sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Distrito 9

Tatiana Babadobulos


Parece um documentário, com depoimentos no início, bem ao estilo Michael Moore (de "Sicko - S.O.S. Saúde", "Fahrenheit 11 de Setembro", "Tiros em Columbine") de se fazer, mas, cerca de meia hora depois do início da fita, o diretor estreante no formato de longa-metragem Neill Blomkamp conta a história sobre os alienígenas que estão há 20 anos na Terra e, por algum motivo, não conseguem voltar para casa.


Com produção de Peter Jackson, responsável pela trilogia "O Senhor dos Anéis", nada poderia ter sido melhor para Blomkamp, que escolheu sua terra Natal, Johannesburgo (África do Sul), para ser o cenário de "Distrito 9" ("District 9"), o longa de ficção científica que conta na tela grande. Na trama, os alienígenas se tornaram refugiados por não conseguirem retornar para casa e foram alojados em barracos localizados no Distrito 9, enquanto as nações do mundo discutiam o que fazer com eles.


Contudo, quando o prazo já se esgotou (bem como a paciência das autoridades), a União Multinacional (MNU) precisa retirar os aliens a qualquer custo de lá. Eis que um agente, Wikus (Sharlto Copley), é destacado para convencer os ETs a deixarem o acampamento, até que contrai um vírus e é afastado de sua esposa, Tânia (Vanessa Haywood), principalmente porque seu pai, Koobus (David James), diretor da empresa, faz a sua cabeça e inventa mentiras a respeito do modo como o vírus fora contraído.


No filme, a história se alterna entre o que é ficcional e o que é, na concepção do diretor, ultrarrealista, visto que há misturas de imagens em estilo documental, imagens reais do noticiário local, além das imagens feitas com a ajuda do computador, como é o caso das criaturas, que no longa eles chamam de camarões. No entanto, o espectador pode jurar que se trata de algo verdadeiro, extremamente real.


Um ponto que faz a plateia achar isso é o fato de que, antes de rodar o longa, Blomkamp fez o curta-metragem no estilo documentário "Alive in Jo'burg", cujo cenário foi uma favela de Johannesburgo anos atrás. De acordo com o material de divulgação para a imprensa, o cineasta saiu às ruas com a equipe de filmagem para registrar as reações reais das pessoas, pois seus entrevistados entenderam que "alien" se tratava do conflito e da xenofobia existentes entre os cidadãos de Johannesburgo para com a invasão de imigrantes ilegais (na expressão em inglês, "illegal aliens", ou simplesmente "alien") vindos dos países vizinhos. Blomkamp diz que não tentou enganar as pessoas entrevistadas propositalmente. "Eu só queria obter as respostas mais reais e genuínas possíveis."


Filmes sobre ETs existem aos montes, há diversos exemplos no cinema e, cada criador, seja ele Steven Spielberg (de "ET – O Extraterrestre"), Roland Emmerich (de "Independence Day"), Ridley Scott (de "Alien") ou Barry Sonnenfeld (de "MIB - Homens de Preto") deu à sua criatura o aspecto como enxerga esses seres de outros planetas.


Pois bem, especialista em efeitos visuais, o diretor de "Distrito 9" levou às telas a sua visão pessoal acerca da vida extraterrestre. Ou seja, eles "não são atraentes, não são bonitinhos nem apaixonantes". Segundo Terri Tatchell, corroteirista ao lado do diretor, Blomkamp optou por um tipo de alienígena assustador, duro, quase um soldado.


Com direito a espaçonave e cenas grotescas que conseguem enojar o espectador no cinema, a discussão de "Distrito 9" vai além da bobagem de se fazer retratos bizarros de seres de outros planetas. Isso porque, nas entrelinhas (ou escancaradamente para o cinéfilo mais atento), a fita fala sobre a população que vive às margens, do preconceito de quem não consegue emprego, além, é claro, do Apartheid (a segregação racial sul-africana).


Para se ter uma ideia, o alien fala e entende a língua dos humanos, está sujeito às leis de onde vive (e pode, sim, de repente ser despejado do barraco ilegal), tem nome (o principal chama-se Christopher e é vivido por Jason Cope), tem filho (C.J.) e, para arrematar, pensa em seu povo antes de tudo, quando tem a oportunidade de recomeçar.


No final (calma, eu não vou contar), ao contrário dos filmes europeus, tem-se uma ideia do que vai acontecer mais pra frente (uma sequência, talvez?). O desfecho não é totalmente explícito, tal como nos filmes hollywoodianos, mas também não tão aberto como os europeus de um modo geral.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O CAÇADOR





Antonio Carlos Egypto


O CAÇADOR (Chugyeogja). Coréia do Sul, 2008. Direção: Na Hong-jin. Com: Yun-seok Kim, Jung-woo Há, Yeong-hie Seo, In-gi Jung. 125 min.

Um cafetão que começa a ver algumas de suas meninas desaparecerem acredita que elas estejam sendo vendidas. Descobre um número de telefone celular de um “cliente” por onde elas passaram, especialmente a última, que ele espera encontrar: Min-jin. E começa uma caçada com direito a muita correria (física, mesmo) e brigas, na base do soco e pontapé. Um “serial killer” que se vale de martelo, formão e outras ferramentas primitivas para matar. Tudo soa muito antigo, na moderna cidade de Seul, com seus carrões e celulares. O crime e a violência, sem dúvida, remetem ao mais primitivo do humano, aquilo que escapa ao controle... de si mesmo. E o que dizer do ataque de protesto em pleno mercado ao prefeito da cidade? A reclamação era referente à falta d’água, se não me engano. O fato é que a agressão se dá jogando merda no prefeito. Isso mesmo. Tem jeito mais primitivo (e infantil, também) de se expressar politicamente? Mas como desmoraliza! Movimenta a cidade a tal ponto que o tal assassino em série passa totalmente a segundo plano.

Os elementos aqui apresentados já mostram que o diretor sulcoriano, Na Hong-jin, lida com ideias, de um lado, originais, de outro, ambíguas, contrastantes. Isso vai permear todo o filme. Até aquilo que parece banal mostra contornos diferentes. A polícia como sempre é inepta, desde os filmes policiais “noir” franceses e norte-americanos. Humphrey Bogart cansou de viver personagens que fazem dos policiais gato e sapato. Aqui, então, é pior ainda. Os policiais não têm moral, nem mesmo para impedir uma surra dada por um ex-colaborador em um suspeito, em plena delegacia. Se eles são frouxos, a lei é mais ainda, não se consegue manter preso um assassino confesso se as provas materiais não aparecerem.

