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domingo, 27 de abril de 2025

HOMEM COM H

Antonio Carlos Egypto

 

Esmir Filho, Ney Matogrosso e Jesuita Barbosa

HOMEM COM H. Brasil, 2025.  Direção e roteiro: Esmir Filho.  Elenco: Jesuíta Barbosa, Bruno Montaleone, Júlio Reis, Caroline Abras, Rômulo Braga.  129 min.

 

Ney Matogrosso é um dos artistas mais criativos, versáteis e ousados que a cultura brasileira já produziu.  Excelente cantor, com um registro de voz único e surpreendente, acentuada capacidade interpretativa, talento de ator, grande dançarino e performer. Motivos não faltam para realizar um filme homenagem a ele, quando chega e supera os 80 anos de idade, ainda empolgando multidões nos palcos e contando com registros de gravações fonográficas esplêndidas, que sempre serão ouvidas.

 

Esmir

O diretor Esmir Filho em “Homem com H” tomou como rumo da narrativa o combate permanente de Ney contra o autoritarismo, começando pelo enfrentamento do pai, militar e opressor homofóbico.  E passando a enfrentar também as autoridades, os poderosos de plantão, os normatizadores de condutas.  Ney trilhou o caminho da liberdade, de quem ele era e de quem ele queria ser.  Isso ao longo de sua trajetória, desde a infância e a juventude.  E continua sendo assim.

 

O filme, enquanto trabalha essas questões, como não podia deixar de ser, nos enche de música.  São 17 músicas, ao longo dos 129 minutos de projeção.  Representativas, mas insuficientes para dar conta de uma carreira artística tão rica e recheada de êxitos e sucessos.  Os fracassos também aparecem. Em consequência do rompimento com os Secos e Molhados, por exemplo.

 

Grande trunfo de “Homem com H” é, sem dúvida, o seu protagonista.  Jesuíta Barbosa compõe um Ney Matogrosso com uma riqueza interpretativa, cheia de detalhes e sutilezas, tão bem integradas ao personagem que a gente vê um Ney jovem na tela, como se ele estivesse mesmo ali, rejuvenescido.  Ele aprendeu a ser Ney, nas atitudes, nos amores, na dança, no domínio do palco, explorando os trajes luminosos e extravagantes, e até mesmo no canto.  Calma lá, é claro que quem canta o tempo todo no filme é o verdadeiro Ney Matogrosso, mas Jesuíta vai cantando junto, não é uma simples dublagem.  Uma curiosidade: em duas músicas, pelo menos, não existem gravações.  Jesuíta cantou e sua voz foi coberta por Ney, após as filmagens.  Ou seja, Ney, nesse caso, dublou Jesuíta.  Como na cena do coral cantando Casinha Pequenina, em que a voz dele se acomoda à das mulheres e não à dos homens, pelo seu timbre e extensão.

 

Ney

Ney Matogrosso participou ativamente do filme, sem estrelá–lo.  No final, aparece num show realizado em 2024, que documentalmente se incorporou à ficção.  Ele conviveu com a equipe do filme, assistiu a algumas filmagens, deu informações, dicas, e deu plena liberdade para que contassem sua história sem qualquer restrição.  Mas quis saber os fatos que seriam contados, apenas para garantir que aquilo que está sendo mostrado teria mesmo acontecido.  Sua preocupação era com um bocado de mentiras que sempre falaram sobre ele e que podem ser encontradas na Internet até hoje.  Ney garante que o que está no filme de fato existiu.  A forma como foi mostrado e interpretado é outra coisa, porém, os fatos são reais.

 

 A questão da Aids como atestado de morte, chamada no início de “peste gay” e a tragédia que se abateu sobre o Brasil e o mundo, nos anos 1980 e 1990, aparece no filme, porque foi muito importante na vida de Ney.  Ele conviveu com Cazuza, que expôs a doença publicamente e morreu logo.  Ele também viu de perto a morte de seu outro companheiro sexual, Marco de Maria, de quem cuidou até o fim.  E sobreviveu imune a tudo isso, surpreendentemente, sem nunca entender porque foi “poupado”.

 

Fiel ao espírito libertário e subversivo do artista, o filme é bastante ousado nas cenas de sexo, nudez, na linguagem oral, nos comportamentos em geral.  Nos figurinos, nem se fale.  Impossível abordar a história e a carreira de Ney Matogrosso sem explorar seus trajes cênicos inovadores, maquiagem, roupas estranhas e provocadoras.  A fotografia é quente, bem colorida, reflete a exuberância do trabalho de Ney, até nos desenhos e ilustrações que ele fez desde pequeno.

 

A produção como um todo é grande, para os recursos do cinema brasileiro, principalmente considerando o diretor e roteirista paulistano Esmir Filho, que veio do cinema independente e autoral.  Entre seus trabalhos podemos citar “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de 2009, “Verlust”, de 2020, e o badalado “Tapa na Pantera”, de 2006.

 

Com Jesuíta

“Homem com H” chega às salas de cinema num momento de crescimento de público para o cinema brasileiro, especialmente após a conquista do Oscar por “Ainda Estou Aqui”, que chegou a alcançar 6 milhões de espectadores.  E não parece ser um caso único.  “O Auto da Compadecida 2” também levou milhões de espectadores aos cinemas do Brasil.  Esse novo filme de Esmir Filho, estrelado por Jesuíta Barbosa, tem chance de alcançar sucesso também.  Tem o apelo da arte de Ney, é comunicativo e tem ritmo ágil.  Vamos ver o que acontece a partir de 1º. de maio, quando ele estreia.




domingo, 18 de abril de 2021

A ÚLTIMA FLORESTA

Antonio Carlos Egypto

 

 


O filme de encerramento do festival É TUDO VERDADE 2021 neste domingo (18/04), à noite, em www.etudoverdade.com.br é A ÚLTIMA FLORESTA, dirigido por Luiz Bolognesi, com roteiro do diretor e de David Kopenawa Yanomami, 74 min.

 

O documentário A ÚLTIMA FLORESTA trata da tribo Yanomami, isolada, na região amazônica em que se encontram Brasil e Venezuela.  Mas, como diz o filme, os Yanomami já estavam lá quinhentos anos antes de existirem os dois países.

 

O xamã David Kopenawa Yanomami, uma importante liderança indígena, tem lutado pelo seu povo, para preservar seu território, suas tradições, os relatos de sua origem e a relação com os espíritos da floresta.  Para isso, precisa se dedicar a combater os garimpeiros que invadem as terras, trazendo morte e doenças. 

