domingo, 22 de março de 2015

O SAL DA TERRA


Antonio Carlos Egypto



O SAL DA TERRA (The Salt of the Earth).  França, 2014.  Direção: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.  Documentário, 109 min.


Se você me perguntar se vale a pena ver “O Sal da Terra”, aquele documentário sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que concorreu ao Oscar 2015, eu poderia lhe responder primeiro com uma pergunta.  Você gostaria de ver ampliadas na tela do cinema as fotografias de Sebastião Salgado?  É claro que sim.  São de uma beleza estonteante que só têm a ganhar com a ampliação, mantendo a qualidade da imagem.  Esse já é um motivo suficiente para se sair de cada para ver o filme.

Acrescente-se a isso que quem dirige o documentário são duas pessoas importantes.  O cineasta alemão Wim Wenders, que tem uma vasta trajetória na história do cinema, em que eu destacaria “Asas do Desejo”, de 1987, uma obra-prima. Seu codiretor é Juliano Ribeiro Salgado, filho de Sebastião, que com o pai tem compartilhado não só a existência familiar e a influência educacional, mas também várias aventuras fotográficas pelo mundo.


WIM WENDERS e SEBASTIÃO SALGADO


Sebastião Salgado não é só um dos mais importantes fotografos do mundo, é um homem de ideias claras, comunicação fácil, inteligência aguda.  Ouvi-lo falar sobre seu trabalho e sua longa experiência no ofício é muito atraente e esclarecedor. 

Ele andou pelos rincões mais remotos, foi em busca de entender o ser humano e suas terríveis mazelas, da ambição desmedida à fome, ao êxodo, à guerra e ao genocídio.  Foi atrás da morte para mostrá-la ao mundo.  Tornou-se um extraordinário fotógrafo social, mas acabou adoecendo.  Não foi atingido por nenhum doença infecciosa.  O que adoeceu foi sua alma, segundo suas próprias palavras.

E é aí que Sebastião Salgado se reinventa, muda o foco de sua câmera e vai em busca de territórios primitivos, fauna e flora selvagens, paisagens nunca registradas, coisas grandiosas que fazem um tributo à beleza do planeta.  E descobre que grande parte do nosso planeta continua intocada, para nossa surpresa.




Ao lado dessa incrível trajetória, o filme também descreve uma não menos importante realização pessoal e familiar: a reconstrução da grande fazenda de seus avós, recuperada após ter sucumbido à seca e à perda de sua mata de origem.  Dois milhões e meio de árvores nativas plantadas, o retorno da água em abundância, a plena recuperação ecológica, mostram que é possível reverter esse nosso mundo que se deteriora.  Existem caminhos.

Todas essas informações básicas eu já havia ouvido dele em uma entrevista pela TV a Jô Soares.  Colocadas no filme, com o profissional em ação, além de suas magníficas fotos, se tornam puro prazer intelectual, estético.  E um revigorante impulso positivo.



O filme está sendo exibido na 4ª. Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, em São Paulo, que tem muitos outros bons títulos sendo mostrados.  Além disso, a Mostra faz uma apresentação de filmes históricos que incluem um diretor importante do Egito, Youssef Chahine (1926-2008), com “Um Dia, o Nilo”, e Glauber Rocha (1939-1981), com o curta “Amazonas, Amazonas”. Tem como outra grande atração a homenagem/retrospectiva ao cineasta brasileiro Jorge Bodanzky, que filmou o clássico “Iracema, uma Transa Amazônica”, de 1974, e voltou às comunidades amazônicas com “No Meio do Rio, Entre as Árvores”, de 2009, entre outros trabalhos que exploram a fronteira difusa entre o documentário e a ficção.

“O Sal da Terra” entrará no circuito comercial dos cinemas logo após a Mostra Ecofalante.




quinta-feira, 19 de março de 2015

BRANCO SAI. PRETO FICA


Antonio Carlos Egypto




BRANCO SAI.  PRETO FICA.  Brasil, 2014.  Direção: Adirley Queirós.  Com Marquim do Tropa, Shockito, Dilmar Durães, DJ Jamaika, Gleide Firmino.  93 min.


Um produto da Ceilândia, de sua história, locais e personagens, e de uma visão conflituosa com uma Brasília percebida como poderosa e segregacionista.

