domingo, 24 de março de 2019

INEZITA

Antonio Carlos Egypto






INEZITA.  Brasil, 2018.  Direção: Hélio Goldsztejn.  Documentário.  85 min.

Inezita Barroso (1925-2015) é uma figura portentosa na história da música popular brasileira. Portentosa parece um adjetivo apropriado para designar a cantora de voz firme, forte, afinada, de timbre marcante e presença exuberante, que descobriu e construiu um repertório de canções inigualável.  Samba, música folclórica, regional e, sobretudo, o caipira de raiz, são marcas do seu trabalho. 

Na TV por 35 anos, comandou o “Viola, Minha Viola”, programa da TV Cultura, dedicado à chamada música caipira de raiz, em que não cabiam guitarras elétricas, nem mesmo baterias e teclados.  E os astros do comercialíssimo sertanejo universitário não tinham vez, a menos que fossem cantar ou tocar suas violas no estilo tradicional.  Isso poderia dar a impressão de uma coisa conservadora ou intolerante, mas não se tratava disso e, sim, de preservação cultural, num espaço único, aberto pela comunicação de massa.  E que Inezita soube manter e solidificar ao longo de tanto tempo, na maior dignidade, até o fim.

Inezita Barroso, em sua vida pessoal e artística, foi uma pioneira, uma mulher que teve de abrir portas com dificuldades, numa época em que ser artista de rádio, atriz de cinema, como ela foi, era abominável para pessoas do sexo feminino, bem-nascidas, como ela.  Ao desbravar esses horizontes proibidos, ela abriu avenidas para que as mulheres pudessem se expressar artisticamente e ocupar os espaços devidos e merecidos, na música caipira e na arte em geral.




Ela foi mesmo muito ousada.  Sua primeira gravação já trazia a antológica “Moda da Pinga” (Marvada Pinga), que falava coisas como “aqui mesmo eu bebo, aqui mesmo eu caio”.  Imagine!  Foi a primeira a gravar “Ronda”, de Paulo Vanzolini, produtor do seu disco.  Foi em busca do folclore e das expressões musicais regionais por todo o país e cantou nossas maravilhas.  Alguns exemplos: “Lampião de Gás”, “Peixe Vivo”, “De Papo pro Á”, “Chico Mineiro”, “Azulão”, “Prenda Minha”, “Fiz a Cama na Varanda”, “Tristezas do Jeca”, “Maringá”, “Meu Limão, Meu Limoeiro”, “Luar do Sertão”, “Adeus, Minas Gerais”, para lembrar algumas belas interpretações dela.

O documentário “Inezita”, dirigido por Hélio Goldsztejn, com roteiro de Fábio Brandi Torres, faz jus à importância artística de Inezita Barroso e conta com participações que enriquecem sua história, com comentários, casos, relatos.  Lá estão Ruth de Souza, Eva Wilma, Nicette Bruno, Renato Teixeira, Ary Toledo, Wandi Doratiotto, Roberta Miranda, as irmãs Galvão, Zuza Homem de Mello, José Hamilton Ribeiro, o produtor musical Pelão, outros cantores e violeiros, a filha Marta e as netas Paula, Cristina e Fernanda, compondo um painel da vida e da obra de Inezita.

Podemos chamar esse documentário de chapa branca?  Talvez.  Mas é uma homenagem mais do que merecida a essa grande artista do nosso tempo, que nos deixou um legado impressionante.  É para aplaudir, mesmo!



terça-feira, 19 de março de 2019

É TUDO VERDADE 2019

Antonio Carlos Egypto


Chega ao seu 24º. ano o Festival É TUDO VERDADE – IT’S ALL TRUE, dedicado aos documentários nacionais e internacionais, apresentado tradicionalmente nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro.  Ele acontecerá em Sampa de 04 a 14 de abril e, simultaneamente, no Rio, só que com alguns dias a menos: de 08 a 14 de abril de 2019.


