terça-feira, 18 de outubro de 2022

CINEMA PORTUGUÊS NA # 46 MOSTRA

 Antonio Carlos Egypto

 


O filme português RESTOS DO VENTO, dirigido por Tiago Guedes, nos põe em contato com uma realidade social marcada pela agressividade e pela hostilidade entre os membros de uma vila, no interior de Portugal.  Começa mostrando uma festa tradicional de rapazes correndo atrás das raparigas e desrespeitando-as.  São adolescentes estimulados pelos mais velhos, tratados de forma humilhante e agressiva, num contexto marcadamente machista, que inclui bebida e brigas, uma espécie de passagem para a vida adulta.  Eles estão aprendendo a se comportar como homens, no conceito local, mas escondidos por capuzes que lhes permitem cometer barbaridades sem serem necessariamente identificados.  O que começa assim, já se vê, não pode acabar bem.  Mágoas, rancores, opressão, exclusão, farão parte da vida dessas pessoas da pequena localidade por toda uma vida.  Pelo menos, para os que por lá ficarem.  Um crime, cometido muitos anos depois, se relaciona com essa festividade do passado, que segue se repetindo, para personagens que a vivenciaram naquele período.  Violência e crueldade fazem parte dessa história, claro.  Vingança, talvez.  Cães aparecem como elementos de intimidação, de proteção e de ataque.  A narrativa avança e propõe dilemas morais muito interessantes em discussão.  É um filme forte, pesado, mas muito bem construído.  Exige do espectador muita atenção a coisas que não se expõem de forma clara, é preciso ler nas entrelinhas.  Com Albano Jerônimo, Nuno Lopes, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Gonçalo Waddington, Leonor Vasconcelos.  126 min.

 


ALMA VIVA
, da diretora Cristèle Alves Meira, vai a um vilarejo nas montanhas portuguesas e, por meio da pequena Salomé, nos coloca em contato com o mundo das almas, dos demônios e das bruxas que, na verdade, estão em toda parte, nos mais insuspeitados espaços e pessoas.  Quando se manifestam, a maldade toma forma e aparece com força, destruindo não só reputações como os vínculos de toda uma família entre si e com a comunidade.  Um tema difícil de lidar, na perspectiva do realismo, que a produção dá conta e nos oferece, por exemplo, um fantástico percurso de uma procissão de enterro a pé, que se transforma num inferno, não por qualquer ação extraterrena, mas pela ação de pessoas aparentemente comuns, envenenadas pelo mal.  Ou o mal estaria na pessoa da defunta?  A fantasia interage com a realidade de modo inteligente e visualmente integrado nesse filme que representa Portugal na disputa pelo Oscar de filme internacional.  Com Lua Michel, Ana Padrão, Jacqueline Corado, Catherine Salée, Duarte Pina.  85 min.

 



Outro filme português/francês chamado A CRIANÇA (L’Enfant), dirigido por Marguerite de Hillerin e Félix Dutilloy-Liégeois, primeiro longa da dupla, vai ao século XVI, um período de domínio português, por consequência da expansão marítima.  Conta uma história complicada e pouco envolvente, com excesso de close-ups, sobre um jovem rapaz, Bela, e o seu amor, Rosa, que tentam, mas não conseguem, sair de Lisboa para amar em paz fora de lá, e das interferências em suas vidas, decorrentes da posição de ambos na sociedade da época.  Há outras subtramas.  O contexto político envolve também a Inquisição.  Mas o filme não decola em momento nenhum.  Parece uma coisa tão distante quanto o tempo longínquo a que se refere na narrativa.  Visualmente é bonito, com locações bem fotografadas e boa recriação de trajes de época.  Com Grégory Gadebois, João Arrais, Maria João Pinho, Inês Pires Tavares.  110 min.

 

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domingo, 16 de outubro de 2022

2 FILMES NORTE-AMERICANOS NA # 46 MOSTRA

                   Antonio Carlos Egypto

 

 



ARMAGEDON TIME, filme estadunidense, escrito e dirigido por James Gray, nos põe em contato com uma família em Nova York, nos anos 1980.  Tempos do conservador Ronald Reagan presidindo a nação norte-americana.  O centro da narrativa é o garoto Paul Graff (Banks Repeta), que cresce convivendo numa escola popular com um amiguinho negro: Johnny (Jaylin Webb).  Percebe que o tratamento que recebe é diferente do do amigo, reconhecendo sem nomear a discriminação racista.  Ele irá para uma escola de elite, de formação de líderes, engravatados desde já, mas não perde o contato com o amigo negro.  Viverá, então, muito de perto, a injustiça.  A situação aqui passa também pela hierarquia das classes sociais, onde mesmo um dinheiro mais escasso na classe média assume um valor simbólico.  Encontrará respostas nos adultos, seus pais (Anne Hathaway e Jeremy Strong), os professores e responsáveis pela escola, que mostrarão o pragmatismo da vida.  Mas seu modelo inspirador, e o de toda a família, é o avô, vivido por Anthony Hopkins, um papel sob medida para o grande ator expressar uma compreensão mais consistente e ao mesmo tempo ética e corajosa da vida.  O título do filme pode sugerir a batalha decisiva entre o bem e o mal, mas não é bem assim.  Não chegamos ao final dos tempos, nem estávamos lá nos anos 1980, e essa batalha não tem, nem nunca terá, fim. 118 min.



