quarta-feira, 31 de maio de 2023

EO

                                          Antonio Carlos Egypto

 



 


EO (Eo).  Polônia, 2022.  Direção: Jerzy Skolimowski.  Elenco: Sandra Drzymalska, Mateuz Koscivkiewicz, Lorenzo Zurzolo, Isabelle Hupert.  88 min.

 

“Eo”, novo filme do veterano cineasta polonês Jerzy Skolimowski, é uma homenagem a um clássico do diretor francês Robert Bresson (1901-1999) “A Grande Testemunha” (Au Hasard Balthazar), de 1966.  Nos dois casos, o protagonista dos filmes é um burro, ou jumento, e é por meio do que o animal vivencia que vemos o mundo, tanto o dos seres humanos como o dos animais.

 

No filme “Eo”, acompanhamos a vida errante e surpreendente do burro, que passa por todo tipo de experiência com os humanos, desde a sua dona, uma jovem que é afetiva, gosta dele e lhe dá carinho, até os que o tratam como burro de carga, com chicotadas e crueldade.  Resgatado, junto com outros animais de um circo, por um grupo de ativistas que defendem os bichos, sua vida, no entanto, não será de tranquilidade. 

 

Colocado marginalmente junto a outros animais, como cavalos de raça, representantes de uma outra classe, ou junto a porcos ou cachorros indo para o abate, sua vida não será fácil.  Diante do abandono ou da violência, Eo sai andando sem rumo, em busca de alguma outra coisa, o carinho da dona, por exemplo.  E testemunha todo tipo de eventos, como corridas, exibições e brigas de torcidas de futebol, que acabam por vitimá-lo.  Ele apanha sem motivo.  Por ter sido adotado como mascote por uma das torcidas, recebe o ódio da outra.  Sobrevive e segue em frente, até onde as circunstâncias permitirem.

 

Trata-se de um road movie animal, o burro percorre boa parte da Polônia e chega à Itália, passa por florestas, cidades, campos, sendo levado por humanos ou indo por conta própria.  Irrita-se, também, mas sua placidez e inocência são as marcas mais evidentes do animal.

 




Jerzy Skolimowski explora com muita beleza visual o mundo de Eo, seja o das árvores, da água, da lama, do sangue, do firmamento, ou dos estábulos, ruas e outras localidades da cidade.  É um filme a um tempo encantador, mas que também nos mostra o mundo tecnológico em que vivemos, que não tornou o ser humano melhor ou mais compreensivo, embora haja muita gente do bem por aí.  Destaque para o robô de quatro patas, que parece nos indicar um futuro estranho.  Distópico.  Assustador.  Ou atraente? 

 

Seja como for, “Eo” substitui o jumento Balthazar, do filme de Robert Bresson, que era realista e realizado com grande rigor formal, dando espaço para uma exploração visual mais livre e fantasiosa.  Com ótimo resultado, também.

 

“Eo” foi apresentado em Cannes, premiado pelo Júri e indicado pela Polônia para a disputa do Oscar de melhor filme internacional, ficando entre os finalistas.

 

Não deixe de ver (ou rever) também o filme original de Bresson.  Ele foi lançado em DVD pela Versátil, como “A Grande Testemunha”.  E você verá que o simpático burrinho, exposto a tanto que ele não pode controlar, é uma figura admirável, na sua simplicidade de um animal de menor porte e importância, que nos inspira não só a respeitar todos os animais, mas a incluir os excluídos nos direitos de todas as espécies.  Ou seja, valorizar a diversidade animal como se deve valorizar a diversidade humana.

 

 

quinta-feira, 25 de maio de 2023

O ÚLTIMO ÔNIBUS

Antonio Carlos Egypto

 

 



O ÚLTIMO ÔNIBUS (The Last Bus).  Reino Unido, 2021.  Direção: Gilles MacKinnon.  Elenco: Timothy Spall, Phyllis Logan, Grace Calder, Brian Pettifer.  86 min.

 

Com o cinema, a gente viaja para todo canto, desde que se interesse pelo que se produz em escala global.  Afinal, faz-se bom cinema em todo o planeta. 

 

 

A viagem pode ser a razão de ser do próprio filme.  O cinema tem um gênero para isso: o road movie.  As paisagens, situações, relacionamentos, sensações e sentidos mudam enquanto a geografia se revela.  É um gênero, geralmente muito interessante e agradável de se ver.  Um bom filme também precisa muito de um bom personagem, ou vários.  Um bom personagem é o começo indispensável de um bom filme. 

