Antonio Carlos Egypto
VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS (You will meet a tall dark stranger). Estados Unidos, 2010. Roteiro e direção: Woody Allen. Com Gemma Jones, Anthony Hopkins, Rupert Frazer, Naomi Watts, Josh Brolin, Freida Pinto, Antonio Banderas. 98 min.
O que se pode dizer sobre o novo filme de Woody Allen? Não muita coisa nova que já não tenha sido apontada na sua obra cinematográfica, que tem reconhecidamente grande importância e densidade.
Na obra de Woody Allen a vida é complexa e improgramável. Impossível prevê-la ou controlá-la. Tudo sai diferente do que se planeja, as coisas não se dão linearmente. E é comum começar a narrativa dramática de qualquer ponto e interrompê-la também a qualquer momento. A vida sempre seguirá seu rumo. Não necessariamente em direção a um “happy end”, mas também sem vaticínios catastróficos ou pessimistas. Em outras palavras, a vida é, e basta.
Os seres humanos têm de lidar com suas expectativas, fantasias, frustrações, desencontros, solidão. Geralmente estão em busca da felicidade, ou da ilusão dela. Enganando-se a si próprios para poderem suportar as vicissitudes da vida. Construindo crenças ou comportamentos, por vezes estranhos ou exóticos, para conviverem com suas neuroses e com os surpreendentes caminhos do inconsciente.
Os personagens dos filmes de Woody Allen são gente comum, geralmente de classe média ou alta, querendo encontrar o amor, o sucesso profissional e o reconhecimento. O que todo mundo procura alcançar, de um modo ou de outro. E como isso é fácil de falar, mas difícil de conseguir, os fracassos, enganos e impossibilidades acabam sendo a principal matéria-prima da sua obra. Sempre regada a diálogos inteligentes e bem humorados e música da melhor qualidade e extremo bom gosto.
“Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” não é nada diferente de tudo isso, embora o título em português possa sugerir outra coisa. No original, trata-se apenas de um estranho, alto e moreno. Uma surpresa, talvez, mas não propriamente um sonho, uma idealização. E uma das protagonistas dessa história é uma mulher que esteve casada por 40 anos, e seu marido a abandonou. A inevitável crise daí advinda pode ser aplacada pela crença numa vidente que prevê o futuro, sempre bom para ela, e em que um novo amor se encaixará. A crença cega na vidente determinará os rumos da história, não só dela, mas dos outros personagens, envolvidos com ela, como o ex-marido e a filha, também em crise no seu próprio casamento e com projetos de ter uma galeria de arte própria. O genro, que estudou medicina, mas tenta ser um escritor de sucesso, está indo ladeira abaixo, depende da sogra e, portanto, também será afetado pelas tais previsões. E, ao contrário do que a vidente afirma, nada será previsível ou estará sob controle, apesar de grande parte das previsões aparentemente se confirmar.
O que o diretor explora é a influência que essa crença cega pode produzir na própria vida e na dos outros, com o cuidado de não maximizar sua importância. Há outras crenças que movem a narrativa, como a do ex-marido, já idoso, que acredita poder bancar um novo casamento com uma garota de programa com seu dinheiro, Viagra e alguns músculos. Ou a do livreiro que, em sessões espíritas, espera obter a aprovação da mulher morta para um novo relacionamento. Ou, ainda, a crença do escritor de poder se realizar profissionalmente com o talento de outro.
De amores imaginados, não correspondidos, ultrapassados pelo tempo ou já irremediavelmente desgastados também se compõe a trama. E de desejos que também podem iludir. Afinal, a ilusão é, muitas vezes, o motor de nossas ações. Sem ela, poderíamos nos entregar à depressão. No que tudo isso vai dar, não sabemos. Mas vamos tocar o barco assim mesmo. O que será, será!
“Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” não tem Woody Allen como ator. Tem Anthony Hopkins e Antonio Banderas, Naomi Watts e outros em papéis sem glamour hollywoodiano ou espetacularização. Todos vivendo pessoas comuns e dramas reconhecíveis, com quem podemos cruzar em qualquer lugar e a qualquer momento. O cinema de Woody Allen sempre se alimentou de humanidade, não de mero espetáculo. Por isso mesmo, andou tendo dificuldade nos últimos anos para conseguir financiamento para os seus pequenos grandes filmes, sobretudo nos Estados Unidos. Ainda bem que ele acaba conseguindo dar continuidade aos seus trabalhos no cinema que, com inspiração maior ou menor, são sempre bons.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
terça-feira, 16 de novembro de 2010
MEUS DESTAQUES DA 34ª. MOSTRA DE CINEMA
Antonio Carlos EgyptoAssisti a 49 filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que terminou há poucos dias. Para um universo de mais de 400 filmes, é pouco mais de 10%. Certamente, vi alguns filmes perfeitamente dispensáveis e deixei de ver outros, mais importantes. A programação distribuída em muitas salas e horários que abrangem quase o dia todo, de meio-dia a meia-noite, torna isso inevitável.
De qualquer modo, posso apontar aqui algumas das coisas de que mais gostei. Algumas delas vão passar no circuito comercial, ainda que possa demorar um ano ou mais, em alguns casos. Outras, nunca passarão, mas podem aparecer em mostras temáticas ou retrospectivas que pululam ao longo do ano, nos cinemas dos grandes centros urbanos.
O principal destaque para mim foi NOSTALGIA DA LUZ, do diretor chileno Patrício Guzmán, responsável também pela antológica trilogia de documentários A BATALHA DO CHILE, um retrato impressionante do processo político chileno sob Allende, até o bombardeio do Palácio de la Moneda e a morte do presidente. Agora, em NOSTALGIA DA LUZ, ele se concentra no deserto de Atacama, onde equipamentos de última geração permitem a astrônomos do mundo inteiro a observação de estrelas, de galáxias distantes e dos limites do universo. O céu translúcido do deserto é favorável a isso. Por outro lado, o calor forte e seco ajuda a conservar cadáveres humanos e ali estão espalhados pelo amplo terreno inúmeros prisioneiros políticos da ditadura de Pinochet. Os familiares desses “desaparecidos” estão em busca de ossadas que possam identificá-los, para poderem viver e dormir em paz, enterrando seus mortos adequadamente. Uma busca que, em muitos aspectos, se assemelha à dos astrônomos: tão difícil quanto, mas muito dolorida. Com esse mote, Guzmán faz um filme notável, belíssimo e politicamente forte. Das melhores coisas que vi no cinema nos últimos tempos.
