quinta-feira, 26 de maio de 2016

O BOTÃO DE PÉROLA

Antonio Carlos Egypto




O BOTÃO DE PÉROLA ( El Botón de Nácar) Chile, 2014, Direção e roteiro: Patricio Guzmán,   Documentário, 82 min.


A água vem do espaço, cria a vida, alimenta e serve de rota para povos indígenas da Patagônia e navegadores estrangeiros, forma a fronteira mais longa do Chile e é cemitério de  “desaparecidos” do regime de Pinochet.  Os oceanos contêm história e memória, podem também ter voz.  O botão de pérola encontrado no fundo do mar é uma dessas vozes eloquentes. 




O filme de Patricio Guzmán, um dos maiores documentaristas da atualidade, é extraordinariamente bem construído, de uma beleza plástica incontestável e não deixa um fio solto.  Todos os elementos levantados são muito bem amarrados e integrados num todo não só compreensível como inovador, surpreendente, até.

No cinema contemporâneo, a gente admite micro histórias, excertos, fios narrativos, ideias soltas ou sugeridas.  É um caminho alternativo.  Mas quando se vê um filme tão bem planejado e realizado como O BOTÃO DE PÉROLA, fica evidente a superioridade de um produto estruturalmente completo.  Trata-se de um documentário astronômico, etnológico, histórico, geográfico e político, que nos dá uma dimensão ampla e abrangente do Chile, em múltiplos aspectos do país.




Apenas para lembrar, é de Patricio Guzmán a trilogia A BATALHA DO CHILE, de 1975, 1977 e 1979, e o espetacular NOSTALGIA DA LUZ, de 2010 (Veja crítica de fevereiro de 2015, no cinema com recheio).  Com O BOTÃO DE PÉROLA, ele reafirma sua capacidade de construir obras complexas, plasticamente arrebatadoras, que são verdadeiras maravilhas do cinema documental. 


terça-feira, 24 de maio de 2016

PONTO ZERO

Antonio Carlos Egypto




PONTO ZERO.  Brasil, 2015.  Direção e roteiro: José Pedro Goulart. Com Sandro Aliprandini, Patrícia Selonk, Eucir de Souza, Larissa Tavares.  94 min.



O Ponto Zero pode ser entendido como o momento fugaz que caracteriza o presente.  Ao se tomar consciência dele, ele já passou, já é lembrança.  O que se vive, aqui e agora, pode ser uma ilusão, um sonho, um pesadelo, uma distorção da percepção ou, simplesmente, um elemento da memória, que retorna. Ou mesmo a expressão de um desejo ou de uma fantasia.

O filme gaúcho “Ponto Zero”, escrito e dirigido por José Pedro Goulart, explora esteticamente ideias como essas, ao retratar a noite e madrugada, conturbada e tensa, vivida pelo garoto Ênio (Sandro Aliprandini), de 14 anos de idade, entre a sua casa e a sua cama, as ruas desertas de uma Porto Alegre adormecida e ambientes insones em que a prostituição se destaca.  Ou, quem sabe, ela está apenas no outro lado da linha telefônica?




Onde está o presente?  Onde está a realidade?  Na vida diária do adolescente, que não suporta o conflito entre seu pai e sua mãe?  No ciúme doentio da mãe?  Na infidelidade explícita e desavergonhada do pai?  Na rádio que, de madrugada, se relaciona com as angústias de seus ouvintes, onde seu pai trabalha e parece pouco sensível aos sentimentos alheios?  Na busca da prostituta sofisticada, que atende ao telefone com mensagens literárias, por exemplo, de Cecília Meireles?

Uma fotografia deslumbrante de ambientação noturna, marcada por incessante chuva, domina a cena.  Explora o caráter misterioso da situação.  É etérea, pálida e com as luzes da noite, enfatizando a beleza dos pingos de chuva que insistem em não parar, das poças d’água na rua ou da piscina borbulhando. Ou invade o ambiente urbano, claustrofóbico, dos prédios aglomerados, passeia na bicicleta que percorre os canteiros das avenidas, mas que se mete em casa ou na sala de aula, de forma inesperada.




Há todo um clima de angústia e incerteza que domina o filme enquanto nos proporciona essa experiência estética que se dá por meio da ambientação, dos enquadramentos, da composição das cores e das luzes,  nas tonalidades marrom e amarelada que predominam nas cenas.

O jovem protagonista experiencia o que seu pai Virgílio (Eucir de Souza) explicita em um dos poucos diálogos que o filme tem: a vida, a morte e a sorte, as três coisas que existem no mundo, segundo o personagem.  Sobreviver a um dilúvio de angústia e solidão é mesmo uma questão de sorte, como se verá.




O elenco que segura a onda desse projeto pretensioso é muito bom.  Mas dependia do desempenho do ator estreante, Sandro Aliprandini, que está presente em, praticamente, todas as cenas.  Ele dá conta da responsabilidade, com uma entrega considerável a um papel que exige muito dele.


José Pedro Goulart é estreante em longas-metragens, mas dividiu com Jorge Furtado a direção de um curta-metragem famoso e premiadíssimo, em 1986, “O Dia em que Dorival Encarou o Guarda”.


domingo, 22 de maio de 2016

CERTO AGORA, ERRADO ANTES


Antonio Carlos Egypto




CERTO AGORA, ERRADO ANTES (Jigeumeun Matgo Geuttaeneun Teullida).  Coréia do Sul, 2015.  Direção: Hong Sang-soo.  Com: Jae-yeong Jeong, Kim-Min-Hee, Yeo-jeong Yoon, Ju-Bong Gi.  121 min.



