sábado, 11 de junho de 2016

CAMPO GRANDE


Antonio Carlos Egypto




CAMPO GRANDE.  Brasil, 2015.  Direção: Sandra Kogut.  Com Carla Ribas, Ygor Manoel, Rayane do Amaral, Júlia Bernat.  109 min.



Em “Campo Grande”, a diretora Sandra Kogut nos coloca num clima de incertezas e aflição.  Desde a primeira cena até o seu final, não sabemos direito o que está acontecendo, mesmo depois de nos familiarizarmos com os personagens. Antes disso, a aflição é maior: surge uma menina pequena, de uns 6 anos de idade, de aparência muito simples, abandonada pela mãe numa residência de classe média alta, na zona sul do Rio, em Ipanema.  Só vemos a praia, por duas vezes, por meio de uma fresta entre prédios.  Outro menino abandonado aparece, é o irmão um pouco maior da menina, e ficamos sabendo que sua mãe os orientou a que esperem por ela naquele lugar.  Como assim?




A casa é de Regina (Carla Ribas), que não sabe o que fazer nessa situação.  Mas muita coisa está acontecendo com ela e com a filha jovem, Lila (Júlia Bernat).  O que será?  Percebe-se que o apartamento está sendo desmontado e que o pai não está mais ali.  Supõe-se que houve uma separação e que vai haver mudança.  As pessoas estão vulneráveis, perdidas.

Lá fora, os ambientes estão cheios de máquinas e equipamentos, tudo parece em construção ou em reforma, nas proximidades, na rua.  Tudo é provisório, se perde ou se desintegra.  O abandono não é só o das crianças, é das pessoas, é da própria cidade. 




Rayane (Rayane de Amaral) e Ygor (Ygor Manoel) são as crianças abandonadas, que moram (moravam?) no bairro de Campo Grande.  Tem também uma avó na história deles, que aparece como referência afetiva, mas cuja casa não se localiza.  Abrigos de menores, orfanatos, entram na dança, enquanto a mãe não aparece (aparecerá?).  E quem será?  Uma antiga empregada da casa, talvez.

Vamos montando as peças para o entendimento da situação, por falas dispersas, sussurradas, banais, indefinidas, fora do quadro, perguntas sem respostas dos personagens e um constante mal-estar, que nos mostra algo cifrado, porém, num contexto muito conhecido.  São as nossas velhas mazelas, os nossos problemas sociais crônicos.  As diferenças dos mundos da casa grande e da senzala, que vêm de longe e mudam basicamente só de casca.

Esse clima indefinido em que as coisas são mostradas no filme produz a angústia da impotência diante do conhecido, a aflição a que me referi, alimentada pelo medo e pelas incertezas.  Quanto mais bem realizada a sequência, mais bela a poesia da câmera, mais aflitivo fica. 




A cineasta nos conduz para dentro da questão social com personagens reais, de carne e osso, com os quais compartilhamos uma dor e uma busca que também é nossa.  Fazemos parte dela e do abandono que envolve cada um dos personagens.  As atrizes protagonistas e as crianças, especialmente o garoto Ygor, enchem de humanidade essa narrativa desafiante para o espectador.  Impossível não se tocar com o drama insinuado, nunca escancarado, jamais objeto de exploração emocional.  Por isso mesmo, tão verdadeiro.

Sandra Kogut já havia mostrado grande talento em seu segundo longa, “Mutum”, de 2007, em que o universo de Guimarães Rosa se revelava em poesia, beleza e humanidade.  Com “Campo Grande”, ela mostra criatividade ao colocar na sombra, no intertextual, no não-dito, o nosso drama social.


