sexta-feira, 26 de julho de 2019

3 FRANCESES

Antonio Carlos Egypto


O cinema francês tem tido uma presença constante no mercado cinematográfico brasileiro.  Cada vez mais filmes são exibidos e têm conquistado um bom público para seus produtos.  Com o aumento da quantidade, porém, perde-se um pouco a qualidade. Filmes apenas medianos e mais comerciais ocupam espaço e, por vezes, frustram as expectativas desse público que já se acostumou e se identificou com o cinema francês contemporâneo.  Vejamos alguns títulos que estão nos cinemas.



OS DOIS FILHOS DE JOSEPH

OS DOIS FILHOS DE JOSEPH (Deux Fils) tem um fio condutor interessante.  O adolescente Ivan (Mathieu Capella), de 13 anos, tem seu pai Joseph (Benoît Poelvoorde) e seu irmão mais velho, Joaquim (Vincent Lacoste), como referências masculinas importantes .  Só que os dois o decepcionam significativamente nesse papel.  O pai, porque após a morte do irmão abandona a profissão de médico para tentar ser escritor.  Joaquim, porque deixou sua tese de lado e só vive atrás de mulheres e bebida.  Exemplos que ele não quer seguir, mas... sabe como é, né?
O elenco é excelente, mas não rende tudo o que podia, nem a trama consegue se aprofundar no assunto.  Os personagens não são tratados como fracassados, embora estejam sendo, mas não são categorias, são pessoas que sentem, se confundem, se perdem, mas merecem respeito.  Já é alguma coisa, claro.  Mas não é o suficiente.
O tom é leve, no entanto o filme não chega a ser engraçado.  E o drama dos personagens fica no meio do caminho.  90 min.

O PROFESSOR SUBSTITUTO (L’Heure de la Sortie), de Sébastien Marnier, começa de forma impactante.  Vê-se que o professor de uma turma de alunos superdotados se joga da janela, tentando o suicídio.  E quem vai enfrentar esses alunos que têm comportamentos muito estranhos, em vários sentidos, é justamente o professor substituto.  Acontecerá o mesmo com ele?  Qual o segredo que esses alunos escondem?  Por que rejeitam e são rejeitados pelos outros jovens da escola?  E a coisa toda passa do ambiente educacional para o campo do suspense e do terror, indo para um outro registro.  Um bom elenco e questões relevantes contemporâneas, que recheiam a trama, não chegam a produzir um filme que empolgue.  104 min.



UM HOMEM FIEL

UM HOMEM FIEL (L’Homme Fidèle), de Louis Garrel, se inspira na tradição da nouvelle vague, lidando com um quarteto amoroso, formado por Abel (Louis Garrel), Marianne (Laetitia Casta), Paul (Joseph Engel) e Eve (Lily-Rose Depp), envolvendo separações, perda da mulher para o amigo, retorno no tempo, expectativas amorosas que vêm desde a meninice, suas alternativas, possibilidades e impedimentos.  Nada de tão novo, exceto o foco na fidelidade masculina, mas o filme flui bem, envolve e trata de gente real.  As relações amorosas, sob os mais diversos ângulos, sempre foram o forte do cinema francês.  O filme foi escrito pelo diretor e ator Louis Garrel, Florence Seyvos e ninguém menos do que Jean-Claude Carrière, um dos maiores roteiristas da história do cinema francês.  E isso faz toda a diferença.  O filme dá seu recado sem enrolar nem perder tempo, em apenas 75 minutos, bem aproveitados.






domingo, 21 de julho de 2019

ALADDIN

Antonio Carlos Egypto






ALADDIN (Aladdin).  Estados Unidos, 2019.  Direção: Guy Ritchie.  Com Will Smith, Mena Massoud, Naomi Scott, Marwan Kenzari.  128 min.


A história árabe de Aladdin e de sua lâmpada maravilhosa remonta a muitos séculos. Difícil identificar sua origem no tempo.  Ela foi incorporada aos contos das Mil e Uma Noites e encantou o Ocidente.  Tanto que são incontáveis os produtos e as diferentes adaptações da trama de Aladdin. 