 

Quando se alia uma viagem, uma verdadeira odisseia, a um bom personagem, vivido por um grande ator, o resultado entusiasma.  É o que acontece com “O Último Ônibus”, o filme britânico dirigido pelo escocês Gilles MacKinnon.

 

Tomothy Spall, excelente ator inglês, de 66 anos, vive Tom, um homem de 90 anos, que encara uma enorme viagem, toda de ônibus, partindo de uma vila do nordeste da Escócia, onde mora, viúvo, em direção ao extremo sul da Inglaterra.  Com isso, refaz uma viagem realizada há 50 anos, marcada pela paixão pela mulher com quem viveu.  E meticulosamente procura refazer o percurso, em sentido contrário, pousando e passando pelos mesmos lugares da rota original.  O que não se revelará fácil.

 

A Grã-Bretanha mudou muito nesses 50 anos.  Em especial, pela diversidade cultural e humana que agregou ao longo desse tempo.  Os comportamentos, hábitos e linguagem são exemplos disso.  A capacidade de acolher, a educação, tudo soará para ele um pouco estranho e desafiador.  Mas muita coisa nova, e boa, ele encontrará pelo caminho.

 




De toda a forma, uma viagem como essa – aos 90 anos, de ônibus – é uma prova de resistência bastante dura, mesmo para um cidadão que goza de boa saúde.  Qualquer incidente pode ser sentido no corpo, com muito mais intensidade do que ele já experimentou ao longo de toda a vida. Ele nunca teve 90 anos antes.  Assim, sem alguma solidariedade, ele não conseguiria sobreviver nesse desafio que ele mesmo se impôs.

 

A odisseia de Tom acaba tomando proporções que ele não imaginava.  Mas sua resiliência é espantosa. E seu objetivo, muito forte.  O filme acompanha Tom em toda a sua jornada, realçando detalhes, sentimentos e a determinação férrea do personagem.  É bonito acompanhar todo esse processo, uma verdadeira ode à vida.  Que mostra também que um objetivo, uma razão de ser para viver, é fundamental para manter o corpo ativo e respondendo às necessidades da existência, ainda que bastante desgastado.

 

Outro aspecto importante: nos road movies a viagem costuma ser uma forma de aprendizado, de mudança de perspectiva e da maneira de encarar a vida.  Será que Tom nessa idade ainda tem o que aprender?  E se disporá à mudança, no ocaso de sua caminhada humana?

 

“O Último Ônibus” segue uma narrativa linear e cobrindo a evolução geográfica do trajeto.  Não tem grandes inovações formais a apresentar, mas é um filme cativante, que engrandece ainda mais esse magnífico ator que é Timothy Spall, pelo desempenho notável que nos apresenta.

 

O filme também tende a ficar na nossa mente e nos provocar em diversos aspectos.  Não é algo de que se esqueça quando termina a projeção.  Deixa uma marca indelével nos espectadores que tenham sensibilidade para as questões humanas, em especial, a do envelhecimento.;



 

terça-feira, 23 de maio de 2023

MEU VIZINHO ADOLF

                        Antonio Carlos Egypto

 




MEU VIZINHO ADOLF (My Neighbor Adolf).  Israel, Polônia, 2022.  Direção: Leon Prudovsky.  Elenco: David Hayman, Udo Kier, Olivia Silhavy, Danharry Colorado, Jaime Correia.  96 min.

 

Fake News sempre existiram.  Afinal, as pessoas querem acreditar naquilo que corresponde às suas opiniões e desejos, em que pese a evidência contrária dos fatos.  Adolf Hitler (1889-1945) continuou no imaginário de muitos como se tivesse sobrevivido à Segunda Guerra Mundial e não organizado um ritual de morte de sua família, incluído o próprio suicídio, quando a derrota já estava consumada, em Berlim.

 

Em 1960, Adolf Eichmann (1906-1962), um dos principais organizadores do Holocausto, seria capturado na Argentina pelo Serviço Secreto de Israel. Isso teve grande repercussão e consequências.  E gerou a busca por outros possíveis figurões nazistas na América do Sul.

 

A combinação dessas duas situações serviu de mote à comédia “Meu Vizinho Adolf”, dirigida por Leon Prudovsky, em que, em 1960, um vizinho recém-chegado a uma pequena localidade argentina produz sérias suspeitas em Polsky (David Hayman).  Seria seu novo vizinho o próprio Hitler?  Aí começa uma investigação com lances de “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, e evidências que se acumulam, apesar da esperada descrença das autoridades locais.  Tal investigação acaba levando ao convívio do velho rabugento Polsky com seu vizinho, o velho rabugento Herzog (Udo Kier), o suposto Hitler.