 

Uma invasão devastadora ocorreu nos anos 1980.  Com a demarcação das terras nos anos 1990, a situação melhorou, mas nunca foi absolutamente tranquila.  Só que nos dois últimos anos o governo federal tem facilitado e até estimulado a ação dos garimpeiros.  Pelo menos, não tem fiscalizado ou punido as ações.  Está mais difícil para eles agora.

 

David deu as coordenadas desse trabalho documental sobre sua tribo, buscando revelar o mundo Yanomami ao observador de fora, no caso, nós, os espectadores no cinema.  Mesmo que em casa, como acabou sendo o caso.

 

A gente se delicia com as histórias de criação da tribo, que nos soam ingênuas, claro, mas bonitas, poéticas, cheias de fantasia.  O relacionamento das pessoas da tribo, com seus rituais, com as plantas, os rios e cachoeiras, os animais.  Essa simbiose com a natureza, que acolhe, celebra, dá saúde, força e cura, tem alegria.  O perigo é o homem branco, que vem para invadir, sugar da terra o lucro, desagregar.  E, especialmente, contaminar as águas com mercúrio, além de romper o equilíbrio da vida daquele povo.

 

Já é uma longa história de luta pela preservação da comunidade, que parece nunca ter fim, com seus altos e baixos.  É preciso estar sempre alerta e cada vez com mais intensidade.  Infelizmente, para o povo Yanomami.

 

O filme nos faz conhecê-los melhor e nos alerta, mais uma vez, para o que está acontecendo na Amazônia, essa devastação florestal intolerável, que compromete o planeta e sufoca as populações indígenas.

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Neste domingo, às 17::00 h, serão conhecidos os vencedores do festival e depois serão disponibilizados os filmes premiados.  O evento da premiação, comandado por Amir Labaki, pode ser visto no canal do You Tube do festival.  Às 19:00 h, o filme de encerramento, comentado acima.  A reapresentação dos vencedores será na 3ª. feira, dia 20 de abril, às 19:00 e às 21:00 h.




domingo, 8 de junho de 2008

O REALISMO ALEMÃO E A “CAIXA DE PANDORA”

Ed Anderson Mascarenhas

O expressionismo foi um movimento de vanguarda do final do século XIX que estava mais interessado na interiorização da obra artística do que na sua exteriorização, projetando na obra de arte uma reflexão individual e subjetiva. Anti-natural, anti-realista, onde não há subjetivismo, sendo caracterizado como extremamente pessimista e deformador de objetos ou detalhes destacando-os do conjunto. Ele existiu no cinema depois de atuar em todas as outras áreas, mas foi nesta onde ele melhor se instalou. Luiz Nazário em seu livro As Sombras Móveis destaca que “O termo expressionismo fora usado pelo crítico de arte Herwarth Walden para caracterizar toda arte oposta ao impressionismo. Mais tarde passou a definir toda a arte na qual a forma não nasce diretamente da realidade observada, mas de reações subjetivas à realidade”.
Convidado a dirigir o primeiro manifesto do expressionismo cinematográfico, Fritz Lang aceitou inicialmente o convite, desaprovando, porém a apresentação original de uma visão inteiramente expressionista do mundo, sugerindo modificar o desfecho. Lang acabou não dirigindo o filme, função assumida por Robert Wiene, mas sua sugestão foi mantida. O Gabinete do Doutor Caligari (1919) tornou-se um manifesto cinematográfico de tremendo impacto, graças a uma conjunção de elementos. O cinema expressionista alemão foi caracterizado com a presença destacada na decoração, iluminação e jogo de atores, tendo uma próspera produção iniciada com O Gabinete..., indo até 1926 com o seu declínio, apesar de alguns historiadores estenderem este período considerando o pré-guerra até a tomada de poder por Hitler em 1933.

Os filmes expressionistas apesar de terem vários gêneros e estilos tinham muitos elementos em comum ao expressar um sentimento de opressão e revolta em relação ao mundo com ênfase em elementos visuais trabalhados de forma a atingir o efeito de “choque”. Estes poderiam ser um personagem, uma interpretação, um tema , um cenário ou até mesmo todos eles, como em Caligari. O aspecto de “deformação” é deveras predominante.

Todos os elementos de cena são carregados de um sentido maior pertencente ao drama, tornando-se mais densos. As olheiras são marcantes neste cinema revelando um simbolismo (melancolia, estado da alma) bem como a utilização de máscaras brancas. A natureza é abolida e em seu lugar são utilizados cenários representativos. O herói expressionista enfrenta desarmado elementos obscuros (perigos invisíveis,ameaças impalpáveis).

Luiz Nazário em seu livro De Caligari a Lili Marlene: cinema alemão, descreve: “Paralelamente ao expressionismo, que nesta época já tem a sua linguagem plenamente desenvolvida, afirma-se a partir de 1924, com A Última Gargalhada, o chamado realismo alemão, com a técnica do `teatro de câmera`(kammerspiel), misturando conquistas expressionistas com formas consagradas do naturalismo, cuja temática centra-se na decadência do homem e da sociedade. (...) As paisagens imaginárias, os fenômenos paranormais, as olheiras filosóficas, os fenômenos sobrenaturais e delirantes do expressionismo são substituídos pelas locações exteriores, pela realidade nua e crua, pela análise científica da mente, pelo ‘socialismo branco’ e pela terapia eficiente: em Segredos de uma Alma(1926) de Pabst, o psicótico marido é curado pelo sábio psicanalista que o conduz a uma apoteose de normalidade`na última seqüência em que vemos o ex-impotente segurando um filho diante de um panorama de montanhas, ao lado da esposa querida.”.

Ainda em seu livro As Sombras Móveis, Nazário escreve “Aderindo à ideologia da Neue Sachlichkeitt (“Nova Subjetividade”) os artistas alemães passaram a ‘despertar” do pesadelo expressionista para espiar ‘a vida como ela é’. O austríaco G. W. Pabst realizou alguns dos filmes mais exemplares deste novo ‘realismo social’, pintando sere humanos como criaturas movidas por instintos primários, desde seu primeiro filme, Der Schatz (1923) sobre a cobiça humana pelo ouro”.

De fato, um dos maiores nomes desta fase responde pelo nome de George Wilhelm Pabst (1885-1967) que começou com ator em 1905 na Suíça e no Cinema em 1920 com produções de alta categoria nos cenários e atores. Pabst possuía uma direção política, não social. E tido como o lançador de Freud no cinema num filme científico que foi fracasso de público e crítica Tragédia de uma Alma. Mas, realizou obras-primas como O Tesouro (1923), A Rua das Lágrimas (1925), O Amor de Jeanne Ney (1927) e A Caixa de Pandora(1928). Esta última baseada em duas obras de Frank Wedekind e estrelada por Louise Brooks (1906-1985), que caracterizou uma interpretação espontânea em contraste com a artificialidade da época, é a obra tida como a sua consagração.

