terça-feira, 3 de setembro de 2024

VALERIO ZURLINI

                            

 Antonio Carlos Egypto 




Valerio Zurlini (1926-1982) é um dos grandes cineastas do chamado período clássico do cinema italiano, as décadas de 1950-1960 e 1970, em que se destacaram nomes como Fellini, Antonioni, Visconti, Pasolini, De Sica, Rossellini.  Zurlini faz parte desse timaço de realizadores com todos os méritos.  Mas seu cinema ainda é menos conhecido do que o dos chamados grandes mestres italianos.  Por isso ganha relevância uma mostra de seus filmes, que está acontecendo de 03 a 08 de setembro de 2024, no
Centro Cultural São Paulo, sala Lima Barreto, na rua Vergueiro, 1000.

 

Valerio Zurlini fez muitos curta-metragens e apenas oito longas em sua carreira.  Seis desses oito longas estão sendo exibidos nessa mostra.  Todos grandes obras do cineasta de Bolonha, que interagia com a literatura e a pintura, em busca de compreender, de forma esteticamente elaborada, as ações e sentimentos humanos em sua desafiadora complexidade.  Contextualizando os conflitos e relacionamentos com o seu tempo e os vínculos com as batalhas, tanto da vida amorosa e familiar quanto das guerras e disputas políticas na sociedade.

 

Comecemos por VERÃO VIOLENTO (Estate Violenta), de 1959, que aborda a política fascista de Mussolini, com um elenco que inclui Eleonora Rossi Drago, Jean-Louis Trintignant, Jaqueline Sassard, Enrico Maria Salerno. 

 




A MOÇA COM A VALISE (La Ragazza con la Valigia), de 1960, um dos meus favoritos, conta com Claudia Cardinale, esplendidamente bela, Jacques Perrin e Gian Maria Volonté no elenco.  DOIS DESTINOS (Cronaca Familiare), de 1962, destaca Marcelo Mastroianni e Jacques Perrin, nos papéis de irmãos distantes com diferentes visões de mundo, em grandes desempenhos.

 

Em 1965, MULHERES NO FRONT (Le Soldatesse) fala de prostitutas convocadas para a guerra para animar os soldados e traz atrizes como Ana Karina, Marie Laforet, Lea Massari e Valeria Moriconi.

 

A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE (La Prima Notte di Quiete), de 1972, traz o grande Alain Delon, recém falecido, como um atrativo a mais, ao lado de Giancarlo Giannini, Lea Massari e Alida Vali.  E O DESERTO DOS TÁRTAROS (Il Deserto dei Tartari), de 1976, traz um elenco nada menos que espetacular.  Vejam só: Jacques Perrin, Vittorio Gasman, Max Von Sydow, Francisco Rabal, Giuliano Gemma, Philippe Noiret e Fernando Rey, aquartelados à espera de um ataque tártaro, que parece nunca chegar.

 

Todos esses filmes também foram lançados em DVD, há algum tempo, pela Versátil Home Video, em versões remasterizadas, muito boas, que acredito ainda se encontrem no mercado.

 

Quem não conhece bem o diretor e gosta do cinema italiano, que foi um dos melhores do mundo nessa época, não deve perder essa mostra.  Com mais uma vantagem: todas as sessões são gratuitas.

 

  

terça-feira, 27 de agosto de 2024

O BASTARDO + OTHELO

Antonio Carlos Egypto

 


O BASTARDO (Bastarden).  Dinamarca, 2023.  Direção: Nikolaj Arcel.  Elenco: Mads Mikkelsen, Simon Bennebjerg, Amanda Collin, Kristine Kujath Thorp, Melina Hagberg.  127 min.

 

O ditado “Fazemos planos e Deus ri” é uma ótima síntese para “O Bastardo”, drama histórico, épico, que representa a Dinamarca na disputa pelo Oscar de filme internacional.  Dirigido por Nikolaj Arcel, com passagens por Hollywood, mas de volta a seu país, roteirizado por ele e por Anders Thomas Jensen, com base no romance de Ida Jessen, nos remete à Dinamarca do século XVIII, mais especificamente, a uma região considerada inóspita e infértil, na Jutlândia. 

 

O filme conta a saga do capitão Ludvig Kahlen, brilhantemente interpretado pelo grande ator Mads Mikkelsen, em busca de colonizar e cultivar uma terra renegada, que pertence ao rei, mas é dominada pelo nobre Federik De Schinkel (Simon Bennebjerg), com quem travará uma verdadeira guerra.

 

Apoiado pelo rei, quando conquista avanços inesperados, e por Ann Barbara (Amanda Collin), e cuidando de uma menina cigana, rejeitada e preconceituosamente tratada como amaldiçoada, Anmai Mus (Melina Hagberg), ele enfrenta todo tipo de problemas e questões que, inevitavelmente, não será capaz de controlar, apesar de sua determinação e capacidade de resistir.

