domingo, 22 de abril de 2018



AUTO DE RESISTÊNCIA” E “O DISTANTE LATIDO DOS CÃES”
VENCEM O É TUDO VERDADE 2018

Amir Labaki prestou uma linda homenagem ao Nelson Pereira dos Santos, no início da premiação.


* Auto de Resistência, de Natasha Neri e Lula Carvalho vence a
Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens

* O Distante Latido dos Cães, de Simon Lereng Wilmont é eleito o
melhor longa da Competição Internacional de Longas e Médias-
Metragens

* Roubar Rodin, de Cristóbal Valenzuela vence a Competição Latino-
Americana

* Nome de Batismo - Alice, de Tila Chitunda e Ressonâncias, de
Nicolas Khoury são os vencedores de melhor curta, respectivamente,
brasileiro e internacional

Principal evento dedicado à cultura do documentário na América Latina,
fundado e dirigido por Amir Labaki, o É Tudo Verdade – 23º Festival
Internacional de Documentários divulgou na noite deste sábado, 21
de abril, os vencedores da edição 2018.

O júri das competições brasileiras foi composto pela cineasta Betse de
Paula, pelo cineasta e articulista Fernando Grostein Andrade e pelo
cineasta e diretor de fotografia Tyrell Spencer.

O júri das competições internacionais e latino-americana foi formado
pela documentarista americana Pamela Yates, também homenageada
pela retrospectiva desta edição, pela produtora brasileira Renata de
Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e
pelo curador equatoriano Alfredo Mora Manzano, diretor do EDOC, o
festival de documentários do Equador.

Desde 2015 os vencedores da Competição Brasileira de Curtas-
Metragens e o da Competição Internacional de Curtas-Metragens estão
automaticamente qualificados para exame pela Academia de Artes e
Ciências Cinematográficas de Hollywood visando uma vaga na disputa
do Oscar de melhor curta documental. O É Tudo Verdade é o primeiro
festival sul-americano a merecer este status.

PREMIAÇÃO OFICIAL
Os premiados oficiais do É Tudo Verdade 2018 são:

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Melhor Documentário de Longa ou Média-Metragem (Júri Oficial)
O Distante Latido dos Cães, de Simon Lereng Wilmont

Melhor Documentário de Curta-Metragem (Júri Oficial)
Ressonâncias, de Nicolas Khoury

Prêmio Especial do Júri para Documentário de Longa ou Média-
Metragem (Júri Oficial)
Naila e o Levante, de Julia Bacha

Menção Honrosa para Documentário de Longa ou Média-Metragem
(Júri Oficial)
The Cleaners, de Hans Block e Moritz Riesewieck

COMPETIÇÃO BRASILEIRA
Melhor Documentário de Longa ou Média-Metragem (Júri Oficial)
Auto de Resistência, de Natasha Neri e Lula Carvalho


Melhor Documentário de Curta-Metragem (Júri Oficial)
Nome de Batismo - Alice, de Tila Chitunda

O Júri Oficial concedeu duas Menções Honrosas para a Competição de

Curta-Metragem Brasileira para:
- Inconfissões, de Ana Galizia
- Catadora de Gente, de Mirela Kruel

COMPETIÇÃO LATINO-AMERICANA
Melhor Documentário de Longa ou Média-Metragem (Júri Oficial)
Roubar Rodin, de Cristóbal Valenzuela

Prêmio Especial do Júri para Documentário de Longa ou Média-

Metragem (Júri Oficial)
A Flor da Vida, de Claudia Abend e Adriana Loeff


PREMIAÇÕES PARALELAS

Os premiados dos júris paralelos são:
PRÊMIO ABD-SP (Associação Brasileira de Documentaristas e
Curta-Metragistas)

Júri de Curta-Metragem Brasileiro composto por Alice Riff, Gabriel
Tonelo e Bruno Cucio.

Júri de Longa ou Média-Metragem Brasileiro composto por: Lívia Perez,
Mariana Duccini e Patrícia Mourão.

Melhor Documentário de Longa ou Média-Metragem da Competição
Brasileira
Elegia de um Crime, de Cristiano Burlan

Melhor Documentário de Curta-Metragem da Competição Brasileira
Nome de Batismo - Alice, de Tila Chitunda

PRÊMIO ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema)
Júri composto por Julio Bezerra, Lúcio Vilar e Nayara Reynaud.

