domingo, 15 de outubro de 2023

PRIMEIROS FILMES DA # 47 MOSTRA

Antonio Carlos Egypto

 

 


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Em função de sessões para a imprensa, já pude ver alguns filmes da 47ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e posso comentar.  Lembrar que a primeira semana da Mostra apresenta muitos filmes de novos diretores, aqueles que concorrem ao troféu Bandeira Paulista e que passa, pela clivagem do público.  Os mais votados serão submetidos ao júri.

                                                                                     

É curioso que os dois primeiros filmes de novos diretores a que assisti tratem de um tema similar: o abandono dos filhos pelos pais e mães.  Seria indicativo de uma tendência que preocupa os europeus, já que os dois filmes são europeus?

 

VADIO, filme português, de Simão Cayatte, nos põe em contato com dois personagens centrais.  André (Ruben Simões), um adolescente de 13 anos, abandonado abruptamente pelo pai, sem prévio aviso, numa instituição pública de menores da qual ele, naturalmente, foge.  Ele convive com a vizinha Sandra (Joana dos Santos), jovem mãe, educadora, que deixou para trás sua filha de 6 anos com a avó e não vai vê-la.  Ela desapareceu por um tempo da escola em que trabalha, inclusive. Trata-se, portanto, do encontro entre um filho abandonado pelo pai e uma mãe que abandonou sua filha.  Uma realização modesta, mas correta.  91 min.

 

ESTÁ CHOVENDO EM CASA (Il pleut dans la maison), filme belga dirigido por Paloma Sermon-Daï, mostra dois jovens, uma garota de 17 anos e seu irmão de 15, que vivem numa casa abandonada pela mãe, que some e não cuida deles, nem supre suas necessidades.  A goteira na casa é o mínimo.  Falta tudo o mais, além do afeto. Enquanto a menina se vira, trabalhando como faxineira, seu irmão faz pequenos furtos para ganhar algum dinheiro.  Quando a mãe reaparece, está bêbada, como de costume, e nada tem a dizer aos filhos.  Um bom trabalho que, se não chega a entusiasmar, nos envolve numa questão muito séria. 88 min.

 

O que estaria acontecendo às famílias?  Não são mais os filhos que querem fugir de casa, mas os pais e as mães?  Sintomático, não acham? 

 

Dinheiro Fácil

De diretores mais experientes vi outros dois filmes da Perspectiva Internacional da Mostra 47.  DINHEIRO FÁCIL (Dumb Money), filme estadunidense, de Craig Gillespie, australiano de origem.  O filme nos põe em contato com a realidade da manipulação do dinheiro nas Bolsas de Valores, dos mecanismos para fazer fortuna, que, na incrível história real contada, jovens conseguiram enorme sucesso e o tal dinheiro fácil, contrariando fatores de mercado e fazendo  Wall Street contra-atacar. Não dá para entender tudo que se tenta explicar na trama do filme, sem estar familiarizado com o tal “mercado”.  E o filme, embora bem realizado, não tem muito pique, não consegue empolgar.  105 min.

 

Quem também ficou longe de entusiasmar, na verdade me entediou, foi o filme japonês RODAS E EIXO (Shajiku), dirigido por Jumpei Matsumoto, baseado em livro de George Bataille.  Pretensioso, busca algum tipo de reflexão sobre os caminhos do sexo e do prazer, passando por garotos de programa para chegar a um ménage a trois, supostamente libertador.  Falta ritmo e luz a esse filme (ou será que a cópia que foi exibida é que estava escura demais?).  Não recomendo, mas se quiserem experimentar...  120 min.

 

O que recomendo com entusiasmo é que incluam algum filme do mestre Michelangelo Antonioni dentre os 23 que estão na retrospectiva dedicada à sua obra.  Ver ou rever filmes de Antonioni é sempre algo gratificante, esplendoroso.  Não se iludam com a tal fama da incomunicabilidade, tema de sua trilogia.  Comunicação é o seu forte.  Cinema que faz muita falta.  Deixou saudade.  Sua viúva e colaboradora, Enrica Fico Antonioni, faz parte do júri desta Mostra 47.

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quarta-feira, 11 de outubro de 2023

MEU NOME É GAL

Antonio Carlos Egypto 

 



MEU NOME É GAL.  Brasil, 2023.  Direção: Dandara Ferreira e Lô Politi.  Elenco: Sophie Charlotte, Luís Lobianco, Camila Márdila, Rodrigo Lelis, Dan  Ferreira, George Sauma.  87 min.

 

Creio que ninguém discorda que Gal Costa tenha sido uma das maiores cantoras da música popular brasileira.  Sua partida prematura, em 2022, significou uma grande perda para nossa cultura, ao mesmo tempo em que é hora de celebrar o legado importantíssimo que ela nos deixou. 

