quinta-feira, 23 de maio de 2013

A DATILÓGRAFA

                          
 Antonio Carlos Egypto




A DATILÓGRAFA (Populaire).  França, 2012.  Direção: Regis Roinsard.  Com Déborah François, Romain Duris, Bérénice Bejo. 95 min.


Que motivos podem levar você ao cinema, hoje em dia?  Puro entretenimento, quem sabe?  Encontrar um filme divertido para toda a família?  Ver um filme despretensioso, ao estilo dos sucessos comerciais de Hollywood dos anos 1950 e 1960?  Curtir a nostalgia de um período em que o cinema seria mais ingênuo e pudico? 

Se essas alternativas o seduzem, a sugestão é ver a comédia romântica francesa “A Datilógrafa”.  A ação se passa em 1959 e, naturalmente, a direção de arte procura recriar o período.  A gente se sente como se estivesse naquela época.  Não só por identificação com a história ou os personagens, mas pelo tipo de filme que está sendo projetado.  É como se estivéssemos indo ao cinema em 1959, ver um filme com Doris Day.  A língua falada é o francês, mas todo o resto remete a uma experiência daquele tipo.  E “A Datilógrafa” decorre como se o filme tivesse sido feito em 1959.




A história, absolutamente linear, segue todos os padrões daquelas produções de caráter clássico, da construção dos personagens aos eventos que marcaram a trama, as reviravoltas e o clímax final.  Tudo perfeitamente previsível.  É possível facilmente antecipar o que vai acontecer.  Estão lá também todos os clichês e estereótipos dos comportamentos que teriam marcado aquela época.  Teriam, porque nem tudo era Doris Day nos anos 1950, 1960.  Nelson Rodrigues já tinha revelado todo o lado sombrio dessa história.

Se pudermos aceitar a fantasia de um mundo edulcorado, colorido e ingênuo ali mostrado, dá para se divertir, sim.  O filme é quadrado em toda sua concepção.  Não há qualquer novidade, é tudo retrô e, como já disse, previsível, mas ainda assim funciona.  Se você deixar o espírito crítico um pouco de lado, é claro.




O assunto da datilografia é muito interessante.  O glamour que a função de secretária supostamente despertava nas jovens, também.  E se a essência da secretária era ser boa datilógrafa, além de bonita e bem arrumada, quem acabará brilhando é quem for mais rápida ao bater nas teclas das máquinas de escrever.  Daí o apelo que teriam os concursos para as datilógrafas mais rápidas do país e do mundo.  Nisso, a direção do filme é muito eficiente.  O concurso das datilógrafas consegue ser apresentado como um campeonato esportivo, com muito público, torcida e com direito a capas de revista.  Um acontecimento.  Embora como espectadores já se saiba no que vai dar, a gente torce mesmo assim.  A competição, da forma como é apresentada, envolve e até cria suspense.  A nostalgia das velhas máquinas de escrever, que irão evoluir até a máquina com esfera, simboliza um tempo, supostamente romântico, em que a digitação e os computadores serão assunto do futuro. 
  


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Terapia de Risco

Tatiana Babadobulos




Terapia de Risco (Side Effects). Estados Unidos, 2013. Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Z. Burns. Com: Rooney Mara, Channing Tatum, Jude Law, Catherine Zeta-Jones. 106 minutos

Depois de “Contágio” alertar sobre os perigos de uma gripe que criou pandemia em várias cidades do mundo, o diretor Steven Soderbergh volta ao tema saúde no longa-metragem “Terapia de Risco” (“Side Effects”), cuja estreia nos cinemas está apontada para esta sexta-feira, 17.

Um crime acontece no apartamento em Nova York onde vive Emily (Rooney Mara, de “A Rede Social” e “Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres”). O corpo estendido no chão é de seu marido, Martin (Channing Tatum, de “GI Joe”). Corta. E volta pro início da história, que é contada de modo não linear.

Martin acabou de sair da cadeia após quatro anos preso por revelar um segredo da corporação na qual trabalhava. E Emily, em depressão, tenta suicídio enquanto é tratada pelo psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law, de “Sherlock Holmes”, “My Blueberry Nights”). Antes, porém, seu tratamento era feito por outra médica, Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones, de “Chicago”).