Amir Labaki ladeado por Danilo Santos de Miranda (SESC) e Eduardo Saron ( Itaú Cultural)


Por que acompanhar esse belo Festival, criado e dirigido pelo crítico Amir Labaki?  Primeiro, porque é sempre uma seleção de qualidade e muito criteriosa, feita por críticos competentes.  Segundo, porque é uma oportunidade de se atualizar com o que de melhor se faz no Brasil e no mundo, no gênero.  Terceiro, porque é uma  possibilidade de refletir sobre questões candentes que atingem o nosso mundo neste momento histórico.  Quarto, e não menos importante, porque todas essas sessões são gratuitas.  É uma chance de ver quantos filmes o tempo permitir.  Em São Paulo, em 4 espaços: Instituto Moreira Salles (Av. Paulista, 2424), Itaú Cultural (Av. Paulista, 149), Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000) e Sesc 24 de maio, além de alguns títulos disponibilizados no www.spcineplay.com.br.  Há, ainda, a itinerância do Sesc no interior, durante o mês de maio, em Araraquara, Jundiaí, Santos, São José dos Campos e Sorocaba.  No Rio de Janeiro, as sessões serão no Instituto Moreira Salles (Rua Marquês de São Vicente, 476) e no Estação NET Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 88).

O documentário norte-americano “Mike Wallace Está Aqui”, de Avi Belkin, abre o Festival no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, em sessão especial, e, no Rio, “Memórias do Grupo Opinião”, de Paulo Thiago, será o filme de abertura.

O Festival homenageia Nelson Pereira dos Santos e Claude Lanzman, falecidos em 2018, com uma série de documentários realizados por eles.

12 filmes inéditos estrangeiros e 07 brasileiros participam das competições para média ou longa-metragem, além de 09 brasileiros e 09 estrangeiros inéditos, no caso dos curtas.  Outros 07 filmes inéditos participam da competição latino-americana.  Há, ainda, programas especiais, compondo um total de 66 filmes documentários, selecionados entre os mais de 1600 títulos inscritos, visando a participar desta edição do Festival.




Os filmes premiados nas competições de curtas e longas estão automaticamente classificados para serem examinados na disputa do próximo Oscar. 

É uma alegria poder divulgar um trabalho dessa qualidade.  Arrume algum tempo para se dedicar às sessões desse Festival.  Vale a pena.  Além disso, nestes tempos obscuros em que os cortes à cultura já estão se fazendo notar, como a perda do patrocínio da Caixa Econômica Federal para o cine Belas Artes, o próprio É TUDO VERDADE está correndo risco de descontinuidade, ou ter de se apequenar.  O que espero não aconteça, seria uma grande perda.




sexta-feira, 15 de março de 2019

PASTOR CLÁUDIO

Antonio Carlos Egypto


PASTOR CLÁUDIO.  Brasil, 2017.  Direção: Beth Formaggini.  Documentário.  76 min.


Um homem que hoje prefere ser chamado de Pastor Cláudio, já que é bispo evangélico, é o foco do documentário brasileiro que leva o seu nome atual.  Esse pastor é Cláudio Guerra, um ex-delegado, um dos nomes de destaque do aparelho repressor da ditadura militar, responsável por assassinar e incinerar opositores daquele regime, invariavelmente chamados de subversivos, comunistas ou terroristas.  Portanto, um dos responsáveis pela violência de Estado, que nunca foi punida, já que coberta pela controversa lei de anistia que vigora até hoje.




Por conta disso, e talvez para ficar em paz com sua consciência e suas obrigações religiosas, Cláudio se responsabiliza por tudo o que fez, não foge das perguntas, identifica atos, pessoas e locais.  Ele estava estabelecido no aparelho repressor de Vitória, Espírito Santo.  Mas, como explicou, os agentes trocavam de posições.  Era comum um policial do Rio ir torturar ou matar um subversivo de Recife.  Ou um de Salvador atuar em São Paulo.  De modo que de Vitória ele circulou, agindo nacionalmente, por várias partes do país.  A lógica era matar quem você não conhece ou tem apenas uns poucos dados, até sem saber o nome.  Assim se eliminavam vínculos, medos, hesitações, e tudo acontecia com mais frieza e distanciamento psicológico.  Por sinal, frieza absoluta é a tônica da entrevista-depoimento, conduzida no filme por Eduardo Passos, psicólogo e ativista de Recursos Humanos.