Gostei também de um moderno e importante filme inglês que discute juventude, aventura, amizade e morte: TERCEIRA ESTRELA, longa de estreia de Hattie Dalton, e do novo filme de Manoel de Oliveira, aos 102 anos, com direito a voos e efeitos especiais, a partir da foto da morta que sorri só para o fotógrafo: O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA. Ótimo!
Também valeu a pena ver dois filmes russos, COMO EU TERMINEI ESTE VERÃO e ALMAS SILENCIOSAS, e o filme da Bósnia, UM OUTRO CAMINHO, este sobre a religiosidade islâmica, levada a ferro e fogo, o que inviabiliza uma relação amorosa. Um filme italiano sem diálogos, AS QUATRO VOLTAS, mostra as possibilidades que o cinema tem e que muitas vezes são mal aproveitadas.
O vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 2010, TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS, também é cinema de primeira, mas mais difícil de ser assimilado e aceito, porque rompe paradigmas. É preciso ver deixando de lado as expectativas usuais.
Dos escandinavos, destacaria o sueco BEYOND e o dinamarquês WATER EASY REACH. E, ainda, a comédia da Finlândia, O CIÚME MORA AO LADO, de Mika Kaurismaki, que funciona bem e deve entrar em cartaz brevemente em São Paulo. Da China, MEMÓRIAS DE XANGAI, de Jia Zhang-Ke, um retrato histórico da cidade de Xangai e do país, constrastando com a atualidade, e um épico espetáculo de humor, UMA MULHER, UMA ARMA E UMA LOJA DE MACARRÃO, do já consagrado Zhang Yimou. Do Japão, destaque para o filme de Kore-Eda, AIR DOLL (Boneca Inflável), uma fantasia graciosa e inteligente. Há ainda um bom filme do Quirguistão, O LADRÃO DE LUZ. E o novo e original filme do grande diretor iraniano Abbas Kiarostami, agora filmando fora de seu país de origem: CÓPIA FIEL.
Por último, uma curiosidade: o filme francês COPACABANA, todo calcado numa imagem positiva do Brasil e principalmente de sua música, é boa diversão, com uma atriz do porte de Isabelle Hupert.
Um registro final: vários filmes com cópias digitais, ou mesmo em DVD, não fazem jus à qualidade que se espera da Mostra. As projeções e o atendimento ao público nos cinemas do Arteplex Frei Caneca deixaram a desejar. Acho que o gigantismo está atrapalhando a Mostra. Para que programar mais de 400 filmes? Há tanto filme bom, assim, todo ano? E adianta projetar bons filmes com má qualidade de imagem? Por que não selecionar melhor, reduzir a quantidade de filmes e investir mais nas cópias, na projeção e no atendimento qualificado aos cinéfilos? Todos teríamos a ganhar com isso.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Senna
Senna. Reino Unido, 2010. Direção: Asif Kapadia. Roteiro: Manish Pandey
Seria natural que a vida de Ayrton Senna virasse filme após a sua trágica morte, em Ímola, na Itália, em 1994. Só não se sabia, porém, como seria esse longa-metragem. A princípio, o ator espanhol Antonio Banderas teria sido escolhido para viver o herói brasileiro das pistas. Mas Viviane Senna, irmã de Ayrton, nunca encontrou um contrato dos estúdios hollywoodianos que lhe satisfizesse. Em 2006, porém, produtores ingleses a procuraram com uma nova proposta: transformar as imagens reais, captadas das pistas, dos bastidores e da vida íntima de Senna (os passeios de lancha e jet-ski pelos mares de Angra dos Reis, durante o Carnaval, e com as namoradas Adriane Yamin, Xuxa e Adriane Galisteu), em um filme. Contar uma história a partir de imagens, ou seja: cinema puro!
A ideia, portanto, seria fazer um documentário. Mas mais do que isso, uma “colcha de retalhos” que, costurada, daria origem ao produto final, com começo, meio e fim. Foi aí que entrou o roteirista (e fanático por Senna) Manish Pandey, que resolveu contar uma história linear sobre a vida de Ayrton, iniciando a partir do momento em que ele começou a correr na Fórmula 1, em 1984, no Grande Prêmio de Mônaco.
Ao contrário dos documentários tradicionais, "Senna" não utiliza depoimentos, mas narrações em off de pessoas que tiveram envolvimento diretamente na vida de Ayrton Senna. Uma pessoa muito importante, e que contribuiu com a história, foi o comentarista esportivo Reginaldo Leme.
Em entrevista coletiva realizada em São Paulo, Viviane Senna disse que fazer um filme de ficção sobre a vida de Senna não seria tão impactante. “A cena do Balestre, por exemplo, não seria tão forte”, comenta, citando uma das cenas nas quais há uma grande discussão, no Grande Prêmio do Japão, quando houve um problema do lado da pista em que o pole position largaria.
Embora seja tratado como documentário pelo fato de utilizar imagens reais, o longa poderia ser de ficção, uma vez que a construção é típica desse tipo de filme: a luta do bem contra o mal (Senna versus Prost), catarse, ascensão e queda do herói. Antonio Pinto (de “Cidade de Deus”), brasileiro responsável pela bela trilha sonora da fita, aumenta o coro. “O cara é um herói, precisa se superar, há os vilões... Vamos combinar que o Alain Prost parece o Darth Vader”, brinca, fazendo alusão ao malvado personagem de “Star Wars”.