 



ESTAÇÃO CATORZE (Estación Catorce), do México, dirigido e roteirizado por Diana Cardozo, mergulha na realidade social e na violência de uma pequena cidade.  Isso é mostrado por meio da vivência do menino Luís, de 7 anos, que presencia o assassinato de vizinhos, o saque da casa dos assassinados, a atitude do pai diante disso, o medo e a indiferença frente ao que sucedeu e o roubo como alternativa sempre presente e possível no contexto de miséria.  No entanto, sua vida de garoto com sua turma, explorando ludicamente o ambiente do entorno, está lá e sobrevive à própria morte, tão concreta que se oferece à sua frente. Um objeto de cena, um sofá vermelho, aparece como personagem que expressa e ilustra o contexto do filme em sequências muito bem realizadas.  Em época de Mostra, quando a gente assiste a muitos filmes em pouco tempo, é fácil esquecer ou confundir um filme com outro.  Desse será difícil não lembrar: é o mexicano do sofá vermelho.  Com Gael Vázquez, José Antonio Becerril, Yoshira Escárrega, Lourdes Elizarrás.  87 min.

 

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sábado, 15 de outubro de 2022

GRANDE FILME ESPANHOL NA # 46 MOSTRA

 

Antonio Carlos Egypto

 

 



QUEM OS IMPEDE (Quièn lo Impide) é um filme espanhol, de Jonás Trueba, bem ambicioso e criativo.  Ambicioso porque buscou retratar os jovens espanhóis de classe média que nasceram no século XXI e chegam à idade adulta, ou estão ainda na adolescência, da forma mais plena possível.  A partir de um amplo grupo desses jovens, procurou mostrar, com base no lugar de fala e ações deles, suas dores, seus amores, suas dúvidas e dificuldades, sua música, suas festas, seus desejos, suas ambições pessoais, sua filosofia, seus tipos de agrupamento, suas preocupações culturais e políticas. 

 

Para isso, se valeu de anos de trabalho, que envolveram, não só muitos encontros e conversas, mas eventos, viagens, encenação de conflitos, supostamente reais ou imaginados, inventados, fictícios.  Acompanhou e dialogou com os jovens nas mais diversas situações, quando eles são postos à prova, se sentem questionados, emparedados e também no vigor de suas manifestações de alegria ou de protesto.  Nas suas fragilidades e nos seus êxitos, na sua entrega na luta pelo que possa fazê-los felizes.  Ou seja, criativamente usou todos os mecanismos que encontrou, documentais ou ficcionais, jogos, experiências, trocas de todos os tipos, para alcançar seu objetivo, o de compor um retrato multifacetado dessa geração século XXI. 

 

Com um fartíssimo material, acabou realizando um filme muito longo: 3 horas e 40 minutos de duração.  Isso foi exagero, embora trazendo sempre coisas interessantes para compor esse retrato.  No entanto, uma edição mais enxuta poderia ter resultado num produto ainda melhor. 

 

O fato é que essa exposição soa franca, espontânea, em que pesem a onipresença da câmera e os limites que isso traz.  No fim, percebemos que essa geração, como todas as outras, tem dentro dela tudo o que caracteriza a própria humanidade.  E que a idade, ou a cultura espanhola, que pretende retratar, dá cores e especificidades apenas.  Que são detalhes ou características menos importantes. 

 

O que é muito particular desse grupo todo é o momento da pandemia, que paralisou suas vidas, assim como de todos os demais, mas impôs novos desafios num momento decisivo de suas jornadas.  Eles não são melhores nem piores do que os mais ricos ou mais pobres, em nenhuma época ou em nenhum outro país.  São pessoas em busca de se encontrar, contribuir para a coletividade de algum modo, tentar se realizar e encontrar felicidade.  Como todo mundo, em todos os lugares.  Com Candela Recio, Pablo Hoyos, Pablo Gavira, Marta Casado, Silvio Aguilar, Claudia Navarro.

 

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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

VIZINHOS E O PANORAMA SUÍÇO

Antonio Carlos Egypto

 

Já está em andamento no Cinesesc São Paulo o 9º. Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo, até 19 de outubro de 2022.  Na plataforma digital também estarão disponíveis gratuitamente filmes do Panorama, no Sesc Digital, clicando em sescsp.org.br/panoramasuico, no mesmo período. A promoção é do Consulado Geral da Suíça com o Sesc São Paulo.