É fato que o pastor Cláudio já havia respondido à Comissão da Verdade, escreveu um livro contando essas histórias (como expressa na filmagem) e já atendeu mais alguém antes, sobre o tema.  O fato de não precisar temer consequências em função dessa anistia que cobre os torturadores e assassinos do regime permite que ele possa assumir a condição de religioso e, de Bíblia em punho, resgatar os fatos e arrepender-se do que fez.  O que só fica bem claro em referência a algumas ações, como a carta-bomba dirigida à OAB e, principalmente, o atentado preparado para o Rio Centro, que seria imputado à esquerda.

O mais comum é aquele tom de banalidade do mal, a que se referiu Hannah Arendt, e que expressa muito bem o sentido de tais ações.  No caso de Cláudio Guerra, cumprindo ordens superiores, sim, mas sendo ele próprio um formulador e responsável por comandos de repressão, tortura e morte.  Ele reconheceu diante das fotos projetadas dos desaparecidos o que fez com cada um deles.




Não se pense que tudo acabou com o fim do regime militar.  A prática da tortura, por exemplo, só mudou de objeto e o ex-delegado, como os demais, continuou ativo em plena redemocratização.   Porém, se desentendeu, por razões práticas, e acabou isolado, perdendo todas as benesses que teve ao longo de sua atuação como agente repressor.

Aparentemente, mudou radicalmente de vida e isso permite o resgate, por meio do cinema, de fatos importantes e modos de atuação no período.  Relevante, didático e oportuno, o trabalho da diretora Beth Formaggini, que se concentrou no essencial e não deu vazão às possíveis explicações do presente do personagem.  Seu passado tenebroso é o que conta.  E o período terrível da opressão do qual ele foi um dos algozes.



domingo, 10 de março de 2019

RAIVA

Antonio Carlos Egypto





RAIVA.  Portugal, 2017.  Direção: Sérgio Tréfaut.  Com Hugo Bentes, Isabel Ruth, Leonor Silveira, Diogo Dória, Sergi López, Kaio César.  84 min.


“Raiva” é um filme português de grande rigor estético, seco como a vida camponesa que retrata, no baixo Alentejo, sul de Portugal, anos 1950.  A ditadura de Salazar mortificava o país, naqueles tempos em que aos pobres faltava tudo: casa, comida, trabalho, estudo, dinheiro.  A mobilidade social era inexistente, como se explicita no filme, quem nascia pobre morria pobre e quem nascia rico morria rico.

“Raiva” é um conto sobre abuso e revolta, baseado no romance “Seara do Vento”, de Manuel da Fonseca, um clássico da literatura portuguesa do século XX.  Dialoga com “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.

Em que pesem as referências geográficas, políticas e sociais, a direção de Sérgio Tréfaut busca algo quase atemporal, mitológico.  Extirpa a narrativa de explicações sociológicas e de componentes ideológicos, para expor uma história em que há mortos, mas não heróis ou bandidos, não há música manipuladora de emoções, não se busca o naturalismo, nem o espelho da TV.  A fotografia em preto e branco, bela mas despojada, se destaca em um filme que valoriza o silêncio, reduz as falas, mostra a vida, os sentimentos de forma crua.  Há os camponeses, a luta pelo trabalho e pela dignidade e uma reflexão sobre as origens de uma forte revolta.  É como o filme começa.  Mostra dois violentos assassinatos em clima de  bang-bang.  Como se chegou a isso é a trama de “Raiva”, em  flashback.




A produção envolveu Brasil e França, além de Portugal.  O diretor Sérgio Tréfaut é luso-brasileiro, vivendo em Portugal, nascido em São Paulo.  Seu trabalho organicamente disciplinado e austero tem a força de um retrato que atravessa os tempos e os continentes.  De algum modo, está em toda parte, em todas as épocas, como que a revelar o desconsolo da humanidade que se nutre das desigualdades e do autoritarismo para oprimir, buscar calar, produzir conformidade.

