sábado, 12 de março de 2022

BELFAST

Antonio Carlos Egypto

 



 

BELFAST (Belfast). Reino Unido, 2021.  Direção: Kenneth Branagh.  Elenco: Caltríona Balfe, Jaime Dornan, Judi Dench, Clarán Hinds e o menino Jude Hill.  98 min.

 

 O consagrado ator e diretor “shakespereano” Kenneth Branagh é irlandês, natural de Belfast, que dá nome ao filme que ele dirigiu, baseado em suas vivências infantis, no período imediatamente anterior à mudança de sua família para Londres. Essa mudança se dá por dois fatores: uma oferta de emprego convidativa para uma família endividada e a deterioração das relações na comunidade em que viviam, após a eclosão de conflitos violentos entre protestantes e católicos.

 

O que se verá em “Belfast” é a visão e as experiências do menino, aos 9 anos de idade, tão perplexo como nós, os espectadores, distantes daqueles acontecimentos de 1969, tanto no tempo quanto geograficamente.  Sempre foi, e será, difícil de explicar essa guerra religiosa de intolerância e violência física em pleno século XX em países desenvolvidos, que viveram os horrores das guerras mundiais tão de perto, ou de dentro.  De qualquer modo, não será a abordagem de Kenneth Branagh em “Belfast” que irá nos esclarecer de algo.

 

O filme começa com visões panorâmicas, do alto, de 360 graus, da cidade de Belfast, a capital da Irlanda do Norte, com suas cores, sua beleza, sua pujança.  Passa para uma quase idílica quadra, em que todos andam livres e alegremente pelas ruas, especialmente as crianças.  Aí a nostalgia domina o filme, que se transforma em preto e branco para melhor refletir isso.  Todos convivem em harmonia com as diferenças.  A região é predominantemente protestante, mas comporta uma minoria católica, e isso não é um problema.  É o que se depreende do que as imagens mostram e de como o menino vive lá.

 



Até que, sem nenhum motivo aparente, explode uma guerra no quarteirão.  Bombas, explosões, brigas, quebra-quebra, saque a supermercado, perseguições, atuação policial.  Muita violência. Uma sequência interessante é a que faz a passagem de uma situação a outra.  O escudo que seria para o menino brigar com dragões imaginários serve de defesa para ele e para sua mãe diante das agressões concretas e palpáveis que estavam acontecendo.  Enfim, o mundo do garoto desmoronou.  No entanto, ele seguirá feliz em seu ambiente familiar, com os pais, o irmão mais velho, os avós e a comunidade que o conhece e interage com ele.

 

O confronto entre o mundo idealizado do garoto e as novas dimensões do conflito, inevitavelmente, vão modificar esse microcosmo irlandês.  Com afeto, bom humor e pitadas de amor ao cinema, Kenneth Branagh mergulha nesse drama com leveza e, claro, valoriza o respeito e o convívio entre as pessoas e suas diferenças religiosas.

 

É um filme bonito, fácil de ver, que recebeu 7 indicações ao Oscar: filme, diretor, atriz e ator coadjuvantes, roteiro original, som e canção original (Down to Joy), mas pouco ou nada nos acrescenta na compreensão do fenômeno político que ele aborda.

 

O elenco está muito bem e o menino, que é o protagonista do filme, Jude Hill, aos 10 anos de idade, é simpático, vigoroso, expressivo.  Ajuda a tornar “Belfast” um produto atraente e comunicativo,



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

A ILHA DE BERGMAN

               Antonio Carlos Egypto

 

  



A ILHA DE BERGMAN ( Bergman Island ) , França,2021.  Direção e roteiro: Mia Hansen-Love.  Elenco: Vicky Krieps, Tim Roth, Mia Wasikowska, Anders Danielsen Lie.  105 min.

 

Assistir a um filme que fala de Ingmar Bergman (1918-2007), que tem como locação a ilha de Farö, onde ele viveu e filmou, visitar paisagens, lugares, casas, que estão registrados na sua obra cinematográfica, é tudo o que um cinéfilo, ou crítico, gostaria de ver.  Pois a diretora francesa Mia Hansen-Love nos oferece isso no filme “Bergman Island”.  É um imenso prazer percorrer com seus personagens essa bela ilha, ver a casa, a biblioteca, o cinema, o moinho, a vegetação, o mar, as pedras e o silêncio que encantavam o mestre sueco em sua reclusão, protegida pela própria população da localidade.  Já bastaria isso para nos interessar por esse filme.  Mas, nesse caso, teríamos um documentário, à semelhança do filme homônimo “A Ilha de Bergman”, produção sueca dirigida por Marie Nyreröd, em 2006.  A ilha estava lá, mas o foco foi o próprio Bergman, ainda vivo, revendo sua vida e sua história no cinema, no teatro, na TV. “Bergman Island”, de Mia Hansen-Love, é uma ficção.  Um casal de cineastas e roteiristas vai passar um período na ilha de Farö, em busca de inspiração, além de conhecer o lugar icônico que Bergman escolheu para viver, onde escreveu e filmou.  Ambos escrevem, passeiam pela ilha, juntos e separados.  Ele faz o Bergman Safári, esquema turístico que leva aos lugares que marcam a obra do diretor.  Ela faz um percurso mais livre e solto, em busca desses lugares.  E escrevem, ele, com mais facilidade e disciplina, ela, com mais tensão e dúvida.  No entanto, é ela que começa a contar a sua história, o seu roteiro.  O que vemos, então, é o seu roteiro já transformado em filme.  Assistimos ao filme dentro do filme, embora inconcluso, ou assim definido como tal, por ela.  A uma certa altura, o que está acontecendo com o casal se confunde com o roteiro e até com os atores que o representam, numa fusão muito interessante de desejo, inspiração, realidade, fantasia.

