terça-feira, 22 de setembro de 2009

LIVRO DE LUCIANO RAMOS INDICA OS MELHORES FILMES NOVOS



Antonio Carlos Egypto


Quem tem o hábito de escolher filmes para assistir em DVD precisa se informar sobre o que vale a pena alugar ou mesmo comprar e ter em casa para ver e rever. E isso depende, é claro, dos interesses e preferências de cada um. No entanto, sem informações adequadas, não dá para fazer uma boa escolha. Isso é menos importante quando se refere aos clássicos do cinema, os filmes representativos de sua história ou filmes antigos que a gente já conhece por ter ido ao cinema, lido ou estudado sobre eles ou conversado com outras pessoas. Enfim, o próprio tempo conta para que certas informações nos alcancem.

Já quanto aos filmes recentes, isso é um pouco mais complicado para quem não tem o hábito de acompanhar os lançamentos semanais nos cinemas, ler sinopses e críticas em jornais, revistas, Internet ou por meio do rádio e da TV. Por isso, é muito bem-vindo o livro “Os melhores filmes novos – 290 filmes comentados e analisados”, de Luciano Ramos, lançado recentemente pela Editora Contexto.

Luciano Ramos é um crítico de cinema com larga experiência e trabalhos relevantes na área. Fomos colegas dos tempos de universidade no curso de Ciências Sociais da USP, nos anos de chumbo da ditadura militar: final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Eu me encaminhei para as áreas de Educação e Psicologia, embora o cinema tenha sido uma paixão permanente. Mas, no caso do Luciano, o cinema foi o seu “métier” profissional desde sempre.

Aprendi muito com ele, acompanhando seu trabalho crítico em veículos como o “Guia de Filmes da Abril Cultural”, nas décadas de 1980 e 1990, onde ele didaticamente estabelecia os critérios para avaliar filmes e atribuir estrelas, e estruturava os verbetes com as informações essenciais que precisam constar quando se cita ou indica um filme. Destaco o seu trabalho inovador no vibrante Jornal da Tarde dos primeiros tempos. E sua atuação como programador de filmes das TVs Bandeirantes e Cultura, nesta última com análises e debates muito proveitosos para quem gosta de bom cinema.

Quem sempre viu muitos filmes, exercendo a análise continuada deles, só pode ser um bom guia na hora de escolher o que se deseja assistir. Nesta obra, para selecionar os melhores filmes, Luciano Ramos analisou cinco aspectos: argumento, roteiro, elenco, produção e direção. E agrupou os filmes em ordem alfabética, dentro de capítulos que correspondem às principais categorias: aventura, brasileiros, comédia, documentário, drama, fantasia, história e infantil. E quem comprar o livro terá como bônus quatro atualizações “on line” que analisam e avaliam os filmes lançados a partir de 2009. Com isso, o livro permanecerá atual por pelo menos mais dois anos, já que essas atualizações serão feitas semestralmente.

A escolha dos 290 títulos, entre os melhores e mais representativos lançados entre 2005 e 2008, foi obtida a partir dos 1879 filmes lançados no Brasil nesse período. Certamente, Luciano, se não conseguiu ver todos, se informou sobre todos eles. E fez uso dos seus critérios objetivos, além da sua subjetividade. Mas seu gosto pessoal envolve muita sensibilidade, aguçada pelos anos de dedicação ao ofício, e leva em conta o espectador médio, não é um trabalho para ser apreciado apenas por especialistas. É um guia, um orientador, para que a escolha cinematográfica possa ser a melhor e mais adequada aos objetivos que cada qual tem, quando decide ver um filme, seja no cinema, seja em casa.

Como ele destaca o que cada filme tem de melhor, fica mais fácil escolher o que mais se adequa ao que cada um busca, pelo menos naquele momento em que se dá a escolha do que assistir.

Há, ainda, no livro uma lista mais enxuta – a dos 100 melhores, ou seja, os imperdíveis do período. Um tiro ainda mais certeiro para quem quer se atualizar com o que passou recentemente e merece ser conhecido. A maior parte dessa lista não deverá despertar grandes discordâncias. Pode-se lembrar de algum filme que não figurou aí e talvez mereça. O mais provável, porém, é que a gente encontre alguns filmes que nos pareçam supervalorizados, ao vê-los na lista.

Certamente, alguns dos filmes citados não me entusiasmaram, eu os consideraria perfeitamente dispensáveis. Não são muitos, mas há. Isso remete ao gosto pessoal, a diferentes critérios de avaliação ou a outros fatores imponderáveis, até mesmo inconscientes.

O exercício da crítica e, sobretudo, o amor pelo cinema alimentam alegres discordâncias e paixões duradouras, nesta seara onde Luciano Ramos se movimenta com tanta desenvoltura.

sábado, 12 de setembro de 2009

UMA CANÇÃO DE AMOR



Antonio Carlos Egypto


UMA CANÇÃO DE AMOR (Les Chants des Marriées). França/Tunísia, 2008. Direção: Karin Albou. Com: Lizzie Brocheré, Olympe Borval, Najib Oudghiri e Simon Abkarian. 100 min.


“Uma canção de amor” é um título inadequado para o filme da diretora francesa (de origem judaica?), Karin Albou. Ele poderia ter sido chamado de “Canções de casamento” ou mesmo “As canções dos casados”, embora este último não seja bom em português. Pelo menos, estariam mais adequados a um filme que, por meio de duas jovens, aborda questões relacionadas ao afeto e ao casamento, ao mesmo tempo em que nos situa no contexto histórico e das diferenças religiosas na Tunísia, em plena Segunda Guerra Mundial.

As duas adolescentes, Nour e Myriam, uma muçulmana e outra, judia, convivem harmoniosamente, assim como suas famílias, no mesmo ambiente de moradia. São muito amigas e as diferenças de seus mundos mais as aproximam do que as separam. Como costuma acontecer, uma gostaria de ter o que a outra tem. A muçulmana Nour, por razões religiosas, não pode frequentar a escola e se desenvolver culturalmente como sua amiga e, é claro, gostaria de fazê-lo. A judia Myriam desejaria poder noivar e casar com quem ama, como está prestes a acontecer com sua amiga Nour.

