Antonio Carlos Egypto
NINO, DE SEXTA A SEGUNDA (Nino). França, 2025. Direção: Pauline Loquès. Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil,
Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, participação Mathieu Amalric. 96 min.
Nino, o personagem central do filme homônimo de Pauline Loquès, é o que
se poderia caracterizar como uma personalidade fleumática. Ou seja, uma pessoa que, pelo menos
aparentemente, se comporta como calma, serena, impassível e que pode ser vista
como apática, sem reação ou lenta nas reações.
É com essas características que o excelente jovem ator Théodore Pellerin
compõe Nino, que viverá uma experiência avassaladora no final de semana em que
completa 29 anos de idade.
Tudo acontece com ele, sem que ele desabe nem resolva adequadamente as
questões que lhe aparecem. Nino não
consegue pedir ajuda, abrir o coração, não quer incomodar ninguém, e diante das
dificuldades nega ou contorna a situação.
Ou simplesmente espera e suporta.
É o tipo que não se surpreende nem com uma festa surpresa no seu
aniversário. Também, pudera, foi nessa
data que ele, ao buscar o resultado de exames de rotina, descobre que está com
câncer na garganta, decorrente de uma doença sexualmente transmissível, o HPV,
contaminado anos atrás. Bom cidadão, ele
não esquece de deixar um recado escrito num cartão para sua ex-companheira
sexual, mas quando se encontra pessoalmente com ela, nada diz a respeito da
doença, nem do cartão que já lhe deixou.
Nino demonstra ser tímido, porém, sociável, tem muitos amigos que acabam
por ajudá-lo sem que ele peça. Trata
todo mundo bem, tem carinho com a mãe, mas também não se abre com ela. Do pai tem lembranças e dúvidas quanto à sua
morte (a dele), tentando se entender melhor nesse momento difícil pelo qual
passa.
Um dos gargalos do seu fim-de-semana em meio aos problemas é que perdeu a
chave do apartamento, ou fechou-o com ela dentro. Isso determina muito do que acontece de sexta
até a segunda, quando Nino deve iniciar seu tratamento oncológico. Fiquei me perguntando se em Paris no
fim-de-semana não há chaveiros disponíveis, já que o zelador não estava e
provavelmente nem teria essa chave. Se
existia, ele não foi atrás.
Enfim, são muitos contratempos e situações inesperadas que vão
transformar a vida de Nino por inteiro.
Com seu jeito pacífico, afetivo e caloroso, sua vida poderá resistir aos
problemas de saúde tão graves que o aguardam?
Ser uma figura fleumática pode fazê-lo viver melhor a situação e sofrer
menos?
Nino é um personagem que produz uma identificação muito fácil com o
espectador. Que pode se incomodar com o
seu jeito de ser, mas torce por ele (como os personagens que com ele convivem
no filme). Mérito de uma direção leve e
sutil, ancorada num ator surpreendentemente bom, que recebeu vários prêmios de
revelação e que, de fato, segura o filme muito bem.
A narrativa de “Nino” foi inspirada pela realidade de um bom número de
jovens que passam por circunstâncias semelhantes sem terem noção do que pode
estar acontecendo e sem sintomas suficientes para servirem de alerta. E foca no momento em que a realidade se impõe
e é preciso lidar com ela. Cada qual o
fará de acordo com sua personalidade, seus recursos e o atendimento que
políticas públicas de saúde oferecem à população.



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