 

 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A PROFESSORA DE VIOLINO

   Antonio Carlos Egypto

 

 



A PROFESSORA DE VIOLINO (Das Vorspiel).  Alemanha, 2020.  Direção: Ina Weisse.  Elenco: Nina Ross, Ilja Monti, Jens Albinus, Simon Abkarian.  100 min.

 

“A Professora de Violino”, o título já indica, tem na música clássica, a música de concerto, o seu foco.  Trata-se de música muito elaborada, que exige uma dedicação muito grande e constante por parte dos instrumentistas.  Ao apreciarmos o desempenho de um virtuose, já sabemos que por trás daquela arte está uma determinação e muitas horas de estudo diário, ou seja, talento, mas muita transpiração também.

 

Num ambiente de conservatório, trabalha Anna, Nina Ross em grande desempenho, violinista que não tem atuado como concertista por algumas questões motoras, mas é uma exigente professora.  Procura extrair de seus alunos o máximo, a ponto de tornar penosa a experiência desse aprendizado.  É o que acontece com um aluno de ensino médio, a quem ela se dedica bastante, por acreditar no talento dele.

 

A vida de Anna é recheada de música também na família.  Seu marido é luthier, construtor de instrumentos.  Seu filho menor também estuda violino.  O que parece ser um mundo de arte e beleza por todos os lados, no entanto, é, para ela, desde sempre, um mundo tenso.

 




A figura de Anna, desde as primeiras cenas de “A Professora de Violino”, é a de alguém que vive em tensão constante.  Frustrações recentes, fantasias passadas não realizadas, talvez.  Sobretudo, um modo de viver exageradamente a serviço da perfeição.  Exigente demais para consigo mesma e para os alunos, o que é contraproducente, em termos pedagógicos.  Ocorre que o ambiente em que ela trabalha também reforça isso.  As exigências de seus colegas são similares.  Há quem tenha, inclusive, mais rigidez nas performances cobradas dos alunos do conservatório do que ela.

 

Ao ver o filme, apreciamos a beleza da música, mas sofremos com a personagem central e suas tensões.  Fica claro que algo vai se romper, num esquema como esse.  Uma tragédia anunciada acontece, envolvendo a relação carregada com seu aluno, que evolui, enquanto seu filho vê com ciúme a atenção que ela dedica ao aluno.  Essa é uma questão, mas as relações familiares de Anna, tanto com o filho quanto com o marido, já estavam na mesma ordem tensa em que ela se move no mundo antes disso.

 

A beleza da música não parece conviver bem com tanta rigidez nos estudos e ensaios.  Como usufruir da arte, quando se está à beira de um ataque de nervos?  No fim das contas, embora a música clássica seja a razão de ser do filme, o seu verdadeiro assunto é o estado mental dessa professora, a sua dificuldade de encarar a vida com mais leveza e, mais do que tudo, com afeto.  Quando falta amor, mesmo a arte sucumbe.  Seca, enrijece, se consome.

 

A trilha sonora de “A Professora de Violino” tem Paganini, Schubert, Bach, Brahms, Mendelssohn,  Vivaldi e muito mais.  A narrativa é convencional, sem inovações, mas flui bem.


 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A FELICIDADE DAS PEQUENAS COISAS

Antonio Carlos Egypto

 

 



A FELICIDADE DAS PEQUENAS COISAS (Lunana: A Yak in the Classroom).  Butão, 2019.  Direção: Pawo Choyning Dorji.  Elenco: Sherab Dorji, Kelden Lhamo, Sonam Tashi Choden, Pem Zam, Tshering Dorji.  110 min.

 

O pequeno Butão, nos Himalaias, país que faz fronteira com a China e a Índia, próximo do Nepal e de Bangladesh, no sul da Ásia, conta com cerca de 770 mil habitantes.  Sua capital, Timbu, concentra cerca de 114 mil pessoas.  É o país que inovou ao criar a FIB, Felicidade Interna Bruta, para medir o nível de desenvolvimento pelo nível de felicidade da população, em lugar do PIB, o Produto Interno Bruto, como costuma-se fazer em todo o mundo.  Talvez por isso, o título em português do filme butanês tenha se chamado aqui “A Felicidade das Pequenas Coisas”, pois o título original traduzido seria Lunana: um iaque na sala de aula, um título que soaria no mínimo estranho para nós.