Estamos na Tunísia, em 1942. O país é um protetorado francês, que só conquistará sua independência em 1956, mais de dez anos após o fim da Guerra Mundial. A França pode ser vista como opressora, principalmente pela comunidade muçulmana e por suas mulheres. Mas a França, a esta altura, está ocupada e os alemães invadem a Tunísia. Se, para os judeus, isto vai significar uma perseguição brutal e o fim de seu patrimônio acumulado, para os muçulmanos, os nazistas podem até parecer simpáticos, ao menos por algum tempo.

Em 1943, os aliados retomarão a Tunísia, mas até lá as duas amigas serão levadas a grandes mudanças de vida, que as colocarão em polos opostos. A amizade será posta à prova e precisará de muito empenho e confiança mútua para resistir a tal intempérie.

A vida das mulheres no judaísmo e no islamismo, nesse período histórico, na África muçulmana, no caso, sob o domínio francês (e, por um período, também alemão) será mostrada por meio da relação entre as duas amigas. E a narrativa conduzida por Karin Albou, ao assinalar as diferenças, acaba por sublinhar as semelhanças. As mulheres, tanto as judias quanto as muçulmanas, têm sua vida limitada e controlada, espaços reduzidos de ação e decisão, que as impossibilitam, por razões diversas, de alcançar a autonomia e a felicidade. Uma vida de sofrimento e opressão masculina, familiar, social e religiosa é o que as espera. As circunstâncias da guerra mundial servem para transformar o drama em tragédia, exacerbando os conflitos. Mas o destino, na realidade, não depende delas, embora, em algumas circunstâncias, possa caber a uma mulher a sorte de conviver com um homem bom que lhe coube aceitar e daí até nascer o amor. Mas é a roleta da sorte que determinará isso.

“Uma canção de amor” é um filme que trata das relações de gênero com um olhar feminino, sensível e competente. A diretora, em seu segundo longa-metragem, mostra-se capaz de abordar com sutileza e sem qualquer dose de moralismo ou de militância feminista a realidade da mulher que vive num mundo que a oprime e limita.

Ela já havia tratado da questão feminina na comunidade judaica de Paris, no seu primeiro longa “A pequena Jerusalém”, que agora pode ser visto em DVD. Num mundo onde a diversidade cultural, social e religiosa se impõe e exige que estejamos abertos a compreender e lidar com as diferenças, filmes como esses são importantes e atuais, mesmo que sua trama nos remeta ao distante 1942, como é o caso de “Uma canção de amor”. Mais do que um filme histórico, é uma película que nos ajuda a refletir sobre algumas questões fundamentais da atualidade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Longas de animação

Tatiana Babadobulos


O mercado de animação não para. “A Era do Gelo 3”, que estreou em 1º de julho, é o filme de animação mais visto nos cinemas de todos os tempos, além de ter superado “Titatic”, a maior bilheteria brasileira até então. Ao todo, o Brasil alcançou a marca de 9 milhões de espectadores, e somando cerca de R$ 80 milhões de arrecadação desde sua estreia (e até 18 de agosto).

Um dos motivos do sucesso parece ter sido a versão 3-D. Segundo o Filme B, 6,790 milhões de pessoas assistiram a “A Era do Gelo 3” em 2-D e 2,160 milhões, em 3-D, o que resultou em arrecadação R$ 50,57 milhões e R$ 28,24 milhões, respectivamente.

“A Era do Gelo 3” é dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, que começou como codiretor no primeiro filme, lançado em 2002. No segundo, em 2006, passou a dirigi-lo e, por consequência, dar mais destaque à sua criação, o esquilo Scrat, que continua tentando agarrar a noz, mas não apenas ela, uma vez que parece ter encontrado sua cara-metade.

Os outros personagens dos longas anteriores continuam, além de terem a companhia de novos, como os mamutes Manny (com voz de Diogo Vilela, na versão dublada) e Ellie (Cláudia Jimenez) esperam o nascimento de seu bebê; a preguiça Sid (Tadeu Mello) continua atrapalhada e engraçada, mas dessa vez ultrapassa os limites quando se apossa de ovos gigantes que vão dar origem a dinossauros; os gambás loucos por confusão Crash e Eddie; e o tigre dentes-de-sabre Diego (Marcio Garcia) começa a se questionar sobre sua capacidade de lutar, correr e de continuar convivendo com os amigos que agora estão vivendo em família.

Outra novidade é a doninha Buck (Alexandre Moreno), caçadora de dinossauros, que vive no mundo subterrâneo (onde moram os dinossauros), e acabam ajudando os personagens em sua missão.

Destaque para o bom humor do roteiro, uma vez que a história é capaz de arrancar boas (ou serão ótimas?) gargalhadas dos adultos também, além de uma trilha sonora impecável, com direito ao clássico de Lou Rawls "You'll Never Find Another Love Like Mine", "Alone Again (Naturally)", de Gilbert O' Sullivan, além de canções compostas por John Powell, como o tango "You'll Never Tango".

O longa-metragem, aliás, chega em DVD a partir de 30 de setembro. Imperdível.


Outra animação que está conquistando os espectadores é “Up - Altas Aventuras”, que se tornou a maior bilheteria de abertura (de 4 dias) de um filme da Disney-Pixar no país. O décimo longa-metragem do estúdio ficou em primeiro lugar no ranking, levando 525.505 espectadores aos cinemas e somando a renda de R$ 5.672.268. Em número de espectadores, o filme atingiu o terceiro lugar entre os longas de animação da Disney-Pixar no país, atrás apenas de "Os Incríveis" e "Procurando Nemo".

As 75 salas 3-D onde a fita foi exibida foram responsáveis por 40% do total de ingressos vendidos e 51% do total da renda. Os cinemas com projeção em 35mm, 243 salas, ficaram com 60% do total de público e 49% do total de bilheteria.

“Up - Altas Aventuras” é o primeiro longa-metragem da Pixar a ser lançando em 3-D e foi a primeira animação a abrir o Festival de Cannes, em maio deste ano.  A animação conta a história de Carl Fredricksen (dublado em português por Chico Anysio), um vendedor de balões de 78 anos que começa a lutar contra os investidores por conta da casa onde sempre morou. Isso porque eles querem comprá-la para construir mais um edifício no local.