O drama de dois homens que tiveram suas vidas enormemente prejudicadas, após a invasão pela polícia, e a repressão violenta de um Baile Black de um local chamado Quarentão.  Vamos acompanhar um homem que agora vive com uma perna mecânica e um outro, em cadeira de rodas.  As consequências terríveis estão lá, mostradas com todo realismo, mas não a cena que as gerou.  Ou mesmo o clima concreto que mantém e sustenta esse tipo de ação.




A história trágica será contada na forma de fábula, para poder criar perspectivas que não se resumam a lamentar o passado, mas possam gerar algo no futuro.  Vingança?  Reparação?  Ódio realimentado?

Para isso, o filme se vale de uma narrativa que explora até a ficção científica, além do uso da tecnologia avançada, em meio às carências visíveis da comunidade.  Busca um meio original de abordar um assunto sério e grave, mas que, por ser muito conhecido, tende a ser visto como repetitivo e não sensibilizar mais, como deveria.  Afinal, a truculência e a discriminação policiais atingem as periferias, e principalmente a população negra, não só em Brasília/Ceilândia, mas em todas as cidades brasileiras.  É assunto recorrente, banalizado até.  Está diariamente sendo mostrado por meio de imagens nos telejornais.  Daí a adequação de buscar uma nova maneira de abordar o tema.




A dificuldade é que é preciso questionar certas posturas ideológicas que, às vezes, passam por avançadas, mas que podem levar ao agravamento dos problemas.

De qualquer modo, o filme tem o mérito de trazer uma visão de quem está imerso na vida da comunidade e conhece de perto, vivencialmente, a situação.  Não é um olhar de fora, embora tenha um forte viés de radicalização. Pretender detonar as instituições que sustentam uma democracia reconquistada a duras penas não é algo que possa ser levado a sério.

“Branco sai. Preto fica” levou a grande maioria dos prêmios disponíveis do 47º. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, incluindo o Prêmio do Júri da Abraccine. Um evidente exagero.

terça-feira, 17 de março de 2015

MAPAS PARA AS ESTRELAS


Antonio Carlos Egypto




MAPAS PARA AS ESTRELAS (Maps To The Stars).  Canadá, 2014.  Direção: David Cronenberg.  Com Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Robert Pattinson.  111 min.



Do diretor canadense David Cronenberg pode-se esperar quase tudo, menos personagens e tramas convencionais.  Geralmente, são pessoas que sofrem na carne algum tipo de trauma, acidente, violência ou mutação.  Literalmente na carne, porque a dor está sempre no corpo e os personagens se movem muito em função disso.  Há sempre elementos inesperados ou misteriosos em jogo.




Em “A Mosca”, de 1986, ele explora a transformação de homem em mosca, realizada por uma máquina, revisitando com vigor uma história já filmada anteriormente.  Em “Mistérios e Paixões”, de 1991, fantásticos delírios perceptivos são induzidos pelo uso de certas drogas.  Em “Spider”, de 2002, é a doença mental, a esquizofrenia, que é mostrada nessa aranha humana que nada tem a ver com a figura do super-herói.  Nele, acompanhamos o profundo drama psicológico – e físico  -- do personagem. Em “Marcas da Violência”, de 2005, um homem marcado por um passado que envolveu luta corporal e morte está condenado a voltar à tragédia que deu origem a seu sofrimento.  São apenas alguns de seus filmes, todos muito bons, viscerais, provocadores.  Mas que exigem estômago forte para sua fruição.

Em “Mapas Para as Estrelas”, seu filme mais recente, agora em cartaz, elementos semelhantes aparecem em personagens algo bizarros e estranhos, num mundo que, por si só, já se destaca pela excentricidade: o do cinema de Hollywood.




Não há muita novidade na estrela decadente que se vê preterida no papel que tanto ansiava fazer e mesmo na sua satisfação diante do problema que acomete sua concorrente.  Ou no intragável ator mirim que alcançou fama e fortuna, mas também tem seus reveses.  Ou, ainda, no psicólogo das celebridades.  Coisas como essas estão lá, mas não constituem o cerne da história.  Há muitas coisas por trás disso, relações insuspeitas, mistérios e, para não perder o hábito, deformações físicas.  Mas ele se permite mexer no principal tabu que há: o do incesto.  E o faz com originalidade e de um ponto de vista não convencional. 