A tal terapia de risco na qual o título se refere, ou efeitos colaterais, na tradução livre do nome original, é contra a depressão e o uso do medicamento novo no mercado. Assim como em “Contágio”, o longa discute as ações da indústria farmacêutica, a pressão do mercado, os lançamentos de novos medicamentos, a responsabilidade dos médicos no tratamento e na relação com o paciente.

“Terapia de Risco” é um drama empolgante, com uma pitada de suspense, que garante diversão e curiosidade da plateia do começo ao fim.

domingo, 12 de maio de 2013

AMOR PROFUNDO


                              
Antonio Carlos Egypto




AMOR PROFUNDO (The Deep Blue Sea)Inglaterra, 2011.  Direção: Terence Davies.  Com Rachel Weisz, Tom Hiddleston, Simon Russel Beale, Ann Mitchell.  100 min.


Estamos em Londres, 1950.  Mas nem era preciso dizer.  As imagens falam por si.  Lá está a cidade em cores esmaecidas, revelando o clima de bruma que costuma cercá-la.  As luzes difusas e os ajustes de foco reforçam isso. A ambientação, as casas, os carros, o figurino, os cabelos, os gestos, tudo combina perfeitamente.  Não dá margem a dúvida alguma.  As pessoas vão aparecendo sem dizer nada e a gente entende que vem aí um drama passional, uma história de amor.




São muitos minutos de pura imagem, que têm o papel de nos colocar naquela cidade, naquela época, naquele mundo e com aqueles personagens, cujos perfis já nos revelam algo.  Ainda não sabemos quem são, mas já intuímos o que está por vir.  Puro cinema!

O que vem depois?  O que estava mesmo anunciado: um melodrama daqueles.  Desejo, rompimento, insistência obsessiva, abandono, sofrimento.  Mas mantendo a classe, sem qualquer exagero ou histeria desnecessários.  Escancarado, mas sutil.  E de uma beleza plástica admirável.  Todas as tomadas são impecavelmente belas e, de alguma forma, delicadas.




O diretor britânico Terence Davies tem mesmo esse estilo.  Aspectos autobiográficos de sua vida, na infância, em família, já aparecem em outros filmes desse mesmo jeito soft de abordar problemas, sofrimentos, dificuldades.  Coisas terríveis podem ser mostradas em ambientes com pouca luz, falando baixo, sem gritaria, no choro contido.  Até por intermédio de canções.  Alguns de seus filmes são “Vozes Distantes”, de 1988, “O Fim de um Longo Dia”, de 1992, “Memórias”, de 1994, “A Essência da Paixão”, de 2000.

“Amor Profundo” é a adaptação para o cinema da peça teatral “The Deep Blue Sea”, de Terence Rattigan, de 1952. Focaliza o drama amoroso em meio às lembranças e vicissitudes que a guerra deixou nas pessoas.  Traumas, por certo, mas também memórias associadas a aventuras, como as vividas por um piloto aéreo da Segunda Guerra, Freddie (Tom Hiddleston), que é amado por Hester (Rachel Weisz), uma mulher casada com um juiz e que abandona o marido, William (Simon Russel Beale) por ele.




O filme coloca uma questão-chave: como uma tentativa de suicídio modifica uma relação amorosa, ao mesmo tempo intensa e complicada, e as relações que a cercam?  Tentar matar-se por amor é um gesto extremo.  Depois dele, nada será como antes.  Um elemento transformador do amor e de suas exigências.  Um mergulho no profundo mar azul do título original?




Independentemente do interesse pelo gênero cinematográfico ou pela temática abordada, é um filme que toca a sensibilidade e desperta o senso artístico.  Apreciar seus enquadramentos, seu clima, sua caracterização de época e os desempenhos, que exigiram muita sutileza dos atores, vale a ida ao cinema.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

CORES


                                      
Antonio Carlos Egypto




CORES.  Brasil, 2012.  Direção: Francisco Garcia.  Com Acauã Sol, Pedro di Pietro, Simone Iliescu.  95 min.


