segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A VIDA EM FAMÍLIA

Antonio Carlos Egypto






A VIDA EM FAMÍLIA (La Vita in Comune).  Itália, 2017.  Direção: Edoardo Winspeare.  Com Gustavo Caputo, Antonio Carluccio, Claudio Giangreco, Celeste Casciaro, Alessandra de Luca.  110 min.


Uma pequena comunidade no sul da Itália, em que todos se conhecem e têm laços, experiências em comum, é algo que pode ser equiparado a uma grande família.  Ainda assim, chamar a comédia “La Vita in Comune” de “A Vida em Família” não corresponde ao que se vê na tela.

Disperata, a comunidade, reúne muitos tipos desencontrados consigo mesmos, que não se sentem parte integrante de um contexto social harmonioso.  Ao contrário, todos parecem estar fora do lugar, à procura de algo que lhes falta, ou com o que se identifiquem. 

A estreiteza do pequeno mundo onde vivem não lhes permite grandes voos, exceto os imaginários.  Um prefeito poeta, incompetente no cargo, busca se realizar por meio de discussões literárias com um pequeno grupo de presos.  Mirabolante tentativa de assalto, que acaba em violência contra um cão, produz complicações inúteis e uma culpa insuperável.  E assim, a comédia rola solta.

Um roteiro muito competente, atores talentosos e com ótimo timing  para o humor, uma direção que trabalha o clima provinciano da localidade com graça e sutileza, fazem de “A Vida em Família” um programa cinematográfico muito bem feito, leve e divertido.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

INDIE 18


Antonio Carlos Egypto




Já está rolando em São Paulo o 18º. Festival Indie de Cinema, que reúne a produção mundial autoral, experimental, e busca inovações que se distinguem da produção comercial, dos grandes estúdios.  Há, como sempre, filmes provocadores, estranhos, inteligentes, inovadores no uso das câmeras.  Nesse 18º.  ano a mostra está mais enxuta e mais curta.  Como todo mundo sabe, a crise é brava.  Mas é importante que a experiência não seja interrompida.  E o Cinesesc é o local onde esse Festival está acontecendo.  Um dos melhores cinemas da cidade e que tem uma programação invejável, ao longo de todo o ano.  O SESC, a Zeta Filmes e a Japan Foundation, são os promotores da presente edição do Indie, que vai até 19 de setembro.

Um belo filme, exibido na abertura do Festival, é o japonês  ASAKO I &II .  Uma história de amor intensa e inusitada.  A Asako do título se apaixona pelo jovem Baku, que é bonito e charmoso, mas instável e pouco confiável.  Tanto que some, deixando interrompida a relação.  Asako segue sua vida e acaba encontrando um outro jovem, Ryohei, com o mesmo rosto de Baku, e se apaixona por ele.  Esse é uma figura doce e dedicada.  Mas será por ele mesmo ou pela imagem do antigo amor?  Uma história de dois amores, filmada num clima que revela a necessidade da honestidade nas relações de amor e de amizade, com um humor delicado e sutil e uma protagonista encantadora.  Direção de Ryusuke Hamaguchi, que em 2015 fez “Happy Hour”, um filme com mais de 5 horas de duração.  Este tem apenas 119 minutos.  Que bom!




Por falar em longa duração dos filmes, esse Indie está batendo recordes: o filme chinês “Um Elefante Sentado Quieto”, de Hu Bo, tem 230 minutos de duração.  O argentino “La Flor”, de Mariano Llinás, tem nada menos do que 808 minutos, ou seja, quase 14 horas de duração, a ser exibido em três partes, em dias diferentes.  Não vou me dar ao trabalho, mas conheço gente que até já comprou os ingressos.

