segunda-feira, 8 de novembro de 2010

MINHAS MÃES E MEU PAI

            Antonio Carlos Egypto

MINHAS MÃES E MEU PAI (The kids are all right). Estados Unidos, 2010. Direção: Lisa Cholodenko. Com Annete Bening, Juliane Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska e Josh Hutcherson. 106 min.

Duas mulheres lésbicas vivem um amor intenso e harmonioso, com um casal de filhos adolescentes. Ambos os jovens foram concebidos por inseminação artificial, a partir de um doador anônimo. Cada uma delas foi mãe, gerando o filho ou a filha em seu próprio útero, com sêmen do mesmo doador. E assim se constituiu uma família que seguiu seu rumo pelo tempo, sem maiores tropeços. O nível socioeconômico dessa família é alto e o padrão intelectual das mães, também. O que pode acontecer se o doador, o pai biológico, entrar em cena? Esse é o mote do filme, totalmente antenado com o século XXI.

Vivemos num tempo em que já não se pode falar da família no singular, mas sim de famílias, no plural. Ou seja, há diferentes configurações familiares convivendo pacificamente. Isso já se verifica há tempos. A família nuclear – pai, mãe e filhos – que substituiu a família extensa, em que entra a parentela em geral, foi se reduzindo. O número de filhos caiu vertiginosamente, inclusive no Brasil. Menos nas classes de menor poder aquisitivo, mas caiu lá também.

Os casamentos duram muito menos do que no passado, gerando muitas famílias mantidas pela mãe e só por ela. Ou, então, apresentando de forma intensa padrastos, madrastas e o convívio com meio-irmãos. Crianças que passam a semana numa casa e o fim de semana em outra. Crianças que só têm pai ou mãe ou têm até quatro genitores. Bebês de proveta passaram a fazer parte da história e famílias homossexuais se tornaram um fato social relevante.

Isso tudo significa que a família está em crise ou se desestruturou? Não, significa apenas que as famílias mudaram, assim como o mundo mudou. Eu diria que para melhor. O que não impede que haja surpresas, estranhamentos e problemas nessas novas relações que se estabelecem e é disso que se alimenta “Minhas Mães e Meu Pai”. O título brasileiro se surpreende mais do que o original, que apenas nos informa que as crianças estão muito bem. Ou seja, as novas configurações familiares dão conta muito bem do cuidar das crianças. Pelo menos, quando o dinheiro não falta, como é o caso aqui.

De um filme leve, bem realizado, com boas interpretações e com um tema como esse pode esperar-se muito, não é mesmo? Infelizmente, não. Afinal, estamos em Hollywood e seja um blockbuster ou uma produção independente e mais modesta, os valores do cinema espetáculo costumam se sobrepor ao cinema que produz reflexão.

A família homossexual se equipara em tudo às famílias convencionais mais moderninhas. O triunfo da família como um valor, seja ela qual for, não questiona, antes, reforça a idealização tradicional da família que o cinema norte-americano sempre mostrou. Nem sinal dos conflitos familiares do cinema italiano do neorrealismo, por exemplo. Ou dos questionamentos de Wilhelm Reich e de um de seus seguidores brasileiros, o médico psiquiatra recém-falecido, José Ângelo Gaiarsa. Nem de Nelson Rodrigues, por certo. O máximo que se vê de conflitos são ciúmes, além de características de personalidade que inteferem nos relacionamentos.

É tudo ligeiro, para não incomodar ninguém. Dá para ver? Claro que dá para ver e para se divertir. Mas é um tema que merecia outro tratamento. Fico só imaginando o que não seria capaz de aprontar o cineasta Pedro Almodóvar com uma história dessas. Certamente, teríamos tipos estranhos fazendo coisas extravagantes, detonando a sociedade tradicional e produzindo uma libertação que passaria pela implosão dos preconceitos. Mas isso seria Almodóvar, não a jovem diretora Lisa Cholodenko, que trabalha pela cartilha hollywoodiana, aquela que faz do mercado seu ente orientador.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

As Múmias do Faraó


Tatiana Babadobulos


As Múmias do Faraó (Les Aventures Extraordinaries D'Adèle Blanc-Sec). França, 2010. Direção e roteiro: Luc Besson. Com: Louise Bourgoin,Mathieu Amalric, Gilles Lellouche, Jean-Paul Rouve. 107 min.



Ambientado na Paris de 1912, o longa-metragem “As Múmias do Faraó” (“Les Aventures Extraordinaries D'Adèle Blanc-Sec”) conta a história de uma repórter, Adèle (Louise Bourgoin), que resolve ir ao Egito, pois acre­dita que a cura da doença de sua irmã está na tumba de um faraó. Quem aponta a solução, porém, é um professor (quase) centenário que tem a capacidade de  controlar animais pré-históricos do Museu de História Natural, uma vez que ele conseguiu trazer à vida um dinossauro que estava apenas no ovo! De Paris ao Egito, ela vai aprontar confusões, envol­ver a polícia local, enfim, vi­ver uma grande aventura e fazer a plateia rir.

Grosso modo, é assim o fil­me dirigido pelo francês Luc Besson, também responsável por longas  como “Arthur e os Minimoys”, “Joana d'Arc”, “O Profissional”, “Imensidão Azul”.