“Mapas Para as Estrelas” tem um elenco forte, que segura a barra do cinema de Cronenberg. Julianne Moore, recentemente oscarizada por “Para Sempre Alice”, está muito bem aqui, também. Mia Wasikowska, muito boa atriz, o ótimo John Cusack, Robert Pattinson e os outros dão conta dessa trama que requer muita intensidade dramática por parte de todos.




A gente sai do cinema tocado pela força da temática e pela força das imagens, um ponto alto do cineasta, que constrói algumas cenas belas, mas também desconcertantes.  Haverá quem rejeite, atribua todo esse estranho universo retratado no filme à loucura do diretor.  Bem, de gênio e de louco todo mundo tem um pouco, não é assim?



quarta-feira, 11 de março de 2015

PARA SEMPRE ALICE

                               
Antonio Carlos Egypto




PARA SEMPRE ALICE (Still Alice).  Estados Unidos, 2014.  Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland.  Com Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth.  101 min.


O mal de Alzheimer aparece como uma ameaça terrível à medida que envelhecemos.  Numa sociedade que prolonga a vida, pelos avanços da medicina e da tecnologia, se torna um sério problema de saúde pública. 

Mas parece que o que chamamos genericamente de doença de Alzheimer contempla, na verdade, manifestações diversas, que podem ser vividas por meio de diferentes sintomas, com evolução distinta e até certo ponto imprevisível.  Em comum, a progressiva perda da memória e o que é mais destruidor: a perda da identidade.



No caso relatado no filme “Para Sempre Alice”, a dra. Alice Howland (Julianne Moore), uma renomada professora de linguística, é acometida por um Alzheimer precoce, aos 50 anos de idade.  É uma paciente com muita consciência do que se passa e com muitos recursos.  Apesar disso, as perdas se imporão, uma após a outra.  Ela se perde nas ruas habituais de Manhattan, onde costumava correr, as palavras fogem, sua atividade profissional acaba e sua identidade vai se perdendo, pouco a pouco, mas progressivamente.  Até decisões vitais e definitivas, que podem contar com a ajuda da tecnologia, se tornam impraticáveis na ausência da memória imediata.




É uma experiência sofrida e angustiante, que compartilhamos com a personagem.  Isso se dá de modo dramático, muito efetivo e convincente, graças ao excepcional desempenho da protagonista: a grande atriz Julianne Moore, premiada com o Oscar 2015 por essa atuação.

O trabalho do restante do elenco passa longe do brilho da protagonista.  Alec Baldwin, como John, o marido de Alice, e Kristen Stewart, como a filha Lydia, têm performances discretas, que não empolgam. 




A narrativa de “Para Sempre Alice” também não inova em nada.  Mas faz um bom relato do tema e produz envolvimento emocional no público pelo desempenho de Julianne Moore.  Aguça nossa sensibilidade para uma questão séria para a vida das pessoas e para a sociedade do nosso tempo.

Para quem se interessa pelo assunto, um outro bom filme sobre o mal de Alzheimer é a produção canadense “Longe Dela” (Away From Her), dirigida por Sarah Polley, com Julie Christie, Gordon Pinsent e Olympia Dukakis, nos principais papéis.  É um filme de 2008, disponível em DVD.





sábado, 28 de fevereiro de 2015

NOSTALGIA DA LUZ


Antonio Carlos Egypto




NOSTALGIA DA LUZ (Nostalgia de la Luz).  Chile, 2010.  Direção: Patrício Guzmán.  Documentário.  90 min.


“Nostalgia da Luz”, do cineasta chileno Patrício Guzmán, é um dos melhores documentários que eu vi na vida.  É, ao mesmo tempo, uma obra poética de grande beleza plástica e um dos mais contundentes documentos políticos já feitos.

No deserto de Atacama, no Chile, um lugar com características especiais, situado a 3 mil metros de altitude, estão instalados equipamentos de última geração, que permitem a astrônomos do mundo inteiro a observação de galáxias distantes e a pesquisa dos limites do nosso universo.  O céu translúcido do deserto é favorável a isso.