Contudo, Carl é sentimental demais para ceder à pressão do capitalismo. A casa que conserva foi cenário do ninho de amor que construiu ao lado de Ellie, sua paixão desde a adolescência, pessoa com quem compartilhava os sonhos de aventura de um dia, enfim, conhecer as Cachoeiras do Paraíso, na América do Sul. 

Tal como a animação "Wall-E" (lançada em 2008), que pode ser classificada também como ficção científica e comédia romântica, a trama de “Up - Altas Aventuras” começa como romance, mas logo após a primeira parte vira drama. É quando Ellie adoece e morre, deixando Carl desolado, mas ao mesmo tempo com forças para colocar em prática o seu sonho de voar.
A partir de então, o longa-metragem de animação criado por Pete Docter (o mesmo de "Monstros S.A.") passa a ser uma aventura liderada pelo velho, que resolve o problema de tirar a sua casa do terreno cobiçado pelos investidores ao amarrar milhares de bexigas nela e fazê-la flutuar, tal como se estivesse, de fato, dentro de um balão.

Pouco antes de ele ter essa brilhante ideia, porém, bate à sua porta um menino de oito anos, Russell, que se diz explorador da natureza e, portanto, quer ajudar o idoso a atravessar a rua, cortar a grama do seu jardim, o que for, a fim de ganhar mais um distintivo em seu colete. A maior descoberta de Carl é que, assim que a casa parte para os ares, alguém bate novamente à sua porta e pede para entrar.

Embora ele seja ranzinza e reclamão (os trejeitos e os sons que emite em protesto, aliás, lembram os mesmos resmungos de Clint Eastwood, em "Gran Torino"), e prossiga vivendo de lembranças, já que Ellie continua presente – nas fotos colocadas nas paredes e nas estantes da casa, no caderno onde escreve desde criança as suas aventuras, na poltrona onde costumava se sentar –, inclusive em termos musicais, já que a trilha sonora que se repete quando ela aparece subliminarmente como personagem do filme, sua vida dá uma guinada e, no caminho da aventura, enfrenta o mal e seus próprios defeitos, conhece gente nova, convive com o garoto que poderia ser o neto que nunca teve, faz amigos bichos, como o cachorro falante Dug e o pássaro gigante Kevin. 

Com a utilização da técnica tridimensional para construir a animação, é possível observar os avanços do estúdio na construção dos personagens, da riqueza de detalhes dos pelos, das peles, das roupas etc. E também do 3-D, que com a utilização dos óculos especiais é possível perceber alguns elementos saltarem da tela, mas o espectador tem principalmente a ilusão de profundidade nas cenas aéreas, que são deslumbrantes e contam com cenários incríveis. 

“Up - Altas Aventuras” não é o melhor filme da Pixar, no entanto, há de se dizer que se trata de uma produção bem-feita, que utiliza alta tecnologia para o desenvolvimento dos personagens animados por computador, com senso de humor peculiar, principalmente por conta do humor ácido do protagonista que se contrapõe à inocência da criança, e conta uma história emocionante do início ao fim.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Os Normais 2

Tatiana Babadobulos

O maior lançamento nacional, em número de cópias (400 no total), "Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas" estreou nos cinemas brasileiros na sexta-feira, dia 28 de agosto, e liderou o ranking do fim de semana nas bilheterias brasileiras. Ao todo, segundo o Filme B, o longa-metragem sobre as histórias de Rui e Vani rendeu R$ 3,5 milhões e foi visto por 361 mil espectadores.

Na fita, os personagens principais, vividos por Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, aparecem em cena cantando e dançando "Livin' La Vida Loca", de Ricky Martin, enquanto os créditos aparecem. Eles estão em um karaokê e, na sequência, brigam. Assim, os dois dão continuidade ao enredo que se passa em uma noite (daí o subtítulo do filme), pois percebem que o noivado que já dura 13 anos está morno e ambos querem dar uma aquecida no relacionamento fazendo um "ménage à trois" (relacionamento sexual entre três pessoas).

A partir daí, eles começam a procurar a terceira pessoa que poderia participar do grupo. A primeira é Drica Moraes, que faz o papel da prima de Vani, que talvez topasse a brincadeira. E depois há outras, como Danielle Suzuki, que virou bicampeã de kickboxing (e não bissexual); Claudia Raia, como uma perua mal-humorada, mas que os convida para conhecer sua banheira de hidromassagem; Mayana Neiva, a francesa que está procurando uma ménagère (ou seja, uma faxineira); Alinne Moraes, como uma prostituta.

A narrativa é bem parecida com o que seria um capítulo estendido (tem menos de 80 minutos), a não ser a pronúncia de muitos palavrões pelos atores e cenas de mau gosto, como quando começam a bater em uma idosa no meio da confusão (ainda que seja uma cena ingênua).

Com orçamento de R$ 5 milhões divididos entre a Globo Filmes e a Imagem Filmes, a expectativa é que a bilheteria seja parecida com o primeiro filme, por volta de três milhões de espectadores. Caso o sucesso seja atingido, há planos de voltar com o seriado para a televisão, além da terceira sequência. Outra negociação é a Globo que está fazendo diretamente com a Sony americana, que pretende vender o formato para o prime time (o horário nobre deles).

Com o sucesso das comédias nacionais no ano, como "Se Eu Fosse Você 2", "A Mulher Invisível", "Os Normais 2" tem o seu lugar cativo. Porém, prepare-se para dar duas ou três risadas e conferir uma fórmula desgastada, embora a química e o timing para a comédia dos atores continuem ótimos.

domingo, 30 de agosto de 2009

O ANTICRISTO DE LARS VON TRIER

Antonio Carlos Egypto 

ANTICRISTO (Antichrist). Dinamarca, 2009. Direção: Lars von Trier. Com: Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg. 110 min