Quem conheceu a trajetória de Ayrton Senna vai se emocionar com as imagens e a importância que ele teve no automobilismo de maneira geral, principalmente por sua superação a cada corrida. Na primeira, em Mônaco, ele competiu com grandes estrelas, como Keke Rosberg, Nigel Mansell, o bicampeão mundial austríaco Niki Lauda, Nelson Piquet e o homem chamado de “O Professor”, o francês Alain Prost, de quem se tornou companheiro de equipe, na McLaren, e com quem passou maus bocados.
Nessa mesma corrida ele largou na 13ª posição pela equipe Toleman e alcançou Prost na 32ª volta, embora não tenha ganhado a prova. Daí pra frente, ele começou a mostrar a que veio e o que se podia esperar de um piloto audacioso e corajoso como sempre foi.
Foi durante a temporada de 1990, no Japão, que, por conta da matemática do campeonato, Senna e Prost lutavam pela vitória. A partir de então os personagens de Senna e Prost são revelados.
Em 1991, ele venceu pela primeira vez em Interlagos e é emocionante vê-lo carregando a bandeira brasileira, a “música da vitória” e como foi duro chegar em primeiro lugar, sendo que nas última três voltas estava apenas com a sexta marcha.
Além de mostrar como era um “gênio” nas pistas, o longa reforça o lado espiritual e marcante de Senna. Algumas passagens mostram que ele rezava e, inclusive, admite ter visto Deus. No dia de sua morte, outro depoimento sublinha a ideia de que ele havia aberto a Bíblia antes da corrida e teria recebido uma mensagem divina.
No longa é possível conferir como eram os carros antes e depois, quando as equipes começaram a se valer de tecnologia de ponta para montar os seus carros e que, quando Senna começou, vencer uma corrida dependia muito mais da habilidade do piloto que propriamente de uma equipe competente e de um carro sensacional. Em uma passagem, ele diz que é muito complicado quando se entra na “war technologie”, ou seja, na guerra da tecnologia, pois é preciso ter um carro competitivo se quiser enfrentar.
E, quando chegou ao topo, a tecnologia nos carros mudou e os títulos de 1992 e 1993 foram para os carros da Williams-Renault, pilotados por Mansell e Prost. Em 1994, no entanto, com Prost e Mansell não mais correndo a F1, Senna assegurou um posto na Williams.
Ainda que o final desta história já seja conhecida, é inacreditável e inaceitável saber que, no fim de semana em que morreu, durante o treino classificatório, Rubens Barrichello bateu e se feriu. Um dia depois, o piloto austríaco Roland Ratzenberger morreu após bater no muro a 320km/h. O médico e seu amigo, Sid Watkins, o aconselhou a não correr no domingo e até Frank Williams tinha dúvidas se ele largaria naquela manhã. Mas Senna cumpriu seu trabalho com responsabilidade, ainda que curva Tamburello estivesse no meio do seu caminho.
“Senna” é um filme produzido para emocionar. Portanto, não queira sair intacto da sala de projeção após se render as imagens do diretor Asif Kapadia. Trata-se de um longa-metragem sensível, com imagens reais e, sobretudo, “chapa branca”, ou seja, mostram o herói Ayrton Senna, aquele que fazia milhares de brasileiros se levantarem nas manhãs de domingo prontos para ver mais uma vitória. Há, imagens, inclusive, que dão conta de mostrar a pobreza do país e que, após a sua morte, os brasileiros se sentiram órfãos e tristes por achar que não mais valeria a pena viver, uma vez que a alegria havia ido embora. Em Interlagos, imagens da pobreza, mas ao mesmo tempo a torcida gritando o seu nome, e a superação de vencer com apenas a sexta marcha.
Um senão: imagens de Xuxa e Adriane Galisteu. Para o diretor, a ideia de incluí-las era para mostrar mulheres no filme e que os “relacionamentos fazem parte da história dele”. Embora tenha feito graça por conta do vestido que Xuxa usa e tenha se lembrado que já havia visto imagens impróprias da apresentadora, o diretor não respondeu se chegou a acompanhar os romances à época, uma vez que, pelo noticiário, Adriane não parecia ser bem-vinda à família Senna.
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sexta-feira, 12 de novembro de 2010
JOSÉ E PILAR
Antonio Carlos Egypto
JOSÉ E PILAR. Portugal, 2010. Direção: Miguel Gonçalves Mendes. Documentário. 125 min.
José Saramago se foi e sua falta já está sendo bastante sentida. Seus livros, felizmente, permanecerão como acervo cultural de grande envergadura na língua portuguesa. Mas sua presença em entrevistas, depoimentos, artigos jornalísticos, suas frases e sua coragem em apontar as questões fundamentais do nosso tempo, geralmente indo contra a maré, não mais poderão ser apreciadas. Ateu e comunista de convicções firmes e presença suave, sempre valerá a pena relembrar sua atuação, além de reler seus escritos.
Por isso, o documentário “José e Pilar”, do seu conterrâneo português, Miguel Gonçalves Mendes, é tão oportuno e necessário. Foi um trabalho de três anos – 2006, 2007 e 2008 – com duzentas horas de gravação, registrando o dia-a-dia do escritor em sua casa, na ilha de Lanzarote, na Espanha, suas viagens constantes pelo mundo após a conquista do merecidíssimo Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, acompanhando também o processo de criação e produção do romance “A Viagem do Elefante”, cujo lançamento mundial se deu no Brasil, em 2008.
A figura humana de Saramago se destaca no filme. Mas igual destaque ganha sua amada, Pilar Del Río, jornalista espanhola com quem ele viveu uma história de amor, camaradagem, cumplicidade e até de dependência dele em relação a ela, em alguns aspectos. É o retrato íntimo dessa relação, em geral, serena, apaixonada e altamente produtiva, o que o documentário mais revela.
A vastidão do material que acumulou, acompanhando as viagens do casal, interessado nos grandes momentos pelo mundo e também nos pequenos momentos domésticos, permite que, sem se deter muito em quase nada, um grande painel da vida do escritór nos últimos anos se construa. Foram anos de grande glória, mas também das perdas decorrentes da velhice e de uma doença que quase o matou e que poderia ter impedido a conclusão da obra “A Viagem do Elefante” e o que ainda viria depois, como o romance “Caim”.