Melhor Documentário de Longa ou Média-Metragem da Competição
Brasileira
Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi

Melhor Documentário de Curta-Metragem da Competição Brasileira
Inconfissões, de Ana Galizia


PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS
Prêmio de R$ 15.000,00 (quinze mil reais) ao melhor curta-metragem da
Competição Brasileira.

Júri composto por Amilton Pinheiro, Bárbara Demerov, Clarissa
Kuschnir, Flavia Guerra e Luiza Lusvarghi.

Melhor Documentário de Curta-Metragem da Competição Brasileira
Mini Miss, de Rachel Daisy Ellis.


PRÊMIO EDT. (Associação de Profissionais de Edição Audiovisual)
Melhor montagem para Curta e Longa ou Média-Metragem da
Competição Brasileira.

Júri composto por Fernanda Bastos, Júlia Bernstein e Mariana Becker.

Melhor Montagem de Curta-Metragem da Competição Brasileira
Inconfissões, de Ana Galizia

Melhor Montagem de Longa-Metragem da Competição Brasileira
Elegia de um Crime, de Cristiano Burlan


PRÊMIO MISTIKA
Prêmio de R$ 8.000,00 (oito mil reais) em serviços de pós-produção
digital para o melhor curta-metragem eleito pelo júri oficial do festival.
Melhor Documentário de Curta-Metragem da Competição Brasileira

Nome de Batismo - Alice, de Tila Chitunda.



É Tudo Verdade – 23º Festival Internacional de Documentários
Rio de Janeiro e São Paulo de 12 a 22 de abril.
Fundação e direção: Amir Labaki

A 23ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de
Documentários conta com patrocínio do ITAÚ; parceria do SESC-SP;
copatrocínio da SABESP e SPCINE. Conta também com o apoio do
Ministério da Cultura - Secretaria do Audiovisual, através da lei 8.313/91
(Lei Rouanet) e da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo –
Programa de Ação Cultural/ PROAC ICMS. O projeto foi contemplado no
edital SAV/ MINC/ FSA nº 11, 2018.

É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários
etudoverdade.com.br / itsalltrue.com.br
 http://procultura1.entregadordenoticias.net/registra_exibicao.php?id=62989|254596|1531


quinta-feira, 19 de abril de 2018

FILMES DE GRANDES DIRETORES


Antonio Carlos Egypto


Sempre procuro dar atenção aos lançamentos cinematográficos de grandes diretores do cinema mundial e nacional.  Eles costumam nos oferecer temas intrigantes para reflexão, sequências de cenas criativas, bem elaboradas esteticamente, boa direção de atores, momentos de beleza ou de puro prazer.  Claro que nem sempre é assim.  Eles também cometem equívocos, uns podem entrar em decadência, enquanto outros crescem e se sofisticam com a maturidade e a velhice.  É muito raro, porém, que o fracasso eventual de um produto deles se perca por inteiro.  Sempre algo de bom se aproveita.  É bom estar atento.  Na programação dos cinemas, quatro grandes diretores estão com filmes em cartaz, no momento: o alemão Wim Wenders, o polonês Roman Polanski, o japonês Hirokazu Kore-Eda e o luso-brasileiro Ruy Guerra, nascido em Moçambique. 

SUBMERSÃO (Submergence).  Estados Unidos, 2017.  Direção: Wim Wenders.  Com James McAvoy, Alícia Wikander, Alexander Siddig.  112 min.

Numa mistura de suspense e romance, “Submersão” trata de duas questões distintas, mas vinculadas à realidade global do planeta.  O amor aqui une o agente secreto britânico James (James McAvoy), em missão na Somália para caçar fontes de terroristas suicidas, a Danny (Alícia Wikander), biomatemática que trabalha num projeto envolvendo as profundezas do mar.  Só que ambos têm missões perigosas, capazes de afastá-los indefinidamente.  Ele, enfrentando os riscos do terrorismo internacional.  Ela, pondo a vida em risco, tendo que ir ao fundo do mar num submergível pelo tempo necessário para realizar sua pesquisa.  O interessante é a ideia que a move, a de que a vida do planeta emergiu das camadas mais profundas do mar e de lá pode ressurgir ou se transformar.  Se é que eu entendi bem.  Wenders gosta de lidar com questões inusitadas, surpreendentes e desafiadoras, em busca de respostas que jamais serão claras.  A justaposição dos dois universos, que estão no romance de J. M. Legard, em que se baseou o filme, não ajuda a situação a evoluir.  Mas a água e o mar compõem um elemento estético a ser apreciado.  O filme também instiga a pensar sobre os mistérios da existência; já a ameaça constante do terror não traz novidade, em sua extrema brutalidade.



