terça-feira, 23 de janeiro de 2024

OS REJEITADOS, AS BESTAS e SERVIDÃO

Antonio Carlos Egypto

 


OS REJEITADOS (The Holdovers).  EUA, 2023.  Direção: Alexander Payne.  Elenco: Paul Giamatti, Dominic Sessa, Da’vine Joy Randolph, Carrie Preston.  134 min.

 

“Os Rejeitados” trata da questão educacional em forma de comédia, buscando uma reflexão bastante interessante sobre a humanização do processo de ensino-aprendizagem e especialmente das estruturas escolares.  O contexto é o de um internato nos anos 1970, no interior dos Estados Unidos, em que alguns alunos devem permanecer durante o período de festas natalinas e de ano novo, com um dos professores que deve acompanhá-los didaticamente e como protetor.  Os alunos, por razões de desempenho ou de família, são os rejeitados.  O professor, igualmente, foi escolhido como uma espécie de punição, já que é bastante impopular, tanto junto aos alunos quanto junto ao corpo docente.  Somente a cozinheira-chefe da escola, que os acompanhará, está em situação distinta, vivendo um luto pela perda do filho jovem na guerra do Vietnã.  No final das contas, a trama afunila para o professor, um aluno dito problemático e a cozinheira.  É a partir daí que o universo escolar, seus julgamentos, avaliações e a relevância do que ensina serão postos em cheque.  No começo, tudo parece um tanto caricato, antiquado e valendo-se de clichês.  Mas, com a evolução dos fatos, as coisas vão mudando substancialmente e nos trazem para a vida real das pessoas e para além dos papéis, das diferenças de status, de geração, de gênero, de raça ou de classe.  Aí, sim, “Os Rejeitados” ganha musculatura e reveste-se de humanismo.  O diretor, Alexander Payne, de “Nebraska” (2013), parece pôr todos os obstáculos e dificuldades à frente do que é essencial e que se revelará depois de muita água passando pela ponte, Em “Nebraska” a estrutura é semelhante. Mas o encanto acontece, nos dois casos.  O elenco de “Os Rejeitados” tem o ótimo Paul Giamatti no papel do professor Paul Hunham e se mostra um livro aberto no que toca à vida do seu personagem e de suas emoções, embora acredite que engana seus alunos e convivas em geral.  Dominque Sessa faz o personagem Angus, o aluno problema que, na verdade, é ativo, inteligente, perspicaz e rebelde, no caso com causa.  O ator é muito bom, embora seja mais velho do que o papel que pretende representar. Tanto que a gente estranha quando lhe é negado o direito à bebida alcoólica, por ser menor de 18 anos.  Da’vine Joy Randolph é outro grande destaque do filme. Ela faz Mary Lamb, a cozinheira boa gente, com expressividade, na medida certa para cada cena.  E é bastante exigida emocionalmente, em todas as variações de sua participação na trama.  O filme é um dos  indicados ao Oscar 2024.

 

Também estão entrando em cartaz nos cinemas dois outros filmes que vale a pena mencionar.




AS BESTAS, filme espanhol, de 2022, premiado com Goyas, dirigido por Rodrigo Sorogoyen, é um drama e suspense que traz um ponto de partida provocador. Um casal de franceses maduros, por circunstâncias aleatórias, decide se estabelecer como agricultores orgânicos numa aldeia espanhola.  Com toda a boa intenção do mundo e em busca de paz e concórdia.  Mas encontra o oposto: hostilidade e guerra.  Ocorre que os objetivos deles colidem com as expectativas da comunidade, que deseja obter dinheiro suficiente para partir dali, deixando o espaço para os aparatos da energia eólica.  Compreensível e politicamente aceitável, claro.  Em todo caso, a evolução da história será, como já seria presumível de imediato, trágica. E a segunda parte do filme surpreende pela ruptura que produz.  No entanto, um elemento de cena, a filmagem para registrar agressões, denunciar e se proteger perante a lei, antecipa o que esperar do final, irremediavelmente.  Bem previsível, mas não tira o prazer de usufruir do filme.  Elenco: Denis Ménochet, Marina Fois, Luís Zahera, Diego Anido, Marie Colomb.  137 min.

