Antonio Carlos Egypto
NATAL AMARGO (Amarga Navidad). Espanha, 2026. Escrito e dirigido por Pedro Almodóvar. Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbragalia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Rossy de Palma. 111 min.
Quando chega ao circuito um novo filme de Pedro Almodóvar, quem gosta de
cinema corre para ver. Não é para
menos. Ele é hoje um dos mais criativos
e luminosos cineastas do nosso tempo. Um
tremendo contador de histórias, que brotam por todo lado, a ponto de ele usar
uma dentro da outra, uma comentando outra, ou simplesmente, pondo os personagens
a contar outras histórias dentro do filme.
Isso vem ao caso porque em “Natal Amargo” trata-se mesmo de duas
histórias paralelas, em que uma pode estar dentro da outra, ou sendo contada
por uma personagem da outra. Mas há ainda
uma terceira história: um cineasta com bloqueio criativo (outro tema que
Almodóvar gosta de explorar) escrevendo sobre elas e se baseando na própria
experiência com uma das supostas personagens.
Enquanto o filme se desenrola, percebemos que as histórias não estão bem
contadas, há lapsos, personagens que aparecem tarde, enquanto um outro praticamente
some. Enfim, a impressão é de que a
coisa não estava bem. E realmente não
estava bem. Por que? Porque o que estávamos assistindo era a
construção de um roteiro que estava sendo feito pelo cineasta em crise. Genial, não é? Ver um roteiro, uma trama, se desenvolver
enquanto está sendo escrita.
Como sempre, o cinema de Almodóvar está metalinguisticamente dentro do
seu cinema. Além da ficção que se nutre,
inevitavelmente, de realidade, de parte dela, ou em que as coisas se
confundem. Isso está acontecendo, está sendo
filmado, ou está sendo imaginado, sonhado?
Na verdade, tudo é cinema da mesma forma.
No entanto, a questão ética é muito importante. É possível transformar os momentos mais íntimos
da vida de alguém em personagem identificável?
Isso está no centro do conflito, seja por intencionalidade ou, mesmo,
por caminhos inconscientes. E, óbvio,
tem de ser discutido.
Em algum momento, aparece o chamado cinema cult, definido como aquele que não alcançou o interesse do público,
fracassou, mas continuou sendo curtido por um grupo menor de espectadores. Se alguém consegue ao menos ser cult, por que iria para a
publicidade? Por dinheiro, ora. Por que mais?
Um sempre caprichoso cenário, cultivado em detalhes, e um elenco afiadíssimo
garantem o espetáculo, tanto pelo lado do drama quanto pelo lado do riso. E sem música marcante o cinema de Almodóvar
não ficaria completo. Aqui, até mesmo
uma única música pode mudar o rumo de um personagem.
Há sempre tanto o que ver, o que curtir, em cada filme de Pedro
Almodóvar. Vá ver. Se você gosta de coisas inteligentes e provocadoras
feitas com talento, você não vai se arrepender.


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