Hong Sang-soo, o diretor coreano de “Certo Agora, Errado Antes”, já teve alguns filmes exibidos no circuito comercial dos cinemas por aqui: “Ha Ha Ha”, de 2010, “A Visitante Francesa”, de 2012, e “Filha de Ninguém”, de 2013.  É um cineasta que trabalha com a sutileza, com a inibição e com as demais dificuldades que se dão nos contatos humanos, com o uso do álcool e dos ambientes de bares e restaurantes, onde coisas acontecem, às vezes de forma abrupta ou inesperada.  E também com a repetição de situações, ou com as diferentes visões de determinados acontecimentos.




“Certo Agora, Errado Antes” também pode inverter a chamada para “Certo Antes, Errado Agora”.  É uma situação que se repete de forma diferente, em alguns aspectos, mostrando que as ações de cada um, por pequenas que sejam, podem transformar significativamente as relações que se estabelecem e o que resta na lembrança e na vida de cada um dos envolvidos.

A trama é simples.  Um diretor de cinema se dirige para a cidade de Suwon, onde seu novo filme será exibido e haverá um debate após a projeção.  Mas ele chega, por engano, um dia antes e fica sem nada para fazer. O que ocorre nesse dia livre é que ele conhecerá uma ex-modelo, que se dedica agora à pintura, e se estabelecerá uma intimidade entre eles, ao longo de todo esse dia em que convivem e se encontram também com pessoas da cidade, que conhecem a pintora. 




O repertório dos dois protagonistas para estabelecerem esse relacionamento é um tanto pobre, inibido, bloqueado.  Ao mesmo tempo, expressam um afeto genuíno um pelo outro, ainda que contido e até envergonhado.

Acompanhar esse jogo relacional em duas versões é bastante curioso e nos leva a repensar as formas como os relacionamentos podem se estabelecer e o que pode comprometê-los desde o início.  Mas é preciso aceitar a repetição de cenas, porque, em cada uma das versões, grande parte das coisas simplesmente se repetem sem mudanças.




O filme tem um clima delicado e suave, como de costume, no trabalho de Hong Sang-soo.  E os conflitos não tomam a forma de grandes dramas.  Apesar de conter situações intensas e inesperadas, tudo se passa num tom menor, ainda que a bebida jogue como fator desestabilizador.


Um filme que se foca no ritmo da vida pacata de uma pequena cidade, sem pressa, mostrando por meio de planos-sequência filmados com sutileza e uma bela fotografia como as relações humanas se dão.  Os protagonistas Jae-yeong Jeong e Kim-Min-Hee encontraram o tom certo e minimalista de expressão, para viver essa relação amorosa fugaz.



sexta-feira, 13 de maio de 2016

NÓS, ELES E EU


Antonio Carlos Egypto




NÓS, ELES E EU (Ney: Nosotros, Ellos y Yo).  Argentina, 2015.  Direção e roteiro de Nicolás Avruj.  Documentário.  85 min.


Nicolás Avruj é argentino de origem judaica.  Sua família, de perfil progressista, preserva tradições de ideais judaicos, como o sionismo, que fizeram parte de sua educação.  Aos 16 anos de idade, Nicolás ganhou uma viagem para conhecer Israel e, anos mais tarde, quis aprofundar o conhecimento daquela realidade, ficando mais tempo por lá e explorando o que não tinha visto ou entendido.

A oportunidade surgiu em 2000, a propósito de visitar um primo que estava vivendo temporariamente em Tel Aviv.  Só que, enquanto ele voava para lá, o primo voltava para a Argentina.  De modo que o plano não vingou.


Nicolás Avruj


Nicolás não se deu por achado, ficou cerca de três meses em viagem exploratória, arrumando jeitos de se hospedar, realizando pequenos trabalhos para bancar a viagem e, empunhando permanentemente sua câmera, foi conhecer tudo o que podia, tanto de Israel quanto da Palestina.

Para começar, não se apresentava como judeu, mas como argentino, simplesmente.  isso lhe permitiu conviver com palestinos na Faixa de Gaza, inclusive aceitando hospedagem na casa deles. Pôde conhecer as condições de vida, o cotidiano, os sentimentos e os valores que os movem.  Entender o posicionamento da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), então regida por Yasser Arafat, e até filmar uma assembleia do Hamas.  E também constatou o medo, a opressão, a revolta, o ódio, que estão presentes na vida daquele povo. 




Por outro lado, conviveu com judeus ortodoxos, com os de pensamento radical militarista, com os críticos da política do governo de Israel daquele momento, com uma jovem que visita casas de palestinos, como ele fez.  Ou seja, de todos os matizes.  Além dos pouco informados sobre a realidade dos palestinos.

O que ele registrou ao longo desses meses é de uma preciosidade incrível, é um relato veraz de um conflito que parece eterno e insolúvel.  As imagens passeiam por Tel Aviv, Jerusalém e seus diversos lados e contextos, Cisjordânia e Gaza, revelando a coragem e a audácia do cineasta argentino.  Ele atravessou os muros da incompreensão e pôs em xeque a relação entre o bem e o mal, com uma honestidade admirável.