Na Belle Époque, o espectador vai conferir que pouca coisa mudou na rue de Rivoli, uma das principais ruas de co­mércio da capital francesa e on­de também estão os espe­tá­culos de can-can. O rio Sena também faz parte do cenário, assim como os museus da cidade.

Uma das referências mais geniais da fita, aliás, é quando cita as pirâmides do Egito e aparece o Museu do Louvre, local onde, atualmente, existem pirâmides de vidro na frente e, quando foram ali colocadas, se tornaram motivo de críticas por ser uma obra de mal gosto.

Usando de bastante ironia, o jornal local aproveita para falar do tal réptil que saiu do Museu, mas o governo acredita que isso tenha sido feito para desestabilizá-lo. E o policial, ao invés de tomar as providências necessárias, atua como um verdadeiro funcionário público e só pensa em comer. Com narrações em off, há cenas engraçadas e personagens que tiram sarro da história, como quando se vestem de car­neiros...

Ainda que a busca incessante da protagonista sejam as tais múmias do faraó, o título do filme bem que poderia ter sido apenas traduzido do ori­ginal, ou seja, “As Extraor­dinárias Aventuras de Adèle Blanc-Sec”, que é justamente o que ele trata. Com efeitos especiais para trazer vida às mú­mias, o longa abusa dos diálogos, como um bom filme fran­cês. No entanto, ao espectador, uma dica: relaxe e aproveite. O longa de aventura é divertido, uma verdadeira sessão da tarde. Portanto, não espere um filme francês do “tipo cabeça”, mas pura diversão cheia de ironias.

domingo, 31 de outubro de 2010

Homens em Fúria

Tatiana Babadobulos

Homens em Fúria (Stone). Estados Unidos, 2010. Direção: John Curran. Roteiro: Angus MacLachlan. Com: Edward Norton, Robert De Niro, Milla Jovovich, Frances Conroy. 105 min.

Para contar a história de um presidiário que está tentando a sua condicional após cum­prir pena de 13 anos por encobrir o assassinato dos seus avós com um incêndio, o diretor John Curran (de “O Despertar de Uma Paixão”) escalou Edward Norton para viver o pri­meiro personagem, e Robert De Niro para ser o oficial escalado a conceder (ou não) a tal condicional. Só pela escalação do elenco, que inclui ainda Milla Jovovich e Frances Conroy, já vale o ingresso. No entanto, é um roteiro consistente e convincente (este escrito por Angus McLachlan) que faz falta no longa-metragem “Homens em Fú­ria” (“Stone”).

Na primeira sequência, o filme mostra imagens do passado e choca o espectador quando apresenta um rapaz e sua esposa que, cansada de viver no silêncio, pede o divórcio, mas ele ameaça matar a filha caso ela o deixe. Depois do chacoa­lhão inicial, porém, o espectador pode respirar aliviado, pois nada mais forte como aquilo será repetido ao longo dos pouco mais de 100 minutos de exibição.

Frequentador da igreja aos domingos, leitor diário da Bíblia e ouvinte de salmos no rádio, Jack (De Niro) é o policial que, embora seja devoto e que não tenha cometido nenhum crime, ainda não se convenceu que merece o “reino dos céus”. Ao contrário, porém, do prisio­neiro, Stone (personagem de Nor­ton e nome original do fil­me), que diz ter tido uma “epifania” e que se sente recuperado e pronto para voltar para casa e para os braços de sua esposa, a bela e sedutora Lucetta (Milla Jovovich).

A questão é que, depois da primeira entrevista entre policial e prisioneiro, os dois vão ter encontros cada vez mais frequentes e a esposa Stone será responsável por convencer Jack que seu marido está recuperado e em condições de receber sua liberdade condicional. Para tanto, como é possível de imaginar, uma vez que ela faz a típica mulher sexy e fatal, a moça vai usar de métodos, digamos, nada ortodoxos.

De acordo com as imagens, o espectador já sabe que marido e mulher estão tramando algo, ou seja, que o jeitinho meigo de Lucetta é, a princípio, arma­ção, e que ela está tentando enganar. Mas só não se sabe por quê. Ao final, o público irá cons­tatar que tudo foi em excesso, principalmente porque ela não é fiel nem ao marido nem ao policial.

A ideia do longa é boa e plausível. No entanto, um dos seus problemas é o excesso de clichês: o policial está prestes a se aposentar, mas prefere acompanhar alguns casos, incluindo, claro, o de Stone; tem extensa experiência no trabalho, mas vai cometer o deslize pouco antes de praticar, enfim, o golfe diário; ele é casado há mais de 40 anos, mas vai fazer besteira.

“Homens em Fúria” provoca o espetador o tempo inteiro e o faz pensar nas relações que uma cena tem com a outra. No entanto, ele não é bobo e, para ser enganado, precisa de justificativas plausíveis, e não de cenas soltas, que não se conectam e se mostram des-necessárias no decorrer da fita.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2


Tatiana Babadobulos

Tropa de Elite 2. Brasil, 2010. Direção: José Padilha. Roteiro: José Padilha e Bráulio Mantovani.  Com: Wagner Moura, André Ramiro, Maria Ribeiro, Pedro Van Held, Irandhir Santos. 116 min.