“Cores” é um filme localizado em São Paulo, na atualidade.  Aborda a vida de três jovens amigos, todos na faixa dos 30 anos de idade, desencontrados consigo mesmos e com o ambiente social onde estariam inseridos.  Estariam, porque, na verdade, não estão, sentem-se estranhos no paraíso, em descompasso com sua cidade e seu país.

São Paulo é uma cidade brasileira onde tudo acontece, e de forma vertiginosa.  Difícil não encontrar aqui alguma oportunidade ou algo que interesse.  Há para todas as tribos, para todos os gostos, para qualquer ideia de trabalho.  É preciso ir atrás, cavar, ter contatos.  Mas que há espaço para quase tudo, há.  Seus contrastes são intensos, a vida do povo trabalhador é sofrida e desigual, em cada segmento da cidade.  Ainda assim, é possível encontrar um caminho produtivo, seja ele qual for. 




Se considerarmos que o país vive um período de desenvolvimento econômico e pleno emprego, como atesta uma fala do então Presidente Lula, veiculada numa cena de TV no filme, o contraste com os jovens urbanos perdidos na cena paulista e brasileira soa anacrônico.

Luca (Pedro di Pietro), aos 31 anos, é tatuador, tem uma oficina no quintal da casa da avó, com quem vive e de quem, afinal, depende financeiramente.  Cuida dela como e quando consegue. 




Luís (Acauã Sol), aos 29 anos, mora numa pensão no centro e trabalha períodos, numa drogaria.  Mas seu real interesse é a oportunidade para roubar drogas para si e arrumar alguma para outros.  Perde o emprego e sai com uma mão na frente e outra atrás, como seria de se esperar.  A crueldade do dono da farmácia é apenas um detalhe que não muda muita coisa nesse quadro.

Luara (Simone Iliescu), aos 30 anos, vive num apartamento no fundo do aeroporto de Congonhas e trabalha numa loja de peixes ornamentais, sem maiores perspectivas ou chance de realizar a viagem de que gostaria, a menos que aceite um convite suspeito de um cliente interessado em favores sexuais.




Todos vivem uma rotina ordinária e alienada, sem se ajudarem uns aos outros e em total falta de horizontes, bebendo e consumindo outras drogas, sem fazer nada ou planejar nada.  Sem buscar coisa alguma no mundo.

O filme “Cores” faz questão de não julgá-los moralmente.  Eles são e vivem assim.  Cabe ao espectador avaliar, quem sabe.  O contraste, em todo caso, é gritante.  O que cairá do céu para eles?  Só a chuva, para encharcá-los.  E eles parecem gostar disso.  São escolhas que cada um pode fazer.

“Cores” tem ainda um outro contraste.  Apesar do nome, é um filme em preto e branco, e com uma bela fotografia.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

O QUE SE MOVE


                               
 Antonio Carlos Egypto




O QUE SE MOVE.  Brasil, 2012.  Direção: Caetano Gotardo.  Com Cida Moreira, Dagoberto Feliz, Wandré Gouveia, Marina Corazza, Andrea Marques, Rômulo Braga, Henrique Schefer, Adriana Mendonça.  97 min.


Alfred Hitchcock teria dito, certa vez, que uma notícia de jornal pode virar um bom filme.  É verdade, porque o que importa não é a notícia em si mesma, mas o tratamento cinematográfico que ela receberá.  A forma como ela será contada, por meio de imagens, falas, sons, tempos mortos, cores, impacto visual.




“O Que Se Move”, primeiro longa-metragem de Caetano Gotardo, partiu não de uma notícia de jornal, mas de três.  São situações diferentes, que envolvem núcleos familiares distintos e dizem respeito a perda, reencontro, revelação de familiar “desconhecido”.