Saramago tinha tudo, mas pedia tempo para completar seu trabalho. Felizmente, obteve o tempo extra que pedia. A isso muito se deve a dedicação de Pilar, que prossegue após a sua morte, à frente da Fundação que leva o nome do escritor.
São momentos de puro deleite cinematográfico àqueles que apreciam José Saramago. Quem não o conhece bem certamente vai gostar de conhecê-lo e a sua amada. Aos conservadores mais empedernidos, a obra e a figura humana de Saramago serão sempre ferinas e sem concessões. Porque, com doçura e expressão moderada, ele não se engana e não se deixa abater. E o filme rende uma justa homenagem à grandeza desse homem.
A produção do documentário une Portugal à produtora espanhola “El Deseo”, de Pedro Almodóvar e seu irmão Agustín e à “02 Filmes”, brasileira, de Fernando Meirelles. Aliás, a famosa cena de Fernando, mostrando seu “Ensaio Sobre a Cegueira” ao autor do texto, que deu origem àquele belo filme e às reações de Saramago, que emocionaram o cineasta, também está em “José e Pilar”.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010
MINHAS MÃES E MEU PAI
Antonio Carlos Egypto
MINHAS MÃES E MEU PAI (The kids are all right). Estados Unidos, 2010. Direção: Lisa Cholodenko. Com Annete Bening, Juliane Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska e Josh Hutcherson. 106 min.
Duas mulheres lésbicas vivem um amor intenso e harmonioso, com um casal de filhos adolescentes. Ambos os jovens foram concebidos por inseminação artificial, a partir de um doador anônimo. Cada uma delas foi mãe, gerando o filho ou a filha em seu próprio útero, com sêmen do mesmo doador. E assim se constituiu uma família que seguiu seu rumo pelo tempo, sem maiores tropeços. O nível socioeconômico dessa família é alto e o padrão intelectual das mães, também. O que pode acontecer se o doador, o pai biológico, entrar em cena? Esse é o mote do filme, totalmente antenado com o século XXI.
Vivemos num tempo em que já não se pode falar da família no singular, mas sim de famílias, no plural. Ou seja, há diferentes configurações familiares convivendo pacificamente. Isso já se verifica há tempos. A família nuclear – pai, mãe e filhos – que substituiu a família extensa, em que entra a parentela em geral, foi se reduzindo. O número de filhos caiu vertiginosamente, inclusive no Brasil. Menos nas classes de menor poder aquisitivo, mas caiu lá também.
Os casamentos duram muito menos do que no passado, gerando muitas famílias mantidas pela mãe e só por ela. Ou, então, apresentando de forma intensa padrastos, madrastas e o convívio com meio-irmãos. Crianças que passam a semana numa casa e o fim de semana em outra. Crianças que só têm pai ou mãe ou têm até quatro genitores. Bebês de proveta passaram a fazer parte da história e famílias homossexuais se tornaram um fato social relevante.
Isso tudo significa que a família está em crise ou se desestruturou? Não, significa apenas que as famílias mudaram, assim como o mundo mudou. Eu diria que para melhor. O que não impede que haja surpresas, estranhamentos e problemas nessas novas relações que se estabelecem e é disso que se alimenta “Minhas Mães e Meu Pai”. O título brasileiro se surpreende mais do que o original, que apenas nos informa que as crianças estão muito bem. Ou seja, as novas configurações familiares dão conta muito bem do cuidar das crianças. Pelo menos, quando o dinheiro não falta, como é o caso aqui.
De um filme leve, bem realizado, com boas interpretações e com um tema como esse pode esperar-se muito, não é mesmo? Infelizmente, não. Afinal, estamos em Hollywood e seja um blockbuster ou uma produção independente e mais modesta, os valores do cinema espetáculo costumam se sobrepor ao cinema que produz reflexão.
A família homossexual se equipara em tudo às famílias convencionais mais moderninhas. O triunfo da família como um valor, seja ela qual for, não questiona, antes, reforça a idealização tradicional da família que o cinema norte-americano sempre mostrou. Nem sinal dos conflitos familiares do cinema italiano do neorrealismo, por exemplo. Ou dos questionamentos de Wilhelm Reich e de um de seus seguidores brasileiros, o médico psiquiatra recém-falecido, José Ângelo Gaiarsa. Nem de Nelson Rodrigues, por certo. O máximo que se vê de conflitos são ciúmes, além de características de personalidade que inteferem nos relacionamentos.
É tudo ligeiro, para não incomodar ninguém. Dá para ver? Claro que dá para ver e para se divertir. Mas é um tema que merecia outro tratamento. Fico só imaginando o que não seria capaz de aprontar o cineasta Pedro Almodóvar com uma história dessas. Certamente, teríamos tipos estranhos fazendo coisas extravagantes, detonando a sociedade tradicional e produzindo uma libertação que passaria pela implosão dos preconceitos. Mas isso seria Almodóvar, não a jovem diretora Lisa Cholodenko, que trabalha pela cartilha hollywoodiana, aquela que faz do mercado seu ente orientador.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
As Múmias do Faraó
Tatiana Babadobulos
As Múmias do Faraó (Les Aventures Extraordinaries D'Adèle Blanc-Sec). França, 2010. Direção e roteiro: Luc Besson. Com: Louise Bourgoin,Mathieu Amalric, Gilles Lellouche, Jean-Paul Rouve. 107 min.
Ambientado na Paris de 1912, o longa-metragem “As Múmias do Faraó” (“Les Aventures Extraordinaries D'Adèle Blanc-Sec”) conta a história de uma repórter, Adèle (Louise Bourgoin), que resolve ir ao Egito, pois acredita que a cura da doença de sua irmã está na tumba de um faraó. Quem aponta a solução, porém, é um professor (quase) centenário que tem a capacidade de controlar animais pré-históricos do Museu de História Natural, uma vez que ele conseguiu trazer à vida um dinossauro que estava apenas no ovo! De Paris ao Egito, ela vai aprontar confusões, envolver a polícia local, enfim, viver uma grande aventura e fazer a plateia rir.