De cara, "Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outra", longa-metragem dirigido por José Padilha, já mostra a que veio. Tiroteio, perseguição e narrações em off de Nascimento (novamente vivido pelo ótimo Wagner Moura), que agora não é mais capitão do Bope, como era no filme anterior, mas sim coronel. É, ele, aliás, o alvo dos atiradores. Daí pra frente, ele mesmo vai contar ao espectador como foi parar lá e o que aconteceu no final desta história. É o momento de se acomodar na poltrona e se entregar às imagens da câmera de Lula Carvalho, novamente diretor de fotografia, e à montagem de Daniel Rezende.

À frente do comando, Nascimento usa a estratégia para combater o tráfico das favelas, e os caveiras, entre eles o capitão Mathias (André Ramiro), sobem o morro dentro do Caveirão ou de helicóptero, também com o intuito de impedir, inclusive, que policiais militares corruptos negociem com os traficantes e recebam propina. É aí que conhecemos a origem das milícias.

Se "Tropa de Elite" se passava no final dos anos 1990, "Tropa 2" é contemporâneo, cobre o arco de 2006 a 2010 e cita, durante várias sequências, que trata-se de ano de eleição e, portanto, não será possível abrir uma CPI, por exemplo, pois é um procedimento considerado por muitos como eleitoreiro. (Em nota, Padilha informa que não pertence "a nenhum partido, grupo polí­tico, agremiação, sindicato ou lista de apoio a candidatos".)

Agora separado da mulher (Maria Ribeiro) e pai de Rafael (Pedro Van Held), Nascimento vive só e em guerra com Fraga (Irandhir Santos), professor de história e defensor dos direitos humanos e tenta negociação durante rebelião em Bangu I. Outro problema com Fraga é que ele se casou com sua ex-mulher e faz a cabeça do filho para ir contra o pai. No entanto, se aproveitando da reblião e quando ganhou notoriedade mundial, Fraga se elege deputado e compra a briga com o Bope. Nascimento, afastado do Batalhão, passa a trabalhar como subsecretário de Inteligência. É quando ocupa o cargo que começa a entender que o problema com os traficantes e a polícia do Rio de Janeiro é muito maior e muito mais próximo da política que podia imaginar. A partir daí, percebe que é preciso ir contra o sistema se quiser, de fato, encontrar a solução.

Usando a câmera na mão, Padilha apresenta ao espectador imagens quase documentais da sujeira que é escondida embaixo do tapete quando o assunto é política. Com muitos tiros, perseguições e, vá lá, menos torturas que o filme anterior (as sequências que mostram "o saco" no primeiro são mais sufocantes que nesta produção), "Tropa de Elite 2" é violento, sim, mas nada que não seja tal como a nossa realidade.

Padilha mostra, mais uma vez, depois de "Ônibus 174" e "Tropa de Elite", que é, além de um brilhante e competente cineasta, um homem corajoso, e, ele próprio enfrenta o sistema, traduzindo em imagens de ficção (como avisa na abertura da fita) o que é a dura (e conhecida) realidade brasileira, mas que poucas pessoas têm coragem para expor, denunciar ou seja lá que nome tenha isso.

Por conta da pirataria do primeiro filme, desta vez a equipe decidiu não fazer cópia digital e os sete rolos de filme ficaram trancados em um cofre de banco. Hoje, já existe o filme para download, mas é daqueles gravados diretamente no cinema.

Segundo o Filme B, o longa-metragem já faturou R$ 40 milhões e mais de 4 milhões de pessoas assistiram ao filme até o segundo final de semana em cartaz. Os números fazem de "Tropa de Elite 2" a produção nacional mais vista do ano, à frente de "Nosso Lar" e "Chico Xavier".

Além do ufanismo, sentimento que obriga todos a prestigiar o cinema nacional, "Tropa de Elite 2" é indicação obrigatória e deve estar no repertório não apenas dos cinéfilos, mas de cada cidadão brasileiro.


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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

CONTOS DA ERA DOURADA



Antonio Carlos Egypto


CONTOS DA ERA DOURADA (Tales from the Golden Age). Romênia, 2009. Roteiro: Cristian Mungiu. Direção: Ioana Uricaru, Hanno Hoffer, Razvam Márculescu, Constantin Popescu e Cristian Mungiu. Com: Alexandru Potocean, Avram Birau, Diana Cavallioti, Radu Iacoban, Romeu Tudor, Tania Popa. 155 min.



Regimes opressores costumam produzir grandes restrições à liberdade, controles, censura e, sobretudo, medo. Mas também produzem perseguições tão absurdas que acabam por gerar piadas históricas ou lendas que se propagam.

Na ditadura militar brasileira, foram muitos os fatos que viraram folclore, tanto que Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, cunhou a expressão “o festival de besteiras que assola o país”, naquele período. Uma dessas me vem à mente agora: no afã de encontrar material subversivo nas repúblicas estudantis da turma engajada na luta contra a ditadura, livros sobre a “resistência dos materiais”, utilizados por currículos de engenharia e arquitetura, eram apreendidos como se fossem obras de marxistas que resistiam ao regime. Imaginem o que não deve ter acontecido durante o longo período do ditador Nicolae Ceausescu, que chefiou o regime comunista da Romênia, de 1965 a 1989.

“Contos da Era Dourada” apresenta seis histórias supostamente verídicas, que ilustram, na base do humor e do non-sense, o clima da chamada era dourada, ironicamente, o período dos últimos quinze anos do regime, que parecem ter sido os piores de toda a história do país.