Quem já não leu, viu ou ouviu notícias como a de um bebê esquecido num carro num estacionamento?  Ou da descoberta de um pedófilo virtual, por meio de uma investigação policial?  Ou, ainda, de um familiar desaparecido, que é encontrado após muitos anos?  Coisas como essas podem não ser usuais, mas vivem acontecendo e sendo noticiadas.  Por isso mesmo, é possível imaginar o que sucede em volta delas, no seu entorno, no sentimento dos personagens envolvidos, no mistério que fica no ar.  Foi isso que “O Que Se Move” fez: deu um tratamento ficcional aos acontecimentos jornalísticos, investigando o que pode estar por trás deles, o que se relaciona com eles, o que essas coisas podem significar para as pessoas.




Essa investigação se faz pela estética dos rostos, olhares, silêncios, pela ambientação das cenas.  Pelo que se diz fora do quadro, pelo que não se vê, não se diz, mas se intui.  Pelos tempos longos, pelos gestos suprimidos.  Ou seja, por uma forma de narrar que se vale dos recursos cinematográficos com paciência e criatividade.  Isso resulta num filme surpreendentemente muito bom para um jovem cineasta em seu primeiro longa.

Quem se dispuser a acompanhar o desenrolar das três histórias, sem ansiedade e sem pressa, poderá usufruir do clima e das sutilezas que a narrativa do filme nos traz.  Cada uma das histórias vai revelando, pouco a pouco, do que se trata, de quem se trata e, sobretudo, dos sentimentos experimentados ali pelos protagonistas de cada episódio.  Eles são separados por um canto que, de alguma forma, resume a situação apresentada.  Causa uma certa estranheza, mas funciona.




Ao mesmo tempo, é possível pensar no que as notícias representam, não só para aqueles personagens, mas para o mundo de hoje.  E podem-se imaginar outras reações ou consequências para os mesmos fatos.  Esse seria um exercício muito interessante, que poderia ampliar a compreensão das situações que acompanham o nosso cotidiano na vida urbana atual.  O filme se presta a isso, porque faz uma leitura possível dos acontecimentos, por meio de uma especulação psíquica sobre as pessoas presentes em cada situação.  E deixa em aberto inúmeras outras possibilidades.

O desempenho do elenco dá muito bem conta do experimento cinematográfico que é “O Que Se Move”.  A representação contida, meio misteriosa, que contrasta com a intensidade dos sentimentos em momentos cruciais, como um choro convulsivo, por exemplo, exige dos atores e atrizes muito domínio de suas atuações.  O resultado obtido pelo conjunto é bastante convincente.

“O Que Se Move” é um filme que aborda a contemporaneidade urbana brasileira de forma instigante, a partir do que parece muito pessoal e concreto, mas, na verdade, é coletivo e simbólico.

  

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O SONHO DE WADJDA


                             
 Antonio Carlos Egypto




O SONHO DE WADJDA (Wadjda).  Arábia Saudita, 2012.  Direção: Haifaa Al Mansour.  Com Reem Abdullah, Waad Mohamed, Abdullrahman Al Gohani, Sultan Al Assaf.  97 min.


Está entrando em cartaz nos cinemas o primeiro filme de longa-metragem produzido na Arábia Saudita, filmado em Riad, realizado por uma cineasta do país e com atores locais, em coprodução com a Alemanha.

Essa notícia por si só já surpreende.  Na Arábia Saudita não existem salas de projeção e o cinema está proibido.  Filmes são vistos na TV ou em DVD, mas há limitações e censura.  Que justamente uma mulher tenha sido a primeira a conseguir a proeza de realizar um longa por lá é algo inesperado.  Claro que ela teve problemas para atender às exigências burocráticas de caráter legal, com os controles constantes da polícia sobre as filmagens e, principalmente, com reclamações em função de haver uma mulher no comando das ações e homens e mulheres trabalharem juntos no mesmo projeto, o que não é bem aceito pela população.  Além disso, escolher uma menina para estrelar o filme foi difícil: as famílias não costumam permitir que suas filhas atuem como atrizes.  Mas, no final, tudo deu certo e, embora o filme não vá ser exibido na Arábia Saudita, chegou ao Festival de Veneza e agora está por aqui.  Sendo otimistas, podemos considerar que o simples fato de o filme ter saído já indica alguma abertura do regime.  Ventos liberalizantes?  Será?