SUBMERSÃO


BASEADO EM FATOS REAIS (D’après une Histoire Vraie).  França, 2017.  Direção: Roman Polanski.  Com Emmanuelle Seigner, Eva Green, Vincent Pérez, Josée Dayan.  110 min.

Partir de uma história verdadeira, ou seja, acontecida, de algum modo, em algum lugar, para criar em cima dela, parece condição corriqueira da criação artística.  E o cinema parte também do próprio cinema.  Acompanhando o novo suspense de Polanski, impossível não se lembrar de vários outros filmes similares, envolvendo uma figura pública de sucesso, no caso, uma escritora, em crise criativa, e uma fã, conhecedora da história e do talento da escritora, que entra em sua vida de modo tão disruptivo quanto sugador.  Da relação aterrorizante entre as duas mulheres, Delphine Dayrieux, a escritora (Emmanuelle Seigner) e Elle (Eva Green), surge um thriller muito envolvente.  E que Polanski tratará de trabalhar a seu modo, com seu estilo próprio, e assustador, apesar da familiaridade da trama.  Em uma cena, ele até cria uma falsa expectativa e brinca com o espectador.  Não era possível que ele fosse adotar aquele clichê!  Quem vir o filme vai notar.  Enfim, um  thriller  que prende a atenção, e até surpreende, numa história já muito explorada pelo cinema.


O TERCEIRO ASSASSINATO (Sandome No Satusujin).  Japão, 2017.  Direção: Hirokazu Kore-Eda.  Com Masaharu Fukuyama, Kôji Yakusho, Isao Hashizume, Suzu Hirose.  124 min.

Kore-Eda é o grande nome do cinema japonês na atualidade, com uma obra já bastante sólida, a esta altura.  Em “O Terceiro Assassinato”, ele nos remete aos meandros da investigação e dos tribunais de justiça, onde se discutirá um caso que parece simples.  Afinal, quem já cometeu dois assassinatos e confessou ter praticado um terceiro, é só questão de saber qual será a punição.  No caso, a pena de morte ou a prisão perpétua, em função de agravantes ou atenuantes da situação.  Há, porém, muita coisa escondida, ocultada, relações não conhecidas, o que pode levantar grandes dúvidas.  O próprio comportamento do réu, mudando versões, se contradizendo ou trabalhando contra si mesmo, é um dilema a ser solucionado.  A questão é sempre mais complexa do que supõe a nossa vã filosofia.  Ou do que conseguem explorar as instâncias do mundo jurídico.  “O Terceiro Assassinato” caminha no desvendar lento e progressivo de uma situação, passando pela compreensão de um personagem intrigante, mas consistente, e constrói um belo filme com essa estratégia.



Ruy Guerra e Tony Ramos


QUASE MEMÓRIA.  Brasil, 2017.  Direção: Ruy Guerra.  Com Tony Ramos, Charles Fricks, João Miguel. 95 min. 

Ao ver “Quase Memória”, o filme de Ruy Guerra, fiquei interessado em ler o romance de Carlos Heitor Cony, que lhe serviu de base.  Por quê?  A trama me pareceu bastante original, o recurso principal, fascinante.  Um mesmo personagem, Carlos, convivendo consigo mesmo em outra etapa da vida.  O jovem Carlos (Charles Fricks), em busca de seu futuro e das memórias que já se apagam de Carlos velho (Tony Ramos).  O velho já não se interessa por um passado que, afinal, nada significa agora.  Ao se debruçar sobre a figura e a vida do pai, Ernesto (João Miguel), no entanto, Carlos jovem e Carlos velho esbarram em grandes dificuldades e numa narrativa em que a verdade não passa de lampejos de uma memória confusa, distante ou fugidia, de um personagem que criou sua história com genialidade e loucura.  Um estranho pacote, que só poderia ter sido enviado por ele, poderá esclarecer as coisas?  Se isso não o atrai a ver o filme ou ler o livro, é porque, decididamente, você não gosta de mistério.  Ruy Guerra gosta e lida muito bem com essa trama, criando um clima desafiador, potencializado por um elenco de grandes atores, que ele dirige com competência.  Lastro e experiência é o que não faltam ao cineasta, escritor e também compositor da música popular brasileira, parceiro de Chico Buarque em muitas jornadas artísticas.  Ruy dirigiu “Os Cafajestes”, em 1962, e “Os Fuzis”, em 1964, obras-primas do cinema brasileiro.



