quarta-feira, 31 de março de 2010

Os EUA x John Lennon


Tatianna Babadobulos

Os EUA x John Lennon (The U.S. vc. John Lennon). Estados Unidos, 2006. Direção: David Leaf e John Scheinfeld. 95 min.

Documentários não são o forte das salas de exibição no Brasil, por exemplo. Talvez este seja apenas um dos motivos pelos quais o longa-metragem Os EUA x John Lennon chega apenas agora, dia 2 de abril, aos cinemas de São Paulo e do Rio de Janeiro, após ser exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2006, justamente o ano de produção do filme.

A fita é uma verdadeira retrospectiva da história do ex-Beatle John Lennon e sua luta pela paz nos Estados Unidos, em plena Guerra do Vietnã. O documentário conta uma história paralela àquele país, mostrando a luta pelos direitos civis, a decepção com o governo Nixon, o memorável caso Watergate.

Durante o filme, o espectador poderá conhecer algo mais que aquele membro dos Beatles (ao lado de Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison) fazia fora dos palcos, e que ele não era apenas um dos precursores do “iê-iê-iê”. Sua banda de rock continua fazendo sucesso e é uma das mais famosas do mundo, mesmo que tenha acabado nos anos 1970. Na tela, ele surge como uma pessoa de princípios, um jovem carismático que se recusa a ficar calado frente às injustiças.

A contra partida é quando retrata o governo dos Estados Unidos, representado por Richard Nixon (impossível não se lembrar de George W. Bush), e a perseguição por conta de seu visto americano até a obtenção do green card, uma vez que John Lennon era inglês. Isso porque o governo tentou silenciá-lo e expulsá-lo do país.

Dirigido por David Leaf e John Scheinfeld, o documentário mostra imagens políticas e ativistas daqueles anos (1966/ 1976) e depoimentos atuais, entre outros, de Yoko Ono, a viúva do músico, que apresenta ainda mais seu engajamento. “De todos os documentários já feitos sobre John Lennon, este é o que ele amaria”, disse ela.

A trilha sonora, como não podia deixar de ser, é repleta das suas músicas, um verdadeiro deleite para os amantes da bandas. A ênfase fica a cargo de “All we are saying is give peace a chance”, trecho da canção “Give peace a chance”.

Com direção e roteiros impecáveis, o filme merece ser visto e respeitado, principalmente pela pesquisa de imagens, edição bem feita e história do nosso tempo.

domingo, 28 de março de 2010

TULPAN


Antonio Carlos Egypto

TULPAN (Tulpan). Cazaquistão, 2008. Direção: Sergey Dvortsevoy. Com Askhat Kuchinchirekov, Samal Yeslyamova, Ondasyn Besikbasov, Tulepbergen Baisakalov. 100 min.

Um jovem, Asa, após o serviço militar na Marinha, volta à sua região rural do Cazaquistão, onde vive sua família. A irmã e o marido são pastores de ovelhas em vida nômade nas estepes da região e ele se sente atraído por essa vida. Porém, para viver como eles, Asa precisa se casar. E nesse universo rural as mulheres são mais raras do que as ovelhas. O que fazer, quando a única pretendente possível não quer saber do nosso personagem, porque ele tem orelhas grandes demais?

Com essa história singela e ingênua se desenvolve um belo filme, que faz da sua simplicidade o seu maior mérito. Nas planícies do Cazaquistão pós-soviético, tudo parece tão diferente de quem está nas grandes cidades: a paisagem é árida, os espaços, enormes, por onde circulam poucas pessoas, os tempos são lentos, não há atração ou diversões, a comunicação é escassa, os animais estão tão próximos que é com eles que se dá a maior convivência.

O filme “Tulpan”, porém, nos leva a viver este mundo com tal delicadeza e respeito aos sentimentos que sua humanidade salta aos olhos e conseguimos fazer empatia com os personagens e sua vida tão distante da nossa, ao menos aparentemente.

A beleza árida da região e da fotografia que a capta em “Tulpan”, as cenas passadas num tempo que nos permite ver detalhes, curtir falas, movimentos, reações e expressões, fazem dessa experiência cinematográfica um momento de puro prazer. Desde que sejamos capazes de deixar de lado, ao menos por alguns instantes, a agitação, a correria e a expectativa criadas pelo ritmo hollywoodiano de fazer cinema.

A cena do parto da ovelha, mostrada em todos os detalhes do seu real acontecimento, é o ponto alto do filme.

A produção do filme é modesta e a simplicidade, a sua grande arma. Mesmo assim, essa produção contou com apoio financeiro alemão, suíço, russo e polonês. Cinema é caro de se fazer. Valeu a pena. “Tulpan” conquistou o prêmio “Um certo olhar”, no Festival de Cannes, em 2008, e encantou o público paulistano que viu suas primeiras exibições na 32ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Quase dois anos depois, finalmente chega aos cinemas e depois deve sair em DVD.

quinta-feira, 25 de março de 2010

DIÁRIO PERDIDO



Antonio Carlos Egypto


DIÁRIO PERDIDO (Mères et filles). França, 2009. Direção: Julie Lopes Curval. Com Marina Hands, Marie-Josée Croze, Catherine Deneuve e Michel Duchaussoy. 105 min.