Em seu livro A Tela Demoníaca, Lotte H. Eisner afirma: “O caso de Pabst é extremamente curioso: trata-se de um diretor ao mesmo tempo espantoso e decepcionante. É de se perguntar como o autor de A Caixa de Pandora ou de A Ópera dos Três Vinténs pode fazer um filme tão sofrível quanto O Processo. (...) Pabst apresenta muitas contradições , alguns louvam a sua intuição, perspicácia,seu conhecimento perfeito dos fatores psicológicos e do subconsciente, que fazem com que se sirva da câmera como de um aparelho de raios-X. Há quem o considere um escrutador apaixonado da alma humana, que se deixa conduzir por suas descobertas; outros, como Pasinetti, vêm nele um observador guiado por cálculos frios”.

O fascínio de A Caixa de Pandora muito deve a Brooks que valorizou ao máximo a personagem diante da câmera eternizando a sua imagem erotizada desde o corte incomum de cabelo ao magnetismo da interpretação. No filme é denunciada a imagem da mulher como fonte de desagregação social acarretando a decadência masculina. Nele vê-se o prazer associado à morte.. Uma prostituta de luxo que se envolve com o filho de seu ex-gigolô e uma condessa lésbica numa sociedade alemã do final dos anos 20 .

Segundo Eisner em A Tela Demoníaca : “A Caixa de Pandora e Diário de uma Pecadora não nos mostram antes o milagre de Louise Brooks, cuja profunda capacidade de intuição é meramente passiva aos olhos do espectador ingênuo, mas que soube estimular ao extremo o talento de um diretor ademais desigual? A notável evolução de Pabst se verá reduzida, nestes filmes,ao encontro de uma atriz que bastava deixar se desnvolver na tela, sem que fosse necessário dirigí-la, e que realizava com sua simples presença a essência da obra de arte. Louise Brooks existe com uma insistência desconcertante, ela atravessa estes dois filmes sempre enigmadamente impassível. Sabemos hoje que Brooks é uma atriz espantosa, dotada de uma inteligência fora de série, e não somente uma criatura deslumbrante”..

Com o seu enfoque social e cunho freudiano Pabst rendeu-se ao realismo intimista precursor dos melodramas do cinema americano, condensa as duas peças de Wedekind protagonizadas por Lulu, precursoras do expressionismo no teatro. No filme é mantida a ambigüidade no comportamento de Lulu e a maleabilidade das figuras masculinas, que se colocam como vítimas dos poderes e caprichos da protagonista. Lulu é comparada ao mito grego de Pandora, a "insensata mulher" que abriu a caixa com todos os males do mundo. Revelando a ambigüidade de anjo e demônio.

Numa leitura conservadora o enredo de Pandora pode ser considerado politicamente incorreto, mas um fator a ser considerado a favor do maestream é a sutileza na linguagem cinematográfica. O erotismo acentuado da personagem título passa longe do lugar comum. Louise Brooks defende um olhar inocente e ao mesmo tempo lascivo nas cenas que provocam plena magnetização nos espectadores mais resistentes.. Enaltecendo a ambigüidade que compõe uma ambientação complexa .

A utilização de fumaça nos momentos de clímax e elementos figurativos para ilustrar determinada morte são características que conferem o charme e perenidade artística à obra. È interessante observar em uma das cenas a presença da sombra substituída pela silhueta de Jack, o estripador, diante do cartaz que enumera seus crimes. Os planos do filme são longos, com a reação psíquica dos personagens externadas e enquadramentos aproximados e entrecortados. Segundo Eisner, “Para resumir os componentes da técnica de Pabst: ele procura “ângulos psicológicos ou dramáticos” que revelem, ao primeiro olhar, o caráter, as relações psíquicas das personagens, uma situação, a tensão de uma atmosfera, o momento trágico. Quase sempre prefere este tipo de tomada à técnica de Mornau, que se delicia em acompanhar longamente uma cena, com o auxílio de uma câmera que se move por deslizamento. Para Pabst, pois, é finalmente a montagem que constrói a ação”.

Pabst adotará em suas últimas produções as análises psicológicas bastantes contrárias aos conceitos expressionistas, com teor naturalista. Para ele o rosto de um ator torna-se uma paisagem que a câmera explora minuciosamente. O cineasta segue em 1932 para a França e em 1934 para Hollywood, iniciando sua carreira internacional, embora sem o brilho alcançado no período pré-guerra alemão. Este diretor alemão deixou para a história do cinema mundial uma obra ímpar no quesito de simbologia visual, sedução e sutileza. Eis alguns segredos memoráveis da sua “Caixa”.


Assisti, há quase 20 anos, a uma montagem do texto A Caixa de Pandora, dirigida por Márcio Meireles, no Instituto Goethe da Bahia e fiquei magnetizado, na minha inocência de adolescente iniciando-se no mundo das Artes Cênicas, pela sedução do texto e interpretação dos atores, mas precisamente da atriz que fazia a Lulu, Maria Eugenia Millet. Lembro que, ao chegar em casa, voltei a ler o programa do espetáculo, mirei as fotos dos atores e fui dormir intrigado com o universo que havia visitado. O espetáculo havia me vencido e tornou-se algo que me marcou. Anos mais tarde, já adulto, formado como bacharel em Artes Cênicas, assisti ao filme de Pabst e adquiri nova cumplicidade com a imagem de Louise Brooks e as artimanhas do diretor, com seus aspectos dramáticos e psicológicos e precisas noções de sombreamentos, evocando possibilidades únicas de sensações em sua película.

Hoje, ao iniciar o curso de Critica de Cinema da FAAP, com as aulas do professor Máximo, abordamos o expressionismo. Então, eu não poderia escolher outro fato a discorrer do que o cinema alemão e a fase em que se encontra guardada a “Caixa de Pandora”. O conteúdo do filme muito me seduziu, talvez pela minha formação teatral, talvez pela minha memória que relembra aquela noite de vinte anos atrás em que eu, jovem, muito jovem, tive o privilégio de obter contato com a obra de Wedekind. Só uma coisa me causa remorso – não ter evitado, que Lulu fosse assassinada por Jack, o estripador. Ela poderia estar, ainda hoje, ensinando-me estratégias de sedução, em algum café de São Paulo, onde me encontro em certas noites de insônia, e cuidaríamos com sucesso da sua preciosa caixa.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

PRÊMIO ABRACCINE 2025


 Reproduzo aqui a matéria, publicada no site da Abraccine, que revela a escolha que fizemos dos melhores filmes de 2025. Trata-se do 15o. Prêmio Abraccine, que corresponde aos 15 anos de existência da própria associação.