 

Pois bem, esse filme passou pelos filtros do Oscar e está entre os cinco finalistas na disputa pelo melhor filme internacional, coisa que o Brasil não consegue há muito tempo.  Os demais concorrentes são da Itália, da Dinamarca, da Noruega e do Japão.  Um feito e tanto para o pequeno Butão.

 

Fui ver o filme e concordei plenamente com sua indicação.  É um trabalho bonito, sensível, e lida com as diferenças culturais com muito respeito e atenção.  Além disso, tem bons desempenhos de elenco e locações espetaculares nas montanhas do país, que chegam a alcançar 7 mil metros de altura em picos nevados permanentes.

 

A narrativa aborda um jovem professor, de vinte e poucos anos, desinteressado do magistério, em busca de uma carreira de cantor na Austrália.  Enquanto espera por isso, ele vai lecionar na mais remota escola pública do Butão, no alto de montanhas, em que são necessários oito dias de caminhada para ser alcançada, após a localidade mais próxima servida por ônibus.  Encontra lá não só a falta dos recursos a que está habituado, como um estilo de vida que em nada se equipara à cidade de Timbu, onde ele vive.  Na verdade, essa escola seria a mais remota, não só do Butão, mas do mundo.




Lá, a riqueza se resume aos iaques, uma espécie de boi domesticável.  Seu estrume serve aos mais diversos usos.  Daí a ideia de ter um iaque ao lado do professor e dos alunos, em plena sala de aula, como está no título do filme.  Lunana é essa localidade remota, onde vive uma dezena de pessoas, pastores de iaques, que valoriza muito a educação, porque, segundo eles, “o professor toca o futuro”.

 

Conhecer e conviver com essa realidade rural tão pobre e distante, incrustada numa natureza exuberante, com pessoas acolhedoras, em uma cultura que celebra e canta a vida, em que pesem todas as enormes dificuldades, é uma experiência enriquecedora que o cinema pode nos proporcionar. Como proporcionou ao protagonista da história.

 

O reino do Butão, uma pequena monarquia constitucional budista, que valoriza a felicidade acima de tudo, nos mostra um belo exemplo da capacidade de adaptação e da resiliência de que é capaz a humanidade, nos mais distantes rincões do planeta.




 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

A MULHER QUE FUGIU

Antonio Carlos Egypto

 

 



A MULHER QUE FUGIU (Domangchin yeoja).  Coreia do Sul, 2020.  Direção: Hong Sang-soo.  Elenco: Kim Min-hee, Song Seon-mi, Eun-mi Lee, Hae-hyo Kwon.  77 min.

 

Não é a primeira vez aqui no cinema com recheio, que eu vou tratar de um filme do diretor sul coreano Hong Sang-soo.  Já tive oportunidade de comentar os filmes “HaHaHa”, de 2010, “A Filha de Ninguém”, de 2013, “Certo Agora, Errado Antes”, de 2015, “Na Praia, à Noite, Sozinha”, de 2017.  Também, pudera, o diretor é um dos mais ativos e produtivos do cinema atual.  Realiza muitos filmes, e com rapidez, já que são projetos modestos em termos de orçamento e que cultivam a simplicidade.  O foco são os relacionamentos humanos, como eles se dão, com surpresas e novidades que podem aparecer.  E aquilo que ele preza muito: o papo no bar, em torno da bebida e da comida, em que a conversa se revela, as coisas acontecem, aparecem os conflitos e a afetividade, a timidez dá lugar a alguma forma de sinceridade e até a agressividade e a ofensa podem encontrar um meio de se expressar.

 

Os relacionamentos se guiam pela espontaneidade, mas também pelos planejamentos que fazemos ou por valores que desejamos seguir ou que acreditamos seguir.  “A Mulher que Fugiu” mostra bem isso.

 

O que vemos é a protagonista Gam-hee encontrar-se com três amigas diferentes, que ela não via há muitos anos, e o que rola na conversa delas.  Dois foram encontros intencionais, outro foi ocasional. Mas o fato é que, pela primeira vez, ela está livre para esses encontros porque o marido, com quem ela está casada há cinco anos, teve de viajar a trabalho.  Então, eles se separaram nesse tempo.  Fora disso, estão sempre juntos, acreditam que um casal deve compartilhar tudo, conviver o tempo todo assim.  Pelo menos, é o que ela diz e acrescenta que isso é muito bom, que está feliz, que ambos se curtem e aproveitam muito bem essa convivência.  Será?  Dá para acreditar num relacionamento assim tão fechado?  As ações dela mostram outra coisa.  Essa felicidade sufocante não existe, é uma ilusão.  Até quando ela será capaz de sustentar isso?

 

No filme, vamos observando o que é dito, as ações e os condicionantes dessa atitude e dessa vida, além da relação de cada uma das amigas com ela, a partir do distanciamento que se estabeleceu.  Vê-se que cada mulher tem interesses, prioridades e valores, distintos.  A diversidade nas relações humanas aparece claramente.  As conversas também são interrompidas, aqui e ali, por homens, geralmente.

 




“A Mulher que Fugiu”, como todos os filmes de Hong Sang-soo, nos remete ao cotidiano, mais simples e direto, em que as coisas se dão e em que é possível entender melhor as pessoas, suas motivações, problemas, aspirações.