Vale comentar, também, que moradores de Campo Grande, um dos mais populosos bairros do Rio, reclamaram junto aos cinemas locais, exigindo que esse filme, que aborda a realidade do bairro, passasse nos cinemas de lá, o que não estava previsto de acontecer.  E conseguiram.  O povo quer ver sua realidade expressada no cinema, mas o circuito exibidor não tem sensibilidade para perceber isso.  E tem outros interesses e compromissos comerciais.



sexta-feira, 10 de junho de 2016

Lolo, o Filho da Minha Namorada

Tatiana Babadobulos



Lolo, o Filho da Minha Namorada (Lolo).  França, 2015.  Direção: Julie Delpy. Com Julie Delpy, Dany Boon, Vincent Lacoste.  99 min.

Parte do Festival Varilux de Cinema Francês, “Lolo, o Filho da Minha Namorada” (“Lolo”) é uma comédia leve que vale o programa.
O festival segue até o dia 22 de junho em 50 cidades brasileiras. Ao todo, serão exibidos 15 filmes inéditos e um grande clássico do cinema francês (“Um Homem e uma Mulher”de Claude Lelouch).
Além de protagonizar o longa-metragem, a francesa Julie Delpy (“Dois Dias em Paris) é também diretora da trama.
Na trama, ela é Violette, uma quarentona parisiense que, durante as férias no sul da França, conhece Jean-René (Dany Boon, de "A Riviera Não É Aqui"), um técnico de informática recém-divorciado.
Pouco se sabe da vida dos dois. O que se sabe, e o que é necessário saber, é que ela trabalha com moda  e tem um filho de 19 anos, Lolo –daí o título do filme.
Dias se passam e ele se muda para Paris para encontrar a moça.

Violette vai viver os dramas das mulheres que vivem sozinhas em busca de um amor, além de ter um filho (vivido por Vincent Lacoste), que volta a morar em sua sala. Assim, ela tem de dividir o seu tempo (e o seu amor) entre os dois homens de sua vida.
Julie Delpy encara o papel com naturalidade, cria empatia com o público. Como diretora, aproxima o espectador da história e envolve todo mundo nos seus dramas. Ela é coautora do roteiro, ao lado de Eugénie Grandval.
Em 1995, ela estrelou, ao lado de Ethan Hawke, o longa “Antes do Amanhecer”, sobre uma moça que se apaixona por um rapaz que acaba de conhecer, durante uma viagem de trem na Europa. Quase dez anos depois, o casal volta a estrelar a continuação do filme, em “Antes do Pôr-do-Sol”, quando eles se reencontram.
Quando o público já estava satisfeito com os dois filmes, os atores retornam aos cinemas para ter a maior DR (Discussão da Relação) –em público, com plateia lotada. “Antes da Meia-Noite” (2013) se passa na Grécia e os dois colocam na balança como está o relacionamento durante uma viagem.
Sempre à vontade no papel, Julie mostra habilidade em lidar com temas que seriam bobinhos, mas que acabam se transformando em opções prazerosas para quem quer apenas um pouco de divertimento, sem compromisso. E, em tempos tristes que estamos vivendo, nada melhor do que poder se desligar da realidade e rir dos problemas dos outros.
Depois de participar do Festival, “Lolo” tem estreia nos cinemas brasileiros apontada para 25 de agosto.

terça-feira, 7 de junho de 2016

A ODISSEIA DE ALICE


Antonio Carlos Egypto




A ODISSEIA DE ALICE (Fidelio, L’Odyssée D’Alice).  França, 2014.  Direção: Lucie Borleteau.  Com Ariane Labed, Melvile Poupaud, Anders Danielsen Lie, Pascal Tagnati.  97 min.



Alice, vivida pela excelente atriz Ariane Labed, é uma engenheira que trabalha em navios de carga, dando suporte técnico às embarcações.  Isso faz com que ela passe longos períodos em alto-mar, sendo a única mulher entre muitos homens, nos navios.  Ela é independente, corajosa e competente.  Mas é também uma linda mulher, sensual e livre.  Sua presença no navio, obviamente, vai mexer com muitos daqueles homens, que passam bom tempo no mar.