Um excelente elenco sustenta uma narrativa de desempenhos marcantes, mais interiorizados do que exibidos.  A explosão, que surpreende, diante da contenção que a forjou.  Hugo Bentes, como Palma, o protagonista, e grandes atores e atrizes, como Leonor Silveira, Diogo Dória e Isabel Ruth, sustentam um trabalho artístico de valor.  Não visa ao sucesso de bilheteria, não faz concessões ao gosto médio.  Um filme até fora de moda, como o define o próprio cineasta, mas que merece toda a atenção dos cinéfilos.



sexta-feira, 1 de março de 2019

UM GIRO PELOS CINEMAS

Antonio Carlos Egypto





UM AMOR INESPERADO (El Amor Menos Pensado), produção argentina de 2018, 136 minutos, dirigida por Juan Vera, trata de um casal que, ao completar 25 anos de matrimônio e ver seu único filho partir para estudar na Espanha, enfrenta uma muito pouco clara crise.  Aquilo que a gente não sabe muito bem por que faz, mas faz, acaba levando a novas e inesperadas experiências e situações.  O que pode vir daí, como sempre na vida, é uma incógnita.  No gênero romance, ou, se preferirem, comédia romântica, o filme apresenta um bem urdido roteiro, diálogos muito bons e, principalmente, um belo elenco, protagonizado pela ótima Mercedes Morán e pelo ator, sempre muito badalado por aqui, Ricardo Darín.




Ricardo Darín está também em TODOS JÁ SABEM (Todos lo Saben), como o marido argentino, contracenando com os personagens espanhóis de Penélope Cruz e Javier Bardem, um casal na vida real.  Aqui, uma festa de casamento tem o condão de reunir a família no povoado de origem, após muitos anos.  Um sequestro fará com que o que estava represado, escondido, tenha de vir à tona e produza um grande incômodo e conflito, que ocupará o lugar da alegria.  Grande elenco e o diretor iraniano, duplamente premiado com o Oscar de filme estrangeiro, Asghar Farhadi, numa grande produção de 2018, não chegam a resultados tão brilhantes como se poderia esperar, ao longo de seus 133 minutos, mas traz para os cinemas um bom filme espanhol.




Um bom filme espanhol que entra também em cartaz agora é o documentário O SILÊNCIO DOS OUTROS (El Silencio de Otros), de 2018, 96 minutos, dirigido por Almudena Carracedo e Robert Bahar.  O filme é produzido pela El Deseo, de Pedro Almodóvar, seu irmão Agustín e Esther García.  Registra a batalha das vítimas para tirar do esquecimento forçado os crimes de lesa-humanidade praticados por Francisco Franco e seus agentes públicos, ao longo de seus quase 40 anos de ditadura fascista.  Já que o Pacto de Moncloa, que viabilizou a Espanha democrática pós-Franco, também levou a uma anistia que previa esquecimento total e a impossibilidade de culpabilizar os que promoveram mortes, massacres e tortura por parte do Estado, o caminho foi um processo internacional.  Inspirados no caso Pinochet, que acabou sendo preso na Inglaterra quando gozava de imunidade em seu país, apesar de crimes terríveis cometidos, os franquistas torturadores estão sofrendo processo na Argentina.  A mesma Argentina que tem no ator Ricardo Darín um defensor consciente dos direitos humanos e da liberdade, que transparecem em suas atuações, tanto em UM AMOR INESPERADO quanto em TODOS JÁ SABEM.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

JÁ QUE TODO MUNDO FALA DO OSCAR...


Antonio Carlos Egypto

O Oscar 2019 reconheceu que ROMA foi o melhor filme do ano.  Mas não passou recibo.  Ganhou as estatuetas de melhor filme estrangeiro, melhor diretor e melhor fotografia.  E Alfonso Cuarón subiu ao palco três vezes, para desfrutar dessa premiação.  Se desse a ele também o que seria o justo prêmio de melhor filme, estaria tendo de reconhecer o primeiro vencedor em língua não inglesa da história (o filme é falado em espanhol) e, pior, daria à Netlix um destaque exagerado.  Cinema em casa também é cinema.  Pero, no es lo mismo!


ROMA


Eu esperava que o melhor filme fosse, então, INFILTRADO NA KLAN, de Spike Lee, que já havia recebido a estatueta por roteiro adaptado.  Mas não, coube a GREEN BOOK: O GUIA a escolha.  Um filme que aborda a questão racial no sul dos Estados Unidos, nos anos 1960, e que trata de uma amizade que se constrói superando o preconceito.  Mas é um trabalho convencional e bem menos criativo ou incisivo do que INFILTRADO NA KLAN.  Este, sim, um filme mais forte na abordagem da questão racial.  E mais atual, também.  Notícias dão conta de que Spike Lee ficou contrariado e manifestou isso.  Ele tem razão, ficou um prêmio morno, sem a necessária audácia.  GREEN BOOK: O GUIA ainda levou os prêmios de roteiro original e ator coadjuvante, merecidamente destinado a Mahershala Ali. 