Uma vez mais, tem filme novo do importante diretor filipino Lav Diaz, que costuma fazer filmes com 7 ou 9 horas de duração.  O atual pode até ser chamado de curta – só tem 4 horas de duração.  Assisti a quase metade dele e desisti.  Não que o filme não fosse bem feito, não fosse atual e, mesmo, original: uma ópera rock sobre a opressão do país na ditadura de Ferdinando Marcos.  Mas as quase duas horas que eu vi poderiam ser reduzidas facilmente à metade do tempo, sem perda de conteúdo nem de clima.  Então, para que esticar a corda deste jeito?  Só para tomar o tempo do espectador?  Para evitar uma edição apropriada, buscando ser diferente?  Para tornar a comercialização mais difícil?

Essa tendência à longuíssima duração não me atrai, não me parece, de modo algum, necessária ou apropriada.  Não se trata de submeter-se aos tempos comerciais, mas de buscar adequar a narrativa à realidade da vida das pessoas.  Quem é que pode passar tantas horas no cinema, para ver dois ou três filmes?  E por que alongar tanto as sequências, se não há mais nada a mostrar ou a acrescentar?  Em alguns casos, uma prolongada contemplação se justifica, mas isso virar tendência, moda, não faz sentido.  Ao menos para mim.

O Indie 2018 tem muitas atrações com tempo menor, que merecem atenção.  Vamos a elas.  E quem gostar de longuíssimos filmes que desfrute.  Confira aqui:  www.indiefestival.com.br

  


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

DROPES CINEMATORÁFICOS


Antonio Carlos Egypto



      O documentário brasileiro de 2018, de Sílvio Da-Rin, MISSÃO 115, resgata uma ação terrorista promovida pelo próprio Estado, na ditadura militar: o atentado do Rio – Centro, em 1º. de maio de 1981.  Um show musical teria se tornado uma tragédia que, ainda por cima, seria atribuída a grupos de esquerda.  Só que a bomba explodiu no colo dos militares que tentavam impedir a abertura democrática, com ações como essa.  Missão 115 é o nome atribuído à suposta “operação de vigilância” pelo DOI-CODI, o órgão de repressão do Exército, na época.  O documentário incorpora informações recentes colhidas pela Comissão Nacional da Verdade.  Indispensável, especialmente para que os mais jovens possam entender e avaliar melhor aquele período terrível da história brasileira recente.  87 min.



Yonlu


·         Yonlu (Vinícius), adolescente gaúcho de nível econômico familiar alto e de formação cultural sofisticada, viveu parte da infância em Paris.  Em Porto Alegre, desenvolveu um talento musical, tocando instrumentos, compondo canções em inglês, gravando, registrando e salvando tudo em seus equipamentos.  Deixou para a prosperidade uma obra musical relevante, além de desenhos e registros escritos de sua vida, que se encerrou, muito precocemente, aos 16 anos de idade, por suicídio.  Jovem solitário, vivia num mundo virtual, em que encontrou um grupo de estímulo ao suicídio, de que se valeu em sua decisão planejada, estudando meios e métodos para isso, até chegar ao final trágico, em 2006.  YONLU, o filme brasileiro de Hique Montanari, de 2017, conta essa história de forma poética, a partir do próprio e amplo material deixado por Yonlu, que possibilitou o uso tanto de música quanto de animação, utilizando também recursos visuais opacos e depressores, para mostrar o aspecto sombrio dessa vida e de seus relacionamentos virtuais.  É um belo trabalho, que mostra sem julgar.  O papel do psicoterapeuta serve para tentar entender o que se passava com o adolescente e as circunstâncias que poderiam explicar o suicídio.  O desempenho do jovem gaúcho Thalles Cabral, também músico, no papel de Yonlu, é um achado.  90 min.


·         Na França profunda, que se identifica com o radicalismo da extrema direita, a homossexualidade não tem cabida, nem nenhuma compreensão.  Isso produz um ambiente não só preconceituoso, mas hostil, agressivo, para um menino que tenha traços ou atitudes classificadas como femininas, por exemplo.  Um mundo fechado e grosseiro, que produz sofrimento e bloqueia a expressão humana.  É preciso que alguém, um educador com alguma sensibilidade, ajude o “diferente” a se reinventar.  A partir da própria identidade.  Só por aí pode haver saída.  MARVIN, da diretora Anne Fontaine, de 2017, nos coloca em cheio na vida do menino hostilizado e do jovem que se reinventa, transformando em arte seu sofrimento, alternando e integrando esses movimentos – e sentimentos.  Essa é uma forma muito apropriada de combater a homofobia, aproximar para produzir a empatia do espectador com o personagem.  MARVIN é muito eficiente nisso, um filme sensível e bem construído.  Com Finnegan Oldfield, Grégory  Gadebois, Vincente Macaigne, Catherine Salée.  Participação especial de Isabelle Huppert.  115 min.