Audrey (Marina Hands) é uma mulher na faixa dos 30 anos de idade, está grávida e em conflito com a perspectiva da maternidade. Ela vive em Toronto, no Canadá, e tem uma vida profissional ativa, distante dos pais, que continuam vivendo no interior da França, onde ela nasceu. A relação de Audrey com sua mãe, Martine (Catherine Deneuve), médica conceituada na pequena cidade, é fria, distante, marcada por agressividades mal-disfarçadas.

Quando resolve passar alguns dias com os pais, Audrey se instala na casa ao lado deles, onde viveram seus avós. O avô já falecera há algum tempo, mas a casa permanece desocupada, com todos os móveis e pertences.

Do passado, resta uma chaga: a avó, Louise (Marie-Josée Croze), abandonou a casa e os filhos e nunca mais deu notícias. Até então, era uma mulher bonita, vistosa, sempre bem vestida, com uma casa impecável, mas um tanto insatisfeita com a dependência que cabia às mulheres daquela época. Ansiava por maior autonomia e liberdade, embora tivesse sempre se submetido às decisões do marido, até porque não havia escolha.

Quem teria sido realmente essa avó, como ela vivia e o que poderia ter determinado o sucedido vem à tona tantos anos depois, porque Audrey (por conta da gravidez?) se conecta fortemente a esse passado. Vivendo na casa, ela “vê” sua avó em ação, como se sente, se comporta e vive naquele mesmo espaço, agora fora de moda e deteriorado, em que ela está neste momento.

Esse jogo entre presente e passado no mesmo local, à beira de uma praia onde parece sempre fazer frio e na residência orgulho de uma dona de casa de classe média alta até os anos de 1960, é muito bem realizado. A transição entre o hoje, vivido pela protagonista, e o imaginado por ela, onde quem domina a cena é a avó Louise, é muito eficaz. A beleza da casa, que hoje se vê velha, é perfeita. A direção de arte é impecável e a gente se sente vivendo nos dois tempos marcados por grande diferença de significado na vida das mulheres daquela família.

Na realidade, são três tempos, ou gerações. Da avó Louise, presa em gaiola de ouro, sem poder alçar voo, passando pela filha Martine, que já consegue se realizar como médica na pequena cidade, à neta Audrey, com vida profissional intensa e agitada, em outro país.

Como conceber a vinda de uma possível filha para Audrey? O que estaria reservado a ela? E como ser mãe nesse mundo tão profissionalizado e globalizado? O aborto é cogitado, assim como um casamento em que já não há mais qualquer glamour, ou amor. Imaturidade e despreparo, sim. Descrença na instituição familiar, também.

Com tudo isso, a diretora Julie Lopes Curval vai tecendo uma história das relações de gênero e do avanço das mulheres na conquista da liberdade. A relação entre mães e filhas vai constatando com tranquilidade os caminhos que se abrem, sem deixar de mostrar os conflitos e os custos, por vezes muito altos, dessas conquistas. Por aí se destaca como um filme muito competente para tratar das relações de gênero nos contextos doméstico e público, embora não chegue a tratar da questão do poder mais diretamente.

O diário perdido (ou escondido) dos títulos em português e em inglês é o meio pelo qual Audrey faz sua conexão com o passado da avó Louise. “Mães e filhas” é o título original, que é por onde as relações se estabelecem, construindo novas realidades para a mulher na sociedade.

Um problema a apontar no filme é: quem narra a história? Para deslindar fatos, é preciso ter dados, o que a protagonista colhe tanto no diário da avó como junto às pessoas que com ela conviveram: o pai, o tio, a vizinha, os comerciantes locais e Martine, ainda que esta a contragosto. A partir daí, Audrey levanta suas hipóteses e tira conclusões. Perfeito. Mas algumas cenas do passado, especialmente a do avô se interpondo à avó na cozinha, o que explica a existência do diário e do dinheiro descobertos por Audrey, não tem origem ou explicação. Ela não tem de onde tirar essa conclusão, pode apenas imaginá-la, supô-la. Mas não é assim que a cena aparece no filme. É como uma “verdade” que acaba esclarecendo tudo. Remete-nos, portanto, ao narrador onisciente do cinema clássico: Deus. Quem mais poderia ser?

A “solução” de Audrey morar na casa dos avós por um par de dias é muito vantajosa para o roteiro, mas pouco provável no contexto. Só que, sem ela, o filme não seria possível. A compra de equipamentos de cozinha, como um lava-louças, para tão pouco uso, mesmo vinculado à profissão da protagonista e a seus brinquedos infantis, também só se justifica para que a história possa caminhar. Já a profissão de médica que Martine exerce, enquanto uma gravidez decorre sem ser explicitada, é perfeita para revelar os meandros das relações mãe e filha.

O universo feminino em mutação, aqui tão bem retratado, compensa eventuais falhas e a presença luminosa de Catherine Deneuve no elenco é a cereja do bolo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

CRIAÇÃO


Antonio Carlos Egypto



CRIAÇÃO (Creation). Inglaterra, 2009. Direção: Jon Amiel. Com Paul Bettany, Jennifer Connely, Jeremy Northam e Toby Jones. 108 min.


Na abertura do filme “Criação”, diz-se que a evolução das espécies, conceito formulado por Darwin, foi a ideia mais original que já existiu. Não me lembro exatamente das palavras utilizadas, mas o sentido é esse.

Pois bem, não há como discordar. É um conceito tão importante quanto o “inconsciente”, de Freud, ou a “mais-valia”, de Marx. E tanto quanto o deles, revolucionou o pensamento humano e a própria ciência.