Época em que a falta de comida e de dinheiro, aliada ao medo de serem flagrados por uma polícia que cumpria leis dracônicas sem pestanejar, produzia grandes absurdos, como tentar matar um porco num apartamento sem que ninguém notasse. Ou passar por fiscal de água e de ar para roubar garrafas vazias e, com elas, obter dinheiro para comprar um carro popular. Ou, ainda, roubar ovos de galinhas oficiais que eram transportadas por longas distâncias e cujo veículo não podia parar.

Seguir ordens irracionais de ativistas do partido ou representantes do governo à passagem de comitiva oficial por pequenos lugarejos, como arrebanhar ovelhas dos campos para expô-las na estrada ou pôr literalmente todos os habitantes da localidade a girar num tipo de roda gigante, são exemplos de situações que produzem comicidade um tanto involuntária. Há ainda o caso do excesso de zelo do fotógrafo oficial que acabou resultando numa foto de Ceausescu com um chapéu na mão e outro na cabeça.

O filme é muito simpático e divertido. Realizado a partir de roteiro de Cristian Mungiu, que é também produtor e diretor de um dos seis episódios da película. O seu talento já está comprovado nesta comédia e também no drama “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, brilhante trabalho cinematográfico que capta esse medo produzido pelo regime de Ceausescu, na situação de um aborto clandestino. E faz o melhor filme que eu vi sobre a questão do aborto, em que a ilegalidade produz um mal-estar insuportável, mas a tragédia, solução óbvia e fácil para o tema, fica de fora. Lá na Romênia ditatorial ou aqui no Brasil democrático, as coisas são similares na clandestinidade. Um filme, premiado em Cannes, que veio para ficar.

“Contos da Era Dourada” é menos pretensioso ou profundo, mas é um registro muito competente do clima cômico/opressivo das ditaduras mundo afora. Desmoraliza todas elas, à direita ou à esquerda, apostando no ridículo das histórias que elas são capazes de criar. E tudo é mostrado em baixos tons de ação, expressão, cor e som, o que faz o clima do filme totalmente convincente e produz sorrisos que passam pela consciência e pela reflexão.

É mais um produto inteligente e bem acabado do cinema romeno da atualidade, em que o nome de Cristian Mungiu se destaca, mas vários outros novos nomes da direção cinematográfica do país aparecem para o público brasileiro e mundial, num desses raros filmes de episódios que têm unidade.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

DOIS IRMÃOS



 Antonio Carlos Egypto   
                                               
                                             
DOIS IRMÃOS (Dos Hermanos). Argentina, 2010. Direção: Daniel Burman. Roteiro: Daniel Burman e Sergio Dubcovsky. Com Antonio Gasala, Graciela Borges, Elena Lucena, Rita Cortese. 105 min.


Daniel Burman, jovem diretor argentino de 37 anos, já tem uma carreira de destaque e êxitos cinematográficos, ao quais se acrescenta agora “Dois Irmãos”. Conhecido do público brasileiro pelos filmes “El Abrazo Partido”, de 2004, “As Leis de Família”, de 2006, e “Ninho Vazio”, de 2008, Burman dedica seu cinema a tratar de relações pessoais, sempre fortemente marcadas por laços familiares.

As relações de adultos jovens com a figura paterna são determinantes nos dois primeiros filmes citados. Por sinal, dois ótimos trabalhos que combinam drama, humor e diálogos inteligentes, na dose certa e são capazes de explorar com consistência os vínculos tratados e questões relativas à identidade.

Em “Ninho Vazio”. foram o avançar da idade e os novos desafios que a maturidade traz o foco abordado. E é o ninho familiar que fica vazio e muda o rumo das vidas de um homem e uma mulher que envelhecem.

No atual “Dois Irmãos”, o título já informa que ele permanece fiel à temática familiar. Marcos (Antonio Gasala) atinge a terceira idade com uma vida limitada, sem grandes realizações ou amores, à exceção da mãe, a quem dedicou fidelidade absoluta até o leito de morte. Sua irmã, Susana (Graciela Borges), é muito ativa, ocupada e agitada, sempre metida em negócios. Na verdade, é uma trambiqueira, que ganha dinheiro em operações de reserva de compra e venda de apartamentos de alto padrão, que ela sistematicamente despreza, para conseguir os melhores preços e os menores sinais possíveis. Sua relação com o irmão é de dominação e manipulação.

A relação entre ambos, como seria de se esperar, é de amor e ódio recíprocos. As cenas do filme vão esquadrinhando essa relação e explicitando com muita eficiência essa mescla de sentimentos que, na verdade, são as faces inevitáveis de um vínculo obrigatoriamente forte, como costuma ser o de irmãos.

Se ela acha que pode tudo junto ao irmão, ele precisaria do sonho para adquirir a coragem necessária para se expressar e se contrapor a ela. Mas tudo tem o seu limite e é aí que o conflito se acirra e se faz possível uma grande mudança. A humanidade dos personagens se amplia e as coisas se tornam mais complexas e muito mais interessantes. Estereótipos e preconceitos são superados e a realidade que emerge é muito mais rica, valorizando a diversidade humana, a busca da autonomia e o valor do desejo e dos sonhos na vida das pessoas.

O filme se baseia no romance de Sergio Dubcovsky, “Vila Laura”, em referência a um lugar no Uruguai, onde a maior parte da trama acontece. Diego é também roteirista do filme, em conjunto com o diretor.