Este conjunto de circunstâncias naturalmente leva à perigosa noção da justiça com as próprias mãos, também muito cultuada por um certo tipo de cinema policial que vemos por aí. Mas, felizmente, não é bem essa elegia que “O Caçador” adota. Tudo realmente escapa ao controle, a justiça à margem da lei também, o que é realista e verdadeiro. A interrelação entre as histórias, a construção dos personagens, o estilo retrô das ações, em contraste com o moderno da trama e da filmagem, dão um sabor todo especial a essa aventura cinematográfica asiática. Até as cenas de violência, crueldade e sangue têm como contraponto uma encantadora e inteligente criança, que faz as coisas acontecerem. A relação dos adultos com a menina e o que vai se desenvolvendo também revelam aspectos surpreendentes, crus, do relacionamento humano, a que nem as crianças podem escapar. Sinal dos tempos, em que tudo parece estar um tanto fora do lugar e provocar estranheza, onde ninguém está tranquilo e a felicidade parece uma utopia distante. Não dá mais para ser ingênuo, acreditar nas pessoas, viver de modo otimista. O mundo se deteriorou a tal ponto que parece não haver saída. Que triste, não? Menos mal que o cinema ainda consiga oferecer entretenimento inteligente às pessoas, tendo de encarar tudo isso.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bastardos Inglórios

Tatiana Babadobulos

Quentin Tarantino não brinca em serviço. Depois que mostrou ao mundo "Pulp Fiction – Tempo de Violência" (1994), não se contentou e fez "Kill Bill", volumes um e dois, respectivamente em 2003 e 2004. Embora esses últimos tenham alguns fãs, não se trata de unanimidade quando o assunto é a idolatria ao diretor que chegou para quebrar a linearidade dos roteiros, além de utilizar a violência de forma estética inovadora, mostrando, também, que se trata de uma bizarrice sem noção.

Vale lembrar de "À Prova de Morte" (2007), que ainda não foi lançado oficialmente no Brasil, mas foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo daquele ano ao lado de "Planeta Terror", de Robert Rodriguez, filme capaz de mostrar essas características.

Tarantino viria ao Brasil para a divulgação de seu novo longa-metragem, "Bastardos Inglórios" ("Inglorious Bastards"), mas cancelou a viagem à última hora por se sentir cansado. Não é porque o diretor não veio que se deve deixar de lado a sua obra. A fita é uma obra-prima. Possui suas características principais, fazendo coro à forma como faz seus filmes, já que também é autor do roteiro. No longa, o espectador vai encontrar diálogos hilários, momentos históricos tristes, fantasia, sangue e morte nas quais muitas vezes não é possível encarar a tela do cinema.

O filme se passa a partir de 1941, ou seja, durante a II Guerra Mundial, em uma França ocupada pela Alemanha nazista, em busca de fugitivos judeus que se escondiam em casas de campo. Assim, até parece que você já viu esse filme. Mas como Tarantino não é um diretor convencional, ele tratou de mudar tudo e começou a contar a sua história dividindo a fita em capítulos. Eis, portanto, que se inicia com "Capítulo 1 – Era uma vez...".

Depois de ver sua família ser assassinada sob o comando do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz), Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) vai para Paris e, com um documento falso, assume a direção de um cinema. Lá, conhece um soldado alemão que quer fazer ali a avant-première de seu filme sobre a morte de milhares de judeus.
Em outra situação, no “Capítulo 2 –Bastardos Inglórios”, está o tenente Aldo Raine (Brad Pitt), que quer unir os judeus para fazer com os nazistas o que eles fazem com seu povo, ou seja: dar o troco na mesma moeda. Do interior dos Estados Unidos e com sotaque bastante evidente, Aldo e seu grupo, que é chamado de “os Bastardos”, se une à atriz alemã Bridget von Hammersmark (Diane Kruger) para derrubar os líderes do Terceiro Reich. 

Em outra situação, no "Capítulo 2 – Bastardos Inglórios", está o tenente Aldo Raine (Brad Pitt), que quer unir os judeus para fazer com os nazistas o que eles fazem com seu povo, ou seja: dar o troco na mesma moeda. Do interior dos Estados Unidos e com forte sotaque, Aldo e seu grupo, que é chamado de "os Bastardos", se une à atriz alemã (Diane Kruger) para derrubar os líderes do Terceiro Reich.

Ainda há o "Capítulo 3 – Noite Alemã em Paris", em 1944, e o "Capítulo 4 – Operação Kino", até que, de uma maneira que só Tarantino poderia fazer, todos esses personagens se encontram e,voilà: dá-se o clímax. É no "Capítulo 5" que acontece a première.

O galã Brad Pitt faz um personagem caricato, cheio de trejeitos estranhos. Mélanie Laurent merece destaque, pois consegue transmitir sua ira com relação aos nazistas de um jeito meigo e sedutor.

Quem se destaca, porém, é Christoph Waltz, que também faz um personagem caricato, pronuncia diálogos em francês, inglês e alemão com tom de deboche e muita ironia na maior parte do filme. O roteiro, claro, possui personagens reais, mas são os fictícios que entusiasmam o espectador, principalmente porque são eles que têm todo o sabor da fantasia proposta por Quentin Tarantino. Uma fábula que mistura o real e o irreal, que ninguém poderia contar melhor que o próprio diretor.

"Bastardos Inglórios" é um filme imperdível, que deve estar na lista de todo cinéfilo que se preze.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

HERBERT DE PERTO




Antonio Carlos Egypto


HERBERT DE PERTO. Brasil, 2009. Direção: Roberto Berliner e Pedro Bronz. Montagem: Pedro Bronz. Documentário. 94 min.

O cinema brasileiro tem mostrado grande vigor na produção documental. Bons trabalhos têm ajudado a resgatar situações, fatos e figuras históricas relevantes. Por meio dos documentários, estamos deixando de ser um país que não tem ou não valoriza sua história? Parece que sim. Tanto no cinema quanto na TV, os títulos disponíveis dão para todos os gostos e os trabalhos de qualidade se multiplicam.

Uma parte importante dessa produção de documentários tem se debruçado sobre a música popular brasileira, farta, rica e festejada mundialmente. Celebrar seus grandes talentos, sua história, figuras esquecidas ou menos divulgadas do que seria desejável são objetivos que estão sendo alcançados.