 

O diretor diz que trabalha em aberto, não tem uma ideia completa da estrutura narrativa do filme a priori.  Parte de uma situação e vê o que acontece, como ele reage a isso, aproveitando o que aparece, na crença de que o que surge será sempre melhor do que o que se estabeleceu a princípio.  Ou seja, um diretor que sabe lidar com o que emerge das situações, dos atores e atrizes, seja inesperado ou não, e incorpora isso à sua obra.  O que lhe permite inovar, criar, em pleno processo de realização.  Por isso mesmo, seu cinema se parece tanto com a vida como ela é, seja aqui, seja na Coreia.

 

O seu cinema nos convida a estar atentos ao que se vê, deixando fluir as sensações.  Há quem não goste, achando que nada acontece, ou que considere seus filmes lentos.  Eles têm o ritmo da vida, com um toque oriental, claro.

 

Quem se acostuma ao seu jeito de filmar e ao clima que ele consegue criar, gosta muito e espera o próximo filme dele com muito interesse.  Os econômicos 77 minutos de “A Mulher que Fugiu” parecem pouco para a fruição que ele nos propõe.  Hong Song-soo tem sido bastante valorizado e premiado nos festivais de cinema ao redor do mundo.  Com este trabalho, por exemplo, ele levou o Urso de Prata do Festival de Berlim 2020.




 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

MÃES PARALELAS

Antonio Carlos Egypto

 

 



MÃES PARALELAS (Madres Paralelas).  Espanha, 2021.  Direção: Pedro Almodóvar.  Elenco: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Rossy de Palma.  120 min.

 

Pedro Almodóvar é um grande contador de histórias, cinematograficamente falando.  Ele articula locações, ambientes, detalhes cenográficos, figurinos, música, desempenho de atores e atrizes, de modo harmônico.  A serviço, porém, do questionamento, da contestação, da transgressão.  Enfim, de uma perspectiva transformadora, revolucionária.

 

Ele é, também, um grande criador de histórias.  Seus filmes amarram tantas ideias distintas e complementares que poderiam dar margem a vários filmes, não um só.  No papel de roteiristas ou cineastas, é frequente que seus personagens contem outras histórias, diferentes daquela que estão representando.  Pois, “Mães Paralelas” é um belo exemplo dessa profusão de casos, situações, conflitos, que se desdobram em vários outros e que poderiam ensejar novos argumentos e roteiros originais.

 

O filme se centra em duas figuras femininas distintas, vivendo uma situação similar.  Duas mulheres que engravidaram por acidente, ou seja, sem planejamento.  Uma, Janis (Penélope Cruz), acima dos 40 anos, e outra, Ana (Milena Smit), ainda adolescente.  Suas histórias de vida são muito diferentes, os sentimentos envolvidos por essa gravidez, também, porém, elas terão suas vidas imbricadas por uma série de fatores e circunstâncias e estarão sujeitas às armadilhas do destino, ou do acaso.


 



A sexualidade é a fonte de todos os dramas almodovarianos, e não apenas suas consequências.  Aqui não é diferente.  A relação de Janis com Arturo (Israel Elejalde), que resultou na gravidez, apimenta o desejo de ambos com uma questão maior e política, vinculada à história espanhola.  Remete à guerra civil espanhola (1936-1939), que resultou no regime fascista do ditador Francisco Franco (1892-1975).  Almodóvar nunca deixou de se referir em seus filmes a esse período longo e tenebroso do franquismo.  Quando escrevi “Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar”, apontei que em todos os seus filmes a referência ao franquismo está lá, às vezes de forma sutil e indireta ou por meio de seus valores ultraconservadores e retrógrados, mas nunca escapa.  Em “Mães Paralelas” ele faz isso de forma explícita, ao mostrar que as ossadas de espanhóis mortos naquele conflito dos anos 1930 continuam a ser descobertas e a produzir horror e sofrimento, em pleno século XXI.

 

Almodóvar combina muito bem a vida das duas protagonistas, com seus dramas pessoais, na vivência de suas experiências sexuais e afetivas, com a história política do país, que tem tudo a ver com a relação delas entre si e com seus familiares, recentes ou distantes. Bombardeia a ideia de que é melhor seguir adiante, esquecer o passado, que já não tem sentido para os mais jovens.  As questões do passado não resolvidas estarão sempre assombrando as relações do presente e o futuro do país e das pessoas que nele vivem.  Ana é tão afetada por isso, em sua juventude, quanto Janis, em sua maturidade.  Pais, avós, bisavós, interagem com as histórias delas hoje e as transformam.

 

A diversidade dos desejos sexuais e a fluidez da identidade de gênero também estão presentes na narrativa.  O machismo, o estupro e a violência sexual contra as mulheres são lembrados e integram  a história.