Os dois atores principais são ótimos, realizam de forma efetiva personagens muito bem construídos do ponto de vista psicológico, com quem a gente se envolve e compreende suas ações, mesmo aquelas que nos parecem toscas ou cruéis. A trama é muito boa, as cenas contêm ótimos diálogos, mas a atuação dos protagonistas é excepcional, principalmente na capacidade de transmitir expressões e sentimentos muito claros, na ausência de qualquer palavra ou junto com elas.

sábado, 2 de outubro de 2010

TERRA DEU, TERRA COME

                         Antonio Carlos Egypto


TERRA DEU, TERRA COME. Brasil, 2009. Direção: Rodrigo Siqueira. Colaborou na direção: Pedro de Alexina. Com: Pedro de Alexina, Dona Lúcia, João Batista, Dolores, seu Pidrim Peçanha, Admilson, Geovani, Adilson, Nei, Edinho, Sineca e familiares do seu Pedro. 88 min.


Ao assistir um documentário, o que é que se busca? Conhecer ou refletir sobre uma dada realidade, atual ou histórica, próxima ou distante. Mas, em todo caso, aproximar-se de alguma forma da verdade. Aí é que é está o problema: o que é mesmo essa verdade documental?

“Terra Deu, Terra Come” é o vencedor do Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade”, 2010. Pois é, está aí a “verdade”, de novo. Será que é mesmo tudo verdade?

O diretor mineiro Rodrigo Siqueira estava envolvido com o universo de Guimarães Rosa e foi em busca do sertão mítico e profundo do autor. Encontrou o senhor Pedro Vieira, conhecido como Pedro de Alexina, de 81 anos, um dos últimos guardiães de tradições africanas e mineiras da região de Diamantina, vivendo em Quartel do Indaiá, comunidade remanescente de um quilombo, e partiu para a realização do filme.

Capaz de entoar os cantos conhecidos como vissungos, outrora ouvidos dos africanos nos trabalhos dos garimpos de Diamantina e utilizados em rituais fúnebres, coube a Pedro de Alexina dar o tom do que fazer e dizer e ciceronear o espectador, para fazê-lo imergir nesse mundo à parte.

O fio condutor principal era o cortejo fúnebre e enterro de João Batista, que teria vivido 120 anos. O sepultamento se dá após dezessete horas de velório, choro, riso, farra, reza, silêncios e tristeza. Com direito a gotas de cachaça, do gênero daquelas que o povo costuma dar para o santo.

Garimpeiro, descendente de escravos, conhecedor dos mitos e lendas da região, além dos vissungos, Pedro vai desfilando e encenando suas histórias, algumas do tempo em que “Cristo mais São Pedro andavam pelo mundo”. Nos ensina o que a morte é e as desculpas que arranjamos para entendê-la. E é claro que não poderiam faltar as histórias mais extravagantes dos diamantes enormes sumidos ou enterrados por aí, não se sabe onde.

Um mergulho no universo etnológico do garimpo de Diamantina, que remonta aos séculos XVIII e XIX. A essa altura, vocês podem estar perguntando: Mas será que isso segura um filme? Ou é coisa que possa interessar a alguém mais do que antropólogos ou historiadores? Foi algo semelhante o que pensou o diretor de fotografia, Pierre de Kerchove, inicialmente. Mas o filme vai muito além disso.

O que é e onde está a verdade? Mitos, contos e lendas são verdades, por certo. Contados ou encenados, nos remetem a dimensões de realidade distintas da experiência cotidiana. Mas até onde isso pode ir? Como se dá essa experiência? Como ela pode ser vivida e que relação tem com a ficção?

“Terra Deu, Terra Come”, o documentário, embaralha tudo e também pode ser visto como ficção ou até mesmo como farsa ou, ainda, como disse João Moreira Salles: “É uma trapaça maravilhosa”. De fato.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O SOL DO MEIO DIA

                     
        Antonio Carlos Egypto

O SOL DO MEIO DIA. Brasil, 2009. Direção: Eliane Caffé.  Com Luiz Carlos Vasconcelos, Chico Diaz, Cláudia Assunção, Ary Fontoura.  106 min.


“O Sol do Meio Dia” é a jornada de três personagens em busca de sua própria identidade e de um mundo para viver em paz.  Artur (Luiz Carlos Vasconcelos) procura se reinventar, após cometer um crime passional.  As profundezas do Brasil amazônico servem de cenário para sua viagem de reconstrução e redenção ao encontro de si mesmo e da superação da angústia em que vive, mascarada por um misto de gentileza, rudeza e destemor.

Matuim (Chico Diaz) é um barqueiro que transporta pelos rios amazônicos o que pode lhe valer alguns trocados, quando não está metido em confusões, pequenos negócios escusos ou tentando sobreviver de forma bufa. É cômico e trágico seu esforço para simplesmente continuar existindo.  Sua identidade parece estar na peruca que o provê de longos cabelos e que vive expondo suas vergonhas.  Uma espécie de Sansão atrapalhado, de cabelos postiços e poucas habilidades.

O que Artur e Matuim podem ter em comum, que os possa unir, ao menos temporariamente? A perda de referência e o caminho anárquico que percorrerão juntos, inicialmente na velha embarcação de Matuim, depois, em terra firme.

Ciara (Cláudia Assunção) é a terceira personagem da trama.  Frustrada pela “escolha” da filha pela prostituição, caminho de resto bastante comum em terras onde a pobreza e o machismo imperam, também erra pelo ambiente amazônico, em busca do seu espaço e do necessário afeto para viver.  É ainda relativamente jovem e bonita, pode reconstituir sua história a partir do ponto em que a filha a afasta de si e de sua atividade.