Alice tem um namorado norueguês, Félix (Anders Danielsen Lie), com quem vive uma experiência fortemente sexualizada e apaixonada, quando está em terra.  Mas sua próxima missão será no navio Fidelio, onde ela descobrirá que o comandante é ninguém menos do que seu antigo namorado, Gael (Melvile Poupaud), sua primeira paixão.  E por aí se seguirá uma trama muito bem construída pela diretora estreante e também roteirista, ao lado de Clara Bourreau, Lucie Borleteau.

As imagens exploram o gigantismo do navio Fidelio, por dentro e por fora, e a imensidão do mar, em contraponto às figuras humanas, sua solidão, seus desejos e suas paixões mostrados bem de perto.  Tudo segue sendo muito desafiador para todos os envolvidos na odisseia de Alice.




O mais interessante do filme, porém, é a abordagem da questão de gênero.  A narrativa empodera essa mulher bela e forte, cujo comportamento nos surpreende em muitos aspectos, já que remete a estereótipos masculinos de gênero, assim como alguns homens mostram atitudes mais frequentemente atribuídas ao feminino.  Mas não se trata de uma inversão de valores e, sim, de sua superação.

Há infinitas formas de se ser homem ou mulher e as expectativas quanto aos comportamentos esperados pelos gêneros sufocam e aprisionam os que divergem dos padrões previstos.  Ao relativizar esses padrões, mostrando reações pouco usuais tanto num gênero quanto no outro, o filme areja de modo muito apropriado essa questão. 

A infidelidade é atributo masculino?  Envolvimento amoroso com uma só pessoa é prerrogativa das mulheres?  Iniciativa e agressividade são coisas de homem?  Há formas femininas de expressá-las?  Exercer controle sobre o próprio desejo é “natural” para as mulheres e difícil para os homens?  Como se dão as relações quando as pessoas inovam no comportamento esperado delas, quanto às características socialmente associadas ao gênero?




São bons questionamentos que o desenrolar da história de “Odisseia de Alice” permite levantar, dando ao filme uma dimensão que extrapola o drama romântico em que se pode classificar a película (será que essa palavra ainda vale no mundo do cinema digital?).


Alice é, sem dúvida, bela, mas não recatada, nem do lar. Trata-se de um filme feminista, muito apropriado para um momento em que certos conceitos são embaralhados pelos conservadores, tentando barrar conquistas que a sociedade realizou nos últimos tempos.  O papel da luta das mulheres e do movimento feminista tem sido fundamental nessa história.  É bom que isso seja lembrado e valorizado, também por meio dos personagens de narrativas ficcionais, como “A Odisseia de Alice”.


quinta-feira, 26 de maio de 2016

O BOTÃO DE PÉROLA

Antonio Carlos Egypto




O BOTÃO DE PÉROLA ( El Botón de Nácar) Chile, 2014, Direção e roteiro: Patricio Guzmán,   Documentário, 82 min.


A água vem do espaço, cria a vida, alimenta e serve de rota para povos indígenas da Patagônia e navegadores estrangeiros, forma a fronteira mais longa do Chile e é cemitério de  “desaparecidos” do regime de Pinochet.  Os oceanos contêm história e memória, podem também ter voz.  O botão de pérola encontrado no fundo do mar é uma dessas vozes eloquentes. 




O filme de Patricio Guzmán, um dos maiores documentaristas da atualidade, é extraordinariamente bem construído, de uma beleza plástica incontestável e não deixa um fio solto.  Todos os elementos levantados são muito bem amarrados e integrados num todo não só compreensível como inovador, surpreendente, até.

No cinema contemporâneo, a gente admite micro histórias, excertos, fios narrativos, ideias soltas ou sugeridas.  É um caminho alternativo.  Mas quando se vê um filme tão bem planejado e realizado como O BOTÃO DE PÉROLA, fica evidente a superioridade de um produto estruturalmente completo.  Trata-se de um documentário astronômico, etnológico, histórico, geográfico e político, que nos dá uma dimensão ampla e abrangente do Chile, em múltiplos aspectos do país.