De posse desse vasto material colhido, que chega a registrar a Segunda Intifada, ele não pôde trabalhar com isso de imediato.  Era forte e impactante demais.  Só quinze anos depois foi possível editar tudo isso, para produzir o documentário “Nós, Eles e Eu”, que acaba de ser lançado nos cinemas.  É um trabalho incrível, que merece ser conhecido.

Quando alguém pergunta hoje ao cineasta de que lado ele está, de Israel ou da Palestina, isso é o que mais o incomoda.  As coisas não são assim e não é possível responder essa perguntar, é sua convicção. Vendo o filme, percebe-se o impacto que causou nele, e causa em nós, espectadores, tudo aquilo.  Claro que só é possível desejar a paz, mas como, diante de tudo o que ele nos mostra?


segunda-feira, 9 de maio de 2016

RALÉ


Antonio Carlos Egypto




RALÉ.  Brasil, 2015.  Direção e roteiro: Helena Ignez.  Com Ney Matogrosso, Simone Spoladore, Djin Sganzerla, Zé Celso Martinez, Marcelo Drummond, Mário Bortolotto, Helena Ignez.  73 min.



“Ralé” é cinema alternativo, libertário, na contramão das tendências conservadoras e moralistas que parecem estar vencendo batalhas importantes no momento atual brasileiro.  É, portanto, muito bem-vindo para reforçar a ideia de que já avançamos o suficiente para não poder mais aceitar retrocessos nas ações coletivas e nas leis.

A começar da questão do desejo, do amor e do casamento gay, que tem amplo destaque no filme.  O casamento dos personagens Barão e Marcelo é uma espécie de fio condutor da trama, motivo de alegria e festa, ensejando manifestações claras e explícitas de afetividade e tesão.  Assim como eles, outros personagens se expressam com a mesma desenvoltura, sem amarras ou falsos pudores.




Não é só isso, o filme celebra a natureza, o espírito e a poética amazônica, a busca constante da liberdade e até a ayahuasca dos rituais do Santo Daime e da União do Vegetal.  Não tanto pelo caráter religioso, mas por poder vê-la sem o estigma da droga.  Já a maconha, estigmatizada socialmente ou não, é parte integrante e natural da vida dessas pessoas.  Sem grilos. 

A natureza também se faz presente na cidade, numa sequência em que uma chuva muito forte alaga ruas e destrói um guarda-chuva, algo já corriqueiro nos nossos dias.  A cena é bonita e serve de alerta e contraponto.  Sem dramas ou vítimas, com suavidade.




Os personagens riem, se divertem, dançam, cantam.  E a música brasileira é parte importante dessa grande celebração que é a vida, digamos, marginal.  Isso para ficar num termo que remete a um cinema caro a Helena Ignez.

São muitas sequências belas, ousadas, provocadoras, talvez, mas cheias de vitalidade e de crença na capacidade dos indivíduos de experimentar o sentido real da liberdade.  É, nesse sentido, um filme de alto astral.

O elenco é maravilhoso para a proposta da obra de Helena Ignez.  Ney Matogrosso se entrega ao papel de modo pleno e ainda canta divinamente, como de costume.  Zé Celso Martinez, da mesma forma, completamente solto e à vontade.  E também canta e se acompanha  ao piano.  Djin Sganzerla e Simone Spaladore estão ótimas.  Gente do teatro alternativo, como Mário Bortolotto e Marcelo Drummond, além da própria Helena Ignez, fazem participações importantes.




Os personagens se confundem com os atores, que são, em larga medida, muito próximos deles mesmos.  Ficção documental é o tom, já que não há uma história a contar, mas coisas legais a fazer.  E que eles fazem com a maior naturalidade do mundo.  Ou, pelo menos, assim parece.

Há espaço para tanta soltura, tanto descompromisso, tanta liberdade e diversidade nesses tempos tão tensos, de crises, conflitos e guerras para todo lado?  Por que não?  Cada um busca os seus caminhos onde pode se encontrar.  Uns, nos prédios envidraçados dos escritórios, outros, na selva amazônica.  Talvez embalados pela mesma e rica música popular brasileira, que de Luiz Gonzaga a Ney Matogrosso acompanha sonhadores de todos os tipos.  A seleção musical, que a própria diretora escolheu para o filme, é preciosa.  E a realização toda é muito boa. 


terça-feira, 3 de maio de 2016

MARAVILHOSO BOCCACCIO


Antonio Carlos Egypto




MARAVILHOSO BOCCACCIO (Maraviglioso Boccaccio).  Itália, 2015.  Direção: Paolo e Vittorio Taviani.  Com Ricardo Scarmarcio, Kim Rossi Stuart, Jasmine Trinca, Lello Arena, Paola Cortellesi, Carolina Crescentini.  115 min.



Giovanni Boccaccio (1313-1375) e seu Decameron, com cem histórias escritas entre 1348 e 1353, marcam uma ruptura com a moral medieval e introduzem um realismo humanista, em que a sexualidade e a perversidade ocupam papel de relevo.  Atraente e polêmico material, marco da literatura, um dos responsáveis pela fixação do idioma italiano, foi objeto da atenção dos melhores cineastas da Itália.