 




Um dos filmes dessa Mostra é VIZINHOS (Neighbours), do cineasta suíço-curdo Mano Khalil e tem no elenco Jay Abdo, Serhad Khalil, Jabal Altawil, Zirek, e vejam quem mais: a atriz brasileira e também crítica de cinema, minha amiga Tuna Dwek.  É um espanto vê-la atuar falando em curdo, em várias cenas do filme, que exigiram um bocado de dedicação, empenho e memorização dela.  Além do talento que todos conhecemos.  Mas valeu a pena.  Primeiro, porque o filme é belíssimo, uma realização sensível e dramática, também bem-humorada, que trata de um assunto importante: o Curdistão, essa nação sem Estado territorial, apátrida, que fala diversas línguas, curdo, árabe, turco e persa, já que está num “território” tradicional que envolve Turquia, Iraque, Irã, Síria e Armênia.  Projeções diversas, um tanto indefinidas, falam de uma terra que tem entre 200 mil e 500 mil quilômetros quadrados e uma população entre 25 e 40 milhões de pessoas.

 

O filme VIZINHOS focaliza os anos 1980 e foi todo realizado no Curdistão iraquiano, numa aldeia na fronteira sírio-turca.  Tem como protagonista um personagem/ator de 6 anos de idade, que por conta do domínio das forças militares turcas e das fronteiras, divisórias completamente artificiais para os curdos, perde a mãe querida, alvejada por engano.  Vê seu tio ser preso, torturado, e ter de fugir para não combater uma causa com a qual não tem qualquer afinidade. 

 

Fugir da própria terra por conta de opressões diversas, que incluem a obrigatoriedade da comunicação apenas em árabe e o envolvimento de um professor, que vem de fora para o vilarejo e, além de insistir em plantar palmeiras, símbolo do mundo árabe, num local inóspito para a planta, faz uma campanha do tipo nazista, combatendo os judeus.  Como esses vínculos todos se imbricam, envolvendo diferentes etnias e religiões, eu não sei dizer, mas que é um saco de gatos instigante e tenso, lá isso é.

 

Sero, o garoto, vivido pelo ator Serhad Khalil, uma graça e muita comunicabilidade, passa por tudo que citei, mas segue esperançoso da energia elétrica prometida, que está para chegar ao vilarejo, para finalmente poder assistir aos desenhos animados pela TV, a que todas as crianças das cidades assistem.  Muita política em torno dessa eletricidade que não vem, mas chegará o dia para Sero.  124 min.

 

Com Tuna Dwek no Cinesesc


VIZINHOS terá uma sessão na terça-feira, dia 18, no Cinesesc, às 20:00 h, e esperamos que em breve ocupe as salas de cinema em sessões regulares.  Talvez no próprio Cinesesc, após a 46ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que abre no dia 20 de outubro, cujos primeiros filmes comentarei nos próximos dias.




  

sábado, 8 de outubro de 2022

O QUE VEM PARA A #46 MOSTRA

 Antonio Carlos Egypto


 

 




Em tempos de desmanche cultural, cortes para a cultura e outras ações no sentido de dificultá-la ou inviabilizá-la, é uma ótima notícia a que, apesar de todas as dificuldades, a 46ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo vai acontecer no seu período usual de 20 de outubro a 02 de novembro de 2022.  Será desta vez, como tradicionalmente sempre aconteceu antes da pandemia, presencialmente em 10 cinemas, com 13 salas de projeção no circuito pago, 3, no circuito com preços populares, e 5, no circuito gratuito.  Além disso, 17 títulos estarão disponibilizados on line e gratuitamente no Sesc Digital e no Spcine Play.

 

Os cinemas do circuito pago são: a Cinemateca Brasileira (sala Grande Otelo e área externa), o cine Marquise (2 salas), o Reserva Cultural, o Cinesesc, o Instituto Moreira Salles, o Cine Clube Cortina, o cine Satyros Bijou, o MIS – Museu da Imagem e do Som, os Espaços Itaú de Cinema Augusta, sala 1, e Frei Caneca, salas 1 e 2.  No Centro Cultural São Paulo e na Biblioteca Roberto Santos, sessões a $4,00 e $2,00, no Museu da Imigração do Estado de São Paulo, a $10,00 e gratuitos nos CEUs Perus, Meninos, Vila Atlântica, Centro de Formação Cultural Tiradentes e no vão livre do MASP.  O preço avulso dos cinemas será de $24,00 e $12,00, de segunda a quinta-feira, e $30,00 e $15,00, sextas, sábados e domingos.  As permanentes vão de $150,00 a $600,00, dependendo de suas características.  Pacotes de 20 e 40 ingressos também podem ser adquiridos por $250,00 e $410,00, respectivamente.

 

Vamos, então, destacar alguns dos filmes programados.  Serão 223 títulos, oriundos de 60 países.  Entre eles, “Triângulo da Tristeza”, de Ruben Ostlund, Palma de Ouro em Cannes.  E, também de Cannes, “As Oito Montanhas”, de Felix van Groeningen e Charlotte Vandermeersch, “Boy From Heaven”, de Tarik Saleh, “La Jauría”, de Andrés Ramirez Pulido, “Joyland”, de Saim Sadiq, “Febre do Mediterrâneo”, de Maha Haj, “Os Irmãos de Leila”, “Mais Que Nunca”, de Emily Atef.