 


E, por fim, um documentário brasileiro que merece nossa atenção pelo que revela de forma muito clara: a abolição da escravidão ainda não se processou de fato, embora tenha sido formalmente decidida ainda no século XIX.  SERVIDÃO, dirigido por Renato Barbieri, mostra condições de trabalho análogas à escravidão existindo fartamente no Brasil do século XXI.  Apesar de contar com uma legislação adequada e moderna sobre o tema, a realidade no campo e na cidade, na Amazônia e no Brasil profundo como um todo, revela as pessoas vivendo sob o jugo de uma mentalidade colonial, escravista, opressora e exploradora.  Alimentada por grilagens, pelo grande latifúndio e por mecanismos políticos e econômicos que a perpetuam.  O filme também trata dos caminhos de resistência e mudança que existem em torno desse assunto.  Narração da artista Negra Li.  73 min.






sábado, 20 de janeiro de 2024

VIDAS PASSADAS

Antonio Carlos Egypto

 




VIDAS PASSADAS (Past Lives).  Coreia do Sul, 2023.  Direção e roteiro: Celine Song.  Elenco: Greta Lee, Teo Yoo, John Magaro, Seung Ah Moon, Leem Seung Min. 105 min.

 

“Vidas Passadas” começa nos mostrando duas crianças, encantadas uma com a outra, inseparáveis, a menina Na Young (Seung Ah Moon) e o menino Hae Seung (Leem Seung Min).  Isso há 24 anos atrás, quando a família dela se muda da Coreia do Sul, enquanto ele permanece lá. O filme irá explorar ao longo do tempo o que acontece com uma conexão tão forte quanto essa.  Partindo do pressuposto, como nos explica ela quando adulta, de que existe o In-Yun, um laço que une as pessoas porque esse vínculo já existia, já veio de vidas passadas.  Essa crença dá à história um sabor de originalidade, um plus que sofistica um amor que sempre teria existido, por isso pode ser reativado muitos anos depois.

 



Com efeito, buscas na Internet possibilitam um encontro virtual entre eles, 12 anos depois da separação, enquanto crianças, quando Na Young já vive em Nova York, desenvolvendo uma carreira literária e adotando lá o nome de Nora (Greta Lee).   Ela está casada com o norte-americano Arthur (John Magaro).  Passam-se mais 12 anos, até que Hae Seung (Teo Yoo) resolva ir pessoalmente a Nova York, para ver Nora.  Como esse vínculo se manifestará agora?

 

O que o filme da diretora e também roteirista Celine Song desenvolve é uma capacidade de dizer muito com muito pouco, explorando olhares, silêncios, ambiguidades.  Tudo com muita sutileza, tanto nos desempenhos dos atores e atrizes, ótimos, quanto na trilha sonora leve e na fotografia que dispensa cores fortes ou muita luminosidade.  Tudo isso num romance em meios tons, sem arroubos ou expressões emocionais intensas.  De um modo oriental.  Ou, quem sabe, mesmo coreano.  Nora explica para Arthur como é Hae Seung, dizendo que ele tem uma virilidade bem coreana.  E dá para entender, vendo o personagem agir com educação, cuidado, respeito pelas pessoas, sem sinais de grossura ou agressividade, mesmo contrariado.  Nora é uma figura de mulher forte, decidida, ambiciosa, mas, ao mesmo tempo, doce, acolhedora, delicada. 

 

Com essas características creio que já dá para ver que “Vidas Passadas” consegue fisgar o espectador, deixando sempre uma dúvida no ar.  Observar a forma como cada personagem lida com as situações, e ao longo do tempo, é um exercício muito interessante a se fazer, enquanto o filme rola.  Incluindo o não-oriental Arthur, o marido de Nora.

 

“Vidas Passadas” é um dos concorrentes ao Oscar.  Seu maior triunfo, em tempos de muita ação, super-heróis e todo tipo de excessos, é essa capacidade de ser envolvente com sutileza.

 


 


 

CINEMA FANTÁSTICO BRASILEIRO 100 filmes essenciais

Esta é a capa de um novo livro da Abraccine, organizado por Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva, que está sendo lançado amanhã (21/01/2024) na 27ª. Mostra de Cinema de Tiradentes, MG. Em breve ele será lançado em São Paulo e em vários outros estados brasileiros. Eu participo dele com uma crítica do filme “O Auto da Compadecida”. Voltarei ao assunto em breve.



quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

MAL VIVER

Antonio Carlos Egypto 



MAL VIVER.  Portugal, 2023.  Direção: João Canijo.  Elenco: Anabela Moreira, Rita Blanco, Madalena Almeida, Cléia Almeida, Vera Barreto.  127 min.

 

A família é vista como um ambiente de acolhimento, afetividade e apoio para os seus membros.  Idealmente falando, é claro.  Porque na família podem se dar os grandes confrontos, rejeições e opressões.  Nelson Rodrigues foi pródigo em mostrar isso nas suas peças teatrais.  Pois bem, “Mal Viver”, o filme do cineasta português João Canizo, foca neste lado negativo da família.  Em especial, nas relações mãe e filha.

