terça-feira, 17 de novembro de 2009


BALANÇO DA 33ª. MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO


Antonio Carlos Egypto


Como faço desde sempre, acompanhei a programação da Mostra, assistindo a pouco mais de 60 filmes. Isso me permite destacar algumas coisas muito boas lá exibidas. E como muitas delas vão entrar, ou até já estão, no circuito comercial dos cinemas, pode servir de indicação para quem não pôde ver muita coisa na Mostra.

Veteranos diretores marcaram presença com grandes filmes, como Alain Resnais, com “Ervas Daninhas”, da França (vide crítica postada em outubro/2009) e Pedro Almodóvar, com “Abraços Partidos”, da Espanha, em que ele reafirma seu universo autoral, enfatizando ainda mais a metalinguagem em sua obra. Manoel de Oliveira encanta com “Singularidades de uma Rapariga Loura”, de Portugal (vide comentário sobre a obra do diretor postado em novembro/2009). Andrzej Wajda, em “Alga Doce”, da Polônia, mostra um amor tardio e uma morte precoce na ficção, entrelaçados com história real vivida pela atriz protagonista do filme. Abbas Kiarostami inova mais uma vez com “Shirin”, do Irã, um filme que se compõe de expressões de atrizes que assistem a uma peça que nos é mostrada apenas pelo som, como uma rádionovela de antigamente. O resultado é muito bom.

Ken Loach não decepciona em “À Procura de Eric”, da Inglaterra (ver críticas postadas em outubro/2009), Marco Bellocchio conta com muita agilidade e beleza visual em “Vencer”, da Itália, uma história da amante (esposa?) e filho de Benito Mussolini, que é instigante e merece ser conhecida. Ainda mais que muito se trata de Hitler no cinema, mas pouco de Mussolini.

Destacaria ainda o trabalho do diretor Hirokazu Kore-Eda, em “Seguindo em Frente”, do Japão, drama familiar contido e filmado à moda de Ozu. Dois filmes do Oriente Médio se destacaram: “O Que Resta do Tempo”, do palestino Elia Suleiman, que trata de suas memórias familiares, ao mesmo tempo em que mostra a relação palestino-judaica com criatividade, leveza e até humor. Um feito. Muito mais pesado, mas também muito criativo, foi o israelense-libanês “Lebanon”, de Samuel Maoz, que simplesmente coloca o espectador dentro de um tanque de guerra, vendo o que soldados israelenses viam (e viviam) na guerra do Líbano, em 1982. A experiência é fantástica.

Do já veterano diretor dos Estados Unidos Paul Schrader, uma história alucinante e muito bem construída é “A Ressurreição de Adam”. Falando em estruturas bem construídas, eu apontaria, ainda, “Mother”, de Bong Joon-Ho, da Coréia do Sul. A experiência que “Polícia, Adjetivo”, de Corneliu Porumboiu, da Romênia, oferece ao público do cinema é também muito expressiva: vivencia-se o cotidiano, tedioso até, de um policial em crise de consciência. O diretor é o mesmo de “A Leste de Bucareste”, ótimo filme que está para ser lançado em DVD no próximo mês de dezembro.
Faltou abordar o filme iraniano “Ninguém Sabe dos Gatos Persas”, do competente diretor Bahman Ghobaldi, sobre a censura à música jovem no país e os absurdos pelos quais os músicos têm de passar. E, por último, a experiência criativa de Raya Martin em “Independência”, das Filipinas, fazendo um filme muito convincente, e que expõe o fazer cinematográfico, com pouquíssimos recursos. Mas este filme é experimental, assim como “Shirin”, o que torna improváveis suas exibições no circuito comercial.

domingo, 15 de novembro de 2009

MANOEL DE OLIVEIRA: REALIZADOR CENTENÁRIO





Antonio Carlos Egypto


Eu fui descobrindo a obra maiúscula do diretor português Manoel de Oliveira, pouco a pouco, a cada edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e ele, praticamente, esteve em todas as edições da Mostra, a partir da 3ª., há 30 anos, quando foi exibido “Amor de Perdição”, adaptação do romance clássico de Camilo Castelo Branco, de 1863, em filme de 1978.

De lá para cá, é sempre uma agradável surpresa aguardar pelo novo filme do centenário realizador. Ele já completou 100 anos de idade e continua produzindo um filme por ano, tirando todo o atraso que o regime salazarista de Portugal lhe impôs. Manoel de Oliveira busca sempre realizar adaptações literárias que tragam uma reflexão nova e original sobre o mundo contemporâneo, a história, as crenças e costumes, com base em contrastes e estranhezas.

Em “Non, ou a vã glória de mandar”, de 1990, um grupo de soldados e um subtenente que estão numa patrulha conversam longamente na carroceria de um veículo militar, enquanto se deslocam, relembrando a história de Portugal por meio de suas derrotas, até chegar à Revolução dos Cravos, em 1974. Estranhíssimo e original. Uma situação improvável, que nos enche de informações relevantes, de forma irônica. Nunca esqueci essa admirável sessão de cinema.

Outro filme com uma cena marcante do mestre Manoel de Oliveira é “Viagem ao princípio do mundo”, de 1997, filme protagonizado por Marcello Mastroianni, que faz um ator nascido na França, filho de um português morto há muito tempo. Ele decide visitar a aldeia rural onde seu pai nascera, na esperança de encontrar uma velha tia. Ele a encontra, mas a tia não se conforma que ele seja seu sobrinho e não a entenda, não fale a sua língua. É uma dessas cenas inesquecíveis da história do cinema. Esse foi o último filme do grande ator italiano, que morreu logo depois das filmagens, embora tenha deixado bilhete ao diretor, dizendo que estaria à disposição para novos filmes, sempre que Manoel de Oliveira o chamasse.