Antonio Carlos Egypto


Revelados os vencedores do 15º Prêmio Abraccine – Melhores do Ano

“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foi escolhido o melhor longa-metragem brasileiro de 2025 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Durante a esperada live do Prêmio Abraccine – Melhores do Ano, ocorrida na noite de  5 de fevereiro, também foram anunciados “Uma Batalha Após a Outra”, dirigido por Paul Thomas Anderson, na categoria melhor longa-metragem internacional, e “A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero”, de Rodolpho de Barros, como melhor curta-metragem. 

Em sua 15ª edição, marca que acompanha a existência da entidade, o Prêmio Abraccine – Melhores do Ano vem se juntar a uma bem-sucedida trajetória comercial e de premiações dos títulos escolhidos. “O Agente Secreto”, visto no Brasil por mais de dois milhões de espectadores, largou no Festival de Cannes do ano passado com os troféus de direção e ator para Wagner Moura, e está indicado a quatro estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme e melhor ator. Terá batalha difícil com o longa de Thomas Anderson, outro dos favoritos para os prêmios da Academia de Hollywood, em disputa por 13 Oscars. Já o longo e curioso título do curta vencedor é um velho conhecido da Associação. Levou o Prêmio Abraccine no Fest Aruanda 2025, entre outros reconhecimentos no mesmo festival.

Além dos três títulos vencedores, a Associação também elegeu o top 10 de cada categoria.

O processo de eleição ocorreu durante a última quinzena de janeiro com a participação dos associados, em quadro composto atualmente por cerca de 180 nomes estabelecidos em todas as regiões do País, entre jornalistas, críticos, acadêmicos, estudiosos, curadores e programadores da área de cinema. 

Confira as listas completas de melhores do ano de 2025 segundo a Abraccine:




Melhor Longa-Metragem Brasileiro

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho

Top 10 Longas-Metragens Brasileiros (em ordem alfabética)
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Baby, de Marcelo Caetano
Os Enforcados, de Fernando Coimbra
O Filho de Mil Homens, de Daniel Rezende
Homem com H, de Esmir Filho
Kasa Branca, de Luciano Vidigal
Manas, de Mariana Brennand
A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo
Oeste Outra Vez, de Erico Rassi
O Último Azul, de Gabriel Mascaro. 



Melhor Curta-Metragem
A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, de Rodolpho de Barros

Top 10 Curtas-Metragens (em ordem alfabética)
A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, de Rodolpho de Barros
Boiuna, de Adriana de Faria
Casulo, de Aline Flores
Como Nasce um Rio, de Luma Flôres
E Seu Corpo é Belo, de Yuri Costa
O Faz-Tudo, de Fábio Leal
Laudelina e a Felicidade Guerreira, de Milena Manfredini
O Mapa em Que Estão meus Pés, de Luciano Pedro Jr.
O Rio de Janeiro Continua Lindo, de Felipe Casanova
Samba Infinito, de Leonardo Martinelli





Melhor Longa-Metragem Internacional

Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson

Top 10 Longas-Metragens Internacionais (em ordem alfabética)
Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson
Dreams, de Dag Johan Haugerud
Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi
Levados pelas Marés, de Jia Zhang-Ke
The Mastermind, de Kelly Reichardt
Misericórdia, de Alain Guiraudie
Pecadores, de Ryan Coogler
A Semente do Fruto Sagrado, de Mohammad Rasoulof
Sorry, Baby, de Eva Victor
Valor Sentimental, de Joachim Trier

 


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

OS FILHOS DOS OUTROS

Antonio Carlos Egypto

 

 



OS FILHOS DOS OUTROS (Les enfants des autres).  França, 2022.  Direção: Rebecca Zlotowski.  Elenco: Virginie Efira, Roschdy Zem, Chiara Mastroianni, Callie Ferreira Goncalves.  104 min.

 

A questão central do filme “Os Filhos dos Outros”, da diretora Rebecca Zlotowski, é a maternidade vista pela ótica feminina.

 

O fio condutor da história é a personagem Rachel, vivida por Virginie Efira, em ótimo desempenho, cheio de vida, de nuances emocionais, muito competente. Rachel é uma professora, que lida com alunos do ensino médio, dedica-se às suas aulas de violão, tem seus amores, mas nunca engravidou.  No filme, ela associa isso à morte de sua mãe por acidente de carro, em que ela própria sobreviveu, criança.  Isso a teria impedido psicologicamente de buscar a maternidade.  Porém, ela tem o desejo de ser mãe e, ao chegar aos 40 anos, sente que seu tempo para decidir sobre isso está acabando.  Seu médico enfatiza isso. 

 

Um novo relacionamento com um homem, casado, em processo de separação, a coloca na condição de madrasta da filha dele.  Essa circunstância, com seus apelos emocionais e dificuldades, assume o centro da trama.

 

Uma mulher que não é mãe se dedica a cuidar de uma menina de 4, 5 anos, acoplada à relação amorosa, enquanto segue cuidando de seus alunos, em especial, um deles, que não consegue encontrar seu prumo aos 16 anos.  Ou seja, ela se dedica a cuidar dos filhos dos outros.  O que pode ser um grande desafio, envolver muitos problemas, mas também trazer gratificações importantes.

 

O drama vai por aí, com a maternidade definindo o papel da mulher, pelo menos, nessa etapa da vida.  É bem verdade que a personagem explicita, em uma fala, que não acredita que a mulher precise ter filhos ou que seja menos realizada se não for mãe.  Apesar disso, reconhece o desejo em si mesma.  Menos mal.  Relativiza o peso da maternidade na vida de todas as mulheres.  Afinal, elas podem ser o que desejarem ser, sem a obrigação da maternidade.  São infinitas as formas de ser mulher para além da maternidade.

 


O filme “Os Filhos dos Outros” coloca questões interessantes e importantes nessa temática e é bem realizado.  Com uma narrativa linear, acadêmica, sem maiores inovações e sem cenas muito marcantes visualmente falando, no aspecto emotivo, sim.  Tem leveza, também. 

 

Oferece um bom desempenho do elenco, não só da protagonista, mas como um todo e tem uma criança que deve encantar o público que vai assistir ao filme, a atriz mirim Callie Ferreira Goncalves.  Destaque também para o ator Roschdy Zem.  Um bom trabalho da cineasta Rebecca Zlotowski.