 

Mostra uma família vivendo num hotel de propriedade de Sara (Rita Blanco), mãe de Piedade (Anabela Moreira), cujas relações são péssimas.  Sara acusa Piedade de incompetência, incapacidade de tocar a própria vida e teme por ela, se vier a morrer.  Acusa a filha de não assumir, rejeitar, a neta, a jovem Salomé (Madalena Almeida).  Salomé apareceu de surpresa  após a morte do pai, com quem vivia.  Isso incomodou muito Piedade, que não a esperava, nem desejava que viesse.  Mas assim como Piedade não ama Salomé, está claro que Sara não ama Piedade.

 

Outras mulheres da família participam desse clima no hotel, e uma família de hóspedes aparece, com a mãe e a filha às turras.  Ou seja, mães que não amam suas filhas e, por consequência, filhas que não respeitam as mães, tornam todo o ambiente muito sofrido e doloroso.  Essa é uma boa palavra, o filme de João Canijo é doloroso, difícil de assistir por esse aspecto.

 

No entanto, é um belo filme do ponto de vista do seu visual e também em relação aos tempos e ao clima que revela.  A locação no hotel permite circular por ambientes bonitos, bem cuidados, com boa comida.  Piscina ao ar livre no alto da montanha, desvelando uma paisagem atraente.  Mais do que isso: o diretor explora muito bem as luzes, os reflexos, as vidraças que se antepõem, os caminhos internos, em belos enquadramentos. E nos ambientes externos também.

 


Um ritmo lento ajuda a compor um clima pesado, hostil, seco, com muita competência.  A incapacidade de Piedade em acariciar os cabelos de Salomé quando ela se deita ao seu lado, é algo que repugna, mas mostra a que ponto pode chegar a ausência do afeto maternal.  Isso é ainda mais grave quando contrastado com a pequena cadela que Piedade carrega, mima e procura desesperadamente quando ela some.

 

Um ambiente de mulheres marcado pela crueldade nas relações tem algo de desesperador.  As mulheres são associadas à sua capacidade de cuidar e de serem acolhedoras, na maioria das vezes.  Aqui, não.  Quando os homens já estão ausentes, porque sumiram ou morreram, o que ficou foi a hostilidade entre elas.   “Mal Viver” não dá trégua nesta triste constatação.  Há choro e ranger de dentes, mas não há redenção, nem reparação.  É angustiante esse jeito de mal viver.  Porém, é real, incomoda, mas existe.

 

O diretor João Canijo mostra talento e tem seu filme reconhecido, venceu o Urso de Prata, em Berlim, pelo Juri. Vem de uma grande escola de cinema.  Foi assistente de Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Alain Tanner e Werner Schroeter.  “Mal Viver” se relaciona com outro filme dele, que ainda não vi, mas que chegará aos cinemas logo em seguida: “Viver Mal”.  Pelo jeito, tem mais crueldade por aí.

 

 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

PARE COM SUAS MENTIRAS

Antonio Carlos Egypto

 

 


PARE COM SUAS MENTIRAS (Arrête avec tes Mensonges). França, 2023.  Direção: Olivier Peyon.  Elenco: Guillaume De Tonquédec, Victor Belmondo, Gulaine Londez, Jérémy Gillet, Julien De Saint-Jean.  105 min.

 

Um primeiro amor que ficou no passado distante, 35 anos atrás, retorna com força quando o escritor Stephane (Guillaume De Tonquédec) recebe e aceita um convite para retornar à sua cidade natal, a pequena Cognac, para uma homenagem.  Apesar de Cognac ter dado origem à bebida mundialmente famosa, Stephane não bebe, não gosta de bebidas alcoólicas e já não tem nenhum interesse na visita à destilaria local.  Aliás, não é só em relação à bebida, que marca a cidade, que o escritor se sente deslocado. Ele não esconde sua homossexualidade e isso, ainda hoje, incomoda por lá.

 

Por que, então, ele teria sido escolhido para participar de festividades da cidade e receber uma homenagem?  De quem partiu essa ideia?  Claro que ter se tornado um escritor de sucesso e ser de lá pode explicar isso, ainda assim, algo mais deve haver. E ele sabe disso, apenas deixou de lado ao longo de tantos anos distante.

 

Tudo começa a clarear quando, ao autografar um livro, ele percebe que um dos organizadores do evento tem o mesmo nome de seu antigo caso de amor adolescente.  Encontrar o filho de seu amado trará tudo de volta à sua mente, reavivando suas lembranças.