No filme, enquanto um imenso telescópio é esquadrinhado pela câmera, astrônomos e arqueólogos nos falam de como se podem buscar as origens do mundo quando se miram as estrelas, os planetas, as galáxias.  E como foi possível buscar as origens do homem na terra, escavando e encontrando dezenas de vestígios do ser humano há cerca de dez mil anos.  O calor forte e o clima muito seco permitem a conservação de ossadas por longuíssimo tempo.




Pelo amplo terreno do deserto de Atacama estão espalhados restos mortais de prisioneiros políticos da ditadura militar imposta por Pinochet ao país, a partir de 1973.  Familiares desses “desaparecidos” do regime estão em busca de ossadas que possam identificá-los, para poderem viver e dormir em paz, enterrando seus mortos adequadamente. Depoimentos emocionados dão conta do que é essa procura.  Uma busca que, em muitos aspectos, se assemelha à dos astrônomos: tão difícil quanto, mas muito dolorida.

Guzmán explora essa dupla situação com maestria, combinando, tanto visualmente quanto no sentido de uma busca incessante, descobertas e frustrações, essa batalha de pessoas obstinadas que nunca perdem a esperança.  Olhando o céu ou escavando a terra, elas têm uma missão que não pode ser abandonada.  “Nostalgia da Luz” é um filme notável, belíssimo e politicamente forte.




Foi exibido pela primeira vez por aqui na 34ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no mesmo ano de sua realização, 2010, quando o vi e jamais me esqueci, tal o impacto que me causou.  Em 2012, voltei a vê-lo no cinema, numa mostra de documentários latino-americanos, na Cinemateca Brasileira.  Pensei que nunca seria exibido no circuito comercial dos cinemas.  Cinco anos depois, finalmente, ele entra em cartaz.  É um programa imperdível.




Patrício Guzmán é um dos maiores documentaristas do mundo.  Foi responsável por uma antológica trilogia de documentários, denominada “A Batalha do Chile”, realizada de 1973 a 1979, um retrato impressionante do processo político chileno sob a condução de Salvador Allende, até o bombardeio do Palácio de la Moneda e a morte do presidente.  O vasto material gravado, que deu origem aos três filmes, só conseguiu sair do país graças a estrategemas diversos, apoio decisivo no exterior e, como sempre, contando com uma boa dose de sorte.  Há uma edição em DVD com os três filmes e um quarto volume, sobre o trabalho do cineasta Patrício Guzmán.  Quem ainda não conhece pode ir atrás, que vale muito a pena.  Além de aproveitar a oportunidade para ver “Nostalgia da Luz” nos cinemas.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A HISTÓRIA DA ETERNIDADE


Antonio Carlos Egypto




A HISTÓRIA DA ETERNIDADE.  Brasil, 2013.  Direção e roteiro: Camilo Cavalcante.  Com Irandhir Santos, Marcélia Cartaxo, Cláudio Jaborandy, Zezita Matos, Débora Ingrid, Leonardo França.  120 min.



“A História da Eternidade”, primeiro longa-metragem do pernambucano Camilo Cavalcante, é um filme de grande beleza plástica, que faz um uso magnífico da luz, dos closes de rostos, objetos, detalhes, de belos planos gerais e de enquadramentos impecavelmente construídos.  É um filme para se apreciar do começo ao fim, com atenção e calma.  Deixar fluir suas imagens numa atividade contemplativa, usufruir da sua poesia.




Se o título soa estranho e pretensioso, o filme é outra coisa.  Trata de um universo simples e sensível de um pequeno vilarejo no Sertão, onde vicejam a pobreza, a humildade e a frustração dos desejos.  Um mundo que não é capaz de absorver a transgressão da arte e para onde não se retorna, a não ser para tentar fugir de crimes cometidos na cidade.  Um lugar em que a dor pode ser profunda na solidão, mas em que o amor pode surgir de forma surpreendente e inesperada.

A vida de três mulheres, de diferentes faixas de idade, é posta em xeque por meio de seus desejos e da relação deles com a morte, como uma espécie de inevitabilidade.




No contexto árido em que vivem, a aspiração por ver o mar, a música do sanfoneiro cego apaixonado e a vinda de um neto para fazer companhia, preenchem e dão sentido, ao menos provisoriamente, a tudo.  Mas o destino reserva surpresas a todas elas.  Surpresas, na verdade, que podem ser antevistas pelo mundo que as cerca, pequeno e fechado.  Também por seus próprios desejos e instintos capazes de interferir fortemente no rumo dos acontecimentos.