No ano passado, comemoramos 200 anos do nascimento de Charles Darwin e 150 anos da publicação de “A Origem das Espécies”, razões de sobra para todo o tipo de homenagens: livros, exposições, filmes. Muito oportunas, por sinal, já que, apesar de decorrido todo esse tempo, a ideia da seleção natural vem sendo questionada por conceitos como o criacionismo e o design inteligente de Deus. Isso acaba por fazer do filme “Criação” um produto extremamente atual, embora se trate de uma história passada em meados do século XIX.

Pesquisador rigoroso e meticuloso, Darwin acabou desenvolvendo uma teoria que surpreendeu a ele mesmo. Assim como Freud, ao descobrir o papel da sexualidade desde a tenra infância, suas descobertas afrontavam os conceitos vigentes na sociedade da época e derrubavam valores morais fortemente estabelecidos e protegidos pela religião.

Em “Criação”, é o período anterior à publicação de “A Origem das Espécies”, fruto de vinte anos de pesquisas, o que se focaliza. As hesitações de Darwin (Paul Bettany) em se contrapor a sua mulher Emma (Jennifer Connely), muito religiosa, como seria de se esperar, ao reverendo Innes (Jeremy Northam), seu amigo, e à igreja anglicana, que o próprio cientista frequentava até então, representam a batalha que haveria de acontecer entre as descobertas científicas e a moral e a religião da época. Entre a ciência e Deus. Ou, pelo menos, contestando princípios fortemente atribuídos a Deus.

Não é lícito questionar a harmonia da natureza, uma criação de Deus, como ele fazia. E como entender o ser humano como fruto de uma evolução de espécies, se ele foi criado à imagem e semelhança de Deus? Deus sabe o que faz e não cabe ao ser humano tentar entender os seus desígnios, está além da nossa capacidade. E quem gosta de saber que descende de algum tipo de macaco?

A coisa era tão nova e revolucionária, que 150 anos depois ainda cabe contestação e movimentos organizados para ensinar conceitos que já deveriam ter sido superados desde aquela época. No mundo contemporâneo, não são mais apresentados apenas como conceitos morais ou religiosos, mas pretendem ter uma roupagem de conhecimento científico.

Por aqui mesmo, temos políticos querendo instituir o criacionismo nas escolas, para se contrapor ao evolucionismo. Ou com o argumento de que caberia aos jovens conhecer as duas correntes, para fazerem as suas próprias escolhas. Como se elas se equivalessem e a gente pudesse julgar o conhecimento científico a partir de nossos valores e interesses e não do rigor de sua metodologia, sempre aberta a todo tipo de experimento ou pesquisa que a conteste ou supere.

“Criação”, ao contrário da ciência de Charles Darwin, não é um filme revolucionário ou inovador. Mas é didático, ao explicitar, ao longo da narrativa, o conflito interno do cientista e suas relações familiares, com destaque para a dor da perda da filha, com quem estabelece contato permanente em sua mente, e que o impulsiona a agir. Por meio de poucos personagens, a trama consegue expor o que estava em jogo na sociedade da época.

Ficaram de fora as viagens e aventuras de Darwin, essenciais para a compreensão de sua teoria. Isso é citado, mas não explorado. Restam as pesquisas com os pombos, realizadas ali mesmo, na propriedade rural onde ele residia. Na minha opinião, o personagem Darwin poderia render muito mais do que isso. Em todo caso, não há nada que desabone “Criação”, a não ser um certo academicismo.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ilha do Medo

Tatiana Babadobulos

Martin Scorsese, em mais uma parceria com Leonardo DiCaprio no papel principal, tal como aconteceu em “Gangues de Nova York”, “O Aviador”, “Os Infiltrados”, traz às telas o suspense “Ilha do Medo” (“Shutter Island”).

O longa-metragem conta a história do agente Teddy Daniels (DiCaprio) que, ao lado do parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo, de “Ensaio Sobre a Cegueira”), vai tentar desvendar o mistério sobre o desaparecimento de uma mulher em Shutter Island, um local onde funciona um hospital psiquiátrico (e onde estão detidos pacientes considerados perigosos pela justiça).

No auge da Guerra Fria, nos anos 1950, os dois agentes da polícia federal terão de enfrentar problemas maiores do que estava imaginando.

Adotando o estilo noir, com cenas sombrias e com protagonistas que vivem em um mundo cínico, o filme é cheio de jogos psicológicos que vão deixando o espectador cada vez mais em dúvida sobre onde se quer chegar ao final da história. O clima de suspense, digno de Alfred Hitchcock (o clássico “Vertigo”?) vai aumentado ainda mais com a música incidental.

No hospital, onde os policiais ficarão alguns dias até encontrar a pessoa que fugiu, há pessoas igualmente assustadoras, que cometeram crimes e estão em fase de tratamento e cumprindo pena.

As cenas se passam na ilha, sempre acompanhada de mau tempo, com tempestades, ventos, chuva; ou dentro do hospital, com cenas escuras, pacientes estranhos e os próprios agentes da polícia criando problemas, suspense, intriga entre os médicos, como com doutor Cawley (Ben Kingsley) e outros pacientes.