quarta-feira, 11 de abril de 2018

E TUDO VERDADE 2018


Antonio Carlos Egypto




De 12 a 22 de abril, é hora de focar a atenção nos documentários, tanto nacionais quanto internacionais. Chegou a São Paulo e ao Rio de Janeiro a sempre muito boa seleção do festival É TUDO VERDADE – It’s All True – 2018.  As sessões serão todas gratuitas, com distribuição de ingressos antes das projeções.  Em São Paulo, os filmes estarão no Itaú Cultural e no Instituto Moreira Salles, ambos na av. Paulista, no SESC 24 de maio, no Centro Cultural São Paulo, da Vergueiro, e no Auditório Ibirapuera.  Estão programados alguns debates, itinerância em outras unidades do SESC e programação  on line  no  site  Itaú Cultural.

Amir Labaki, o fundador e diretor do festival nestes 23 anos, afirma que “é um privilégio lançarmos mais uma safra excepcional de documentários, notadamente brasileiros”.  Pela amostra de alguns brasileiros que já pude ver, estou plenamente de acordo.


Amir Labaki


O filme da sessão de abertura em São Paulo é o empolgante e divertido ADONIRAN – MEU NOME É JOÃO RUBINATO, dirigido por Pedro Serrano.  Adoniran Barbosa é figura emblemática da cena paulistana, que ele cantou em prosa e verso, representou por meio de seu personagem  Charutinho  de  ‘História das Malocas”, de Osvaldo Moles, no rádio.  Fez cinema e telenovelas, mas é o grande compositor do samba paulistano.  “Saudosa Maloca”, “Samba do Arnesto”, “Iracema”, “Tiro ao Álvaro”,  “As Mariposa”, “Pogréssio”, “Prova de Carinho” e o eterno “Trem das Onze” constituem uma obra soberba.  E tem muito mais, é só garimpar. O personagem Adoniran, o palhaço triste, está muito bem retratado no documentário de Pedro Serrano.  Enche a tela de humor, gaiatice e sensibilidade diante dos pobres e marginalizados, que eram seus maiores amigos.  E nos remete ao seu querido Bixiga e a uma São Paulo que ele já não reconheceria.  92 min.


Adoniran - Meu Nome é João Rubinato


EX-PAJÉ, dirigido por Luiz Bolognesi, retrata um personagem que já foi poderoso junto à sua comunidade, que é desinvestido de poder e já não consegue se encontrar.  Perpera foi pajé do povo Paiter Suruí, exerceu o poder de entender e se relacionar com os espíritos do rio, da floresta, do uso das plantas e das atividades que curam, como orações, atenção, afeto e dietas dos familiares dos doentes.  Quando o homem branco chegou, e a igreja evangélica também, o pastor decretou que a pajelança era coisa do diabo e tudo mudou.  É interessante notar como o saber do pajé tem grande importância e significado para seu povo.  E notar também o caráter opressor dos que, autoritariamente, desagregam os que estavam em harmonia com a natureza.  Retomar as práticas de origem, tentando ensinar às crianças, esbarra no maior interesse delas pelos celulares.  Se bem que uma forma de os indígenas combaterem o abate de suas árvores é denunciar a invasão dos brancos, fotografando e postando no  facebook.  É um espanto, não?  80 min.

ESPERA, dirigido por Cao Guimarães, é um documentário delicado e sutil.  O seu tema, como diz o título, é a espera, os momentos que estão por vir, a esperança, o que vai se desenvolver, o que vai mudar.  Em diversos contextos e situações, geralmente comuns, do cotidiano.  Uma espera, porém, se destaca: aquela que diz respeito às mudanças do corpo e de gênero, a transexualidade em mutação.  A espera ansiosa, às vezes angustiante, daquilo que pode corrigir, aliviar, superar a infelicidade, alegrar.  76 min.