Grosso modo, é assim o filme dirigido pelo francês Luc Besson, também responsável por longas como “Arthur e os Minimoys”, “Joana d'Arc”, “O Profissional”, “Imensidão Azul”.
Na Belle Époque, o espectador vai conferir que pouca coisa mudou na rue de Rivoli, uma das principais ruas de comércio da capital francesa e onde também estão os espetáculos de can-can. O rio Sena também faz parte do cenário, assim como os museus da cidade.
Uma das referências mais geniais da fita, aliás, é quando cita as pirâmides do Egito e aparece o Museu do Louvre, local onde, atualmente, existem pirâmides de vidro na frente e, quando foram ali colocadas, se tornaram motivo de críticas por ser uma obra de mal gosto.
Usando de bastante ironia, o jornal local aproveita para falar do tal réptil que saiu do Museu, mas o governo acredita que isso tenha sido feito para desestabilizá-lo. E o policial, ao invés de tomar as providências necessárias, atua como um verdadeiro funcionário público e só pensa em comer. Com narrações em off, há cenas engraçadas e personagens que tiram sarro da história, como quando se vestem de carneiros...
Ainda que a busca incessante da protagonista sejam as tais múmias do faraó, o título do filme bem que poderia ter sido apenas traduzido do original, ou seja, “As Extraordinárias Aventuras de Adèle Blanc-Sec”, que é justamente o que ele trata. Com efeitos especiais para trazer vida às múmias, o longa abusa dos diálogos, como um bom filme francês. No entanto, ao espectador, uma dica: relaxe e aproveite. O longa de aventura é divertido, uma verdadeira sessão da tarde. Portanto, não espere um filme francês do “tipo cabeça”, mas pura diversão cheia de ironias.
domingo, 31 de outubro de 2010
Homens em Fúria
Tatiana Babadobulos
Homens em Fúria (Stone). Estados Unidos, 2010. Direção: John Curran. Roteiro: Angus MacLachlan. Com: Edward Norton, Robert De Niro, Milla Jovovich, Frances Conroy. 105 min.
Para contar a história de um presidiário que está tentando a sua condicional após cumprir pena de 13 anos por encobrir o assassinato dos seus avós com um incêndio, o diretor John Curran (de “O Despertar de Uma Paixão”) escalou Edward Norton para viver o primeiro personagem, e Robert De Niro para ser o oficial escalado a conceder (ou não) a tal condicional. Só pela escalação do elenco, que inclui ainda Milla Jovovich e Frances Conroy, já vale o ingresso. No entanto, é um roteiro consistente e convincente (este escrito por Angus McLachlan) que faz falta no longa-metragem “Homens em Fúria” (“Stone”).
Homens em Fúria (Stone). Estados Unidos, 2010. Direção: John Curran. Roteiro: Angus MacLachlan. Com: Edward Norton, Robert De Niro, Milla Jovovich, Frances Conroy. 105 min.
Na primeira sequência, o filme mostra imagens do passado e choca o espectador quando apresenta um rapaz e sua esposa que, cansada de viver no silêncio, pede o divórcio, mas ele ameaça matar a filha caso ela o deixe. Depois do chacoalhão inicial, porém, o espectador pode respirar aliviado, pois nada mais forte como aquilo será repetido ao longo dos pouco mais de 100 minutos de exibição.
Frequentador da igreja aos domingos, leitor diário da Bíblia e ouvinte de salmos no rádio, Jack (De Niro) é o policial que, embora seja devoto e que não tenha cometido nenhum crime, ainda não se convenceu que merece o “reino dos céus”. Ao contrário, porém, do prisioneiro, Stone (personagem de Norton e nome original do filme), que diz ter tido uma “epifania” e que se sente recuperado e pronto para voltar para casa e para os braços de sua esposa, a bela e sedutora Lucetta (Milla Jovovich).
A questão é que, depois da primeira entrevista entre policial e prisioneiro, os dois vão ter encontros cada vez mais frequentes e a esposa Stone será responsável por convencer Jack que seu marido está recuperado e em condições de receber sua liberdade condicional. Para tanto, como é possível de imaginar, uma vez que ela faz a típica mulher sexy e fatal, a moça vai usar de métodos, digamos, nada ortodoxos.
De acordo com as imagens, o espectador já sabe que marido e mulher estão tramando algo, ou seja, que o jeitinho meigo de Lucetta é, a princípio, armação, e que ela está tentando enganar. Mas só não se sabe por quê. Ao final, o público irá constatar que tudo foi em excesso, principalmente porque ela não é fiel nem ao marido nem ao policial.
A ideia do longa é boa e plausível. No entanto, um dos seus problemas é o excesso de clichês: o policial está prestes a se aposentar, mas prefere acompanhar alguns casos, incluindo, claro, o de Stone; tem extensa experiência no trabalho, mas vai cometer o deslize pouco antes de praticar, enfim, o golfe diário; ele é casado há mais de 40 anos, mas vai fazer besteira.
“Homens em Fúria” provoca o espetador o tempo inteiro e o faz pensar nas relações que uma cena tem com a outra. No entanto, ele não é bobo e, para ser enganado, precisa de justificativas plausíveis, e não de cenas soltas, que não se conectam e se mostram des-necessárias no decorrer da fita.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Tropa de Elite 2
Tatiana Babadobulos
De cara, "Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outra", longa-metragem dirigido por José Padilha, já mostra a que veio. Tiroteio, perseguição e narrações em off de Nascimento (novamente vivido pelo ótimo Wagner Moura), que agora não é mais capitão do Bope, como era no filme anterior, mas sim coronel. É, ele, aliás, o alvo dos atiradores. Daí pra frente, ele mesmo vai contar ao espectador como foi parar lá e o que aconteceu no final desta história. É o momento de se acomodar na poltrona e se entregar às imagens da câmera de Lula Carvalho, novamente diretor de fotografia, e à montagem de Daniel Rezende.