Apenas para lembrar, é de Patricio Guzmán a trilogia A BATALHA DO CHILE, de 1975, 1977 e 1979, e o espetacular NOSTALGIA DA LUZ, de 2010 (Veja crítica de fevereiro de 2015, no cinema com recheio).  Com O BOTÃO DE PÉROLA, ele reafirma sua capacidade de construir obras complexas, plasticamente arrebatadoras, que são verdadeiras maravilhas do cinema documental. 


terça-feira, 24 de maio de 2016

PONTO ZERO

Antonio Carlos Egypto




PONTO ZERO.  Brasil, 2015.  Direção e roteiro: José Pedro Goulart. Com Sandro Aliprandini, Patrícia Selonk, Eucir de Souza, Larissa Tavares.  94 min.



O Ponto Zero pode ser entendido como o momento fugaz que caracteriza o presente.  Ao se tomar consciência dele, ele já passou, já é lembrança.  O que se vive, aqui e agora, pode ser uma ilusão, um sonho, um pesadelo, uma distorção da percepção ou, simplesmente, um elemento da memória, que retorna. Ou mesmo a expressão de um desejo ou de uma fantasia.

O filme gaúcho “Ponto Zero”, escrito e dirigido por José Pedro Goulart, explora esteticamente ideias como essas, ao retratar a noite e madrugada, conturbada e tensa, vivida pelo garoto Ênio (Sandro Aliprandini), de 14 anos de idade, entre a sua casa e a sua cama, as ruas desertas de uma Porto Alegre adormecida e ambientes insones em que a prostituição se destaca.  Ou, quem sabe, ela está apenas no outro lado da linha telefônica?




Onde está o presente?  Onde está a realidade?  Na vida diária do adolescente, que não suporta o conflito entre seu pai e sua mãe?  No ciúme doentio da mãe?  Na infidelidade explícita e desavergonhada do pai?  Na rádio que, de madrugada, se relaciona com as angústias de seus ouvintes, onde seu pai trabalha e parece pouco sensível aos sentimentos alheios?  Na busca da prostituta sofisticada, que atende ao telefone com mensagens literárias, por exemplo, de Cecília Meireles?

Uma fotografia deslumbrante de ambientação noturna, marcada por incessante chuva, domina a cena.  Explora o caráter misterioso da situação.  É etérea, pálida e com as luzes da noite, enfatizando a beleza dos pingos de chuva que insistem em não parar, das poças d’água na rua ou da piscina borbulhando. Ou invade o ambiente urbano, claustrofóbico, dos prédios aglomerados, passeia na bicicleta que percorre os canteiros das avenidas, mas que se mete em casa ou na sala de aula, de forma inesperada.




Há todo um clima de angústia e incerteza que domina o filme enquanto nos proporciona essa experiência estética que se dá por meio da ambientação, dos enquadramentos, da composição das cores e das luzes,  nas tonalidades marrom e amarelada que predominam nas cenas.

O jovem protagonista experiencia o que seu pai Virgílio (Eucir de Souza) explicita em um dos poucos diálogos que o filme tem: a vida, a morte e a sorte, as três coisas que existem no mundo, segundo o personagem.  Sobreviver a um dilúvio de angústia e solidão é mesmo uma questão de sorte, como se verá.




O elenco que segura a onda desse projeto pretensioso é muito bom.  Mas dependia do desempenho do ator estreante, Sandro Aliprandini, que está presente em, praticamente, todas as cenas.  Ele dá conta da responsabilidade, com uma entrega considerável a um papel que exige muito dele.


José Pedro Goulart é estreante em longas-metragens, mas dividiu com Jorge Furtado a direção de um curta-metragem famoso e premiadíssimo, em 1986, “O Dia em que Dorival Encarou o Guarda”.


domingo, 22 de maio de 2016

CERTO AGORA, ERRADO ANTES


Antonio Carlos Egypto




CERTO AGORA, ERRADO ANTES (Jigeumeun Matgo Geuttaeneun Teullida).  Coréia do Sul, 2015.  Direção: Hong Sang-soo.  Com: Jae-yeong Jeong, Kim-Min-Hee, Yeo-jeong Yoon, Ju-Bong Gi.  121 min.