É importante a temática do filme: singela e ambientada no mundo infantil, mas expondo muito bem a opressão a que estão sujeitas as mulheres.  Conta-se uma história, aparentemente despretensiosa, mas seu recheio conta tudo o que precisa contar.

Wadjda (Waad Mohamed) é uma menina que tem um sonho, que pode ser considerado comum e banal: ter uma bicicleta e andar com ela pela cidade.  Mas num país onde as mulheres não podem dirigir ou ter carro isso não é tão simples assim.  Meninas decentes não andam de bicicleta, isso é coisa de homem.  Além do mais, segundo a crença local, essa prática pode desvirginar as moças.  O assento ou o cano da bicicleta podem romper o hímen?  Esse deve ser o medo difundido, já que a norma não faz qualquer sentido racional.




Wadjda também desenvolverá uma amizade com um menino da vizinhança, com quem pretende disputar corridas de bicicleta.  Mas as mulheres não convivem com homens que não sejam seus maridos, noivos ou parentes.  Isso já vale para crianças com o advento da puberdade.  Um complicador a mais, portanto.  Numa brincadeira, o amiguinho brinca de tirar o véu que ela estava usando para cobrir a cabeça e isso lhe vale uma bronca enorme na escola, por estar sem o véu obrigatório. Na escola também será preciso parar de jogar amarelinha, em um dado momento, porque homens estão trabalhando no telhado e podem vê-las de lá, o que fica mal para as meninas.

Wadjda ainda enfrenta dificuldades familiares.  Sua mãe não está conseguindo ir trabalhar na hora certa e com tranquilidade, porque o motorista da van que a transporta, junto com outras mulheres, é grosseiro e impertinente.  Mas ela depende dele para se locomover.  E terá dificuldade para achar outro motorista.  O marido, pai de Wadjda, vive fora, viaja sempre, é bastante ausente.  Ama sua mulher e é correspondido, mas está à procura de uma segunda esposa, uma vez que ele teria condições de sustentá-la.  Isso deixa tristes a mãe e a menina.




Assim, a cineasta Haifaa Al Mansour, de 38 anos de idade, vai mostrando como as coisas se dão por lá.  Impossível não se incomodar.  Mas parece que agora as mulheres estão conseguindo permissão para guiar e o sonho de Wadjda de andar de bicicleta já pode se realizar sem comprometer a honra.



terça-feira, 30 de abril de 2013

SOMOS TÃO JOVENS

                          
Antonio Carlos Egypto




SOMOS TÃO JOVENS.  Brasil, 2012.  Direção: Antonio Carlos Fontoura.  Com Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bianca Comparato, Bruno Torres, Olívia Torres, Daniel Passi, Sérgio Dalcin, Sandra Corveloni, Marcos Breda.  104 min.


Renato Russo (1960-1996), cantor e compositor, foi um dos grandes nomes do rock brasileiro.  “Somos Tão Jovens” é uma cinebiografia do artista, centrada em seis anos de sua vida em Brasília.  Nesse período, ele constrói sua carreira musical, formando a banda de punk rock “Aborto Elétrico”, que depois se dissolveria.  Ele teria um período de atuações-solo, em busca de novos rumos melódicos e poéticos, e chegaria à banda “Legião Urbana”, que alcançou grande sucesso.  Da divisão do “Aborto Elétrico” resultou também a banda “Capital Inicial” que, igualmente, obteve muito êxito.



“Somos Tão Jovens” é um filme de ficção sobre a vida de Renato Russo, a partir de uma biografia autorizada.  Caracteriza o personagem por meio de algumas cenas que mostram a personalidade e fatos marcantes vividos no período, mas sem se deter muito na história de vida.  A epifisiólise que o acometeu, deixando-o por dois anos entre uma cama e a dependência de uma cadeira de rodas para se locomover, aparece de forma discreta, assim como sua bissexualidade.  E não há referências ao HIV, que viria mais tarde comprometer sua vida.  O uso de álcool e outras drogas é mostrado, sem maiores repercussões, no conjunto da vida ou da obra.