Em 1992, em forma de desenho animado da Disney, Aladdin fez um sucesso estrondoso.  O que justifica sua refacção agora, na forma live action, ou seja, a repetição da animação, agora com atores, e tantos efeitos especiais quanto possível, para tornar humano o desenho.  Um gênio tem de sair da lâmpada, tapetes têm de voar, as peripécias, saltos e quedas do personagem principal não são nada realistas, e assim por diante.  No entanto, os recursos que o cinema tem hoje permitem criar com pessoas o que só o desenho poderia fazer no passado.

É preciso lembrar, porém, que a fantasia nasceu junto com o próprio cinema.  Georges Méliès (1861-1938) já fazia todo o tipo de truque, como jogar cabeças de um corpo a outro, por exemplo, antes mesmo de o século XX chegar.  A viagem à lua completa agora 50 anos, mas Méliès já tinha feito sua viagem à lua no cinema em 1902.  Um dos filmes mais emblemáticos da sétima arte.




Em “Aladdin”, a fantasia chega a níveis alucinantes, combinada com a ação e o ritmo vertiginoso que o filme tem, a garotada não tem do que reclamar.  Especialmente a criançada.  Constatei isso indo a uma sessão diurna cheia de crianças, algumas bem pequenas, e imaginei que a zoeira durante a projeção seria inevitável.  Para minha surpresa, não foi.  Interesse e silêncio foi o que mais se pôde perceber naquela ocasião.  “Aladdin” prendeu a atenção da turma de uma forma incrível.

Mérito da concepção original da animação e do diretor inglês, Guy Richtie, responsável pela refacção atual.  O cineasta já fez filmes como “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes’ (1998), “Sherlock Holmes: o Jogo de Sombras” (2011) e “Rei Arthur: a Lenda da Espada” (2017).  É bom de taco para o entretenimento e personagens mitológicos.

Claro que podemos questionar essa história de o Oriente ser pura fantasia, extravagante, exótica ou, então, de virar terra de fanáticos terroristas islâmicos.  Além disso, há muitas e diferentes visões de mundo e comportamentos no chamado Oriente, que tem grande diversidade e não cabe em generalizações que pretendam anular essas diferenças.  Clichês, seja de que tipo forem, não servem para se entender as pessoas, os povos, as culturas.  “Aladdin” não escapa aos estereótipos de costume, mas que é bom entretenimento, é.

Will Smith faz um gênio exuberante e divertido e o casal formado por Aladdin e a princesa (Mena Massoud e Naomi Scott) consegue conquistar a simpatia do público.





quarta-feira, 10 de julho de 2019

ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

Antonio Carlos Egypto





ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR.  Brasil, 2018.  Documentário.  Direção e roteiro: Marcelo Gomes.  85 min.


“Cinema, Aspirinas e Urubus”, 2005, primeiro longa-metragem do diretor pernambucano Marcelo Gomes, está para mim entre as melhores produções brasileiras do século XXI.  “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, 2009, dirigido por  Marcelo Gomes e Karim Ainouz , é um filme experimental brilhante e um dos produtos mais criativos da nossa filmografia recente.  O que recomenda vivamente o trabalho do cineasta.  Marcelo Gomes fez ainda “Era Uma Vez Eu, Verônica”, 2012, e “Joaquim”, 2017, e codirigiu com Cao Guimarães “O Homem das Multidões”, 2013.  Uma trajetória bastante sólida e consistente.

Seu novo trabalho, “Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar”, peca pelo título quilométrico, que remete a uma música de Chico Buarque.  No entanto, é um documentário com uma abordagem simples, clara e direta, que dá conta de uma realidade bem mais complexa do que a sua aparência faria supor e alcança uma dimensão reflexiva surpreendente.

Como um filme que se constrói ao caminhar sobre o tema e ao encontrar elementos novos a cada passo, a narrativa se estabelece à medida em que é capaz de ouvir o outro com atenção e, de algum modo, interagir,  participar e intervir no seu objeto de estudo.