 

Do Festival de Veneza, “Bardo – Falsa Crônica de Algumas Verdades”, de Alejandro Iñarritu, “Sem Ursos”, de Jafar Panahi, “Terceira Guerra Mundial”, de Houman Seyedi, “Lobo e Cão”, de Cláudia Varejão, “Nezouh”, de Soudade Kaadan, “Blanquita”, de Fernando Guzzoni.

 

Do Festival de Berlim, “Alcarrás”, de Carla Simón, Urso de Ouro, “O Filme da Escritora”, de Hong Sang-so, “Manto de Joias” de Natalia López Gallardo, “Com Amor e Fúria”, de Claire Denis, “Mutzenbacher”, de Ruth Beckermann.  Do Festival de San Sebástian vem “Los Reyes del Mundo”, de Laura Mora, melhor filme, “Quem os Impede”, de Jonás Trueba, além de “Você Tem que Vir e Ver”.  Do Festival de Locarno, o brasileiro “Regra 34”, de Júlia Murat, Leopardo de Ouro, “Tenho Sonhos Elétricos”, de Valentina Maurel, “Como está Kátia?”, de Christina Tynkevych, “Gigi a Lei”, de Alessandro Comodin.

 






13 obras são filmes indicados ao Oscar de seus países: “Domingo e Neblina”, de Ariel Escalante (Costa Rica), “Nada de Novo no Front”, de Edward Berger (Alemanha), “Belas Criaturas”, de Guõmundur Arnar Guõmundsson (Islândia), “Plano 75”, de Chie Hayakawa (Japão), “Alma Viva”, de Cristèle Alves Meira (Portugal), “Um Pedaço de Céu”, de Michael Koch (Suíça), “Peregrinos”, de Laurynas Bareisa (Lituânia), além dos já citados, “Terceira Guerra Mundial (Irã), “Boy From Heaven” (Suécia), “Febre do Mediterrâneo” (Palestina), “Bardo” (México), “Joyland” (Paquistão) e “Alcarrás” (Espanha).

 

A destacar também “Contos de Fadas”, de Alexander Sokurov, “Pacifiction”, de Albert Serra, “One Fine Morning”, de Mia Hansen Love, “Os Anos Super 8”, de David Ernaux-Briot e Arnnie Ernaux, “Armagedon Time” de James Gray, “Kingdom Exodus”, de Lars Von Trier e “Noite Exterior”, de Marco Bellochio.

 

Além de tudo isso, haverá apresentações especiais de filmes restaurados, como “A Mãe e a Puta” e “Meus Pequenos Amores”, de Jean Eustache, “Bratan”, de Bakhtyar Khudojnazarov, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, “A Rainha Diaba”, de Antônio Carlos Fontoura, “Agulha no Palheiro”, de 1953, como homenagem à cantora e atriz Dóris Monteiro, que recebe o prêmio Leon Cakoff.  O prêmio Humanidade será entregue à diretora Ana Carolina e serão exibidos seus filmes: “Mar de Rosas”, “Das Tripas Coração”, “Sonho de Valsa” e “Paixões Recorrentes”.  Curtas de Lucrecia Martel e Alice Rohrwacher, também em apresentação especial.  O filme “Até Sexta, Robinson”, de Mitra Farahani, condensa um longo dialogo do escritor iraniano Ebrahim Golestan com Jean-Luc Godard em outra apresentação especial, que homenageia Godard.

 

5 títulos trazem olhares sobre a Amazônia: “Amazonas, a Nova Minamata?”, de Jorge Bodansky, “Pisar Suavemente na Terra”, de Marcos Colón, “Noites Alienígenas”, de Sérgio de Carvalho, “À Margem do Ouro”, de Sandro Kakabadza, e “Uyrá, a Retomada da Floresta”, de Juliana Curi.

 

O belo cartaz da 46ª. Mostra é obra do muralista Eduardo Kobra, que é personagem do documentário de Lina Chamie “Kobra Auto Retrato”.  Tem ainda 61 títulos brasileiros, inéditos no circuito comercial, finalizados entre 2021 e 2022.

 

Não será por falta de oferta que se deixará de ir ao cinema em outubro e começo de novembro (contando com a repescagem no Cinesesc).  O cardápio é amplo, variado e muito atraente, como sempre tem sido na Mostra de São Paulo, o grande evento cinematográfico da cidade.

 

www.mostra.org

 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

ENNIO, O MAESTRO

                                          

 Antonio Carlos Egypto

 

 



ENNIO, O MAESTRO (Ennio).  Itália, 2021.  Direção: Giuseppe Tornatore.  Documentário.  150 min.