Em flashback, Teddy (cuja interpretação de DiCaprio é bastante convincente, principalmente por conta da ansiedade e da esquizofrenia) vai lidando, ao mesmo tempo, com o seu passado, com sua esposa, Dolores (Michelle Williams), e o que aconteceu de lá pra cá. São alucinações, paranoias que vão surgindo aos poucos e aumentando o suspense.

Baseado no livro de Dennis Lehane (“Paciente 67”), “Ilha do Medo” é altamente provocador, que o tempo inteiro faz um jogo e deixa o espectador atento às mudanças de comportamento dos personagens, suas atitudes, e o faz imaginar o que está acontecendo, podendo torcer ora para o médico, ora para o paciente.

Ao final, muitos vão se perguntar como não notaram, nas sutilezas das cenas, os indícios sobre o desfecho. Sob a batuta do mestre Scorsese (especialista em blockbuster, mas que ultimamente tem se contentado com filme que não seja o típico arrasa-quarteirão, o que não é sinônimo de má qualidade, que fique claro), “Ilha do Medo” é uma excelente produção, um filme de gênero que reúne elenco de primeira linha, acompanhado de figurino de época para situar o tempo, efeitos especiais para criar o clima tenso, bom roteiro e, voilà, direção impecável.

domingo, 7 de março de 2010

Simplesmente Complicado

Tatiana Babadobulos

É um verdadeiro clichê falar que Meryl Streep é a atriz que segura o filme, seja ele qual for. Mas uma coisa também é certa: é tudo verdade.

Recentemente, ela fez o papel de Julia, uma norte-americana que se mudou para Paris por conta do trabalho do marido, e aprendeu as delícias da culinária francesa no filme "Julia & Julie". "Mamma Mia!", musical baseado na obra da banda ABBA, só vale a pena por sua atuação. Agora, ela estrela a comédia romântica "Simplesmente Complicado" ("It's Complicated"),

Na fita, ela é Jane Adler, dona de um restaurante que, após 10 anos de seu divórcio, tem uma boa relação com o ex-marido, Jake (Alec Baldwin), pai de seus três filhos. Um deles, aliás, se forma e é por conta desta celebração que a família se une.

Há também o namorado (John Krasinski) de uma das filhas que tem um desempenho bastante interessante na trama, pois adotou a família da namorada como sua, e é capaz de guardar segredo sobre uma descoberta, ainda que seja sem querer.

Na primeira meia hora do filme já dá para saber como será a história contada pela diretora e também roteirista Nancy Meyers (de "O Amor Não Tira Férias"). Isso porque os elementos que ela une neste trecho da fita vão mostrando ao espectador o que será o desenrolar da história nada simples, porém bastante comum no cinema e, vá lá, na vida real. O "complicado" que dá título ao filme é justamente esta situação-clichê "quando eu te amava, você me traía e agora você me quer".

Como está fazendo uma reforma em sua casa, entra em cena o arquiteto de Jane, Adam (Steve Martin), um divorciado que ainda não se recuperou totalmente da desilusão com a ex-esposa, mas já se mostra pronto o suficiente para iniciar mais um romance.

É nítido que Meryl Streep faz um bom trabalho, por exemplo, quando se relaciona com os filhos, com o ex-marido, e até mesmo quando está em seu restaurante preparando um croissant au chocolat. Alec Baldwin tem um jeito canastrão que cai como uma luva para seu personagem, afinal trocou a esposa por outra bem mais nova e agora sente que, da altura de seus quase 50 anos, criar um filho pequeno não é lá muito confortável.

Ainda que Steve Martin seja um bom ator, tem o estigma dos filmes de comédia, uma vez que sempre temos a sensação, nesta produção, que uma hora ou outra ele vai soltar alguma piada, fazer uma gracinha e assim por diante. Seu timing neste momento, entretanto, é perfeito, e as pitadas de humor são bem pontuadas.

"Simplesmente Complicado" discute a vida por volta dos 50 anos, o relacionamento entre pais e filhos, o divórcio, o direito de recomeçar. Mas o ponto negativo é o fato de ser previsível e cansar o espectador, haja vista os momentos de bom humor serem bastante raros.

sexta-feira, 5 de março de 2010

DIREITO DE AMAR


Antonio Carlos Egypto

DIREITO DE AMAR (A Single Man). Estados Unidos, 2009. Direção: Tom Ford. Com Colin Firth, Julianne Moore, Mathew Goode e Nicholas Hoult. 101 min.


O que poderia levar um respeitado professor universitário de Los Angeles, com bom padrão de vida, a planejar meticulosamente um suicídio? A perda trágica do ser amado num acidente automobilístico, após 16 anos de vida em comum?

Há outros elementos em jogo. Essa duradoura história de amor que ele viveu foi com um jovem militar, ambos mantendo suas carreiras, na expressão consagrada por Oscar Wilde do “amor que não ousa dizer seu nome”. Tanto é assim, que a família do jovem Jim (Mathew Goode) interdita a presença do professor nas cerimônias fúnebres do amado. Por pouco, ele nem seria informado do acidente fatal, ocorrido em outro estado dos Estados Unidos.

Vivemos o início dos anos 1960, com a revolução sexual já em andamento, após o advento da pílula anticoncepcional, que abriu espaço para a liberdade feminina e abalou estruturas conservadoras, como o sexo direcionado ao casamento monogâmico e eterno. Mas, se a submissão sexual da mulher começa a implodir, a questão do desejo homossexual ainda precisará de muito mais tempo para ser assimilada. O filme mostra, no entanto, que a prostituição masculina homossexual se expressa sem maiores dificuldades.