 

O filme “Meu Nome é Gal”, muito oportuno, dirigido por Dandara Ferreira e Lô Politi, que chega agora aos cinemas, no entanto, não surgiu em função de sua morte, mas para comemorar uma longa carreira musical de 57 anos, 30 álbuns e muitos prêmios.  Pensado pela própria Gal, que gostou da série documental “O Nome Dela é Gal”, realizada por Dandara Ferreira, a convidou para fazer uma ficção sobre sua vida e seu trabalho, com total liberdade, sem condições.  Ainda assim, não haveria como escapar de uma cinebiografia para incensar, homenagear, a artista.  Nada contra.  Gal merece todos os elogios pelo seu trabalho de qualidade impecável ao longo de décadas.

 

A questão estaria mais nos aspectos pessoais: Gal sempre foi muito discreta a respeito de sua vida familiar, sua timidez, sua sexualidade, entre outras coisas.  O filme tratou dessa dimensão com cuidado e elegância, mas não deixou de abordá-las.

 

O centro do filme, porém, é a carreira, a vida artística de Gal Costa.  E, num corte específico, o período dos anos 1960 e 1970, quando surge a identidade artística Gal Costa, deixando para trás a Maria da Graça ou Gracinha e a Bahia de origem.  No Rio de Janeiro, ao lado dos amigos baianos e outros, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dedé Gadelha, Wally Salomão, Torquato Neto, Tom Zé, se tornará a voz feminina do Tropicalismo.  Maria Bethânia não quis exercer esse papel.  Nara Leão estava lá também.  Gal foi uma das vozes mais expressivas e corajosas da contracultura brasileira do período de chumbo da ditadura militar.

 



A ditadura tem tanta importância na história do movimento tropicalista, pela opressão que exerceu junto à sociedade brasileira, que ela é um personagem muito relevante do filme “Meu Nome é Gal”.  E isso é correto. Basta dizer que Caetano e Gil tiveram de amargar prisão e exílio por conta do papel cultural desafiador que exerceram.  Os que aqui ficaram, Gal entre eles, precisaram, como dizia a música de Gil e Caetano que Gal lindamente cantava, estar atentos e fortes, sem medo de temer a morte.  Tudo podia ser “Divino e maravilhoso”, como costumava pregar o empresário Guilherme Araújo, mas tudo era perigoso e o risco, constante.  E um medo permanente.

 

A propósito, o desempenho de Luís Lobianco, como Guilherme Araújo, é um dos destaques do filme, que fez jus à importância que o empresário teve em toda essa história.  Do mesmo modo, a figura de Dedé teve um enorme papel na união e força artística do grupo e do movimento.  A atuação de Camila Márdila, fazendo Dedé, é outro grande destaque do filme.  Rodrigo Lelis, Dan Ferreira, como Caetano e Gil, respectivamente, assim como os demais do elenco, estão bem, porque seguiram uma linha correta de atuação: tentar viver os personagens sem imitá-los, já que são tão conhecidos nos gestos, modo de falar, de se expressar.  Seria caricato, mesmo.

 

O destaque maior, porém, é para a atriz Sophie Charlotte, que faz Gal Costa magnificamente.  E canta muito bem, até com um timbre que lembra o da Gal, sem os mesmos recursos, claro.  Daí ser correta também a opção de usar a voz de Sophie e a voz original de Gal, fundindo-as, de modo que nem sempre fica claro quando é uma ou quando é outra.

 

Essa cinebiografia, que celebra Gal, merece ser vista e o canto dela merece ser ouvido sempre.  É entusiasmante, vigoroso.  Depois do período retratado no filme, Gal continuou fazendo tantas coisas até o final da vida que outros filmes podem se debruçar sobre isso.  Tem muito material, é só querer.  Acho que virá muita coisa mais por aí.



sábado, 7 de outubro de 2023

# 47 MOSTRA

 

Já está chegando a hora da edição 2023 da Mostra. Os cinéfilos, que já tem informações sobre os filmes que se destacam ou ganham prêmios em festivais, querem saber o que vem para a programação do evento. Para isso, estou reproduzindo, fazendo uma seleção do que me pareceu mais importante, parte do material disponibilizado à imprensa para divulgação. Por aqui dá para conferir os títulos de filmes já programados, cineasta, prêmios, indicações ao Oscar. E começar a fazer suas escolhas.

                  Antonio Carlos Egypto

 

 


De 19 de outubro a 1º de novembro, acontece em São Paulo a tradicional Mostra Internacional de Cinema. Compõem a seleção deste ano cerca de 360 filmes de 96 países.  A mostra acontece em 24 salas de cinemas, espaços culturais e CEUS espalhados pela capital paulista, incluindo exibições gratuitas e ao ar livre. Além disso, as plataformas Itaú Cultural Play, Sesc Digital e Spcine Play vão dar acesso gratuito a títulos selecionados pela curadoria do evento.

 

Anatomia de uma Queda (Anatomie D'une Chute), de Justine Triet, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, abre a 47ª Mostra na quarta-feira, dia 18, na Cinemateca Brasileira, em sessão para convidados.