. O diretor dinamarquês Lars von Trier é capaz de transmitir por imagens sentimentos intensos, descontrole, loucura. Com “Anticristo”, isso fica mais uma vez evidenciado. Dividido em várias partes, o filme começa de forma brilhante: uma cena de sexo com direito até a lances explícitos nos revela o prazer do casal, enquanto, simultaneamente, imagens de uma criança, seu quarto e brinquedos servem de contraponto. Os vidros da casa revelam a natureza e a neve que cai lá fora. Não há sons da cena que se passa em ritmo lento e o que se ouve é uma ótima interpretação de “Lascia ch’io pianga”, de Häendel. Presenciamos uma tragédia que se contrapõe ao amor, mas tudo nos é mostrado com bom gosto e em primeiros planos belíssimos. Ao longo do filme, não faltarão outras imagens não só bonitas como fortes e expressivas, como algumas da floresta, inclusive a do cartaz do filme, que tem um enquadramento perfeito. Animais diversos em partos (abortos?) expostos surpreendem, sem chegar a chocar. A natureza hostil é mostrada em imagens que valorizam o seu papel na trama do filme. Os segmentos “luto” e “dor” pesam, são sofridos, mas a gente consegue viver, sentir e se envolver com o luto que a mulher vive em estado absoluto. E compartilhamos sua dor de forma intensa por meio das imagens. O contraste com o pai/marido/terapeuta é de uma estranheza total, mas também aí se pode viver uma racionalidade que não tem como se sustentar. Até então estamos diante de um filme extremamente sofrido, incômodo, porque nos faz viver o que queremos evitar, mas inegavelmente muito bem construído. A partir da quarta parte, “desespero”, tudo começa a se tornar penoso demais e extrapolar os limites do bom senso e do tolerável. Não que ele não consiga nos imergir uma vez mais no que deseja: o desespero é mesmo desesperador. Mas também apela para o caos e para explicitar horrores inteiramente desnecessários de serem mostrados. Quem resiste a cenas de mutilação genital, não é mesmo? Assim como eu, creio que a maioria dos espectadores vai desviar o olhar da tela, fechar os olhos ou fazer cara de asco em vários momentos de “Anticristo”. É preciso ser sádico ou insensível para apreciar aquelas cenas. Claro que Lars von Trier queria produzir repulsa e conseguiu. Só que a partir daí o filme se perde, enveredando pelo terror puro e simples que invalida a construção anterior. O diretor falou em purgar uma profunda depressão que viveu, que fez seu melhor filme e, provocativamente, afirmou, em Cannes, ser o melhor cineasta do mundo. O seu marketing é a polêmica e isso o faz estar sempre em evidência. Não gosto do seu estilo de ser e de se comportar, mas reconheço o talento do diretor. Só que dessa vez a provocação tomou conta do filme e destruiu uma obra cinematográfica que poderia ter sido notável se tivesse mantido o foco nos meandros do mundo emocional, tão rico e complexo, e dispensasse monstruosidades inócuas de filmes de terror. Para quê? Inovar no gênero? E que tipo de inovação seria essa? Se fosse para brincar, ou simplesmente assustar, não seria esse o tom a adotar, certamente. Lars von Trier pode ter sofrido pessoalmente, não sei, mas querer elaborar isso na tela, vomitando excessos na platéia, não faz sentido e não leva a lugar nenhum.



terça-feira, 25 de agosto de 2009

O MILAGRE DE SANTA LUZIA


Antonio Carlos Egypto

O MILAGRE DE STA. LUZIA. Brasil, 2008. Direção e roteiro: Sérgio Roizenblit.
Documentário. 104 min.


“O Milagre de Sta. Luzia” não é um filme religioso, nem sobre a sociologia das religiões, mas uma viagem pelo Brasil que toca sanfona.

Como é que é? E que milagre é esse, então? É que no dia de Santa Luzia – 13 de dezembro – nasceu Luiz Gonzaga (1912-1989), cantor e compositor de inúmeros clássicos da música popular brasileira. Basta citar “Asa Branca”, em parceria com Humberto Teixeira, que todo mundo conhece e sabe cantar. Luiz Gonzaga, que recebeu a alcunha de “Rei do Baião”, foi um grande músico que difundiu e popularizou a sanfona pelo nordeste e por todo o Brasil, dando nova importância e dimensão ao instrumento.

Mas o filme também não é sobre Gonzagão (ele passou a ser conhecido assim depois que seu filho, também cantor e compositor, se tornou famoso, o Gonzaguinha (1945-1991). “O Milagre de Sta. Luzia” é, na verdade, sobre o legado de Luiz Gonzaga, representado aqui por Dominguinhos, seu afilhado e colaborador.

Dominguinhos é hoje o mais importante sanfoneiro brasileiro, também cantor e compositor de muitos sucessos, como “Eu só quero um xodó”, “De volta pro meu aconchego”, “Isso aqui está bom demais”, “Quem me levará sou eu” e “Lamento sertanejo”. É com Dominguinhos que essa viagem ao país da sanfona acontece, em sua tradicional caminhonete, em que ele costuma percorrer o Brasil, em sua vida de artista que não entra num avião há trinta anos.

Com Dominguinhos, o filme explora o nordeste que, por meio de Luiz Gonzaga, consagrou a música regional e a sanfona, busca contato com grandes músicos de Pernambuco, como Arlindo dos 8 Baixos, Camarão, Pinto do Acordeon, encontra um grupo de vaqueiros que lhe dedica versos improvisados e vai a João Pessoa, na Paraíba, para encontrar o grande Sivuca, um mês antes do seu falecimento. Resgata-se uma bela poesia do também finado e saudoso Patativa do Assaré e belas cenas da paisagem nordestina e do sertão enchem a tela de beleza, de um trabalho fotográfico impecável, ao qual se agregam movimento e agilidade.

Quando chega a vez do Pantanal matogrossense e seus grandes sanfoneiros, a paisagem fica ainda mais deslumbrante e movimentada. Destaque para o longo voo de duas araras azuis, acompanhado pelas câmeras até o seu pouso. E a música de Dino Rocha e Elias Filho destaca as diferenças do toque da sanfona do centro-oeste.

Chegam ao Rio Grande do Sul, de ricas tradições no toque peculiar da sanfona, ou melhor, a gaita, como ela é chamada por grandes músicos, como Renato Borghetti, Gilberto Monteiro, Bagre Fagundes e outros mais. E as paisagens verdejantes, cheias de gado gordo gaúchas, passam pela tela identificando Porto Alegre, Bagé e Santana do Livramento.