O personagem do documentário é a cidade de Toritama, no Agreste de Pernambuco, que era uma localidade pacata, que Marcelo Gomes conheceu quando criança, acompanhando seu pai em visitas de trabalho.  Era, não é mais.  Foram justamente a agitação e as mudanças em Toritama, visíveis ao passar pelas estradas locais, que chamaram a atenção dele.  Agora Toritama se define como a capital do jeans,  20% de toda a produção de jeans  do Brasil vem de lá, cerca de 20 milhões de peças por ano produzidas em fábricas de fundo de quintal, que são chamadas de facções.  É surpreendente que uma cidade com 40.000 habitantes tenha uma produção assim tão grande para ostentar.  E por que isso acontece?  Em síntese, porque tudo que se faz lá, o tempo inteiro, é trabalhar.  Cada casa ou conjunto delas vira uma oficina de costura individual ou coletiva.  Quase todos parecem preferir trabalhar por sua conta e risco, como e quando quiser, sem carteira assinada na fábrica.  Com a certeza de que o que produzirem vai ser comprado.  Ou porque já foi combinado ou porque vai ser vendido nas grandes feiras que atraem público de todos os cantos.

Como mais peças ou partes de peças costuradas resultam em pequenas quantidades de dinheiro, quanto mais se faz mais se ganha. Conclusão, a maioria dos moradores/produtores da cidade trabalha continuamente desde cedo até tarde da noite.  Em casa mesmo, sem horário.  Ou melhor, sem horário para viver, só para trabalhar, comer e dormir, com direito a uma hora de TV, provavelmente para ver a novela. Uma espécie de escravidão não só consentida, mas buscada pela população.  Que dela não se queixa, com poucas exceções.  Acha que está muito bom assim, sente-se livre e dona do seu nariz.  Ou melhor, do seu negócio.  Muito curioso esse microcosmo do capitalismo que toma de assalto e transforma radicalmente uma pequena localidade, que já não tem espaço nem para criar galinhas ou fazer caminhar os bodes que restaram pela cidade, cruzando a rodovia.

Se isso parece estranho e surpreendente, o que dizer da obsessão absoluta de toda a população em, obrigatoriamente, passar o Carnaval na praia?  Custe o que custar, ninguém fica, todos saem para tomar banhos de mar, beber, fazer alguma fantasia, batucar e dançar no Carnaval.  Se não tiver dinheiro, vende o que tem – fogão, geladeira – ou toma emprestado, para depois pagar ou recomprar o que vendeu.  O que não pode é perder o Carnaval.

Marcelo Gomes filmou a cidade nos dias de Carnaval e só então reencontrou o silêncio e as ruas vazias do seu tempo de criança. O mundo do trabalho e o do  lazer (ou férias) se colocam em oposição.  Oposição não é bem a palavra.  Talvez espaço e tempo estanques, separados.  Trabalho todo o tempo.  Parada no Carnaval, fora da cidade, como obrigação incontornável.  Trabalho parece ser só dinheiro e o dinheiro vira uma dependência, é só ele que importa.  Prazer  no período mágico do Carnaval, tratado como obrigação tanto quanto a atividade produtiva. Mas há também prazer no trabalho e nos resultados obtidos. Por que não é possível integrá-los, mesclá-los, equilibrar algumas coisas, diante da obsessão em fabricar cada vez mais e mais e obter o dinheiro desejado?




Fico pensando nos mecanismos da Internet – e-mails, WhatsApp, outras redes sociais – nos tomando um tempo absurdo de trabalho não remunerado, quando a tecnologia teria de ter vindo para nos poupar tempo e permitir o ócio criativo.  Parece que também aqui nos deixamos escravizar com gosto, ou simplesmente o esquema nos engole.  Isso também tem a ver com abdicar da liberdade para seguir um salvador da pátria, um mito qualquer?  O ótimo documentário de Marcelo Gomes nos faz pensar em muitas coisas como essas, que não estão no filme, mas na minha cabeça, nesse momento.

A música do Chico Buarque, que está no filme, e tem como estribilho Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar  fazia alusão á liberdade que o sujeito viveria com o fim da ditadura militar opressora, restritiva de todas as liberdades e que tinha como oposição o Carnaval libertador.  Não é o sentido, aqui, o Carnaval, no caso, é uma liberação momentânea de um trabalho que, no fim das contas, embora não pareça, é também opressivo, mas que dura pouco e nada muda.

Este filme do Marcelo Gomes, cujo título me permito não ficar repetindo, por ser longo demais, ganhou o prêmio do Júri Oficial e o da Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema) no Festival  É Tudo Verdade  2019.  E está na sessão Vitrine, com preço reduzido, em grande número de cidades brasileiras.