 

O mercado, o papel da arte e a revelação da criação artística, assim como o seu caráter avassalador na vida cotidiana, são abordados a partir da figura da mãe de Ana.  O teatro se antepondo à própria vida familiar, como é comum acontecer, contribuindo para que tudo fique mais difícil.  Ainda assim, compreensível.  Almodóvar não costuma julgar seus personagens.  Mostra, relata, provoca, mas não julga.  Tudo o que é humano, afinal, pode ser compreendido, de algum modo.  Pode ser horrível, mas tem sua razão de ser, no contexto das relações pessoais.  Em termos coletivos, a tragédia não tem nome, nem explicação.  Tem motivações econômicas e políticas.

 




Penélope Cruz, maravilhosa, grande atriz, está indicada ao Oscar por este filme.  Tomara que leve a estatueta para casa.  Mas todo o elenco de “Mães Paralelas” está ótimo.  Rossy de Palma, atriz habitual dos filmes do diretor, está lá, mais contida desta vez e, como sempre, muito bem.  Israel Elejalde, que eu não conhecia, está bem no seu papel.  E a jovem Milena Smit, uma revelação, dá conta do complicado papel de Ana, uma das protagonistas da trama.

 

A música de Alberto Iglesias pontua e destaca as emoções do melodrama político com eficiência.  E, naturalmente, Janis Joplin tinha que fazer parte da trilha.  Afinal, a personagem Janis é uma homenagem a ela, intérprete icônica daquele momento trágico e inovador do mundo, os anos 1960-1970.

 

“Mães Paralelas” é um grande filme, mais uma obra importante na filmografia já extraordinária do mestre espanhol do cinema contemporâneo, Pedro Almodóvar.

 

 

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

PRÊMIO ABRACCINE 2021

 

Prêmio Abraccine 2021 escolhe “Cabeça de Nêgo” e “Ataque dos Cães” como melhores longas; “Chão de Fábrica” é o melhor curta

Ainda reverberando a pandemia e com uma cartela de filmes predominantemente lançada em plataformas de streaming, associados e associadas da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) votaram, definiram e elegeram seus lançamentos favoritos para o Prêmio Abraccine 2021.

O Prêmio foi anunciado pela primeira vez numa transmissão ao vivo, na noite de quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022, no canal da entidade no YouTube. Com mediação do presidente da Abraccine, Marcelo Miranda, participaram Cecília Barroso e Adriano Garrett, integrantes da comissão que trabalhou na metodologia e organização da votação esse ano.

O vídeo pode ser assistido aqui:

Os resultados chamam atenção para dois aspectos importantes: a presença expressiva de filmes dirigidos por mulheres, com equilíbrio entre os títulos mais votados e trabalhos de grande estímulo estético; e a predominância dos serviços de streaming como espaços de difusão para lançamentos importantes da temporada.

Pelo segundo ano consecutivo, o longa-metragem estrangeiro mais votado por integrantes da Abraccine tem direção de uma mulher: venceu “Ataque dos Cães”, assinado pela neozelandesa Jane Campion.

Uma cineasta também assina o curta-metragem brasileiro mais votado, “Chão de Fábrica”, dirigido por Nina Kopko e realizado em São Paulo.

Fechando a trinca de premiados como melhores de 2021, o longa brasileiro mais votado foi “Cabeça de Nêgo”, realizado no Ceará com direção de Déo Cardoso.

Além dos três premiados, a Abraccine divulga ainda seu TOP 10 de melhores filmes em cada uma das três categorias, a partir da mesma votação e em ordem alfabética de título.

LONGA-METRAGEM BRASILEIRO

Vencedor: “Cabeça de Nêgo” (Ceará), de Déo Cardoso

Top 10 em ordem alfabética

“Alvorada”, de Anna Muylaert e Lô Politi
“Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”, de Cesar Cabral
“Cabeça de Nêgo”, de Déo Cardoso
“Deserto Particular”, de Aly Muritiba
“Madalena”, de Madiano Marcheti
“Marighella”, de Wagner Moura
“A Nuvem Rosa”, de Iuli Gerbase
“A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi
“Valentina”, de Cássio Pereira dos Santos
“Vento Seco”, de Daniel Nolasco

LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO

Vencedor: “Ataque dos Cães” (Reino Unido/Canadá/Austrália/Nova Zelândia), de Jane Campion

Top 10 em ordem alfabética

“All Hands on Deck”/”À l’abordage” (França), de Guillaume Brac
“Annette” (França), de Leos Carax
“Ataque dos Cães” (EUA), de Jane Campion
“A Filha Perdida” (EUA), de Maggie Gyllenhaal
“First Cow – A Primeira Vaca da América” (EUA), de Kelly Reichardt
“Meu Pai” (EUA), de Florian Zeller
“Nomadland” (EUA), de Chloé Zhao
“Quo Vadis, Aida?” (Bósnia-Herzegovina), de Jasmila Zbanic
“Small Axe: Lovers Rock” (EUA), de Steve McQueen
“Undine” (Alemanha), de Christian Petzold

MELHOR CURTA-METRAGEM BRASILEIRO

Vencedor: “Chão de Fábrica” (São Paulo), de Nina Kopko

Top 10 em ordem alfabética

“Chão de Fábrica”, de Nina Kopko
“A Fome de Lázaro”, de Diego Benevides
“A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis
“Uma Paciência Selvagem me Trouxe até Aqui”, de Érica Sarmet
“Rua Ataleia”, de André Novais Oliveira
“Se Hace Camino al Andar”, de Paula Gaitán
“Sem título #7 – Rara”, de Carlos Adriano
“Sideral”, de Carlos Segundo
“Trópico de Capricórnio”, de Juliana Antunes
“Yaõkwa – Imagem e Memória”, de Rita Carelli e Vincent Carelli

domingo, 23 de janeiro de 2022

ATAQUE DOS CÃES

                      Antonio Carlos Egypto

 


 

 ATAQUE DOS CÃES (The Power of the Dog)Nova Zelândia, 2021.  Direção: Jane Campion.  Elenco: Benedict Cumberbatch, Jesse Plemons, Kristen Durst, Kodi Smit-Mc Phee.  128 min.