 

Entre os títulos confirmados para a 47ª edição estão Maestro, de Bradley Cooper, A Teoria Universal, de Timm Kröger, Ervas Secas, de Nuri Bilge Ceylan, Fallen Leaves, de Aki Kaurismaki, A Besta, de Bertrand Bonello, Bom Dia à Linguagem, de Paul Vecchiali, Mulher de…, de Malgorzata Szumowska e Michal Englert, O Livro das Soluções, de Michel Gondry, Juventude (Primavera), de Wang Bing, Na Água, de Hong Sang-soo, Evil Does Not Exist, de Ryûsuke Hamaguchi, La Chimera, de Alice Rohrwacher, Anselm - 3D, de Wim Wenders, Fechar os Olhos, de Victor Erice, e O Espectro do Boko Haram, de Cyrielle Raingou. A arte do cartaz da 47ª Mostra é assinada pelo italiano Michelangelo Antonioni, que recebe uma tripla homenagem. O festival faz uma retrospectiva que conta com 23 títulos do cineasta. Serão exibidos curtas e longas, documentários e ficções, realizados entre 1947 e 2004.

 

Além disso, entre os dias 23 de outubro e 17 de novembro, 24 pinturas de Antonioni ganham exposição com entrada franca no Instituto Italiano de Cultura de São Paulo. E ainda, para completar a homenagem ao mestre Antonioni, o seu roteiro Tecnicamente Doce terá uma leitura feita por grandes atores e dirigida pelo cineasta André Ristum. Uma oportunidade para o público da Mostra ver a preparação do futuro filme.

 

A 47ª Mostra também exibe o marco do cinema de vanguarda soviético Um Homem com uma Câmera (1929), de Dziga Vertov, com nova trilha composta pelo compositor, flautista e professor Luiz Henrique Xavier.

 

Em homenagem ao dramaturgo, diretor, ator e encenador José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, morto em julho, o festival faz uma sessão especial de 25. O filme, dirigido por ele e Celso Luccas, registra as transformações provocadas pela Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). O longa foi apresentado na primeira Mostra Internacional de Cinema, em 1977, sem a presença dos diretores, exilados pela ditadura militar.

 

Também ganham exibição as cópias restauradas dos clássicos Amor Louco (1969), de Jacques Rivette, Vale Abraão (1993), de Manoel de Oliveira, O Retorno à Razão (1923), de Man Ray, Corisco & Dadá (1996), de Rosemberg Cariry, O Sangue (1989), de Pedro Costa, e Underground: Mentiras de Guerra (1995), de Emir Kusturica.

 

Além de integrar o júri desta edição da Mostra, Kusturica vai receber o Prêmio Leon Cakoff, que também será entregue a Júlio Bressane, na abertura do evento. Integram a programação os dois filmes mais recentes do cineasta carioca, o documentário A Longa Viagem do Ônibus Amarelo e a ficção Leme do Destino.

 

Serão lançados durante o festival dois livros que celebram os trabalhos de dois grandes nomes da crítica brasileira: “Inácio Araújo - olhos livres”, organizado por Sérgio Alpendre e Laura Loguercio Cánepa, e “A Arte da Crítica”, de Luiz Zanin Oricchio.

 

FILMES CONFIRMADOS | PREMIADOS

 

A programação da 47ª Mostra conta com filmes inéditos que se destacaram nos principais festivais internacionais em 2023.

 

Do Festival de Veneza, além do já citado filme de Hamagushi, vencedor do grande prêmio do júri e do prêmio da crítica, vem Paraíso em Chamas, de Mika Gustafson, vencedor da Mostra Orizzonti de melhor direção; El Paraíso, de Enrico Maria Artale, que ganhou o prêmio de melhor roteiro na Mostra Orizzonti e que deu a Margarita Rosa de Francisco o prêmio de melhor atriz da Mostra Orizzonti; O Amor É uma Arma, de Lee Hong-chi, prêmio de melhor primeiro filme; Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário, de Ariane Louis-Seize, vencedor da Giornatta; Malqueridas, de Tana Gilbert, vencedor do prêmio de melhor filme da Semana Internacional da Crítica.

 

De Cannes, além do grande vencedor da Palma de Ouro, Anatomia de uma Queda, e dos já citados Ervas Secas, vencedor do prêmio de melhor atriz para Merve Dizdar, e Fallen Leaves, vencedor do prêmio do júri, serão exibidos na 47ª Mostra Tiger Stripes, de Amanda Nell Eu, vencedor do grande prêmio da Semana da Crítica; o brasileiro A Flor do Buriti, de João Salaviza e Renée Nader Messora, prêmio de melhor equipe da mostra Um Certo Olhar; Dentro do Casulo Amarelo, de Pham Thien An, vencedor da Câmera de Ouro; Está Chovendo em Casa, de Paloma Sermon-Daï, prêmio do júri da Semana da Crítica. Também integram a programação Criatura, de Elena Martin, e Um Príncipe, de Pierre Creton, ambos premiados na Quinzena dos Realizadores.

 

Dos premiados no Festival de Berlim, estão confirmados nesta edição: No Adamant, de Nicolas Philibert, Urso de Ouro de melhor filme; Afire, de Christian Petzold, Urso de Prata; Samsara - A Jornada da Alma, de Lois Patiño, prêmio especial do júri da Mostra Encontros; Névoa Prateada, de Sacha Polak, prêmio do júri do Teddy Award para a atriz Vicky Knight.

