Antonio Carlos Egypto
ECLIPSE. Brasil, 2025. Direção:
Djin Sganzerla. Elenco: Djin Sganzerla,
Sérgio Guizé, Lian Gaia, Selma Egrei, Helena Ignez. 109 min.
Djin Sganzerla, diretora, roteirista (com Vana Medeiros), atriz e
produtora de “Eclipse”, mostra-se uma mulher de vários instrumentos (aliás,
como sua mãe, Helena Ignez). O filme é
um suspense que tem como protagonista Cleo (Djin Sganzerla), astrônoma, que está
grávida e recebe uma visita inesperada, a de sua irmã indígena, Nalu (Lian
Gaia), que não via há muitos anos e com quem tem diversos conflitos. Enquanto isso, seu marido, atencioso e
amoroso, vai revelar algo que a desconcerta.
Na verdade, será descoberto em sua monstruosidade, com a ajuda da irmã. Uma onça que arregala os dentes circula pelo
filme, anunciando coisas que exigirão muito de Cleo. O importante nesse filme é que o suspense se
sustenta totalmente em questões femininas, como a gravidez, o aborto, misoginia,
abuso sexual, estupro coletivo de menor, o que leva a narrativa ao crime,
riscos e perseguições num bom ritmo cinematográfico. O céu que nos envolve e seus eclipses que são
tão marcantes, sobretudo à noite, testemunham coisas terríveis, assustadoras. Há que enfrentá-las.
EU NÃO TE OUÇO. Brasil, 2025. Direção: Caco Ciocler e Isabel Teixeira. Com Márcio Vito, que interpreta os dois
personagens que protagonizam o filme. 72
min.
A situação retratada em “Eu Não Te Ouço” é bastante estranha, no entanto,
bem representativa do momento político brasileiro. Não é que as pessoas discutam, discordem, até
briguem por suas crenças e figuras que apoiam.
É que parece não haver conversa possível. Ninguém ouve o outro. Parece que há uma barreira intransponível que
separa dois mundos. E se não se consegue
sequer ouvir o outro lado, que acordo poderá existir? Cordialidade e respeito estão fora de
cogitação. Em “Eu Não Te Ouço”, em
novembro de 2022, pouco após as eleições presidenciais, um caminhoneiro se nega
a parar e contribuir para uma barreira na estrada, em protesto pela eleição e
de apoio ao candidato derrotado, Jair Bolsonaro. Um manifestante todo vestido de verde e
amarelo, com a camisa de manga comprida da seleção brasileira, se agarra à
frente do caminhão para impedir que o veículo siga. Mas ele segue e por muitos quilômetros. Enquanto isso, um repórter cinegrafista, que
já estava iniciando uma conversa com o caminhoneiro, os acompanha, conversando,
ora, com um, ora, com outro. Mas ambos
não se entendem, ou melhor, nem se escutam.
O vidro dianteiro do caminhão é a barreira que impede isso. Além do barulho do vento. É uma alegoria que o diretor Caco Ciocler e a
diretora Isabel Teixeira exploram, para nos mostrar por onde andamos neste
país.


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