São Paulo também tem seu acordeon caipira e um dos maiores representantes do instrumento, o popularíssimo Mário Zan, aparece no filme, vindo a falecer pouco tempo depois. Campeão de vendas de discos, trilha musical obrigatória das festas juninas e autor de sucessos como “Festa na roça” e “Pula a fogueira”, contribui com sua presença para um resgate importante de figuras proeminentes da história da sanfona, que é um verdadeiro milagre que o filme realiza. Ao lado de Mário Zan, aparece Oswaldinho do Acordeon e há jovens que imprimem à sanfona um tom jazzístico, como Gabriel Levy e Toninho Ferraguti. As vias e edifícios que compõem a paisagem urbana paulistana também estão presentes.

Tudo isso é feito com uma montagem inteligente que dá permanente interesse e agilidade ao filme, muito bem conduzido por Sérgio Roizenblit. O diretor começou o trabalho que deu origem ao “Milagre de Sta. Luzia” ainda em 2001, para o projeto Memória Brasileira, de Myriam Taubkin, que incluía o “Brasil da Sanfona”, uma série de shows realizados pelo SESC/SP, que se transformou em DVD e tinha depoimentos de sanfoneiros e poetas. O êxito foi muito grande e daí surgiu a idéia de realizar esse longa-metragem, cujo resultado é digno do nosso entusiasmo e aplauso. Não só pelo resgate musical com a importância que ele tem, mas também porque ousa mostrar um Brasil cheio de beleza, felicidade e musicalidade, em diferentes regiões, que é uma verdadeira homenagem ao nosso país.

domingo, 23 de agosto de 2009

CINEMA LATINO-AMERICANO NAS TELAS

Antonio Carlos Egypto

O cinema argentino já conquistou bom público no Brasil e isto não é mais novidade. Há uma mostra do novo e do novíssimo cinema argentino no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. Vale a pena conferir.

Em sessões regulares nos cinemas, temos boas novidades. “A Teta Assustada”, que vem do Peru, e “Gigante”, do Uruguai, exibem fôlego para mostrar que nem só de Brasil, Argentina e México vive o cinema latino-americano.


A TETA ASSUSTADA (La teta asustada). Peru, 2009. Direção: Claudia Llosa. Com Magaly Solier, Susi Sánchez, Efrain Solis, Marino Ballón e Antolin Prieto. 95 min.

A cinematografia peruana é escassa e raramente chega até nós. “La Teta Asustada”, em compensação, vem com nada menos que o Urso de Ouro no Festival de Berlim. As marcas da luta política e do terrorismo deixam saldos imprevistos. As mulheres são vítimas de estupros e desenvolvem uma rara doença que se transmite pelo leite materno: a teta assustada. Faz sentido? Por que não? Realisticamente falando, tal doença não existe, especialmente com transmissão pelo leite. Mas essa pode ser uma doença da mente, do espírito, do desencanto com a vida e com os homens.

A protagonista, a bela Fausta (Magaly Solier) ainda estará às voltas com o cadáver insepulto da própria mãe que lhe passou a tal doença e exibirá ao longo de todo o filme uma depressão que beira a catatonia. É uma mulher dilacerada pela perspectiva do estupro iminente e inevitável. Quem sabe uma batata poderá salvar-lhe a honra... Num ambiente de grande pobreza e que dá muito valor às cerimônias de casamento, ela vai suportando a vida sem esperanças.

O filme mostra esse quadro e nos remete à realidade social do país e suas marcas, sem se ancorar no realismo e também sem adotar a forma fantástica, pura e simplesmente, mas sendo uma forte alegoria expressiva, com cenas que nem sempre completam um todo, mas são cheias de significado.

O contraste entre a vida da patroa e a da empregada que precisa enterrar dignamente sua mãe é mostrado por ambientes opostos: com muita vida e movimento na pobreza; em grandes espaços, tempos mortos e pérolas que se espalham e se contam na casa dos ricos. O medo do estupro se encontra com o medo que se esconde sobre muros e portões que deixam o povo lá fora. A incapacidade de relacionamento que se constrói sobre a ferida deixada pelos estupradores de um passado recente, a crença no poder das almas dos mortos, tudo isso compõe um painel expressivo que surpreende, embora a trama central fique evidenciada desde o início do filme. Difícil ficar indiferente a essa “Teta Assustada” da diretora Claudia Llosa.



GIGANTE (Gigante). Uruguai, 2009. Direção: Adrián Biniez. Com Horácio Camandule, Leonor Svarcas, Fernando Alonso, Diego Artucio e Fabiana Charlo. 90 min.

Após o ótimo “Whisky”, nos chega do Uruguai este “Gigante”. E quem é o gigante? Jara (Horácio Camandule), um homem gordo, forte, tímido e infantilizado, que trabalha como segurança em um supermercado, com direito a complementos na segurança de casas noturnas. Apartar brigas ou evitar roubos, controlando o comportamento dos empregados do supermercado, por meio de câmeras, é tudo o que ele faz, quando não está jogando videogames, vendo TV ou fazendo palavras cruzadas.

E quando ele começa a se encantar com uma faxineira no trabalho como haverá de se comportar? Ele não sabe o que fazer, mas procura segui-la e usa o poder que tem sobre a câmera, que vigia todos.

O assunto é banal, ainda que dê margem a alguma discussão sobre o quanto estamos controlados pelas câmeras na contemporaneidade. Mas é da fragilidade humana desse personagem, de seus tempos longos de observação, hesitação e dúvida, que se alimenta o filme, que acaba se tornando intrigante e um tanto misterioso e que seduz pelo minimalismo e pela simplicidade. Em tempos de overdose de ação e efeitos especiais em profusão, é um contraponto cinematográfico muitíssimo interessante.

“Gigante” também foi premiado em Berlim, com o Urso de Prata (grande prêmio do júri).

terça-feira, 18 de agosto de 2009

AGOSTO NOS CINEMAS

Antonio Carlos Egypto




Agosto para nós é inverno, onde imperam as gripes e resfriados. Este, então, trazendo uma nova e preocupante gripe, que até adiou o tradicional início das aulas do 2º semestre do ano.

Agosto é, portanto, hora de retomar os estudos, fim das férias. E agosto é, ainda, um mês cheio de desgraças na nossa história política. Na contramão desses sentimentos pouco animadores, o cinema nos brinda com dois belos filmes sobre o mês de agosto, vindos da Europa, onde o verão esquenta os corações e põe as pessoas na rua, em festas e comemorações.