À frente do comando, Nascimento usa a estratégia para combater o tráfico das favelas, e os caveiras, entre eles o capitão Mathias (André Ramiro), sobem o morro dentro do Caveirão ou de helicóptero, também com o intuito de impedir, inclusive, que policiais militares corruptos negociem com os traficantes e recebam propina. É aí que conhecemos a origem das milícias.
Se "Tropa de Elite" se passava no final dos anos 1990, "Tropa 2" é contemporâneo, cobre o arco de 2006 a 2010 e cita, durante várias sequências, que trata-se de ano de eleição e, portanto, não será possível abrir uma CPI, por exemplo, pois é um procedimento considerado por muitos como eleitoreiro. (Em nota, Padilha informa que não pertence "a nenhum partido, grupo político, agremiação, sindicato ou lista de apoio a candidatos".)
Agora separado da mulher (Maria Ribeiro) e pai de Rafael (Pedro Van Held), Nascimento vive só e em guerra com Fraga (Irandhir Santos), professor de história e defensor dos direitos humanos e tenta negociação durante rebelião em Bangu I. Outro problema com Fraga é que ele se casou com sua ex-mulher e faz a cabeça do filho para ir contra o pai. No entanto, se aproveitando da reblião e quando ganhou notoriedade mundial, Fraga se elege deputado e compra a briga com o Bope. Nascimento, afastado do Batalhão, passa a trabalhar como subsecretário de Inteligência. É quando ocupa o cargo que começa a entender que o problema com os traficantes e a polícia do Rio de Janeiro é muito maior e muito mais próximo da política que podia imaginar. A partir daí, percebe que é preciso ir contra o sistema se quiser, de fato, encontrar a solução.
Usando a câmera na mão, Padilha apresenta ao espectador imagens quase documentais da sujeira que é escondida embaixo do tapete quando o assunto é política. Com muitos tiros, perseguições e, vá lá, menos torturas que o filme anterior (as sequências que mostram "o saco" no primeiro são mais sufocantes que nesta produção), "Tropa de Elite 2" é violento, sim, mas nada que não seja tal como a nossa realidade.
Padilha mostra, mais uma vez, depois de "Ônibus 174" e "Tropa de Elite", que é, além de um brilhante e competente cineasta, um homem corajoso, e, ele próprio enfrenta o sistema, traduzindo em imagens de ficção (como avisa na abertura da fita) o que é a dura (e conhecida) realidade brasileira, mas que poucas pessoas têm coragem para expor, denunciar ou seja lá que nome tenha isso.
Por conta da pirataria do primeiro filme, desta vez a equipe decidiu não fazer cópia digital e os sete rolos de filme ficaram trancados em um cofre de banco. Hoje, já existe o filme para download, mas é daqueles gravados diretamente no cinema.
Segundo o Filme B, o longa-metragem já faturou R$ 40 milhões e mais de 4 milhões de pessoas assistiram ao filme até o segundo final de semana em cartaz. Os números fazem de "Tropa de Elite 2" a produção nacional mais vista do ano, à frente de "Nosso Lar" e "Chico Xavier".
Além do ufanismo, sentimento que obriga todos a prestigiar o cinema nacional, "Tropa de Elite 2" é indicação obrigatória e deve estar no repertório não apenas dos cinéfilos, mas de cada cidadão brasileiro.
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
CONTOS DA ERA DOURADA
Antonio Carlos Egypto
CONTOS DA ERA DOURADA (Tales from the Golden Age). Romênia, 2009. Roteiro: Cristian Mungiu. Direção: Ioana Uricaru, Hanno Hoffer, Razvam Márculescu, Constantin Popescu e Cristian Mungiu. Com: Alexandru Potocean, Avram Birau, Diana Cavallioti, Radu Iacoban, Romeu Tudor, Tania Popa. 155 min.
Regimes opressores costumam produzir grandes restrições à liberdade, controles, censura e, sobretudo, medo. Mas também produzem perseguições tão absurdas que acabam por gerar piadas históricas ou lendas que se propagam.
Na ditadura militar brasileira, foram muitos os fatos que viraram folclore, tanto que Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, cunhou a expressão “o festival de besteiras que assola o país”, naquele período. Uma dessas me vem à mente agora: no afã de encontrar material subversivo nas repúblicas estudantis da turma engajada na luta contra a ditadura, livros sobre a “resistência dos materiais”, utilizados por currículos de engenharia e arquitetura, eram apreendidos como se fossem obras de marxistas que resistiam ao regime. Imaginem o que não deve ter acontecido durante o longo período do ditador Nicolae Ceausescu, que chefiou o regime comunista da Romênia, de 1965 a 1989.
“Contos da Era Dourada” apresenta seis histórias supostamente verídicas, que ilustram, na base do humor e do non-sense, o clima da chamada era dourada, ironicamente, o período dos últimos quinze anos do regime, que parecem ter sido os piores de toda a história do país.
Época em que a falta de comida e de dinheiro, aliada ao medo de serem flagrados por uma polícia que cumpria leis dracônicas sem pestanejar, produzia grandes absurdos, como tentar matar um porco num apartamento sem que ninguém notasse. Ou passar por fiscal de água e de ar para roubar garrafas vazias e, com elas, obter dinheiro para comprar um carro popular. Ou, ainda, roubar ovos de galinhas oficiais que eram transportadas por longas distâncias e cujo veículo não podia parar.
Seguir ordens irracionais de ativistas do partido ou representantes do governo à passagem de comitiva oficial por pequenos lugarejos, como arrebanhar ovelhas dos campos para expô-las na estrada ou pôr literalmente todos os habitantes da localidade a girar num tipo de roda gigante, são exemplos de situações que produzem comicidade um tanto involuntária. Há ainda o caso do excesso de zelo do fotógrafo oficial que acabou resultando numa foto de Ceausescu com um chapéu na mão e outro na cabeça.