 

Do Festival de San Sebastián, além do filme de Hamaguchi, vencedor do prêmio Greenpeace, serão exibidos Puan, de María Alché e Benjamín Naishtat, prêmio de melhor roteiro e ator para Marcelo Subiotto; O Castelo, de Martin Benchimol, prêmio da mostra Horizontes; O Auge do Humano 3, de Eduardo Williams, que recebeu o prêmio Zabaltegi-Tabakalera; The Royal Hotel, de Kitty Green, que levou o prêmio RTVE, Criatura, de Elena Martín, prêmio Dunia Ayaso; e Na Ponta dos Dedos, de Christos Nikou, prêmio Fipresci.

 

Do Festival de Locarno, a 47ª Mostra exibe Zona Crítica, de Ali Ahmadzadeh, vencedor do Leopardo de Ouro de Melhor Filme; Não Espere Muito do Fim do Mundo, de Radu Jude, que venceu o prêmio especial do júri e menção especial do prêmio independente do júri; Stepne, de Maryna Vrod, vencedor dos prêmios de melhor direção e Fipresci; Bons Sonhos, de Ena Sendijarevic, prêmio de melhor atuação para Renée Soutendijk; Sonhando e Morrendo, de Nelson Yeo, vencedor dos prêmios melhor primeiro filme e Leopardo de Ouro da mostra Cineastas do Presente; Camping do Lago, de Eléonore Saintagnan, vencedor do prêmio especial do júri da mostra Cineastas do Presente; e Excursão, de Uma Gunjak, que recebeu menção especial da mostra Cineastas do Presente.

 

De Rotterdam, além do já citado O Espectro de Boko Haram, vencedor do Tigre, principal prêmio do festival, será exibido La Palisiada, de Philip Sotnychenko, que recebeu o prêmio Fipresci.

 

Do Festival de Sundance, serão exibidos Shayda, de Noora Niasari, vencedor do prêmio do público da competição internacional, 20 Dias em Mariupol, de Mstyslav Chernov, prêmio do público de documentário da competição internacional, Devagar, de Marija Kavtaradze, prêmio de melhor direção da competição internacional, The Persian Version, de Maryam Keshavarz, prêmio do público e prêmio Waldo Salt de melhor roteiro da competição americana, A Memória Infinita, de Maite Alberdi, grande prêmio do júri para documentário da competição internacional, Irmandade da Sauna a Vapor, de Anna Hints, que levou o prêmio de melhor direção de documentário da competição internacional, E o Rei Disse, que Máquina Fantástica, de Axel Danielson e Maximilien Van Aertryck, prêmio especial do júri de documentário da competição internacional, Animalia, de Sofia Alaoui, prêmio especial do júri da competição internacional, Quando Derreter, de Veerle Baetens, prêmio especial do júri da competição internacional para a atriz Rosa Marchant.

 

A Mostra também exibe dois filmes que foram premiados no Festival de Cinema de Animação de Annecy: Frango para Linda!, de Chiara Malta e Sébastien Laudenbach, prêmio de melhor filme, e Robot Dreams, de Pablo Berger, vencedor do grande prêmio Contrechamp de melhor filme.

 

De Karlovy Vary, integram a programação da Mostra Lições de Blaga, de Stephan Komandarev, vencedor do grande prêmio do festival, do prêmio do júri ecumênico e do prêmio de melhor atriz para Eli Skorcheva, Fremont, de Babak Jalali, que recebeu o prêmio de melhor diretor, e Cidadão Santo, de Tinatin Kajrishvili, menção especial do júri ecumênico.

 

INDICADOS AO OSCAR®

 

A seleção de títulos também traz 15 obras já indicadas por seus respectivos países para concorrer a uma vaga ao Oscar® de melhor filme internacional: da Austrália, Shayda, de Noora Niasari; da Bósnia e Herzegovina Excursão, de Una Gunjak; da Bulgária, Lições de Blaga, de Stephan Komandarev; do Chile, Los Colonos, de Felipe Gálvez Haberle; da Eslováquia, Fotofobia, de Ivan Ostrochovský e Pavol Pekarcík; da Estônia, Irmandade da Sauna a Vapor, de Anna Hints; da Finlândia, Fallen Leaves, de Aki Kaurismaki; da Geórgia, Cidadão Santo, de Tinatin Kajrishvili; da Lituânia, Devagar, de Marija Kavtaradze; da Holanda, Bons Sonhos, de Ena Sendijarevic; do Peru, A Ereção de Toribio Bardelli, de Adrián Saba; da Romênia, Não Espere Muito do Fim do Mundo, de Radu Jude; da Suécia, Oponente, de Milad Alami; da Turquia, Eras Secas, de Nuri Bilge Ceylan; da Malásia, Tiger Stripes, de Amanda Nell Eu; e da Ucrânia, 20 Dias em Mariupol, de Mstyslav Chernov.

 

MOSTRA BRASIL

A 47ª Mostra vai exibir cerca de 60 longas brasileiros. Eles integram as seções Apresentação Especial, Competição Novos Diretores e Perspectiva Internacional.