Quanto ao personagem do jovem aluno Kenny (Nicholas Hoult), que se aproxima do professor Falconer (Colin Firth), ele representará as mudanças que estão a caminho. É impressionante como o jovem consegue captar tudo o que está acontecendo com o professor: ele não põe conceitos ou barreiras que o impeçam de enxergar a realidade do outro. Suas ações são também simples e diretas, não passam por avaliações ou constrangimentos de ordem moral. Já é possível fazer isso. Sinal inequívoco de uma evolução na compreensão dos sentimentos e ações humanos que, na verdade, ainda não conquistamos. Pelo menos, não plenamente.

Mas “Direito de Amar”, ao mostrar a crise do professor Falconer diante de sua perda, remete a quase vinte anos antes, quando a possibilidade dessa compreensão simplesmente não estava inserida no tecido social. Como era de costume, se podia fazer, mas nunca expressar uma sexualidade fora do padrão esperado. As infidelidades conjugais, por exemplo, permaneciam secretas. Gastos com uma segunda família, casas de amantes, filhos fora do casamento, “garçonières” e prostitutas eram a regra.

Famílias homossexuais, incluindo a possibilidade de filhos adotivos, eram algo impensável. Simplesmente não podia existir. Hoje, quando a gente ouve autoridades, como as do Irã, dizerem que não existem homossexuais no país, nós já entendemos muito bem a opressão que os alcança e a farsa que se estabelece quanto ao assunto. Não era muito diferente disso o que se dizia e se praticava em países ocidentais, como os Estados Unidos e o nosso Brasil, algumas décadas atrás. Felizmente, as coisas mudam, moralismos vão sendo superados, e novas possibilidades se estabelecem.

“Direito de Amar” discute o tema com sensibilidade e sem a dramaticidade trágica que tantas vezes acompanha o tema da homossexualidade no cinema. Na trama, a resolução das situações vai se dando de forma às vezes simples, outras vezes, fortuitas, ou simplesmente inesperadas. O que menos funciona é o que se planeja. Qualquer semelhança com a vida real não terá sido mera coincidência.

O filme tem enquadramentos elegantes e faz um uso estético dos primeiríssimos planos (closes) e dos planos-detalhe muito bom. O desempenho dos atores é ótimo. Julianne Moore faz um pequeno papel, com muita competência, que mostra um aspecto importante da vida do personagem central, e Colin Firth se destaca como protagonista, com uma interpretação premiada cheia de nuances e extremamente convincente do personagem George Falconer.
Tom Ford é um famoso designer de moda, que atua como diretor de cinema pela primeira vez. É uma estreia e tanto!




domingo, 28 de fevereiro de 2010

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS



Antonio Carlos Egypto

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (El Secreto de Sus Ojos). Argentina, 2009. Direção: Juan José Campanella. Com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago e Javier Godino. 127 min.


Um thriller contemporâneo, muito bem dirigido e vistoso, é o novo trabalho do diretor argentino Juan José Campanella, o mesmo de “O Filho da Noiva (2001) e “Clube da Lua” (2004).

Benjamin Espósito (Ricardo Darín) sempre trabalhou num Tribunal Penal. Quando se aposenta, resolve escrever um romance. O assunto remete a algo não resolvido para ele há 25 anos: um assassinato com marcas de grande violência, que acabou inconcluso, em função do momento político argentino, a gestação e a implantação da ditadura militar.

Suas vivências daquele fato, os personagens com quem se envolveu e com quem trabalhou, voltam à cena, para que ele, afinal, consiga elaborar aquela experiência traumática. Conhecemos seu colaborador, que acabou morto, confundido com o próprio Espósito, e, sobretudo, reaparece a juíza Irene (Soledad Villamil), um amor que não conseguiu se expressar na época. Haverá tempo para ressignificar tudo aquilo e deslindar toda a história? O filme alterna continuadamente o momento presente e aquele passado que não quer desaparecer da cabeça do personagem Espósito.

E o que é a paixão? De acordo com a trama de “O Segredo dos Seus Olhos”, é aquilo que fica, do qual não podemos abrir mão, ainda que ela possa nos colocar em perigo ou mesmo nos enlouquecer. Ou seja, a paixão é o que nos move, consciente ou inconscientemente, de forma lógica ou irracional. Dela não escapamos, ou não queremos escapar. A paixão de um dos personagens pelo futebol, mais especificamente pelo time do Racing, possibilita ao diretor realizar uma cena brilhante em movimento e expressividade.

Uma curiosidade interessante é que nas cenas de campo-contracampo, em que a câmera mostra ora, um, ora, outro dos personagens, “o outro” sempre aparece em parte e desfocado, na frente do quadro, como que a acentuar que é de diálogo que se trata, que o outro está lá presente.

Muitas coisas acontecem ao fundo ou na lateral do enquadramento, assim como as falas, que aparecem fora de cena, antecipando ou prolongando a ação, recursos muito presentes num cinema contemporâneo de qualidade. Os diálogos do filme talvez sejam seu maior mérito. São deliciosos, irônicos, hilários, originais em sua dramaticidade, e contribuem para manter o suspense do quebra-cabeças que o filme nos apresenta. Com isso, a fita permanece sempre atraente e prende a atenção do espectador o tempo todo.