Em 1962, o filme “Boccaccio 70”, com quatro episódios, reuniu Federico Fellini, Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Mario Monicelli numa comédia antológica.  Em 1971, foi a vez de Pier Paolo Pasolini filmar “Decameron”, com absoluto destaque para o erotismo.  Outro grande trabalho cinematográfico.  Agora é a vez dos irmãos Taviani, dupla brilhante de cineastas, contarem histórias livremente inspiradas no Decameron de Boccaccio. 




A primeira coisa a apontar sobre esse filme dos irmãos Taviani é que ele é de uma beleza ímpar.  Filmado na Toscana e Lazio, em lugares encantadores e envolvendo antiquíssimos castelos de até mil anos de idade, nos leva diretamente à cena medieval.  A variação das cores e tonalidades se alterna para melhor expressar as diferentes situações contadas pelos narradores.  Um elenco jovem, de belas moças e rapazes, contribui para a estética da obra, de maneira relevante. Assim,  podemos dizer que “Maravilhoso Boccaccio” é em tudo e por tudo um filme sedutor.

As histórias escolhidas e o tom com que são mostradas enfatizam o amor em seus múltiplos ângulos: do grotesco ao dramático e ao erótico, como antídoto para a morte, às vezes cruel e opressor, às vezes ingênuo e equivocado.




A criação artística, a literatura, mostra os caminhos da imaginação, absolutamente essencial e necessária para enfrentar o mal, a tragédia, no caso, aqui, a peste negra, que devastava as cidades da Toscana na época em que Boccaccio escreveu.

Um grupo de homens e mulheres jovens se refugia numa vila remota, nas colinas que cercam Florença, para escapar da peste e viver em comunidade com absoluta simplicidade, contando histórias uns para os outros.  A imaginação é a seiva da vida desses jovens, em especial, a das mulheres, que tomam a dianteira da ação, a começar por decidir deixar a cidade, talvez numa proposta de vida imoral.  Mas o que é a moral, diante da grandeza do amor e da própria sobrevivência?




O melhor que tenho a propor é ver onde está passando o filme perto de você, comprar seu ingresso, relaxar e, como diria aquele programa infantil da TV Cultura: “Senta, que lá vem história”. 


sábado, 30 de abril de 2016

A GAROTA DE FOGO


Antonio Carlos Egypto




A GAROTA DE FOGO (Magical Girl).  Espanha, 2014.  Direção e roteiro: Carlos Vermut.  Com José Sacristán, Bárbara Lennie, Luís Bermejo, Lucía Pollán.  127 min.



“A Garota de Fogo”, do cineasta espanhol Carlos Vermut, é uma bela surpresa.  Um filme criativo e um tanto maluco, capaz de provocar e intrigar o espectador.  Brinca com o fantástico de forma dramática.  Explora o suspense, na linha dos filmes policiais e tem humor, inclusive non sense.  Tudo superposto, num emaranhado que não segue o ritmo cronológico.  Enfim, um quebra-cabeças e tanto.




O que aparece como fragmento, muitas vezes estranho, acaba fazendo sentido depois.  O que não se espera também não decepciona.  Era por aí mesmo, embora a gente não tivesse imaginado.  Ou então assusta, é uma doidice, mas que dá para entender, dentro do contexto da trama.

Que uma menina de 12 anos, com leucemia e chance de morrer antes de completar os 13 anos, esteja num mundo mágico de fantasia e tenha desejos que, para serem realizados, vão implicar muito dinheiro e ela nem tenha noção disso, é perfeitamente compreensível.  Que um pai queira realizar esse desejo para compensá-la, também. Ainda que isso seja custoso demais e totalmente irracional, já que se situa no terreno da pura fantasia de consumo, que não passou nem no mais elementar teste crítico.  Já roubar, chantagear, tentar manipular outras pessoas para obter isso, é algo inconcebível.

Acontece que, em “A Garota de Fogo”, o inconcebível cabe perfeitamente.  Tudo pode ser concebido e se encaixar na narrativa.  Há várias outras situações parecidas, em que o comportamento dos personagens escapa à lógica ou eventos são envoltos em grande mistério.  O espectador preenche a lacuna, com a sua própria imaginação.  O que pode tornar a história mais excitante ou maluca ainda.




Tudo muito bem feito, cenas bem concebidas, elenco rendendo muito bem, surpresas, suspense, estranhezas a toda hora.  E a gente embarca no universo disfuncional de Carlos Vermut. 

Não surpreende que Pedro Almodóvar tenha dito que Vermut é o maior talento espanhol deste século XXI.  Claro, “Magical Girl” se inspira fortemente no estilo almodovariano.  Não conheço outros trabalhos desse diretor e roteirista.  A julgar pelo trailer de sua obra anterior, “Diamond Flash”, de 2011, o clima parece ser também intenso, dramático e de suspense, mas sem a exuberância do filme atual.  De qualquer modo, percebe-se que Vermut é capaz de transitar por diferentes climas e estilos, se quiser.  Tem amplo domínio da linguagem cinematográfica para tal.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

GRITOS E SUSSURROS

          Antonio Carlos Egypto


GRITOS E SUSSURROS (Viskningar och rop), Suécia, 1973.
Roteiro e Direção: Ingmar Bergman, Fotografia: Sven Nykvist.
Com: Harriet Andersson (Agnes),  Liv Ullmann (Maria), Ingrid
 Thulin  (Karin),  Kari  Sylwan  (Anna),  Erland  Josephson (o
médico), colorido, 106 min.