O filme é muito simpático e divertido. Realizado a partir de roteiro de Cristian Mungiu, que é também produtor e diretor de um dos seis episódios da película. O seu talento já está comprovado nesta comédia e também no drama “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, brilhante trabalho cinematográfico que capta esse medo produzido pelo regime de Ceausescu, na situação de um aborto clandestino. E faz o melhor filme que eu vi sobre a questão do aborto, em que a ilegalidade produz um mal-estar insuportável, mas a tragédia, solução óbvia e fácil para o tema, fica de fora. Lá na Romênia ditatorial ou aqui no Brasil democrático, as coisas são similares na clandestinidade. Um filme, premiado em Cannes, que veio para ficar.
“Contos da Era Dourada” é menos pretensioso ou profundo, mas é um registro muito competente do clima cômico/opressivo das ditaduras mundo afora. Desmoraliza todas elas, à direita ou à esquerda, apostando no ridículo das histórias que elas são capazes de criar. E tudo é mostrado em baixos tons de ação, expressão, cor e som, o que faz o clima do filme totalmente convincente e produz sorrisos que passam pela consciência e pela reflexão.
É mais um produto inteligente e bem acabado do cinema romeno da atualidade, em que o nome de Cristian Mungiu se destaca, mas vários outros novos nomes da direção cinematográfica do país aparecem para o público brasileiro e mundial, num desses raros filmes de episódios que têm unidade.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
DOIS IRMÃOS
Antonio Carlos Egypto
DOIS IRMÃOS (Dos Hermanos). Argentina, 2010. Direção: Daniel Burman. Roteiro: Daniel Burman e Sergio Dubcovsky. Com Antonio Gasala, Graciela Borges, Elena Lucena, Rita Cortese. 105 min.
Daniel Burman, jovem diretor argentino de 37 anos, já tem uma carreira de destaque e êxitos cinematográficos, ao quais se acrescenta agora “Dois Irmãos”. Conhecido do público brasileiro pelos filmes “El Abrazo Partido”, de 2004, “As Leis de Família”, de 2006, e “Ninho Vazio”, de 2008, Burman dedica seu cinema a tratar de relações pessoais, sempre fortemente marcadas por laços familiares.
As relações de adultos jovens com a figura paterna são determinantes nos dois primeiros filmes citados. Por sinal, dois ótimos trabalhos que combinam drama, humor e diálogos inteligentes, na dose certa e são capazes de explorar com consistência os vínculos tratados e questões relativas à identidade.
Em “Ninho Vazio”. foram o avançar da idade e os novos desafios que a maturidade traz o foco abordado. E é o ninho familiar que fica vazio e muda o rumo das vidas de um homem e uma mulher que envelhecem.
No atual “Dois Irmãos”, o título já informa que ele permanece fiel à temática familiar. Marcos (Antonio Gasala) atinge a terceira idade com uma vida limitada, sem grandes realizações ou amores, à exceção da mãe, a quem dedicou fidelidade absoluta até o leito de morte. Sua irmã, Susana (Graciela Borges), é muito ativa, ocupada e agitada, sempre metida em negócios. Na verdade, é uma trambiqueira, que ganha dinheiro em operações de reserva de compra e venda de apartamentos de alto padrão, que ela sistematicamente despreza, para conseguir os melhores preços e os menores sinais possíveis. Sua relação com o irmão é de dominação e manipulação.
A relação entre ambos, como seria de se esperar, é de amor e ódio recíprocos. As cenas do filme vão esquadrinhando essa relação e explicitando com muita eficiência essa mescla de sentimentos que, na verdade, são as faces inevitáveis de um vínculo obrigatoriamente forte, como costuma ser o de irmãos.
Se ela acha que pode tudo junto ao irmão, ele precisaria do sonho para adquirir a coragem necessária para se expressar e se contrapor a ela. Mas tudo tem o seu limite e é aí que o conflito se acirra e se faz possível uma grande mudança. A humanidade dos personagens se amplia e as coisas se tornam mais complexas e muito mais interessantes. Estereótipos e preconceitos são superados e a realidade que emerge é muito mais rica, valorizando a diversidade humana, a busca da autonomia e o valor do desejo e dos sonhos na vida das pessoas.
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sábado, 2 de outubro de 2010
TERRA DEU, TERRA COME
Antonio Carlos Egypto

TERRA DEU, TERRA COME. Brasil, 2009. Direção: Rodrigo Siqueira. Colaborou na direção: Pedro de Alexina. Com: Pedro de Alexina, Dona Lúcia, João Batista, Dolores, seu Pidrim Peçanha, Admilson, Geovani, Adilson, Nei, Edinho, Sineca e familiares do seu Pedro. 88 min.
Ao assistir um documentário, o que é que se busca? Conhecer ou refletir sobre uma dada realidade, atual ou histórica, próxima ou distante. Mas, em todo caso, aproximar-se de alguma forma da verdade. Aí é que é está o problema: o que é mesmo essa verdade documental?
“Terra Deu, Terra Come” é o vencedor do Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade”, 2010. Pois é, está aí a “verdade”, de novo. Será que é mesmo tudo verdade?
O diretor mineiro Rodrigo Siqueira estava envolvido com o universo de Guimarães Rosa e foi em busca do sertão mítico e profundo do autor. Encontrou o senhor Pedro Vieira, conhecido como Pedro de Alexina, de 81 anos, um dos últimos guardiães de tradições africanas e mineiras da região de Diamantina, vivendo em Quartel do Indaiá, comunidade remanescente de um quilombo, e partiu para a realização do filme.
Capaz de entoar os cantos conhecidos como vissungos, outrora ouvidos dos africanos nos trabalhos dos garimpos de Diamantina e utilizados em rituais fúnebres, coube a Pedro de Alexina dar o tom do que fazer e dizer e ciceronear o espectador, para fazê-lo imergir nesse mundo à parte.

TERRA DEU, TERRA COME. Brasil, 2009. Direção: Rodrigo Siqueira. Colaborou na direção: Pedro de Alexina. Com: Pedro de Alexina, Dona Lúcia, João Batista, Dolores, seu Pidrim Peçanha, Admilson, Geovani, Adilson, Nei, Edinho, Sineca e familiares do seu Pedro. 88 min.