O filme está muito mais preocupado em mostrar como sua música evoluiu.  Acaba fazendo um musical, em que o rock reina soberano e que vai agradar aos fãs do gênero.  Para isso, contou com performances gravadas ao vivo, com Thiago Mendonça no papel de Renato Russo, mostrando excelente desempenho, tanto na música como na atuação e na caracterização do personagem.  Aliás, a semelhança com o original é bem acentuada.  O desempenho dos atores/músicos que o acompanham nas apresentações é muito bom.  Isso dá força a essa ficção, que respira rock por todos os poros.



A direção musical do filme ficou a cargo de Carlos Trilha, que também produziu discos do “Legião Urbana” e conhecia bem Renato Russo.  O contato com o pessoal do rock de Brasília, que se destacou nos anos 1980, deve ter contribuído para criar todo o clima que “Somos Tão Jovens” procura enfatizar.



Era o tempo final da ditadura e Renato era um roqueiro politizado, que fez de sua poesia também uma peça de resistência.  Seu trabalho permanece sendo conhecido, respeitado e consumido pelo talento que revelou.  Nos 36 anos que viveu, Renato Russo e o “Legião Urbana” deixaram sua marca.  O filme de Antonio Carlos Fontoura funciona como um registro e uma homenagem a esse rock que começou muito barulhento e terminou muito mais melódico e poético.  E sempre crítico, inconformado, contestador.



quinta-feira, 25 de abril de 2013

O ABISMO PRATEADO

                                 
Antonio Carlos Egypto




O ABISMO PRATEADOBrasil, 2011.  Direção: Karim Aïnouz.  Com Alessandra Negrini, Thiago Martins, Gabriela Pereira, Carla Ribas, Alice Borges.  83 min.


Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas, depois, como era de costume,
Obedeci.

Esses versos fazem parte da canção “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque, inspiração confessa do diretor cearense Karim Aïnouz para seu novo trabalho, “O Abismo Prateado”.




A letra da canção começa, como se pode ver acima, tratando da perda e da desestabilização provocadas por um rompimento inesperado e unilateral, numa relação amorosa.  Quem partiu foi o homem, quem expressa o sentimento na poesia é a mulher.  Ou seja, o chão se abre para uma mulher que foi abandonada, sem esperar ou estar preparada para isso.  Se seguirmos na letra da canção, veremos que Chico Buarque expressa a virada dessa mulher, sua vingança e controle da situação.  Por exemplo, em frases como estas: Quero ver como suporta me ver tão feliz.  E que venho até remoçando, me pego cantando, sem mais nem porquê.




O filme “O Abismo Prateado”, no entanto, retrata a primeira parte da história: o desespero da perda, o enlouquecimento, a busca do ser amado, o vagar desencontrado, para só no final vislumbrar a superação.  É o abismo o que se mostra na vida de Violeta (Alessandra Negrini), uma dentista de 40 anos, aparentemente bem casada e feliz, com um filho adolescente, vivendo em um novo apartamento em Copacabana.  E que recebe a notícia da separação num recado pelo celular, o que dá margem à experiência dolorosa que é o assunto do filme. 

Um trabalho cinematográfico simples e belo.  Desde as primeiras imagens, focalizando o mar, intenso e revolto, mas admiravelmente sedutor.  Até o desenrolar do sofrimento feminino, que se lê nas expressões faciais e corporais de Alessandra Negrini, nos espaços e ambientes por onde ela transita, nas pessoas com quem interage.  Vivemos o que ela vive, nos perdemos junto com ela, a perplexidade toma conta de tudo.  Até que algo possa renascer e redirecionar a vida.

Se “Olhos nos Olhos” põe o foco na libertação feminina, o filme de Karim Aïnouz fica no abismo que a antecede.  Sinal de que haveria espaço até para um segundo filme, inspirado na mesma música.  Esse acabaria sendo uma elegia feminista, como de fato é a belíssima canção de Chico Buarque.



