domingo, 8 de março de 2020

COMENTANDO 4 FILMES

Antonio Carlos Egypto





FIM DE FESTA.  O carnaval acabou, mas enquanto, na quarta-feira de cinzas, um grupo de jovens ainda vive a energia que restou da euforia da festa, o pai de um deles, um policial, tem de voltar rapidamente de seu descanso para investigar a morte de uma turista francesa em Recife.  E tem de lidar com seu apartamento ocupado pelos amigos do filho.  Mais do que o desvendar do crime, o filme FIM DE FESTA, do pernambucano Hilton Lacerda, que já dirigiu “Tatuagem” em 2013, focaliza o personagem do policial Bruno e a forma como ele encara as situações que se apresentam.  Irandhir Santos tem um grande desempenho no papel desse policial, que parece viver uma ressaca, não exatamente do carnaval, mas da vida, do seu trabalho ou do momento atual.  Vemos como ele vai conduzir o caso, a expectativa e reações dos familiares e suspeitos, mas também como se relaciona com a homossexualidade do filho, a maconha, a folga dos jovens na sua casa e como ele enxerga sua própria vida.  Um retrato realista, nada esperançoso.  No elenco, Suzy Lopes, Gustavo Patriota, Amanda Beça, Safira Moreira, Leandro Vila.  Participações especiais de Hermila Guedes e de Jean-Thomas Bernardini (da distribuidora Imovision e do Reserva Cultural).  FIM DE FESTA recebeu os prêmios de melhor filme e melhor roteiro pelo júri oficial da última edição do Festival do Rio, 2019.  100 min.

FOTOGRAFAÇÃO, documentário de Lauro Escorel, de 2019, exibido no festival É TUDO VERDADE do ano passado, aborda a história da fotografia, de seus grandes criadores e dos registros de imagens do Brasil, dos pioneiros aos dias de hoje.  Uma imagem do nosso país, que vai se constituindo e se modificando, traduz a nossa identidade coletiva e nos mostra quem somos e a solidez do que somos.  Isso é importante frisar frente ao processo anticivilizatório que tenta se impor a nós.  Escorel contrasta essa bela história com a profusão da fotografação digital dos nossos dias e reflete sobre o impacto disso na sociedade contemporânea.  Ele tem grande experiência e atuação como diretor de fotografia no cinema brasileiro.  Tem, portanto, um olhar privilegiado e amadurecido sobre o tema que escolheu para documentar.  E o fez muitíssimo bem.  76 min.


DE QUEM É O SUTIÃ ?


DE QUEM É O SUTIÃ?  (The Bra), comédia alemã de 2018, dirigida por Velt Helmer, vai a uma região do Azerbaijão acompanhar a vida de um solitário maquinista de trem habituado a conduzir o veículo rente às casas, que estão tão próximas dos trilhos que colocam cadeiras, põem roupas para secar no varal ali mesmo.  Um garoto apita, avisando a chegada do trem.  Vai que um dia Nurlan, o maquinista em vias de se aposentar, esbarra num varal e derruba um sutiã azul.  Encontrar a dona da peça íntima pode lhe trazer muitas emoções, constrangimentos e novidades.  O filme é divertido, simpático, e tem uma curiosidade: é todo sem diálogos.  Não é um filme silencioso, tem som e muito bem explorado, mas não tem falas.  E olhe, não faz falta.  Lembram-se dos filmes “O Ilusionista” e “O Homem da Linha”, do diretor holandês Jos Stelling?  Vai por aí.  Afinal, cinema é, antes de tudo, imagem.  No elenco, Miki Manojlovic, Paz Vega, Chulpan Khamatova, Denis Lavant, Maia Morgenstern.  90 min.

AS INVISÍVEIS (Les Invisibles), dirigido por Louis-Julien Petit, de 2018, trata de mulheres em situação de rua, recém-saídas da prisão ou fugidas da família por conflitos, sem emprego e sem a mínima condição de competir no mercado de trabalho.  Elas estão num abrigo para mulheres sem teto, aos cuidados de assistentes sociais dedicadas, mas que encontram dificuldades de toda a ordem, legais, burocráticas, e da própria incapacidade de adaptação daquelas a quem atendem.  São muitas personagens, falta um pouco de contexto para quem não conhece a situação francesa, mas é um mergulho interessantíssimo na vida dessas mulheres.  O que é contado com dramaticidade, mas também com muito humor. Isso torna o filme mais atraente e menos pesado.  Por exemplo, uma personagem que busca trabalho faz questão de contar a todos os possíveis empregadores que esteve na prisão, porque quer ser absolutamente honesta e não mentir.  O que, obviamente, complica as coisas, visto que o preconceito contra presidiárias é enorme.  Como convencê-la de, ao menos, omitir essa informação?  No elenco, Patrícia Mouchon, Koukha Bonkherbache, Bérangère Toural.  102 min.