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Mostra de Cinema Russo e Soviético, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, de 05 a 15 de outubro, em sua 9ª. edição, apresenta 14 longas-metragens e um média, produções russas recentes e clássicos soviéticos e russos fazem parte da programação, que é toda gratuita.  Destaque para “Khitrovka, o Signo dos Quatro”, de 2023, dirigido por Karen Shakhnazarov, com exibições previstas para dia 05 de outubro, 5ª. feira, às 19:30 h, dia 07, sábado, às 18:00 h, dia 15, domingo, 19:45 h.  Para conferir a programação completa dessa Mostra e da Cinemateca, entre aqui:

www.cinemateca.org.br/programação

 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

BÉLA TARR – UM CINEASTA RADICAL

Antonio Carlos Egypto



Béla Tarr é um cineasta húngaro, nascido em 1955, que tem um trabalho autoral rigoroso e radical. Uma retrospectiva de sua obra foi exibida em São Paulo, na Mostra de Cinema Independente INDIE 2011, e poderá ser vista no Festival do Rio 2011, com a presença do diretor.

A oportunidade de ver seus filmes de forma concentrada, por um lado, enriquece a percepção de um trabalho artístico denso, esteticamente notável. Por outro lado, é uma proposta exigente para o espectador: é um cinema lento, que demanda concentração e uma atitude contemplativa. Seu cinema é feito de longos planos sequência, com muitas repetições de atos silenciosos e brigas ou desentendimentos verbais, onde as palavras e expressões de ofensa ou mágoa também se repetem muito. É um trabalho artístico, que põe sua beleza a serviço de uma visão desesperançada do mundo.

Para quem nunca viu um filme de Béla Tarr, o que escrevi até agora pode assustar ou desestimular o interesse por seu cinema. Sim, é um cinema sofrido, porém, desafiador, capaz de nos transportar a universos e situações em que mergulhamos tão intensamente que saímos da experiência tocados por sensações e sentimentos fortes, mas que nos levam a refletir sobre o que vivenciamos ali.


O Cavalo de Turim

O CAVALO DE TURIM (WA Torinói Ló). Hungria, 2011. Direção e roteiro: Béla Tarr. Com János Derzsi, Erika Bók, Mihály Kormos. 146 min.

O mais recente filme do diretor, concluído em 2011 e agraciado com o Urso de Prata do Festival de Berlim, é “O Cavalo de Turim”, que o cineasta afirma que deve ser sua última produção cinematográfica. Uma pena, se essa intenção se confirmar.

No texto de abertura do filme lê-se o seguinte: “Em Turim, em 03 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche sai do imóvel da Via Carlo Albert, número 6. Não muito longe dali, o condutor de uma carruagem de aluguel está tendo problemas com um cavalo teimoso. O cavalo se recusa a sair do lugar, o que faz com que o condutor, apressado, perca a paciência e comece a chicoteá-lo. Nietzsche aparece no meio da multidão e põe fim à cena brutal, abraçando o pescoço do animal, em prantos. De volta à sua casa, Nietzsche então permanece imóvel e em silêncio, durante dois dias, estendido em um sofá, até que pronuncia as definitivas palavras finais (“mãe, eu sou um idiota”) e vive por mais dez anos, mudo e demente, sendo cuidado por sua mãe e suas irmãs. Não se sabe que fim levou o cavalo.”
O filme passa, então, a mostrar a vida de um condutor de uma carroça, de sua filha e do cavalo. Não há qualquer referência a Nietzsche, além do texto inicial. “O Cavalo de Turim”, na realidade, nos mostra a vida miserável desses personagens, numa habitação do século XIX. Os únicos pertences são uns poucos móveis rústicos, alguma roupa, lenha, fogão, água e batatas.

Fora da casa, um poço que provê a água e o estábulo, com o cavalo e a carroça. Passamos a viver intensamente o cotidiano dessa casa, onde os movimentos e os gestos se repetem, quase nada se fala e um vento forte e permanente aparece quando se sai da casa, se abre a porta ou se olha pela janela.





A paisagem externa é desoladora, assim como o interior da casa. Se não existisse uma reserva de batatas, a fome se imporia de forma absoluta. Ou se o poço um dia secar...

As imagens em preto e branco, os enquadramentos perfeitos, mas quase imutáveis e a rotina minimalista dos personagens, captadas por meio de planos sequência longuíssimos, conseguem nos transportar para a vida no limite da fome e da morte, em pleno final do século XIX.

Os poucos elementos em cena são também essenciais para a obtenção desse efeito. Estamos em outra época, em outro mundo. No entanto, nos deparamos com uma questão que permanentemente tem desafiado a existência humana em todas as épocas: a erradicação da miséria. Impossível não se sensibilizar para essa questão, após assistir a “O Cavalo de Turim”.

O símbolo do cavalo é também muito bem explorado, desde a sua movimentação intensa, no início do filme, até sua paralisia completa, em que ele prenuncia e como que escolhe seu fim.

Uma obra de arte soberba, extremamente sofrida, difícil mesmo de assistir. Mas uma obra maiúscula. Radical em todos os sentidos. Será lançada comercialmente nos cinemas? Espero que sim. De qualquer modo, atingirá um público reduzido, que terá condições de apreciar tal experiência cinematográfica. Os que entrarem no cinema desavisados ou serão tocados fortemente pelo filme, ou se ausentarão antes do seu final. Experimentos radicais geralmente produzem respostas de amor intenso ou ódio profundo. Não é assim?

Os outros filmes

“Ninho familiar”, de 1977, o primeiro longa de Béla Tarr e “Pessoas pré-fabricadas”, de 1982, têm em comum a discussão da vida, num regime planificado, centralizador e opressor, como foi a Hungria no período comunista ou do chamado socialismo real. Nesse sentido, são filmes datados. Tratam, por exemplo, da seriíssima questão das moradias. A ausência de um espaço para viver ou a aglomeração de pessoas em pequenos apartamentos gera angústia, discórdia, desentendimentos de todo tipo. A opressão que essa situação traz é mostrada, geralmente, com a câmera na mão e os atores focalizados muito de perto, sem espaço para o respiro. A sensação é aquela que a gente tem quando alguém chega muito perto, invadindo nosso espaço, e nos faz afastar-nos dessa pessoa. “Ninho familiar” se centra nisso e na repetição verbal exacerbada do quanto é importante ter um espaço próprio de moradia, mínimo e decente.

“Pessoas pré-fabricadas” enfoca mais os desentendimentos no casamento, em função de que a vida, as casas e os empregos são planejados e resolvidos pelo Estado, sendo as pessoas joguetes nesse processo. Se digladiam, se ofendem, brigam, fazem escândalos e não são donas de seus destinos. As duas películas são filmadas em preto e branco.