A música popular brasileira é de uma grandeza e diversidade impressionantes, num padrão de qualidade raro no mundo. E dispõe de alguns gênios absolutos, que povoam nossa história musical, como Noel Rosa, Tom Jobim, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Elis Regina, João Gilberto. Quem tem tudo isso, tem um filão inesgotável a explorar. Os documentários musicais podem facilmente se tornar um gênero permanente do nosso cinema.

Um exemplar desse gênero que chega agora aos cinemas é “Herbert de Perto”, um filme que focaliza a trajetória artística e a vida de Herbert Vianna e do grupo “Paralamas do Sucesso”, destaque do rock brasileiro dos anos 1980 e 1990. Um trabalho que alcançou grande repercussão, com um sucesso que apresentou altos e baixos nessas duas décadas, mas revelou uma turma que não esmoreceu, brigou pelo espaço, buscou alternativas no exterior, quando precisou, e se reinventou continuamente, capitaneada por Herbert Vianna. Ele sabia que a parada era dura e, até se subestimando, dizia, em 1987: “Minha autoconfiança é zero. Não me acho inteligente. Minha virtude é a capacidade de trabalho (...). Tenho uma capacidade de conquista muito grande” e, um tanto profeticamente, dizia que, se por acaso, tivesse de refazer sua vida inteira do zero, começaria outra vez e conseguiria tudo de novo. O acidente de ultraleve, em 2001, que matou sua mulher e o deixou paraplégico, não foi outra coisa do que este recomeçar e levou mesmo a uma nova conquista, como o trabalho dos Paralamas de 2005 viria mostrar.

O documentário, dirigido por Roberto Berliner e Pedro Bronz, dá conta de toda essa trajetória artística e com cuidado e delicadeza passa pela tragédia e recuperação do artista, incluindo cenas da reabilitação no Hospital Sarah Kubitschek de Brasília, o primeiro show para os internados do hospital e o processo de recuperação da memória, apresentando para o Herbert de hoje imagens do seu passado.

Roberto Berliner, o documentarista, é amigo e companheiro de Herbert desde o começo dos anos 1980 e foi registrando a trajetória dele e do grupo, a ponto de ter cerca de 250 horas de fitas brutas e material de arquivo. Isso lhe permitiu fazer uma edição rica e que dá conta dessa trajetória histórica, da figura humana e de seu drama maior, nos mostrando do Herbert dos primeiros tempos de Brasília e seu “Óculos” ao superador de obstáculos de hoje, que mal se reconhece na imagem dos velhos tempos.

Pedro Bronz faz uso de sua experiência como montador para dar conta de tão vasto material e consegue um equilíbrio muito bom, sem cair no didatismo nem no sentimentalismo.

Os diretores de “Herbert de Perto”, com efeito, conseguiram nos colocar cara a cara com um sujeito determinado e talentoso na sua agitada e dramática vida até aqui, com um respeito e uma elegância admiráveis. Já conheciam bem o personagem e sua história, especialmente Roberto, que já havia até produzido um documentário sobre ele para a TV, muito antes do acidente aéreo. Como testemunha ocular de toda a história e com farto material gravado e resgatado, foi possível construir agora um documentário de grande significado e amplitude sobre o homem e o artista Herbert Vianna e seus fiéis companheiros do “Paralamas do Sucesso” que, com uma dedicação imensa, contribuíram decisivamente para que essa história pudesse ter continuidade.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

LIVRO DE LUCIANO RAMOS INDICA OS MELHORES FILMES NOVOS



Antonio Carlos Egypto


Quem tem o hábito de escolher filmes para assistir em DVD precisa se informar sobre o que vale a pena alugar ou mesmo comprar e ter em casa para ver e rever. E isso depende, é claro, dos interesses e preferências de cada um. No entanto, sem informações adequadas, não dá para fazer uma boa escolha. Isso é menos importante quando se refere aos clássicos do cinema, os filmes representativos de sua história ou filmes antigos que a gente já conhece por ter ido ao cinema, lido ou estudado sobre eles ou conversado com outras pessoas. Enfim, o próprio tempo conta para que certas informações nos alcancem.

Já quanto aos filmes recentes, isso é um pouco mais complicado para quem não tem o hábito de acompanhar os lançamentos semanais nos cinemas, ler sinopses e críticas em jornais, revistas, Internet ou por meio do rádio e da TV. Por isso, é muito bem-vindo o livro “Os melhores filmes novos – 290 filmes comentados e analisados”, de Luciano Ramos, lançado recentemente pela Editora Contexto.

Luciano Ramos é um crítico de cinema com larga experiência e trabalhos relevantes na área. Fomos colegas dos tempos de universidade no curso de Ciências Sociais da USP, nos anos de chumbo da ditadura militar: final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Eu me encaminhei para as áreas de Educação e Psicologia, embora o cinema tenha sido uma paixão permanente. Mas, no caso do Luciano, o cinema foi o seu “métier” profissional desde sempre.

Aprendi muito com ele, acompanhando seu trabalho crítico em veículos como o “Guia de Filmes da Abril Cultural”, nas décadas de 1980 e 1990, onde ele didaticamente estabelecia os critérios para avaliar filmes e atribuir estrelas, e estruturava os verbetes com as informações essenciais que precisam constar quando se cita ou indica um filme. Destaco o seu trabalho inovador no vibrante Jornal da Tarde dos primeiros tempos. E sua atuação como programador de filmes das TVs Bandeirantes e Cultura, nesta última com análises e debates muito proveitosos para quem gosta de bom cinema.

Quem sempre viu muitos filmes, exercendo a análise continuada deles, só pode ser um bom guia na hora de escolher o que se deseja assistir. Nesta obra, para selecionar os melhores filmes, Luciano Ramos analisou cinco aspectos: argumento, roteiro, elenco, produção e direção. E agrupou os filmes em ordem alfabética, dentro de capítulos que correspondem às principais categorias: aventura, brasileiros, comédia, documentário, drama, fantasia, história e infantil. E quem comprar o livro terá como bônus quatro atualizações “on line” que analisam e avaliam os filmes lançados a partir de 2009. Com isso, o livro permanecerá atual por pelo menos mais dois anos, já que essas atualizações serão feitas semestralmente.