LEMBRETE - Já fiz a crítica do filme O OFICIAL E O ESPIÃO (J’Accuse) quando do prêmio César, que realmente escolheu Roman Polanski como diretor, apesar dos protestos.  O filme merece ser visto e entra em cartaz agora, no dia 12 de março.  A crítica pode ser acessada aqui. 





quarta-feira, 4 de março de 2020

MARTIN EDEN

Antonio Carlos Egypto






MARTIN EDEN (Martin Eden).  Itália, 2019.  Direção: Pietro Marcello.  Com Luca Marinelli, Carlo Cecchi, Jessica Cressy, Marco Leonardi, Vincenzo Nemolato.  129 min.


“Martin Eden”, uma fascinante história do escritor norte-americano Jack London (1876-1916), com elementos autobiográficos, deu origem a um filme italiano que discute questões atualíssimas.  Essas questões dizem respeito às relações entre as classes sociais refletidas pela literatura, à relação desta com o mercado editorial, à liberdade de expressão, à natureza da criação, ao compromisso ético do escritor consigo mesmo e com suas crenças políticas e responsabilidades sociais, ao papel do indivíduo nas transformações socioculturais e políticas.

O veículo para expressar os questionamentos é o personagem título do filme, o escritor Martin Eden, mostrado na complexidade necessária para abranger as diversas dimensões de sua experiência concreta, de suas angústias, contradições, de seu ativismo inspirado na leitura de Herbert Spencer (1820-1903), de suas relações com anarquistas e comunistas, de seu desenvolvimento como escritor a partir de uma vida de baixa renda, mirando a classe alta, tentando ser como eles.  Da forma como lidará com o sucesso tão buscado, mas, ao mesmo tempo, tão massacrante.

O contexto histórico é o do período anterior à Primeira Guerra Mundial, de grande efervescência cultural, propício à conquista de espaços e descobertas incentivadoras, mas tenso, conflitivo.  O foco do filme, porém, coerentemente com as teses de um chamado darwinismo social de Spencer, está no indivíduo, na sua batalha pessoal frente aos demais e à coletividade.  As sociedades se desenvolveriam a partir da realização individual de forma positivamente evolutiva.  Isso está no modo de ser do personagem, embora enfatizando mais o mistério do que o progresso inexorável.  Mais a crise do que o otimismo.




No papel do escritor Martin Eden está Luca Marinelli, um grande ator que mergulhou intensamente na atuação e conseguiu expressar muito bem as muitas faces, fases, sentimentos e pensamentos do personagem.  Teve o reconhecimento por essa brilhante performance, conquistando o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza, no ano em que Joaquin Phoenix levou tudo pelo papel em “Coringa”.  Marinelli foi o único a conseguir vencê-lo, ao menos uma vez.  “Martin Eden” foi bem recebido e premiado nos Festivais de Veneza, Toronto, Sevilha, e no Festival do Rio.

A direção de Pietro Marcello imprime a ”Martin Eden” uma dinâmica e uma força envolvidas por belas sequências que mesclam imagens ficcionais e documentais e, claro, alimentadas pelo desempenho criativo de Luca Marinelli, que está em todas as cenas, garantindo o filme com seu talento.  O elenco de apoio também está muito bem dirigido, sustentando a trama.

É verdade que o cinema italiano da atualidade não consegue competir com o grande cinema italiano do passado, mas isso não significa que não haja belos trabalhos a apreciar.  “Martin Eden” é um deles.





segunda-feira, 2 de março de 2020

PRÊMIO ABRACCINE 2020

Antonio Carlos Egypto

 A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), da qual também faço parte, elege a cada ano os melhores filmes, considerando os lançamentos em cinema, streaming, VOD, do ano anterior.  No caso, 2019.

Uma centena de críticos, distribuídos por quase todos os Estados brasileiros, indica os melhores filmes que, após troca de ideias e debates, passam por votação para a escolha do melhor, em cada categoria.  São escolhidos os melhores longa e curta nacionais e o melhor longa estrangeiro.

Este ano, a Abraccine decidiu divulgar não apenas o vencedor de cada categoria, mas também os 10 mais votados pelo conjunto de críticos da Associação.  Assim, se consegue um panorama mais amplo do melhor da produção cinematográfica do ano que passou.

Confiram a lista dos indicados e o vencedor em cada categoria.  Em seguida, recoloco as minhas críticas dos longas vencedores.

LONGA-METRAGEM BRASILEIRO
VENCEDOR:
BACURAU, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Completam o top dez, em ordem alfabética:
DEMOCRACIA EM VERTIGEM, Petra Costa
DESLEMBRO, Flávia Castro
DIVINO AMOR, Gabriel Mascaro
ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR, Marcelo Gomes
INFERNINHO, Guto Parente e Pedro Diógenes
NO CORAÇÃO DO MUNDO, Gabriel Martins e Maurilio Martins
LOS SILENCIOS, Beatriz Seigner
TEMPORADA, André Novais Oliveira
A VIDA INVISÍVEL, Karim Aïnouz
 


LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO
VENCEDOR:
PARASITA, Bong Joon-ho
Completam o top dez, em ordem alfabética:
ASSUNTO DE FAMÍLIA, Hirokazu Koreeda
CORINGA, Todd Phillips
DOR E GLÓRIA, Pedro Almodóvar
EM TRÂNSITO, Christian Petzold
ERA UMA VEZ EM HOLYWOOD, Quentin Tarantino
O IRLANDÊS, Martin Scorsese
NÓS, Jordan Peele
O PARAÍSO DEVE SER AQUI, Elia Suleiman
SYNONYMES, Nadav Lapid