“Almanaque de Outono”, de 1984, é um filme colorido. Aqui se exploram as tonalidades cinza-azuladas e vermelho-alaranjadas, num espaço agora grande, onde vivem mãe, filho e mais três pessoas que, embora se conheçam e se relacionem, estão em conflito permanente. Brigam, discutem, se acusam, se atacam em jogos de poder violentos e desproporcionais. As relações se esgarçam, se desgastam, a confiança se quebra. Um clima hostil, cheio de medos e obsessões, que remete aos filmes de Bergman.

Dentre os principais filmes dele não vi “Maldição”, de 1987, nem o famoso “Satantango”, de 1994, um filme com 7 horas e meia de duração, que, no Festival INDIE foi exibido no Cinesesc, das 21:30 às 5:30 h, com intervalos. Para mim, seria demais todo esse tempo para ver um panorama amplo do fim do comunismo na Europa Oriental. Quem viu, garante que vale a pena.




“Harmonias de Werckmeister”, de 2000, é mais um filme em preto e branco, como são quase todos os que Béla Tarr fez, que tem uma linda plasticidade, uma atmosfera estranha e soturna, focalizando uma cidade que espera por um circo. A principal atração é uma enorme baleia ,a maior do mundo, que está fora d’água, num grande caminhão, cheirando mal, e há a promessa de um misterioso príncipe que deve se apresentar. Filme sujeito a inúmeras possibilidades interpretativas, surpreende pelo inusitado, tanto da situação proposta quanto dos comportamentos, e também por uma violência que irrompe, selvagem e aparentemente sem sentido ou direção.

“O Homem de Londres”, de 2007, foi o primeiro filme que vi de Béla Tarr, durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Sua estética de filme noir, obviamente em preto e branco, com direito a assassinato e mala de dinheiro que é encontrada, é irresistível. Enquadramentos belíssimos nos fazem esquecer completamente os ritmos lentos, os longos planos sequência e a quase ausência de diálogos. Fotografia impecável, mostra uma estação ferroviária do litoral e um homem que pensa, vive dilemas éticos, testemunhou algo terrível e importante. O que fazer agora? Uma releitura do filme noir, que se interioriza.

Béla Tarr é um autor de cinema marcante, num tempo em que o espaço para o trabalho autoral é muito pequeno diante da avassaladora industria do entretenimento. Seu cinema aspira à mais alta dimensão artística e não tem qualquer olhar para o mercado. Opção rara e radical nos dias de hoje.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

TOP 10 - 2025

Antonio Carlos Egypto

Na semana em que tivemos a grande notícia de 4 indicações para o Oscar para O AGENTE SECRETO eu aproveito para apresentar a você minhas listas de TOP 10 do ano recém-findo. Os filmes de que mais gostei de ver em 2025 lançados nos circuitos dos cinemas brasileiros.



 

                      FILMES NACIONAIS

O AGENTE SECRETO , de Kleber Mendonça Filho

O FILHO DE MIL HOMENS, de Daniel Resende

HOMEM COM H, de Esmir Fiho

O ÚLTIMO AZUL, de Gabriel Mascaro

MANAS, de Mariana Brennand

MALÊS, de Antonio Pitanga

3 OBÁS DE XANGÔ, de Sérgio Machado

BABY, de Marcelo Caetano

APOCALIPSE NOS TRÓPICOS, de Petra Costa

OESTE OUTRA VEZ, de Érico Rassi  





                 FILMES INTERNACIONAIS

FOI APENAS UM ACIDENTE, de Jafar Panahi

VERMIGLIO, de Maura Delpero

O BRUTALISTA, de Brady Corbet

SEX, de Dag Johan Haugerud

VALOR SENTIMENTAL, de Joachim Trier

UMA BELA VIDA, de Costa Gavras

TRILHA SONORA PARA UM GOLPE DE ESTADO, de Johan Grimonprez

O CASTIGO, de Matías Bize

ENCONTRO COM O DITADOR, de Rithy Panh

JOVENS AMANTES, de Valeria Bruni Tedeschi


Todos esses filmes, tanto os nacionais quanto os internacionais, foram objeto de apreciação por mim aqui no Cinema com Recheio. Para acessá-los entre no campo de pesquisa do blog, ou vire as páginas no celular.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Senna


Tatiana Babadobulos

Senna. Reino Unido, 2010. Direção: Asif Kapadia. Roteiro: Manish Pandey


Seria natural que a vida de Ayrton Senna virasse filme após a sua trágica morte, em Ímola, na Itália, em 1994. Só não se sabia, porém, como seria esse longa-metragem. A princípio, o ator espanhol Antonio Banderas teria sido escolhido para viver o herói brasileiro das pistas. Mas Viviane Senna, irmã de Ayrton, nunca encontrou um contrato dos estúdios hollywoodianos que lhe satisfizesse. Em 2006, porém, produtores ingleses a procuraram com uma nova proposta: transformar as imagens reais, captadas das pistas, dos bastidores e da vida íntima de Senna (os passeios de lancha e jet-ski pelos mares de Angra dos Reis, durante o Carnaval, e com as namoradas Adriane Yamin, Xuxa e Adriane Galisteu), em um filme. Contar uma história a partir de imagens, ou seja: cinema puro!

A ideia, portanto, seria fazer um documentário. Mas mais do que isso, uma “colcha de retalhos” que, costurada, daria origem ao produto final, com começo, meio e fim. Foi aí que entrou o roteirista (e fanático por Senna) Manish Pandey, que resolveu contar uma história linear sobre a vida de Ayrton, iniciando a partir do momento em que ele começou a correr na Fórmula 1, em 1984, no Grande Prêmio de Mônaco.

Ao contrário dos documentários tradicionais, "Senna" não utiliza depoimentos, mas narrações em off de pessoas que tiveram envolvimento diretamente na vida de Ayrton Senna. Uma pessoa muito importante, e que contribuiu com a história, foi o comentarista esportivo Reginaldo Leme.

Em entrevista coletiva realizada em São Paulo, Viviane Senna disse que fazer um filme de ficção sobre a vida de Senna não seria tão impactante. “A cena do Balestre, por exemplo, não seria tão forte”, comenta, citando uma das cenas nas quais há uma grande discussão, no Grande Prêmio do Japão, quando houve um problema do lado da pista em que o pole position largaria.