 

A partir do dia 14 de outubro começa a venda de permanentes e pacotes de ingressos.

 

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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

OS FILHOS DOS OUTROS

Antonio Carlos Egypto

 

 



OS FILHOS DOS OUTROS (Les enfants des autres).  França, 2022.  Direção: Rebecca Zlotowski.  Elenco: Virginie Efira, Roschdy Zem, Chiara Mastroianni, Callie Ferreira Goncalves.  104 min.

 

A questão central do filme “Os Filhos dos Outros”, da diretora Rebecca Zlotowski, é a maternidade vista pela ótica feminina.

 

O fio condutor da história é a personagem Rachel, vivida por Virginie Efira, em ótimo desempenho, cheio de vida, de nuances emocionais, muito competente. Rachel é uma professora, que lida com alunos do ensino médio, dedica-se às suas aulas de violão, tem seus amores, mas nunca engravidou.  No filme, ela associa isso à morte de sua mãe por acidente de carro, em que ela própria sobreviveu, criança.  Isso a teria impedido psicologicamente de buscar a maternidade.  Porém, ela tem o desejo de ser mãe e, ao chegar aos 40 anos, sente que seu tempo para decidir sobre isso está acabando.  Seu médico enfatiza isso. 

 

Um novo relacionamento com um homem, casado, em processo de separação, a coloca na condição de madrasta da filha dele.  Essa circunstância, com seus apelos emocionais e dificuldades, assume o centro da trama.

 

Uma mulher que não é mãe se dedica a cuidar de uma menina de 4, 5 anos, acoplada à relação amorosa, enquanto segue cuidando de seus alunos, em especial, um deles, que não consegue encontrar seu prumo aos 16 anos.  Ou seja, ela se dedica a cuidar dos filhos dos outros.  O que pode ser um grande desafio, envolver muitos problemas, mas também trazer gratificações importantes.

 

O drama vai por aí, com a maternidade definindo o papel da mulher, pelo menos, nessa etapa da vida.  É bem verdade que a personagem explicita, em uma fala, que não acredita que a mulher precise ter filhos ou que seja menos realizada se não for mãe.  Apesar disso, reconhece o desejo em si mesma.  Menos mal.  Relativiza o peso da maternidade na vida de todas as mulheres.  Afinal, elas podem ser o que desejarem ser, sem a obrigação da maternidade.  São infinitas as formas de ser mulher para além da maternidade.

 


O filme “Os Filhos dos Outros” coloca questões interessantes e importantes nessa temática e é bem realizado.  Com uma narrativa linear, acadêmica, sem maiores inovações e sem cenas muito marcantes visualmente falando, no aspecto emotivo, sim.  Tem leveza, também. 

 

Oferece um bom desempenho do elenco, não só da protagonista, mas como um todo e tem uma criança que deve encantar o público que vai assistir ao filme, a atriz mirim Callie Ferreira Goncalves.  Destaque também para o ator Roschdy Zem.  Um bom trabalho da cineasta Rebecca Zlotowski.

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Mostra de Cinema Russo e Soviético, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, de 05 a 15 de outubro, em sua 9ª. edição, apresenta 14 longas-metragens e um média, produções russas recentes e clássicos soviéticos e russos fazem parte da programação, que é toda gratuita.  Destaque para “Khitrovka, o Signo dos Quatro”, de 2023, dirigido por Karen Shakhnazarov, com exibições previstas para dia 05 de outubro, 5ª. feira, às 19:30 h, dia 07, sábado, às 18:00 h, dia 15, domingo, 19:45 h.  Para conferir a programação completa dessa Mostra e da Cinemateca, entre aqui:

www.cinemateca.org.br/programação

 

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

4 FILMES

      Antonio Carlos Egypto

 

 

Nesta semana, de hoje a 04 de outubro, todos os cinemas estão rebaixando os valores dos ingressos a $12,00 (exceto 3D e sessões especiais).  Boa oportunidade para ver alguns bons filmes em cartaz.  Eu começo por sugerir dois filmes que vi na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado, que entraram agora.

 


Um é o filme italiano AS OITO MONTANHAS (Le otto montagne), de 2022, dirigido por um casal de belgas, Felix van Groeningen e Charlotte Vandermeersch, um trabalho tocante sobre amizade entre dois homens distintos que têm em comum a vivência, eventual para um, constante para o outro, da vida nas montanhas.  Os atores principais são Alessandro Borghi e Luca Marineli.  147 min.

 


O outro é TERRA DE DEUS (Vanskabte land), produção da Islândia e Dinamarca, dirigido por Hlynur Pálmson, em 2022, com Elliott Crosset Hove, Victoria Carmen Sonne, Ingran Eggert Sigurdsson, no elenco.  A história que nos conta a viagem de um padre dinamarquês, no século XIX, a uma remota região da Islândia e que é engolido pela paisagem inóspita e pela relação com o mundo das pessoas, perdendo-se em sua missão, é extraordinariamente bela, visualmente.  Pelas locações espetaculares e pela belíssima fotografia que nos remetem a um mundo distante e estranho. Gelado, naturalmente.  143 min.