D
CURTA-METRAGEM BRASILEIRO
VENCEDOR:
SETE ANOS EM MAIO, Affonso Uchôa
Completam o top dez, em ordem alfabética:
CARNE, Camila Kater
JODERISMO, Marcus Curvelo
A MULHER QUE SOU, Nathália Tereza
NEGRUM 3, Diego Paulino
QUEBRAMAR, Cris Lyra
SWINGUERRA, Bárbara Wagner e Benjamin de Burca
TEA FOR TWO, Julia Katharine
TEORIA SOBRE UM PLANETA ESTRANHO, Marco Antonio Pereira
TUDO QUE É APERTADO, RASGA, Fabio Rodrigues
             
                      



BACURAU
Antonio Carlos Egypto

BACURAU.  Brasil, 2018.  Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.  Com Sonia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Thomás Aquino, Silvero Pereira, Karine Teles, Antonio Saboia.  132 min.


“Bacurau”, o novo filme de Kleber Mendonça Filho (de “O Som ao Redor”, 2013, e “Aquarius”, 2015) e Juliano Dornelles é um western  brasileiro.  Segue a trilha dos históricos “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, 1963, e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, 1969, de Glauber Rocha (1938-1981).  Filmes que já se pautavam por grande força política e preocupação social, tentando desvendar um universo nordestino, marcado pela violência opressora, de um lado, e resistente, de outro.  Dialoga também com a produção nacional que sempre teve nos cangaceiros uma fonte de inspiração permanente e oportunidade de pensar e de criar a partir da realidade do nordeste brasileiro, para alcançar o país.

“Bacurau” incorpora novos elementos a tudo isso.  Tem invasores agressores e poderosos.  Que chegam a tirar o povoado do mapa e produzem assassinatos aparentemente inexplicáveis, se valendo até de drones com aspecto de disco voador.  Falam inglês, seu comandante é um alemão com pinta e comportamento de nazista, e os colaboradores que atuam com eles falando português, além do inglês, são desprezados e descartados na primeira oportunidade.  Ou seja, estamos no terreno da alegoria política, que soa tão atual, mas talvez seja mesmo uma constante da nossa história.  Até porque nada se nutre do momento atual, embora pareça inspirado nele.  Percepção acurada?  Premonição?   Visão apurada do processo histórico, vista da relação entre a casa- grande e a senzala e na dimensão internacional que as envolve.

“Bacurau” mistura ação e reflexão no mesmo produto.  É um filme forte, intrigante, provocador, mas é também uma aventura, muito envolvente.  Por isso, pode ser visto como um filme de gênero, embora não esteja preocupado em seguir cartilhas ou convenções.  Fala ao sentimento do público, mostra uma violência que tem de ser decifrada e que, afinal, nos leva a algumas conclusões.  Talvez distintas, para cada grupo de espectadores.  Mas que deve mexer com todo mundo, de um  jeito ou de outro.

Um elenco enorme e dedicadíssimo a seus personagens passa uma sensação de grande veracidade e nos remete a um mundo tão familiar quanto parece distante.  Sonia Braga, como a dra. Domingas, reúne as dimensões da solidariedade e do descontrole, a nos indicar a profunda humanidade da figura que encarna.  Udo Kier é a maldade forasteira, mas também o impasse e a solidão.  Bárbara Colen faz Teresa, mulher forte e lutadora. Os forasteiros colaboracionistas são patéticos, mas a gente até se esquece disso porque Karine Teles e Antonio Saboia nos conquistam pela qualidade de seus desempenhos.  Thomás Aquino, como Pacote, e o inusitado bandido local Lunga, papel de Silvero Pereira, nos mostram como é estar no fio da navalha entre a fome e o crime.  Todos os personagens são bem construídos e têm um ator ou atriz à sua altura.

A trilha sonora é também bem marcante, vai de Gal Costa e o objeto voador não-identificado a Geraldo Vandré, passando por Sérgio Ricardo. Marcos reconhecíveis da resistência que marcou a nossa música e o nosso cinema, que combinam bem com a temática tratada no filme.

A comunidade do povoado da Barra, no Rio Grande do Norte, divisa com a Paraíba, onde a maior parte do filme foi gravada, participou ativamente dos trabalhos de apoio à produção e como figurantes, contribuindo para a autenticidade das situações mostradas.

“Bacurau” é um filme de peso da produção brasileira recente, que já vem recebendo o maior reconhecimento internacional, na forma de convites para mais de 100 festivais e mostras de cinema pelo mundo e já com prêmios importantes conquistados nos festivais de cinema de Munique, na Alemanha, em Lima, no Peru, e o importante prêmio do Júri, do Festival de Cannes.



                   
   PARASITA
Antonio Carlos Egypto

PARASITA (Parasite).  Coreia do Sul, 2019.  Direção: Bong Joon-ho.  Com Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo.  131 min.