Embora seja tratado como documentário pelo fato de utilizar imagens reais, o longa poderia ser de ficção, uma vez que a construção é típica desse tipo de filme: a luta do bem contra o mal (Senna versus Prost), catarse, ascensão e queda do herói. Antonio Pinto (de “Cidade de Deus”), brasileiro responsável pela bela trilha sonora da fita, aumenta o coro. “O cara é um herói, precisa se superar, há os vilões... Vamos combinar que o Alain Prost parece o Darth Vader”, brinca, fazendo alusão ao malvado personagem de “Star Wars”.

Quem conheceu a trajetória de Ayrton Senna vai se emocionar com as imagens e a importância que ele teve no automobilismo de maneira geral, principalmente por sua superação a cada corrida. Na primeira, em Mônaco, ele competiu com grandes estrelas, como Keke Rosberg, Nigel Mansell, o bicampeão mundial austríaco Niki Lauda, Nelson Piquet e o homem chamado de “O Professor”, o francês Alain Prost, de quem se tornou companheiro de equipe, na McLaren, e com quem passou maus bocados.

Nessa mesma corrida ele largou na 13ª posição pela equipe Toleman e alcançou Prost na 32ª volta, embora não tenha ganhado a prova. Daí pra frente, ele começou a mostrar a que veio e o que se podia esperar de um piloto audacioso e corajoso como sempre foi.

Foi durante a temporada de 1990, no Japão, que, por conta da matemática do campeonato, Senna e Prost lutavam pela vitória. A partir de então os personagens de Senna e Prost são revelados.

Em 1991, ele venceu pela primeira vez em Interlagos e é emocionante vê-lo carregando a bandeira brasileira, a “música da vitória” e como foi duro chegar em primeiro lugar, sendo que nas última três voltas estava apenas com a sexta marcha.

Além de mostrar como era um “gênio” nas pistas, o longa reforça o lado espiritual e marcante de Senna. Algumas passagens mostram que ele rezava e, inclusive, admite ter visto Deus. No dia de sua morte, outro depoimento sublinha a ideia de que ele havia aberto a Bíblia antes da corrida e teria recebido uma mensagem divina.

No longa é possível conferir como eram os carros antes e depois, quando as equipes começaram a se valer de tecnologia de ponta para montar os seus carros e que, quando Senna começou, vencer uma corrida dependia muito mais da habilidade do piloto que propriamente de uma equipe competente e de um carro sensacional. Em uma passagem, ele diz que é muito complicado quando se entra na “war technologie”, ou seja, na guerra da tecnologia, pois é preciso ter um carro competitivo se quiser enfrentar.

E, quando chegou ao topo, a tecnologia nos carros mudou e os títulos de 1992 e 1993 foram para os carros da Williams-Renault, pilotados por Mansell e Prost. Em 1994, no entanto, com Prost e Mansell não mais correndo a F1, Senna assegurou um posto na Williams.

Ainda que o final desta história já seja conhecida, é inacreditável e inaceitável saber que, no fim de semana em que morreu, durante o treino classificatório, Rubens Barrichello bateu e se feriu. Um dia depois, o piloto austríaco Roland Ratzenberger morreu após bater no muro a 320km/h. O médico e seu amigo, Sid Watkins, o aconselhou a não correr no domingo e até Frank Williams tinha dúvidas se ele largaria naquela manhã. Mas Senna cumpriu seu trabalho com responsabilidade, ainda que curva Tamburello estivesse no meio do seu caminho.

“Senna” é um filme produzido para emocionar. Portanto, não queira sair intacto da sala de projeção após se render as imagens do diretor Asif Kapadia. Trata-se de um longa-metragem sensível, com imagens reais e, sobretudo, “chapa branca”, ou seja, mostram o herói Ayrton Senna, aquele que fazia milhares de brasileiros se levantarem nas manhãs de domingo prontos para ver mais uma vitória. Há, imagens, inclusive, que dão conta de mostrar a pobreza do país e que, após a sua morte, os brasileiros se sentiram órfãos e tristes por achar que não mais valeria a pena viver, uma vez que a alegria havia ido embora. Em Interlagos, imagens da pobreza, mas ao mesmo tempo a torcida gritando o seu nome, e a superação de vencer com apenas a sexta marcha. 

Um senão: imagens de Xuxa e Adriane Galisteu. Para o diretor, a ideia de incluí-las era para mostrar mulheres no filme e que os “relacionamentos fazem parte da história dele”. Embora tenha feito graça por conta do vestido que Xuxa usa e tenha se lembrado que já havia visto imagens impróprias da apresentadora, o diretor não respondeu se chegou a acompanhar os romances à época, uma vez que, pelo noticiário, Adriane não parecia ser bem-vinda à família Senna.

sábado, 21 de outubro de 2023

2 DOCS E 1 LIVRO NA # 47 MOSTRA

    Antonio Carlos Egypto

 

 


 SETE INVERNOS EM TEERÃ (Sieben Winter in Teheran).  Alemanha, 2023. Direção de Steffi Niederzoll.  Documentário. 97 min.

 

O fllme retrata o caso da jovem iraniana Reyhaneh Jabbari, que, aos 19 anos, esfaqueou e matou um médico, homem importante, que tentou estuprá-la.  Como ele vinha de uma família poderosa e profundamente religiosa, a tentativa seria uma marca ultrajante moralmente para a família.  Assim, seria preciso mostrar que a jovem havia mentido.  Num julgamento manipulado, decretou-se a pena de morte a ela.  A razão é a dívida de sangue que, na prática, equivale ao direito à vingança, olho por olho.  Neste caso, só o perdão da família do morto poderia salvá–la da execução.  O documentário detalha o processo, mostrando vídeos gravados secretamente pela família Jabbari, cartas dela da prisão e imagens dela e da família antes do crime, além de depoimentos da mãe, do pai, da irmã e de outras detentas.  Acompanha a repercussão internacional do caso.  Ela se tornou símbolo de resistência e dos direitos das mulheres, não só do Irã.  A produção é da Alemanha, onde vivem hoje a mãe e a irmã de Reyhaneh.  Regimes autoritários e de matriz religiosa tendem a justificar e produzir grandes injustiças, como se deu aqui.

 



RAZÕES AFRICANAS.  Brasil, 2023.  Direção de Jefferson Mello.  Documentário.  90 min.