O Processo


O PROCESSO,  direção de Maria Augusta Ramos,  nos leva a repassar aquele estranho e desarrazoado, porém ritualizado, processo, que culminou no impedimento e deposição de Dilma Rousseff.  Voltar a rever isso para quê?  Já vivíamos uma crise econômica e política, quando Dilma conseguiu se reeleger, mas a ruptura democrática produzida pelo  impeachment  acabou por nos levar a uma crise sem precedentes, que vem abalando todo o quadro institucional, os três poderes da República, enquanto a economia segue patinando e a pauta de austeridade e supressão de direitos agrava a situação da classe trabalhadora e deixa os mais pobres cada vez mais desprotegidos.  Diante disso, é necessário resgatar essa história recente, nada gloriosa.  Maria Augusta Ramos registrou tudo o que pôde – 450 horas de material filmado – no Congresso Nacional, para buscar desvendar o processo que levou à mudança radical de poder que se operou.  As falas, reuniões e eventos oficiais, entrevistas à mídia, encontros políticos dos defensores e apoiadores de Dilma, corredores do Congresso, bastidores.  Ela buscou recontar essa história indo além do que mostravam os telejornais diários que conhecemos.  Produz um outro olhar, que se distingue da mídia tradicional, porque aspira o registro e a revisão históricos.  Ainda que o faça totalmente a quente.  É um esforço louvável.  Já foi exibido e bem recebido no Festival de Berlim.  Deve provocar diversas reações, contra e a favor, como tudo que acontece hoje no Brasil, tão dividido, em que vivemos nestes dias.  130 min.

Vi, ainda, um filme da competição latino-americana, o argentino AMARRA SEU ARADO A UMA ESTRELA, dirigido por Carmen Guarini.  É uma homenagem ao cineasta Fernando Birri, mestre do cinema argentino e latino-americano, falecido aos 92 anos, em dezembro de 2017.  Uma figura cheia de coragem e lucidez, mesmo nos períodos de ocaso de vida, que são os que são mostrados aqui.  Seu principal recado diz respeito à importância de manter acesos nossos sonhos e não desistir das utopias.  São elas que guiam nossa existência e nos apontam o rumo do mundo que queremos transformar ou construir.  80 min.



domingo, 8 de abril de 2018

IMAGENS DO ESTADO NOVO 1937-1945


Antonio Carlos Egypto





IMAGENS DO ESTADO NOVO 1937-1945. Brasil, 2016.  Direção: Eduardo Escorel.  Documentário.  227 min.


Reavaliar o período da ditadura getulista do Estado Novo, partindo de imagens, do período compreendido entre 1937 e 1945, é um desafio que Eduardo Escorel encarou com sucesso, em seu documentário, concluído em 2016.  “Imagens do Estado Novo 1937-1945”  recolheu uma infinidade de material, entre eles, filmes, tanto oficiais quanto particulares, que registram esse período histórico conturbado do Brasil, quase todo ocorrendo em meio à Segunda Guerra Mundial. 

O problema é que os filmes disponíveis são os do cinejornais (brasileiros e estrangeiros), documentários oficiais, registros de eventos, festas e outras solenidades que, evidentemente, faziam propaganda, escondendo todas as mazelas, excluindo todas as notícias negativas.  E, na época, o tom era muito laudatório e havia forte censura do chamado DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, de inspiração nazifascista. Os vídeos pessoais ou familiares permitem observar comportamentos, roupas, ruas, transportes, a cara e o jeito das cidades, especialmente do Rio, capital do país, e das pessoas comuns.  E, por outro lado, como se comportavam as multidões que acompanhavam  e aplaudiam Getúlio Vargas pelas ruas, nos grandes eventos.

Tudo isso, por si só, já tem uma importância história admirável e é apresentado em longos 227 minutos.  Inclui, também, trechos de filmes, como “O Grande Ditador”, de Chaplin, filmagens relativas à guerra mundial e a suas negociações, além de filmes sobre os pracinhas brasileiros.  Percebe-se a vastidão da aula de história que isso comporta.

Eduardo Escorel escreveu a narrativa dessa história, que é ilustrada pelas imagens, mas vai além dela, faz a crítica histórica e política, revelando o outro lado das imagens e o que não está nelas.  Muitas vezes, o texto se descola das imagens, não tem ilustração possível ou está tratando do macro, enquanto a imagem mostra o micro.  Ou o oficial e o oficioso, o que não aparece, nem pode aparecer.