Você nunca esteve realmente aqui


·         VOCÊ NUNCA ESTEVE REALMENTE AQUI (You Were Never Really Here), de 2018, é um filme da diretora escocesa Lynne Ramsay, do ótimo “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, de 2011.  O que já é uma recomendação impecável.  Ela sabe filmar muito bem, seus movimentos de câmera, enquadramentos, ângulos, detalhes, imagens cortadas e truncadas, criam um clima de suspense e mistério absolutos.  O filme se faz só de indícios, nunca é possível saber o que de fato está acontecendo, nem os personagens sabem.  Isso torna a experiência estranha e fragmentada, para o espectador.  Vai incomodar, mas é bom cinema.  Joaquin Phoenix brilha como protagonista do filme.  89 min.


·         O BANQUETE, novo filme de Daniela Thomas, é, segundo ela própria, uma tragicomédia de costumes.  Em torno da mesa, uma comemoração de casamento reúne poucas pessoas, mas lá estão amigos, inimigos, ex-parceiros, e um relacionamento corrosivo se impõe.  Num ambiente sofisticado de gente do mundo artístico e da área de comunicações, eivado de erotismo, assédio e sedução, os jogos de poder se estabelecem.  Até aí, muito bem.  Ocorre que algumas das figuras mostradas se inspiram, tanto fisicamente quanto em comportamentos e situações, em pessoas públicas muito conhecidas.  E aí fica a questão: houve a intenção de identificá-las?  Por quê?  Essa fulanização e a menção explícita ao então presidente Collor enfraquecem um pouco a ideia do filme.  Particularizam um contexto, quando seria melhor generalizá-lo.  Produção brasileira de 2018.  Com Drica Moraes, Mariana Lima, Bruna Linzmeyer, Caco Ciocler, Clay Suede, Rodrigo Bolzan.  104 min.



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

FERRUGEM


Antonio Carlos Egypto




FERRUGEM.  Brasil, 2018.  Direção: Aly Muritiba.  Com Tiffany Dopke, Giovanni di Lorenzi, Nathalia Garcia, Enrique Diaz, Dudah Azevedo.  100 min.


O mundo virtual ficou tão forte na vida de todos, que a questão da intimidade está claramente posta em jogo.  As pessoas utilizam as redes sociais para compartilhar de tudo, desde bobagens sem nenhuma importância a sentimentos e vivências pessoais relevantes.  É verdade que o que é mais compartilhado é aquilo que está idealizado: os prazeres, as coisas boas, os sucessos, as viagens sempre maravilhosas, etc..  Mas, de qualquer modo, as pessoas se expõem, e muito, todo o tempo, mostrando o que querem e até o que não querem.  Muitas vezes sem ter condição de avaliar o que isso pode lhes trazer como consequência.

Se acontece com o público em geral, ou seja, de todas as idades, de modo mais grave e intenso atingirá os jovens, os adolescentes, em especial.  Por quê?  Primeiro, porque é a fase por excelência do agrupamento, do pertencimento à turma, da necessidade de ser aceito, querido, valorizado.  Segundo, porque nessas circunstâncias é difícil avaliar os riscos de uma superexposição.  Pode faltar malícia para se proteger de ciladas.  Pode faltar compreensão da dimensão humana e da importância da preservação da intimidade.




