quinta-feira, 7 de maio de 2026

2 BRASILEIROS

Antonio Carlos Egypto

 

 


ECLIPSE.  Brasil, 2025. Direção: Djin Sganzerla.  Elenco: Djin Sganzerla, Sérgio Guizé, Lian Gaia, Selma Egrei, Helena Ignez.  109 min.

 

Djin Sganzerla, diretora, roteirista (com Vana Medeiros), atriz e produtora de “Eclipse”, mostra-se uma mulher de vários instrumentos (aliás, como sua mãe, Helena Ignez).  O filme é um suspense que tem como protagonista Cleo (Djin Sganzerla), astrônoma, que está grávida e recebe uma visita inesperada, a de sua irmã indígena, Nalu (Lian Gaia), que não via há muitos anos e com quem tem diversos conflitos.  Enquanto isso, seu marido, atencioso e amoroso, vai revelar algo que a desconcerta.  Na verdade, será descoberto em sua monstruosidade, com a ajuda da irmã.  Uma onça que arregala os dentes circula pelo filme, anunciando coisas que exigirão muito de Cleo.  O importante nesse filme é que o suspense se sustenta totalmente em questões femininas, como a gravidez, o aborto, misoginia, abuso sexual, estupro coletivo de menor, o que leva a narrativa ao crime, riscos e perseguições num bom ritmo cinematográfico.  O céu que nos envolve e seus eclipses que são tão marcantes, sobretudo à noite, testemunham coisas terríveis, assustadoras.  Há que enfrentá-las.

 



EU NÃO TE OUÇO.  Brasil, 2025.  Direção: Caco Ciocler e Isabel Teixeira.  Com Márcio Vito, que interpreta os dois personagens que protagonizam o filme.  72 min.

 

A situação retratada em “Eu Não Te Ouço” é bastante estranha, no entanto, bem representativa do momento político brasileiro.  Não é que as pessoas discutam, discordem, até briguem por suas crenças e figuras que apoiam.  É que parece não haver conversa possível.  Ninguém ouve o outro.  Parece que há uma barreira intransponível que separa dois mundos.  E se não se consegue sequer ouvir o outro lado, que acordo poderá existir?  Cordialidade e respeito estão fora de cogitação.  Em “Eu Não Te Ouço”, em novembro de 2022, pouco após as eleições presidenciais, um caminhoneiro se nega a parar e contribuir para uma barreira na estrada, em protesto pela eleição e de apoio ao candidato derrotado, Jair Bolsonaro.  Um manifestante todo vestido de verde e amarelo, com a camisa de manga comprida da seleção brasileira, se agarra à frente do caminhão para impedir que o veículo siga.  Mas ele segue e por muitos quilômetros.  Enquanto isso, um repórter cinegrafista, que já estava iniciando uma conversa com o caminhoneiro, os acompanha, conversando, ora, com um, ora, com outro.  Mas ambos não se entendem, ou melhor, nem se escutam.  O vidro dianteiro do caminhão é a barreira que impede isso.  Além do barulho do vento.  É uma alegoria que o diretor Caco Ciocler e a diretora Isabel Teixeira exploram, para nos mostrar por onde andamos neste país. 




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