O documentário faz esse trabalho ao longo de todo o tempo, não há entrevistas, comentários, análises feitas por historiadores, políticos ou especialistas.  Há uma narração constante, articulada, que toma posição, mas dentro dos limites do bom jornalismo, que dá preponderância total aos fatos.  Inclui, ainda, registros em diário, que o próprio Getúlio Vargas fez durante grande parte desse período.




O ditador que ficou também conhecido como o  “pai dos pobres”  realizou um governo ambíguo, de clara inspiração fascista, nacionalista, mas gerando aqui o chamado trabalhismo, que criou e ampliou direitos, como os da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), que duraram todo esse tempo, até serem alvejados pela reforma trabalhista do governo atual, de Michel Temer, o mais impopular da história do país.

Getúlio Vargas, ao contrário, era extremamente popular, seus discursos alcançavam o povo e incomodavam segmentos da elite.  Depois de flertar com os regimes nazista e fascista, de Hitler e Mussolini, a opção pelos Estados Unidos colocou o Brasil no lado certo do conflito mundial e trouxe vantagens pragmáticas.  As circunstâncias que envolveram as negociações da guerra foram benéficas para a industrialização do país. 

Só que democracia e liberdade não combinavam com o regime do Estado Novo, que não resistiu à própria vitória na guerra.  Enfim, contradições monumentais e circunstanciais, semelhantes àquelas que o documentário  “Imagens do Estado Novo 1937-1945”  teve de lidar para extrair dos filmes oficiais a sua sombra, em busca de uma narrativa crítica, capaz de informar e produzir reflexão.

A longa duração do filme recomenda sua fruição em duas ou mais partes, para melhor aproveitamento do trabalho que é apresentado, denso e fortemente informativo.  É possível assisti-lo integralmente, ou em duas partes, no cinema e há a promessa de exibição na TV, em canais como o Curta! e TV Cultura.

Esse filme foi lançado no festival “É Tudo Verdade”, de 2016.  A nova edição desse festival internacional de documentários, a 23ª., de 2018, já está chegando.  Será agora, de 12 a 22 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro.  Voltarei ao assunto.

E MAIS, NOS CINEMAS

O DIA DEPOIS, da Coreia do Sul, é mais um filme de Hang-Sang-Soo, talvez o mais produtivo cineasta autoral em atividade no mundo.  É um filme atrás do outro. São filmes simples, geralmente com personagens conversando em torno da mesa, comendo e, principalmente, bebendo, resolvendo conflitos.  Portanto, de realização rápida.  Só que ele faz muito e faz bem.  Ele sempre encontra um clima apropriado para desenvolver suas histórias e um elenco que convence, ao interpretar gente real, com quem cruzamos amiúde por aí.  Esta narrativa de infidelidade e engano é muito boa.



1945


1945, da Hungria, dirigido por Ferenc Tórók, nos remete a um povoado húngaro que, com o fim da Segunda Guerra Mundial, se sente ameçado em seu poder local e na posse de bens, pela volta dos judeus sobreviventes da guerra.  A filmagem, muito boa, em preto e branco, remete ao medo, à ganância, ao conflito ético, enfatizando que é o que está na cabeça das pessoas o que conta, não a percepção da realidade objetiva.





terça-feira, 3 de abril de 2018

ARÁBIA + TEMPORADA NA FRANÇA


Antonio Carlos Egypto


ARÁBIA.  Brasil, 2017.  Direção:  Affonso Uchôa e João Dumans.  Com Aristides de Souza, Murilo Caliari, Renata Cabral, Gláucia Vanderveld, Renan Rovida.  96 min.

UMA TEMPORADA NA FRANÇA (Une Saison en France).  França, 2017.  Direção e roteiro: Mahamet-Saleh Haroun.  Com Eriq Ebouaney, Sandrine Bonnaire, Leónie Simaga, Aalayna Lys.  100 min.


O cinema dispõe de recursos poderosos para nos trazer, reportar, realidades, que podem estar distantes de nós, não apenas por meio de uma riqueza de informações, mas também com a carga emocional que a situação apresentada requer.  Bons personagens, dentro de uma boa estrutura dramática, são capazes de nos levar a viver a experiência de vida intensa e sofrida de pessoas que estão mergulhadas em contextos sociais diversos dos nossos.