CINEMA AFRICANO
Começa agora a Mostra de Cinemas Africanos, no Cinesesc São Paulo.  Serão exibidos 24 filmes de 14 países do continente, de 10 a 17  de julho.  Uma boa oportunidade para conhecer melhor um cinema ainda pouco divulgado por aqui.




quinta-feira, 4 de julho de 2019

A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS

Antonio Carlos Egypto






A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS (Ahlat Agaci).  Turquia, 2018.  Direção: Nuri Bilge Ceylan.  Com Aydin Dogu Demirkol, Murat Cemcir, Bennu Yildirimlar, Hazar Ergüçiü.  188 min.


“A Árvore dos Frutos Selvagens” é o novo trabalho do diretor turco Nuri Bilge Ceylan, que prima por imagens de grande elaboração e beleza nos seus filmes.  Enriquece o seu apuro visual com locações na Anatólia, a região turca de sua origem, que tem paisagens exuberantes.  É, portanto, com grande prazer que vemos a natureza magnificamente enquadrada, as expressões humanas se revelando, em meio a um ambiente amplo, mostrado por planos gerais e panorâmicas, mas também por detalhes significativos do contexto cultural abordado.

Não fica por aí.  Ceylan discute o mundo contemporâneo e a conquista da identidade, a partir do personagem Sinan, um jovem que deixou sua aldeia para estudar em Istambul e encontrar sua paixão por literatura e o desejo de se realizar como escritor.  Mas o que significa literatura, a quem ela interessa, que papel exerce hoje num mercado tão distante de suas pretensões?  E como ele se vê, no contexto rural de sua origem?  Sua ex-namorada, seu pai endividado, os limites da vida na aldeia, que papel tem tudo isso nessa jornada em busca de autoconhecimento e de realização pessoal?




Como o islamismo é visto e compreendido pelos jovens?  Que polêmicas envolvem a aceitação e a interpretação do Corão no contexto atual?  Muitas reflexões filosóficas e debates sobre a contemporaneidade, a vida e os projetos dos jovens, e também dos adultos, fazem parte dos diálogos do filme.  Como se vê, é um produto artístico muito encorpado e consistente, em todos os seus aspectos.  Nuri Bilge Ceylan é, mesmo, um dos maiores cineastas do cinema atual.  Faz filmes de longa duração, como este, que tem 188 minutos, mas que envolve e encanta durante todo esse tempo.

Os filmes de Ceylan subvertem a narrativa clássica e exigem do espectador tempo para fruir os eventos e descobrir o que está submerso na ação.  Em contra partida, oferecem uma beleza visual permanente, de embasbacar os olhos.  É cinema de altíssimo padrão, já várias vezes reconhecido pelo Festival de Cannes, que em 2008 lhe conferiu o prêmio de melhor diretor por “Três Macacos”, o Grande Prêmio do Júri, em 2011, por “Era Uma Vez na Anatólia”, e a Palma de Ouro e prêmio da crítica do Festival de Cannes, em 2014, por “Sono de Inverno”.

“A Árvore dos Frutos Selvagens” foi exibido na 42ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que, em várias oportunidades, também premiou o cineasta.  Ao levantar os destaques daquele evento, apontei o filme como o melhor entre os exibidos que pude ver.  Tem um requinte e uma qualidade técnica admiráveis.



segunda-feira, 1 de julho de 2019

DIVINO AMOR

Antonio Carlos Egypto




DIVINO AMOR.  Brasil, 2017.  Direção: Gabriel Mascaro.  Com Dira Paes, Júlio Machado, Emílio de Mello, Teca Pereira.  101 min.


No filme “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro, a narrativa traz um Brasil mudado, em 2027, menos de dez anos a partir daqui.  Nosso país continuaria nominalmente um Estado laico, porém, as denominações religiosas evangélicas neopentecostais teriam ampliado sua inserção num contexto de controle social e conquistado espaços que chegam a comprometer a laicidade e a diversidade religiosa.

Parece difícil crer nessa possibilidade, mas sustenta-se que o Carnaval não será mais nossa principal festa popular, será superado pela festa do Amor Supremo.  Raves  do Divino, com a modernidade do neon e Drive Thru  Oração já estarão bem estabelecidos.  E na igreja do Divino Amor a prática sexual inclui o  swing  divino, mas a troca de casais é angustiante e visa à recuperação dos casados e dos problemas de fertilidade.  Quem ama não trai, divide.  Não é pornografia, é religião, ou religião pornográfica.