Em “A carta”, de 1999, adaptando o romance do século XVII “La Princesse de Madame”, de La Fayette, o diretor faz uma leitura do texto, contando uma história de amor entre Mademoiselle de Chartres, do passado, e um cantor de rock, do século XX, Pedro Abrunhosa. Segundo o diretor, trata-se de “uma história passional, com fragmentos de uma visão social, que nos mostra a desordem que assola, com a mesma crueldade do passado, nosso mundo incorrigível”. Mais uma vez, original e profundo.

Em “Palavra e utopia”, filme de fruição mais difícil e erudita, Manoel de Oliveira presta tributo ao padre Antonio Vieira e seus famosos sermões. Em 1663, o padre é convocado a responder à Inquisição portuguesa sobre suas ideias a respeito da escravidão, da situação dos índios e das relações império-colônia. Mais uma aula de história e elementos para reflexão, em filme que contou com Lima Duarte no elenco.

O mito do rei português D. Sebastião, desaparecido em 1578 numa batalha, e cuja lenda indica que um dia voltará como aparição no meio da névoa, é relembrado em “O quinto império: ontem como hoje”, de 2004, adaptação do livro “El-Rei Sebastião”, de José Régio. A figura lendária do “Escondido” também aparece numa lenda muçulmana, segundo a qual um imã voltaria um dia montado num cavalo branco, numa manhã de neblina, para destruir o mal e restabelecer a paz e a harmonia entre os homens.

O “Espelho mágico”, de 2005, se baseia no romance “A alma dos ricos”, de Agustina Bessa-Luis, autora frequentemente visitada pelo cinema de Manoel de Oliveira. Aqui, a aristocrática Alfreda tem certeza de que a Virgem Maria aparecerá para ela, já que é uma mulher de fé e rica. Ela não aceita que a aparição da Virgem ainda não tenha acontecido em sua vida. Além disso, crê que Maria e Jesus teriam sido, na verdade, ricos como ela. Uma história sensacional e inusitada, com um elenco de peso internacional. Além de Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Ricardo Trepa, lá estão também Michel Piccoli, Marisa Paredes e Lima Duarte.

Em “Um filme falado”, de 2003, Manoel de Oliveira reuniu também um elenco internacional. Leonor Silveira, Catherine Deneuve, Stefania Sandrelli, Irene Papas e John Malkovich atuam, cada qual falando sua língua, e num jantar todos se entendem, apesar disso. Outra cena antológica para a história do cinema. O filme se passa num navio, em que o cruzeiro visita lugares que marcam as diferentes culturas da civilização ocidental. Toda essa diversidade, cordialidade e entendimento sofrerão abalo decisivo ao final da jornada. Grande filme.

Haveria muitos outros a mencionar, como “O Convento”, de 1995, em que um pesquisador americano se dispõe a provar que Shakespeare teria sido espanhol e não britânico, ou “Vale Abraão”, de 1993, adaptação do clássico “Madame Bovary”, de Flaubert. Mas vamos incluir uma palavra sobre o mais recente filme de Oliveira: “Singularidades de uma rapariga loura”, de 2009.

“Singularidades...” é baseado em conto de Eça de Queiroz. Uma paixão que se dá a partir da sacada de um escritório e da janela de uma casa. Macário (Ricardo Trepa) tem sua vida transformada pela paixão por uma linda loira (Catarina Wallenstein) e seu maravilhoso leque. Até que sua singularidade transforma tudo, abruptamente. E é como esse pequeno (63 min) grande filme termina: abruptamente.

O escritório é tradicional, assim como as casas, a loja de tecidos e outros ambientes mostrados no filme. Embora os preços sejam em euro, é do Portugal mais tradicionalista e conservador que se está tratando: remete a Salazar e até ao século XIX, de Eça de Queiroz, como que a revelar que, a despeito do Portugal moderno e progressista, a tradição pesa e está fortemente presente, para o bem e para o mal.

Sei que muita gente que gosta de cinema ainda torce o nariz para os filmes de Manoel de Oliveira. Reclama dos seus tempos lentos ou de sua erudição. Outros não curtem o seu cinema, por considerá-lo muito literário. É uma pena, porque descobrir a obra desse mestre do cinema é um prazer que compensa qualquer esforço inicial que tenhamos de fazer para penetrar em seu território.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

ERVAS DANINHAS



Antonio Carlos Egypto


ERVAS DANINHAS (Les Herbes Folles). França, 2009. Direção: Alain Resnais. Com: Sabrine Azéma, André Dussollier, Anne Consigny, Emmanuelle Devos e Mathieu Almaric. 104 min.


Alain Resnais será para sempre lembrado como o criador de “O Ano Passado em Marienbad” e “Hiroshima, Meu Amor”, filmes que contribuíram para mudar o próprio cinema, liberando-o das amarras do classicismo.

Em São Paulo, recentemente, Alain Resnais também conseguiu um grande feito: seu filme “Medos privados em lugares públicos” permaneceu nada menos do que dois anos em cartaz no cinema. Ainda que ao final da temporada se tratasse de um único horário em um único cinema, não deixa de ser entusiasmante concluir que há vida inteligente no circuito exibidor e cinéfilos dispostos a usufruir do que o cinema tem de melhor.