GREEN BOOK


BOHEMIAN RAPSODY conquistou os prêmios de melhor ator para Rami Malek e os ligados à edição e ao som.  A melhor canção, “Shallow”, foi para Lady Gaga, de NASCE UMA ESTRELA e a trilha sonora original, para PANTERA NEGRA, que faturou também figurino e direção de arte.

A FAVORITA levou melhor atriz para a muito boa Olivia Colman, que surpreendeu passando à frente de Glenn Close.  Mas o filme ficou por aí.  E VICE ganhou só maquiagem e penteado.

A atriz coadjuvante Regina King, de SE A RUA BEALE FALASSE, ganhou a estatueta, mesmo não estando entre os oito indicados de melhor filme.  Willem Dafoe também concorria por um filme não indicado, NO PORTAL DA ETERNIDADE, muito bom, por sinal, e um grande desempenho, mas não foi agraciado.

Há que se valorizar a força negra do Oscar neste ano e a presença firme das mulheres, ainda que nos prêmios principais, vinculados a melhor filme, não tenham sido indicadas como diretoras.  Elas levaram 15 prêmios, entre eles, direção de documentários e curtas.





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

DE MENINO E DE CORVOS

Antonio Carlos Egypto



QUERIDO MENINO (Beautiful Boy).  Estados Unidos, 2018.  Direção: Felix Van Groeningen.  Com Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney, Amy Ryan.  111 min.




Se há um adjetivo que cabe para o filme “Querido Menino”, dirigido por Felix Van Groeningen, é honesto.  É um trabalho que foca na dependência química de drogas na adolescência, a partir do livro de memórias de um pai, que viveu esse drama, e também do livro do filho, que foi o protagonista da situação. O fato de combinar duas narrativas complementares, a do pai, David Sheff, e a do filho, Nic Sheff, cria algum ruído na comunicação.  No entanto, a combinação das duas visões torna o problema exposto muito autêntico, verdadeiro.

A trajetória do pai, sempre muito presente na vida do filho, que acaba por desconhecê-lo e de não ser mais capaz de ajudá-lo, gerando uma angústia brutal, é algo vivido intensamente pelos familiares do dependente.  No filme, a mãe e os irmãos sofrem igualmente.  Não há quem possa ficar ileso à situação.  Pode contribuir, porém, entender a droga, o prazer que ela traz e a consequente busca permanente por maiores doses, tentando desfrutar de novo daquele prazer inicial.

Entender de que droga se está falando é igualmente importante.  No caso, o que dominava era a metanfetamina, que acabou sendo a responsável pelos maiores estragos na vida do jovem.  Mas ele passou por quase todas as drogas disponíveis, na busca desse prazer.  E depois, para não ter de viver a dor, o desprazer da síndrome de abstinência, na ausência da droga.  É isso que acaba produzindo uma ciranda interminável de consumo de psicoativos, indo de um a outro, dependendo das circunstâncias de vida, das necessidades do momento e da disponibilidade dos produtos.




Percebe-se como tudo isso é misterioso, tanto para o consumidor, quanto para os que o veem de fora.  Como é possível a um pai esclarecido, de ótimo nível educacional e intelectual, desconhecer essa ciranda toda, a ponto de só agir quando a coisa já passou dos limites?  Como é possível que um jovem experimente de tudo, no impulso, sem nunca usar sua inteligência e capacidade de discernimento para tentar algum controle sobre a situação?  Como é difícil ajudar assim, e mais: como é difícil que o dependente admita que precisa de apoio, tanto das pessoas próximas quanto de especialistas.

Todas essas questões “Querido Menino” suscita e, nesse sentido, é um filme que colabora bastante para que se conheça melhor o problema.  O que ajuda, também, é o tom adotado na trama.  Optou-se pela intensidade dramática baixa, apesar da gravidade do assunto. Isso produz reflexão.  Há momentos em que o envolvimento emocional nubla a possibilidade de compreensão.  Dois ótimos atores, Steve Carell, o pai, e Timothée Chalamet, o filho, com seus desempenhos precisos e contidos, trazem para o espectador a verdadeira dimensão do problema.