 



O filme, cujas locações se deram na Colômbia, em Medellín e Bogotá, explora essas situações com uma comicidade, sim, mas que não chega a ser muito engraçada.  Tempera a comicidade com o drama pessoal dos dois personagens centrais e o contexto que os envolve.  Trabalhando com o tema do Holocausto, nos remete à questão judaica e humana que o caracteriza, com sensibilidade.  Lida, também, com a ambiguidade dos sentimentos e das relações afetivas em um ambiente previamente conflagrado, o que leva inevitavelmente ao sofrimento no plano pessoal.

 

A proposta é boa, mas se perde ao longo da narrativa, especialmente quando tem de encaminhar a solução para a situação criada.  Ela não convence, nem é suficientemente explicada para ficar de pé.

 

De qualquer modo, temos dois bons atores, já veteranos, que seguram o filme e nos tocam com seus desempenhos.  A fotografia cria o clima mais adequado aos aspectos lúgubre e dramático da trama, do que aos quiproquós da “investigação”.  Pelo menos na cópia a que assisti, o filme é demasiadamente escuro, dificultando até a compreensão visual de algumas cenas noturnas.  Em que pese o tema bastante sério, embora já muito explorado, o que fica é um entretenimento agradável, nada mais do que isso.




sexta-feira, 12 de maio de 2023

SEM URSOS

 Antonio Carlos Egypto





SEM URSOS (Khers Nist), de Jafar Panahi, do Irã, nos remete ao cinema híbrido e inovador deste renomado diretor.  O que ele mostra, atuando no próprio filme, é o que acontece quando ele se decide a viver por um tempo numa cidade interiorana, bem provinciana, na fronteira com a Turquia.  O que poderia ser uma oportunidade de sossego e repouso se transforma numa complicação constante, dados os hábitos peculiares daquela comunidade.  O simples ato de fotografar ocasionalmente um casal prestes a se unir envolve tantas coisas que, em poucos dias, tudo se torna insuportável.  É melhor se mandar de lá, enquanto é tempo.  Os amantes terão de enfrentar fortes obstáculos que a superstição local alimenta e os jogos de poder aí envolvidos.  Documentário fortificado pela ficção?  História inteiramente inventada, ou parcialmente verdadeira?  Trama criada a partir da observação de elementos da comunidade?  Nunca saberemos.  O que é fato, imaginação, criação ou simples descrição, na verdade, não importa no cinema de Panahi.  O que vale é o seu talento para nos comunicar essa interessantíssima narrativa.  Com Jafar Panahi, Naser Hashemi, Vahid Mobaseri, Bakthian Panjel.  107 min.








 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

O HOMEM CORDIAL

Antonio Carlos Egypto

 

 



O HOMEM CORDIAL.  Brasil, 2019.  Direção: Iberê Carvalho.  Elenco: Paulo Miklos, Dandara de Morais, Thaíde, Felipe Kenji, Thalles Cabral, Theo Werneck.  82 min.

 

Uma característica constante de narrativa de “O Homem Cordial”, de Iberê Camargo (“O Último Drive- In”, 2015), é a fragmentação, a incompletude, os aspectos misteriosos que estão presentes nas situações.  Como se dissesse: não sabemos bem o que está acontecendo e por que está acontecendo, mas experimente ir por aqui, que alguma coisa se esclarecerá.  Mas, mesmo ao final do filme, não vai ficar tudo compreensível, não.

 

Na verdade, a realidade, sobretudo a social, é apreendida assim.  Por elementos soltos, notícias que aparecem, julgamentos peremptórios a partir das redes sociais, gabinetes do ódio, cancelamentos, efeitos manada.  Que produzem injustiças brutais, destruição de biografias de um modo inaceitável, para um povo civilizado.  A barbárie entrando pelas frestas e ocupando a cena.  “O Homem Cordial” se nutre de questões como essas, que refletem o momento que se vivia no Brasil e que já, felizmente, está sendo superado.  Mas não está fácil reencontrar o que seria o sentido comum da cordialidade, ou seja, a amabilidade, a leveza e a gentileza, tão necessárias.  Todavia, o filme remete mais ao conceito de cordial de Sérgio Buarque de Holanda, que significa passional, do coração, que age pelo afeto.  E o afeto escamoteia, mascara, o conflito.

 

A verdade é que Aurélio, vocalista e líder da banda de rock fictícia Instinto Radical, vivido em belo desempenho de Paulo Miklos (já que tem bastante a ver com a sua própria vida artística), é uma mistura de passionalidade e amabilidade, amalgamando os dois sentidos que se pode dar à palavra cordial.