Pois esse brilhante cineasta, hoje com 87 anos de idade, não se aposentou e continua nos brindando com verdadeiras obras-primas. É o caso de “Ervas Daninhas”, cujas primeiras sessões estão acontecendo na 33ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O filme aborda questões cotidianas que podem ser vividas por qualquer pessoa e o faz com absoluta maestria. Tudo começa numa bolsa de mulher sendo levada por um ladrão (que não se vê), uma carteira abandonada num estacionamento, sem dinheiro dentro, e um homem que a acha, identifica sua dona e fica pensando em como agir. Resnais filma os seus pensamentos, hesitações, o seu preparo do que e como falar. Para isso se vale da divisão da tela e das aberturas e fechamentos da lente, em imagens arredondadas, como se fazia no cinema mudo. As falas incompletas, hesitantes, transmitem com precisão o que se passa na mente do personagem Georges. E logo entendemos que se trata de uma figura complicada. No entanto, nada do que ele vive nos é estranho. Quantas vezes nos perdemos no jeito de agir, no que falar ou não falar. Enfim, é uma experiência cotidiana.

Algo similar vai acontecer com Marguerite. Ela também se confunde com aquele homem algo raro. E com a polícia que entra no meio, por ação dele, inicialmente, e depois dela. Os policiais são igualmente familiares, têm preocupações banais, fazem festinhas, não sabem como agir em algumas situações. Ou seja, tudo é absolutamente simples. humano e, portanto, profundamente verdadeiro.

Usufruir do desenrolar da película é um ato de grande prazer. Observar a mão de um mestre, sua leveza e humanidade transbordantes a nos mostrar como a vida se move pelas pequenas coisas, aquelas banais, para as quais frequentemente não damos maior importância ou, pelo menos, nos acostumamos a elas, ainda que nos desagradem. O que pode surgir de encontros casuais, descobertas fortuitas, aproximações improváveis? O que uma simples e coloquial ida ao banheiro e um zíper que emperra podem acabar provocando?

O humor em “Ervas Daninhas” também é o do nosso dia-a-dia, não o dos modelos tradicionais da comédia. Assim como os encontros e desencontros de Georges e Marguerite não seguem os padrões esperados e nos surpreendem a cada passo. Como todas as pessoas, algo eles terão em comum para compartilhar: no caso, um interesse por aviões, o que soa um tanto inusitado em suas vidas. Mas perfeitamente possível. Por que não? No fim das contas, são os nossos gostos, é o prazer que move as nossas vidas. E acaba por compensar os aborrecimentos, os incômodos, o mal-estar a que estamos sujeitos o tempo todo.

Alain Resnais encanta, ao filmar com tamanha competência e com seu timing perfeito, essa singeleza da vida cotidiana e o estranhamento que encontramos nos outros e em nós mesmos. Um filme maravilhoso, com ótima atuação dos protagonistas, atores conhecidos do cinema francês e de outros trabalhos do diretor. Quem gosta de cinema não pode perder.

domingo, 25 de outubro de 2009

À Procura de Eric


Antonio Carlos Egypto

À PROCURA DE ERIC (Looking for Eric). Inglaterra, 2009.  Direção: Ken Loach.  Com Steve Evets, Eric Cantona, Stephanie Bishop e Gerard Kearns.  116 min.


“À Procura de Eric”, do diretor britânico Ken Loach, foi o filme escolhido para abrir a 33ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  Da mostra se espera um panorama atualizado do cinema de todo o mundo, a descoberta de novos talentos, filmes experimentais ou malditos, alternativas independentes ao cinemão comercial e o assim chamado, e já combalido, cinema de autor.  E aqui é justamente de cinema autoral que se trata.

Ken Loach tem marca e estilo inconfundíveis, faz um cinema que tem conteúdo e posições claras.  Dedica-se às causas libertárias em sintonia com o mundo em que vive e sempre atento aos que estão à margem, os desvalidos, os explorados.  Assim como Chico Buarque na música, seu cinema se dedica às pessoas simples, pobres e oprimidas, reconhecendo os determinantes coletivos do sofrimento a que estão sujeitas.  Crítico e até mesmo pessimista na análise, professa otimismo na ação e crença na capacidade humana de mudar as coisas.


“À Procura de Eric” tem registro leve e bem-humorado, mas está longe de ser entretenimento sem consequências. O carteiro Eric está numa pior, pelo jeito, há 30 anos, já que não assimilou a perda da mulher, Lily.  Na verdade, ele a abandonou por razões que escapam à sua própria compreensão, inscrevem-se no inconsciente.


Vive hoje com seus dois filhos adolescentes numa bagunça que é o resultado da sua incapacidade de educá-los, contê-los, impor qualquer tipo de limite.  O que lhe sobra são os amigos de futebol e bar, além do trabalho insosso.  Com muito custo, sua filha acaba sendo ponte para retomar as relações com a ex-mulher.  E é aí que sua vida é posta à prova, num confronto para o qual não está preparado.  Parece o fim do mundo, mas pode não ser.  Quem tem amigos, confia neles e na sua solidariedade e age coletivamente, pode encontrar a saída.  A solidariedade consciente vence a barbárie.  Está de volta o velho e bom Ken Loach de esquerda, lúcido e confiante no poder de fogo das ações coletivas.


Quem não se lembrará do belo “Terra e Liberdade” sobre a guerra civil espanhola, do ponto de vista da esquerda?  Ou de “Pão e Rosas” e a luta sindical?  De “Ventos da Liberdade”, dos enfrentamentos irlandeses?  Mas, sobretudo, de “Meu Nome é Joe”, dos desempregados, sua batalha e da solidariedade que se precisa encontrar?


Ken Loach pode até se equivocar, mas não fica em cima do muro, tem vilões contextualizados e enraizados na história.  Se há mal, ele tem origem e interesses a revelar.