Sem desespero, escândalo ou apelo melodramático, tudo fica mais claro e a porta de saída parece finalmente se abrir.  Essa é a realidade da maioria dos casos dos que não sucumbiram diante da vida e sobreviveram a esse pesadelo.  É dificílimo e demorado.  Mas é possível.  “Querido Menino” trilha esse caminho mais equilibrado enquanto cinema e faz um trabalho relevante.  E honesto.

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LEMBRO MAIS DOS CORVOS. Brasil, 2018.  Direção: Gustavo Vinagre.  Com Júlia Katharine. Documentário.  82 min.

“Lembro Mais dos Corvos” é um documentário em forma de monólogo, estimulado por perguntas, realizado da forma mais simples possível.  Uma conversa filmada no apartamento de uma pessoa trans.  No caso, a atriz e diretora Júlia Katharine.  Ela vai falando de si, dirigida por Gustavo Vinagre, num roteiro construido pelos dois.  Conta as suas experiências, suas histórias, e como ela preenche suas noites de insônia.  O que resulta daí é um retrato corajoso da vida difícil dos transexuais, dos transgêneros, a partir de uma situação particular.  Que deve ter muito a ver com a de grande parte de seus pares. 




O filme é uma oportunidade de penetrar no mundo íntimo de alguém que se apresenta ao espectador com uma experiência de vida bem diferente da habitual, da esperada.  Sem medo de parecer ridícula, superficial ou esquisita.  Ou melhor, driblando esse medo de modo muito competente, Júlia se expõe e conquista o respeito dos que a assistem.

Na mesma sessão que exibe “Lembro Mais dos Corvos”, de 82 minutos de duração, é exibido o curta de 25 minutos “Tea for Two”.  Realizado por Júlia Katharine, com Gilda Nomacce, a própria Júlia e Amanda Lyra.  Uma ficção concebida e dirigida por uma pessoa trans não deixa de ser uma boa novidade no cinema brasileiro.  Merece ser conferida.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

DOGMAN

Antonio Carlos Egypto





DOGMAN (Dogman).  Itália, 2018.  Direção: Matteo Garrone.  Com Marcello Fonte, Edoardo Pesce, Nunzia Schiano, Adamo Dionisi, Francesco Acquaroli.  102 min.


“Dogman”, o novo filme de Matteo Garrone (de “Gomorra”, 2008), não é fácil de se ver.  É tenso, sofrido, violento, passa-se numa ambientação feia, suja.  As escolhas estéticas não visam a produzir belezas, embora haja belas tomadas cinematográficas.  A intenção é nos colocar numa vida dos infernos, em que predominam a opressão e a impotência.

Como o filme é contado do ponto de vista de Marcelo (Marcello Fonte), o Dogman do título, e ele é o homem pequeno e gentil que é oprimido, o que vivemos junto com ele é a impotência.  E por mais pacíficos que sejamos, torcemos pela vingança.  Nas condições apresentadas, aparentemente não há outro caminho possível.  O que é complicado e, até certo ponto, assustador.  Quem quer que se coloque a favor da justiça pelas próprias mãos está rejeitando o caminho da democracia e da lei.  Convalidando a barbárie, portanto.

Em “Dogman”, estamos na periferia suspensa entre a metrópole e o deserto, em que a lei do mais forte predomina.  Marcelo tem uma oficina de higiene e beleza para cães e está em contato harmônico com sua comunidade pobre e sem perspectivas naquele beco do mundo.  A opressão que ele sofre se expressa por meio do personagem Simoncino (Edoardo Pesce), um brutamontes, ex-boxeador, que aterroriza todo o bairro, mas coloca Marcelo nas piores situações à base da intimidação e da força.  Marcelo está acomodado nessa situação absurda, a ponto de até proteger ou cuidar dos ferimentos de seu algoz.  Mas tudo só se agrava, a explosão da bestialidade humana acontece.  E, consequentemente, a vingança inspirada nos cães presos nas gaiolas.