Enfim, temos aí uma distopia.  Plausível?  Sim.  Algumas coisas já estão claramente aí, ou à vista.  Outras, parecem ainda delirantes.  Isso é bom ou é mau?

Segundo a concepção do filme, isso é apenas constatação.  As coisas estão mudando, até já mudaram, e é preciso enxergar o que está acontecendo.  Pode deixar você muito feliz diante dos “novos rumos”, extremamente preocupado ou mesmo em pânico.  Cada um faz suas escolhas.

Só que não dá para ser neutro diante da narrativa apresentada.  Joana (Dira Paes) é funcionária de um cartório e uma de suas principais tarefas é viabilizar legalmente os divórcios.  Ela é, porém, profundamente religiosa e devota à fidelidade conjugal.  Usa de sua função para convencer os casais a tentar mais uma vez e os encaminha à sua igreja do Divino Amor.  Uma atitude autoritária, que desrespeita as pessoas e agride a Constituição.  Não pode.  Como respeitar a crença dela, se ela força a barra junto aos outros? 




Outro aspecto que o filme apresenta é a forma como a igreja do Divino Amor lida quando a crise do casamento atinge a própria Joana.  Falta lastro e sustentação.  Cai a máscara.  Ela pode permanecer eternamente apegada ao seu Deus, mas essa religião não passa no teste.  Claramente.

Enfim, é óbvio que todas as pessoas e todas as religiões merecem respeito e a liberdade de culto ou adesão ao ateísmo devem ser inteiramente livres.  No entanto, é preciso respeitar os condicionantes coletivos, aceitar a diversidade e a contestação das crenças estabelecidas.  Caso contrário, vamos cair num individualismo que não nos levará a um bom porto civilizatório.

A provocação do filme de Gabriel Mascaro vale, especialmente para o momento que estamos vivendo no Brasil.  Embora tenha sido concebido e realizado um pouco antes do presente momento.  É sempre bom ver Dira Paes em cena, ela é muito boa atriz e todo o elenco vai bem aqui.  É uma reflexão oportuna.  O filme pode incomodar, até pelo erotismo que se associa de forma algo inusitada ao tema.  E se o caminho for mesmo o do controle religioso concreto dos corpos e de suas funções?  Não dá para descartar essa possibilidade, tal como o filme a mostra, mesmo sendo improvável que haja espaço para tanto.  Quanto ao Carnaval, espero que resista como elemento cultural libertador frente ao moralismo cerceador.





quarta-feira, 26 de junho de 2019

CYRANO, MON AMOUR

Antonio Carlos Egypto






CYRANO, MON AMOUR (Edmond).  França, 2018.  Direção e roteiro: Alexis Michalik.  Com Thomas Solivérès, Olivier Gourmet, Mathilde Seigner, Tom Leeb, Lucie Boujenah.  105 min.


Cyrano de Bergerac é a mais importante peça do teatro francês.  Sua primeira encenação data de 1897 e, desde então, já foi vista nos palcos milhares de vezes.  É um sucesso que teve início no século XIX e permanece no século XXI.  Seu autor, Edmond Rostand (1868-1918), a escreveu toda em versos e tinha menos de 30 anos quando a completou, em meio aos ensaios da primeira encenação.

Dezenas de filmes também foram feitos com base na peça.  Quem for ver “Cyrano, Mon Amour” não se apresse em sair do cinema, uma cena de cada um desses filmes é exibida, e identificada, junto com os créditos finais.

O filme “Cyrano, Mon Amour” é uma homenagem a Rostand, tanto que no original o filme se chama apenas “Edmond”. De qualquer modo, o centro da história é o processo de criação e concretização da peça de maior sucesso de todos os tempos na França e também muitíssimo apreciada em todo o mundo.  Claro, o Cyrano de Bergerac.




O diretor, roteirista e também ator, Alexis Michalik, é ainda o autor da peça teatral que ele escreveu e montou com sucesso nos palcos franceses e que veio a se tornar o filme “Cyrano, Mon Amour”, seu primeiro longa, porém, um trabalho já sólido e maduro.  Ele passou anos estudando o Cyrano de Bergerac, escreveu a peça que conta o processo de criação a partir do autor Edmond Rostand e, finalmente, realizou o filme, já dominando sua própria peça inteiramente e conhecendo fala por fala.  O trabalho tem ritmo, não perde o gás, se passa em grande parte no teatro, mas é tão cinematográfico quanto é teatral.  Na verdade, é também uma bela homenagem ao fazer teatral.