O cineasta Karim Aïnouz já nos deu filmes muito bons, como “Madame Satã”, de 2002, “O Céu de Suely”, de 2006, e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, esse último de 2009, em parceria com Marcelo Gomes.  Foi roteirista de tantos outros trabalhos importantes, como “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de 2004, e “Cidade Baixa”, de 2005.  É um dos grandes nomes do cinema brasileiro da atualidade.  “O Abismo Prateado” é uma pérola romântica que enriquece ainda mais essa filmografia.



domingo, 21 de abril de 2013

GINGER & ROSA

                                     
 Antonio Carlos Egypto


GINGER & ROSA (Ginger & Rosa).  Inglaterra, 2012.  Direção: Sally Potter.  Com Elle Fanning, Alice Englert, Alessandro Viola, Christina Hendricks, Thimothy Spall, Anette Bening.  90 min.




Londres, 1962.  No pós-guerra britânico, convivem a Guerra Fria, com a ameaça muito concreta de uma hecatombe nuclear que poria fim à vida na terra, com um mundo de mudanças nos comportamentos.  O advento da pílula anticoncepcional, a liberdade sexual dela decorrente, transformações efetivas no papel das mulheres na sociedade.  O advento da contracultura: paz e amor será o lema da era hippie.  Uma década de grandes mudanças e muito medo.

Nesse contexto, duas garotas adolescentes, inseparáveis, são não só as melhores amigas, mas amigas para sempre, como se definem.  Nisso, nada de novo.  Esse é um elemento conhecido e tradicional dos relacionamentos entre meninas e moças.  Só que já não será possível algo tão intimista e exclusivo nessa amizade, uma vez que o mundo exige tomada de posições.  A crise dos mísseis de Cuba naquele 1962 é um exemplo.  A alienação é inaceitável.  Vai daí que um programa obrigatório de ambas serão as passeatas e panfletos de protesto contra as armas nucleares e a militância pelo pacifismo.




Ginger, a ótima Elle Fanning, admira o pai, Roland (Alessandro Viola), pelo seu jeito anárquico e pacifista, um adulto em plena conexão com a sua época.  Já não sente o mesmo por sua mãe, Nathalie (Christina Hendricks), que ainda não deu o salto para a  liberdade que se abria à vida das mulheres daquele período revolucionário.  Enquanto isso, a sexualidade aflora e as descobertas amorosas estão na ordem do dia.  E o pai descolado de Ginger vai interessar muito a Rosa (Alice Englert), a melhor amiga dela.  É em torno dessa narrativa que decorre a maior parte do filme.




Nada de tão especial, a não ser pela caracterização da época.  “Ginger & Rosa” é muito feliz, ao nos transportar para aquele período, em suas características essenciais.  Casas, roupas, objetos, a vida na rua, os comportamentos, as preocupações, as expressões, as comunicações, a propaganda, tudo nos remete àquela data. Viver naquele momento da vida, não só na Inglaterra, mas em boa parte do mundo, tinha implicações sociais evidentes, que em tudo se manifestavam.  Havia um sentido de coletividade, que alcançava todos, de uma forma ou de outra.  Isso o filme mostra muito bem.  Assim como a dicotomia liberdade e medo.  O tom escuro, londrino, como que enfatiza o medo.  Justo agora, que podemos ser livres, o mundo pode acabar a qualquer momento, parecia ser o pensamento dos jovens.




O que se verá, também, é que essa nova liberdade não é assim tão simples de ser vivida.  Encanta, por um lado, mas faz sofrer, por outro.  Na vida pessoal pode ser bem complicado administrar tudo isso.

“Ginger & Rosa” é, obviamente, nostálgico.  E certamente histórico.  Permite um olhar para um passado recentíssimo, muito rico de vivências e possibilidades que moldaram muitos dos avanços de que desfrutamos atualmente.  Também nos permite ver que tanta gente ainda tem nostalgia de um tempo que, se tinha seu charme, já cumpriu seu papel.  A ênfase na possibilidade da guerra nuclear iminente, mostrada no filme, nos parece tão datada hoje...  E, no entanto, como era verdadeira lá.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

HOJE

                                
Antonio Carlos Egypto



HOJE.  Brasil, 2011.  Direção: Tata Amaral.  Com Denise Fraga, Cesar Trancoso, João Baldasserini, Pedro Abhull, Lorena Lobato.  82 min.