 




Aurélio é o protagonista de uma trama em que se sabe que um policial morreu (acidentalmente?).  Aurélio é acompanhado o tempo todo pela câmera, que nunca se desliga dele.  Com isso, acompanhamos o eventual que se liga ao trágico, o julgamento, o linchamento e a tentativa genuína de ajudar, em relação ao mesmo personagem.

 

Ele é um jovem branco, de classe média/média alta, que tem todas as condições de se expressar livremente, num período pós-ditadura que, no entanto, esbarra na barbárie saindo do armário, nostálgica, na polícia que garante o privilégio da branquitude, mas é implacável diante da negritude e da pobreza.  É aí que o garoto negro, que sumiu na confusão em que estava envolvido o roqueiro, ganha força e o filme busca o indispensável combate ao racismo estrutural.

 

É um filme que lança muitas questões, reflete com vigor a sociedade brasileira, seus caminhos, descaminhos e perplexidades, mas que não se peja em também se apresentar confuso, como todos nós.  Olhando pelas frestas para tentar ver o todo. E sem conseguir, naturalmente.

 

Em tempos de mudança, num momento pós-traumático, livrando-se de um golpe e da perspectiva de um fascismo rasteiro e incompetente, dá vontade de olhar para a frente e esquecer esse passado recente.  Mas é bom não minimizar o perigo, já que as chamadas elites, ainda nutridas de espírito escravista, parece que arriscam de tudo para salvar seus privilégios.  Como diria Mino Carta, dialogando com seus botões, casa grande e senzala continuam por aí, incólumes.  “O Homem Cordial” reafirma isso no cinema, embora menos convicto do que o texto jornalístico, com sua modernidade em fragmentos.




domingo, 7 de maio de 2023

RODEO

Antonio Carlos Egypto

 

 



RODEO (Rodeo), França, 2022.  Direção: Lola Quivoron.  Elenco: Julie Ledru, Yanis Lafki, Antonia Buresi, Cody Schroeder.  110 min.

 

O primeiro apelo que “Rodeo” tem é bem evidente.  Trata-se de um filme para quem gosta de motos, sabe valorizar os modelos e estilos delas e, principalmente, curte vê-las em ação, tomadas pela velocidade.  As disputas e exibições de manobras arriscadas com as motos, como equilibrá-las numa roda só em velocidade, ocupam várias sequências de “Rodeo” desde o seu início.

 

Entretanto, o filme vai se revelando bem mais interessante do que isso, à medida em que evolui sua narrativa.  A protagonista Júlia (Julie Ledru) é uma garota que quer entrar nesse mundo, dominantemente masculino.  Mais do que isso: machista e misógino.

 

Outro aspecto importante: estamos falando de um grupo social empobrecido e marginal.  Eles roubam motos, ou peças, montam e ganham dinheiro nessa atividade ilegal, coordenada por um presidiário, de dentro da cadeia, por meio de smartphones.

 

Esse caráter marginal do negócio torna bem mais sórdida a ilegalidade dos rachas e exibições de proeza dos encontros das motos. E vamos conhecendo as disputas internas, a agressividade, a violência e as vulnerabilidades desse grupo de rapazes.  O que, em princípio, deveria tornar mais difícil a entrada de Júlia, a única mulher no grupo.  As outras mulheres que aparecem são apenas companheiras, namoradas, andando na garupa das motos.  A única que se coloca como equiparação aos homens é Júlia.  E para ela isso não é difícil: além de dominar o manejo das motos, ela é uma exímia ladra de motos da burguesia, o que lhe abre um flanco importante de poder junto ao grupo e ao personagem encarcerado Domino (que só aparece como voz).

 




Ocorre que o preconceito é mais forte e fala mais alto do que a própria realidade, ali palpável.  Júlia será foco de rejeição, agressividade verbal, desrespeito ao seu corpo, ataques físicos e reações de inveja.  É bom que se diga que ela, como personagem, não é apenas uma vítima.  Ela joga o jogo e bebe a pinga, como se diz popularmente.  Equipara-se, em grande medida, às características do grupo em que se incluiu, mesmo que a contragosto de vários.  Sendo acolhida por alguém do grupo, como Kais (Yanis Lafki), ou por algumas pessoas, como Ofélia (Antonia Buresi), mulher de Domino, e seu filho, Kaylan (Cody Schroeder).

 

Resumo da ópera: o filme da diretora Lola Quivoron alcança uma visão feminista bem realista e escorada numa compreensão dos aspectos sociais muito clara.  Revela-se, assim, algo bem mais profundo do que aparentava ser.  O que pode interessar a muito mais gente do que só àqueles que amam e curtem motocicletas.



sexta-feira, 28 de abril de 2023

JAIR E O CINEMA

   Antonio Carlos Egypto

 

Entrou em cartaz nos cinemas um documentário que comentei aqui por ocasião do festival É TUDO VERDADE de 2020 sobre o nosso saudoso cantor Jair Rodrigues. 