 


NOSTALGIA, outro filme italiano de 2022, dirigido por Mario Martone, com Pierfrancesco Favino, Francesco Di Leva, Tommaso Ragno, Aurora Quattrocchi, Sofia Essaidi, nos leva à retomada de um passado marcante, embora prematuro, que estava negado, “esquecido”, por quarenta anos.  O personagem Felice construiu sua vida pelo mundo, casou-se, venceu financeiramente, vive no Cairo, mas, em função de ver sua mãe no fim da vida, volta a Nápoles e encontra a cidade muito mudada, com sua região entregue ao banditismo.  Ocorre que seu grande amigo de infância, que ele quer rever e com ele resolver questões pendentes, é ninguém menos do que o bandido-mór da localidade. Um padre tentará ajudá-lo, ele poderá prestar uma assistência final a sua mãe já velhinha (uma cena tocante é o banho que ele dá nela), mas a trama se adensará nos lembrando que não se volta ao que se foi, nada será igual, nem o lugar, nem as pessoas, nem nós mesmos.  A nostalgia é uma ilusão, como veremos aqui, bem perigosa.  117 min.

 


E, por último, destacar o trabalho documental do diretor brasileiro, de ancestrais argelinos, Karim Aïnouz, de filmes como “A Vida Invisível”, de 2019, “Praia do Futuro”, de 2014, “Madame Satã”, de 2002.  Em MARINHEIRO DAS MONTANHAS ele nos leva à sua viagem solitária a Argel e a Cabília, localidade natal de seu pai argelino.  Conversa imaginariamente com sua mãe, morta recentemente, tentando entender o amor que ela viveu com o pai, que sumiu.  Ele nunca aparece em cena, nem o pai, que está vivo, mas não foi com ele.  Acompanhamos a sua jornada pela Argélia que ele está conhecendo, na paisagem, nas pessoas, nas vestes, na comida, no contexto social empobrecido e também autoritário.  Esse road movie  solitário nos traz a “intimidade” da Argélia, além da epopeia pessoal/familiar do diretor cearense que encontrou até um homônimo em Cabília.  E pensar que por aqui ele sempre tem de soletrar seu nome.  O filme é de 2021 e tem 80 minutos.




quarta-feira, 27 de setembro de 2023

PÉROLA

                Antonio Carlos Egypto

 



PÉROLA.  Brasil, 2022.  Direção: Murilo Benício.  Elenco: Drica de Moraes, Leonardo Fernandes, Rodolfo Vaz, Cláudia Missura.  90 min.

 

“Pérola” é a história de uma mãe, daquelas muito especiais, pelo estilo de se comportar, pela dedicação à casa e à família, mas também pelas excentricidades e pelo apelo ao álcool, à bebida, como combustível diário da eletricidade dessa figura.  Seria preciso uma grande atriz para dar conta desse papel.  O filme “Pérola” conta com Drica de Moraes brilhante, luminosa.  Só ela já vale o filme.

 

O personagem central da história, ou melhor, o que conduz a trama e nos mostra quem é Pérola é, na verdade, seu filho Mauro, papel de Leonardo Fernandes, excelente, também.

 

Mauro, o filho, é o escritor e dramaturgo Mauro Rasi (1949-2003), que se colocou na peça teatral que escreveu com muita honestidade, com uma riqueza de detalhes de sua vida familiar (e também profissional, artística) e conquistou o público no teatro.  “Pérola” foi um sucesso teatral enorme e é o que impulsionou sua adaptação ao cinema.

 

Era um risco, até porque o texto contava com a reação direta do público numa série de situações curiosas, engraçadas, provocantes, e que pressupunham identificação da plateia com aquela realidade, bastante familiar, do interior de São Paulo, da Bauru de origem de Mauro Rasi e de acolhida ao seu retorno.  Ou não.  Ou, talvez, quem sabe.

 




A adaptação deu certo, flui bem, creio que vai provocar envolvimento do público, semelhante ao que se deu no teatro, e do qual fui testemunha na época.  Mérito de Murilo Benício, o diretor, que a maioria das pessoas conhece como ator, mas que já mostrou seu talento de cineasta em “O Beijo no Asfalto”, de 2018, em que fez uma versão em construção do texto de Nelson Rodrigues muito eficiente e criativa.  Atuou também como roteirista nesse filme e em “Pérola”.

 

A Pérola da peça teatral foi Vera Holtz, num papel marcante e inesquecível, mas Drica de Moraes faz jus ao mesmo papel no cinema.  Não vou comparar Rodolfo Vaz com Sérgio Mamberti, que chegou a fazer o pai de Mauro no teatro.  Dizer apenas que a atuação de Rodolfo, como o marido que não só admira como faz escada para a mulher, ou seja, oferece a ela todas as condições de brilhar e de se destacar, incluindo os drinques especiais que cria, é muito bom e cativante também.