 

O filme “Pare Com Suas Mentiras” vai, então, alternando presente e passado, sem deixar de continuar sendo linear, tanto no que está ocorrendo agora como na sucessão de fatos daquele passado.  A forma clássica, acadêmica, segue preservada.

 


A abordagem do tema, no entanto, traz a novidade da transformação pelo passar do tempo.  Ninguém permanece o mesmo tanto tempo depois.  Nem mesmo a cidade que cultiva escrupulosamente suas tradições.  Por esse caminho, o filme emociona, até surpreende.  Verdade que o discurso que Stephane vai tentando construir, enquanto vive essas novas e perturbadoras emoções do presente, se torna bastante previsível com a evolução da história.  O filme tenta fazer suspense disso, mas não consegue.

 

O personagem adolescente do escritor, vivido pelo ator Jérémy Gillet, é muito diferente dele, enquanto tipo físico, o que provoca uma certa estranheza.  O jovem Stephane é também muito contido e isolado, embora já se destacasse pela boa escrita.  Seu parceiro amoroso, Thomas (Julien De Saint-Jean), que ficou restrito ao espaço de Cognac, cuidando dos negócios da família, era mais expressivo e ativo, mas não alçou voo.  A imagem que ficou de Thomas, a partir do relato de seu filho, foi a mais fechada possível.  O casamento não lhe trouxe felicidade e ele quase não se comunicava com o filho.  Enfim, uma história de amor e desejo intensos que flopou, como se diz atualmente.

 

A redescoberta do escritor, que é a essência da história, baseada na obra original de Philippe Besson, resultou num filme bem realizado por Olivier Peyon, que desperta interesse.




quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

FILMES BRASILEIROS 2023

Antonio Carlos Egypto

 

 Aí vai a minha lista dos melhores filmes nacionais em 2023, entre o que pude ver ao longo do ano, lançados nos cinemas.  Excluem-se mostras, festivais e streaming.  Como estava tendo dificuldade de chegar aos chamados top 10, resolvi deixá-la com 12 filmes, em ordem decrescente de preferência, ou seja, o primeiro que aparece foi o melhor do ano para mim.  Quase todos os filmes têm críticas publicadas aqui, no cinema com recheio e podem ser acessadas no campo de pesquisa pelo nome ou virando as páginas no celular:

http://cinemacomrecheio.blogspot.com

 

Elis & Tom

OS MELHORES LONGAS BRASILEIROS DE 2023

 

ELIS & TOM... SÓ TINHA QUE SER COM VOCÊ.  Roberto de Oliveira e Tob Azulay.

RETRATOS FANTASMAS. Kleber Mendonça Filho.

O RIO DO DESEJO. Sérgio Machado.

JAIR RODRIGUES – DEIXA QUE DIGAM... Rubens Rewald.

MARINHEIRO DAS MONTANHAS. Karim Aïnouz.

ANDANÇA, OS ENCONTROS E AS MEMÓRIAS DE BETH CARVALHO. Pedro Bronz.

ROBERTO FARIAS, MEMÓRIAS DE UM CINEASTA.  Marise Farias.

O HOMEM CORDIAL. Iberê Camargo.

NOITES ALIENÍGENAS. Sérgio de Carvalho.

SEUS OSSOS, SEUS OLHOS.  Caetano Gotardo.

MATO SECO EM CHAMAS.  Joana Pimenta e Adirley Queirós.

MEU NOME É GAL. Dandara Ferreira e Lô Politi.

 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

FILMES INTERNACIONAIS 2023

 

    Antonio Carlos Egypto

 

Começo de ano é propício para que listemos os melhores filmes do ano que passou.  Geralmente, os 10 melhores, como tradição.  Ou, de forma mais esnobe, os chamados top ten.  Seja lá como for, aí vão os meus melhores de 2023, por ordem de preferência, considerando os lançamentos dos filmes realizados nos cinemas, ao longo do ano.  Excluídos mostras, festivais e streaming.  Primeiro, a lista dos filmes internacionais. Na próxima postagem, vou apresentar a minha lista dos brasileiros.