ARÁBIA


 O filme brasileiro “Arábia”, por meio do personagem Cristiano (Aristides de Souza) e seu diário encontrado após sua morte pelo jovem André (Murilo Caliari), nos coloca em cheio na realidade do trabalhador operário no Brasil dos últimos anos e da atualidade.  Conhecemos sua existência bem de perto, o que faz, como trabalha e se relaciona com as pessoas, suas andanças e mudanças, desejos, esperanças, desilusões.  Uma vida muito dura, penosa, mas enfrentada com vigor e resignação.  Emocionalmente nos transportamos para um universo psíquico, que requer um equilíbrio precário e difícil, como fator de sobrevivência, para além das circunstâncias materiais propriamente ditas.

Quem nos conta sua vida no cotidiano é o próprio personagem, na narrativa descritiva e também reflexiva de seu suposto diário, escrito em linguagem simples, mas nem por isso menos elaborada, enquanto dimensão humana. Os diretores evitaram a intelectualização da escrita, mas a deixaram consistente e profunda.  Detalhada demais para a situação, talvez.  É essa narrativa simples e forte que conquista o jovem leitor, que vive no mesmo ambiente e nas mesmas condições de penúria e vulnerabilidade.

“Arábia” é um nome estranho à narrativa do filme.  Refere-se apenas a uma piada contada no bar, que ilustra uma percepção simplista de uma situação inusitada, essa, sim, ligada ao contexto árabe.  Mas é um título que esconde o que é o filme.

Grande vencedor do Festival de Brasília, premiado como melhor filme. ator, montagem, trilha sonora e prêmio da crítica.  Foi bem recebido e premiado em muitos outros festivais internacionais, especialmente em competições latino-americanas.


UMA TEMPORADA NA FRANÇA
  
“Uma Temporada na França” é o título irônico de um filme que também nos leva a viver a dura realidade de um imigrante, Abbas (Eriq Ebouaney), na França.  Fugindo da guerra civil na África Central, ele e sua família primeiro sofrem a perda da esposa e mãe, numa perigosa travessia.  Depois, vão enfrentar a rejeição do pedido de asilo, a expulsão, a sensação brutal de ser indesejado.

Quem não se comoverá com o dia-a-dia do professor de francês do Ensino Médio em seu país que, como imigrante, será rechaçado?  Seus dois filhos ainda pequenos revelam as agruras psíquicas a que estão submetidos.  Há, ainda, a solidariedade da branca francesa, Carole (Sandrine Bonnaire), a evolução para o amor, mesmo em meio aos fantasmas do rompimento recente trazido pela morte.  Mas as leis de imigração são draconianas e a burocracia, demolidora, capazes de produzir, até concretamente, a impotência dos homens.  E a gente sente na pele o que passa esse imigrante africano que precisava de tão pouco para viver uma vida digna.  Bom trabalho do diretor chadiano Mahamet-Saleh Haroun.

Experimentar essas realidades tão distintas bem de perto, com envolvimento emocional, é algo que tem tudo para sensibilizar, tornar mais acolhedor, desenvolver tolerância, diante daquilo que é diverso do que conhecemos.  Não porque, intelectualmente, não tenhamos sido informados, mas porque outra coisa é estar ao lado dos sofredores, compartilhar com eles os sentimentos, as injustiças, as derrotas, a tragédia do cotidiano.  Algo que bons personagens, bons atores, bons roteiros e direção competente no cinema podem nos oferecer.





FESTIVAL SESC  MELHORES FILMES

Chegou a hora do Festival SESC dos Melhores Filmes do Ano de 2017.  A edição 2018, que é a 44ª. do Festival, acontece de 05 a 25 de abril, no Cinesesc – São Paulo.  É uma grande oportunidade para assistir a produções de qualidade valorizadas pelo público e pela crítica, que podem ter escapado, em meio à grande quantidade de lançamentos cinematográficos do ano que passou.  Em especial, em relação aos filmes de autor e do cinema brasileiro, que passam meteoricamente pelo circuito cinematográfico.  Com uma vantagem adicional: o preço módico praticado pelo Cinesesc.  A qualidade da projeção e o som do cinema são impecáveis.

Alguns filmes clássicos também serão exibidos, nada menos do que “ Cidadão Kane”, de Orson Welles, “Juventude Transviada”, de Nicholas Ray, com James Dean, o “Blade Runner” original, de Ridley Scott, e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, de Steven Spielberg.  Programação para não perder.