O filme é metalinguístico, é sobre os percalços, dificuldades e prazeres da criação à execução do espetáculo.  Cria-se uma narrativa essencialmente cômica, a partir desse difícil processo, que tem lances dramáticos.  E tudo se passa como filme de época.  No contexto histórico do fim do século XIX.  Um período que testemunhou o nascimento do cinema com os irmãos Lumiére, o que é mostrado, dois anos antes da estreia do Cyrano.  Os primeiros carros, o início da aviação, a popularização da eletricidade, um período eufórico de avanços tecnológicos e artísticos.




Entre os personagens que entram na história de Edmond e seu  Cyrano  estão George Feydeau (1862-1921), papel vivido pelo diretor Alexis Michalik, Sarah Bernardt (1844-1923), vivida por Clémentine Célarsé, e Constant Coquelin (1841-1909), o ator que interpretou Cyrano pela primeira vez no palco, vivido com maestria no filme por Olivier Gourmet.  No papel de Edmond, o jovem e talentoso Thomas Solivérès protagoniza com brilho o seu personagem.  E tem ainda Mathilde Seigner, como Maria Legaut, e Lucie Boujenah, como Jeanne, as intérpretes de Roxanne, e Tom Leeb, como Léo, todos muito bem.

As locações em Praga, na República Tcheca, procuram recriar o clima e os ambientes da Paris daquele período.  O que os figurinos, adereços, penteados, perucas, maquiagem, se encarregam de completar com sucesso.

Uma comédia inteligente, que trata de um tema cultural relevante, especialmente para a França, mas não só para ela, que diverte, informando, e não deixa de oferecer sua quota de dramaticidade e romantismo.  O filme foi visto por mais de 500 mil pessoas na França, foi bem recebido por aqui, na recente estreia do Festival Varilux do Cinema Francês e tem tudo para agradar ao público, pois oferece bom divertimento com qualidade.



segunda-feira, 24 de junho de 2019

MAYA

Antonio Carlos Egypto






MAYA (Maya).  França, 2018.  Direção e roteiro: Mia Hansen-Love.  Com Roman Kolinka, Aarshi Banerjee, Suzan Anbeh, Judith Chemia, Alex Descas.  105 min.


O improvável encontro amoroso entre Gabriel (Roman Kolinka), repórter de guerra, e Maya (Aarshi Banerjee), uma jovem indiana, parece inviável.  Ele, aos 30 anos, já tem experiências de vida muito fortes, enquanto ela é uma adolescente que leva uma vida tranquila, no seu espaço, certamente em busca de voos maiores, mas até aqui as tradições que a prendem falaram mais alto.

Esse encontro se dá porque Gabriel resolve revisitar a Índia de sua infância, sua cidade original, Goa, onde vivem seu padrinho e a jovem Maya, e Mumbai (Bombaim), onde vive sua mãe, de quem ele sempre esteve distante.  De passagem, ele vai a outras localidades da Índia, o que permite à diretora francesa Mia Hansen-Love explorar belezas e sítios históricos do país.

Gabriel acabou de passar por uma experiência terrível, ao cobrir a guerra da Síria e ser sequestrado e cativo dos terroristas do ISIS, por quatro meses, escapando literalmente de ser degolado por eles.  O que aconteceu, de fato, a um colega jornalista.  Mas ele reluta em assumir uma notoriedade e uma espécie de heroísmo, ao lado de outro colega, ambos devolvidos à França numa negociação com o então chamado Estado Islâmico.  Em vez de permanecer em Paris, prefere ir ao encontro de suas origens indianas.




A história é boa, prende a atenção, apesar de que o roteiro claudica em uns tantos momentos.  A filmagem, porém, de muita beleza e atualidade, compensa um pouco isso.  O filme é falado em francês e inglês.

O elenco é muito bom.  A química entre Roman Kolinka e Aarshi Banerjee vai bem, são ótimos desempenhos.  E há sempre uma expectativa no ar quanto ao que pode acontecer.