O filme brasileiro “Ferrugem”, de Aly Muritiba, se debruça sobre essa questão, ao mostrar o que acontece com uma jovem que tem um vídeo íntimo vazado, ao perder seu celular.  O que era para ser revisto apenas por ela mesma alcança toda a escola e todo o grupo de colegas e ganha o espaço cibernético de forma incontrolada.  Que isso resulte em drama e tragédia é muito previsível.  O relato dessa situação vivida por uma adolescente é o que ocupa a primeira parte do filme.

A parte dois de “Ferrugem” se presta a algo mais contemplativo e reflexivo.  E agora?  Como ficam as pessoas envolvidas na história, como lidam com as responsabilidades, o despreparo, a omissão, a culpa, enfim.  E mostra as consequências muitas vezes ignoradas ou nem mesmo imaginadas por quem viveu aquilo tudo.  Não é brincadeira, é muito grave, nos obriga a pensar, tomar posição.

Importante que esse filme seja assistido pelos adolescentes que, com frequência, transformam em brincadeira, zoação, como se nada fossem os sentimentos dos colegas.  Se o ser humano é capaz de ser cruel, a adolescência é um momento de vida em que isso fica muito evidente.  Por isso mesmo pode ser tão difícil passar por esse período sem uma razoável dose de sofrimento.  Que pode ser ampliada, multiplicada, pela Internet que ocupa a vida dos jovens de modo preocupante, avassalador.  Trazendo muitas vantagens também, por suposto.  Mas é preciso estar bem preparado para usufruir dessas vantagens, sem ser enredado por seus riscos.  E quem está preparado para isso na adolescência?  Daí o papel que podem ter os adultos e a escola como balizadores e orientadores.  O domínio da tecnologia que assusta os mais velhos é o de menos.  O que falta é a experiência de vida.

“Ferrugem” nos faz mergulhar no universo do adolescente e do mundo on line  e o faz com muita competência.  Seu estilo narrativo em duas partes possibilita expor essa dupla dimensão do mundo: a de quando se age e a de quando se têm de enfrentar, interna e externamente, as consequências que resultam dos fatos.  Um elenco jovem muito empenhado nos coloca no centro das ações e, depois, das reflexões que se seguem.




Se os jovens terão muito o que pensar, assistindo ao filme, os adultos terão muito a ganhar, entendendo melhor esse contexto tecnológico assustador em que todos estamos metidos.  Para o bem e para o mal.  Compreendendo, também, que a tecnologia não é boa nem má, o uso que fazemos dela é que pode ter tal conotação.  E que o verdadeiro problema não está nela, mas na dimensão humana que a acompanha.

“Ferrugem” foi o principal vencedor do Festival de Gramado recém-findo, recebeu três prêmios: melhor filme, melhor roteiro e desenho de som.  Curiosamente, na sessão do cine Itaú Augusta, anexo, em que vi o filme, tivemos problemas com diversas falas dos atores, em que não se conseguia compreender o que era dito.  “Ferrugem” também é um dos pré-selecionados para a vaga brasileira no Oscar 2019.




domingo, 26 de agosto de 2018

ONDE ESTÁ VOCÊ, JOÃO GILBERTO?


Antonio Carlos Egypto




ONDE ESTÁ VOCÊ, JOÃO GILBERTO?  (Wo Bist Du, João Gilberto).  Alemanha/Suíça, 2017.  Direção: Georges Gachot.  Documentário.  107 min.


Considero João Gilberto um gênio musical absoluto.  Como todo o Brasil e o mundo, eu acho.  A bossa nova, que nasceu da batida daquele violão fantástico, associado a um jeito de entoar único e desencontrado, é uma coisa sensacional, que eu nunca deixei de ouvir, ao longo desses últimos 60 anos.

Não surpreende, portanto, que o documentarista franco-suíço Georges Gachot viesse atrás dele no Brasil, inspirado no livro “HO-BA-LA-LÁ – À Procura de João Gilberto”, do escritor alemão Marc Fischer.  Os sonhos do escritor e os do cineasta se mesclam nessa incansável procura do recluso e estranho personagem em que João se transformou, ao longo do tempo.