 


JAIR RODRIGUES – DEIXA QUE DIGAM, dirigido por Rubens Rewald, é um documentário muito competente sobre um artista cujo talento se evidencia por inteiro.  Jair Rodrigues (1939-2014) foi um excelente cantor de sambas, mas também dos mais diferentes gêneros, com um repertório muito bem escolhido e momentos memoráveis, quando, com seu primeiro sucesso, antecipou o rap com “Deixa Isso Prá Lá”, o Fino da Bossa, com Elis Regina, os Festivais e a inesquecível interpretação de “Disparada”, sucessos como “Tristeza”, “Majestade, o Sabiá” e tanta coisa mais, que o filme mostra com toda a clareza.  É possível conhecer e apreciar esse trabalho muitíssimo bem.  É isso o que importa, quando se focaliza uma obra artística de peso, como é o caso aqui. 90 min.

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A mostra AMOR AO CINEMA, que está acontecendo de 27 de abril a 10 de maio de 2023, no Cinesesc em São Paulo, permite rever filmes famosos e alguns recentes, que têm o cinema como protagonista.  Entre os que podem ser considerados clássicos, vale a pena rever na telona “Cantando na Chuva”, “Crepúsculo dos Deuses”, “A Noite Americana”, “A Rosa Púrpura do Cairo”, “A Invenção de Hugo Cabret”, “Meu Melhor Inimigo” e o recente “Os Fabelmans”.  Mas há filmes muito bons sobre a temática do cinema, que são menos conhecidos, como “Serbis”, “Adeus, Dragon Inn”, “Salve o Cinema”, “Depois da Vida”, além de brasileiros, como “Um Filme de Cinema”, “Matou a Família e Foi ao Cinema”, “Cine Marrocos”, “Saneamento Básico, o filme” ou “A Mulher de Luz Própria”.  O que não falta nessa mostra são bons filmes.  Reproduzo aqui o comentário postado no cinema com recheio em outubro de 2022  sobre um desses filmes.

 


O DEUS DO CINEMA (Kinema no Kamisama), Japão 2021, do diretor Yôji Yamada, que tem 91 anos (nasceu em 1931) é, como o nome já indica, uma homenagem ao cinema.  O cinema percebido até como um bálsamo, uma cura para problemas de difícil solução.  Como o de Goh, apostador inveterado, que perde tudo e está sempre à espera da bolada que vai saldar suas enormes dívidas.  Enquanto isso, a família sofre e resolve confiscar o dinheiro da sua aposentadoria.  Mas, sabendo do seu amor pelo cinema, mantém a verba para que ele possa ver todos os filmes que quiser, retornar ao cinema onde trabalhou com seu amigo Terashin, dono de uma sala e projecionista.  Goh chegou a tentar ser diretor de cinema e tinha engavetado um belo roteiro, chamado “O Deus do Cinema”.  Esse roteiro, revisto e retrabalhado, pode ser a sua tábua de salvação, desde que atualizado e modernizado, contando com a nova geração representada por seu neto.  Revemos, então, todo o passado que deu origem a isso, enquanto a magia do cinema e aspectos da história do cinema japonês clássico e suas estrelas são mostrados com admiração.  Yoshiko, sua mulher desde há muito, também faz parte importante dessa história, dá o toque não só romântico como de disputa, ciúme e rompimento, entre os amigos.  Exploram-se, portanto, dois grandes momentos da vida de Goh: o seu passado no cinema e o seu momento envelhecido, em que o cinema volta a ocupar o primeiro plano na sua vida.  Amor que é amor é assim: Goh queria morrer numa sala de cinema, assistindo a um filme.  Fez-me lembrar do nosso Jô Soares, tão cinéfilo quanto, que preferia viver seus últimos dias em casa, vendo filmes, em vez de estar numa UTI, isolado, entubado, com todos os equipamentos à disposição, mas infeliz e prolongando algo já sem sentido.  Com o cinema, o sentido estaria lá até o último instante de vida.  Com Kenji Sawada, Masaki Suda, Mel Nagano, Nobuko Miyamoto, Keito Kitagawa.  125 min.

 


terça-feira, 25 de abril de 2023

DOCUMENTÁRIOS PREMIADOS

Antonio Carlos Egypto

 

O Festival Internacional de Documentários É TUDO VERDADE concluiu sua 28ª. edição com a reapresentação dos longas (e curtas) vencedores da competição internacional e nacional.