 

O filme tem tudo para funcionar bem para um público amplo, é diversão de qualidade e bem inteligente.  Resta saber se chegará ao número de pessoas que poderiam apreciá-lo.  Aí vai depender do lançamento, do marketing, essas coisas.  Torço pelo sucesso do filme, reeditando o do teatro.  Antes de mais nada, porque o texto de Mauro Rasi faz por merecer, mais uma vez.





quarta-feira, 20 de setembro de 2023

ELIS & TOM

                

Antonio Carlos Egypto

 

 



ELIS & TOM, SÓ TINHA DE SER COM VOCÊ, documentário brasileiro de 2022, dirigido por Roberto de Oliveira e Jom Tob Azulay, com roteiro de Nelson Motta,    encanta qualquer um que tenha sensibilidade musical.  Vai em busca de resgatar uma experiência de 1974, já tem quase 50 anos, quando Elis Regina, ao completar 10 anos de carreira artística, muitíssimo bem-sucedida, ganha de presente de sua gravadora o projeto de realizar um disco histórico ao lado de Antônio Carlos Jobim, reconhecidamente compositor maior da nossa música.  Além de maestro, arranjador e instrumentista exímio. 

 

Figuras emblemáticas que tinham de se entender para produzir juntas o que, hoje sabemos, seria um dos mais importantes discos de toda a história da música popular brasileira.  Como o filme conta, não foi fácil.  César Camargo Mariano, pianista e arranjador no disco, relata sua epopeia naquele estúdio MGM de Los Angeles, Califórnia, onde o disco foi realizado.

 

Inicialmente, César foi rejeitado por Tom, que esperava dar o rumo ao trabalho e se surpreendeu com a vinda dele e dos músicos que atuariam no disco.  Afinal, era a obra de Tom que estava em jogo e ele não se via como mero convidado no LP de Elis.  O clima ficou difícil, César tratou de lidar com essa rejeição, Elis chegou a pensar em desistir e fez as malas para voltar, Roberto de Oliveira conseguiu evitar que isso acontecesse. O talento de todos e a paixão musical acabaram por uni-los, o clima foi mudando e o trabalho andou.  Com entusiasmo, paixão, muito empenho e até relaxamento e brincadeiras.  A faixa “Águas de Março”, com Tom e Elis se divertindo, é a maior comprovação disso.

 

O clima de liberdade muito diferente daquele que existia no Brasil, com a ditadura militar, também ajudou.  Músicos brilhantes, que participaram do disco, também contam bastidores da produção, enquanto o filme nos lembra quem eram e o que faziam Elis e Tom, separados e reunidos nesse trabalho.  Tarefa difícil essa de sintetizar as carreiras de Elis Regina e de Tom Jobim em poucos minutos, para quem não os conheça direito, talvez porque muito jovem.  A opção por destacar a carreira internacional de cada um resolveu, em parte, a questão.

 


O destaque para a relação, os encontros entre os dois, cantando juntos outras músicas, como “Na batucada da vida”, de Ary Barroso, e “Céu e Mar”, de Johnny Alf, nos mostram uma afinidade musical que vai muito além das simpatias ou antipatias pessoais, ou dos ciúmes e da competição entre eles e com César Camargo Mariano, brilhante arranjador como o Tom, que era grande amor de Elis na época.

 

A proposta de um trabalho conjunto desses dois monstros sagrados da música brasileira, que parecia impossível de se viabilizar, aconteceu.  E o filme “Elis & Tom” é o registro dessa maravilha musical em vídeo.  Por que levou tanto tempo para ser apresentado nos cinemas?  Difícil saber, mas a espera valeu, porque o trabalho de restauração da imagem e do som está perfeito.

 

Música da melhor qualidade possível e imaginável toma conta da tela e dos nossos ouvidos de forma arrebatadora.  Sei que estou me valendo de adjetivos até pomposos para falar desse documentário.  Mas, podem crer, o filme vale tudo isso.  Ganhou o prêmio da Crítica na 46ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, não foi à toa.  É um trabalho realmente espetacular.   100 min.

 


sexta-feira, 15 de setembro de 2023

ESTRANHA FORMA DE VIDA

Antonio Carlos Egypto

 

 



ESTRANHA FORMA DE VIDA (Strange Way of Life).  Espanha, 2022.  Direção e roteiro: Pedro Almodóvar.  Elenco: Pedro Pascal, Ethan Hawke, Manu Rios, José Condessa. 31 min.

  

Pedro Almodóvar está com filme novo nos cinemas.  E, como sempre, rompendo paradigmas.  Para começar, porque o filme que ele está lançando é muito curto, dura meia hora, tempo insuficiente para compor uma sessão de cinema.  Sendo ele quem é, no entanto, está lá nas telonas, complementado por uma longa entrevista que deu a uma jornalista, falando sobre o filme, dissecando seu processo de criação e comentando muita coisa mais sobre a sua obra em geral e não apenas “Estranha Forma de Vida”.

 

O filme é falado em inglês, assim como seu trabalho anterior, “A Voz Humana”, com Tilda Swinton, também um curta.  Aqui protagonizam o ator norte-americano Ethan Hawke e Pedro Pascal, chileno de origem, mas com carreira em Hollywood.  Dirigir em inglês significa um desafio a mais para o diretor espanhol, talvez por isso a opção pelo curta-metragem.  O cineasta experimenta, testa seu sistema de trabalho em outro idioma, com atores habituados ao padrão hollywoodiano de realização.  O resultado é ótimo, sem problemas.