O filme é sobre esse caminho, essa procura, e os fiapos de história que a preenchem.  Aparecem figuras como Miúcha, a ex-mulher, e João Donato, parceiro e amigo.  Mas, afinal, onde está você, João Gilberto, que ninguém sabe, nem viu, mas conviveu às vezes intensamente, até.  Pergunte ao mestre do restaurante que entrega comida para ele, há tantos e tantos anos.




Um filme que foca na procura pode ser tão interessante quanto o que foca no resultado obtido.  Por que não?  Tudo depende da expectativa de cada um.

O diretor e roteirista Georges Gachot é um velho admirador da música brasileira.  Fez em 2005 um admirável documentário sobre o trabalho de Maria Bethânia: “Música É Perfume”.  Em 2010, outro belo documentário, amoroso e de grande profissionalismo, foi “Rio Sonata”, que se debruçava sobre o trabalho da cantora Nana Caymmi.  Em 2014, foi a vez de “O Samba”, pôr em evidência Martinho da Vila e a Escola de Samba Unidos de Vila Isabel.  Temos muito a agradecer a esse competente documentarista, que registrou em cinema de alta categoria a obra de alguns dos nossos grandes nomes da MPB.  Escolhidos a dedo e com muito bom gosto.

E quanto à figura mítica do nosso talento maior, João Gilberto, terá ele conseguido resultado semelhante?  Deixo a pergunta no ar.



sábado, 25 de agosto de 2018

ESCOBAR : A TRAIÇÃO


Antonio Carlos Egypto



ESCOBAR: A TRAIÇÃO ( Loving Pablo ).  Espanha, 2018.  Direção: Fernando León de Aranoa.  Com Javier Bardem, Penélope Cruz, Peter Sarsgaard.  83 min.


Um filme espanhol que tem como protagonistas o ator Javier Bardem e a atriz Penélope Cruz não pode passar em branco.  Só pelo desempenho deles, costumeiramente brilhante, vale a atenção.  O diretor Fernando León de Aranoa já tem uma filmografia relevante.  Eu destacaria “Segredos em Família”, de 1996, e “Um Dia Perfeito”, de 2015, como bons trabalhos dele.

Nesta produção bem recente, falada em inglês, o tema já parece um tanto gasto.  O personagem Pablo Escobar (Javier Bardem), o famoso chefão do cartel de Medellín, Colômbia, já foi bastante abordado pelo jornalismo, pela literatura, pelo cinema, pela televisão.  Um bandido que fascina pelo seu poder, pela ousadia, pela violência e por suas excentricidades.

Em “Escobar: A Traição”, a ótica é a de sua amante Virgínia Vallejo (Penélope Cruz), uma popular apresentadora de TV que o amou e se interessou pela forma como Escobar usava o dinheiro que tinha.  Ela não se preocupava com a origem do dinheiro, mas com sua destinação.  E com isso tinha acesso a bens luxuosos, mas também admirava as benesses que o grande traficante oferecia à população local.




 O jeito arrojado de Pablo Escobar enfrentar os poderosos, entrar na própria política colombiana, pela via eleitoral, para encarar a caçada estadunidense, promovida por Reagan, tinha um charme todo especial.  Mas quando o perigo ronda forte e a vida está mesmo em risco iminente, a traição pode ser um caminho de sobrevivência.

Virgínia Vallejo escreveu Amando Pablo, Odiando Escobar  sobre o que viveu ao lado dele, sua perspectiva, suas lembranças, o que entendeu e avaliou daquela aventura extraordinária.  É a sua história com ele que o filme nos mostra.

É uma trama cheia de lances surpreendentes, perigosos, inusitados.  Dá margem a um filme que mescla ação, suspense, violência, política e um drama amoroso.  Não acrescenta muita coisa ao que já se conhece daquele que foi um dos maiores traficantes de cocaína da história.  Dá para ver o ângulo da amante traidora e curtir a atuação, sempre segura, de Penélope Cruz e Javier Bardem.




terça-feira, 14 de agosto de 2018

A OUTRA MULHER


Antonio Carlos Egypto


A OUTRA MULHER (Amoureux de Ma Femme).  França, 2017.  Direção: Daniel Auteil.  Com Daniel Auteil, Sandrine Kiberlain, Adriana Ugarte, Gérard Depardieu.  84 min.