Hong Sang-soo, o diretor coreano de “Certo Agora, Errado Antes”, já teve alguns filmes exibidos no circuito comercial dos cinemas por aqui: “Ha Ha Ha”, de 2010, “A Visitante Francesa”, de 2012, e “Filha de Ninguém”, de 2013.  É um cineasta que trabalha com a sutileza, com a inibição e com as demais dificuldades que se dão nos contatos humanos, com o uso do álcool e dos ambientes de bares e restaurantes, onde coisas acontecem, às vezes de forma abrupta ou inesperada.  E também com a repetição de situações, ou com as diferentes visões de determinados acontecimentos.




“Certo Agora, Errado Antes” também pode inverter a chamada para “Certo Antes, Errado Agora”.  É uma situação que se repete de forma diferente, em alguns aspectos, mostrando que as ações de cada um, por pequenas que sejam, podem transformar significativamente as relações que se estabelecem e o que resta na lembrança e na vida de cada um dos envolvidos.

A trama é simples.  Um diretor de cinema se dirige para a cidade de Suwon, onde seu novo filme será exibido e haverá um debate após a projeção.  Mas ele chega, por engano, um dia antes e fica sem nada para fazer. O que ocorre nesse dia livre é que ele conhecerá uma ex-modelo, que se dedica agora à pintura, e se estabelecerá uma intimidade entre eles, ao longo de todo esse dia em que convivem e se encontram também com pessoas da cidade, que conhecem a pintora. 




O repertório dos dois protagonistas para estabelecerem esse relacionamento é um tanto pobre, inibido, bloqueado.  Ao mesmo tempo, expressam um afeto genuíno um pelo outro, ainda que contido e até envergonhado.

Acompanhar esse jogo relacional em duas versões é bastante curioso e nos leva a repensar as formas como os relacionamentos podem se estabelecer e o que pode comprometê-los desde o início.  Mas é preciso aceitar a repetição de cenas, porque, em cada uma das versões, grande parte das coisas simplesmente se repetem sem mudanças.




O filme tem um clima delicado e suave, como de costume, no trabalho de Hong Sang-soo.  E os conflitos não tomam a forma de grandes dramas.  Apesar de conter situações intensas e inesperadas, tudo se passa num tom menor, ainda que a bebida jogue como fator desestabilizador.


Um filme que se foca no ritmo da vida pacata de uma pequena cidade, sem pressa, mostrando por meio de planos-sequência filmados com sutileza e uma bela fotografia como as relações humanas se dão.  Os protagonistas Jae-yeong Jeong e Kim-Min-Hee encontraram o tom certo e minimalista de expressão, para viver essa relação amorosa fugaz.



sexta-feira, 13 de maio de 2016

NÓS, ELES E EU


Antonio Carlos Egypto




NÓS, ELES E EU (Ney: Nosotros, Ellos y Yo).  Argentina, 2015.  Direção e roteiro de Nicolás Avruj.  Documentário.  85 min.


Nicolás Avruj é argentino de origem judaica.  Sua família, de perfil progressista, preserva tradições de ideais judaicos, como o sionismo, que fizeram parte de sua educação.  Aos 16 anos de idade, Nicolás ganhou uma viagem para conhecer Israel e, anos mais tarde, quis aprofundar o conhecimento daquela realidade, ficando mais tempo por lá e explorando o que não tinha visto ou entendido.

A oportunidade surgiu em 2000, a propósito de visitar um primo que estava vivendo temporariamente em Tel Aviv.  Só que, enquanto ele voava para lá, o primo voltava para a Argentina.  De modo que o plano não vingou.