Esse filme tem ainda uma bela homenagem ao ex-jogador francês que se destacou no time inglês do Manchester United, Eric Cantona, que atua no filme como ele próprio.  Ou seja, o Eric Cantona, internalizado pelo Eric carteiro, o amigo imaginário que ele cria para se permitir enfrentar as adversidades e agir.  Um belo papel: o que impulsiona o outro a crescer.  A torcida de futebol terá ainda um papel decisivo na história, em direção oposta à que jogam os truculentos “hooligans”, que aprontam nos estádios europeus, especialmente no Reino Unido.  Na fita de Loach, os torcedores podem ser simples e iletrados, mas são gente boa, corajosa e amiga.  Ken Loach acredita no povo, é claro.


O filme de abertura da 33ª. Mostra Internacional de Cinema já se revelou um dos seus grandes destaques, tenho convicção.  Que bom que ainda existem verdadeiros autores no cinema contemporâneo, como Loach, Resnais, Almodóvar, Angelopoulos e alguns mais.


Tatianna Babadobulos



Embora reste apenas uma sessão da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo na segunda-feira, 26, de “À Procura de Eric” (“Looking for Eric”), longa-metragem escolhido para abrir o evento, o espectador não precisa se preocupar, pois a Califórnia Filmes já garantiu a sua estreia a partir de 6 de novembro.

À principio, o espectador pode se confundir sobre qual Eric se está à procura, uma vez que o protagonista (Steve Evets), um carteiro que leva uma vida sem graça em algum lugar da Inglaterra (tem-se essa certeza por conta da direção invertida, do sotaque acentuado), se chama Eric, assim como seu ídolo, o jogador de futebol francês, que ficou famoso por vestir a camisa do Manchester United é Eric Cantona.

Porém, à medida que o filme se avança, é possível compreender o que teremos pela frente: divorciado do primeiro casamento e ainda apaixonado pela ex-esposa, Lily (Stephanie Bishop), Eric atualmente vive com dois adolescentes que dão um trabalhão danado. Além do emprego, Eric ocupa seu tempo se dividindo entre os amigos também fãs de futebol e os encontra no pub, a entidade inglesa onde as pessoas vão tomar cerveja, discutir sobre a partida de futebol, falar dos problemas, ajudar os outros a resolvê-los.

Aos poucos, outros elementos vão aparecendo (inclusive as sensacionais jogadas de Cantona) e mostrando que Eric tem muitos problemas e é sua filha, fruto do relacionamento com Lily (de quem se separou há 30 anos), é que vai reaproximá-lo da amada. Mas não será fácil. Para tanto, Eric terá de enfrentar as suas angústias, seus defeitos, seus erros do passado e encará-los para voltar a ser feliz.

Aliás, é Eric Cantona, vivido pelo próprio ex-jogador, que também é produtor do longa-metragem, quem vai ajudá-lo a sair do buraco. E é com a pergunta: “Qual foi a última vez que você foi feliz” que ele vai se movimentar, fazer corridas para se sentir mais disposto, ajudar o enteado.

Cheio de ditados populares e pronto para pronunciá-los a qualquer momento, Cantona é uma espécie de guru que motiva o outro Eric (e talvez o espectador) a sair da lama, a ir, de fato, em busca do seu verdadeiro eu.

Dirigida pelo inglês Ken Loach (o mesmo de “Ventos da Liberdade”, que foi exibido na Mostra em 2006), a fita apresenta o apreço pelas pessoas, é composta por diálogos bem-construídos que emocionam e com um toque essencial que mistura o bom humor e a ironia capazes de tocar a plateia.

Embora todos esses elementos contribuam para que “À Procura de Eric” seja um grande filme, é o “happy end” que não combina com as produções autorais de Loach. Ainda assim, um dos melhores ultimamente no cinema.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Distrito 9


Tatianna Babadobulos


Parece um documentário, com depoimentos no início, bem ao estilo Michael Moore (de "Sicko - S.O.S. Saúde", "Fahrenheit 11 de Setembro", "Tiros em Columbine") de se fazer, mas, cerca de meia hora depois do início da fita, o diretor estreante no formato de longa-metragem Neill Blomkamp conta a história sobre os alienígenas que estão há 20 anos na Terra e, por algum motivo, não conseguem voltar para casa.


Com produção de Peter Jackson, responsável pela trilogia "O Senhor dos Anéis", nada poderia ter sido melhor para Blomkamp, que escolheu sua terra Natal, Johannesburgo (África do Sul), para ser o cenário de "Distrito 9" ("District 9"), o longa de ficção científica que conta na tela grande. Na trama, os alienígenas se tornaram refugiados por não conseguirem retornar para casa e foram alojados em barracos localizados no Distrito 9, enquanto as nações do mundo discutiam o que fazer com eles.


Contudo, quando o prazo já se esgotou (bem como a paciência das autoridades), a União Multinacional (MNU) precisa retirar os aliens a qualquer custo de lá. Eis que um agente, Wikus (Sharlto Copley), é destacado para convencer os ETs a deixarem o acampamento, até que contrai um vírus e é afastado de sua esposa, Tânia (Vanessa Haywood), principalmente porque seu pai, Koobus (David James), diretor da empresa, faz a sua cabeça e inventa mentiras a respeito do modo como o vírus fora contraído.


No filme, a história se alterna entre o que é ficcional e o que é, na concepção do diretor, ultrarrealista, visto que há misturas de imagens em estilo documental, imagens reais do noticiário local, além das imagens feitas com a ajuda do computador, como é o caso das criaturas, que no longa eles chamam de camarões. No entanto, o espectador pode jurar que se trata de algo verdadeiro, extremamente real.