 

“Ataque dos Cães”, o novo filme da diretora neozelandesa Jane Campion (de “O Piano”, de 1993, e “Brilho de uma Paixão”, de 2009) remete ao universo do western.  A trama se localiza numa grande fazenda em Montana, em 1925, onde vivem os irmãos Burbank: Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons).  Essa dupla de irmãos é apresentada como formada por figuras opostas.  George é educado, civilizado, respeitador das mulheres, bem apessoado.  Um padrão de masculinidade refinado para o ambiente em que vive.  Phil, ao contrário, segue o padrão do cowboy grosseiro, agressivo, que gosta de viver sujo (embora tome seus banhos na lagoa), corajoso e decidido.  Um tipo de masculinidade projetado como modelo nesse ambiente e que ele remete ao ídolo Bronco Henry, o cowboy que o ensinou a “ser homem”.

 

Quando George se casa sem avisar com Rose (Kristen Durst), uma viúva da localidade que Phil despreza, e a traz para casa com um filho adolescente, Peter (Kodi Smit-Mc Phee), o clima pesa.  Phil radicaliza o seu comportamento, tentando inviabilizar essa vida familiar em comum, humilhando Rose e Peter, este, por seu comportamento encarado como afeminado, construindo flores de papel, por exemplo.

 

Um clima em que a grosseria e as ameaças de Phil sugerem um grande drama pela frente. O que, por um lado, não deixa de acontecer, sobretudo com Rose.  Ela incorpora o problema para si e se refugia na bebida.  Mas Phil se aproxima de Peter e procura fazer o que Bronco Henry teria feito por ele, o ensinar a “ser homem”, a partir de aprender a cavalgar.  Uma virada no rumo das coisas, na expectativa criada.  E não será a única.

 

O filme, baseado no romance de Thomas Savage, também roteirista ao lado de Jane Campion, entra no gênero western, ressignificando suas convenções, virando-o de cabeça para baixo.  Senão, vejamos: embora o ambiente seja hostil, beirando à guerra pessoal ou familiar e podendo incluir os empregados da fazenda, não acontecem brigas, sopapos, tiroteios.  A tensão fica no ar.  Tem até índios, que poderiam ser perigosos inimigos, mas não, eles vão pedir couro cru e acabam sendo atendidos, mesmo que Phil fique possesso por isso. A relação entre os irmãos, apesar de incômoda, não descamba, mesmo nos momentos em que Phil ultrapassa claramente os limites.  E a aproximação entre Phil e Peter trará à tona revelações do passado, que “explicam” essa hostilidade toda cultivada por Phil.


 



A solução da trama passa por caminhos insuspeitos e surpreendentes, que remetem ao convívio com os animais e suas consequências, embora não haja concretamente nenhum ataque de cães, como no título em português. O sentido é poético. Ou o poder do cão, do título original, simbólico.

 

“Ataque dos Cães” explora a questão de gênero por meio de suas nuances, expectativas, construção de personas e impactos no contexto das relações sociais.  A masculinidade é colocada em evidência, até pelo próprio universo do gênero, marcadamente masculino, como um leque de opções bem amplo.  Cabem muitas formas de ser homem, mesmo nesse universo aparentemente limitado e fechado em si mesmo. É que não é assim.  Há espaço para muita coisa aparecer de onde menos se espera.  O ser humano e sua identidade de gênero são coisas complexas e cheias de sutilezas.  O espaço para as mulheres é mais complicado quando o contexto social se estreita, mas elas encontrarão sua força ainda que a resposta passe por mimetizar algum padrão “masculino”, como o dos negócios ou da bebida.

 

O que o filme deixa claro é que não é a força bruta que se impõe, no fim das contas.  Contra todas as aparências, é o planejamento e a inteligência que vencem.  “Ataque dos Cães” é uma produção da Netflix, disponível nesse serviço de streaming.  Eu vi o filme no cinema e apreciei muitíssimo as locações escolhidas, os planos gerais explorados com rara beleza, a amplitude das colinas, a natureza em tons marrons, que dialoga com a narrativa.

 

Quanto ao elenco, muito apropriadamente escolhido, com atuações que exploram bem as características dos personagens centrais e dão força à história.  O filme concorre ao Oscar com boas chances.  E Jane Campion retorna à direção depois de vários anos de ausência, e cada vez melhor. 



sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

BENEDETTA

Antonio Carlos Egypto

 

 



BENEDETTA (Benedetta).  França, 2021.  Direção (e roteiro com David Birke): Paul Verhoeven.  Elenco: Virginie Efira, Charlotte Rampling, Daphne Patakia, Lambert Wilson.  130 min.