O que move um correspondente de guerra?  O que ele busca, quando se dirige ao centro do conflito, sabendo dos enormes riscos envolvidos?  Por que caminha para os lugares de onde todos estão fugindo?  Essas são questões que se colocam diante do personagem Gabriel e que não deixam de ser enigmáticas.  Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia, diria Shakespeare.  Isso vale para o inescrutável ser humano que, muitas vezes, nos soa como muito estranho, incompreensível, até.  Os caminhos da mente são surpreendentes.





terça-feira, 18 de junho de 2019

SANTIAGO, ITÁLIA

Antonio Carlos Egypto



SANTIAGO, ITÁLIA (Santiago, Itália).  Itália, 2018.  Direção: Nanni Moretti.  Documentário.  80 min.


Nanni Moretti é um realizador muito antenado com tudo o que se passa na sua cidade, no seu país e no mundo.  Ótimo contador de histórias, incorpora a seus personagens e situações um humor cheio de ironias políticas, que buscam avançar na direção de um mundo mais livre, defenestrando figuras conservadoras e autoritárias, como Berlusconi, por exemplo.

Suas ficções flertam com o documental, em vários filmes.  Em “Caro Diário”, de 1993, ele é o próprio personagem e seus passeios de lambreta por toda a Roma não deixam de ser uma bela reportagem sobre a cidade.  “Santiago, Itália”, no entanto, é o primeiro documentário que vejo dele (não sei se ele fez outros, que podem não ter chegado aqui).

Seu estilo característico de dirigir, e mesmo de atuar, está lá.  Fluidez e leveza garantidas.  Mas a forma do documentário se impõe, com muitas imagens de arquivo e entrevistas com as pessoas que estiveram envolvidas com a história que ele vai nos contar. E essa história precisava mesmo ser contada, porque se refere a um momento em que ideais políticos, resistência á truculência e solidariedade humana estavam em alta na Itália.




Em 1973, o Chile passou a viver uma tragédia política e humanitária, a partir do 11 de setembro em que o Palácio de la Moneda, sede do governo, foi bombardeado pelas Forças Armadas do país, com o presidente eleito Salvador Allende dentro dele.  Que optou pelo suicídio, nos fazendo lembrar de Getúlio Vargas, e deixou sua marca na história.  O filme de Nanni Moretti começa antes disso, nos anos felizes e prósperos do governo Allende, que sempre contou com amplo apoio popular.

A ditadura militar que então se instalou, sob o comando do general Augusto Pinochet, foi um estado de exceção marcado pela censura, perseguição, prisão, tortura e morte dos que participaram ou apoiaram aquele governo popular.

A embaixada italiana em Santiago do Chile recebeu, na época, muitas pessoas, que pularam seu muro, relativamente baixo, e lá se abrigaram para salvar suas vidas.  Chegaram a viver dentro da embaixada cerca de 250 pessoas, incluindo crianças.  Os embaixadores italianos Piero De Masi e Roberto Toscano, ouvidos no filme, decidiram conceder asilo a todos esses chilenos perseguidos e muito fizeram para ajudá-los a se adaptar e encontrar emprego e moradia dignos em solo italiano.  Muitos deles lá ficaram, reconstruíram suas vidas e relembram a solidariedade recebida e a acolhida afetuosa que tiveram, inclusive na rua e de moradores das cidades que os receberam, querendo saber deles e do Chile.

O papel que a Itália como país desempenhou nesse momento terrível da vida chilena é mostrado por Moretti como algo inesquecível, que exala humanidade.  E que se perdeu pelo caminho. Na Itália de hoje, o que vigora são o consumo e o individualismo.




O documentário é um belo resgate desses fatos, que merecem ser mais conhecidos e celebrados e que praticamente não circularam por aqui.  Excelente trabalho do diretor, que costuma ser também ator de seus filmes.  Entre seus principais trabalhos estão, além de “Caro Diário”, “Abril”, de 1998, “O Quarto do Filho”, de 2001, “Crocodilo”, de 2006, “Habemus Papam”, de 2011, e “Minha Mãe”, de 2015.  Uma obra inteligente e de grande qualidade.

“Santiago, Itália” recebeu o prêmio Davi de Donatello de melhor documentário e o prêmio Nastro D’Argento, do Sindicato dos Jornalistas Italianos.




quarta-feira, 12 de junho de 2019

DOR E GLÓRIA

Antonio Carlos Egypto





DOR E GLÓRIA (Dolor y Gloria).  Espanha, 2019.  Direção e roteiro: Pedro Almodóvar.  Com Antonio Banderas, Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia, Penélope Cruz.  113 min.


“Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar, centra-se no personagem Salvador Mallo, um cineasta que já traz no nome a convivência dos contrários.  Seu momento atual e suas lembranças são marcados pela dor e pela glória.  A dor, porque, já envelhecido e sentindo-se sem condições de filmar, a razão de ser de sua vida, as doenças tomando conta de seu corpo.  Desde as dores de coluna, as dores de cabeça, os engasgos frequentes, até a depressão pela perda de amores e de vitalidade. 

Uma animação, muito bem realizada, nos mostra o que são essas dores que acometem o corpo, cheia de cores, com didatismo e humor.  Com Almodóvar, a dor também fica divertida.  Como sempre foi nos seus filmes.

A cabeça continua produzindo, escrevendo histórias, a partir de experiências vividas, desejadas ou imaginadas, que agora não se destinarão ao cinema.  Mas também não são contos literários.  Um momento de declínio que produz uma crise existencial.


Banderas, Penélope, Almodóvar e Sbaraglia


Esses belos escritos, que acabarão sendo representados ou filmados, são a revelação de uma vida de criatividade, de sucesso e admiração internacionais, que é evidente.  O relançamento de um filme chamado “Sabor”, realizado há trinta anos e que produziu uma inimizade com o ator principal, faz com que se reate seu contato e, por meio dele, um velho amor reaparece.  A glória também vem das lembranças infantis, da vida na casa caverna, da mãe pobre, forte, batalhadora, do canto que abriu caminho ao estudo patrocinado junto aos padres, do primeiro desejo que se manifesta numa febre.  O talento de escritor e a inclinação precoce na direção do cinema já dominam a cena.  Desde sempre.

Embora hoje doloroso, há um caminho a seguir e não será pela via da heroína que combate a dor, mas escraviza.  Será novamente pelo desejo que novos ânimos poderão surgir.  Não por acaso, a produtora de Pedro e seu irmão Agustín Almodóvar chama-se  El Deseo.  Ele é visto como o motor da existência.

O protagonista Salvador Mallo, brilhantemente interpretado por Antonio Banderas, remete, é claro, à própria figura de Pedro Almodóvar, mas não pode se considerar uma autobiografia.  Aí estão lembranças, recordações, mas também acontecimentos que poderiam ter existido ou serem criados, expectativas, decepções, hipóteses, exageros.  Sentimentos e impressões que passam, se transformam.  Elementos de uma vida que abrem perspectivas para um novo personagem, que dialoga com seu inspirador.  Este, por sua vez, realiza sua autoanálise, encarando a morte como algo já mais próximo e palpável.  Em alguns momentos, até desejável.


Almodóvar e suas atrizes


O filme é lindo, profundo, e traz um time de atores e atrizes magnífico, além de Banderas.  O argentino Leonardo Sbaraglia, como Federico, um ator já muito tarimbado e nosso conhecido do cinema dos hermanos.  Penélope Cruz, sempre luminosa, faz Jacinta, a mãe.  Ambos vivem papéis de coadjuvantes, mas brilham.  Asier Etxeandia, de nome complicado, como Alberto Crespo, e que eu não conhecia, tem um trabalho competente num papel importante.  E outras grandes mulheres estão lá: Nora Navas, como Mercedes, Julieta Serrano, como a mãe já idosa, Susi Sánchez e a  participação de Cecília Roth, que já atuou em tantos filmes dele, compõem um elenco à altura, para esse novo grande trabalho almodovariano.

Há poucos anos, escrevi um livro destacando a sexualidade e a transgressão no cinema de Almodóvar.  O diretor continua fiel a esses temas norteadores, assim como à utilização da metalinguagem.  Em seus filmes, outros filmes e peças são feitos, aqui “Vício” e “O Primeiro Desejo” são as realizações.  O construir artístico, a escrita, a filmagem, a distribuição e exibição dos filmes, o trabalho dos atores e atrizes, além do próprio diretor, evidentemente, enriquecem a experiência cinematográfica do espectador.

“Dor e Glória”, recentemente exibido no Festival de Cannes, teve excelente acolhida.  Levou só o prêmio de melhor ator para Antonio Banderas.  Acho que merecia mais.