Num elenco afinado e com ótimo desempenho, Irandhir Santos acaba por se destacar porque seu personagem lhe possibilita uma atuação exuberante.  A trilha sonora, muito expressiva, foi criada por Zibgniew Preisner, dos filmes de Krzysztof Kieslowski, e por Dominguinhos, em seu último trabalho.

O filme já ganhou muitos prêmios, entre eles, o do público, para o cinema brasileiro, na 38ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.




domingo, 15 de fevereiro de 2015

SNIPER AMERICANO


Antonio Carlos Egypto




SNIPER AMERICANO (American Sniper).  Estados Unidos, 2014.  Direção: Clint Eastwood.  Com Bradley Cooper, Sienna Miller, Luke Grimes, Jake McDorman.  132 min.


Não há dúvida de que “Sniper Americano”, dirigido por Clint Eastwood, é um filme de guerra muito bom, muito bem realizado, com um bom número de cenas marcantes e efeitos especiais colocados a serviço de contar bem uma história, sem maneirismos ou fios soltos.

O personagem central Chris Kyle, numa interpretação marcante de Bradley Cooper, mostra consistência e, em que pese sua profunda identificação com a guerra, estão lá seus conflitos pessoais e familiares, desequilíbrios, frustrações e inadaptações. É, portanto, um personagem que exibe humanidade.  Não se trata, apenas, de um laudatório da guerra.  Não é raso ou simplista.  Ainda assim, há muito a questionar na ideologia que move o filme.




Atirador Americano, que deveria ser o título do filme por aqui, se baseia na autobiografia de Chris Kyle, o atirador de elite da Marinha Americana, que virou herói, recebeu condecorações e a quem se creditam 160 mortes.  E que foi assassinado no Texas, quando já estava de volta, após quatro incursões pela guerra do Iraque.  A essa altura, ele havia voltado para a família e ajudava veteranos de guerra a superar traumas e dificuldades decorrentes do período bélico.  Ao mesmo tempo em que ele próprio, viciado na guerra, tentava se adaptar à vida pacífica.  O seu assassinato, que o filme não mostra, nem explica, só cita ao final, ainda está sendo julgado e a própria existência e sucesso do filme tendem a interferir no processo atualmente em curso.

“Sniper Americano”, com todos os méritos cinematográficos que tem, é um filme que faz a elegia do herói, aquele que se dedica de corpo e alma e com patriotismo à causa americana.  Que quer proteger os cidadãos norte-americanos de ataques, como o das Torres Gêmeas, e combater os inimigos em seu próprio domínio.




Muito bem, mas que heroísmo é esse a ser valorizado?  O dos Estados Unidos que invadiram uma nação, o Iraque, com base na suposição mentirosa de que lá haveria armas de destruição em massa?  O atirador que mata calculadamente, mas inclui crianças que carreguem artefatos bélicos, é o grande herói da América?  Não dá para engolir tal ideologia, tal modo de pensar.  O país que Chris Kyle defendeu com ardor é o mesmo que produz guerras por toda parte, alimenta com armamento pesado aqueles que depois se tornarão os inimigos a serem combatidos.  Não é assim que funciona?

Não dá para simplesmente colocar no papel de vítima o país que invade outros países, fomenta as guerras e com seu poderio procura impor sua vontade ao mundo.  Mas Clint Eastwood é um homem de direita, do Partido Republicano, apoiou Bush.  Fazer o quê?




Talento como cineasta ele tem de sobra, como já mostrou fartamente em sua filmografia, que inclui “Os Imperdoáveis”, de 1992, “Sobre Meninos e Lobos”, de 2003, “Menina de Ouro”, de 2005, “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”, de 2006, “Gran Torino”, de 2008, e “Invictus”, de 2009, entre outros. Em “Sniper Americano”, ele também compôs a música do filme.  Muito boa, por sinal.  São seis indicações ao Oscar 2015 para essa produção que valida a ideologia de guerra dos Estados Unidos da América 



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

SR. KAPLAN


Antonio Carlos Egypto




SR. KAPLAN (Sr. Kaplan).  Uruguai, 2013.  Direção: Álvaro Brechner.  Com Héctor Noguera, Néstor Guzzini, Rolf Becker, Nidia Telles, Leonor Svarcas.  95 min.