 

Importante – Todos os filmes da lista que se segue têm críticas publicadas aqui no cinema com recheio.  Para acessar qualquer um deles, é só virar as páginas ou escrever o nome do filme (ou parte dele) no campo de pesquisa do blog: 

https://cinemacomrecheio.blogspot.com

 

Folhas de Outono

MELHORES LONGAS INTERNACIONAIS 2023

FOLHAS DE OUTONO.  Aki Kaurismaki (Finlândia)

ASSASSINOS DA LUA DAS FLORES. Martin Scorsese (EUA)

MONSTER. Kore-Eda (Japão)

AFIRE. Christian Petzold (Alemanha)

EO. Jerzy Skolimowski (Polônia)

OS FABELMANS. Steven Spielberg (EUA)

NOSTALGIA. Mario Martone (Itália)

A MENINA SILENCIOSA. Colm Bairéad (Irlanda)

SEM URSOS. Jafar Panahi (Irã)

OPPENHEIMER. Christopher Nolan (EUA)



 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

O MELHOR ESTÁ POR VIR

Antonio Carlos Egypto

 


O MELHOR ESTÁ POR VIR (Il Sol Dell’Avvenire). Itália, 2023.  Direção: Nanni Moretti.  Elenco: Nanni Moretti, Marguerita Buy, Mathieu Amalric, Silvio Orlando, Barbara Bobulova. 95 min.

 

 “O Melhor Está Por Vir”, título do novo trabalho cinematográfico de Nanni Moretti, é também um bom lema: sempre esperar pelo melhor e trabalhar por isso.

 

Moretti, como ele mesmo se define, é um homem da classe média romana, de esquerda, acostumado a fazer a crítica do cotidiano, do mundo e de si mesmo.  Ele pertence a essa geração forjada na ideia de transformar as coisas para melhor e militar por isso.  Não por acaso, seu filme aborda um diretor de cinema, Giovanni , (ele próprio como ator), que faz um filme sobre o Partido Comunista Italiano (PCI), na Roma dos anos 1950.  Justamente no período da invasão soviética na Hungria, que colocava numa saia justa o PCI.  Diante da opressão e dos crimes stalinistas, seria necessário romper o vínculo umbilical com a União Soviética e assumir um posicionamento independente.  Está aí o conflito político.

 

“O Melhor Está Por Vir” é também um filme sobre o cinema.  As dificuldades da produção, orçamento apertado, contestações sobre a abordagem cinematográfica diante do mercado, de uma visão pessimista e trágica do realizador e de uma postura radical dele frente, por exemplo, à violência explorada no cinema, sem qualquer substância, só pelo caça-níqueis.  Ele tem razão, mas sua obsessividade incomoda todo mundo, sem limites, e aí fica complicado.

 

Há muitas outras coisas em questão, como o próprio casamento de Giovanni com a mulher, produtora de todos os seus filmes, e que agora também trabalha para alguém que tem concepções opostas às dele.  Em suma, ele não quer ver, mas seu casamento está em colapso e seu cinema, em cheque.  Além disso, a jovem filha deles encontrou um namorado por quem se apaixonou, que tem muita idade, é uma escolha inesperada que mexe com eles.

 


Enquanto o cineasta tenta realizar o filme que discute as posições da esquerda nos anos 1950, a realidade transforma o filme, ao mesmo tempo em que o filme reconfigura a realidade, reconstruindo o sonho por meio de uma visão crítica sobre o passado.  Além disso, as questões pessoais e profissionais atuais entram na trama do filme, modificando-o também.  Moretti adota uma visão dialética do mundo, tendo a mudança, a transformação, como a base das coisas.

 

Este é basicamente o recheio de uma comédia que provoca, faz pensar, remete à autoanálise tão necessária, não só ao nosso cineasta, mas a qualquer um de nós.

 

O resultado é muito bom, engraçado, denso, revelador da natureza humana e da importância do contexto político da vida, embora hoje tudo pareça tão diferente, estranho, para quem não perdeu a característica de querer tornar o sonho de um mundo melhor possível. Se a realidade atual decepciona, incomoda, existe o cinema para vender o sonho. Nanni Moretti remete ao povo a solução da encruzilhada em que nos metemos. Só assim o sonho ganha entusiasmo e uma força admirável.

 

Um elenco de primeira sustenta essa trama meio complicada, em que as questões existenciais são políticas e as questões políticas são filosóficas, existenciais. Atores e atrizes que primam pela sutileza, pela ambiguidade, pela dúvida, no desempenho de seus papéis criam personagens reais, facilmente identificáveis e falíveis, como todos nós.  Vale a pena conhecê-los.

 

“O Melhor Está Por Vir” tem estreia marcada para o início de janeiro de 2024 nos cinemas.

 

 

                              FELIZ ANO NOVO !





quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

A MENINA SILENCIOSA

Antonio Carlos Egypto

 

 


A MENINA SILENCIOSA (An Cailín Ciúin).  Irlanda, 2023.  Direção e roteiro: Colm Bairéad.  Elenco: Catherine Clinch, Carrie Crowley, Andrew Bennett, Michael Patric.  96 min.