Em um contexto em que a simples sobrevivência envolve riscos tão altos e escolhas muito complicadas de se fazer, realmente o que fica é a sensação de impotência. Quando tal sentimento prevalece, é fácil aprovar o caminho da violência como solução, quando, na verdade, ela é sempre um problema a mais.

O diretor Matteo Garrone tem firmeza e intensidade nesse trabalho, que conta com um ator excepcional, como Marcello Fonte, merecidamente premiado em festivais.  Seu desempenho nos faz ficar em suspenso durante toda a projeção, atentos aos menores movimentos e expressões do personagem, sofrendo com ele e torcendo por ele.

“Dogman” exige muito do espectador, mas tem muito a dar, também.  Encarar uma realidade tão dura, insuportável, nos obriga a refletir sobre ela e a ter um posicionamento consistente diante do que a vida pode nos apresentar, gostemos disso ou não.




domingo, 17 de fevereiro de 2019

MINHA FAMA DE MAU

Antonio Carlos Egypto





MINHA FAMA DE MAU.  Brasil, 2017.  Direção: Lui Farias.  Com Chay Suede, Gabriel Leone, Malu Rodrigues, Bruno Luca, Bianca Comparato.  116 min.


Erasmo Carlos, roqueiro e romântico, cantor e compositor, foi um dos pilares da Jovem Guarda, um megasucesso televisivo dos anos 1960, que se tornou um movimento de música jovem brasileira, sempre relembrado desde então.  Roberto Carlos, o amigo e parceiro de Erasmo, manteve-se em alta sempre, mudando estilo, prioridades e público.  Wanderléa, o terceiro pilar da Jovem Guarda, e Erasmo Carlos não conseguiram o mesmo resultado, mas são lembrados por seu pioneirismo que conseguiu incorporar o  rock, então nascente, à música brasileira, compondo, vertendo e cantando em português (antes deles houve Celly Campello).  Eles comandaram um time de artistas jovens, que se tornaram ídolos da brotolândia, como se dizia na época.

Erasmo manteve uma carreira mais discreta como cantor, ao longo do tempo, mas dividindo com Roberto a grande maioria das composições que este lançava ao sucesso.  Como acontece até hoje.

“Minha Fama de Mau”, o filme de Lui Farias, é uma adaptação do livro escrito por Erasmo Carlos, contando parte de sua vida e carreira, da juventude pobre na Tijuca, vivendo em casa de cômodos, o popular cortiço, ao sucesso retumbante da Jovem Guarda e o posterior declínio.  Passa pelo tempo do conjunto The Snakes  e pelo conhecimento de Tião, depois Tim Maia, que lhe ensinou três acordes no violão, que lhe valeram muito, e também pelo período de afastamento de Roberto Carlos e a retomada da amizade e da parceria.

Lá estão as muitas mulheres que passaram pela vida dele, inclusive a esposa Narinha.  O filme optou por escolher uma única atriz para representar todas elas, Bianca Comparato.  Uma opção interessante que, na prática, nivela as parceiras amorosas e sexuais por baixo.  Todas valem pouco, pelo menos, até o aparecimento de Narinha.  É o que deve ter sido captado pelos roteiristas Lui Farias, L. G. Bayão e Letícia Mey, do texto original, suponho.

O filme é contado na primeira pessoa, é a visão de Erasmo Carlos sobre sua vida e carreira.  O personagem chega a falar diretamente para a câmera, ou seja, contar para o público o que se passava ou o que era sentido por ele.




O ator protagonista é Chay Suede, que não se parece fisicamente com Erasmo, mas convence pela entrega ao papel e porque canta bem as canções que marcaram o Tremendão.  Gabriel Leone, que faz Roberto, e Malu Rodrigues, que faz Wanderléa, também cantam bem e compõem um bom elenco, assim como Bruno Luca, que faz Carlos Imperial, o empresário pilantra e pretensioso que, de qualquer modo, abriu muitas portas para Erasmo.

O filme tem uma boa caracterização de época, incluindo signos muito claros da Jovem Guarda, como ambientes, vestuário, cartazes, instrumentos.  Tem também achados interessantes, como a interação entre a interpretação de hoje e as imagens da plateia da época.  Os elementos políticos da ditadura militar estão ausentes, mas estavam também ausentes na visão dos brotos e desses ídolos, no período.