Jacobo Kaplan (Héctor Noguera) já passou por muitas dificuldades na vida.  Mas hoje, quando se aproxima dos 80 anos de idade, vive uma existência pacata no Uruguai, casado com a mesma mulher há cinquenta anos.  Sente um pouco de tédio e, refletindo sobre o que foi a sua vida, gostaria de ter deixado uma marca mais forte, para que pudesse ser lembrado pela história.



Uma conversa ao acaso parece abrir-lhe a chance para um lance heróico insuspeitado, quando ele fica sabendo de um homem de origem alemã que toca um modesto negócio numa praia, não muito distante de onde ele vive.  Indícios fazem-no suspeitar de que se trate de um ex-nazista, escondido por essa América do Sul, tal como aconteceu com Josef Mengele, por exemplo.  A origem judaica do sr. Kaplan fala mais alto e ele não pode perder a oportunidade de investigar o caso.  O filme nos leva a acompanhar suas peripécias em torno do assunto.  Apesar das limitações que a idade já lhe impõe, a disposição do sr. Kaplan parece inabalável...

Essa simpática produção uruguaia, dirigida por Álvaro Brechner, cria um clima de suspense, aventura e humor negro, ao contar essa curiosa história.  A narrativa flui muito bem.  Um bom elenco de atores, capitaneado por Héctor Noguera e Néstor Guzzini, este no papel do ex-policial Wilson Contreras, mantém o interesse pela trama, em que pese o fato de ela contar com alguma previsibilidade.




O que é muito interessante é que o filme coloca elementos dramáticos e de suspense em algumas situações que, no fundo, são banais.  A primeira cena, em que o sr. Kaplan se situa num trampolim alto de uma piscina, é ilustrativa disso.  Mas há muitas outras.  Ou seja, cenas bem estruturadas fazem com que pequenas coisas possam mexer com as pessoas.  Não é preciso apelar para todos os super-heróis e infinitas cenas de ação, recheadas de efeitos especiais, para envolver o público.  O cotidiano, os pensamentos, sentimentos, fantasias e incompreensões humanas têm muito mais a nos dizer do que as guerras intergaláticas.  Com inteligência e um pouco de dinheiro, pode-se fazer coisa boa e produzir entretenimento de qualidade, como é o caso aqui.




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

TIMBUKTU


Antonio Carlos Egypto




TIMBUKTU (Timbuktu).  Mauritânia, França, 2014.  Direção: Abderrahmane Sissako.  Com Ibrahim Ahmed aka Pino, Toulou Kiki, Abel Jafri.  97 min.


“Timbuktu” é um dos cinco finalistas na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro.  Representante da Mauritânia, país norte-africano que faz fronteira com o Marrocos, é um trabalho que impacta, tanto pela forma, quanto pelo conteúdo.

Para começar, pela belíssima fotografia que explora a vastidão das tonalidades de bege da região desértica onde se situa a ação. A areia levantada pelo vento, os deslocamentos dos veículos e das pessoas, o sol que reflete, a noite que desce e produz belas silhuetas, o rio que corre e se compõe com a paisagem arenosa e a pequena aldeia com suas tendas e habitações pobres formam um cenário sedutor, que é muito bem esquadrinhado por câmeras que penetram por todos os espaços.  Os enquadramentos são magníficos.  O plano geral que culmina com uma morte em consequência de uma briga no rio é, talvez, o mais deslumbrante momento de “Timbuktu”.  É muita beleza para tanta pobreza e sofrimento.  Mas quem gosta de cinema não vai deixar de apreciar tudo isso na tela grande e insubstituível das salas de cinema, quando se vê um filme como esse.




 O cineasta Abderrahmane Sissako é um esteta talentoso e ousado e sua coragem para abordar a realidade que escolheu tratar não fica atrás.  O filme mostra, por meio de diferentes personagens, o que significa para a pequena localidade de Timbuktu, no norte do Mali, a ocupação da aldeia por islâmicos radicais.