A escolha dos 290 títulos, entre os melhores e mais representativos lançados entre 2005 e 2008, foi obtida a partir dos 1879 filmes lançados no Brasil nesse período. Certamente, Luciano, se não conseguiu ver todos, se informou sobre todos eles. E fez uso dos seus critérios objetivos, além da sua subjetividade. Mas seu gosto pessoal envolve muita sensibilidade, aguçada pelos anos de dedicação ao ofício, e leva em conta o espectador médio, não é um trabalho para ser apreciado apenas por especialistas. É um guia, um orientador, para que a escolha cinematográfica possa ser a melhor e mais adequada aos objetivos que cada qual tem, quando decide ver um filme, seja no cinema, seja em casa.

Como ele destaca o que cada filme tem de melhor, fica mais fácil escolher o que mais se adequa ao que cada um busca, pelo menos naquele momento em que se dá a escolha do que assistir.

Há, ainda, no livro uma lista mais enxuta – a dos 100 melhores, ou seja, os imperdíveis do período. Um tiro ainda mais certeiro para quem quer se atualizar com o que passou recentemente e merece ser conhecido. A maior parte dessa lista não deverá despertar grandes discordâncias. Pode-se lembrar de algum filme que não figurou aí e talvez mereça. O mais provável, porém, é que a gente encontre alguns filmes que nos pareçam supervalorizados, ao vê-los na lista.

Certamente, alguns dos filmes citados não me entusiasmaram, eu os consideraria perfeitamente dispensáveis. Não são muitos, mas há. Isso remete ao gosto pessoal, a diferentes critérios de avaliação ou a outros fatores imponderáveis, até mesmo inconscientes.

O exercício da crítica e, sobretudo, o amor pelo cinema alimentam alegres discordâncias e paixões duradouras, nesta seara onde Luciano Ramos se movimenta com tanta desenvoltura.

sábado, 12 de setembro de 2009

UMA CANÇÃO DE AMOR



Antonio Carlos Egypto


UMA CANÇÃO DE AMOR (Les Chants des Marriées). França/Tunísia, 2008. Direção: Karin Albou. Com: Lizzie Brocheré, Olympe Borval, Najib Oudghiri e Simon Abkarian. 100 min.


“Uma canção de amor” é um título inadequado para o filme da diretora francesa (de origem judaica?), Karin Albou. Ele poderia ter sido chamado de “Canções de casamento” ou mesmo “As canções dos casados”, embora este último não seja bom em português. Pelo menos, estariam mais adequados a um filme que, por meio de duas jovens, aborda questões relacionadas ao afeto e ao casamento, ao mesmo tempo em que nos situa no contexto histórico e das diferenças religiosas na Tunísia, em plena Segunda Guerra Mundial.

As duas adolescentes, Nour e Myriam, uma muçulmana e outra, judia, convivem harmoniosamente, assim como suas famílias, no mesmo ambiente de moradia. São muito amigas e as diferenças de seus mundos mais as aproximam do que as separam. Como costuma acontecer, uma gostaria de ter o que a outra tem. A muçulmana Nour, por razões religiosas, não pode frequentar a escola e se desenvolver culturalmente como sua amiga e, é claro, gostaria de fazê-lo. A judia Myriam desejaria poder noivar e casar com quem ama, como está prestes a acontecer com sua amiga Nour.

Estamos na Tunísia, em 1942. O país é um protetorado francês, que só conquistará sua independência em 1956, mais de dez anos após o fim da Guerra Mundial. A França pode ser vista como opressora, principalmente pela comunidade muçulmana e por suas mulheres. Mas a França, a esta altura, está ocupada e os alemães invadem a Tunísia. Se, para os judeus, isto vai significar uma perseguição brutal e o fim de seu patrimônio acumulado, para os muçulmanos, os nazistas podem até parecer simpáticos, ao menos por algum tempo.

Em 1943, os aliados retomarão a Tunísia, mas até lá as duas amigas serão levadas a grandes mudanças de vida, que as colocarão em polos opostos. A amizade será posta à prova e precisará de muito empenho e confiança mútua para resistir a tal intempérie.

A vida das mulheres no judaísmo e no islamismo, nesse período histórico, na África muçulmana, no caso, sob o domínio francês (e, por um período, também alemão) será mostrada por meio da relação entre as duas amigas. E a narrativa conduzida por Karin Albou, ao assinalar as diferenças, acaba por sublinhar as semelhanças. As mulheres, tanto as judias quanto as muçulmanas, têm sua vida limitada e controlada, espaços reduzidos de ação e decisão, que as impossibilitam, por razões diversas, de alcançar a autonomia e a felicidade. Uma vida de sofrimento e opressão masculina, familiar, social e religiosa é o que as espera. As circunstâncias da guerra mundial servem para transformar o drama em tragédia, exacerbando os conflitos. Mas o destino, na realidade, não depende delas, embora, em algumas circunstâncias, possa caber a uma mulher a sorte de conviver com um homem bom que lhe coube aceitar e daí até nascer o amor. Mas é a roleta da sorte que determinará isso.

“Uma canção de amor” é um filme que trata das relações de gênero com um olhar feminino, sensível e competente. A diretora, em seu segundo longa-metragem, mostra-se capaz de abordar com sutileza e sem qualquer dose de moralismo ou de militância feminista a realidade da mulher que vive num mundo que a oprime e limita.

Ela já havia tratado da questão feminina na comunidade judaica de Paris, no seu primeiro longa “A pequena Jerusalém”, que agora pode ser visto em DVD. Num mundo onde a diversidade cultural, social e religiosa se impõe e exige que estejamos abertos a compreender e lidar com as diferenças, filmes como esses são importantes e atuais, mesmo que sua trama nos remeta ao distante 1942, como é o caso de “Uma canção de amor”. Mais do que um filme histórico, é uma película que nos ajuda a refletir sobre algumas questões fundamentais da atualidade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Longas de animação

Tatiana Babadobulos


O mercado de animação não para. “A Era do Gelo 3”, que estreou em 1º de julho, é o filme de animação mais visto nos cinemas de todos os tempos, além de ter superado “Titatic”, a maior bilheteria brasileira até então. Ao todo, o Brasil alcançou a marca de 9 milhões de espectadores, e somando cerca de R$ 80 milhões de arrecadação desde sua estreia (e até 18 de agosto).

Um dos motivos do sucesso parece ter sido a versão 3-D. Segundo o Filme B, 6,790 milhões de pessoas assistiram a “A Era do Gelo 3” em 2-D e 2,160 milhões, em 3-D, o que resultou em arrecadação R$ 50,57 milhões e R$ 28,24 milhões, respectivamente.

“A Era do Gelo 3” é dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, que começou como codiretor no primeiro filme, lançado em 2002. No segundo, em 2006, passou a dirigi-lo e, por consequência, dar mais destaque à sua criação, o esquilo Scrat, que continua tentando agarrar a noz, mas não apenas ela, uma vez que parece ter encontrado sua cara-metade.