 

Dizer que o compositor e maestro Ennio Morricone (1928-2020) tenha sido um dos maiores talentos da música para o cinema, em toda a história da sétima arte, não é nenhuma novidade.  Acrescentar que ele foi também um grande criador da chamada música absoluta, para diferenciá-la da música aplicada, por exemplo, ao cinema, ou um experimentalista nesse terreno, talvez agregasse alguma informação menos evidente.  De qualquer modo, a figura artística de Ennio Morricone é imensa, vai da música sinfônica, passando pela experimentação sonora, à música popular de todas as formas e estilos.

 

Naturalmente, um documentário como “Ennio”, dirigido por Giuseppe Tornatore, o diretor de “Cinema Paradiso”, uma das melhores trilhas criadas por Morricone, privilegiaria as suas mais de 500 trilhas produzidas em décadas, desde 1961, como foco.  Mas não ignora os demais aspectos da obra do grande compositor. 

 

O centro do filme é uma longa e excelente entrevista com Ennio Morricone, em que ele aborda desde o início de sua vida artística como trompetista, por imposição do pai, até suas famosas trilhas sonoras, expostas aqui da forma como foram criadas, com que intenções, por meio de precisões sonoras e até detalhes técnicos que interessarão especialmente aos músicos.  Além do papel de sua esposa, Maria Travia, como primeira ouvinte crítica. 

 

É uma conversa profunda de alguém que tem a música na cabeça, dentro de si, e que diante de um estímulo visual, como a imagem cinematográfica, faz jorrar maravilhas sonoras.  O que a imagem pede em ambientação, comentário ou estimulação sonora.  Mas também procurando sempre criar algo novo, ou distinto do já feito, evitando o pedido sempre fácil da repetição do que agradou, deu certo.  Não, mesmo trilhas sentidas como espetaculares por quem quer que as ouça podem ser consideradas insatisfatórias por ele ou inferiores ao que queria fazer.  Às vezes, o tema que a ele parecia mais banal é o que mais arrebata na tela.

 




A música extrapola a tela, permanece fabulosa fora dela, alcança vida própria e embala momentos importantes da nossa existência.  Basta citar algumas dessas trilhas para que todos se lembrem do que elas significam: “A Missão”, “Era uma Vez na América”, “Era uma Vez no Oeste”, “Os Intocáveis”, “Por um Punhado de Dólares”, “Três Homens em Conflito”, “A Lenda do Pianista do Mar”. “Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”, “A Batalha de Argel”, “Os Oito Odiados”, que ganhou um Oscar, por sinal, tardio.  Bem, é uma lista interminável.

 

A entrevista de Ennio Morricone vai recheada de fragmentos dos filmes e comentários de um bom número de realizadores cinematográficos, que ajudam a esclarecer o papel de Morricone, absolutamente central nos filmes em que atuou como autor e responsável pela música do filme.  Vai do amigo Sérgio Leone a Pasolini, Bellochio, Bertolucci, Dario Argento, Wong-Kar Wai, Brian De Palma, Tarantino e muitos mais.  Grande parte desses realizadores, atores e outros músicos dão seus depoimentos, bem editados, no filme.  Dá também para ver e ouvir Joan Baez, absolutamente brilhante cantando Morricone, além de outros cantores e corais.  É emocionante.  Encanta, ao longo dos 150 minutos da projeção, sem jamais cansar.

 

É que, associado ao grande talento do compositor e maestro celebrado no filme, está o cineasta de mão cheia Giuseppe Tornatore, que sabe o que faz e onde quer chegar.  Constrói um belíssimo documentário que faz jus à música grandiosa de Ennio Morricone.




quarta-feira, 28 de setembro de 2022

DUETTO

Antonio Carlos Egypto

 

 



DUETTO (Duetto).  Brasil, 2021.  Direção: Vicente Amorim.  Elenco: Luísa Arraes, Marieta Severo, Gabriel Leone, Maeve Jinkings, Giancarlo Giannini, Michele Morrone, Elisabetta de Palo. 102 min.

 

 

“Duetto” é uma produção brasileira/italiana, escrita por Rita Buzzar e dirigida por Vicente Amorim, que conta uma história envolvendo São Paulo e uma pequena cidade italiana na Apúlia, com elenco dos dois países, falada em português e também em italiano. 

 

É um melodrama familiar centrado na figura de Cora (Luísa Arraes), uma adolescente que sofre a perda do pai num acidente e está em busca de sua identidade, liberdade e maturidade.  Essa perda também afeta profundamente as irmãs Lúcia (Marieta Severo), avó de Cora, e Sofia (Elisabetta de Palo).  Sofia está casada com Gino (Giancarlo Giannini), que vem a ser ex-noivo de Lúcia.  Após 40 anos de separação, as irmãs se encontrarão na Itália, por conta da possível venda de terras da família.  Para lá irá também Isabel (Maeve Jinkings), mãe de Cora.  E por lá os fantasmas que habitam as histórias desta família haverão de circular.