O sueco Ingmar Bergman (1918-2007) foi, indiscutivelmente, um dos maiores cineastas de todos os tempos.  Sua obra permanece atual não só pelos requintes e inventividade de suas filmagens e da extraordinária fotografia de Sven Nykvist, com quem sempre trabalhou, mas também porque lida com questões tão essenciais que dizem respeito a todos os seres humanos, em todas as épocas históricas e espaços geográficos.  Uma dessas questões essenciais é a morte.  A finitude da vida é a única certeza absoluta a martelar nossa existência e para a qual temos uma gama enorme de possíveis respostas, que vão da negação mais absoluta ao enfrentamento mais direto, sem as muletas das religiões. Bergman se situa nessa última categoria de respostas, daí a sua angústia e o medo que ela provoca.  Segundo suas próprias palavras: “A curiosidade que sinto pela vida tem sido demasiado forte, minha vontade de viver, demasiado robusta, e o meu medo da morte, demasiado infantil de tão intenso”. (BERGMAN, 1988, pg. 94).  Infantil, talvez, mas extremamente corajoso e lúcido, como mostram as imagens e os diálogos de quase todos os seus filmes.
Obra-prima que aborda a morte como tema, e em primeiríssimo plano, é Gritos e Sussurros.  Creio que nunca antes no cinema a dor e o sofrimento dos momentos que antecedem a morte tenham sido mostrados com tanta intensidade e eficiência.  Não apenas pelos gritos lancinantes de dor e pelos sussurros que evocam o sofrimento que a dor intensa traz, mas também pelas expressões que a câmera capta da doente e de suas acompanhantes.  Leitura de rostos, mãos e expressões corporais cheias de sutilezas foram uma especialidade de Bergman, que aqui alcançam especial relevo pelo admirável trabalho interpretativo das quatro atrizes que protagonizam juntas Gritos e Sussurros.




O filme começa mostrando o ambiente onde tudo acontecerá, o exterior da propriedade, um relógio, peças artísticas e objetos, introduzindo-nos num universo onde duas mulheres dormem.  Logo se percebe que uma vela pela outra e que há mais duas mulheres na casa, uma delas é uma criada.  Closes nos trazem a principal personagem da trama: Agnes, uma mulher que está sofrendo as agruras que antecedem a morte.
Chegamos aos sete minutos e meio de filme, nenhuma fala e quase nenhum som. Pura imagem, como convém ao cinema. As primeiras palavras serão escritas por Agnes: “Hoje é manhã de segunda-feira e eu estou com muita dor...”  Isso também era dito pela expressão facial de Harriet Andersson.  O clima segue quieto e aparentemente tranqüilo, no sofisticado espaço vermelho e branco concebido para o filme.  Tudo é omitido, a angústia e as tensões não são compartilhadas.
A partir daí, Gritos e Sussurros vai nos mostrar por meio de cada uma das personagens o que Bergman chamou de “este emaranhado de mentiras”. (BERGMAN, 2001, pg. 89).
Anna, a criada, reza diante da foto por sua filha que Deus levou e isso nos mostra outra face da crueldade da morte: aquela dos pais que têm de enterrar seus filhos.
Agnes, a moribunda, pensa uma vez mais na mãe e nos conta que ela está em seus pensamentos quase todos os dias, embora tenha morrido há mais de vinte anos.  A morte, para os que ficam, pode ser uma lembrança permanente.  Temos que conviver com o sofrimento da perda e isso pode ser muito difícil, se encararmos a inexistência de Deus.
Chega o médico que vai atender Agnes e o filme mostra Maria, a irmã mais jovem, se oferecendo a ele. Ele a toca, mas recusa e sai. As reminiscências desta relação por parte de Maria mostram tanto o médico “lendo” a face dela quanto as relações com o marido Joakin, culminando numa tentativa de suicídio frustrada dele, que deixa Maria paralisada. O caminho do suicídio, como possível alternativa, decisão ou “solução” aparece corriqueiramente nos escritos de Bergman, na sua autobiografia, Lanterna Mágica, e nos textos de Imagens.  Pode-se pensar que os filmes de Bergman retratem uma característica depressiva do povo sueco, que consideraria seriamente o suicídio como saída.  Não me parece que seja assim.  Não se trata de uma característica de uma ou mais realidades socioculturais, mas, sim, uma das dimensões da angústia existencial a que estamos todos sujeitos, uma das dimensões da morte: a imaginada, concebida como desejo e eventualmente tentada ou realizada.




A figura de Karin, a irmã mais velha, é marcada pela postura defensiva, tentando proteger uma frágil personalidade que não resiste ao contato.  As relações dela com Agnes e com Anna em cenas curtas revelam isso e, em momento posterior do filme, ela protagonizará ao lado do marido Frederik e da irmã Maria momentos decisivos do emaranhado de mentiras.  Para ela, a morte é assustadora e ela se coloca o mais longe que pode.
Anna, ao contrário, acolhe, cuida e acaricia Agnes, oferecendo seu seio ao contato da pele. Agnes piora, Anna chama as irmãs.  É impressionante como a imagem mostra em seu rosto a expressão de pura dor.  Na cena, do escuro para o claro, vê-se que o tempo passa e a dor permanece.  Ela chama por Anna, que a acolhe até que tudo se acalme.  Só aí as irmãs se aproximam, dão banho, penteiam e lêem para ela.
A dor volta, gritos e sussurros. A morte é inexorável.  “Alguém pode me ajudar?  Eu não agüento!” são palavras de Agnes.
A morte se concretiza; gestos típicos dessas horas nos contam isso.  Em seguida, as vestes pretas e o pastor com sua fala característica evoca Deus como consolo.  No entanto, essa fala revelará a profunda angústia e as dúvidas que a morte provoca: “Que você saiba que língua falar para que Deus possa ouvir” e “Reze por nós, que fomos deixados para trás com o céu acima de nós, impiedoso e vazio” e “Que Ele dê sentido e significado à vida”.   Que esperança pode haver se a vida não tem sentido ou significado e o céu está vazio?  Por isso a morte dá tanto medo.  E Bergman põe isso nas palavras do pastor luterano...