ALMOÇO EM AGOSTO (Pranzo di Ferragosto). Itália, 2008.
Direção: Gianni Di Gregório. Com Gianni Di Gregório, Valeria di Franciscis, Marina Cacciotti, Maria Cali, Grazia Cesarini Sforza. 75 min.

É num feriado tradicional de 15 de agosto que se situa “Almoço em agosto”, uma reconfortante comédia, afetiva e otimista, que propõe que aquilo que parece ser um grande problema pode acabar se tornando uma solução. Tudo depende de como a gente encara a vida e como se desincumbe das surpresas que ela nos coloca.

Gianni, o personagem, ator e diretor do filme, vive na penúria com sua mãe já bem idosa, que nem sequer se dá conta do quanto exige dele, apesar de ser uma figura gentil e educada. Ele não consegue, não pode ou não quer trabalhar e as dívidas se acumulam. É essa circunstância que dará margem à situação de multiplicar as mulheres idosas que estarão ao seu cuidado no tal feriado e que acabarão por ser não mais a multiplicação dos problemas, mas a sua solução. Quem poderia imaginar? A receita envolve dedicação, espírito de sacrifício, capacidade de lidar com afetos e, sendo um filme italiano, é claro que a boa comida, uma bela massa, um peixe saboroso, vão fazer toda a diferença.

Tudo é mostrado com singeleza e sem escamotear os conflitos. Ao contrário, eles são explicitados e, apesar de pequenos, suficientemente angustiantes para a situação. Harmonizar mulheres idosas com suas manhas e manias, num mesmo ambiente, sem que tudo desmonte, exige habilidade. Não é uma situação fácil, nem simples de lidar. Basta lembrar questões de saúde, como a administração de remédios, bem como dietas ou restrições alimentares, inevitáveis nestas personagens. Elas são, porém, gente muito capaz de usufruir da vida e isso acaba sendo muito mais importante do que as limitações da idade. Cada uma, à sua maneira, vai se revelando ao longo da narrativa. E o filme, oportunamente adequado nos seus 75 minutos de duração, nos brinda com um humanismo que tem estado pouco presente no cinema contemporâneo, que vai da descrença ao ilusionismo com muita facilidade nos dias complicados em que estamos vivendo.


AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO. Portugal, 2008.
Direção: Miguel Gomes. Com Sonia Bandeira, Fabio Oliveira, Joaquim Carvalho, Andréia Santos, Arnaldo Nunes. 147 min.

Em agosto, no interior de Portugal, em meio às montanhas, o mês se enche de atividades. Muita música, dança, fogos de artifício, gente que se atira das pontes, caça javalis e bebe cerveja. Comemora-se o verão com muita festa, gente por todo o lado, muitas paixões aparecem e sempre alguma excentricidade.

É esse clima de festividade que “Aquele querido mês de agosto” compartilha com os espectadores. Trata-se de festas populares e nem sempre a música é de boa qualidade, mas a alegria é permanente e contagia.

Aí se dará o trabalho de uma equipe cinematográfica que, querendo captar todo esse clima, quer contar uma história de amor e, para isso, precisa encontrar tanto os personagens como os atores e até a própria história.

Desta mistura entre o que se documenta e a ficção que se prevê, surge um filme que se insere na festa como algo inevitável, a que ninguém conseguirá opor resistência. A história de ficção está de alguma forma dada por figuras de uma banda musical e, a certa altura, já não se sabe o que é componente indissociável das festividades e o que é encenação cinematográfica. A verdade é que pouco importa, no fluir da festa a vida se impõe, por vezes estranha, bêbada ou tresloucada, mas é em busca de sensações alimentadas pela música popular que o povo se alegra e se permite viver os seus prazeres.

Como espectadores, testemunhamos tudo isso, conhecemos uma parte da música e das danças populares de Portugal que não costumam chegar por aqui e nos regozijamos com a vida que transborda da tela. Belo exemplo de cinema que nos dá Portugal, do grande mestre Manoel de Oliveira, com seu conhecimento e sua erudição admiráveis. Mas nem só dele vive o cinema português, nem só de uma melancolia que tradicionalmente invade os ares lusitanos. Miguel Gomes nos traz a beleza das tradições da festa e dos caminhos que entrelaçam documentário e ficção, neste empolgante “Aquele querido mês de agosto”, merecido prêmio da crítica na 32ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Visto do verão europeu, por meio do cinema, agosto já não é só o mês do cachorro louco.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

AGNÈS JAOUI e “ENQUANTO O SOL NÃO VEM”

Antonio Carlos Egypto


ENQUANTO O SOL NÃO VEM (Parlez-moi de la Pluie), França. 2008. Direção. Agnès Jauoi. Com Agnès Jaoui, Jean-Pierre Bacri e Jamel Dabbouze. 110 min.


Quando vi o primeiro filme de Agnès Jaoui, “O gosto dos outros”, senti que estava diante do cinema contemporâneo mais interessante e expressivo. Num clima onde tudo flui e nada pesa muito, as relações estão em primeiro plano: idiossincrasias, preconceitos, análises pretensiosas da vida e da arte versus simplicidade, humanidade, falibilidade. Era, sem dúvida, um filme leve, que tinha densidade. E a questão mais intrigante: que critérios podem nos nortear para compreender e analisar a arte, seu papel, finalidade e relação com o público. Nada de esnobismo, muito de humanismo e sem julgamentos morais. Me cativou.

Depois veio “Questão de imagem”, colocando em cena uma garota gordinha, infeliz por não corresponder aos estereótipos do culto à beleza física da atualidade, um escritor em conflito com sua velhice, uma mulher que se deprime por não confiar no próprio talento, alguém que tem de se confrontar com o que a fama significa, e por aí vai. Vidas que se constroem e conflitos que são vividos, onde se está permanentemente aprendendo, revendo conceitos e atitudes. Mais uma vez, questões contemporâneas trabalhadas num clima de experiências cotidianas, sem grande dramaticidade, sem preocupação em seguir modelos ou gêneros. O foco é, como sempre, os relacionamentos humanos e as verdades provisórias de cada um. Sobra sempre muito espaço à reflexão.