É mais um trunfo do cinema argentino, vencedor do Oscar como filme estrangeiro. E mais um desempenho notável desse grande ator que é Ricardo Darín.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

AMOS GITAI E “APROXIMAÇÃO”



Antonio Carlos Egypto

APROXIMAÇÃO (Disengagement). Israel, 2007. Direção: Amos Gitai. Com Juliette Binoche, Liron Levo, Jeanne Moureau e Barbara Hendricks. 115 min.


Amos Gitai é um diretor de cinema israelense, nascido em Haifa, em 1950, que sempre abordou em seu trabalho questões do judaísmo, em seus aspectos históricos, religiosos (as diferentes visões e valores dentro do judaísmo), os conflitos no Oriente Médio, as guerras que assolam a região em que seu país está envolvido e até aspectos militares desses conflitos.

Seu olhar é pacifista, profundamente humano e capaz de enxergar os vários lados da questão. Por meio de personagens não muito elaborados, que vivem e sofrem em função desses conflitos, ele ressalta, mediante a vivência de uma pessoa ou de poucas pessoas, o drama humano não só dos judeus israelenses ou dos palestinos, mas de todos os povos e nações que ali se relacionam.

Ele mesmo viveu a experiência de atuar na guerra do Yom Kippur, nos anos 1970, integrando uma unidade de salvamento aéreo, o que lhe serviu de base para o filme “Kippur – O Dia do Perdão” (2003). Em “Kedma” (2002), é a criação do Estado de Israel que aparece na história dos sobreviventes de campos de concentração, que viajam de navio para chegar à Palestina, onde são recebidos a bala por soldados ingleses.

Em “Kadosh – Laços Sagrados” (1999), é a relação entre a ortodoxia judaica e o mundo contemporâneo o que se vê no papel designado às mulheres, especialmente na reprodução, e na forma diferenciada como os personagens femininos reagem aos cânones tradicionais. Em “Free Zone” (2005), a chamada zona franca de negócios é a que fica na fronteira entre Iraque, Síria e Arábia Saudita. Conflitos pessoais entre três mulheres, que lá se encontrarão por diferentes razões e motivações, movem o filme, que respeita e valoriza as diferenças.

A película programada para entrar em cartaz nos cinemas e que foi batizada de “Aproximação” é de 2007 e trata de uma situação complicada. Questões políticas levaram o governo de Israel, em nova tentativa para que negociações de paz pudessem ter algum resultado, a retirar, nem que fosse preciso usar a força, judeus assentados na Faixa de Gaza. Uma contradição difícil de ser assimilada, sobretudo para os mais religiosos. As cenas de pessoas sendo carregadas pelos soldados israelenses, enquanto homens e mulheres, em salas separadas e em vestimentas típicas, entoam canções religiosas e leem a Torah, são as de maior impacto do filme. E colocam em campos opostos uma mãe à procura de sua filha, que está sendo retirada por soldados, comandados por ninguém menos que o irmão adotivo daquela mãe. Doloroso, não é?

Para mim, a cena que vale o filme é um plano-sequência longo, logo no seu início, quando um israelense se envolve com uma palestina, a partir de um simples encontro no corredor do trem, para compartilhar cigarros, e um fiscal, que controla passaportes, manifesta por falas e comportamento a inviabilidade da aceitação social da atração entre um israelense e uma palestina. Quando ele procura protegê-la de uma intransigência inexplicável do fiscal, isso soa como algo inadmissível, como se as pessoas tivessem de ser inimigas no plano pessoal e jamais pudessem se atrair sexual ou amorosamente. A conversa do casal remete à discussão do que é uma nacionalidade e do que ela pode significar.

O cinema de Gitai é generoso, voltado aos sentimentos humanos, mas sem concessões ao cinema comercial dominante. A começar pelos planos-sequência, onde tudo acontece devagar. A situação e a história importam mais do que a construção elaborada dos personagens. Eles estão ali para viver o drama que o contexto ou a história lhes impôs. Entendemos bem o que se passa, sem que tenhamos de atentar para meandros complexos de suas personalidades.

O seu jeito de filmar é elegante, bonito, mas exige uma atenção concentrada e, naturalmente, ajuda muito ter algumas informações sobre o contexto de seus filmes, já que ele está centrado nas pessoas, mas o drama delas se dá por razões coletivas, mais do que por razões individuais.

No elenco desse filme, se destacam Juliette Binoche, ótima, e, num pequeno papel, aparece uma envelhecida, mas sempre notável, Jeanne Moureau. Liron Levo faz muito bem o principal papel masculino.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Educação

Tatiana Babadobulos

Nick Hornby é um apaixonado por música, literatura e, vá lá, cinema. Entre outros, é autor do romance "Alta Fidelidade", cujo livro ganhou as telas e fez muito sucesso com o protagonista vivido por John Cusak, viciado em "top 5", ou seja, em tudo o que fala ou pensa, inclui uma lista com cinco itens. Desta vez, ataca de roteirista. A partir do texto autobiográfico da jornalista Lynn Barber, publicado na revista literária "Granta", sobre seu primeiro namorado, Hornby escreveu o roteiro de "Educação" ("An Education"), longa-metragem que estreia após receber três indicações ao Oscar 2010 (melhor filme, atriz, roteiro adaptado).