Um ponto que faz a plateia achar isso é o fato de que, antes de rodar o longa, Blomkamp fez o curta-metragem no estilo documentário "Alive in Jo'burg", cujo cenário foi uma favela de Johannesburgo anos atrás. De acordo com o material de divulgação para a imprensa, o cineasta saiu às ruas com a equipe de filmagem para registrar as reações reais das pessoas, pois seus entrevistados entenderam que "alien" se tratava do conflito e da xenofobia existentes entre os cidadãos de Johannesburgo para com a invasão de imigrantes ilegais (na expressão em inglês, "illegal aliens", ou simplesmente "alien") vindos dos países vizinhos. Blomkamp diz que não tentou enganar as pessoas entrevistadas propositalmente. "Eu só queria obter as respostas mais reais e genuínas possíveis."


Filmes sobre ETs existem aos montes, há diversos exemplos no cinema e, cada criador, seja ele Steven Spielberg (de "ET – O Extraterrestre"), Roland Emmerich (de "Independence Day"), Ridley Scott (de "Alien") ou Barry Sonnenfeld (de "MIB - Homens de Preto") deu à sua criatura o aspecto como enxerga esses seres de outros planetas.


Pois bem, especialista em efeitos visuais, o diretor de "Distrito 9" levou às telas a sua visão pessoal acerca da vida extraterrestre. Ou seja, eles "não são atraentes, não são bonitinhos nem apaixonantes". Segundo Terri Tatchell, corroteirista ao lado do diretor, Blomkamp optou por um tipo de alienígena assustador, duro, quase um soldado.


Com direito a espaçonave e cenas grotescas que conseguem enojar o espectador no cinema, a discussão de "Distrito 9" vai além da bobagem de se fazer retratos bizarros de seres de outros planetas. Isso porque, nas entrelinhas (ou escancaradamente para o cinéfilo mais atento), a fita fala sobre a população que vive às margens, do preconceito de quem não consegue emprego, além, é claro, do Apartheid (a segregação racial sul-africana).


Para se ter uma ideia, o alien fala e entende a língua dos humanos, está sujeito às leis de onde vive (e pode, sim, de repente ser despejado do barraco ilegal), tem nome (o principal chama-se Christopher e é vivido por Jason Cope), tem filho (C.J.) e, para arrematar, pensa em seu povo antes de tudo, quando tem a oportunidade de recomeçar.


No final (calma, eu não vou contar), ao contrário dos filmes europeus, tem-se uma ideia do que vai acontecer mais pra frente (uma sequência, talvez?). O desfecho não é totalmente explícito, tal como nos filmes hollywoodianos, mas também não tão aberto como os europeus de um modo geral.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O CAÇADOR





Antonio Carlos Egypto


O CAÇADOR (Chugyeogja). Coréia do Sul, 2008. Direção: Na Hong-jin. Com: Yun-seok Kim, Jung-woo Há, Yeong-hie Seo, In-gi Jung. 125 min.

Um cafetão que começa a ver algumas de suas meninas desaparecerem acredita que elas estejam sendo vendidas. Descobre um número de telefone celular de um “cliente” por onde elas passaram, especialmente a última, que ele espera encontrar: Min-jin. E começa uma caçada com direito a muita correria (física, mesmo) e brigas, na base do soco e pontapé. Um “serial killer” que se vale de martelo, formão e outras ferramentas primitivas para matar. Tudo soa muito antigo, na moderna cidade de Seul, com seus carrões e celulares. O crime e a violência, sem dúvida, remetem ao mais primitivo do humano, aquilo que escapa ao controle... de si mesmo. E o que dizer do ataque de protesto em pleno mercado ao prefeito da cidade? A reclamação era referente à falta d’água, se não me engano. O fato é que a agressão se dá jogando merda no prefeito. Isso mesmo. Tem jeito mais primitivo (e infantil, também) de se expressar politicamente? Mas como desmoraliza! Movimenta a cidade a tal ponto que o tal assassino em série passa totalmente a segundo plano.

Os elementos aqui apresentados já mostram que o diretor sulcoriano, Na Hong-jin, lida com ideias, de um lado, originais, de outro, ambíguas, contrastantes. Isso vai permear todo o filme. Até aquilo que parece banal mostra contornos diferentes. A polícia como sempre é inepta, desde os filmes policiais “noir” franceses e norte-americanos. Humphrey Bogart cansou de viver personagens que fazem dos policiais gato e sapato. Aqui, então, é pior ainda. Os policiais não têm moral, nem mesmo para impedir uma surra dada por um ex-colaborador em um suspeito, em plena delegacia. Se eles são frouxos, a lei é mais ainda, não se consegue manter preso um assassino confesso se as provas materiais não aparecerem.

Este conjunto de circunstâncias naturalmente leva à perigosa noção da justiça com as próprias mãos, também muito cultuada por um certo tipo de cinema policial que vemos por aí. Mas, felizmente, não é bem essa elegia que “O Caçador” adota. Tudo realmente escapa ao controle, a justiça à margem da lei também, o que é realista e verdadeiro. A interrelação entre as histórias, a construção dos personagens, o estilo retrô das ações, em contraste com o moderno da trama e da filmagem, dão um sabor todo especial a essa aventura cinematográfica asiática. Até as cenas de violência, crueldade e sangue têm como contraponto uma encantadora e inteligente criança, que faz as coisas acontecerem. A relação dos adultos com a menina e o que vai se desenvolvendo também revelam aspectos surpreendentes, crus, do relacionamento humano, a que nem as crianças podem escapar. Sinal dos tempos, em que tudo parece estar um tanto fora do lugar e provocar estranheza, onde ninguém está tranquilo e a felicidade parece uma utopia distante. Não dá mais para ser ingênuo, acreditar nas pessoas, viver de modo otimista. O mundo se deteriorou a tal ponto que parece não haver saída. Que triste, não? Menos mal que o cinema ainda consiga oferecer entretenimento inteligente às pessoas, tendo de encarar tudo isso.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bastardos Inglórios

Tatianna Babadobulos

Quentin Tarantino não brinca em serviço. Depois que mostrou ao mundo "Pulp Fiction – Tempo de Violência" (1994), não se contentou e fez "Kill Bill", volumes um e dois, respectivamente em 2003 e 2004. Embora esses últimos tenham alguns fãs, não se trata de unanimidade quando o assunto é a idolatria ao diretor que chegou para quebrar a linearidade dos roteiros, além de utilizar a violência de forma estética inovadora, mostrando, também, que se trata de uma bizarrice sem noção.