Com seu novo filme em cartaz nos cinemas, “Enquanto o Sol não Vem”, se dá o confronto entre a metrópole e a província. Uma jovem feminista de sucesso se dispõe a uma homenagem tosca de um documentarista mais do que doméstico e seu hostil parceiro. Nada dá certo, as trapalhadas se sucedem. O processo de construção do filme é o avesso do profissionalismo e do glamour associados ao cinema. As coisas não são como parecem, não têm a importância que pretendemos que possam ter. Além disso, o tempo não ajuda, chove muito e estamos todos à espera do sol. Mas não imaginem que a comédia vai se instalar com tudo. Não, para Agnès Jaoui, menos é sempre mais. O espectador tem tempo de pensar, observar com calma, sorrir, se identificar com as pequenas besteiras que se fazem a toda hora.

Uma vez mais, o clima de leveza é que dá o tom, identificando o cinema de Jaoui inexoravelmente com os tempos atuais. Não simplesmente pela narrativa frouxa e pouco preocupada em amarrar fios, mas principalmente pelo olhar arguto sobre as relações humanas contemporâneas e as preocupações que as envolvem, pelo menos no ambiente europeu de classe média. Agnès Jaoui é, como diretora, uma boa cronista desse momento e de seu contexto de vida. E é atriz de seus filmes, emprestando-lhes uma dimensão muito verdadeira no seu desempenho, tão leve e seguro, quanto a sua mão de diretora.

Só para registrar: “O gosto dos outros” foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro (2001). “Questão de imagem” recebeu prêmio de roteiro em Cannes (2004), e dois de seus roteiros, “Smoking/No smoking” e “Amores Parisienses” foram filmados por ninguém menos do que Alain Resnais. Não é pouca coisa.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Duas vezes Juliette Binoche


Tatiana Babadobulos

Estão em cartaz em São Paulo dois filmes franceses que trazem a atriz Juliette Binoche no elenco. Ambos, aliás, estrearam no mesmo dia. Um deles é "Paris" ("Paris") e, como não poderia deixar de ser, o cenário é a própria capital francesa. Mas a cidade mais conhecida do mundo como pano de fundo não é o único atrativo do longa-metragem dirigido por Cédric Klapisch ("Bonecas Russas").

O filme conta a história de Pierre (Romain Duris, de "As Aventuras de Molière") que, segundo seu médico, está em estado terminal, pois precisa de um transplante de coração. A primeira pessoa para quem ele conta a triste novidade é sua irmã Élise (Juliette), mas a primeira mudança que faz em sua vida é começar a observar o mundo ao seu redor e os diferentes personagens que vivem na cidade.

Assim, a história se constrói na medida em que Klapisch aponta suas lentes para os feirantes que disputam a freguesia, para a moça que começa a trabalhar na padaria cuja dona é uma insuportável racista e mandona (Karin Viard), o arquiteto Philippe (François Cluzet), seu irmão, o professor de história Roland (Fabrice Luchini), que se apaixona pela aluna Laetitia (Mélanie Laurent) e fica lhe enviando poemas anônimos por mensagens do celular. O filme também mostra personagens que tratam de problemas com a imigração (tema tratado também em “Bem-Vindo”, de Philippe Lioret).

E é a partir desse mosaico que Cédric Klapisch mostra o cotidiano de Pierre que, como professor de dança, junta seu grupo e mostra coreografias intensas, bem-construídas, embora não tenha fôlego para executar todos os saltos que são propostos. Romain Duris, aliás, é capaz de transmitir ao espectador a dor que sente e mostra que é possível superar esse momento de tensão e esperar, curtindo a vida, brincando com as sobrinhas, sendo feliz.

"Paris" teve três indicações ao César (o Oscar francês), nas categorias Edição, Filme e Atriz Coadjuvante (Karin Viard). Trata-se de um filme belo, capaz de fazer com que o espectador contemple o cenário em que a história se passa e, por que não?, olhe para si e veja que ao seu redor a vida pode ser mais bonita do que lhe parece. Sim, o cinema tem essa capacidade e não se pode perder a chance.

O outro longa é o drama francês "Horas de Verão" (“L'Heure d'Été”), que foi apresentado no ano passado durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Escrito e dirigido por Oliver Assayas, o filme conta a história da matriarca, Hélène Berthier (de "A Questão Humana"), que reúne na casa de campo da família seus filhos e netos para celebrar seu 75º aniversário.

Então, os irmãos, que vivem distantes, se encontram e logo depois a mãe morre. A partir de então eles terão de fazer as divisões que incluem obra de arte de seu tio, um pintor do século 19. Começam pra valer as diferenças entre a designer que vive em Nova York, Adrienne (Juliette), o economista e professor Frédéric (Charles Berling) e o empresário Jérémie (Jérémie Renier), que atualmente vive na China e um dos que não pensam nem em discutir o assunto. No entanto, é preciso enfrentar a discussão, uma vez que Frédéric não quer ter de decidir tudo sozinho já que os outros dois irão embora e darão as costas a essas questões.

“Horas de Verão” se passa praticamente dentro da casa de campo da família e é dentro do imóvel que também fará parte do inventário que acontece o drama familiar que discute o valor da herança e da família, entendimento entre irmãos que têm pouco em comum, principalmente porque cada um quer cuidar da própria vida e não daquela que foi deixada pela mãe deles que muito fala sobre as origens e os valores que objetos têm e que dizem sobre a família em que nasceram.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

BEM-VINDO


Antonio Carlos Egypto

BEM-VINDO (Welcome). França, 2008. Direção: Philippe Lioret. Com: Vincent Lindon, Firat Ayverdi, Audrey Dana e Derya Ayverdi. 105 min.

A questão dos imigrantes na Europa, e na América do Norte, tem alimentado posturas políticas de direita que procuram atribuir a eles a culpa pelas crises e problemas econômicos que vivem, gerando um ódio e uma intolerância que alimentam fanatismos e violência. Os grupos neonazistas representam o extremo dessas posturas, mas elas alimentam também mentes teoricamente mais abertas e civilizadas que as deles. O que assusta é a que ponto podem chegar essas teses.