 


Nesse filme, Almodóvar encara o gênero western, algo incomum na sua filmografia, embora ele sempre tenha valorizado alguns faroestes clássicos e incluído cenas em seus filmes.  O universo do gênero lhe interessa, desde que possa sair dos clichês habituais, que envolvem preconceitos e uma noção de masculinidade, digamos, restrita a um padrão estereotipado.  Para ele, os cowboys têm de olhar para seus desejos e a atração física que pode surgir entre dois homens.  Constrói, assim, um faroeste gay.  Procura também fugir do óbvio, transmitindo pelos diálogos e pela sutileza de atos o clima erótico necessário ao tema.  Foi o que ele fez em “Estranha Forma de Vida”.

 

A inovação da homossexualidade na cena do western já havia sido encarada por Ang Lee, em “O Segredo de Brokeback Mountain”, que chegou a ser cogitado para ser dirigido por Almodóvar.  O filme de Lee resultou muito bom.  Assim como “Ataque dos Cães”, de Jane Campion, outro excelente trabalho.  O que não impediu Almodóvar de incluir seu toque pessoal nesse curta que explora o erotismo pelas bordas e constrói uma boa história, que poderia perfeitamente ser explorada num longa.  Se a inspiração foram os westerns norte-americanos e os cenários os dos faroestes spaghetti de Sérgio Leone e outros, a marca literária e visual almodovariana cumpre seu papel muito bem, sem deixar margem a dúvidas.

 

E o que dizer da escolha de um fado, de Alfredo Duarte e Amália Rodrigues, cantado em português por Caetano Veloso em falsete, como presença musical relevante no filme?  Mais do que isso, que deu nome a ele? Quem poderia esperar tal contribuição artística a uma obra como essa?   Uma incrível quebra de paradigma, embora totalmente integrada à proposta do filme e de seus personagens.  Coisas do gênio espanhol do cinema contemporâneo.




terça-feira, 12 de setembro de 2023

RETRATOS FANTASMAS

Antonio Carlos Egypto

 


 

RETRATOS FANTASMAS.  Brasil, 2023.  Direção: Kleber Mendonça Filho.  Documentário.  95 min.

 

“Retratos Fantasmas” se apresenta como um documentário em primeira pessoa.  É isso, sem dúvida.  Mas também é bem mais do que isso.

 

O cineasta Kleber Mendonça Filho revisita seu passado no centro de Recife, a partir da casa em que viveu com a família, fruto de uma concepção da mãe e que foi reformada diversas vezes, surgindo com uma nova cara e novas divisões para atender a novas demandas e mudanças da família, da cidade e do mundo.  O convívio com a casa, com suas imagens, lembranças e registros históricos já nos remete às mudanças urbanas vividas pela cidade  de Recife.  Mas ele avança para sua paixão e  métier  e vai em busca das salas de cinema do centro da cidade que marcaram sua vida.  Por meio delas, escreve uma trajetória de amor ao cinema, enquanto registramos com pesar o que se perdeu nesse tempo, histórico e humano, que remete ao século XX.

 

Desse modo, o filme trabalha dimensões de reflexão que dizem respeito ao indivíduo, à memória, à experiência vivida, mas contemplam a cidade, como referência ao coletivo que nos molda, tanto quanto o fazem as ligações afetivas primárias.  Uma coisa não existe sem a outra, parece nos dizer Kleber.  Tudo se imbrica.  Nossos gostos e expressões pessoais refletem os costumes do tempo, mesmo que a vida pessoal possa ser muito criativa e transformadora.  Revolucionária, às vezes.  Mas somos criaturas do nosso tempo e nossos sonhos e realizações dialogam com ele, o tempo.

 

No desenvolvimento da narrativa de “Retratos Fantasmas”, como o nome já indica, também aparecem fantasmas, fantasias, aparições, crenças, que se imiscuem e dialogam com a chamada realidade, aquilo que faz parte da nossa vida de todos os dias.  Kleber incorpora isso à sua história e memória, o que relativiza a própria ideia de documentário, porque esse já é o terreno da ficção, embora para alguns essa ficção seja percebida como tão verdadeira que não se distingue da vida cotidiana.

 


“Retratos Fantasmas” é um filme muito bem construído e rico na evocação de estímulos que, de um modo ou de outro, servem de provocações a todos.  Afinal, cada um tem o seu Recife, o seu contexto, e é aí que vai se mover. 

 

A cidade de Recife é protagonista do filme na medida em que é o lugar de acolhida, o porto seguro, o mote da mudança, da paixão e do sonho.  O filme tem diferentes camadas de expressão, à medida em que remove aparências, registra a transformação, pede uma compreensão mais profunda daquilo que nos cerca, daquilo que está mais perto de nós, e acaba por nos remeter a questões sociais, políticas e econômicas, que são inevitáveis e indispensáveis.

 

Assim, o documentário pessoal se reveste de uma dimensão maior e muito mais interessante, que não nega a complexidade e abrangência da vida, de todos e de cada indivíduo.