 

O diretor e roteirista irlandês Colm Bairéad fez um filme bonito, sensível, emocionante: “A Menina Silenciosa”.  Passa-se na zona rural em que vive essa menina de 9 anos de idade, Cáit, num desempenho magnífico de Catherine Clinch, de 11 anos à época da filmagem.  O que ela vive, percebe, conclui, como reage ou não, é tudo o que sabemos. É por meio dela que acompanhamos os acontecimentos.

 

Ela fala pouco, só o necessário, mas o ritmo do filme nos permite apreciar calmamente as coisas, ir sentindo o que ela provavelmente sente.  Não é possível ficar alheio ao que se vê, tanto no abandono, descaso ou rejeição, quanto na acolhida, na ternura e no afeto. 

 

Cáit vive numa família grande e pobre, em que um novo bebê vem a caminho.  Acaba sendo levada para passar um tempo num local longínquo somente com um casal de meia-idade, parentes distantes, que ela desconhece. 

 

O pai a leva de carro, mas esquece de pegar a mala dela e parte, deixando-a só com a roupa do corpo.  Isso dará margem a que fatos dolorosos e complexos acabem por vir à tona, com o tempo. Nesse filme tudo tem seu tempo.

 

Enquanto isso, vamos apreciando as locações do campo, a natureza, os animais e lances de beleza nas pequenas coisas.  Por exemplo, numa caneca que pega água num poço profundo que abastece a casa.

 

Uma questão que a narrativa do filme coloca é sobre o que significa ser pai ou mãe, o papel da biologia, do acolhimento e do afeto, nessa história.  Além do desejo de ter e cuidar de filhos.

 

A trama de “A Menina Silenciosa” é uma adaptação de um conto, Foster, de Claire Keegan, co-roteirista no filme, publicado em 2010.

 

Além do título irlandês, em gaélico, “An Cailín Ciúin”, foi lançado internacionalmente com os títulos de “The Quiet Girl” e “Les Trois Lumières”, na França.  Está indicado ao Oscar de filme internacional pela Irlanda.

 

BOAS FESTAS

Para você que está lendo meu texto agora, meu desejo de Boas Festas, num fim-de-ano mais tranquilo e com esperanças para o futuro.  Saudações cinéfilas.  Grande abraço.




terça-feira, 12 de dezembro de 2023

DOIS FILMES

     Antonio Carlos Egypto

 

 


A SOCIEDADE DA NEVE (La Sociedad de la Nieve), Espanha, 2023.  Direção: J. A. Bayona.  Elenco: Enzo Vogrincic, Simon Hempe, Augustín Pardella, Matias Recalt, Rafael Federman. 145 min.

 

“A Sociedade da Neve” retoma a história do trágico acidente que envolveu o voo 571 da Força Aérea Uruguaia, que levava a seleção uruguaia de rúgbi ao Chile, em 1972.  O acidente ficou famoso na época pelas circunstâncias trágicas que o cercaram e pela sobrevivência quase impossível daqueles jovens, entre outros passageiros, que com a queda do avião foram forçados a viver num dos ambientes mais inóspitos e isolados do mundo, a Cordilheira dos Andes, na neve.  A retomada dessa história real se dá agora, a partir do livro escrito por Pablo Vierci, em 2008, com o mesmo título do filme.  Dos 45 passageiros, somente 29 sobreviveram de imediato.  Ao longo dos meses passados, surpreendentemente, 16 ainda conseguiam sobreviver, até que pudesse ocorrer o resgate.  O que tiveram que fazer para se manterem vivos, quem não sabe do caso, pode imaginar.  O filme narra a sequência do longo período em que esse grupo sobrevivente, que ia perdendo elementos também, se manteve, suas ações, decisões, desespero dentro do que restou do avião e frente às tempestades de gelo e tudo o mais.  O filme explora também o relacionamento que se dá entre eles nessa situação extrema, a sociedade que se estabelece ali.  É o que se denomina de filme catástrofe.  Mas pretendendo-se rigorosamente real.  Um dos sobreviventes verdadeiros até representou o papel de seu próprio pai no filme, no caso, Carlitos Páez.  O que havia para mostrar era também inevitavelmente escandaloso e arrasador.  O filme consegue, no entanto, fazer isso com sutileza, pelos menos, até certo ponto.  Era difícil, reconheço, contar os fatos sem cair no sensacionalismo e sem moralismos.  O resultado pode não ser agradável, claro, mas é palatável.  E coloca questões claramente em discussão, questões obviamente de vida e de morte, o tempo todo.  Sobreviver, em algumas circunstâncias, é um desafio sobre-humano, que tem um alto custo.  Isso o filme explora corretamente, eu diria, até minuciosamente, mas com cuidado.  Do contrário, não daria para aguentar.  Seria um produto de horror puro e simples.  Uma curiosidade: o filme se vale de um narrador, um dos personagens, que vai relatando o que se faz e como ele vê e participa dos fatos, seus próprios sentimentos, medos, dúvidas e sua deterioração física.  Ele morre um pouco antes de que o filme termine.  O final, portanto, é necessariamente coletivo.  Uma solução, embora estranha, razoável.  “A Sociedade da Neve” é uma produção Netflix que tem seu lançamento nos cinemas agora.