Os outros personagens dos longas anteriores continuam, além de terem a companhia de novos, como os mamutes Manny (com voz de Diogo Vilela, na versão dublada) e Ellie (Cláudia Jimenez) esperam o nascimento de seu bebê; a preguiça Sid (Tadeu Mello) continua atrapalhada e engraçada, mas dessa vez ultrapassa os limites quando se apossa de ovos gigantes que vão dar origem a dinossauros; os gambás loucos por confusão Crash e Eddie; e o tigre dentes-de-sabre Diego (Marcio Garcia) começa a se questionar sobre sua capacidade de lutar, correr e de continuar convivendo com os amigos que agora estão vivendo em família.

Outra novidade é a doninha Buck (Alexandre Moreno), caçadora de dinossauros, que vive no mundo subterrâneo (onde moram os dinossauros), e acabam ajudando os personagens em sua missão.

Destaque para o bom humor do roteiro, uma vez que a história é capaz de arrancar boas (ou serão ótimas?) gargalhadas dos adultos também, além de uma trilha sonora impecável, com direito ao clássico de Lou Rawls "You'll Never Find Another Love Like Mine", "Alone Again (Naturally)", de Gilbert O' Sullivan, além de canções compostas por John Powell, como o tango "You'll Never Tango".

O longa-metragem, aliás, chega em DVD a partir de 30 de setembro. Imperdível.


Outra animação que está conquistando os espectadores é “Up - Altas Aventuras”, que se tornou a maior bilheteria de abertura (de 4 dias) de um filme da Disney-Pixar no país. O décimo longa-metragem do estúdio ficou em primeiro lugar no ranking, levando 525.505 espectadores aos cinemas e somando a renda de R$ 5.672.268. Em número de espectadores, o filme atingiu o terceiro lugar entre os longas de animação da Disney-Pixar no país, atrás apenas de "Os Incríveis" e "Procurando Nemo".

As 75 salas 3-D onde a fita foi exibida foram responsáveis por 40% do total de ingressos vendidos e 51% do total da renda. Os cinemas com projeção em 35mm, 243 salas, ficaram com 60% do total de público e 49% do total de bilheteria.

“Up - Altas Aventuras” é o primeiro longa-metragem da Pixar a ser lançando em 3-D e foi a primeira animação a abrir o Festival de Cannes, em maio deste ano.  A animação conta a história de Carl Fredricksen (dublado em português por Chico Anysio), um vendedor de balões de 78 anos que começa a lutar contra os investidores por conta da casa onde sempre morou. Isso porque eles querem comprá-la para construir mais um edifício no local.

Contudo, Carl é sentimental demais para ceder à pressão do capitalismo. A casa que conserva foi cenário do ninho de amor que construiu ao lado de Ellie, sua paixão desde a adolescência, pessoa com quem compartilhava os sonhos de aventura de um dia, enfim, conhecer as Cachoeiras do Paraíso, na América do Sul. 

Tal como a animação "Wall-E" (lançada em 2008), que pode ser classificada também como ficção científica e comédia romântica, a trama de “Up - Altas Aventuras” começa como romance, mas logo após a primeira parte vira drama. É quando Ellie adoece e morre, deixando Carl desolado, mas ao mesmo tempo com forças para colocar em prática o seu sonho de voar.
A partir de então, o longa-metragem de animação criado por Pete Docter (o mesmo de "Monstros S.A.") passa a ser uma aventura liderada pelo velho, que resolve o problema de tirar a sua casa do terreno cobiçado pelos investidores ao amarrar milhares de bexigas nela e fazê-la flutuar, tal como se estivesse, de fato, dentro de um balão.

Pouco antes de ele ter essa brilhante ideia, porém, bate à sua porta um menino de oito anos, Russell, que se diz explorador da natureza e, portanto, quer ajudar o idoso a atravessar a rua, cortar a grama do seu jardim, o que for, a fim de ganhar mais um distintivo em seu colete. A maior descoberta de Carl é que, assim que a casa parte para os ares, alguém bate novamente à sua porta e pede para entrar.

Embora ele seja ranzinza e reclamão (os trejeitos e os sons que emite em protesto, aliás, lembram os mesmos resmungos de Clint Eastwood, em "Gran Torino"), e prossiga vivendo de lembranças, já que Ellie continua presente – nas fotos colocadas nas paredes e nas estantes da casa, no caderno onde escreve desde criança as suas aventuras, na poltrona onde costumava se sentar –, inclusive em termos musicais, já que a trilha sonora que se repete quando ela aparece subliminarmente como personagem do filme, sua vida dá uma guinada e, no caminho da aventura, enfrenta o mal e seus próprios defeitos, conhece gente nova, convive com o garoto que poderia ser o neto que nunca teve, faz amigos bichos, como o cachorro falante Dug e o pássaro gigante Kevin. 

Com a utilização da técnica tridimensional para construir a animação, é possível observar os avanços do estúdio na construção dos personagens, da riqueza de detalhes dos pelos, das peles, das roupas etc. E também do 3-D, que com a utilização dos óculos especiais é possível perceber alguns elementos saltarem da tela, mas o espectador tem principalmente a ilusão de profundidade nas cenas aéreas, que são deslumbrantes e contam com cenários incríveis. 

“Up - Altas Aventuras” não é o melhor filme da Pixar, no entanto, há de se dizer que se trata de uma produção bem-feita, que utiliza alta tecnologia para o desenvolvimento dos personagens animados por computador, com senso de humor peculiar, principalmente por conta do humor ácido do protagonista que se contrapõe à inocência da criança, e conta uma história emocionante do início ao fim.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Os Normais 2

Tatiana Babadobulos

O maior lançamento nacional, em número de cópias (400 no total), "Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas" estreou nos cinemas brasileiros na sexta-feira, dia 28 de agosto, e liderou o ranking do fim de semana nas bilheterias brasileiras. Ao todo, segundo o Filme B, o longa-metragem sobre as histórias de Rui e Vani rendeu R$ 3,5 milhões e foi visto por 361 mil espectadores.

Na fita, os personagens principais, vividos por Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, aparecem em cena cantando e dançando "Livin' La Vida Loca", de Ricky Martin, enquanto os créditos aparecem. Eles estão em um karaokê e, na sequência, brigam. Assim, os dois dão continuidade ao enredo que se passa em uma noite (daí o subtítulo do filme), pois percebem que o noivado que já dura 13 anos está morno e ambos querem dar uma aquecida no relacionamento fazendo um "ménage à trois" (relacionamento sexual entre três pessoas).