Nicolás Avruj


Nicolás não se deu por achado, ficou cerca de três meses em viagem exploratória, arrumando jeitos de se hospedar, realizando pequenos trabalhos para bancar a viagem e, empunhando permanentemente sua câmera, foi conhecer tudo o que podia, tanto de Israel quanto da Palestina.

Para começar, não se apresentava como judeu, mas como argentino, simplesmente.  isso lhe permitiu conviver com palestinos na Faixa de Gaza, inclusive aceitando hospedagem na casa deles. Pôde conhecer as condições de vida, o cotidiano, os sentimentos e os valores que os movem.  Entender o posicionamento da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), então regida por Yasser Arafat, e até filmar uma assembleia do Hamas.  E também constatou o medo, a opressão, a revolta, o ódio, que estão presentes na vida daquele povo. 




Por outro lado, conviveu com judeus ortodoxos, com os de pensamento radical militarista, com os críticos da política do governo de Israel daquele momento, com uma jovem que visita casas de palestinos, como ele fez.  Ou seja, de todos os matizes.  Além dos pouco informados sobre a realidade dos palestinos.

O que ele registrou ao longo desses meses é de uma preciosidade incrível, é um relato veraz de um conflito que parece eterno e insolúvel.  As imagens passeiam por Tel Aviv, Jerusalém e seus diversos lados e contextos, Cisjordânia e Gaza, revelando a coragem e a audácia do cineasta argentino.  Ele atravessou os muros da incompreensão e pôs em xeque a relação entre o bem e o mal, com uma honestidade admirável.




De posse desse vasto material colhido, que chega a registrar a Segunda Intifada, ele não pôde trabalhar com isso de imediato.  Era forte e impactante demais.  Só quinze anos depois foi possível editar tudo isso, para produzir o documentário “Nós, Eles e Eu”, que acaba de ser lançado nos cinemas.  É um trabalho incrível, que merece ser conhecido.

Quando alguém pergunta hoje ao cineasta de que lado ele está, de Israel ou da Palestina, isso é o que mais o incomoda.  As coisas não são assim e não é possível responder essa perguntar, é sua convicção. Vendo o filme, percebe-se o impacto que causou nele, e causa em nós, espectadores, tudo aquilo.  Claro que só é possível desejar a paz, mas como, diante de tudo o que ele nos mostra?


segunda-feira, 9 de maio de 2016

RALÉ


Antonio Carlos Egypto




RALÉ.  Brasil, 2015.  Direção e roteiro: Helena Ignez.  Com Ney Matogrosso, Simone Spoladore, Djin Sganzerla, Zé Celso Martinez, Marcelo Drummond, Mário Bortolotto, Helena Ignez.  73 min.



“Ralé” é cinema alternativo, libertário, na contramão das tendências conservadoras e moralistas que parecem estar vencendo batalhas importantes no momento atual brasileiro.  É, portanto, muito bem-vindo para reforçar a ideia de que já avançamos o suficiente para não poder mais aceitar retrocessos nas ações coletivas e nas leis.

A começar da questão do desejo, do amor e do casamento gay, que tem amplo destaque no filme.  O casamento dos personagens Barão e Marcelo é uma espécie de fio condutor da trama, motivo de alegria e festa, ensejando manifestações claras e explícitas de afetividade e tesão.  Assim como eles, outros personagens se expressam com a mesma desenvoltura, sem amarras ou falsos pudores.




Não é só isso, o filme celebra a natureza, o espírito e a poética amazônica, a busca constante da liberdade e até a ayahuasca dos rituais do Santo Daime e da União do Vegetal.  Não tanto pelo caráter religioso, mas por poder vê-la sem o estigma da droga.  Já a maconha, estigmatizada socialmente ou não, é parte integrante e natural da vida dessas pessoas.  Sem grilos. 

A natureza também se faz presente na cidade, numa sequência em que uma chuva muito forte alaga ruas e destrói um guarda-chuva, algo já corriqueiro nos nossos dias.  A cena é bonita e serve de alerta e contraponto.  Sem dramas ou vítimas, com suavidade.