O ator e diretor Daniel Auteil explora, em “A Outra Mulher”, o filão daquilo que acontece quando uma atração bate forte e de forma inesperada.  Daniel (Daniel Auteil) vive bem com a esposa Isabelle (Sandrine Kiberlain) e tudo segue tranquilo até que o grande amigo Patrick (Gérard Depardieu), que se separou da esposa, aparece com a nova namorada.  A esposa de Patrick é amiga de Isabelle, de modo que a separação não foi bem vista.  Patrick, porém, insiste em ir jantar na casa de Daniel, para apresentar ao casal seu novo amor, Emma (Adriana Ugarte).  Parece justo.  Afinal, ele tinha o direito de reconstruir sua vida amorosa.




Ocorre que Emma é uma daquelas mulheres jovens, lindíssimas, de corpo escultural, e Daniel simplesmente não resiste.  Impulsionado pelo desejo, passa a imaginar coisas, sonhar acordado, e se entrega da forma mais óbvia.  O filme explora seu comportamento bizarro, seus atos falhos, sua sem-graceza e os estragos que tudo isso causa.  A maior atingida será a própria Emma, que terá seu vestido emporcalhado pelas trapalhadas do novo amigo desejante.

A comédia vai bem, é divertida, ao expor a vulnerabilidade de quem deseja, sem conseguir se controlar.  Mostra como a atração sexual pode atropelar princípios, planos e comportamentos, quando é avassaladora.  E que isso pode acabar pondo a vida de cabeça para baixo.  Ou não.  Haverá tempo de reconstruir as coisas, se desfazendo dos equívocos?  Ou terá sido só coisa da cabeça, da imaginação, do sonho? 

Um time de atores e atrizes charmoso e competente contribui para fazer o filme fluir com leveza e graça.  Despretensioso, mas bom entretenimento.



A FESTA


Antonio Carlos Egypto


A FESTA (The Party).  Inglaterra, 2017.  Direção e roteiro: Sally Potter.  Com Timothy Spall, Kristin Scott Thomas, Patricia Clarkson, Bruno Ganz, Emily Mortimer, Cillian Murphy.  71 min.


“A Festa” é uma comédia irônica, de sorrisos, não de gargalhadas.  Ao revelar-nos um universo perverso, que escamoteia todas as questões, o que fica é só aparência e vazio.  O que é objeto de reflexão sobre o mundo dos bem-sucedidos e poderosos.

Um encontro íntimo reúne sete amigos, com a intenção de celebrar a ida de Janet (Kristin Scott Thomas) para o prestigioso ministério da saúde.  É bom lembrar que o atual atendimento britânico de saúde é referência mundial .  Pois bem, o filme tratará de pôr em cheque isso também.

O mais importante é que uma doença terminal, revelações sobre uma gravidez inesperada, infidelidades várias, lesbianismo e dependência de drogas, serão elementos detonadores dessa celebração.




O desnudamento da burguesia que o filme apresenta faz lembrar o mestre espanhol Luís Buñuel e seu estilo corrosivo.  No entanto, aqui não há propriamente surrealismo ou non sense.  Tudo se dá numa dimensão que cabe no terreno racional.  Com dificuldade, é verdade, mas cabe.  O mais próximo do surreal é o ótimo personagem de Bruno Ganz, Gottfried, com sua energia positiva descolada da realidade, sua atitude de autoajuda e suas crenças alternativas.

Já a militante do partido que vai virar ministra nos é bastante familiar, no seu cinismo e descrença do seu papel republicano no governo.  A intelectualidade real, ou simulada, dos demais não resiste ao crivo da razão e do equilíbrio. Jogam pesadamente na deslealdade, no que está encoberto ou omisso.  Detonam a si mesmos e aos outros.