Vale lembrar de "À Prova de Morte" (2007), que ainda não foi lançado oficialmente no Brasil, mas foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo daquele ano ao lado de "Planeta Terror", de Robert Rodriguez, filme capaz de mostrar essas características.

Tarantino viria ao Brasil para a divulgação de seu novo longa-metragem, "Bastardos Inglórios" ("Inglorious Bastards"), mas cancelou a viagem à última hora por se sentir cansado. Não é porque o diretor não veio que se deve deixar de lado a sua obra. A fita é uma obra-prima. Possui suas características principais, fazendo coro à forma como faz seus filmes, já que também é autor do roteiro. No longa, o espectador vai encontrar diálogos hilários, momentos históricos tristes, fantasia, sangue e morte nas quais muitas vezes não é possível encarar a tela do cinema.

O filme se passa a partir de 1941, ou seja, durante a II Guerra Mundial, em uma França ocupada pela Alemanha nazista, em busca de fugitivos judeus que se escondiam em casas de campo. Assim, até parece que você já viu esse filme. Mas como Tarantino não é um diretor convencional, ele tratou de mudar tudo e começou a contar a sua história dividindo a fita em capítulos. Eis, portanto, que se inicia com "Capítulo 1 – Era uma vez...".

Depois de ver sua família ser assassinada sob o comando do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz), Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) vai para Paris e, com um documento falso, assume a direção de um cinema. Lá, conhece um soldado alemão que quer fazer ali a avant-première de seu filme sobre a morte de milhares de judeus.
Em outra situação, no “Capítulo 2 –Bastardos Inglórios”, está o tenente Aldo Raine (Brad Pitt), que quer unir os judeus para fazer com os nazistas o que eles fazem com seu povo, ou seja: dar o troco na mesma moeda. Do interior dos Estados Unidos e com sotaque bastante evidente, Aldo e seu grupo, que é chamado de “os Bastardos”, se une à atriz alemã Bridget von Hammersmark (Diane Kruger) para derrubar os líderes do Terceiro Reich. 

Em outra situação, no "Capítulo 2 – Bastardos Inglórios", está o tenente Aldo Raine (Brad Pitt), que quer unir os judeus para fazer com os nazistas o que eles fazem com seu povo, ou seja: dar o troco na mesma moeda. Do interior dos Estados Unidos e com forte sotaque, Aldo e seu grupo, que é chamado de "os Bastardos", se une à atriz alemã (Diane Kruger) para derrubar os líderes do Terceiro Reich.

Ainda há o "Capítulo 3 – Noite Alemã em Paris", em 1944, e o "Capítulo 4 – Operação Kino", até que, de uma maneira que só Tarantino poderia fazer, todos esses personagens se encontram e,voilà: dá-se o clímax. É no "Capítulo 5" que acontece a première.

O galã Brad Pitt faz um personagem caricato, cheio de trejeitos estranhos. Mélanie Laurent merece destaque, pois consegue transmitir sua ira com relação aos nazistas de um jeito meigo e sedutor.

Quem se destaca, porém, é Christoph Waltz, que também faz um personagem caricato, pronuncia diálogos em francês, inglês e alemão com tom de deboche e muita ironia na maior parte do filme. O roteiro, claro, possui personagens reais, mas são os fictícios que entusiasmam o espectador, principalmente porque são eles que têm todo o sabor da fantasia proposta por Quentin Tarantino. Uma fábula que mistura o real e o irreal, que ninguém poderia contar melhor que o próprio diretor.

"Bastardos Inglórios" é um filme imperdível, que deve estar na lista de todo cinéfilo que se preze.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

HERBERT DE PERTO




Antonio Carlos Egypto



HERBERT DE PERTO. Brasil, 2009. Direção: Roberto Berliner e Pedro Bronz. Montagem: Pedro Bronz. Documentário. 94 min.

O cinema brasileiro tem mostrado grande vigor na produção documental. Bons trabalhos têm ajudado a resgatar situações, fatos e figuras históricas relevantes. Por meio dos documentários, estamos deixando de ser um país que não tem ou não valoriza sua história? Parece que sim. Tanto no cinema quanto na TV, os títulos disponíveis dão para todos os gostos e os trabalhos de qualidade se multiplicam.

Uma parte importante dessa produção de documentários tem se debruçado sobre a música popular brasileira, farta, rica e festejada mundialmente. Celebrar seus grandes talentos, sua história, figuras esquecidas ou menos divulgadas do que seria desejável são objetivos que estão sendo alcançados.

A música popular brasileira é de uma grandeza e diversidade impressionantes, num padrão de qualidade raro no mundo. E dispõe de alguns gênios absolutos, que povoam nossa histórica musical, como Noel Rosa, Tom Jobim, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Elis Regina, João Gilberto. Quem tem tudo isso, tem um filão inesgotável a explorar. Os documentários musicais podem facilmente se tornar um gênero permanente do nosso cinema.