 

Para dar um toque especial à narrativa, faz parte da situação um cantor italiano de sucesso, que se apresentava num festival de música na localidade, colocando música na conversa e na tragédia.  O ano é 1965, em que o Brasil acabava de mergulhar na ditadura militar que se prolongaria por 21 anos.

 




Com esses elementos e um elenco tanto brasileiro como italiano de altíssima qualidade, Vicente Amorim dirige um melodrama em tom baixo, beirando o depressivo, e com um bom número de diálogos lacônicos, a partir sobretudo da personagem de Marieta Severo.  Ela deve ter aproveitado a experiência do exílio italiano com Chico Buarque para se sentir à vontade nos diálogos em italiano de que participa.  Aliás, o filme vale muito por esse grande elenco.  Tem um excelente ator italiano do porte do veterano Giancarlo Giannini.  Elisabetta de Palo e Michele Morrone, que faz o cantor Marcelo Bianchini, também estão ótimos.  Do lado brasileiro, além de Marieta, Maeve Jinkings, atriz talentosa de muitos bons trabalhos no cinema brasileiro, e Gabriel Leone estão muito bem nos seus papéis.  O destaque vai para a jovem Luísa Arraes como protagonista, no papel de Cora.

 

O enredo inclui algumas surpresas e mistérios, mas, no final das contas, segue o padrão clássico do melodrama e caberia muito bem, esticado, numa novela televisiva, que dispensasse os exageros interpretativos.

 

As locações na bela região da Apúlia valorizam o filme, que nos mostra a beleza geográfica do lugar e nos leva a caminhar pelo belo centro histórico, uma experiência turística, cinematográfica, nada desprezível.




 

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

O PERDÃO

    Antonio Carlos Egypto

 

 



O PERDÃO (Ballade of a White Cow).  Irã, 2020.  Direção: Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha.  Elenco: Maryam Moghadam, Alireza Sani Far, Pouria Rahimi Sam, Lili Farhadpour.  105 min.

 

 Moisés disse ao seu povo:

Allah ordena que se mate uma vaca.

Ao que todos responderam: Você zomba de nós? 

Alcorão  (A sura da vaca)

 

Daí vem o estranho título do filme iraniano, Ballade of a White Cow, aqui chamado de “O Perdão”, dirigido pelo casal Behtash Sanaeeha e Maryam Moghadam.  Um filme que, embora inspirado de perto na realidade vivida em parte pelos próprios diretores, é uma ficção dramática, que traz para o centro da narrativa a questão da pena capital.

 

A pena de morte, adotada em alguns países, como o Irã, se reveste de um sentido fatal e irreversível diante do erro.  Da possibilidade de sentenciar um inocente à perda da própria vida.  Já não importará quando, depois da execução, houver o esclarecimento do caso, incluindo o reconhecimento de culpa de outra pessoa por um assassinato, por exemplo.  Algumas pessoas atuaram como juízes, votando pela condenação máxima, em função de possíveis provas e da convicção que se estabeleceu no processo.  É ainda pior nos casos em que não há um processo com as garantias amplas à defesa e ao contraditório.  Por perseguição política, como em várias situações veio a acontecer.

 

Um juiz que se vê na situação de ter contribuído para a morte de um inocente, como se sente?  Poderia fazer algo para reparar tal conduta?  Há reparação possível para a morte de alguém, a partir de uma injustiça, mesmo que realizada sem más intenções ou premeditação?  Há reparação possível diante da morte?  E o que pode dar a um grupo de pessoas o direito de decidir sobre a interrupção da vida de alguém?  Em nome de quê?

 

No caso de uma sociedade guiada pelo autoritarismo religioso, a redução da dissonância pode se dar com a crença de que, se assim aconteceu, foi pela vontade de Deus, que está acima da compreensão dos seres humanos. O que, evidentemente, não soluciona a questão, nem aplaca a consciência de fato.

 





Ocorre que, para além da eliminação de alguém do mundo dos vivos, ficam as situações dos familiares e amigos que aqui permaneceram.  Em particular, no caso abordado no filme, como o condenado era um homem casado e com uma filha com deficiência auditiva, sobra muito para a mulher.  Claro, em primeiro lugar tentando lutar por justiça e procurando sobreviver com dignidade, apesar de tudo.  Mas se ela encontrar apoio de algum homem nessa situação poderá ser condenada pela vizinhança, que representa um meio de controle social muito eficaz, em nome da sociedade.  E mais, coisas práticas podem agravar o quadro, quando a mulher pode ser posta sumariamente na rua, desalojada do local de moradia que alugava, por ter recebido em sua casa um homem que não conhecia e que não é seu parente.  O moralismo rígido complica ainda mais as já suficientemente grandes dificuldades de uma mulher tornada viúva por uma decisão do Estado.