Esses três personagens vão percorrendo seus caminhos erráticos, em direção à cidade grande, Belém, no caso.  E acabarão por viver um estranho e desengonçado triângulo amoroso, cheio de idas e vindas, daqueles que se perdem mais do que se encontram.  Há drama e humor, mas tudo é seco, contido, até que venha a explodir.

Grandes atores dão contornos firmes e fortes a esses personagens e mantêm a atenção e o interesse pela trama.  Mas o que mais se destacou, para mim, foi a belíssima fotografia de Pedro Farkas, a utilização do claro escuro, das sombras, e o enquadramento das imagens.  É um trabalho a se apreciar com atenção

A diretora Eliane Caffé faz um filme poético, valendo-se dos cenários e paisagens da região amazônica e realçando os sons no tratamento dramático das situações, dispensando a música.  É uma película esteticamente superior à sua “Narradores de Javé”, de 2002, em que pese aquela história ser mais original e envolvente do que esta.

“O Sol do Meio Dia” foi rodado integralmente no estado do Pará, nos municípios de Belém, Castanhal, Vila Trindade, Vila Pernambuco e Rios.  Foi escolhido pela crítica da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, de 2009, como o melhor longa-metragem brasileiro ali apresentado.  E os atores Chico Diaz e Luiz Carlos Vasconcelos receberam prêmio conjunto de atuação masculina no Festival do Rio, de 2009.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

LÉO E BIA


                       Antonio Carlos Egypto


LÉO E BIA. Brasil, 2010. Direção: Oswaldo Montenegro. Com: Paloma Duarte, Françoise Forton, Emílio Dantas, Fernanda Nobre, Pedro Caetano, Pedro Nercessian. 97 min.


Oswaldo Montenegro, cantor e compositor da MPB, também já escreveu, dirigiu e produziu peças teatrais, entre elas, um musical que teve sucesso nos anos 1980: Leo e Bia. Agora, ele se aventura, como diretor e produtor de cinema, com “Léo e Bia”, o filme.

Trata-se de um grupo de sete amigos jovens, vivendo em Brasília, no auge da ditadura militar, em 1973. Ali, eles buscam montar uma peça de resistência à repressão política, que tece comparações entre Jesus Cristo e Lampião.

O filme se concentra todo nos ensaios do grupo, num galpão, sob a liderança de Léo (Emílio Dantas), e vai mostrando em paralelo os relacionamentos que se estabelecem entre eles e as influências externas ao grupo, que influem no trabalho. A maior e mais dramática delas, a que envolve Bia (Fernanda Nobre) e sua mãe (Françoise Forton), obcecada pela filha e figura opressora, que adoece.

A filmagem, num único espaço de ensaios teatrais, revela o “sufoco” em que viviam os jovens atores na cena cultural de Brasília daqueles anos, em que à aridez da temperatura local se somava a opressão da falta de liberdade que asfixiava a vida cotidiana.

Embora o espaço cênico seja totalmente despojado, fechado e único – não varie ao longo do filme -, a câmera se move, o espaço é explorado até em cenas duplas e evocando o que acontece fora de lá. Neste sentido, não é um filme teatral, embora seja um filme sobre teatro.

As músicas de Montenegro vão pontuando a história, a versatilidade dos jovens atores vai colocando movimento em cena e expressões emocionais intensas são apresentadas. Isso dá um dinamismo que contrasta com o claustrofóbico cenário da filmagem, alivia o clima e dá vigor ao filme.

“Léo e Bia” é ousado, ao encarar as dificuldades que este tipo de projeto apresenta e consegue um bom resultado com um tema que é específico e datado. Segundo a divulgação do filme, tudo foi feito com recursos próprios e sem qualquer patrocínio. Outra ousadia e uma raridade nos dias atuais, em relação ao cinema brasileiro. É uma produção modesta, obviamente também pelas circunstâncias citadas, mas nela se vê o empenho, a criatividade e a garra que também costumam caracterizar os grupos jovens que se dedicam de corpo e alma ao teatro alternativo.

sábado, 18 de setembro de 2010

BAARÌA – A PORTA DO VENTO



Antonio Carlos Egypto


BAARÌA – A PORTA DO VENTO (Baarìa). Itália, 2009. Direção e roteiro: Giuseppe Tornatore. Com: Francesco Scianna, Margareth Madè, Raoul Bova, Angela Molina e Monica Bellucci. 150 min.


Se o diretor italiano Giuseppe Tornatore não tivesse feito nenhum outro filme além de “Cinema Paradiso”, passaria para a história do cinema só por essa maravilhosa película. Ele fez muito mais coisas, por certo, ainda que não tenha voltado a acertar na mosca da mesma forma. Talvez fosse mesmo pedir demais.

Com “Baarìa”, porém, o cinema de Tornatore volta a crescer. É um projeto grandioso, um filme já concebido para ter grande importância e significado na vida do diretor, do cinema italiano em novo momento de crescimento e do espetáculo cinematográfico em geral. “Baarìa” é o nome pelo qual é chamada a cidade de Bagheria, que tem entre suas possíveis etimologias poder derivar de Bab el Gherid, que em árabe significa “A Porta do Vento”. Daí o título do lançamento brasileiro.