 

Sabemos que a música é a maior e mais evidente contribuição da negritude à cultura mundial.  “Razões Africanas”, então, se ocupa de três manifestações musicais africanas que estão na base de uma vasta e variadíssima produção ao redor do mundo.  O blues, desenvolvido como música negra norte-americana, tem a ver com o jazz, é fator gerador da country music, do rock, dos spirituals.  Um pouco dessa história é explorado em depoimentos e “causos” que envolvem performances com vários instrumentistas ao piano, violão, gaita e outros mais.  A rumba nos remete à musicalidade negra de Cuba, que se espalhou da pequena ilha para o mundo, danças sensuais, tambores, muita festa e muita vida, são mostrados e explicados aí.  A percussão dos tambores, entre muitos outros instrumentos, está também na origem do jongo, do Rio de Janeiro, originário de Angola, com vínculos nos terreiros, parente do maracatu e do maxixe, que gerou o nosso ritmo nacional, o samba, e até hoje mostra sua força no hip hop, por exemplo.  Com filmagens também nos influenciadores originários, como não só Angola, mas o Congo e o Mali, podemos usufruir da música, da dança e das vestimentas maravilhosas que inspiram também nossas Escolas de Samba no Carnaval.  É triste constatar que grande parte de tudo isso se desenvolveu pela rica troca cultural que reuniu escravizados de vários pontos no Brasil, em Cuba ou nos Estados Unidos.  Da sobrevivência à resistência, das senzalas e quilombos, foi nascendo e se desenvolvendo uma cultura fulgurante, uma arte capaz de encantar a todos.  “Razões Africanas” é uma amostra disso.

 


LIVRO: A ARTE DA CRÍTICA

Luiz Zanin Oricchio, um dos mais importantes nomes da crítica de cinema da atualidade, ou melhor, dos últimos 30 anos de sua atividade no Estadão, lança livro novo: “A Arte da Crítica”, da Editora Letramento.  O lançamento será às 17 h do dia 26 de outubro, na Cinemateca Brasileira (Largo Sen. Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, São Paulo), durante a # 47 Mostra.  Zanin busca responder, com uma escrita ao mesmo tempo leve e elaborada, questões fundamentais sobre o exercício da crítica.  O que é crítica de cinema?  Qual é a sua finalidade?  A que estilo de escrita deve pertencer?  O que é preciso para ser um crítico?  E mais.  Na oportunidade, haverá um bate-papo, após a sessão de autógrafos, com Luíz Zanin, José Geraldo Couto e Paulo Henrique Silva, mediado por Maria do Rosário Caetano.

 

@mostrasp

 

 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016


40ª. MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO
20 de outubro a 02 de novembro de 2016
 
Antonio Carlos Egypto


O evento cinematográfico anual mais importante do país chega à sua 40ª. edição.  Incrível!  A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo completa 40 anos.  E pensar que eu vi o evento nascer, modestamente, mas já chamando muita atenção pela ousadia, no MASP.  Ao longo de todos esses anos, a Mostra foi responsável por moldar meu gosto cinematográfico e me mostrar a relevância da diversidade do cinema que se produz em todos os cantos do mundo.  De onde menos se espera, podem vir arte e criatividade em abundância, novas tendências estéticas, novos questionamentos, muita informação e conhecimento.

Ao trazer para o Brasil os destaques dos festivais mundiais e, regularmente, produções de países muito diferentes dos que habitualmente chegam ao circuito comercial, a Mostra criou público e espaço para um tipo de cinema mais reflexivo e inovador e alternativas para escapar à mesmice.



Um pouco dessa história será revisitado na 40ª. Mostra que, por exemplo, reapresenta “O Decálogo”, de Krzysztof Kiéslowski, uma obra-prima inspirada nos dez mandamentos bíblicos, de 1988, que veio da Polônia.  O país, por sinal, é foco nessa edição, traz a homenagem ao grande diretor polonês Andrzej Wajda, que acabou de falecer, aos 90 anos.  Uma retrospectiva de sua obra poderá ser vista agora, incluindo os trabalhos “Walesa”, de 2013, e “Wróblewski segundo Wajda”, de 2015.  Mas vale a pena assistir novamente (ou pela primeira vez) a filmes como “Cinzas e Diamantes”, “Danton – O Processo da Revolução”, “Kanal”, “O Homem de Mármore”, “O Homem de Ferro” ou qualquer outro dos 17 títulos que serão exibidos.

Outra homenagem será ao cineasta norte-americano William Friedkin, de “Operação França”, “O Exorcista” e “Parceiros da Noite”, entre outros.

O nosso grande ator Antonio Pitanga é homenageado com o prêmio Leon Cakoff e a exibição de “Barravento”, de Glauber Rocha, “A Grande Cidade”, de Cacá Diegues, além, é claro, do documentário “Pitanga”, de Beto Brant e Camila Pitanga. Há a exposição “Por Trás da Máscara – 50 anos de Persona”, que é uma celebração do grande clássico de Ingmar Bergman.

Espera-se uma bela seleção latino-americana e a exibição de 60 títulos recentes da produção brasileira, além da habitual diversidade que inclui a grande maioria dos países europeus, asiáticos e norte-americanos.  Estão representados na Mostra 50 países. 

Grande destaque para o diretor italiano Marco Bellocchio, que traz a arte do cartaz da Mostra que, por sua vez, inspirou uma bela vinheta que antecederá as projeções dos filmes.  De Bellocchio, 12 títulos, que vão de “De Punhos Cerrados” a “Vincere” e “A Bela que Dorme”, passando por “Diabo no Corpo”, “Bom-Dia, Noite” e as novas produções “Sangue do Meu Sangue”, “Belos Sonhos” e o curta “Pagliacci”.

Teria muito mais a apontar, como as programações itinerantes, exibições no vão livre do MASP e com orquestra, no Auditório Ibirapuera, debates e masterclass.  Entrem no site www.mostra.org e vão se fartar de informações.  Mas quero lembrar que em 28 de outubro, uma sexta-feira, durante a Mostra, na Livraria Blooks, do Shopping Frei Caneca, ao lado dos cinemas, estaremos lançando, a partir das 19:00 h, o livro 100 MELHORES FILMES BRASILEIRIOS, da Abraccine, em parceria com Canal Brasil e Editora Letramento.  Nele, eu comento um desses 100 filmes, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”.  Apareçam por lá.

A programação da 40ª. Mostra acontece em 42 salas de 35 locais de exibição, que vão do Auditório Ibirapuera ao circuito Spcine, que inclui 15 CEUs em diversas regiões da periferia de São Paulo.  E, evidentemente, todo o circuito em torno da avenida Paulista, com o Itaú Frei Caneca e Augusta, Cinearte, Cinesesc, Belas Artes, Reserva Cultural, Cinemark Cidade de São Paulo, Centro Cultural São Paulo, Itaú Cultural e MASP.  Tem também a Cinemateca Brasileira, o MIS e o Olido.  Serão exibidos 322 filmes. Quem puder ver 10% disso já está em grande lucro. Permanentes e pacotes de ingressos estarão à venda a partir de 15/10 no Conjunto Nacional da Paulista. Há sessões gratuitas em vários lugares.