O título original “The Party” refere-se tanto à festa quanto ao partido.  Um bom roteiro, diálogos atraentes, um elenco de peso e uma interessante opção pelo preto e branco, que reforça a ligação com o Buñuel dos primeiros tempos, faz do filme da cineasta Sally Potter uma ótima atração do presente ano cinematográfico.



domingo, 12 de agosto de 2018

CINEMA ITALIANO ATUAL


Antonio Carlos Egypto




O cinema italiano tem de enfrentar, queira ou não, o fantasma de um passado tão glorioso que jamais conseguirá igualar.  Mas, a julgar por alguns filmes exibidos na mostra 8½. Festa do Cinema Italiano, que entrarão em cartaz nos cinemas brevemente, o nível da produção atual é bem bom.  São realizações de muito bom nível, com alta qualidade de produção, cineastas competentes, elencos em que abundam talentos e histórias que exploram o mistério e o ambíguo em diferentes gêneros cinematográficos.

UMA QUESTÃO PESSOAL (Una questione privata), dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, de 2017, é um filme simples e bonito.  Passa-se no Piemonte, em 1943, envolvendo dois participantes da Resistência Italiana, na Segunda Guerra Mundial.  Eles se alistam e lutam contra os fascistas, mas têm em comum, além disso, o desejo por uma mulher, Fúlvia.  Estamos no clima de guerra, porém, o filme não destaca o lado político dela.  Milton, em meio à guerra, procura por seu amigo e rival, Giorgio, que caiu nas mãos dos fascistas, mas suas razões são de ordem pessoal, como diz o título do filme. É um trabalho para se curtir com calma, apreciando a beleza do lugar, a filmagem elegante, o desempenho do elenco. Tem a chancela desses fabulosos irmãos cineastas, que sempre trabalharam juntos e assim continuaram, Paolo, com 86 anos, e Vittorio, falecido em abril de 2018, aos 88 anos. Com Luca Marinelli, Valentina Bellè, Lorenzo Richelmy. 84 minutos.

FORTUNATA (Fortunata), de Sergio Castellitto, de 2017, é um filme intenso, que foca na vida atormentada da personagem central, Fortunata, cabeleireira a domicílio, em busca de conquistar sua independência, abrindo seu próprio salão.  Nisso está muito antenada com os tempos atuais do capitalismo, que enxerga no empreendedorismo a solução para os seus males: as perdas de direitos trabalhistas, de emprego e de renda.  A luta da personagem passa tanto pelas dificuldades concretas do dia-a-dia, que incluem uma filha de 8 anos e um casamento fracassado, numa vida difícil, bastante representativa do nosso tempo, quanto por questões existenciais. Um processo psicoterápico que entra na trama acentua ainda mais o drama. Jasmine Trinca, que vive Fortunata, venceu o prêmio de melhor atriz em Cannes.  Com Jasmine Trinca, Stefano Accorsi, Alessandro Borghi, Edoardo Pesce. 103 min.




A GAROTA NA NÉVOA (La Ragazza Nella Nebbia), de Donato Carrisi, de 2016, é um suspense policial muito bem realizado, em locações belíssimas e com um grande e competente elenco.  O diretor é o próprio escritor do romance policial que deu origem ao filme, o que garante um roteiro intrigante e que prende o espectador do início ao fim. Explorando o mistério do desaparecimento de uma adolescente, recatada e religiosa, em um povoado do norte da Itália, o filme caminha no sentido de produzir um culpado, a partir dos métodos incriminatórios nada convencionais do investigador policial.  Ele está mais interessado em atender à mídia e em se projetar do que investigar, de fato.  Em seu passado, já incriminou um inocente, sem ter qualquer remorso na consciência.  A névoa pontua e acentua o clima de mistério, num filme pictoricamente muito atraente.  Com Toni Servillo, Jean Reno, Alessio Boni, Galatea Ranzi.  127 min.