É preciso lembrar que Bergman foi filho de pastor luterano e recebeu uma educação rígida, que ele sempre condenou veementemente.  No seu filme Fanny e Alexander, o pastor vira padrasto e tem tal requinte de crueldade que se torna um vilão a ser queimado vivo.
Em Imagens, Bergman fala do convívio com alguns destes valores religiosos e a idéia de Deus, um assunto do qual ele nunca se afasta:
Meus pais falavam em devoção, amor e humildade. Posso assegurar que me esforcei, mas, durante todo o tempo em que houve um deus em meu mundo, não pude sequer me aproximar de meus objetivos. A humildade não era suficientemente humilde e o amor era, em todo o caso, muito menor do que o de Cristo ou o dos santos, ou até menor do que o de minha mãe.  Quanto à devoção, essa esteve sempre envenenada por dúvidas terríveis.  Agora que Deus não está mais presente em minha vida, sinto que tudo isso é meu, sinto devoção perante a vida, humildade perante meu destino sem sentido e amor para com as outras crianças também amedrontadas, atormentadas, cruéis. (BERGMAN, 2001, pg. 58).
No entanto, as questões espirituais sempre estarão presentes na sua obra cinematográfica e em seus escritos.  Em um trecho da Lanterna Mágica: “Claro que não acredito em Deus, mas a questão não é tão simples como parece, todos nós trazemos um deus dentro de nós, toda a nossa vida é um mosaico que, às vezes, conseguimos vislumbrar, sobretudo na hora da morte”. (BERGMAN, 1988, pg. 175).
Voltando à seqüência do filme, Bergman nos reporta às relações conjugais de Karin com Frederik, relembradas por ela, já que ocorreram naquela casa tempos atrás.  Elas são formais, distantes, gélidas.  A cena mais forte do filme, para muitos, é aquela em que Karin utiliza os cacos de um copo quebrado para ferir seus genitais e depois vai ao leito e mostra ao marido o que fez, lambuzando-se do sangue que empapa sua vulva. Também há uma morte simbólica aí: a morte do prazer, das relações conjugais, do próprio casamento, sob algumas circunstâncias.
Aponte-se ainda o confronto de Karin com Anna, que é repreendida e não aceita as desculpas que se seguem à repreensão. Tudo parece tão deteriorado que não há esperança de reconstrução. Reconstrução parece ser o que tenta Maria com Karin, após a morte de Agnes,buscando que sejam amigas, já que são irmãs.A proposta é tentarem se conhecer, se aproximar, o que parece impossível.  Karin rejeita o toque, depois acede, mas não agüenta a aproximação.  Chora e rejeita Maria e o toque.
Karin dirá que sempre pensou no suicídio, mas que ele é nojento, degradante e sempre igual.  Ela vai do riso ao choro numa cena, agride Maria e fala do seu próprio ódio.  Grita, pede perdão, ambas choram, se tocam, se beijam.  Aproximam-se, afinal. Mais tarde, ao final do filme, será Maria quem irá colocar a distância (e a rejeição) na relação entre as duas, de forma agressiva.  A despedida marcará essa impossibilidade, matando uma vez mais uma relação desde sempre moribunda.



