunde todo o tempo, na realidade da mente do personagem.

Já no filme “Budapeste”, dirigido por Walter Carvalho, com base no livro de Chico Buarque, ainda que a fotografia possa produzir imagens mais indefinidas ou enevoadas, é na Budapeste real que estamos e tudo o que se passa tem existência física: as casas, os interiores, os amores, a chuva. É inevitável, portanto, que uma parte do clima sempre intrigante do livro se perca no filme. E a tentativa de pôr na tela a interação desejo/fato acaba deixando a trama um tanto truncada.

Trata-se, porém, de uma bela produção que envolveu Brasil, Hungria e Portugal, com um elenco que tem Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli, Paola Oliveira e a bela atriz húngara Gabriela Hãmori, com direito a uma ponta até do próprio Chico Buarque.

O filme é bonito, elegante, e Leonardo Medeiros deixa em aberto a figura do protagonista, ele é difuso, disperso e indefinido, o que se coaduna com a trama desenvolvida. As mulheres que povoam seu universo estão bem representadas no filme e o embate/encanto do encontro das culturas também está satisfatoriamente apresentado. De modo que o resultado, se não chega a impactar, como faz o livro, tem seus méritos.

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Anjos e Demônios

Carolina do Couto Rosa

Mais uma vez, a união de Dan Brown e Ron Howard dá o que falar no mundo cinematográfico. Depois de "O Código Da Vinci", filme que levantou suspeitas sobre Maria Madalena ter uma filha com Jesus Cristo, chega agora "Anjos e Demônios" ao cinema e provoca a Igreja católica em uma fascinante historia sobre ciência e religião.

Tom Hanks é novamente o protagonista da historia fazendo o professor Dr. Robert Langdon e se torna o responsável em salvar os cardeais sequestrados e evitar que o fanático da seita dos Iluminati bombardeie toda a cidade do Vaticano.

A Igreja recusou o filme antes mesmo de ele estrear no cinema e não facilitou em nada a produção do mesmo. As cenas não foram rodadas no Vaticano e em nenhuma Igreja de Roma. Conseguiram permissão, apenas por poucas horas, para gravar em frente a uma Igreja na Piazza del Popolo, onde no dia da filmagem estava acontecendo um casamento. Tom Hanks, muito simpático, conseguiu liberar a passagem para a noiva levando-a até a porta da igreja. As pessoas em volta aplaudiram e Tom Hanks se mostrou divertido e brincalhão em meio a tantos conflitos nas filmagens de "Anjos e Demônios". Este acontecimento não deixa de ser uma cena típica de filmes Hollywoodianos.

Falando da adaptação dos livros, Ron Howard consegue com este filme melhor resultado que em "O Código Da Vinci". No filme anterior, a história era recheada de detalhes, fazendo do livro muito mais interessante que o filme, que não consegue esclarecer todos os mistérios e deixa o espectador perdido diante de tanta informação. Já em "Anjos e Demônios" o resultado é excelente, tanto livro quanto filme conseguem prender o espectador e fazê-lo sofrer com o suspense da trama.

Um bom entretenimento, que diverte e distrai.