A partir daí, eles começam a procurar a terceira pessoa que poderia participar do grupo. A primeira é Drica Moraes, que faz o papel da prima de Vani, que talvez topasse a brincadeira. E depois há outras, como Danielle Suzuki, que virou bicampeã de kickboxing (e não bissexual); Claudia Raia, como uma perua mal-humorada, mas que os convida para conhecer sua banheira de hidromassagem; Mayana Neiva, a francesa que está procurando uma ménagère (ou seja, uma faxineira); Alinne Moraes, como uma prostituta.

A narrativa é bem parecida com o que seria um capítulo estendido (tem menos de 80 minutos), a não ser a pronúncia de muitos palavrões pelos atores e cenas de mau gosto, como quando começam a bater em uma idosa no meio da confusão (ainda que seja uma cena ingênua).

Com orçamento de R$ 5 milhões divididos entre a Globo Filmes e a Imagem Filmes, a expectativa é que a bilheteria seja parecida com o primeiro filme, por volta de três milhões de espectadores. Caso o sucesso seja atingido, há planos de voltar com o seriado para a televisão, além da terceira sequência. Outra negociação é a Globo que está fazendo diretamente com a Sony americana, que pretende vender o formato para o prime time (o horário nobre deles).

Com o sucesso das comédias nacionais no ano, como "Se Eu Fosse Você 2", "A Mulher Invisível", "Os Normais 2" tem o seu lugar cativo. Porém, prepare-se para dar duas ou três risadas e conferir uma fórmula desgastada, embora a química e o timing para a comédia dos atores continuem ótimos.

domingo, 30 de agosto de 2009

O ANTICRISTO DE LARS VON TRIER

Antonio Carlos Egypto 

ANTICRISTO (Antichrist). Dinamarca, 2009. Direção: Lars von Trier. Com: Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg. 110 min

. O diretor dinamarquês Lars von Trier é capaz de transmitir por imagens sentimentos intensos, descontrole, loucura. Com “Anticristo”, isso fica mais uma vez evidenciado. Dividido em várias partes, o filme começa de forma brilhante: uma cena de sexo com direito até a lances explícitos nos revela o prazer do casal, enquanto, simultaneamente, imagens de uma criança, seu quarto e brinquedos servem de contraponto. Os vidros da casa revelam a natureza e a neve que cai lá fora. Não há sons da cena que se passa em ritmo lento e o que se ouve é uma ótima interpretação de “Lascia ch’io pianga”, de Häendel. Presenciamos uma tragédia que se contrapõe ao amor, mas tudo nos é mostrado com bom gosto e em primeiros planos belíssimos. Ao longo do filme, não faltarão outras imagens não só bonitas como fortes e expressivas, como algumas da floresta, inclusive a do cartaz do filme, que tem um enquadramento perfeito. Animais diversos em partos (abortos?) expostos surpreendem, sem chegar a chocar. A natureza hostil é mostrada em imagens que valorizam o seu papel na trama do filme. Os segmentos “luto” e “dor” pesam, são sofridos, mas a gente consegue viver, sentir e se envolver com o luto que a mulher vive em estado absoluto. E compartilhamos sua dor de forma intensa por meio das imagens. O contraste com o pai/marido/terapeuta é de uma estranheza total, mas também aí se pode viver uma racionalidade que não tem como se sustentar. Até então estamos diante de um filme extremamente sofrido, incômodo, porque nos faz viver o que queremos evitar, mas inegavelmente muito bem construído. A partir da quarta parte, “desespero”, tudo começa a se tornar penoso demais e extrapolar os limites do bom senso e do tolerável. Não que ele não consiga nos imergir uma vez mais no que deseja: o desespero é mesmo desesperador. Mas também apela para o caos e para explicitar horrores inteiramente desnecessários de serem mostrados. Quem resiste a cenas de mutilação genital, não é mesmo? Assim como eu, creio que a maioria dos espectadores vai desviar o olhar da tela, fechar os olhos ou fazer cara de asco em vários momentos de “Anticristo”. É preciso ser sádico ou insensível para apreciar aquelas cenas. Claro que Lars von Trier queria produzir repulsa e conseguiu. Só que a partir daí o filme se perde, enveredando pelo terror puro e simples que invalida a construção anterior. O diretor falou em purgar uma profunda depressão que viveu, que fez seu melhor filme e, provocativamente, afirmou, em Cannes, ser o melhor cineasta do mundo. O seu marketing é a polêmica e isso o faz estar sempre em evidência. Não gosto do seu estilo de ser e de se comportar, mas reconheço o talento do diretor. Só que dessa vez a provocação tomou conta do filme e destruiu uma obra cinematográfica que poderia ter sido notável se tivesse mantido o foco nos meandros do mundo emocional, tão rico e complexo, e dispensasse monstruosidades inócuas de filmes de terror. Para quê? Inovar no gênero? E que tipo de inovação seria essa? Se fosse para brincar, ou simplesmente assustar, não seria esse o tom a adotar, certamente. Lars von Trier pode ter sofrido pessoalmente, não sei, mas querer elaborar isso na tela, vomitando excessos na platéia, não faz sentido e não leva a lugar nenhum.



terça-feira, 25 de agosto de 2009

O MILAGRE DE SANTA LUZIA


Antonio Carlos Egypto

O MILAGRE DE STA. LUZIA. Brasil, 2008. Direção e roteiro: Sérgio Roizenblit.
Documentário. 104 min.


“O Milagre de Sta. Luzia” não é um filme religioso, nem sobre a sociologia das religiões, mas uma viagem pelo Brasil que toca sanfona.

Como é que é? E que milagre é esse, então? É que no dia de Santa Luzia – 13 de dezembro – nasceu Luiz Gonzaga (1912-1989), cantor e compositor de inúmeros clássicos da música popular brasileira. Basta citar “Asa Branca”, em parceria com Humberto Teixeira, que todo mundo conhece e sabe cantar. Luiz Gonzaga, que recebeu a alcunha de “Rei do Baião”, foi um grande músico que difundiu e popularizou a sanfona pelo nordeste e por todo o Brasil, dando nova importância e dimensão ao instrumento.