“Parasita”, o vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado pela Coreia do Sul ao Oscar de filme internacional (ex-filme estrangeiro), é um produto poderoso.  A narrativa se refere a uma família pobre, que se aproveita de uma oportunidade de trabalho temporário para um de seus membros, para parasitar uma família rica.

Para trabalhar essa história, Bong Joon-ho se vale de uma variedade de gêneros.  “Parasita” é comédia, destila um humor que produz riso na plateia.  É também um drama, até bem pesado.  Não há personagem que saia incólume de lá.  Tem muito suspense e um sem-número de surpresas e reviravoltas de tirar o fôlego.  Tem também alguns elementos fantasiosos, surrealistas, eu diria.

Ao mesmo tempo, aborda aspectos da realidade social que estão subjacentes à situação, mas também explicitados na dinâmica das classes sociais envolvidas na trama.  Até aspectos políticos da divisão das Coreias aparecem, dando um toque inteligente em cenas de humor.

O filme consegue intrincar todos esses elementos dos diferentes gêneros cinematográficos com bastante competência, sem artificializar as passagens de um a outro registro e sem perder o ritmo.  Ao contrário, o ritmo só cresce após cada reviravolta.

Os desdobramentos das ações, na realidade, produzem novas histórias e situações-problema.  Constituem-se num desafio novo a cada um dos personagens, deixando sempre em aberto onde é que tudo isso vai parar.  É um filme imprevisível, mas que conta com um roteiro muito bem engendrado.

 Acabou conquistando o feito inédito de levar tanto o Oscar de melhor filme quanto o de melhor filme internacional, além do prêmio de diretor e roteiro original. Sucesso absoluto. Acima de qualquer expectativa de seus realizadores. 


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI

Antonio Carlos Egypto






VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI (Sorry, We Missed You).  Inglaterra, 2019.  Direção: Ken Loach.  Com Kris Hitchen, Debbie Honeywood, Charlie Richmond, Katie Proctor.  100 min.


O britânico Ken Loach é um dos diretores de cinema mais importantes em atividade.  Seu trabalho tem cunho realista e forte conotação política, ao abordar os personagens da classe trabalhadora sofrendo as consequências de um sistema econômico que os exclui e oprime de muitas formas.  Aborda também as respostas e caminhos que os trabalhadores acabam encontrando para lidar com esse clima assustador a que estão, querendo ou não, submetidos.

Quem viu os filmes dele ”Meu Nome é Joe”, de 1998, “Pão e Rosas”, de 2000, “À Procura de Eric”, de 2009, “A Parte dos Anjos”, de 2012, e “Eu, Daniel Blake”, de 2016, sabe do que eu estou falando.  Quem não viu e quiser saber do que se trata é só procurar no campo de pesquisa do cinema com recheio que encontrará as críticas  desses filmes e também de “Rota Irlandesa”, de 2011, e “Jimmy’s Hall”, de 2014, que tratam de questões históricas irlandesas sempre do ponto de vista do trabalhador.  São grandes filmes dele também “Terra e Liberdade”, de 1995, sobre a guerra civil espanhola, e “Ventos da Liberdade”, de 2006, que trata da guerrilha irlandesa frente ao colonialismo inglês.  É uma obra vasta e muito importante.

Em “Você Não Estava Aqui”, Ken Loach aborda os novos rumos do capitalismo que, com o colapso do emprego formal, vende a ilusão do empreendedorismo, o trabalho por conta própria, que, de tão precarizado, se aproxima não da liberdade individual, mas justamente de seu contrário, a escravização.

O sistema econômico que adula e impõe condutas afeta de tal modo a vida pessoal dos trabalhadores, com a precarização do trabalho e dos direitos, que produz inevitáveis rupturas nas relações humanas e familiares.




Na trama do filme, Ricky (Kris Hitchen) acredita na fantasia do empreendedorismo e vai ser motorista por conta própria, adquirindo uma van novinha, a ser paga em prestações.  Para tal, compromete a mobilidade de sua mulher, Abby (Debbie Honeywood), que é uma dedicada cuidadora de idosos.  A vida dos dois filhos do casal, especialmente do menino adolescente, também sofrerá muitas consequências sérias com essa decisão.  Não demorará muito para que Ricky descubra que, como diz o seu patrão, “o negócio é seu, mas a franquia é nossa”.  E, com essas cartas o jogo é pesado, não sobra tempo para nada e qualquer falta será punida com pesadas multas.  E por aí vai.

O diretor pergunta se é sustentável recebermos nossas compras por meio de uma pessoa que dirige uma van 14 horas por dia.  E acrescenta: isso é melhor do que ir a uma loja e interagir com o vendedor?  Explica que isso não é um erro, mas a lógica do desenvolvimento da economia de mercado.  Segundo ele, o trabalho informal acaba com as vidas e os pobres é que pagam o preço.  O contexto da ação do filme é Newcastle, na Inglaterra, em meio à crise de 2008, mas vale para toda a economia de mercado do mundo atual.