Antes desse desfecho, as irmãs decidem o que fazer com os bens materiais: terra, casa e tudo o mais, e decidem dispensar Anna.  E, gesto magnânimo, oferecem algo de Agnes, já que ela foi tão dedicada.  Para a única que a acolhia genuinamente, uma migalha, que ela dispensa. A família reunida, com os respectivos maridos, decide o futuro de Anna, cedendo-lhe o restante do mês na casa e agradecendo, com perversidade evidenciada nos rostos, jeitos e tons de voz.  Maria dá algum dinheiro a Anna, vê-se que é pouco.
Bergman não deixa escapar a crueldade que existe na relação entre patrões e empregados, com necessidades e interesses diferentes, vivendo mundos distantes, ainda que lado a lado, num mesmo teto.  Se alguém tinha dúvida da sensibilidade social de Bergman, ela acabou aí.  As questões essenciais e existenciais convivem com as questões sociais.  Essas se inserem naquelas e moldam uma gama de expressões, onde a crueldade deixa sua marca.
A morta (Agnes) retorna, pedindo a ajuda das irmãs, como que representando a necessidade de “elaborar” as questões vitais da existência mesmo após a morte.  As irmãs novamente a rejeitam, com diferentes reações e explicações, mostrando a impossibilidade eterna dessa elaboração.  Revelam-se as distâncias e uma vez mais a dificuldade de enfrentar a morte.
Quem a acolhe é mais uma vez Anna e compõe-se uma cena belíssima, nos moldes de uma pietá.  Anna, a criada, é a única capaz de amar, já que não está presa à existência material pesada daquelas terras, daquela casa, seus objetos, valores, posições sociais e regras de conduta.
O filme termina com duas imagens muito bem construídas que se combinam.  Anna lê o diário de Agnes e se percebe mais uma vez que ali há amor.  Do diário vem uma das poucas lembranças afetivas positivas de Agnes com as irmãs naquela casa. Aparece, então, a imagem idílica das quatro personagens nos belos jardins da propriedade, vestidas de branco com sombrinhas, e compartilhando o balanço da infância. Idealiza-se o amor, o respeito e a proximidade entre seres humanos. Uma busca interminável, mas inalcançável.
Em Imagens, Bergman se refere a este filme como um poema: “Um ser humano deixa esta vida, mas, como num pesadelo, detém-se a meio caminho, pedindo aos que ficam ternura, reconciliação, libertação”. (BERGMAN, 2001, pg. 97).
Esse poema, segundo Bergman, precisaria de cores para existir em plenitude: “Todos os meus filmes podem admitir-se filmados em preto e branco, menos Gritos e Sussurros. No roteiro está mencionado que imagino a cor vermelha como sendo o interior da alma”. (BERGMAN, 2001, pg. 90).  Com efeito, o vermelho parece nos pôr o tempo todo em contato com as emoções, com o coração, frágil, endurecido, hesitante, não importa, ele está lá, expressando alguma forma de afeto, vivido, negado ou reprimido.  O branco faz o contraste perfeito, que sugere limpeza, pureza, leveza, o que a trama não consegue nos dar, a não ser em momentos fugidios.  De qualquer modo, a beleza visual do filme, para a qual o vermelho e o branco dominantes contribuem decisivamente, é incontestável.  Cada fotograma é um quadro perfeitamente composto, com uma combinação de cores impecável, ou, então, expressões faciais e corporais marcantes, também perfeitamente enquadradas. O filme visto no DVD permite o recurso da pausa; o congelamento de qualquer das imagens demonstra claramente essa beleza, essa precisão, essa aula de cinema.  É um filme soberbo, do ponto de vista plástico, em harmonia com a profundidade do tema abordado.
Claude Beylie [1991, pg. 257], em sua crítica, aponta Gritos e Sussurros como uma obra agônica, nos moldes da fórmula de Cocteau: o cinema como a arte de filmar a morte em pleno trabalho, com cenas de horror absoluto, atenuadas por doçura. De fato, as expressões afetivas se alternam num universo sem esperança, com muito sofrimento físico e moral, como ele escreve na sua análise. É o fruir da existência desesperançada diante da proximidade e da inevitabilidade da morte.




Em outra crítica a respeito de Gritos e Sussurros, Rubens Ewald Filho faz esta afirmação: “Se por acaso uma catástrofe destruísse a civilização, bastaria que fosse preservada uma cópia deste filme para que os arqueólogos do futuro pudessem ter uma idéia precisa da natureza humana”. (EWALD FILHO, 2001, pg. 81).  Claro que à primeira vista a afirmação parece muito exagerada, até porque é peremptória, mas ela faz sentido.  Bergman alcançou nesse filme uma eficiência raramente encontrada no cinema, ao tratar de um tema tão fundamental, tão básico e tão complexo que diz respeito a toda a humanidade.  Além disso, se não fosse esse o filme a revelar a essência do humano diante da morte, qual seria?  Não vejo concorrente à altura.  Evidentemente, um único filme nunca será capaz de sintetizar a natureza humana, mas as pistas deixadas por Bergman seriam de grande valia.
Rubens Ewald Filho também chama a atenção para a luz empregada, a do entardecer, já que não existiria nada mais aterrador do que a luz forte do sol para Bergman.  O uso dessa luminosidade do entardecer, me parece, favorece muito a possibilidade da reflexão por parte do espectador.  E a reflexão é buscada continuamente ao longo de toda a película.  Eu diria que a principal função desse filme é produzir uma reflexão profunda sobre a vida.  O ambiente é todo preparado para isso, inclusive a luz.
Tanto Ewald quanto Beylie abordam, ainda, a questão das muitas interpretações possíveis a muitas cenas do filme e a ele, como um todo. Nisso, aliás, reside um dos pontos fortes da obra.  Pode-se adotar um ponto de vista filosófico existencial, por exemplo, aplicar a psicanálise e até a crítica social sem jamais esgotar Gritos e Sussurros.  As múltiplas possibilidades de interpretação continuarão lá, como que a nos mostrar que muitas verdades são possíveis, ou que a verdade, enquanto tal, não existe.

                         BIBLIOGRAFIA

BERGMAN, Ingmar – Lanterna Mágica.  Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
BERGMAN, Ingmar – Imagens.  São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BEYLIE, Claude – As obras-primas do cinema.  São Paulo: Martins Fontes, 1991 (p. 257)
EWALD FILHO, Rubens – Os 100 melhores filmes do século 20.  São Paulo: Vimarc Editora, 2001 (p. 86 a 88)
------------------------------- – Dicionário de Cineastas.  São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2002 (verbete Ingmar Bergman, p. 68 e 69).
TULARD, Jean.  Dicionário de Cinema – Os Diretores.  Porto Alegre: L&PM, 1996 (verbete Ingmar Berman, p. 65 e 66).







terça-feira, 26 de abril de 2016

Em Nome da Lei

Tatiana Babadobulos




Em Nome da Lei. Brasil, 2016.  Direção e roteiro: Sérgio Rezende. Com Mateus Solano, Paolla Oliveira e Chico Diaz. 115 min.