Mas o filme também não é sobre Gonzagão (ele passou a ser conhecido assim depois que seu filho, também cantor e compositor, se tornou famoso, o Gonzaguinha (1945-1991). “O Milagre de Sta. Luzia” é, na verdade, sobre o legado de Luiz Gonzaga, representado aqui por Dominguinhos, seu afilhado e colaborador.

Dominguinhos é hoje o mais importante sanfoneiro brasileiro, também cantor e compositor de muitos sucessos, como “Eu só quero um xodó”, “De volta pro meu aconchego”, “Isso aqui está bom demais”, “Quem me levará sou eu” e “Lamento sertanejo”. É com Dominguinhos que essa viagem ao país da sanfona acontece, em sua tradicional caminhonete, em que ele costuma percorrer o Brasil, em sua vida de artista que não entra num avião há trinta anos.

Com Dominguinhos, o filme explora o nordeste que, por meio de Luiz Gonzaga, consagrou a música regional e a sanfona, busca contato com grandes músicos de Pernambuco, como Arlindo dos 8 Baixos, Camarão, Pinto do Acordeon, encontra um grupo de vaqueiros que lhe dedica versos improvisados e vai a João Pessoa, na Paraíba, para encontrar o grande Sivuca, um mês antes do seu falecimento. Resgata-se uma bela poesia do também finado e saudoso Patativa do Assaré e belas cenas da paisagem nordestina e do sertão enchem a tela de beleza, de um trabalho fotográfico impecável, ao qual se agregam movimento e agilidade.

Quando chega a vez do Pantanal matogrossense e seus grandes sanfoneiros, a paisagem fica ainda mais deslumbrante e movimentada. Destaque para o longo voo de duas araras azuis, acompanhado pelas câmeras até o seu pouso. E a música de Dino Rocha e Elias Filho destaca as diferenças do toque da sanfona do centro-oeste.

Chegam ao Rio Grande do Sul, de ricas tradições no toque peculiar da sanfona, ou melhor, a gaita, como ela é chamada por grandes músicos, como Renato Borghetti, Gilberto Monteiro, Bagre Fagundes e outros mais. E as paisagens verdejantes, cheias de gado gordo gaúchas, passam pela tela identificando Porto Alegre, Bagé e Santana do Livramento.

São Paulo também tem seu acordeon caipira e um dos maiores representantes do instrumento, o popularíssimo Mário Zan, aparece no filme, vindo a falecer pouco tempo depois. Campeão de vendas de discos, trilha musical obrigatória das festas juninas e autor de sucessos como “Festa na roça” e “Pula a fogueira”, contribui com sua presença para um resgate importante de figuras proeminentes da história da sanfona, que é um verdadeiro milagre que o filme realiza. Ao lado de Mário Zan, aparece Oswaldinho do Acordeon e há jovens que imprimem à sanfona um tom jazzístico, como Gabriel Levy e Toninho Ferraguti. As vias e edifícios que compõem a paisagem urbana paulistana também estão presentes.

Tudo isso é feito com uma montagem inteligente que dá permanente interesse e agilidade ao filme, muito bem conduzido por Sérgio Roizenblit. O diretor começou o trabalho que deu origem ao “Milagre de Sta. Luzia” ainda em 2001, para o projeto Memória Brasileira, de Myriam Taubkin, que incluía o “Brasil da Sanfona”, uma série de shows realizados pelo SESC/SP, que se transformou em DVD e tinha depoimentos de sanfoneiros e poetas. O êxito foi muito grande e daí surgiu a idéia de realizar esse longa-metragem, cujo resultado é digno do nosso entusiasmo e aplauso. Não só pelo resgate musical com a importância que ele tem, mas também porque ousa mostrar um Brasil cheio de beleza, felicidade e musicalidade, em diferentes regiões, que é uma verdadeira homenagem ao nosso país.

domingo, 23 de agosto de 2009

CINEMA LATINO-AMERICANO NAS TELAS

Antonio Carlos Egypto

O cinema argentino já conquistou bom público no Brasil e isto não é mais novidade. Há uma mostra do novo e do novíssimo cinema argentino no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. Vale a pena conferir.

Em sessões regulares nos cinemas, temos boas novidades. “A Teta Assustada”, que vem do Peru, e “Gigante”, do Uruguai, exibem fôlego para mostrar que nem só de Brasil, Argentina e México vive o cinema latino-americano.


A TETA ASSUSTADA (La teta asustada). Peru, 2009. Direção: Claudia Llosa. Com Magaly Solier, Susi Sánchez, Efrain Solis, Marino Ballón e Antolin Prieto. 95 min.

A cinematografia peruana é escassa e raramente chega até nós. “La Teta Asustada”, em compensação, vem com nada menos que o Urso de Ouro no Festival de Berlim. As marcas da luta política e do terrorismo deixam saldos imprevistos. As mulheres são vítimas de estupros e desenvolvem uma rara doença que se transmite pelo leite materno: a teta assustada. Faz sentido? Por que não? Realisticamente falando, tal doença não existe, especialmente com transmissão pelo leite. Mas essa pode ser uma doença da mente, do espírito, do desencanto com a vida e com os homens.

A protagonista, a bela Fausta (Magaly Solier) ainda estará às voltas com o cadáver insepulto da própria mãe que lhe passou a tal doença e exibirá ao longo de todo o filme uma depressão que beira a catatonia. É uma mulher dilacerada pela perspectiva do estupro iminente e inevitável. Quem sabe uma batata poderá salvar-lhe a honra... Num ambiente de grande pobreza e que dá muito valor às cerimônias de casamento, ela vai suportando a vida sem esperanças.

O filme mostra esse quadro e nos remete à realidade social do país e suas marcas, sem se ancorar no realismo e também sem adotar a forma fantástica, pura e simplesmente, mas sendo uma forte alegoria expressiva, com cenas que nem sempre completam um todo, mas são cheias de significado.

O contraste entre a vida da patroa e a da empregada que precisa enterrar dignamente sua mãe é mostrado por ambientes opostos: com muita vida e movimento na pobreza; em grandes espaços, tempos mortos e pérolas que se espalham e se contam na casa dos ricos. O medo do estupro se encontra com o medo que se esconde sobre muros e portões que deixam o povo lá fora. A incapacidade de relacionamento que se constrói sobre a ferida deixada pelos estupradores de um passado recente, a crença no poder das almas dos mortos, tudo isso compõe um painel expressivo que surpreende, embora a trama central fique evidenciada desde o início do filme. Difícil ficar indiferente a essa “Teta Assustada” da diretora Claudia Llosa.