 


ALMAS GÊMEAS (Les Âmes Soeurs), França, 2023. Direção: André Téchiné.  Elenco: Noémie Merlant, Benjamin Voisin, Audrey Dana, André Marcon.  100 min.

 

A narrativa do novo filme de André Téchiné ( de “Rosas Selvagens”, 1994 e “As Testemunhas”, 2007), “Almas Gêmeas”, discute o papel da amnésia na vida de um personagem jovem.  David (Benjamin Voisin), um tenente do exército francês no Mali, é seriamente ferido, mas o que resta lesionado, depois de um duro tratamento e da acolhida emocional da irmã nesse período, é a amnésia.  Que parece resistir por muito tempo.  Ele vive uma nova vida, dispensando o passado, sem querer saber dele, incomodando-se com isso.  Apenas a retomada de algumas habilidades, como nadar e andar de moto, lhe parecem atraentes.  E o dia-a-dia ao lado da irmã, num belo lugar de natureza, um tanto isolado, parece contentá-lo.  Jeanne (Noémie Merlant) demonstra uma dedicação excepcional ao irmão, parecendo ocupar o lugar da mãe que eles não têm.  No entanto, ela se empenha em trazê-lo de volta, incorporando o passado que ele rejeita.  Ela busca um relacionamento mais profundo e verdadeiro, que não pode dispensar a memória.  Sentimentos reprimidos virão à tona, na medida em que os fatos sejam recordados.  Algo que ficou intocado terá de ser encarado.  Os personagens vão se desvelando em cena e é muito fácil para o espectador se envolver na história, não só pelo enigma, mas pela própria questão do que significa a ausência de memória, a negação do passado.  O que somos nós sem identidade, sem passado, ainda que o presente possa parecer suficiente?  Isso vale o filme.  Muito bem conduzido com delicadeza e sutileza, contando com uma atriz e um ator jovens muito talentosos, que valorizam seus personagens e transmitem as nuances de suas vivências de forma muito convincente.  O filme foi exibido no Festival Varilux do Cinema Francês, antes de entrar no circuito comercial.




quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

ROBERTO FARIAS, MEMÓRIAS DE UM CINEASTA

Antonio Carlos Egypto 

 



ROBERTO FARIAS, MEMÓRIAS DE UM CINEASTA.  Brasil, 2023.  Direção: Marise Farias.  Documentário.  90 min.

 

A filha mais nova do cineasta Roberto Farias (1932-2018), Marise Farias, realizou um importante documentário sobre a relação de seu pai com o cinema, sua obra e suas motivações em defesa do cinema brasileiro.  Além do registro de seu trabalho no cinema e na TV bastante conhecido e de sucesso, ela encontrou um livro de memórias que ele deixou para a posteridade, numa pasta do seu computador.  Essas memórias, narradas ao longo do filme pelo ator e irmão Reginaldo Faria, vão compondo uma história de amor pelo cinema e uma visão de quem se expressa pelo vínculo audiovisual sempre buscando alcançar o público.  Para isso, se vale de uma narrativa mais direta, capaz de ser compreendida e assimilada pelos espectadores.

 

Depois de passar pela chamada chanchada, realizando, por exemplo, “Rico Ri à Toa”, 1957, enveredou por um caminho mais autoral e social, com “Cidade Ameaçada”, 1960, “Assalto ao Trem Pagador”, 1962, e “Selva Trágica”, 1963.  Com a eclosão da ditadura militar, em 1964, aliada ao fracasso econômico de “Selva Trágica”, dedica-se ao cinema de entretenimento, com muita qualidade.  Realizou “Toda Donzela Tem um Pai que é Uma Fera”, 1966, e o grande sucesso da trilogia com Roberto Carlos como protagonista, em grandes produções: “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, 1968, “R C e o Diamante Cor-de-Rosa”, 1970, e “R C a 300 kms por hora”, 1971.  Voltaria ao gênero com “Os Trapalhões no Auto da Compadecida” 1986.  Mas antes deixaria como marca de sua carreira “Prá Frente, Brasil”, 1982, que explora os espaços de distensão e o declínio da ditadura, para abordar corajosamente a questão da tortura e desaparecimentos no Brasil, numa narrativa ficcional.