 

Confiança Total

O longa internacional escolhido pelo Júri foi o ótimo CONFIANÇA TOTAL (Total Trust), dirigido pela chinesa Jialing Zhang, produção da Alemanha e Países Baixos.  O filme nos mostra, com toda a clareza, o Estado chinês utilizando recursos tecnológicos cada vez mais avançados, para controlar as pessoas de modo quase absoluto.  Não só pela imensidade de câmeras espalhadas por todos os cantos, mas pelo controle exercido por elementos da vizinhança, pelas instituições que controlam e manipulam dados de saúde, por exemplo, e os aplicam para tolher movimentos ou entradas em locais públicos.  A função de advogado leva à provável imputação de subversão do Estado, quando o assunto é a defesa dos direitos humanos, e por aí vai.  Em nome da suposta transparência, alcança-se amplo abuso de poder estatal sobre as pessoas.  A contrapartida do crescimento do padrão de vida e de consumo é a perda da liberdade?  A denúncia é clara, se não lutarmos contra a evolução do autoritarismo, na China ou em qualquer outro lugar, passaremos a estar submetidos a ambientes assustadoramente opressores, mesmo com a aparência da maior normalidade.  O que não é possível é ser conivente. 97 min.

 

O documentário polonês, PIANO FORTE, de Jakub Piatek, que recebeu Menção Honrosa do Júri Internacional, focaliza a lendária Competição Internacional Chopin de Piano, que acontece a cada cinco anos em Varsóvia.  Num processo de seleção rigorosíssimo, vão sendo eliminados, pouco a pouco, os cerca de 160 concorrentes selecionados, até chegar aos  10 melhores.  Uma competição que gera muita tensão, ansiedade, exige dedicação extrema e produz, consequentemente, decepção e frustração.  O filme acompanhou alguns candidatos e candidatas sem saber até onde eles iriam.  Retratou a realidade humana dessa disputa, que, como qualquer disputa decisiva, é dilacerante, já que pode garantir ou podar de vez as chances de uma carreira brilhante.  Uma oportunidade que pode acontecer, talvez com esta força, só uma vez na vida.  Quem sabe?  Bem dirigido, com boa música e honesto na compreensão psicológica dos participantes, sem fazer julgamentos, o filme flui muito bem. 91 min.

 


Já que estamos falando de música, gostaria de destacar o documentário estadunidense LITTLE RICHARD – EU SOU TUDO (Little Richard – I am everything), que celebra a empolgante trajetória do arquiteto/criador do Rock and Roll, negro, gay, cantor, dançarino e instrumentista de grande vibração.  Suas vitórias, lutas e sofrimentos, estão bem abordados no filme dirigido por Lisa Cortez que, entre outras coisas, destaca o embranquecimento que se tentou operar no rock, às custas de Little Richard, promovendo Elvis Presley e Paul Anka a grandes ídolos.  Mas a aura de Richard resistiu e o reconhecimento do próprio Elvis, dos Beatles, de Mick Jagger, de Elton John e de David Bowie, é eloquente.  O homem era uma fera, mesmo.  98 min.

 

O documentário nacional premiado como melhor pelo Júri foi INCOMPATÍVEL COM A VIDA, em que a diretora Elisa Capai registra a sua experiência de uma gravidez com a sentença de morte do feto já definida do ponto de vista médico.  E sai em busca de outras mulheres que tiveram experiências similares.  É algo trágico e muito sofrido, e também uma questão de saúde pública, à medida em que o aborto, legal e necessário, num caso de anencefalia, é frequentemente negado pelos hospitais e pelos médicos.  O que só aumenta a sensação de solidão e abandono das gestantes.  O filme enfatiza o aspecto emocional do problema e dá vez e voz às mulheres que estão imersas nessa situação.  92 min.

 

Incompatível com a Vida

O curta-metragem brasileiro premiado foi MÃRI HI – A ÁRVORE DO SONHO, do cineasta yanomami Morzaniel Iramari, que aborda os sonhos e experiências de sua comunidade indígena, tão sofrida e agora doente.  Mas o filme não se refere às mazelas atuais e, sim, às características culturais do povo yanomami.  17 min.

 

O curta ucraniano/polonês PTITSA, de Alina Maksimenko, trata do relacionamento mãe e filha no período de lockdown, em função da pandemia.  O que aproxima, para o bem e para o mal, quem vivia num convívio mais distanciado.  Foi o premiado internacional.  É um filme sensível, que trata de uma questão que, de um modo ou de outro, todos tivemos que viver.  30 min.