 

Isso é o que se encontra no filme iraniano “O Perdão”, que corajosamente põe em questão a legislação que contempla a pena de morte e a situação da mulher na sociedade, extremamente agravada em casos como esse.  Chama a atenção para o fato de que, se há pena de morte, essa decisão é tomada por pessoas que estabelecem o veredito e que outras pessoas terão a obrigação legal de executar.  O que acontece a essas pessoas, como manter a saúde mental e física, diante de um erro fatal?  Seria preciso muito cinismo para continuar achando que tudo segue bem.  E não viver um turbilhão dentro de si.

 

Por tudo isso que escrevi, dá para ver que é importante assistir a filmes como “O Perdão”, porque nos fazem pensar em coisas muito importantes.  E aplaudir pelo êxito de conseguir realizar uma produção que, como todos os filmes do país, parte de uma autorização inicial de uma comissão de censura, que tem de aprovar o roteiro para obter permissão para filmar.  E que está sujeita a proibição posterior de exibição no país, se o resultado não for do agrado da censura oficial.

 

Que o cinema iraniano siga sendo tão fértil e tão presente no mundo, apesar de tudo o que já aconteceu com seus cineastas, da prisão ao exílio de tantos, chega a ser um milagre.  A verdade é que a arte se alimenta da própria tragédia dos autoritarismos para exercer a resistência em nome de seu povo.  E é capaz de colocar em dúvida certas certezas e antigos dogmas, mesmo à custa de muito esforço e sacrifício.  Rompendo barreiras.

 

 

 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

5 CASAS

 ANTONIO CARLOS EGYPTO

                                



  

5 CASAS.  Brasil, 2021.  Direção: Bruno Gularte Barreto.  Documentário.  85 min.

 

“5 Casas”, documentário gaúcho de Bruno Gularte Barreto, se insere numa tendência atual de construir uma obra a partir de uma experiência pessoal, familiar, ou que inclua ou dialogue com essa experiência.

 

É o caso desse belo documentário que sabe explorar as emoções da vida pessoal com um talento visual muito claro.  Por exemplo, quando vai revelando fotos antigas, há muito guardadas, à luz de velas e quando fixa essas fotos nas paredes da casa sem reboque.  Ou, ainda, quando projeta uma foto do menino, tirada no estúdio de fotografia da pequena cidade, que ocupava uma parede da casa dos pais, por iniciativa da mãe.

 

Tudo tem início quando o cineasta é instado a voltar à sua pequena cidade natal, Dom Pedrito, no interior do Rio Grande do Sul, e cuidar de caixas de papelão abandonadas num galpão, cujo teto desabou.  Isso o obriga a mexer em fotos, objetos, lembranças do passado, que ali tinham ficado após a morte dos pais do diretor, há vinte anos. 

 

A partir disso, revisita sua cidade e algumas figuras marcantes para ele e para a comunidade.  Com isso, acaba explorando as características que marcam socialmente esse mundo e põem em evidência o chamado Brasil profundo, da simplicidade e do afeto, mas também da pobreza, do preconceito, da crueldade.

 



Filma uma velha professora que procura continuar a viver na casa onde sempre morou, tentando mantê-la em pé e a salvo da especulação imobiliária, que deseja demoli-la.   Entrevista um velho capataz, pouco antes de morrer, que viveu isolado numa antiga fazenda considerada assombrada.  E repercute essa solidão e os sonhos de poder voltar a cavalgar.

 

 Uma freira poderosa, que comandou uma instituição educacional, com competência e mão de ferro, é sumariamente obrigada pela Congregação, por voto de obediência, a deixar a cidade a contragosto e apesar dos apelos da comunidade para que pudesse ficar.  Reencontra um amigo de infância que nunca escondeu sua homossexualidade e que expõe as agressões que sempre sofreu e volta a sofrer, quando retorna à cidade.

 

A nostalgia dá lugar à pequenez e à sordidez das pessoas humanas que não abriram suas cabeças, não puderam ampliar seus horizontes e acabam se alimentando de pequenas e grandes crueldades.  Um caldo de cultura para alimentar o fascismo nosso de todos os dias, explorado por uma extrema direita que destrói e arrasa.  O pequeno universo de Dom Pedrito torna-se, assim, eloquente e representativo e a vida pessoal do cineasta ilustra o necessário e urgente caminho de saída rumo à oxigenação, sem se esquecer das raízes que o constróem, para o bem ou para o mal.



sábado, 10 de setembro de 2022

3 FILMES

  Antonio Carlos Egypto

  

Entre os filmes em cartaz nos cinemas, há pedidas para todos os gostos.

 


Se você é fã do cinema fantástico, o filme ERA UMA VEZ UM GÊNIO (Three Thousand Years of Longing), 2021, dirigido por George Miller, pode lhe interessar.  Que tal um gênio que é libertado de um objeto onde tem levado uma vida solitária de 3000 anos e já passou por muitas situações que aconteceram neste tempo todo?  Mas que precisa satisfazer os famosos três desejos de alguém para conquistar sua liberdade.  E se esse alguém que o soltou não pretender realizar esses desejos?  Até porque se rege por uma experiência acadêmica que valoriza o conhecimento e a racionalidade.  Além do mais, essas coisas nunca acabam bem, não é?  Os protagonistas são ótimos: Tilda Swinton e Idris Elba, se bem que o fantástico não dê muita margem à elaboração de personagens densos.  E é difícil embarcar numa história de amor e afetos tão estratosférica.  Em todo caso, o filme é divertido, cheio de efeitos especiais visualmente bonitos.  Perde um pouco no ritmo.  Baseado em um conto, acaba sendo longo demais, sem ter tanto o que acrescentar à situação básica que o sustenta.  108 min.