Na Inglaterra dos anos 1960, a adolescente Jenny (Carey Mulligan) vive sufocada com os estudos e com a pressão do pai autoritário (Alfred Molina), que a obriga a estudar latim para ingressar em Oxford, embora ela goste mesmo de francês e queira ir a Paris ver filmes, ler livros, ouvir os cantores franceses, fumar seus cigarros, vestir roupas pretas, uma vez que, do outro lado do Canal da Mancha, o mundo lhe parece mais livre que na imensa ilha que habita. Para ela, o mundo perfeito tem nome: Paris.

O marasmo começa a mudar quando, ao sair da aula de violoncelo, ela conhece David (Peter Sarsgaard), um bon vivant mais velho que ela e faz "negócios" com obras de arte. Como entende de música clássica (e pode levá-la a concertos e a frequentar os mesmos locais da nata londrina), ela aprende a apreciar restaurantes, deixa de lado os estudos e, com as amigas da escola, compartilha de suas experiências (inclusive o sexo, que, segundo ela, "Todas essas poesias, e todas aquelas canções, sobre algo que leva tão pouco tempo?).

Nesta transição, portanto, ela vai aprender que a tal educação não está apenas nos livros, embora a escola não possa ser menosprezada, pois a professora e a diretora têm algo a ensinar. E é essa vida cheia de ilusões que ela quer.

Com direção da dinamarquesa Lone Scherfig, "Educação" discute os problemas da vida no Reino Unido da época, uma vez que tinha ficado para trás, se comparado aos Estados Unidos e à França e cuja população preza pela "liberdade, igualdade e fraternidade". O espectador vai se confrontar também com as atitudes do pai que, ao mesmo tempo que quer mandar, é medroso e não se sente confortável em ir para a França por não ter, por exemplo, o dinheiro daquele país, uma vez que naquele período pós-Segunda Guerra Mundial, tratava-se de um transtorno o câmbio de moedas.

Como foi inspirado no primeiro namorado de Lynn Barber, a fita retrata o que compõe o primeiro amor: apresentar à família, conhecer os amigos, apreciar os locais e as coisas pela primeira vez, ainda que o rapaz já o tenha feito antes. Para ela, desfrutar dessas maravilhas tem os lados bom e o ruim. E isso o filme também mostra.

O filme traz figurino e o retrato de uma Londres fria e cinzenta dos anos 1960 e trilha sonora (bem escolhida, aliás!) para o espectador apreciar e sintonizar os costumes, as pessoas, os amores. "Educação" reflete a juventude de hoje, ainda que não sob as mesmas circunstâncias e sob os mesmos aspectos. No entanto, é possível, sim, se identificar com a personagem, ainda que, aparentemente, os pais não exerçam hoje em dia tanta influência nas escolhas dos filhos como há 40 anos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Lobisomem

Tatiana Babadobulos

Trata-se de um remake do longa-metragem lançado em 1941 (de George Waggner), em preto-e-branco, a estreia desta sexta, 12: “O Lobisomem” (“The Wolfman”). Refilmagens, aliás, são pouco justificáveis, a não ser que sirvam para melhorar algo que era bom. Neste caso, pois, a ideia pode ter sido aprimorar os efeitos especiais e torná-los realistas. E neste ponto vai bem.

A lenda da criatura conhecida como licantropo, um humano com a habilidade de se transformar em lobo em noite de lua cheia, remete aos mitos dos gregos antigos. No cinema, a história conta sobre Lawrence Talbot (Benicio Del Toro, de “21 Gramas”), cuja infância fora bastante tumultuada, principalmente após a morte de sua mãe. Desde a trágica noite, saiu da Inglaterra e foi para os Estados Unidos esquecer os sons que costumava ouvir, os traumas. Tanto trauma que se internou no hospício, pensando que era loucura. No entanto, é a morte do seu irmão, anunciada por sua cunhada, Gwen (Emily Blunt), que o faz voltar para descobrir o que tem acontecido naquela redondeza.

De maneira não linear, com roteiro escrito por Andrew Kevin Walker e David Self (com base no de Curt Siodmak), portanto, o filme volta ao ponto inicial e mostra como foi a infância do rapaz, sua relação com o pai (Anthony Hopkins, ótimo!), que era frio e pouco amoroso (embora obsessivo com relação às mulheres), e por que as desgraças acontecem sempre nas noites de lua cheia.

O que o motiva a ir atrás do que aconteceu, além da cigana Maleva (Geraldine Chaplin), que afirmou ser o seu destino depois que fora mordido pela criatura e, por isso, não é possível mudar, é o amor que nasce em relação a Gwen. É o amor que sente por ela que o move a acabar com o mistério que ronda a mansão onde vive.

Com direção de Joe Johnston (“Jurassic Park 3”), “O Lobisomem” é um filme de época, situado no interior da Inglaterra e em Londres (onde aparecem de relance a Tower Bridge, a catedral St. Paul, o rio Tâmisa), uma cidade com ruas por onde passam cavalos, inspetores da Scotland Yard em busca do assassino, além de acampamento de ciganos. Todos, pois, com seus figurinos que condizem com a época (fim do século 19), mas com imagens sempre sombrias.

O lobisomem aparece primeiramente de relance, só a sua sombra, uma vez que seus movimentos são extremamente rápidos. No entanto, quando uma das cenas mostra a transformação do homem para a fera, então é revelado, passo-a-passo, os pelos a mais que crescem em seu corpo e rosto, as mãos, os pés, os dentes e toda a estrutura de seu corpo que é modificado para viver alguns minutos como predador.