 

O diretor holandês Paul Verhoeven sempre curtiu erotismo e violência em tom provocativo, com a intenção de mexer com o estabelecido, sacudir conceitos, valores, estruturas.  “Instinto Selvagem”, de 1992, e “O Quarto Homem”, de 1983, são apenas dois exemplares conhecidos do seu trabalho.  Há coisas bem mais explícitas do período eminentemente contestatório dos hippies, por exemplo.  Pois bem, aos 83 anos de idade, ele continua sendo um jovem iconoclasta.

 

“Benedetta” explicita a hipocrisia da Igreja Católica, seus conventos de freiras e representantes do Vaticano, no período do Renascimento italiano e também Contra-Reforma.  A partir de fatos verdadeiros, ocorridos no século XVII, na cidade de Péscia, na Toscana, no Convento Madre de Deus, relatados no romance da historiadora inglesa Judith C. Brown, “The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy”.  Freira lésbica?  Vem polêmica por aí, é claro!

 

O lesbianismo da freira Benedetta (Virginie Efira) e sua parceira de convento Bartolomea (Daphne Patakia) é central na trama, mas há muitos outros elementos importantes no caso Benedetta.  Ela fazia milagres, tinha visões, falava com Jesus, que lhe indicava caminhos e previa coisas que viriam a acontecer, incluindo sua própria morte e a erupção de uma peste, amplamente mortal, no estilo da nossa pandemia atual.

 

A palavra de Deus determina atitudes, posicionamentos na escala de poder, promove e destrona figuras que vão do rés do chão ao topo e vice-versa.  Julga, tortura, prende e mata infiéis.  E onde está essa palavra, afinal? 

 

O problema é que tudo isso pode ser uma grande farsa, uma mentira, teatralizada por grandes crises, convulsões, histeria.  Na base de tudo, o sexo reprimido, que explode onde e quando menos se espera.




O que é muito interessante, também, é debater o que há de intencional, consciente, nesta história de uma figura que assume ares de fanatismo, premonição, santidade, engodo e bruxaria.  O que é e onde está a verdade?  Um heroísmo do tipo Joana D’Arc se materializa quando a cidade de Péscia escapa da tal peste destruidora, que ela anteviu e teria sido responsável por sua não expansão à localidade.  Mas o núncio apostólico do Vaticano (Lambert Wilson) e a abadessa irmã Felicità (Charlotte Rampling) serão atingidos.  Evidentemente, isso não é aleatório na trama.  Não significa, porém, que o contexto do bem e do mal esteja claramente traçado.  Longe disso.  A principal provocação está justamente aí.  Não tanto no objeto de estímulo sexual acoplado à imagem de Nossa Senhora, que tem provocado escândalo.  Provocou escândalo?  Difícil escandalizar nos dias de hoje.

 

Algumas pessoas se sentem atingidas em suas crenças por coisas assim, que na verdade questionam, mas não invalidam a crença de ninguém.  Se fosse assim, os inúmeros casos comprovados de pedofilia dos sacerdotes católicos, em várias partes do mundo, já teriam posto abaixo a própria Igreja Católica. Suponho que os evangélicos se incomodem com as fortunas que se ligam a pastores, que não só enriquecem como constroem impérios de poder.  Que espíritas se abalem com Joões de Deus, que além de enriquecer abusam sexualmente de pacientes, abalados por suas doenças.  Esse tipo de desumanidade, crueldade, insensibilidade com os vulneráveis está em toda parte, não só nas religiões.  Infelizmente.

 

Se o cinema de Paul Verhoeven cultiva excessos, é um modo de atacar questões que, estas, sim, escandalizam pela sua simples existência.  Algumas cenas e imagens podem não ser de bom gosto. Têm a intenção de chamar a atenção, de provocar.  Podem não agradar a muitos, mas têm sua função.  Fazem parte do estilo de um diretor já consagrado por uma vasta obra cinematográfica.

 

“Benedetta” é uma realização muito boa.  Mostra uma movimentação de câmera intensa, que acompanha personagens com densidade psicológica.  Explora uma dimensão política importante, num tema histórico, aparentemente distante do nosso tempo.  Virginie Efira brilha como Benedetta, Charlotte Rampling está muito bem como a superiora do convento, capaz de administrar uma justiça que passa pelos interesses financeiros da instituição.  Lambert Wilson, muito bem também, como o núncio que representa a hierarquia eclesiástica, num tempo em que bruxas queimavam na fogueira, e ele nunca perde a pose.  A jovem Daphne Patakia tem uma forte interpretação de figura mais guiada pelo instinto ou pelo desejo do que pelas coisas divinas.  Todo o elenco tem desempenho muito apropriado para uma história desafiante e cínica, como a de “Benedetta”.