POBRES, MAS RICOS (Poveri ma Ricchi), de Fausto Brizzi, de 2016, é uma comédia rasgada, de fato muito engraçada.  Explora um tema banal, o de uma família humilde, de um pequeno povoado, da região de Lazio, que ganha na loteria e se torna bilionária da noite para o dia.  Para escapar do possível assédio local vai viver em Milão uma vida de luxo, tentando ficar incógnita em relação à sua comunidade.  E, como seria de se esperar, não têm ideia de como se comportar enquanto ricos.  Ou melhor, a ideia que têm está ultrapassada.  Os ricos atuais são diferentes dos do passado, mudaram seus comportamentos.  O que torna tudo ainda mais difícil.  Comédia que explora os costumes e comportamentos típicos do povo, com diálogos espirituosos e escorada num ótimo elenco de atores cômicos.  Sem apelações nem grossura. Brinca com os clichês de um jeito inteligente, evitando o desrespeito e o preconceito.  Humor de qualidade que faz jus à grande tradição da comédia italiana.  Sucesso de público, que já gerou uma continuação na Itália: Poveri Ma Ricchissimi.  Com Christian De Sica, Enrico Brignano, Lucia Ocone.  90 min.





terça-feira, 7 de agosto de 2018

TESNOTA


Antonio Carlos Egypto





TESNOTA (Tesnota).  Rússia, 2017.  Direção: Kantemir Balagov.  Com Darya Zhovner, Olga Dragunova, Artem Tsypin, Nazir Zhukov.  118 min.


“Tesnota”, que está entrando em cartaz nos cinemas nesta semana, é o primeiro longa-metragem do diretor russo Kantemir Balagov, que também responde pela montagem e pelo roteiro do filme, este em parceria com Anton Yarush.  Indícios claros de um trabalho autoral, que se confirma desde as primeiras imagens, nada convencionais.  Apresenta uma fotografia que enfatiza tons escuros e cores fortes ao mesmo tempo, fazendo sobressair as tensões do ambiente.

O foco do filme é uma comunidade judaica, fechada e marginalizada, na localidade de Nalchik, norte do Cáucaso, cidade natal do diretor.  O ano: 1998.  A personagem central Ilana, de 24 anos, trabalha na oficina do pai como mecânica e ama um personagem cabardino, num  relacionamento algo clandestino, não aceito pela família.  Trata-se do que na própria trama do filme é referido como sendo as tribos, que são discriminadas pelos russos.




O evento central da narrativa é o sequestro de um casal de noivos, logo após a cerimônia de compromisso deles.  David, o noivo, é o irmão mais novo de Ilana.  E a questão que se colocará é a de como pagar o resgate pedido sem mexer com a polícia, para evitar maiores complicações.

O dinheiro servirá para mostrar, de um lado, um espírito de coletividade e solidariedade, mas, de outro, o ressentimento de alguns, a chantagem e também a tentativa de se aproveitar da situação para conseguir algum objetivo, difícil de ser alcançado por outro meio.

A família de Ilana e David não tem posses suficientes e a própria oficina mecânica, que é sua fonte de sustento, estará em questão.  Assim como o casamento de Ilana. Passaram  a vida se mudando de um lado para o outro, para tentar sobreviver e escapar dos preconceitos.  O sequestro parece levá-los de volta para a estrada.  Inevitável será enfrentar  questões éticas, que poderão complicar ou arruinar a vida de cada um deles: pai, mãe, irmãos e parceiros amorosos.  As decisões que todos têm de tomar são vitais, decisivas e urgentes.




Todo esse clima de angústia e tensão é muito bem trabalhado ao longo do filme, em ritmo lento e seguro.  Pouco é explicitado verbalmente, o que importa é o que está por trás do não dito.  Está muito presente nos semblantes, gestos, posturas, silêncios.  Elementos fundamentais em “Tesnota”, que dependem do bom desempenho do elenco.

O cineasta tem uma referência e fonte de influência muito fortes.  Estudou e atuou no departamento de cinema da Universidade de Stravropol, com Alexander Sokurov, um grande cineasta russo da atualidade que, por sinal, é um dos produtores de “Tesnota”.  O filme foi exibido nos festivais de Munique e Cannes, em que recebeu o prêmio FIPRESCI (Un Certain Regard).