Baarìa, na província de Palermo, é a cidade onde nasceu Giuseppe Tornatore e onde viveu até os 28 anos de idade. O filme pretende prestar uma homenagem à sua terra natal e à sua família. É a saga épica de uma família siciliana, através de três gerações, a partir da década de 1930 até a de 1980. Passa, portanto, pela ascensão e solidificação do fascismo, a Segunda Guerra Mundial e a fome que dela resultou e a consequente paixão pela política, que envolve Peppino (Francesco Scianna). São os tempos das lendárias esperanças que o PCI (Partido Comunista Italiano) despertava. Mas do modelo soviético nas mãos de Stálin começam a surgir as dúvidas.

De toda maneira, foram tempos de muitas e decisivas convicções. Mudar o mundo era um imperativo. O militante comunista encontraria, por outro lado, as incompreensões e os preconceitos habituais, incluindo a velha história de que “comunista come criancinha”, que não deixa de ser citada no filme. Em momento já de maturidade, sua atuação será chamada de reformista. E ele explica ao filho o que é isso: “reformista é aquele que sabe que, ao bater com a cabeça no muro, você quebra a cabeça, não o muro”.

Peppino encontra a mulher de sua vida, Mannina (Margareth Madè), e ela terá de entender e acompanhar as lutas políticas do marido. Os jovens amantes buscarão a realização de seus sonhos, vivendo todas as dificuldades possíveis. Entre elas, a presença do crime organizado na história.

Cada cena é bem trabalhada e realizada com capricho, mesmo aquelas que tratam de coisas banais. Por exemplo, o filme começa com a corrida de um garoto para comprar cigarros para um adulto, em troca de uma moeda. A filmagem dessa cena já tem um caráter forte e intenso e servirá de base para a mudança de época ao longo da película.

De Cicco para seu filho Peppino até seu neto, Pietro, o filme é um relato dessa saga familiar em que as emoções afloram todo o tempo. Grandes paixões, alegrias e tragédias pontuam a história, que é também recheada de humor e poesia.

A reconstrução das diferentes épocas por que passa a trama do filme se faz por meio de uma estética cativante. Locações na Tunísia, segundo informa o diretor de arte Maurizio Sabatini, além de levar a belos lugares, apresentam uma série de analogias com Baarìa, como era no início do século XX. Ainda segundo ele, a construção dos cenários envolveu desafios à criatividade, para que se pudesse passar de uma época a outra em questão de dias. O resultado é amplamente convincente.

Os números divulgados relativos ao filme são todos grandiosos. Uma superprodução que levou 9 meses de preparação, 12 meses para a construção dos sets, 25 semanas de filmagens, envolvendo 122 locações, 2800 trajes, 63 atores profissionais, 147 não profissionais e 35.000 figurantes, 27 temas originais de música, sob a responsabilidade de Ennio Morricone para 210 personagens.

Não é apenas o fato de ser superprodução de alta qualidade o que importa. Mas é que se trata também de um trabalho que tem grande investimento afetivo do diretor. Um filme que evoca memórias, amores, sonhos e desilusões de personagens marcados pela cultura siciliana, mostrada sobretudo no comportamento intenso, histriônico dos seus habitantes e em que a intimidade é vivida de forma pública. A história dos personagens se funde com a história política da Sicília e, consequentemente, da Itália. Na medida em que o espectador se emociona com os muitos elementos constitutivos da saga e se maravilha com as imagens que a telona apresenta, vai aprendendo algo sobre a história política da Itália, ao longo de grande parte do século XX.

O filme é longo, são duas horas e meia de projeção, mas não dá para sentir o tempo passar, pelo envolvimento que se tem com personagens e situações tão próximas de todos, apesar das diferenças culturais, além da beleza que impregna toda a película. E a gente até quer mais. “Baarìa” foi um investimento de peso, dando suporte ao roteiro e direção de uma história pessoal e autoral de Giuseppe Tornatore. Compensou artisticamente o custo. É o melhor filme dele desde “Cinema Paradiso”, de 1989. 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O PECADO DE HADEWIJCH

Antonio Carlos Egypto

O PECADO DE HADEWIJCH (Hadewijch). França, 2009. Direção: Bruno Dumont. Com: Julie Sokolowski, Yassine Salime, David Dewaele, Karl Sarafis. 120 min.

Noviças podem ter muitas dificuldades para se adaptar à vida de orações, sacrifícios e simplicidade de um convento. Há ainda a considerar a perda da liberdade e os desafios da fé.

No filme de Bruno Dumont, a protagonista, vivida pela atriz Julie Sokolowski, não tem esse problema. Ou melhor, tem o problema oposto: é tão fanática, que leva os sacrifícios ao extremo, negando a própria existência do corpo. Não come, não se protege do frio, reza de forma compulsiva. Vive alheia a tudo que não seja o seu “casamento” com Cristo e a adoração de sua imagem em martírio.

A coisa, evidentemente, extrapola os limites. Até mesmo das freiras. A superiora acaba concluindo que é melhor que ela passe um tempo fora do convento, convivendo com o mundo exterior. As portas estarão sempre abertas para ela, mas algo precisa mudar. Quem sabe, ao se conectar com o mundo, ela possa temperar a alienação em que se coloca. Deve ter sido esse o pensamento da personagem da madre superiora. Bem, pelo menos é o que o espectador pensará, a partir do que o filme mostra até ali.