Pensemos no sistema de entrega paulistano por motoboy, o quanto isso é precário, muito mal pago, perigosíssimo.  Basta ver o número escandaloso de mortes que produz.  A chamada uberização da vida econômica acrescenta detalhes de crueldade àquilo que já era uma terrível exploração.

Ken Loach nos fala de algo que conhecemos muito bem, bate à nossa porta e nos deixa preocupados (se pararmos para pensar) e com uma sensação de impotência diante do sistema.  É de gente com o talento desse cineasta que precisamos, para não perdermos a capacidade de nos indignar diante da desumanidade e da ganância do lucro.





sábado, 22 de fevereiro de 2020

CINEDICAS:5 FILMES

Antonio Carlos Egypto


FRANKIE (Frankie).  França, 2019.  Direção: Ira Sachs.  Com Isabelle Huppert, Brendan Glesson, Marisa Tomei, Jerémie Renier, Pascal Greggory.  100 min.
“Frankie” trata de uma situação pesada, um encontro de despedida da vida de uma famosa atriz, com sua família e amigos.  No entanto, o diretor estadunidense Ira Sachs desenvolve esse evento, que poderia ser macabro, com beleza e sutileza.  Consegue leveza onde não se esperaria.  A começar pela própria Frankie, vivida lindamente por Isabelle Huppert, uma das maiores atrizes do nosso tempo.  Seu personagem lida com a perspectiva da morte iminente com o máximo de discrição, sem drama, mas sem negar a realidade e em busca de uma interação humana gratificante e tranquilizadora.  Além disso, o filme exibe a beleza da cidade portuguesa de Sintra, tão charmosa, elegante e diáfana, que dá uma moldura especial a esse encontro que, se fosse possível, muitos gostariam de viver.  Reflexivo, comovente e apaziguador, apesar de tudo o que envolve.  Um ótimo elenco contracena com Huppert em “Frankie”.

FRANKIE


MEU NOME É SARA (My Name Is Sara).  Estados Unidos, 2019.  Direção: Steven Oritt.  Com Zuzanna Surowy, Konrad Chichon, Pawel Królikowski, Eryk Lubos.  111 min.
A história, baseada em fatos reais, que se conta aqui, passa-se na Ucrânia, durante a ocupação alemã do país, na Segunda Guerra Mundial.  Porém, como o filme é norte-americano, o tempo todo fala-se inglês, exceto quando entram em ação os comunicados dos dominadores alemães, que chegam na cena a ser traduzidos para o inglês, para que a população os entenda (sic).  Sara (Zuzanna Surowy), aos 15 anos de idade, com sua família inteira morta pelos nazistas, assume a identidade de uma amiga, para conseguir ser acolhida para trabalhar numa fazenda, escondendo sua origem judaica, para poder sobreviver.  Só que o casal de fazendeiros e seus filhos que a acolhem têm outros problemas, além de serem roubados, saqueados, pelos alemães e pelos russos.  Eles têm questões familiares e amorosas que complicam a situação de Sara e exigem dela ajustes difíceis e um jogo de cintura que ela terá de aprender rapidamente.  Esses elementos complicadores é que despertam interesse numa trama que já foi bastante explorada pelo cinema.  A realização cinematográfica é boa e a atriz protagonista, uma revelação e um achado para o papel. 

DILILI EM PARIS (Dilili à Paris).  França, 2018.  Direção: Michel Ocelot.  Animação.  95 min.
Quem viu a trilogia “Kiriku” sabe do que é capaz Michel Ocelot.  Suas animações são belíssimas, requintadas, inteligentes.  “Dilili em Paris”, seu novo trabalho, é um luxo, ao homenagear Paris com a beleza plástica do seu traço artesanal e explorar os elementos vinculados à cultura francesa, que povoaram a cidade no final do século XIX e começo do XX. A chamada belle époque reuniu figuras como Sarah Bernhardt, Claude Debussy, Auguste Rodin, Toulouse Lautrec, Claude Monet, Louis Pasteur, Madame Curie, Pablo Picasso, Luís Buñuel, Santos Dumont, Marcel Proust e tantos mais.  Pois todos eles, de um modo ou de outro, participam da trama da garotinha Dilili e seu amigo entregador, que vão combater as forças do mal responsáveis por uma onda de sequestros de menininhas em Paris.  A animação tem um tom feminista, ao expor os absurdos a que podem estar submetidas as meninas, e as mulheres.  Um encanto.


CICATRIZES

CICATRIZES (Savovi).  Sérvia, 2019.  Direção: Miroslav Terzic.  Com Snezana Bogdanovic, Marco Bacovic, Jovana Stojiljkovic. 97 min.
O que se vê no desenrolar do filme sérvio, dirigido por Miroslav Terzic, em seu segundo longa, ambientado em Belgrado, são as cicatrizes de um passado que move os personagens.  Acompanhamos uma mulher, sua família, seu trabalho, seus contatos.  A cada sequência nos deparamos com impropriedades.  As relações humanas são estranhas, pesadas, ásperas.  Os comunicados, misteriosos ou simplesmente lacônicos.  Há perigos no ar.  E vamos descobrindo, aos poucos, o que está em jogo.  Sem nunca entender muito bem do que se trata.  Até que, no terço final do filme, a situação se esclarece.  Mesmo assim, não se resolve, porque é preciso encarar o que ficou para trás.  Então, novas ações vão trazer uma nova configuração ao conflito.  Cicatrizes eternas, ao que parece.  Um belo trabalho dramático, com um roteiro bem construído, que estimula o espectador a seguir a trama com interesse.  O tema abordado, que envolve maternidade, fatos e escolhas do passado, é bem relevante, do ponto de vista psíquico.