 

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

RODA DO DESTINO

 Antonio Carlos Egypto





Do Japão veio um dos melhores filmes da Mostra 45, RODA DO DESTINO (A Guzen to Sozo), de Ryusuke Hamaguchi (de “Asako I e II”), agora entrando no circuito exibidor.  Composto por três histórias distintas, que envolvem a vida de mulheres em encontros em que a complexidade das relações humanas e amorosas é evidenciada.  Tudo acontece, aparentemente, por acaso.  Ou por obra do destino.  E se dá de uma forma poética, por meio da palavra.  É um filme de erotismo verbal.  O sexo valorizado pela linguagem literária, ou por expressivo relato de encontro amoroso.  Ou, ainda, pela memória do passado, que vem novamente à tona.  Numa das narrativas, predomina o triângulo amoroso que irrompe de modo inesperado, cheio de sensualidade.  Em outra, uma aluna tenta seduzir seu mestre, lendo em voz alta um trecho erótico do romance que ele escreveu.  E isso se dá de porta aberta.  Na última história, o encontro casual de duas mulheres acontece ao se reconhecerem cruzando uma escada rolante.  Uma longa e profunda conversa vai se dar quando uma vai à casa da outra e descobertas fundamentais virão daí.  Simplesmente encantador em sua aparente simplicidade.  E extremamente cativante e eficiente nas três diferentes situações, uma melhor do que a outra.  No elenco, Kotone Furukawa, Kiyoshiko Shibukawa, Katsuri Mori, Fusako Urabe.  121 min.
 
 

domingo, 2 de janeiro de 2022

O FESTIVAL DO AMOR

Antonio Carlos Egypto

 


 

O FESTIVAL DO AMOR (Rifkin’s Festival).  Estados Unidos/Espanha, 2020.  Direção e roteiro: Woody Allen.  Elenco:  Wallace Shawn, Gina Gershon, Louis Garrel, Elena Anaya, Christoph Waltz, Sergi López.  92 min.

 

 

Para abrir o ano cinematográfico de 2002, entra em cartaz nos cinemas “O Festival do Amor”, uma comédia romântica.  Mais uma?  Se isso não o entusiasma, lembre-se apenas de que o diretor e roteirista dessa comédia é Woody Allen.  E dele não se esperam coisas óbvias ou batidas.  Nem sempre são produtos geniais, ninguém é genial o tempo todo, mas não faltam inovação e inteligência no seu trabalho.

 

Em “O Festival do Amor”, a trama que envolve Mort Rifkin (Wallace Shawn), escritor, crítico e professor de cinema clássico, sua mulher Sue (Gina Gershon), jornalista e assessora de imprensa, o cineasta Philippe (Louis Garrel) e a médica dra. Rojas (Elena Anaya), tem os elementos habituais do gênero: ciúme, competição, decepções, brigas, traições.  Só que tudo isso transpirando cinema por todos os poros.

 

Para começar, porque toda a ação se passa durante o prestigioso Festival de San Sebastian, na Espanha.  Lá se apresentam, se projetam e se discutem os filmes.  Os egos se manifestam fortemente, as vaidades, a moda, a busca do sucesso tanto artístico quanto econômico.  Tudo isso está contemplado na narrativa.

 

Os fatos, que estão sendo vividos pelos personagens, na realidade, na imaginação ou no sonho, estão expressos em “recriações” de cenas famosas de filmes essenciais para a história do cinema.  Assim, Woody Allen insere “O Cidadão Kane”, de Orson Welles, o “8 ½”, de Fellini, “Jules e Jim”, de Truffaut, “Persona” e “O Sétimo Selo”, de Bergman, “O Anjo Exterminador”, de Buñuel, e “O Acossado”, de Godard.  Uma festa para os cinéfilos.  E ele, claro, constrói essas refacções em preto e branco, dentro de seu filme colorido.  Permito-me lembrar-lhes de que devemos em grande parte a Woody Allen o sucesso da empreitada de combater e abolir a infeliz ideia, que ganhava força, de colorizar os filmes clássicos.  Alguns foram feitos e o resultado é lamentável.  Mais um ponto a favor de Allen na história do cinema, além de seus filmes.

 


O “O Festival do Amor” é também uma bela homenagem à cidade de San Sebastian.  Woody Allen tem se dedicado a criar suas tramas em algumas das mais bonitas cidades do mundo.  E, segundo ele, San Sebastian é uma delas.  A julgar pela fotografia e pelos lugares destacados no filme, deve ser mesmo.  O filme estimula a conhecer San Sebastian e o seu importante festival.  Como é óbvio, “O Festival do Amor” estreou no Festival de San Sebastian.

 

O novo filme de Allen é, portanto, muito atraente para quem curte ou trabalha com cinema, para quem gosta de ver a beleza das cidades e para quem gosta de uma pegada romântica. 

 

O trabalho dos atores e atrizes do filme é de primeira.  Os protagonistas estão muito bem, esbanjando talento e envolvimento com a história.  Os coadjuvantes não ficam atrás, deixando sua marca, como a morte (Christoph Waltz) na encenação de “O Sétimo Selo”, por exemplo.  É um filme leve, simpático, bem construído. Mostra que Woody Allen continua sendo uma referência, em matéria de cinema.