 

Esses filmes oportunamente poderão ser vistos, pelo menos os longas, nos cinemas.

 

 

 

 

quinta-feira, 20 de abril de 2023

MAIS DOCS EM DESTAQUE

                       Antonio Carlos Egypto

 

 


Um dos melhores filmes da seleção de documentários do É TUDO VERDADE 2023 é FRONT DO LESTE, produção que envolve Ucrânia, Letônia, República Tcheca e Estados Unidos, dirigido por Vitaly Mansky e Yevhen Titarenko.  O filme mostra a guerra da Ucrânia, em andamento, da perspectiva do cidadão comum, que tem que conviver com ela todos os dias, lidar com bombardeios, destruição, mortos e feridos e tantas outras questões daí decorrentes e que precisa de força, de dedicação e, por incrível que pareça, de humor.

 

Acompanha um grupo de jovens voluntários dedicados a atender os feridos do front ucraniano, em condições precárias – gostaria de dispor de um veículo blindado, por exemplo – na base do desespero, mas com empenho, amor e fé.  E mostra as pessoas discutindo questões práticas um tanto inusitadas, como a de tentar salvar vacas de um atoleiro que a guerra acentuou, lidar com escombros, moradias destruídas e até com a perspectiva de procurar bancos de espermas para congelar o sêmen dos que podem partir em plena juventude, mas desejariam procriar.  As conversas num encontro festivo especial, que acabou acontecendo, tornam-se até engraçadas e surreais.  Como a do jovem que, por uma doença dos ossos, estava totalmente incapacitado para a ação militar, mas que acaba de inapto total a plenamente capacitado para as ações da guerra em que ele queria lutar pela Ucrânia.

 

As relações entre ucranianos e russos, sobretudo nas cidades fronteiriças, estão borradas e os vínculos são complicados.  E ainda sujeitos a uma guerra de versões, sobretudo pela propaganda russa que alcança e convence ucranianos.  Enfim, o tema é bastante complexo e o documentário dá conta de nos mostrar tal complexidade, pelo menos no sentido de como isso é vivido pelos cidadãos que sofrem as consequências desse conflito bélico dos nossos dias.

 

O filme é muito bom, também, porque é bem filmado.  Usa uma câmera na mão ativa e pulsante, enquadramentos surpreendentes pela performance, principalmente nas cenas que envolvem tensão, leveza no registro de falas e conversas informais, climas que oscilam entre o drama e a amargura da guerra e o sentimento do cotidiano de que essa é a nossa vida agora e que é preciso encará-la com disposição e espírito de vitória.  98 min.

 

                        DOIS DESTAQUES NACIONAIS

 

NADA SOBRE MEU PAI, o documentário de Susanna Lira, fala da busca da própria diretora por seu pai, que ela não conheceu, no Equador. Natural de Quito, foi um jovem guerrilheiro equatoriano, que lutava contra as ditaduras que pipocaram pela América Latina, nos anos 1960-1970, principalmente. E o plural ditaduras cabe bem ao caso porque ele veio para o Brasil também para combater a nossa ditadura militar, por sinal mais prolongada, avançou pelos anos 1980.  Na busca pela origem e identidade, ela explora em uma espécie de road movie as instituições e os órgãos de comunicação do Equador, em busca de pistas que pudessem levar a ele.  Numerosos indícios surgem, mas igualmente possibilidades e pistas falsas.  Seja como for, a jornada de busca é rica e tem muito a ver com a cineasta, que se percebe com a inquietação e a determinação política que seu misterioso pai deixou de legado.  Muito interessante acompanhar essa viagem que ela registrou e participar das memórias e reflexões que um país antes desconhecido pôde lhe trazer.  93 min.

 



171, de Rodrigo Siqueira, se debruça sobre o chamado estelionato, em que as pessoas usam suas habilidades para manipular os outros, aplicar golpes, praticar crimes. Evidentemente, esse tipo de crime pode ter origem em coisas como a fome, o desemprego e o desespero da falta de perspectivas. Porém, quando alguns descobrem que a coisa dá certo, se especializam nessa atuação e têm tanto prazer nessa conquista que ela se torna uma autêntica dependência, já se separou de suas motivações originais.  O documentário 171 encontra pessoas encarceradas em presídios de São Paulo, que são narradores astuciosos, envolventes, que contam suas histórias, mas não sabemos quantas e quais delas são verdadeiras ou simples enredos inventados ou incrementados por outros elementos. Em tempos de mentiras, fake news, disputa de narrativas, as cenas e situações que o filme mostra são muito esclarecedoras do que pode ser a fraude, a encenação de papéis que nos confunde e hipnotiza e das quais é difícil se livrar.  Além do mais, curtir esses personagens na tela é bem divertido. O diretor é o mesmo de um dos documentários mais instigantes que eu vi: “Terra deu, Terra come”, em 2010.  95 min.