O JOVEM AHMED (Le Jeune Ahmed).  Bélgica, 2019.  Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne.  Com Idir Ben Addi, Olivier Bonnaud, Myriem Akheddiou, Victoria Bluck..  84 min.
Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne dirigiram “O Jovem Ahmed” tratando de um personagem adolescente, de 13 anos, muçulmano religioso fanático.  E o fazem com muito talento ao descrever e desenvolver as situações e atitudes do personagem, que acaba se envolvendo numa tentativa de assassinato em nome de Alá.  No entanto, a forma como se conclui o drama ao final não chega a ser muito convincente.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O OFICIAL E O ESPIÃO

Antonio Carlos Egypto





O OFICIAL E O ESPIÃO (J’Accuse).  França, 2019.  Direção: Roman Polanski.  Com Jean Dujardin, Emmanuelle Seigner, Louis Garrel, Grégory Gadebois.  132 min.


Em 28 de fevereiro de 2020 serão conhecidos os grandes vencedores do César, o prêmio máximo do cinema francês, em sua 45ª. edição.  Em número de indicações, já há um favorito, “O Oficial e o Espião” (J’Accuse), de Roman Polanski, indicado a melhor filme, direção, roteiro adaptado, montagem, fotografia, figurino, desenho de produção, trilha sonora, som, além  da indicação a melhor ator para Jean Dujardin e duas indicações a melhor ator coadjuvante para Louis Garrel e Grégory Gadebois.  O filme já levou o Leão de Prata do Festival de Veneza, de modo que não há muita surpresa nisso.

Há concorrentes muito fortes, como “Os Miseráveis”, de Ladj Ly, parisiense, de família imigrante do Mali, que fez um filme poderoso e assustador, ao nos mostrar a que ponto está chegando o confronto na periferia de Paris, que opõe policiais a crianças (isso mesmo) em embates marcados por grande violência. Impressionante o que esse filme faz, inspirando-se em Victor Hugo para refletir sobre a atualidade mais preocupante.  É importante citar também “Graças a Deus”, de François Ozon, “Retrato de uma Jovem em Chamas”, de Céline Sciamma, “Papicha”, de Mounia Meddour, e, ainda inédito por aqui, “La Belle Époque”, de Nicolas Bedos, entre outros. Por aí, a parada é dura.

Há, porém, um outro problema, as acusações de abuso sexual que acompanham a vida do diretor franco-polonês Roman Polanski, desde sempre, e não o abandonam nem quando ele chega aos 86 anos de idade.  Novas revelações sobre fatos dos anos 1970 reacenderam a fúria de grupos de feministas francesas, que prometem agir para se contrapor à consagração do filme e à homenagem que o diretor poderia conquistar.  E não seria a primeira vez que ele seria atingido por protestos.


Roman Polanski


Quem acompanha e gosta de bom cinema tem a obrigação de admirar o talento de cineasta de Polanski.  Sabe também das desgraças que acompanharam a sua vida, da morte de sua mãe em campo de concentração nazista à tragédia do assassinato de sua mulher, Sharon Tate, em 1969, pelo bando do fanático Charles Manson, recentemente relembrada, mudando a história, por Quentin Tarantino, em “Era uma Vez em Hollywood”.  Ou das punições que o atingiram nos Estados Unidos da América.  Nada justifica coisa alguma, se todas as acusações procederem.  Mas rechaçar um filme da qualidade de “O Oficial e o Espião” ou uma obra como a de Polanski no cinema é um verdadeiro crime contra a arte.

Por sinal, o título do filme em francês é justamente “J’Accuse” (Eu Acuso), tirado do texto de Émile Zola que defendia o capitão Dreyfus da acusação injusta de alta traição e, em contrapartida, acusava de forma clara e corajosa os responsáveis no Governo e nas Forças Armadas pela farsa que foi o julgamento daquele judeu, que era dos poucos que atuavam no exército francês, no final do século XIX, e escancarava o preconceito.  O título dado ao filme no Brasil é uma bobagem sem sentido.




O filme de Polanski se debruça sobre o rumoroso, polêmico e prolongado caso Dreyfus, valendo-se do ponto de vista do personagem coronel Picquart, realmente em ótima atuação de Jean Dujardin.  Ele, inconformado com a flagrante injustiça e manipulação do caso, que levou à prisão perpétua de Dreyfus e a seu exílio na longínqua e desabitada ilha do Diabo, resolveu investigar por conta própria.  Com isso, provocou as reviravoltas e a demonstração do erro judicial, o que se arrastou por dez anos até sua resolução.  O caso é muito conhecido, mas merecia o filme que recebeu.  Uma narrativa clássica numa produção esmerada, habilmente dirigida, com grandes desempenhos e um ritmo eficiente e envolvente.