O que sabemos sobre as pessoas que viveram a luta clandestina e armada de resistência à ditadura brasileira, no seu período mais tenebroso?   Que marcas a tortura deixou nas pessoas que sobreviveram?  E quanto aos desaparecidos?  Como ficaram as relações pessoais e familiares?  Qual foi o custo dessa história toda? São perguntas que remetem ao passado?  Segundo a diretora Tata Amaral, não.  Trata dessas pessoas hoje.  Daí o nome do filme.

Qual é o sofrimento que existe hoje?  O que fica entranhado na vida de alguém que foi torturado, resistiu heroicamente ou delatou, e sobreviveu?  E os filhos e companheiros ou companheiras que sumiram?  Porque é preciso abordar questões como essas, abrir a caixa-preta, na expressão de Denise Fraga, é que é muito oportuna a história contada em “Hoje”, com base em ótimo roteiro de Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald e Felipe Sholl, a partir do livro “Prova Contrária”, de Fernando Bonassi.



Vera, que já teve o codinome de Ana Maria, quando viveu em aparelhos clandestinos, interpretada por Denise Fraga, teve seu companheiro desaparecido: Luiz, ou Carlos, como codinome, o papel de Cesar Trancoso.  Quando Vera é reconhecida como viúva, obtém legalmente uma reparação em dinheiro, o que lhe permite ter, pela primeira vez na vida, um apartamento comprado a vista. Pode usufruir agora de algum conforto.  É o que se mostra nas características do velho mas espaçoso imóvel.  Vemos sua mudança, que decorre ao longo de todo o filme.

Com o apartamento, vêm as culpas, o medo da verdade, os fantasmas.  Eles sempre estiveram aí, estão aí, mas potencializados pela concretude da moradia, consequência trágica da perda.  Mas, e se o desaparecido aparecer de repente? 

Ao relatar essa história íntima, Tata Amaral põe Vera em contato com Luiz e também Ana Maria em contato com Carlos, enquanto os carregadores vão trazendo as caixas da mudança que terão de ser postas em algum lugar e abertas depois.  Clara metáfora das caixas-pretas que continuam por aí, esquecidas ou negadas.  Hoje elas parecem destinadas à Comissão da Verdade, enfim criada há um ano.  Mas pertencem a todos, a toda a nação.  Como é possível viver sem abri-las, organizá-las, dispor de seu conteúdo pela casa?  Mesmo que a caixa destinada à saleta vá parar no quarto, ou a do escritório fique na sala.  É fundamental abri-las, conhecê-las.



Denise Fraga é reconhecidamente uma das grandes atrizes brasileiras da atualidade.  Tão competente nos papéis cômicos, desenvolve aqui um papel dramático, trágico, cheio de nuances, sentimentos fortes abafados, ambiguidades.  Ela tem um admirável desempenho, que dá força e significado à temática que “Hoje” abraça.

Cesar Trancoso, o ator uruguaio, protagonizou “Infância Clandestina”, o filme argentino que representou a nação portenha na disputa do Oscar de filme estrangeiro.  Já havia participado, também, da divertida produção uruguaia e brasileira, “O Banheiro do Papa”.  É um excelente ator e também faz um belo trabalho.  Não deixa de ser curioso constatar a escolha de alguém de origem estrangeira e forte sotaque para viver um personagem que luta contra a ditadura brasileira.  Busca dar uma dimensão mais ampla, ultrapassar a própria realidade nacional?  Será uma forma de relacionar os dramas vividos por aqui com os da Argentina, Uruguai, Chile?  Uma alternativa para dar ao personagem a possibilidade de ter sumido do país?  Creio que tudo isso pode caber.  Faz sentido, pelo menos.



Tata Amaral escapa à situação teatral a que a história conduz, toda ela vivida num apartamento vazio, que vai sendo preenchido.   Ela se vale de projeções e de planos diversos, que sempre mostram o apartamento sob ângulos e aspectos diferentes.  Funciona bem.

“Hoje” foi o grande vencedor do Festival de Brasília de 2011, recebendo o prêmio da crítica de melhor filme e prêmios para atriz, fotografia, direção de arte e roteiro.