Os personagens riem, se divertem, dançam, cantam.  E a música brasileira é parte importante dessa grande celebração que é a vida, digamos, marginal.  Isso para ficar num termo que remete a um cinema caro a Helena Ignez.

São muitas sequências belas, ousadas, provocadoras, talvez, mas cheias de vitalidade e de crença na capacidade dos indivíduos de experimentar o sentido real da liberdade.  É, nesse sentido, um filme de alto astral.

O elenco é maravilhoso para a proposta da obra de Helena Ignez.  Ney Matogrosso se entrega ao papel de modo pleno e ainda canta divinamente, como de costume.  Zé Celso Martinez, da mesma forma, completamente solto e à vontade.  E também canta e se acompanha  ao piano.  Djin Sganzerla e Simone Spaladore estão ótimas.  Gente do teatro alternativo, como Mário Bortolotto e Marcelo Drummond, além da própria Helena Ignez, fazem participações importantes.




Os personagens se confundem com os atores, que são, em larga medida, muito próximos deles mesmos.  Ficção documental é o tom, já que não há uma história a contar, mas coisas legais a fazer.  E que eles fazem com a maior naturalidade do mundo.  Ou, pelo menos, assim parece.

Há espaço para tanta soltura, tanto descompromisso, tanta liberdade e diversidade nesses tempos tão tensos, de crises, conflitos e guerras para todo lado?  Por que não?  Cada um busca os seus caminhos onde pode se encontrar.  Uns, nos prédios envidraçados dos escritórios, outros, na selva amazônica.  Talvez embalados pela mesma e rica música popular brasileira, que de Luiz Gonzaga a Ney Matogrosso acompanha sonhadores de todos os tipos.  A seleção musical, que a própria diretora escolheu para o filme, é preciosa.  E a realização toda é muito boa. 


terça-feira, 3 de maio de 2016

MARAVILHOSO BOCCACCIO


Antonio Carlos Egypto




MARAVILHOSO BOCCACCIO (Maraviglioso Boccaccio).  Itália, 2015.  Direção: Paolo e Vittorio Taviani.  Com Ricardo Scarmarcio, Kim Rossi Stuart, Jasmine Trinca, Lello Arena, Paola Cortellesi, Carolina Crescentini.  115 min.



Giovanni Boccaccio (1313-1375) e seu Decameron, com cem histórias escritas entre 1348 e 1353, marcam uma ruptura com a moral medieval e introduzem um realismo humanista, em que a sexualidade e a perversidade ocupam papel de relevo.  Atraente e polêmico material, marco da literatura, um dos responsáveis pela fixação do idioma italiano, foi objeto da atenção dos melhores cineastas da Itália.

Em 1962, o filme “Boccaccio 70”, com quatro episódios, reuniu Federico Fellini, Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Mario Monicelli numa comédia antológica.  Em 1971, foi a vez de Pier Paolo Pasolini filmar “Decameron”, com absoluto destaque para o erotismo.  Outro grande trabalho cinematográfico.  Agora é a vez dos irmãos Taviani, dupla brilhante de cineastas, contarem histórias livremente inspiradas no Decameron de Boccaccio. 




A primeira coisa a apontar sobre esse filme dos irmãos Taviani é que ele é de uma beleza ímpar.  Filmado na Toscana e Lazio, em lugares encantadores e envolvendo antiquíssimos castelos de até mil anos de idade, nos leva diretamente à cena medieval.  A variação das cores e tonalidades se alterna para melhor expressar as diferentes situações contadas pelos narradores.  Um elenco jovem, de belas moças e rapazes, contribui para a estética da obra, de maneira relevante. Assim,  podemos dizer que “Maravilhoso Boccaccio” é em tudo e por tudo um filme sedutor.