Um dos problemas da fita é a trilha sonora incessante. Desse modo, ainda que seja bela, o espectador passa a ignorar o som, pois ele está sempre lá, e não se surpreende nos momentos de tensão e suspense, nem quando a música se altera para pregar susto.

Para os que não aguentam cenas permeadas de sangue e matança, atenção: há corpos dilacerados, vísceras esparramadas pelo chão (e que a câmera mostra com cuidado), cabeças cortadas, pulsos arrancados durante os ataques daquele que chamam, a princípio, de diabo.

O clímax, enfim, é um dos momentos mais esperados: o combate entre dois monstros e segue a torcida para descobrir quem vai levar a melhor. Afinal, quem chega no cavalo branco é a mocinha e não o príncipe encantado.

Em tempo dos filmes que exaltam criaturas como vampiros (“Crepúsculo”, “Lua Nova”), “O Lobisomem”, baseado também em uma lenda, reúne boa história de uma maneira bem contada, com ótimas interpretações (o olhar de Del Toro é incrível e consegue transmitir a fúria e as diferenças entre quando é o mocinho e quando se torna a besta) aliadas a efeitos especiais e maquiagem de primeira qualidade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

ENTRE IRMÃOS

Antonio Carlos Egypto


ENTRE IRMÃOS (Brothers). Estados Unidos, 2009. Direção: Jim Sheridan. Com Tobey Maguire, Jake Gyllenhaal e Natalie Portman. 110 min.


Se um irmão é bom, dedicado, persistente e conquista as coisas, não surpreende nada que o outro aja como moleque, inconsequente, transgressor, irresponsável. Sam (Tobey Maguire) é um capitão em ação no Afeganistão, Tommy (Jake Gyllenhaal) acaba de sair da cadeia, porque esqueceu de cumprir as leis. No jogo de compensações se dá o equilíbrio. Certamente não para o pai deles, que vê o militar como herói (ele mesmo já serviu no Vietnã antigamente) e o outro, como um renegado que ele mal suporta ver.

No filme de Jim Sheridan, essas oposições rapidamente se borrarão. E se o militar morrer em ação? E se o irresponsável for capaz de conquistar a simpatia das sobrinhas e da cunhada, Grace (Natalie Portman), apesar de todas as evidências em contrário até aqui? Tudo começa a mudar. E se o morto não estiver morto e voltar, que quadro encontrará em família? E que relação entre irmãos poderá então se estabelecer? O caleidoscópio vai girando e aparecem novas configurações.

O que aconteceu no Afeganistão? Que escolha ética envolveu nosso protagonista? Por que ele voltou tão traumatizado? Tudo mudou e conviver com essas mudanças pode ser penoso de uma forma ou de outra para todos, dos pais às crianças, passando pela mulher e, naturalmente, entre os irmãos.

Se o foco na família e nos relacionamentos caracteriza o filme, não menos importante é o tratamento dado aos traumas de guerra. Aqui é o Afeganistão. Mas poderia ser qualquer guerra, intervenção militar ou missão de paz. O poder destruidor da passagem pela guerra, especialmente quando situações-limite se apresentam, deixa consequências terríveis, que podem se tornar insuportáveis, a ponto de levar a desistir de viver. Afinal, não se pode viver a qualquer preço. Ultrapassados certos limites, a vida perde todo o sentido. E, no entanto, ela está lá, a vida segue seu curso.

São questões muito interessantes as que movem este trabalho cinematográfico e que vão mudando e surpreendendo os próprios personagens e a plateia, compondo um drama humano com forte conotação política. Incomoda que tenha cabido aos personagens afegãos simplesmente o papel de maus, impiedosos, selvagens. O discurso que eles usam é cristalino: “O que é que vocês vieram fazer aqui? Esta é a nossa terra”, mas não sobrou nuance que não seja a da maldade.

A história de “Entre Irmãos” é inegavelmente muito boa e o diretor irlandês Jim Sheridan parece gostar de contar histórias fortes numa narrativa linear. Ele destaca a intensidade do drama aliado a uma causa, geralmente. Lembram-se de “Meu Pé Esquerdo” (1989) ou de “Em Nome do Pai” (1993)?

“Brothers” é uma refilmagem. O original dinamarquês é de 2004, dirigido e roteirizado por Susanne Bier, que dirigiu também “Depois do Casamento” (2006), um bom filme que envolve questões humanas dentro da globalização e os contrastes existentes entre países ricos e pobres.

Nesta versão de 2009, o trabalho dos atores se destaca. Tobey Maguire pôde exercer um papel cheio de nuances e mudanças, muito diferente do heroísmo do Homem-Aranha. Não que ele já não tivesse feito trabalhos em que a sensibilidade se evidenciasse, como em “Regras da Vida”, de Lasse Halström. Mas o capitão Sam é uma figura mais intensa e dilacerada.

Jake Gyllenhaal vive um personagem em transformação. Sua atuação nos mostra este processo de amadurecimento e humanização progressiva e os diferentes humores e comportamentos por que ele passa.

Natalie Portman faz um personagem feminino que tem de se relacionar de forma radicalmente diferente com cada um dos irmãos, ao longo do filme. Ela consegue isso, sem apelar para nenhum exagero interpretativo.

Para quem gosta de apreciar uma boa história, conduzida por um diretor tarimbado, com bons atores em cena, “Entre Irmãos” é uma boa pedida.