Realizador de filmes como “Mauá” e “Zuzu Angel“, Sergio Rezende dirige e escreve o roteiro de “Em Nome da Lei”. O longa-metragem, inspirado em histórias reais, fala sobre o contrabando e o tráfico de drogas no Brasil, mais precisamente na fronteira com o Paraguai.
Protagonista de novelas da Globo, o ator Mateus Solano não trabalha muito em cinema, embora tenha participado do ótimo “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas. Na TV, aliás, seu “Zé Bonitinho”, na “Nova Escolinha do Professor Raimundo”, exibida pelo canal pago Viva, é impagável.
Mas, voltando ao cinema…
Na tela grande, embora Mateus Solano não tenha tanta experiência, pode-se dizer que é a melhor parte desta produção, ao lado de Chico Diaz. Há momentos, porém, que o diretor parece não estar presente, tamanho é o descompasso dos atores em cena.
No filme, Solano é Vitor, um juiz que saiu de São Paulo e foi ao interior de Mato Grosso do Sul fazer justiça. Ele mudou de cidade em troca da posição de juiz titular e também para buscar um ideal. Como profissional, o personagem acredita que vai “mudar o mundo”, ou, pelo menos, as injustiças que acontecem na pequena cidade (fictícia) de Fronteiras.
No fórum, onde começa a trabalhar, conhece a procuradora Alice, vivida pela bela Paolla Oliveira, e o policial federal Elton (Eduardo Galvão). Os três têm a difícil missão de acabar com os mandos do coronel da cidade, Gomez (Chico Diaz), que é especializado em contrabando e em tráfico de drogas.

Embora o enredo de “Em Nome da Lei” possa ter alguma semelhança com o momento atual do Brasil e com o juiz Sergio Moro, que lidera as investigações da Operação Lava Jato, em Curitiba, o autor do filme se inspirou no juiz federal Odilon de Oliveira, que ficou famoso por atuar no combate ao crime organizado naquela região.
A cidade do juiz é Ponta Porã; a que foi filmada, é Dourados.
A ideia da trama é boa –principalmente por sair do lugar-comum da favela, da pobreza etc.–, mas falta um pouco de “caldo” nesta mistura.
Além dos atores fracos, com interpretações que não convencem o espectador, a produção do longa deixa a desejar. Detalhes como a placa do carro e a garrafa de vinho que chega aberta na mesa do cliente, mostram a falta de cuidado e, sobretudo, falta de verossimilhança da produção.
Outro problema é o excesso de didatismo nas cenas, principalmente quando se referem ao contrabando. Cinema também serve para educar, mas sutileza é essencial quando se trata de arte.
O longa tem estreia apontada para quinta-feira, 21 de abril.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O TESOURO


Antonio Carlos Egypto




O TESOURO (Comoara).  Romênia, 2015.  Direção e roteiro: Corneliu Porumboiu.  Com Cuzin Toma, Adrian Purcarescu, Corneliu Cozmei, Cristina Toma.  89 min.



Em época de crise econômica mundial, flexibilização de direitos trabalhistas, desemprego, recursos escassos, a falta de dinheiro atinge todos, de uma forma ou de outra.

Quando as dívidas se acumulam, qual pode ser a saída?  Jogar na loteria, roubar?  Mais charmoso, por certo, é imaginar que exista algum tesouro enterrado no jardim de algum lugar, que a gente possa encontrar e resolver o problema.  A história da busca ao tesouro povoa a imaginação das crianças, desde sempre.  E se de repente ela puder ser verdadeira?




Conta a lenda que, numa vila romena, uma fortuna teria sido enterrada no quintal, para preservá-la do confisco pelo regime comunista.  Um detector de metal, que pode ser alugado por um dia, poderia servir para encontrá-la. Verdade ou não, a questão é: o que seria hoje o tão almejado tesouro, se ele existir?  Façam suas apostas, vendo o ótimo filme “O Tesouro’, de Corneliu Porumboiu.

O cineasta é um talento já reconhecido depois de dois trabalhos muito criativos e originais na forma como se desenvolvem, dentro de um clima onde, aparentemente, nada acontece.  São os filmes “A Leste de Bucareste”, de 2006, e “Polícia, Adjetivo”, de 2010.




Porumboiu nos convida, em todos os seus filmes, em que ele também é responsável pelo roteiro original, a observar calmamente a vida de personagens do povo, na lida diária, mas com alguma ideia estranha na cabeça.  O que pode gerar problemas, conflitos e, via de regra, complicações com a polícia.

Revela o que foi o regime opressor e desconectado da realidade de Ceausescu, por meio desses personagens, tentando sobreviver como podem, uma vez que as regras do jogo são sempre contra eles.



O trabalho de Corneliu Porumboiu merece ser conhecido.  Quem não viu seus filmes anteriores, tente encontrá-los por aí.  E aproveite para ver no cinema “O Tesouro”.  É preciso ter paciência com o ritmo do filme, mas não deixar de vê-lo até o fim.  Como em seus outros trabalhos, é chegando lá que tudo se decide e se revela, sempre de modo inteligente e original.