As histórias escolhidas e o tom com que são mostradas enfatizam o amor em seus múltiplos ângulos: do grotesco ao dramático e ao erótico, como antídoto para a morte, às vezes cruel e opressor, às vezes ingênuo e equivocado.




A criação artística, a literatura, mostra os caminhos da imaginação, absolutamente essencial e necessária para enfrentar o mal, a tragédia, no caso, aqui, a peste negra, que devastava as cidades da Toscana na época em que Boccaccio escreveu.

Um grupo de homens e mulheres jovens se refugia numa vila remota, nas colinas que cercam Florença, para escapar da peste e viver em comunidade com absoluta simplicidade, contando histórias uns para os outros.  A imaginação é a seiva da vida desses jovens, em especial, a das mulheres, que tomam a dianteira da ação, a começar por decidir deixar a cidade, talvez numa proposta de vida imoral.  Mas o que é a moral, diante da grandeza do amor e da própria sobrevivência?




O melhor que tenho a propor é ver onde está passando o filme perto de você, comprar seu ingresso, relaxar e, como diria aquele programa infantil da TV Cultura: “Senta, que lá vem história”. 


sábado, 30 de abril de 2016

A GAROTA DE FOGO


Antonio Carlos Egypto




A GAROTA DE FOGO (Magical Girl).  Espanha, 2014.  Direção e roteiro: Carlos Vermut.  Com José Sacristán, Bárbara Lennie, Luís Bermejo, Lucía Pollán.  127 min.



“A Garota de Fogo”, do cineasta espanhol Carlos Vermut, é uma bela surpresa.  Um filme criativo e um tanto maluco, capaz de provocar e intrigar o espectador.  Brinca com o fantástico de forma dramática.  Explora o suspense, na linha dos filmes policiais e tem humor, inclusive non sense.  Tudo superposto, num emaranhado que não segue o ritmo cronológico.  Enfim, um quebra-cabeças e tanto.




O que aparece como fragmento, muitas vezes estranho, acaba fazendo sentido depois.  O que não se espera também não decepciona.  Era por aí mesmo, embora a gente não tivesse imaginado.  Ou então assusta, é uma doidice, mas que dá para entender, dentro do contexto da trama.

Que uma menina de 12 anos, com leucemia e chance de morrer antes de completar os 13 anos, esteja num mundo mágico de fantasia e tenha desejos que, para serem realizados, vão implicar muito dinheiro e ela nem tenha noção disso, é perfeitamente compreensível.  Que um pai queira realizar esse desejo para compensá-la, também. Ainda que isso seja custoso demais e totalmente irracional, já que se situa no terreno da pura fantasia de consumo, que não passou nem no mais elementar teste crítico.  Já roubar, chantagear, tentar manipular outras pessoas para obter isso, é algo inconcebível.

Acontece que, em “A Garota de Fogo”, o inconcebível cabe perfeitamente.  Tudo pode ser concebido e se encaixar na narrativa.  Há várias outras situações parecidas, em que o comportamento dos personagens escapa à lógica ou eventos são envoltos em grande mistério.  O espectador preenche a lacuna, com a sua própria imaginação.  O que pode tornar a história mais excitante ou maluca ainda.




Tudo muito bem feito, cenas bem concebidas, elenco rendendo muito bem, surpresas, suspense, estranhezas a toda hora.  E a gente embarca no universo disfuncional de Carlos Vermut. 

Não surpreende que Pedro Almodóvar tenha dito que Vermut é o maior talento espanhol deste século XXI.  Claro, “Magical Girl” se inspira fortemente no estilo almodovariano.  Não conheço outros trabalhos desse diretor e roteirista.  A julgar pelo trailer de sua obra anterior, “Diamond Flash”, de 2011, o clima parece ser também intenso, dramático e de suspense, mas sem a exuberância do filme atual.  De qualquer modo, percebe-se que Vermut é capaz de transitar por diferentes climas e estilos, se quiser.  Tem amplo domínio da linguagem cinematográfica para tal.