Um exemplar desse gênero que chega agora aos cinemas é “Herbert de Perto”, um filme que focaliza a trajetória artística e a vida de Herbert Vianna e do grupo “Paralamas do Sucesso”, destaque do rock brasileiro dos anos 1980 e 1990. Um trabalho que alcançou grande repercussão, com um sucesso que apresentou altos e baixos nessas duas décadas, mas revelou uma turma que não esmoreceu, brigou pelo espaço, buscou alternativas no exterior, quando precisou, e se reinventou continuamente, capitaneada por Herbert Vianna. Ele sabia que a parada era dura e, até se subestimando, dizia, em 1987: “Minha autoconfiança é zero. Não me acho inteligente. Minha virtude é a capacidade de trabalho (...). Tenho uma capacidade de conquista muito grande” e, um tanto profeticamente, dizia que, se por acaso, tivesse de refazer sua vida inteira do zero, começaria outra vez e conseguiria tudo de novo. O acidente de ultraleve, em 2001, que matou sua melhor e o deixou paraplégico, não foi outra coisa do que este recomeçar e levou mesmo a uma nova conquista, como o trabalho dos Paralamas de 2005 viria mostrar.

O documentário, dirigido por Roberto Berliner e Pedro Bronz, dá conta de toda essa trajetória artística e com cuidado e delicadeza passa pela tragédia e recuperação do artista, incluindo cenas da reabilitação no Hospital Sarah Kubitschek de Brasília, o primeiro show para os internados do hospital e o processo de recuperação da memória, apresentando para o Herbert de hoje imagens do seu passado.

Roberto Berliner, o documentarista, é amigo e companheiro de Herbert desde o começo dos anos 1980 e foi registrando a trajetória dele e do grupo, a ponto de ter cerca de 250 horas de fitas brutas e material de arquivo. Isso lhe permitiu fazer uma edição rica e que dá conta dessa trajetória histórica, da figura humana e de seu drama maior, nos mostrando do Herbert dos primeiros tempos de Brasília e seu “Óculos” ao superador de obstáculos de hoje, que mal se reconhece na imagem dos velhos tempos.

Pedro Bronz faz uso de sua experiência como montador para dar conta de tão vasto material e consegue um equilíbrio muito bom, sem cair no didatismo nem no sentimentalismo.

Os diretores de “Herbert de Perto”, com efeito, conseguiram nos colocar cara a cara com um sujeito determinado e talentoso na sua agitada e dramática vida até aqui, com um respeito e uma elegância admiráveis. Já conheciam bem o personagem e sua história, especialmente Roberto, que já havia até produzido um documentário sobre ele para a TV, muito antes do acidente aéreo. Como testemunha ocular de toda a história e com farto material gravado e resgatado, foi possível construir agora um documentário de grande significado e amplitude sobre o homem e o artista Herbert Vianna e seus fiéis companheiros do “Paralamas do Sucesso” que, com uma dedicação imensa, contribuíram decisivamente para que essa história pudesse ter continuidade.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

LIVRO DE LUCIANO RAMOS INDICA OS MELHORES FILMES NOVOS



Antonio Carlos Egypto



Quem tem o hábito de escolher filmes para assistir em DVD precisa se informar sobre o que vale a pena alugar ou mesmo comprar e ter em casa para ver e rever. E isso depende, é claro, dos interesses e preferências de cada um. No entanto, sem informações adequadas, não dá para fazer uma boa escolha. Isso é menos importante quando se refere aos clássicos do cinema, os filmes representativos de sua história ou filmes antigos que a gente já conhece por ter ido ao cinema, lido ou estudado sobre eles ou conversado com outras pessoas. Enfim, o próprio tempo conta para que certas informações nos alcancem.

Já quanto aos filmes recentes, isso é um pouco mais complicado para quem não tem o hábito de acompanhar os lançamentos semanais nos cinemas, ler sinopses e críticas em jornais, revistas, Internet ou por meio do rádio e da TV. Por isso, é muito bem-vindo o livro “Os melhores filmes novos – 290 filmes comentados e analisados”, de Luciano Ramos, lançado recentemente pela Editora Contexto.

Luciano Ramos é um crítico de cinema com larga experiência e trabalhos relevantes na área. Fomos colegas dos tempos de universidade no curso de Ciências Sociais da USP, nos anos de chumbo da ditadura militar: final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Eu me encaminhei para as áreas de Educação e Psicologia, embora o cinema tenha sido uma paixão permanente. Mas, no caso do Luciano, o cinema foi o seu “métier” profissional desde sempre.

Aprendi muito com ele, acompanhando seu trabalho crítico em veículos como o “Guia de Filmes da Abril Cultural”, nas décadas de 1980 e 1990, onde ele didaticamente estabelecia os critérios para avaliar filmes e atribuir estrelas, e estruturava os verbetes com as informações essenciais que precisam constar quando se cita ou indica um filme. Destaco o seu trabalho inovador no vibrante Jornal da Tarde dos primeiros tempos. E sua atuação como programador de filmes das TVs Bandeirantes e Cultura, nesta última com análises e debates muito proveitosos para quem gosta de bom cinema.

Quem sempre viu muitos filmes, exercendo a análise continuada deles, só pode ser um bom guia na hora de escolher o que se deseja assistir. Nesta obra, para selecionar os melhores filmes, Luciano Ramos analisou cinco aspectos: argumento, roteiro, elenco, produção e direção. E agrupou os filmes em ordem alfabética, dentro de capítulos que correspondem às principais categorias: aventura, brasileiros, comédia, documentário, drama, fantasia, história e infantil. E quem comprar o livro terá como bônus quatro atualizações “on line” que analisam e avaliam os filmes lançados a partir de 2009. Com isso, o livro permanecerá atual por pelo menos mais dois anos, já que essas atualizações serão feitas semestralmente.
A escolha dos 290 títulos, entre os melhores e mais representativos lançados entre 2005 e 2008, foi obtida a partir dos 1879 filmes lançados no Brasil nesse período. Certamente, Luciano, se não conseguiu ver todos, se informou sobre todos eles. E fez uso dos seus critérios objetivos, além da sua subjetividade. Mas seu gosto pessoal envolve muita sensibilidade, aguçada pelos anos de dedicação ao ofício, e leva em conta o espectador médio, não é um trabalho para ser apreciado apenas por especialistas. É um guia, um orientador, para que a escolha cinematográfica possa ser a melhor e mais adequada aos objetivos que cada qual tem, quando decide ver um filme, seja no cinema, seja em casa.