O filme francês “Bem-vindo” é mais uma das produções artísticas européias a se preocupar com a questão humana dos imigrantes ilegais, sujeitos a todo tipo de exclusão e humilhações, só porque estão em busca de sobreviver, trabalhando com dignidade em outro país. Claro que a lei não está do lado deles, e as condições de vida não lhes permitem enquadrar-se nas leis estabelecidas sobre o assunto.

O filme, dirigido por Philippe Lioret, é extremamente sensível à questão humana que é colocada para os imigrantes, ao focalizar um jovem refugiado curdo, vivendo na França, que só vê uma saída para ir ao encontro de sua amada na Inglaterra: atravessar o Canal da Mancha a nado. Para isso, ele procura a ajuda de um professor de natação, que, buscando impressionar e reconquistar sua mulher, que advoga o tratamento humanitário dos imigrantes, resolve ajudá-lo.

É aí que o filme ganha importância, ao mostrar que uma simples ajuda humanitária pode colocar na cadeia quem a pratica. Está na lei. Veja bem que estamos falando das leis francesas, e a França foi tradicionalmente um país que sempre acolheu democraticamente exilados e dissidentes de seus países de origem, inclusive brasileiros, na época da ditadura militar.

A cena mais chocante do filme se passa num supermercado, onde os imigrantes são reconhecidos e impedidos de comprar itens absolutamente banais que povoam o cotidiano de todas as pessoas. É inacreditável que alguém possa ser impedido até de gastar o seu próprio dinheiro num supermercado, apenas por ter cara e jeito de imigrante, provavelmente ilegal. Se na França está acontecendo isso, o que esperar do resto do mundo?

O alerta que as cenas de “Bem-vindo” nos trazem é que estamos atravessando um terreno perigosíssimo de intolerância e desumanidade, que pode ser altamente destrutivo para nossa pretendida civilização democrática, que antes de mais nada teria de aprender a cultivar a diversidade e a pluralidade, cultural e pessoal.

O cinema contemporâneo de qualidade tem revelado preocupação com essas questões e, no caso de “Bem-vindo”, focalizando de perto os sentimentos das pessoas envolvidas. Isso nos leva a compreender o sofrimento humano que essas políticas equivocadas e truculentas podem produzir nas pessoas. Não só do lado dos imigrantes, mas de todos que participam do convívio social.

Felizmente, ares novos parecem soprar da América de Obama, para nos mostrar que o equilíbrio nas políticas e nas relações humanas, de todos os tipos, é perfeitamente possível. “Bem-vindo” dá a sua contribuição para isso, com uma boa história, uma direção competente e atores e atrizes que convencem, ao viver o drama humanitário que acompanha a imigração nos dias de hoje.

domingo, 28 de junho de 2009

CASAMENTO SILENCIOSO


Antonio Carlos Egypto


CASAMENTO SILENCIOSO (Nuta Muta), Romênia, França, Luxemburgo, 2008.
Direção: Horatiu Malaele. Com: Meda Victor, Alexandru Potocean e Doru Ana. 87 min.


Do cinema romeno chegaram até nós, nos últimos anos, 2006 e 2007, três ótimos filmes: “A leste de Bucareste”, de Corneliu Porumboiu, “Como eu festejei o fim do mundo”, de Catalin Mitulescu e, principalmente, “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, de Cristian Mungiu. Isto me fez ficar atento ao que mais chegasse da Romênia em forma de cinema.

Que o novo cinema romeno destile as agruras do regime comunista, imposto e autoritariamente comandado pela então União Soviética, não é surpresa. Nem que Nicolau Ceausescu, o tirano local, seja a lembrança trágica, explicitada ou não, de seus filmes. Mas que o humor seja o veículo para sepultar esses fantasmas é uma grata surpresa.

No caso de “Casamento Silencioso”, a mise en scène, por seu tom barroco, em tudo exagerado, e a histeria que aí se revela, nos remetem ao cineasta sérvio Emir Kusturica. Muita agitação, música intensa, dramaticidade e provocação exacerbadas são visíveis desde as primeiras cenas do filme. A fonte de inspiração é o inegável talento de Kusturica. Incomoda um pouco a quem prefere curtir a vida em tom menos estressante e agitado, mas tudo bem. O mais interessante, porém, é o contraste que se estabelece a partir disso, no desenvolvimento da trama.

Num pequeno vilarejo romeno, em 1953, na zona rural, um casamento é o evento marcante daqueles dias. Está tudo pronto para começar a festa, quando chega a notícia da morte de Stálin, do luto internacional que se seguirá, proibindo manifestações públicas, sobretudo alegres, inclusive festas e casamentos. Muitos talvez quisessem comemorar tal morte, que representou para eles um alívio depois de tanta opressão. O stalinismo certamente não deixou saudades. Mas o que fazer diante da festa pronta, que deveria começar, e a mesa farta, que já está até posta? A saída que encontram é realizar um casamento silencioso: sem copos brindando, sem talheres ruidosos, sem discursos ou música audíveis, ou seja, em total silêncio, para não despertar suspeitas de que as normas proibitivas não estivessem sendo seguidas. E é aí que o filme se torna engraçado.

Parar aquela parafernália que nos foi mostrada, contrapondo cenas que exigem um controle impossível para aquela situação e para aqueles personagens, especialmente, é hilário. A originalidade do filme é justamente encenar o inviável: uma festa de casamento sem som (já que proibida e realizada clandestinamente).

O som se torna um personagem do filme nas cenas da festa, qualquer ruído, por menor que seja, nos faz rir. Grande idéia para se explorar em tempos de equipamentos de som sofisticadíssimos nos cinemas. O efeito dessas cenas é tanto mais curioso uma vez que se insere naquele conceito barroco-histérico que dá o tom do filme. O contraste é perfeito e a escolha daquele tom fica, então, inteiramente justificada.

O que se segue não é engraçado e talvez seja explícito demais, mensagem pronta demais, que não deixa espaço à reflexão. É compreensível exorcizar velhas tragédias e seu custo não é mesmo brincadeira, mas na contemporaneidade vilões e mocinhos já não são verdades autoexplicativas, ou seja, não convencem como tais. Opressão e ignorância desmedidas também nos colocam em posição de ceticismo ou desconfiança. E, afinal, o que é excessivo pode iludir. Mas nada disso tira a criatividade que as cenas do casamento silencioso, que dá título ao filme, apresentam. Elas seguramente valem a ida ao cinema.