A agora cidadã Celine vai buscar o que no “mundo”? A amizade de um rapaz, ou vários, por que não? Mas não carícias, sexo ou amor. É de Cristo que ela precisa e sente falta. Fisicamente, até. Afinal, os hormônios estão lá. Deve caber a Ele satisfazê-la.

É bem estranha, mas muito interessante a caracterização dessa personagem, sua alienação e loucura. Porque procura revelar os meandros do que vai pela mente das pessoas fanatizadas pela religião. Vale dizer, por qualquer verdade absoluta.

Os fanatismos se aproximam e Celine vai conhecer o lado islâmico dessa história. Uma espécie de fanatismo que soará até familiar a ela. E daí se desenvolverá uma trama densa e pesada, mas muito consistente. E assustadora.

O diretor Bruno Dumont, de quem vimos “A Vida de Jesus” e “Humanidade”, põe o dedo na ferida do fundamentalismo religioso e suas relações com a doença mental. Mostra a que podem chegar esses excessos e também o que eles podem estar encobrindo. Os riscos estão aí, por toda parte.

Ele conta a sua história, com as personagens principais bem delineadas, deixando em suspense o que vai acontecer, dando tempo para que observemos as ações, os desejos, a solidão, o vazio. O diretor parece ter especial interesse pelas personagens que vagam sem rumo, as que estão perdidas pelo mundo, desencontradas ou sem saber o que buscar. Seus outros filmes exibidos por aqui vão nessa linha.

Em “O Pecado de Hadewijch” seu foco foi muito firme numa questão importante do nosso tempo, revelada por personagens intrigantes. É um trabalho que, sem dúvida, merece atenção. O filme recebeu o Prêmio da Crítica, no Festival de Toronto de 2009.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Nosso Lar

Tatiana Babadobulos

Nosso Lar. Brasil, 2010. Direção e roteiro: Wagner Assis. Com: Renato Prieto, Fernando Alves Pinto, Rosanne Mulholland, Inez Viana, Rodrigo dos Santos, Werner Schünemann, Clemente Viscaíno, Othon Bastos, Ana Rosa, Paulo Goulart. 102 min.

O que acontece depois que a gente morre? Uma das maiores dúvidas dos mortais é o que o livro espírita “Nosso Lar”, psicografado pelo médium mineiro Chico Xavier, pretende responder. E, depois de o cinema contar a história dele (e de a televisão exibir novelas e seriados sobre o assunto, como “Escrito nas Estrelas” e “A Cura”, para ficar nos atuais), chega aos cinemas o filme baseado no livro de André Luiz, médico que “ditou” sua expe­riência após sua morte.

O longa começa impactante: de forma não-linear, conta a história do médico que vivia reclamando dos atendimentos no consultório, e, após sua morte, acorda em um lugar sombrio, o tal lim­bo: nem no céu nem na Terra. Após ser resgatado com dor e sofrimento, André (Renato Prieto) é leva­do para o Nosso Lar, local onde recebe um tratamento e começa a entender o que aconteceu com seu corpo e sua alma após o último piscar de olhos “na carne”.

Embora a fita tenha a pretensão de ser didática ao público que não é familiarizado com o espiritismo, há muitas lacunas a serem preenchidas. Por outro lado, é maçante demais quando tenta explicar, como posso dizer?, o inexplicável.

Para diferenciar o mundo terreno do “plano superior” entram em ação os efei­tos visuais e a precária direção de arte, que faz a casa onde viveu o médico nos anos 1930 ser do século 19, e o tal plano superior mais moderno que qualquer episódio de “Os Jetsons”. Para essa dife­rença, aliás, há uma breve explicação: segundo Lísias (Fernando Alves Pinto), um dos responsá­veis por apresentar o Nosso Lar a André, tu­do começa antes neste plano e só depois, quando um reencarna, é que leva a memória para desenvolver algo bastante tecnológico, por exemplo.

Por falar em efeitos especiais, o longa brasileiro teve essas cenas desenvolvidas no Canadá, na Intelligent Creatures, mesma empresa responsável por filmes como “Fonte da Vida”, “Babel” e “Watchmen”. Embora alguns efeitos sejam bem-vindos, outros são grosseiros, como a criação de uma cidade inteira por computador, fazendo com que pareça falso demais, com o uso do chroma-key (fundo azul).

Além do limbo e do plano superior, há cenas nas quais o personagem vai “visitar” a família na Terra e ver como andam as coisas por lá, enviar um sonho, recados (como o caso do livro), receber mensagens através de orações e até ser visto por alguém durante a passagem de sua alma.

Uma das cenas interessantes e que podem ser aplicadas no nosso cotidiano é a água da paciência. Repare!

Ainda que a maioria dos atores seja desconhecida, há estrelas como Paulo Goulart, Othon Bastos, Werner Schünemann. O protagonista, Renato Prieto, emagreceu cerca de 18 quilos para viver o personagem, além de ter, juntamente com o restante do elenco e da equipe, passado por preparação na Federação Espírita Brasileira e de ter tido contato com o livro do médium.

Dirigido por Wagner de Assis (de “A Cartomante”), “Nosso Lar” é destinado a um público específico, ou seja, o espírita que, no mínimo, já se convenceu da ideia de que existe vida após a morte. Quem não acredita na história, não vai se convencer da produção. Nem adianta tentar.