O fundamentalismo religioso determinando ações já tem demonstrado fortemente que resulta em tragédia.  Aqui, a ênfase maior está no sofrimento cotidiano, surdo e opressor, que também produz tragédias, mas que antes expulsa uma população que foge para não ter que suportar barbaridades que inviabilizam seu dia-a-dia.  Como as proibições de música e futebol, além de bebida e de fumo.  As mulheres, além de terem de cobrir a cabeça com véus, são forçadas a usar luvas e vestir meias para tudo.  O convívio conjugal sem casamento religioso é punido enterrando-se os “pecaminosos” até a cabeça e matando-os por apedrejamento. Todas essas coisas, de uma violência ímpar, são impostas sem maiores exteriorizações, em tom baixo, aparentemente religioso, mas sem direito ao perdão e sem piedade.  Julga-se e mata-se em nome de Alá, do Profeta, de Deus.  A justiça e a polícia islâmica ali retratadas são  implacáveis.




Quando se aplicam chibatadas para os pecados mais leves, o grito se impõe.  Como suportar tanta injustiça?  Mas também há lugar para a rebeldia juvenil: uma das boas cenas do filme é o jogo de futebol praticado pelos meninos sem bola. Sensacional!

O diretor não deixa dúvidas quanto ao que ele quer denunciar e quanto à sua posição sobre o fundamentalismo religioso que viceja na sua região e se espalha pelo mundo.  E o tão belo e artístico “Timbuktu” não deixa de ser um filme de horror.  Triste e muito realista.

O filme da Mauritânia tem todos os méritos para estar na disputa pelo Oscar de filme de língua não-inglesa.   É difícil que seja o escolhido.  Mas ter chegado à disputa final já lhe deu uma visibilidade importante e merecida.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

BIRDMAN


Antonio Carlos Egypto




BIRDMAN ou A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance).  Estados Unidos, 2014.  Direção, roteiro e produção: Alejandro Gonzáles Iñarritu.  Com Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton, Emma Stone, Amy Ryan, Naomi Watts.  119 min.



Um ator, Riggan Thomson (Michael Keaton), se torna famoso, celebridade, por ter encarnado um super-herói – o Birdman – em três filmes.  Mas, na hora de fazer o Birdman 4, sente que o personagem está esgotado e não aguenta mais repeti-lo.  A busca pela arte versus mero entretenimento sempre se coloca para os que fazem da arte de representar um trabalho sério.

Daí para partir para uma montagem teatral cabeça ou do gênero que lida com sentimentos humanos e reflexão, o caminho parece natural.  Musical da Broadway cheio de tecnologia não serviria, seria mais do mesmo estilo superespetáculo.  Mas como lidar com o que ficou para trás, com as expectativas não correspondidas, com a crítica especializada, com colegas de profissão complicados e com a reação do público?  Definitivamente, não é fácil.  Sair de um personagem de sucesso é muito mais complicado do que entrar nele.



Essa questão, que é central no filme do diretor mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu, de “Babel”, em 2006, e “21 Gramas”, de 2003, mexe com toda a indústria do entretenimento de Hollywood.  Realidade e fantasia entram na história o tempo todo, criando um produto curioso e atraente.  Reflexivo, claro.  Mas muito louco, também.

“Birdman” até tem algumas cenas de ação e efeitos especiais, mas o ator-personagem é um anti-herói confuso e insatisfeito, em busca de algo mais denso para sua vida artística.  O filme é mais para quem já se encheu dessa onda de super-heróis e personagens de quadrinhos no cinema.  Ou para quem se interessa pelos bastidores da criação artística e da indústria do entretenimento.




O importante é que o filme decola, envolve, critica e, ao mesmo tempo, diverte.  Tem um ótimo elenco, em que Michael Keaton se destaca como protagonista, mas ressalte-se o papel de Edward Norton, como Mike Shiner, um ator irresponsável e desequilibrado, mas que testa seus limites e os dos outros em cena, numa entrega total.  Emma Stone faz Lesley, a filha que emerge das sombras da celebridade do pai e consegue ver o jogo em que está envolvida.  Zach Galifianakis faz Brandon, o produtor teatral que precisa arbitrar conflitos para manter a peça em cartaz e promovê-la.  E toda uma gama de personagens compõe o mundo do espetáculo. 




Forte e criativo trabalho de Iñarritu em tom de comédia e recheado de fantasia.  É, ao lado do excelente “O Grande Hotel Budapeste”, de Wes Anderson, quem recebeu mais indicações para o Oscar 2015.  Ambos apontados em nove categorias.