 


O documentário também mostra o papel do cineasta quando foi indicado e assumiu a Embrafilme, entre 1974 e 1978, quando em plena ditadura a produção brasileira de cinema cresceu e ganhou grande público, por meio também do incremento das cotas de tela.  Foi um período áureo do nosso cinema nesse sentido.  Os méritos de Roberto Farias parecem hoje inegáveis, mas havia contestação e oposição ao seu trabalho, na época.

 

O foco do documentário está no amor ao cinema, que Roberto Farias demonstrou com sua atuação e trabalhos, seu depoimento e como o descreveu no seu livro de memórias.  Destaca o profissional apaixonado, que envolveu toda a família com o cinema, com ideias muito claras sobre como realizar e promover o cinema brasileiro, conquistando o público e disputando o mercado com o produto estrangeiro.  Alcançou bastante êxito em seus objetivos, embora a situação tenha se revertido e hoje essa batalha seja ainda mais difícil e complicada do que foi naquele período passado, em que Roberto Farias atuava com intensidade.

 

24ª. EDIÇÃO DA RETROSPECTIVA DO CINEMA BRASILEIRO

Já começou a tradicional Mostra Retrospectiva dos filmes recentes do cinema brasileiro, para quem não pôde vê-los ou quer rever algum.  De hoje, 07 de dezembro de 2023, até 10 de janeiro de 2024, no Cinesesc, em São Paulo, rua Augusta, 2075. Veja a programação no site do Cinesesc.



terça-feira, 5 de dezembro de 2023

PUAN

Antonio Carlos Egypto

 

 


PUAN (Puan), Argentina, 2023.  Direção: Maria Alché e Benjamin Naishtat.  Elenco: Marcelo Subiotto, Leonardo Sbaraglia, Julieta Zylberberg, Alejandra Flechner.  109 min.

 

“Puan” nos coloca no ambiente acadêmico, da Universidade de Buenos Aires, em que a morte inesperada do chefe do Departamento de Filosofia engendra uma disputa de poder entre dois docentes. 

 

O primeiro, e personagem central do filme, é Marcelo (Marcelo Subiotto), que trabalhou muitos anos ao lado do antigo e respeitado chefe Caselli e espera ser seu sucessor no cargo.

 

O segundo é um professor que volta da Europa, da Alemanha, e para surpresa de Marcelo disputa o cargo.  É Rafael (Leonardo Sbaraglia), que esbanja extroversão e charme, enquanto Marcelo é preparado, mas tímido.

 

Nessa disputa de poder, entram Rousseau, Hobbes, Platão, Spinoza e outros mais.  Mas entra também um fator totalmente alheio à academia (ou assim se esperava que fosse), Rafael conquistou uma bela e famosa atriz de cinema, Vera Motta (Lali Espósito) e isso lhe dá um status especial.  É o moderno, o que vem para mudar.

 

Enquanto isso se desenvolve, o país entra em colapso com seus problemas econômicos (inflação, fuga de dólares, etc.) e a Universidade sente as consequências.  Os estudantes lutam com as suas possibilidades e isso é evidenciado pelo que se vê no campus e na própria sala-de-aula.

 


A disputa acadêmica terá de ser confrontada com a realidade que invade o mundo universitário.  Mas o filme não se furta de mostrar ideias e frases dos filósofos, que orientam o método pedagógico das aulas dos professores, ilustrando a beleza do conhecimento e da razão.  Já a práxis parece um pouco distante.

 

É uma narrativa interessante, inteligente, que se vale de dois grandes atores nos desempenhos principais.  Marcelo Subiotto, perfeito na caracterização e tipologia de seu papel.  O ótimo Leonardo Sbaraglia, no entanto, me parece inadequado enquanto figura, ele não sugere o charme e o encanto que o personagem precisa ter.  Sua interpretação é muito boa, mas sua aparência não casa bem com o personagem.  É preciso desviar disso para embarcar na história.

 

O filme é dirigido por Maria Alché e por Benjamin Naishtat, que é o realizador de “Vermelho Sol”, de 2018, um belo trabalho.  “Puan” foi exibido na 47ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e entra agora em cartaz no circuito comercial.  Mais um bom produto do cinema argentino, tão bem recebido pelos brasileiros e pelo mundo, e que corre sérios riscos de perder força diante do novo governo eleito pelos hermanos, que não pretende dar nenhum apoio à cultura.  Deve deixá-la à sua própria sorte ou se entendendo com os interesses da chamada iniciativa privada.