Como ele destaca o que cada filme tem de melhor, fica mais fácil escolher o que mais se adequa ao que cada um busca, pelo menos naquele momento em que se dá a escolha do que assistir.

Há, ainda, no livro uma lista mais enxuta – a dos 100 melhores, ou seja, os imperdíveis do período. Um tiro ainda mais certeiro para quem quer se atualizar com o que passou recentemente e merece ser conhecido. A maior parte dessa lista não deverá despertar grandes discordâncias. Pode-se lembrar de algum filme que não figurou aí e talvez mereça. O mais provável, porém, é que a gente encontre alguns filmes que nos pareçam supervalorizados, ao vê-los na lista.

Certamente, alguns dos filmes citados não me entusiasmaram, eu os consideraria perfeitamente dispensáveis. Não são muitos, mas há. Isso remete ao gosto pessoal, a diferentes critérios de avaliação ou a outros fatores imponderáveis, até mesmo inconscientes.

O exercício da crítica e, sobretudo, o amor pelo cinema alimentam alegres discordâncias e paixões duradouras, nesta seara onde Luciano Ramos se movimenta com tanta desenvoltura.

sábado, 12 de setembro de 2009

UMA CANÇÃO DE AMOR



Antonio Carlos Egypto


UMA CANÇÃO DE AMOR (Les Chants des Marriées). França/Tunísia, 2008. Direção: Karin Albou. Com: Lizzie Brocheré, Olympe Borval, Najib Oudghiri e Simon Abkarian. 100 min.


“Uma canção de amor” é um título inadequado para o filme da diretora francesa (de origem judaica?), Karin Albou. Ele poderia ter sido chamado de “Canções de casamento” ou mesmo “As canções dos casados”, embora este último não seja bom em português. Pelo menos, estariam mais adequados a um filme que, por meio de duas jovens, aborda questões relacionadas ao afeto e ao casamento, ao mesmo tempo em que nos situa no contexto histórico e das diferenças religiosas na Tunísia, em plena Segunda Guerra Mundial.

As duas adolescentes, Nour e Myriam, uma muçulmana e outra, judia, convivem harmoniosamente, assim como suas famílias, no mesmo ambiente de moradia. São muito amigas e as diferenças de seus mundos mais as aproximam do que as separam. Como costuma acontecer, uma gostaria de ter o que a outra tem. A muçulmana Nour, por razões religiosas, não pode frequentar a escola e se desenvolver culturalmente como sua amiga e, é claro, gostaria de fazê-lo. A judia Myriam desejaria poder noivar e casar com quem ama, como está prestes a acontecer com sua amiga Nour.

Estamos na Tunísia, em 1942. O país é um protetorado francês, que só conquistará sua independência em 1956, mais de dez anos após o fim da Guerra Mundial. A França pode ser vista como opressora, principalmente pela comunidade muçulmana e por suas mulheres. Mas a França, a esta altura, está ocupada e os alemães invadem a Tunísia. Se, para os judeus, isto vai significar uma perseguição brutal e o fim de seu patrimônio acumulado, para os muçulmanos, os nazistas podem até parecer simpáticos, ao menos por algum tempo.

Em 1943, os aliados retomarão a Tunísia, mas até lá as duas amigas serão levadas a grandes mudanças de vida, que as colocarão em polos opostos. A amizade será posta à prova e precisará de muito empenho e confiança mútua para resistir a tal intempérie.

A vida das mulheres no judaísmo e no islamismo, nesse período histórico, na África muçulmana, no caso, sob o domínio francês (e, por um período, também alemão) será mostrada por meio da relação entre as duas amigas. E a narrativa conduzida por Karin Albou, ao assinalar as diferenças, acaba por sublinhar as semelhanças. As mulheres, tanto as judias quanto as muçulmanas, têm sua vida limitada e controlada, espaços reduzidos de ação e decisão, que as impossibilitam, por razões diversas, de alcançar a autonomia e a felicidade. Uma vida de sofrimento e opressão masculina, familiar, social e religiosa é o que as espera. As circunstâncias da guerra mundial servem para transformar o drama em tragédia, exacerbando os conflitos. Mas o destino, na realidade, não depende delas, embora, em algumas circunstâncias, possa caber a uma mulher a sorte de conviver com um homem bom que lhe coube aceitar e daí até nascer o amor. Mas é a roleta da sorte que determinará isso.

“Uma canção de amor” é um filme que trata das relações de gênero com um olhar feminino, sensível e competente. A diretora, em seu segundo longa-metragem, mostra-se capaz de abordar com sutileza e sem qualquer dose de moralismo ou de militância feminista a realidade da mulher que vive num mundo que a oprime e limita.

Ela já havia tratado da questão feminina na comunidade judaica de Paris, no seu primeiro longa “A pequena Jerusalém”, que agora pode ser visto em DVD. Num mundo onde a diversidade cultural, social e religiosa se impõe e exige que estejamos abertos a compreender e lidar com as diferenças, filmes como esses são importantes e atuais, mesmo que sua trama nos remeta ao distante 1942, como é o caso de “Uma canção de amor”. Mais do que um filme histórico, é uma película que nos ajuda a refletir sobre algumas questões fundamentais da atualidade.