Algum tempo atrás, vi uma entrevista com Erasmo Carlos, em que ele dizia que estava na hora de se mostrar novamente.  E contava que sua neta, na escola, informava as amiguinhas que Erasmo era amigo e parceiro de Roberto Carlos e muito famoso, mas elas relutavam em acreditar.  As gerações passam e a história pode se perder.  Daí a importância de filmes como “Minha Fama de Mau”.


A MORTE NÃO DÁ TRÉGUA EM 2019

Começou por tragédias evitáveis, vinculadas ao lucro desmedido, que vitimaram centenas de vidas em Brumadinho, jovens talentos futebolísticos no Flamengo e o brilhante jornalista Ricardo Boechat.  Sem falar da mortandade diária que acomete o Rio, Fortaleza e todo o país.

De modo mais natural e tranquilo, a morte nos levou a magnífica Bibi Ferreira, dama dos palcos, aos 96 anos.  No cinema, perde-se um músico espetacular, como Michel Legrand, autor de algumas das mais belas trilhas cinematográficas, e o grande ator suíço, Bruno Ganz, que participou de um grande número de produções europeias de qualidade, ao longo de uma carreira notável.  Perdas irreparáveis.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

NO PORTAL DA ETERNIDADE

Antonio Carlos Egypto





NO PORTAL DA ETERNIDADE (At Eternity Gate).  Reino Unido/França, 2018.  Direção: Julian Schnabel.  Com Willem Dafoe, Mads Mikkelsen, Emmanuelle Seigner, Rupert Friend, Oscar Isaac, Mathieu Amalric.  111 min.


A obra pictórica de Vincent Van Gogh (1853-1890) é impressionante, revolucionou a pintura, se tornou uma quase unanimidade ao longo do tempo.  Foi praticamente ignorada, porém, enquanto ele estava vivo.  Recebeu algum reconhecimento crítico, mas nenhum êxito econômico.  Consta que, apesar dos esforços do dedicado irmão Theo, nem um único quadro foi vendido até sua morte.

Isso já é suficiente para despertar o interesse pelo personagem, mas sua vida solitária, desencontrada, com lances de loucura, como o corte da orelha, dificuldades no convívio, rejeição da comunidade, sombras sobre a sua morte, tornam tudo mais misterioso e sedutor.




Não por acaso, o cinema dedicou vários filmes importantes a Van Gogh, começando por um curta de Alain Resnais, de 1948, passando por “Sede de Viver”, de Vincent Minnelli, de 1956, com Kirk Douglas vivendo o pintor.  Mais dois filmes praticamente simultâneos, “Vincent & Theo”, de Robert Altman, protagonizado por Tim Roth, em 1990, e o ótimo “Van Gogh”, de Maurice Pialat, com Jacques Dutronc, no papel principal, em 1991.  Em 2017, uma animação adulta com as obras e o final da vida do pintor, fez sucesso nos cinemas: “Com Amor, Van Gogh”, de Dorota Kobiela e Hugh Weichman. 

Agora, é o diretor estadunidense, e também pintor, Julian Schnabel quem volta ao personagem, em outro belo filme sobre o período final da vida de Van Gogh, “No Portal da Eternidade”.  O mistério dessa vida aqui vai ser explorado não só na beleza de suas obras, mas na natureza, tão essencial à sua pintura, mostrada com exuberância e sofisticação visual.




Buscará também uma reflexão sobre a relação da obra com o criador, o significado da arte, a determinação quase impositiva do talento criativo.  Algo que tem de se expressar de forma borbulhante, explosiva, que não tem como ser contido.  Que seria isso, afinal?  Dom, destino, missão, loucura?

Willem Dafoe faz o personagem com grande força interpretativa e alcançando uma similaridade com a figura conhecida do pintor, que impressiona.  Tanto que concorre, uma vez mais, ao Oscar de ator.  Tem chance de levar.

O elenco é todo cheio de talentos conhecidos.  São intérpretes experientes, que dão suporte consistente à narrativa de Schnabel, que já dirigiu “O Escafandro e a Borboleta”, um êxito de 2007, e outro filme sobre um pintor, “Basquiat – Traços de uma Vida”, de 1996.