Ao assistir um documentário, o que é que se busca? Conhecer ou refletir sobre uma dada realidade, atual ou histórica, próxima ou distante. Mas, em todo caso, aproximar-se de alguma forma da verdade. Aí é que é está o problema: o que é mesmo essa verdade documental?
“Terra Deu, Terra Come” é o vencedor do Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade”, 2010. Pois é, está aí a “verdade”, de novo. Será que é mesmo tudo verdade?
O diretor mineiro Rodrigo Siqueira estava envolvido com o universo de Guimarães Rosa e foi em busca do sertão mítico e profundo do autor. Encontrou o senhor Pedro Vieira, conhecido como Pedro de Alexina, de 81 anos, um dos últimos guardiães de tradições africanas e mineiras da região de Diamantina, vivendo em Quartel do Indaiá, comunidade remanescente de um quilombo, e partiu para a realização do filme.
Capaz de entoar os cantos conhecidos como vissungos, outrora ouvidos dos africanos nos trabalhos dos garimpos de Diamantina e utilizados em rituais fúnebres, coube a Pedro de Alexina dar o tom do que fazer e dizer e ciceronear o espectador, para fazê-lo imergir nesse mundo à parte.
O fio condutor principal era o cortejo fúnebre e enterro de João Batista, que teria vivido 120 anos. O sepultamento se dá após dezessete horas de velório, choro, riso, farra, reza, silêncios e tristeza. Com direito a gotas de cachaça, do gênero daquelas que o povo costuma dar para o santo.
Garimpeiro, descendente de escravos, conhecedor dos mitos e lendas da região, além dos vissungos, Pedro vai desfilando e encenando suas histórias, algumas do tempo em que “Cristo mais São Pedro andavam pelo mundo”. Nos ensina o que a morte é e as desculpas que arranjamos para entendê-la. E é claro que não poderiam faltar as histórias mais extravagantes dos diamantes enormes sumidos ou enterrados por aí, não se sabe onde.
Um mergulho no universo etnológico do garimpo de Diamantina, que remonta aos séculos XVIII e XIX. A essa altura, vocês podem estar perguntando: Mas será que isso segura um filme? Ou é coisa que possa interessar a alguém mais do que antropólogos ou historiadores? Foi algo semelhante o que pensou o diretor de fotografia, Pierre de Kerchove, inicialmente. Mas o filme vai muito além disso.
O que é e onde está a verdade? Mitos, contos e lendas são verdades, por certo. Contados ou encenados, nos remetem a dimensões de realidade distintas da experiência cotidiana. Mas até onde isso pode ir? Como se dá essa experiência? Como ela pode ser vivida e que relação tem com a ficção?
“Terra Deu, Terra Come”, o documentário, embaralha tudo e também pode ser visto como ficção ou até mesmo como farsa ou, ainda, como disse João Moreira Salles: “É uma trapaça maravilhosa”. De fato.
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010
O SOL DO MEIO DIA
Antonio Carlos Egypto
O SOL DO MEIO DIA. Brasil, 2009. Direção: Eliane Caffé. Com Luiz Carlos Vasconcelos, Chico Diaz, Cláudia Assunção, Ary Fontoura. 106 min.
“O Sol do Meio Dia” é a jornada de três personagens em busca de sua própria identidade e de um mundo para viver em paz. Artur (Luiz Carlos Vasconcelos) procura se reinventar, após cometer um crime passional. As profundezas do Brasil amazônico servem de cenário para sua viagem de reconstrução e redenção ao encontro de si mesmo e da superação da angústia em que vive, mascarada por um misto de gentileza, rudeza e destemor.
Matuim (Chico Diaz) é um barqueiro que transporta pelos rios amazônicos o que pode lhe valer alguns trocados, quando não está metido em confusões, pequenos negócios escusos ou tentando sobreviver de forma bufa. É cômico e trágico seu esforço para simplesmente continuar existindo. Sua identidade parece estar na peruca que o provê de longos cabelos e que vive expondo suas vergonhas. Uma espécie de Sansão atrapalhado, de cabelos postiços e poucas habilidades.O que Artur e Matuim podem ter em comum, que os possa unir, ao menos temporariamente? A perda de referência e o caminho anárquico que percorrerão juntos, inicialmente na velha embarcação de Matuim, depois, em terra firme.
Ciara (Cláudia Assunção) é a terceira personagem da trama. Frustrada pela “escolha” da filha pela prostituição, caminho de resto bastante comum em terras onde a pobreza e o machismo imperam, também erra pelo ambiente amazônico, em busca do seu espaço e do necessário afeto para viver. É ainda relativamente jovem e bonita, pode reconstituir sua história a partir do ponto em que a filha a afasta de si e de sua atividade.
Esses três personagens vão percorrendo seus caminhos erráticos, em direção à cidade grande, Belém, no caso. E acabarão por viver um estranho e desengonçado triângulo amoroso, cheio de idas e vindas, daqueles que se perdem mais do que se encontram. Há drama e humor, mas tudo é seco, contido, até que venha a explodir.
Grandes atores dão contornos firmes e fortes a esses personagens e mantêm a atenção e o interesse pela trama. Mas o que mais se destacou, para mim, foi a belíssima fotografia de Pedro Farkas, a utilização do claro escuro, das sombras, e o enquadramento das imagens. É um trabalho a se apreciar com atençãoA diretora Eliane Caffé faz um filme poético, valendo-se dos cenários e paisagens da região amazônica e realçando os sons no tratamento dramático das situações, dispensando a música. É uma película esteticamente superior à sua “Narradores de Javé”, de 2002, em que pese aquela história ser mais original e envolvente do que esta.
“O Sol do Meio Dia” foi rodado integralmente no estado do Pará, nos municípios de Belém, Castanhal, Vila Trindade, Vila Pernambuco e Rios. Foi escolhido pela crítica da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, de 2009, como o melhor longa-metragem brasileiro ali apresentado. E os atores Chico Diaz e Luiz Carlos Vasconcelos receberam prêmio conjunto de atuação masculina no Festival do Rio, de 2009.
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