Um belo filme, que merece reconhecimento à altura. “Os Miseráveis” já foi o escolhido da França para representá-la no Oscar de filme internacional e ficou entre os cinco finalistas. “J’Accuse” poderia perfeitamente ser o grande vencedor do César 2020, como suas indicações sugerem.  Tem méritos de sobra para isso.





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O OSCAR DE PARASITA

                             
Antonio Carlos Egypto


Bong Joon-ho


Assistir à cerimônia de entrega do Oscar nem sempre é uma experiência interessante.  Além dos excessos e cafonices do evento, é comum trazer frustração para quem quer ver reconhecido o que o cinema produz de melhor em todo o mundo. 

Aí começa o problema.  Para o Oscar, existe o cinema falado em língua inglesa, principalmente o dos Estados Unidos, e os filmes estrangeiros, ou seja, o resto do mundo.  Nunca houve real reconhecimento da qualidade e diversidade da produção cinematográfica mundial, na premiação do Oscar.  Já há algum tempo, pode-se constatar que, entre os melhores filmes lançados a cada ano, há uma maioria de filmes que não são falados em inglês. 

Pois bem, parece que, finalmente, o Oscar teve de reconhecer essa realidade.  Em 2020, muita coisa já mudou.  E a festa consagrou o grande filme do ano de 2019, “Parasita”, de Bong Joon-ho, da Coreia do Sul.  A começar pelas indicações, foram 6 para o filme, o que é incomum.  O prêmio, que se chamava melhor filme estrangeiro, mudou para melhor filme internacional.  Isso muda a perspectiva.  “Parasita” foi indicado não só a melhor filme internacional, como a melhor filme, apesar de falado em coreano.  O mais incrível é que venceu nas duas categorias, um atestado de sua superioridade incontestável.  Mais do que isso, venceu na categoria de melhor roteiro original, muito importante no conjunto da premiação.  E, ainda, Bong Joon-ho venceu como melhor diretor, o que é outra grande surpresa e reconhecimento.

O diretor coreano, simpático e comunicativo, quando recebeu o Oscar de roteiro comemorou o primeiro prêmio na história para o cinema da Coreia do Sul e avisou que iria beber para comemorar o dia todo.  Quando recebeu o prêmio de filme internacional, brincou que dobraria a promessa.  Mas ficou pasmo ao ver que venceu também como diretor, e a ninguém menos do que Martin Scorsese, seu mestre inspirador e de quem ele estudou os filmes para se aperfeiçoar.  Manifestou isso, homenageou Scorsese e também os outros concorrentes, Tarantino, Sam Mendes e Todd Phillips.

Ao final do evento, a surpresa maior da escolha de melhor filme coroou a 92ª. edição do Oscar como histórica e sinal de novos e mais abertos ares.  Apesar de que os prêmios ainda privilegiam claramente os homens brancos, mas algo já está mudando,  pelo menos na cerimônia, as mulheres e os negros tiveram participação destacada.  Sem falar, é claro, dos orientais, os grandes vencedores.


Equipe de PARASITA


A vitória tão ampla de “Parasita” não possibilitou que “Honeyland”, indicado como melhor documentário e melhor filme, tivesse alguma chance e “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar, ficou para trás e também não levou com Antonio Banderas como ator.

O nosso representante, “Democracia em Vertigem”, documentário de Petra Costa, não levou o prêmio, ficou para “American Factory”, um favorito com a chancela de Obama.  Mas foi notável a sua indicação entre os 5 melhores documentários realizados no ano passado em todo o mundo.

Lamentei a ausência de “O Irlandês”, de Scorsese, e de “Dois Papas”, de Fernando Meirelles, entre os premiados.  Foram trabalhos que mereciam maior reconhecimento.  Principalmente no caso de roteiro adaptado, em que o vencedor foi o medíocre “Jojo Rabbit”, uma bem intencionada, mas fraca, esculhambação dos absurdos das ideias nazistas, operando na cabeça de um menino que tem Hitler como amigo imaginário.

Antes da cerimônia, muitos apregoavam que “1917”, de Sam Mendes, estaria muito bem cotado para vencer.  Esse vaticínio me preocupou.  Afinal, “1917” não passa de um bom filme de guerra, que nos leva a viver junto com dois soldados a missão um tanto suicida que eles recebem.  Como Sam Mendes optou por longos planos-sequência que passam a sensação de um filme sem cortes e isso exige muito preparo, planejamento e um trabalho insano, é o que poderia ser premiado.  Acontece que “1917” está longe de ser um dos grandes filmes do ano, apesar do esforço.  Os prêmios técnicos para efeitos visuais, mixagem de som e fotografia, estão de bom tamanho para o filme.

O ótimo “Coringa”, outro que de início frequentou a lista de favoritos levou 2 Oscars, trilha sonora e melhor ator para o grande desempenho de Joaquin Phoenix.  Parece pouco, para um filme que “causou”, como se diz por aí.  “Era uma Vez em Hollywood”, do badalado e por vezes superestimado Quentin Tarantino, ganhou o prêmio de design de produção e o de ator coadjuvante para Brad Pitt.  OK. Um filme que não vi, “Ford vs Ferrari”, sobre automobilismo, conquistou um importante prêmio de montagem e o de edição de som.  A conferir.