 



O filme francês de 2020 AMANTES (Amants), dirigido por Nicole Garcia, constrói um suspense sustentado por um triângulo amoroso.  No centro, Lisa (Stacy Martin) tem um romance de juventude com Simon (Pierre Niney), que vivia do tráfico de drogas.  Abandonada por ele depois de um grave incidente, ocorrido em Paris, eles se reencontrarão tempos depois num hotel no Oceano Índico, quando ela já está casada com Léo (Benoît Magiel).  O vínculo do passado segue forte e pode conduzir a graves consequências, desta vez em Genebra.  Ou seja, mesmo afastados no tempo e vivendo em lugares distintos, a história prosseguirá.  Com belas locações e um bom elenco, o filme não chega a empolgar.  Não é uma trama original, nem desenvolvida de forma especialmente criativa.  Mas se vê com prazer.  102 min.

 



ENCONTROS, de Hong Sang-soo, da Coreia do Sul, de 2021, é mais uma vez uma pequena joia fílmica desse diretor que faz de relações amorosas, familiares e de amizade, o seu foco.  Trata aqui de encontros, fortuitos ou combinados, que marcam momentos importantes na vida das pessoas.  O que inclui, naturalmente, os desencontros, as frustrações e até as excentricidades.  Tudo que é simples e humano tem lugar nas filmagens em preto e branco desse cineasta.  As reações das pessoas, muitas vezes mostradas em volta da mesa, com bebida e comida, vão da timidez à surpresa, do estranhamento à agressividade.  No caso aqui, considerando a inevitabilidade de certas situações, o acaso que junta as pessoas e as coisas.  O destino, de algum modo presente nas três histórias interconectadas que compõem a obra.  No elenco deste pequeno filme, de 66 minutos, estão Shin Seok-ho, Park Mi-so, Kim Young-ho e Ki Joo-bong.  



quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O TERRITÓRIO

Antonio Carlos Egypto

 

 



O TERRITÓRIO, que foi o filme de encerramento do festival É TUDO VERDADE 2022, é uma produção Brasil, Dinamarca, Estados Unidos, dirigido pelo norte-americano Alex Pritz.  Se passa em Rondônia, junto aos indígenas Uru-eu-wau-wau que, ao longo das décadas passadas, foram vendo o seu território minguar, até o momento atual, em que o espaço de floresta que ainda lhes cabe parece ser o mínimo para a própria sobrevivência.  No entanto, um grupo de agricultores, grileiros, se apodera de uma área protegida dessa floresta, sem encontrar fiscalização ou controle dos órgãos do governo federal responsáveis por isso.  Pior, no governo Bolsonaro eles se sentem vencedores, confiando na impunidade, mesmo sabendo que estão agindo abertamente contra a lei.  Confiam que a própria lei e sua prática estão sendo mudadas, para favorecê-los, protegê-los.

 

  O documentário de Alex Pritz convive tanto com os indígenas quanto com os posseiros e fazendeiros.  Percebe o apego, respeito e proteção à floresta, que embalam a população originária indígena dessa região de Rondônia.  No convívio com os invasores, encontra uma relação violenta com a terra, além do negacionismo quanto à própria existência dos índios ali.

 

 A violência se materializa de forma muito concreta na morte de um jovem líder indígena que ostentava o título de “protetor da floresta”.  Suprema ironia.  E quem teria de proteger a floresta não se empenha em investigar mais essa morte anunciada, pelo conflito de interesses aí envolvidos e pela diferença de poderes que os distingue.

 

  Sem sentir que possam contar com o apoio oficial, os indígenas encontram apoio em militantes ambientais e vão descobrindo os seus próprios caminhos.  Com o auxílio de drones, celulares, filmagens, eles encontram meios de produzir provas, denunciar e se defender por conta própria, tentando expulsar os invasores, destruindo ou queimando cabanas que eles erguem em meio à terra indígena.

 

 É dramático o que O TERRITÓRIO mostra.  Não que já não tenha sido relatado pelo jornalismo investigativo dos órgãos sérios da mídia, da imprensa, televisiva ou pela Internet.  Só que o convívio concreto, e de perto, com os dois grupos traz uma emoção que ultrapassa em muito o noticiário sobre o tema.  A imersão nessa realidade causa tanto desconforto que os números do desmatamento recorde da Amazônia dos últimos anos até perdem parte da sua força.  E, olha, que esses números são assustadores.  83 min.