GIGANTE (Gigante). Uruguai, 2009. Direção: Adrián Biniez. Com Horácio Camandule, Leonor Svarcas, Fernando Alonso, Diego Artucio e Fabiana Charlo. 90 min.

Após o ótimo “Whisky”, nos chega do Uruguai este “Gigante”. E quem é o gigante? Jara (Horácio Camandule), um homem gordo, forte, tímido e infantilizado, que trabalha como segurança em um supermercado, com direito a complementos na segurança de casas noturnas. Apartar brigas ou evitar roubos, controlando o comportamento dos empregados do supermercado, por meio de câmeras, é tudo o que ele faz, quando não está jogando videogames, vendo TV ou fazendo palavras cruzadas.

E quando ele começa a se encantar com uma faxineira no trabalho como haverá de se comportar? Ele não sabe o que fazer, mas procura segui-la e usa o poder que tem sobre a câmera, que vigia todos.

O assunto é banal, ainda que dê margem a alguma discussão sobre o quanto estamos controlados pelas câmeras na contemporaneidade. Mas é da fragilidade humana desse personagem, de seus tempos longos de observação, hesitação e dúvida, que se alimenta o filme, que acaba se tornando intrigante e um tanto misterioso e que seduz pelo minimalismo e pela simplicidade. Em tempos de overdose de ação e efeitos especiais em profusão, é um contraponto cinematográfico muitíssimo interessante.

“Gigante” também foi premiado em Berlim, com o Urso de Prata (grande prêmio do júri).

terça-feira, 18 de agosto de 2009

AGOSTO NOS CINEMAS

Antonio Carlos Egypto




Agosto para nós é inverno, onde imperam as gripes e resfriados. Este, então, trazendo uma nova e preocupante gripe, que até adiou o tradicional início das aulas do 2º semestre do ano.

Agosto é, portanto, hora de retomar os estudos, fim das férias. E agosto é, ainda, um mês cheio de desgraças na nossa história política. Na contramão desses sentimentos pouco animadores, o cinema nos brinda com dois belos filmes sobre o mês de agosto, vindos da Europa, onde o verão esquenta os corações e põe as pessoas na rua, em festas e comemorações.


ALMOÇO EM AGOSTO (Pranzo di Ferragosto). Itália, 2008.
Direção: Gianni Di Gregório. Com Gianni Di Gregório, Valeria di Franciscis, Marina Cacciotti, Maria Cali, Grazia Cesarini Sforza. 75 min.

É num feriado tradicional de 15 de agosto que se situa “Almoço em agosto”, uma reconfortante comédia, afetiva e otimista, que propõe que aquilo que parece ser um grande problema pode acabar se tornando uma solução. Tudo depende de como a gente encara a vida e como se desincumbe das surpresas que ela nos coloca.

Gianni, o personagem, ator e diretor do filme, vive na penúria com sua mãe já bem idosa, que nem sequer se dá conta do quanto exige dele, apesar de ser uma figura gentil e educada. Ele não consegue, não pode ou não quer trabalhar e as dívidas se acumulam. É essa circunstância que dará margem à situação de multiplicar as mulheres idosas que estarão ao seu cuidado no tal feriado e que acabarão por ser não mais a multiplicação dos problemas, mas a sua solução. Quem poderia imaginar? A receita envolve dedicação, espírito de sacrifício, capacidade de lidar com afetos e, sendo um filme italiano, é claro que a boa comida, uma bela massa, um peixe saboroso, vão fazer toda a diferença.

Tudo é mostrado com singeleza e sem escamotear os conflitos. Ao contrário, eles são explicitados e, apesar de pequenos, suficientemente angustiantes para a situação. Harmonizar mulheres idosas com suas manhas e manias, num mesmo ambiente, sem que tudo desmonte, exige habilidade. Não é uma situação fácil, nem simples de lidar. Basta lembrar questões de saúde, como a administração de remédios, bem como dietas ou restrições alimentares, inevitáveis nestas personagens. Elas são, porém, gente muito capaz de usufruir da vida e isso acaba sendo muito mais importante do que as limitações da idade. Cada uma, à sua maneira, vai se revelando ao longo da narrativa. E o filme, oportunamente adequado nos seus 75 minutos de duração, nos brinda com um humanismo que tem estado pouco presente no cinema contemporâneo, que vai da descrença ao ilusionismo com muita facilidade nos dias complicados em que estamos vivendo.


AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO. Portugal, 2008.
Direção: Miguel Gomes. Com Sonia Bandeira, Fabio Oliveira, Joaquim Carvalho, Andréia Santos, Arnaldo Nunes. 147 min.

Em agosto, no interior de Portugal, em meio às montanhas, o mês se enche de atividades. Muita música, dança, fogos de artifício, gente que se atira das pontes, caça javalis e bebe cerveja. Comemora-se o verão com muita festa, gente por todo o lado, muitas paixões aparecem e sempre alguma excentricidade.

É esse clima de festividade que “Aquele querido mês de agosto” compartilha com os espectadores. Trata-se de festas populares e nem sempre a música é de boa qualidade, mas a alegria é permanente e contagia.

Aí se dará o trabalho de uma equipe cinematográfica que, querendo captar todo esse clima, quer contar uma história de amor e, para isso, precisa encontrar tanto os personagens como os atores e até a própria história.

Desta mistura entre o que se documenta e a ficção que se prevê, surge um filme que se insere na festa como algo inevitável, a que ninguém conseguirá opor resistência. A história de ficção está de alguma forma dada por figuras de uma banda musical e, a certa altura, já não se sabe o que é componente indissociável das festividades e o que é encenação cinematográfica. A verdade é que pouco importa, no fluir da festa a vida se impõe, por vezes estranha, bêbada ou tresloucada, mas é em busca de sensações alimentadas pela música popular que o povo se alegra e se permite viver os seus prazeres.

Como espectadores, testemunhamos tudo isso, conhecemos uma parte da música e das danças populares de Portugal que não costumam chegar por aqui e nos regozijamos com a vida que transborda da tela. Belo exemplo de cinema que nos dá Portugal, do grande mestre Manoel de Oliveira, com seu conhecimento e sua erudição admiráveis. Mas nem só dele vive o cinema português, nem só de uma melancolia que tradicionalmente invade os ares lusitanos. Miguel Gomes nos traz a beleza das tradições da festa e dos caminhos que entrelaçam documentário e ficção, neste empolgante “Aquele querido mês de agosto”, merecido prêmio da crítica na 32ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Visto do verão europeu, por meio do cinema, agosto já não é só o mês do cachorro louco.