De resto, houve uma pulverização de prêmios que alcançou vários filmes.  Elton John ganhou pela canção original do filme “Rocketman”, que não concorria, mesmo, em outras categorias.  Achei merecido.  “Judy, Muito Além do Arco-Íris” valeu o prestigiado prêmio de atriz para Renée Zellweger, que faz Judy Garland com muita força e mergulhando na figura e nos conflitos e problemas da sua decadência, que é o que o filme focaliza.  Seu desempenho é o que “Judy” tem de melhor.  É um produto convencional, que se vale da emoção para ganhar as plateias, sobretudo as que acompanharam a carreira daquela grande estrela.  Para atriz coadjuvante, o Oscar escolheu Laura Dern, de “História de um Casamento”, uma veterana grande atriz, sem dúvida.

“Adoráveis Mulheres”, de Greta Gerwig, uma bela produção, ficou com o prêmio de figurino, realmente muito bonito e caprichado.  Para “O Escândalo” foi o Oscar de cabelo e maquiage e “Toy Story 4” foi escolhido a melhor animação.

Espero que as mudanças no Oscar prossigam, de modo a abranger realmente a diversidade e os quesitos artísticos, tanto quanto os quesitos comerciais, que conhecemos. 






terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

AÇUCAR

Antonio Carlos Egypto





AÇÚCAR.  Brasil, 2017.  Direção: Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira.  Com Maeve Jinkings, Magali Biff, Dandara de Morais, Zé Maria.  90 min.


“Açúcar”, produção pernambucana, dirigida por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, vale-se do realismo fantástico para abordar o ancestral conflito entre a casa grande e a senzala.  Por meio da personagem Maria Bethânia, vivida por Maeve Jinkings, em grande atuação, um antigo e abandonado engenho de açúcar da família Wanderley volta à cena quando ela, herdeira da família, resolve retomar a velha e decadente casa grande, que ainda traz sinais do luxo e opulência do passado.  Mas a situação agora é outra: parte das terras pertence aos antigos empregados que lá desenvolveram um centro popular de arte e resistência.  E lá estão também as marcas indeléveis da escravidão, as opressões não reparadas, a reivindicação da terra, as contas a pagar, a necessidade de vingança, enfim, a luta de classes.  Dos dois lados, como se diz, é preciso conhecer o inimigo.  O clima é permanentemente tenso.  O presente, o passado e o futuro estão sob ameaça.

O fantástico aparece não só pela presença de criaturas e rituais estranhos, mas também pela entrada e saída de cena de um barco a vela, que “navega” entre as plantações, sem água.  O contemporâneo e o ancestral, o moderno e o arcaico, convivem e se trombam num país predominantemente negro, que tinge os cabelos de louro, como a própria protagonista.  Um país que não se reconhece, nega a própria história e identidade, está à beira do rompimento, da explosão.  A impossível volta às origens pretendida por Bethânia e a necessidade de encarar a imensa desigualdade histórica e atual do país colocam uma espécie de dilema insolúvel para cada um e para todos, num momento extremamente difícil, que o filme, de 2017, não chegou a captar por inteiro, mas intuiu, de alguma forma.




OSCAR À VISTA
09 de fevereiro é o dia da transmissão da festa de entrega do Oscar 2020.  Um evento importante porque global, atinge milhões de pessoas ao redor do mundo.  Quem gosta de cinema torce sempre para que a qualidade receba o destaque que merece, em relação aos interesses comerciais óbvios que estão em jogo.  De minha parte, espero que filmes como “Coringa”, de Todd Philips, e “O Irlandês”, de Martin Scorsese, recebam o devido destaque, assim como as produções internacionais “Parasita”, de Bong Joon-ho, e “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar, saiam com prêmios do evento. Porque merecem e muito.

O que exige a maior atenção e torcida de nossa parte é o documentário “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, que está entre os cinco indicados de todo o mundo, o que não é pouca coisa.  Enfrentará pesos pesados, como “American Factory” e “Honeyland”, mas tudo é possível.  Remete ao impeachment de Dilma Rousseff, que deu origem a todo o retrocesso que vivemos hoje no Brasil. Está, portanto, na contramão do Brasil oficial atual.  Por conta disso, incomodou muita gente, inclusive jornalistas do campo cultural, que deveriam estar celebrando essa grande conquista.

FESTIVAL DO RIO EM SÃO PAULO
De 06 a 12 de fevereiro, o Cinesesc São Paulo apresentará uma seleção de 21 filmes exibidos no Festival do Rio 2019.  Os cinéfilos que não foram ao Rio em dezembro não vão querer perder essa excelente oportunidade de conferir bons filmes de todo o mundo e trabalhos de grandes diretores, como Ken Loach, Sergei Loznitsa, Alain Cavalier, Abel Ferrara, entre outros, além de produções brasileiras e documentários que foram destaque por lá e ainda não chegaram por aqui.