 

www.etudoverdade.com.br

 

 

 

 

domingo, 16 de abril de 2023

DOCS EM DESTAQUE

Antonio Carlos Egypto

 

Documentários surpreendentes, inovadores, instigantes, provocadores, informativos.  Essa é a matéria-prima do festival É TUDO VERDADE 2023, com sua variedade de temas, referências e estilos de narrar a realidade.


 

Beleza Silenciosa

O abuso sexual é o tema do documentário norte-americano (México/EUA) BELEZA SILENCIOSA, em que a diretora estreante Jasmín Mara López conta sua própria história, de como ela enfrentou e superou o abuso sofrido aos 9, 10 anos de idade, pelo avô Gilberto, 30 anos atrás.  Ela optou pelo processo corajoso do enfrentamento, levando o assunto à família diretamente.  Descobriu que houve vários outros casos, encontrou ceticismo, negação, defesa do abusador, omissão e até orientação para calar-se, passar o pano, como se diz atualmente.  Pelo abusador, como de costume, obteve a resposta de que era delírio, imaginação dela.  O filme é muito interessante, bem realizado, inclusive visualmente bonito e corretíssimo ao colocar os elementos relevantes da questão como ela de fato se dá: geralmente dentro da família e com a conivência de familiares.  88 min.

 

A produção canadense AMERICANO: UMA ODISSEIA A 1947, dirigido pelo jovem Danny Wu, traça a já conhecida trajetória do gênio Orson Welles desde o início da sua carreira no teatro, no rádio e no cinema, até a sua saída definitiva dos Estados Unidos rumo a Roma, em 1947.  Estão lá o “Cidadão Kane”, a invasão dos marcianos na rádio transmissão histórica, a vinda ao Brasil para filmar o carnaval, o empastelamento do filme “The Magnificent Ambersons” (“Soberba”, no Brasil), a rejeição e derrocada em Hollywood, mas também e principalmente seu claro posicionamento político em defesa dos direitos humanos, que o levou à acusação de comunismo e de atividades antiamericanas. Inclui histórias de americanos de origem japonesa e suas relações com Pearl Harbor e a bomba de Hiroshima.  E ainda o herói negro esquecido, que, agredido, ficou cego e foi defendido enfaticamente por Welles no rádio, o que ampliou seus problemas na época.  Ou seja, uma narrativa mais ampla e abrangente da grande figura que Orson Welles foi, para além do grande e polêmico criador que o cinema conheceu. 102 min.

 

Danny Wu


O CASO PADILLA (Espanha/Cuba), dirigido por Pavel Giroud, trabalha com uma fita contendo a gravação da autocrítica do escritor e poeta Heberto Padilla, feita em 1971, após prisão pelo regime cubano, em encontro de escritores marcado para esse fim. Um depoimento em que ele se humilha, nega todas as suas ideias e sua obra premiada, ao se declarar contrarrevolucionário, rebaixando-se e repetindo que estava completamente errado e a Revolução Cubana, completamente certa.  Não só no seu caso, mas no de alguns de seus colegas escritores ali presentes e de sua própria mulher.  A que ponto de degradação pode chegar alguém, no caso, um intelectual, para salvar a pele e se autodestruir?  Sua autocrítica é tão obviamente falsa que, longe de proteger o regime cubano naquele período, só o comprometeu.  87 min.

 


Hot Club Montevideo

O documentário uruguaio HOT CLUB DE MONTEVIDEO, dirigido por Maximiliano Correnti, filho de um grande músico, resgata a notável trajetória da instituição de jazz mais antiga da América Latina, que sobrevive até hoje, mesmo tendo perdido sua sede física, o que ocorreu outras vezes.  Em sede própria, num porão, na Aliança Francesa, no Kalima Boliche, ou onde quer que seja, o jazz de pioneiros uruguaios, como Paco Mañosa, Horacio “Bocho” Pintos, Edgardo Falero, Ricardo León Serena e muitos outros, se une a todos os grandes nomes do jazz mundial.  Pelo menos, todos aqueles que um dia passaram por Montevideo e, inevitavelmente, tocaram lá.  Os registros de fotos e filmagens comprovam.  O filme respira música da melhor qualidade e caminha por décadas pela história da capital uruguaia.  Há uma nostalgia, relativa, no ar e nos depoimentos.  Afinal, com a pandemia e com todas as dificuldades, o Hot Club de Montevideo continua vivo.  90 min.

 

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