 


A terra prometida ou a terra do rei foram usadas também como título para esse filme, já que é igualmente dela que se trata em toda a trama.

 

Por que, apesar de fazermos grandes planos e sermos capazes de lutar bravamente por eles, Deus ri?  Desejos e ambições são importantes, mas falham, porque a vida é um caos, dolorida, feia e bela, ao mesmo tempo, extraordinária, como se explicita ao longo do filme.  Ou seja, somos impotentes para controlar a vida, ela nos escapa.  Os sucessos podem chegar quando menos se espera e fora de hora.  Os esforços serão recompensados, algumas vezes, mas em momentos decisivos, não.  Há interesses por todos os lados, maldades, violência, intempéries.  As agruras exigem decisões que podem se revelar ingênuas ou equivocadas, em alguns casos.  Perigosas ou inadequadas, em outros.  Felizes, também.

 

Enfim, “O Bastardo” nos leva a um drama histórico, uma aventura épica, plasticamente bonita, que tem tudo a ver com a nossa existência humana, em qualquer canto e em qualquer época.  Um filme que estimula os sentidos e dá o que pensar.  Vale a pena conferir.

 

 


Também está entrando em cartaz nos cinemas o ótimo documentário “Othelo, o Grande”, de Lucas H. Rossi, sobre um dos maiores atores e comediantes do Brasil de todos os tempos: Grande Othelo (1915-1993).  O filme se vale de um vasto material de arquivo para compor a figura artística de Sebastião Bernardes de Souza Prata, que rompeu todas as barreiras do racismo estrutural para vir a ser o nosso ícone do cinema e de outras mídias.

 

O documentário utiliza o recurso de contar a vida e a história de Grande Othelo somente a partir dele mesmo, de suas falas, reflexões, entrevistas e de seu desempenho artístico inesquecível, no cinema, no palco do teatro ou na TV.  O que emerge daí é uma figura pequena em estatura, mas muito grande na vida e na arte.  83 min.




 

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

MOTEL DESTINO

Antonio Carlos Egypto

 


MOTEL DESTINO.  Brasil, 2024.  Direção: Karim Aïnouz.  Elenco: Iago Xavier, Nataly Rocha, Fábio Assunção.  115 min.

 

O diretor Karim Aïnouz, brasileiro, cearense, é um dos nossos mais importantes cineastas, com reconhecimento internacional e uma obra sólida e farta.  Basta citar alguns de seus filmes para evidenciar isso: “Madame Satã”, 2000; “Praia do Futuro, 2016; “A Vida Invisível”, 2019; “Marinheiro das Montanhas”, 2023.  Outro de seus filmes é “O Céu de Suely”, de 2006, realizado inteiramente no Ceará.  Pois, após 16 anos de carreira internacional, Karim volta a filmar no seu Ceará natal “Motel Destino”.  E se diz feliz com isso.

 

Segundo suas palavras: “Depois de tantos anos longe do Brasil, ainda mais tempo longe do Ceará, colocar esse filme no mundo é, para mim, uma felicidade imensa.  Os últimos anos foram muito difíceis, em que sobrevivemos a uma pandemia e a um governo fascita.  ‘Motel Destino’ é uma ode ao desejo como motor da vida”.  Colocar o filme no mundo, como ele diz, não é exagero.  O filme concorreu em Cannes e conta com coprodução da Alemanha, da França e do Reino Unido.

 


O curioso é que a volta à terra natal, embora explore também a beleza praiana e os espaços abertos, concentra-se num espaço fechado: o do motel de beira de estrada do litoral cearense.  Aqui se desenvolvem os jogos perigosos de desejo, poder e violência, que incluem o casal de proprietários/administradores do local.  Ele, Elias (Fábio Assunção), ela, Dyana (Nataly Rocha).  Nesse universo fechado eles vivem um casamento tóxico, em que Dyana está presa numa situação abusiva.


Tudo começa a mudar quando um jovem da periferia, perseguido pela polícia, aparece e se esconde, trabalhando por lá.  Heraldo (Iago Xavier), como uma espécie de sedutor/desagregador, similar ao de “Teorema”, de Pier Paolo Pasolini.  E toda uma trama policial e de suspense se estabelece.  O filme é, na realidade, um thriller erótico. Se as cenas eróticas se sobressaem, o confinamento no motel nos remete ao lockdown dos tempos recentes da pandemia de Covid19. 

 


A concentração das ações no espaço fechado do motel potencializa o drama e as reações dos personagens da trama.  É um filme que tem ritmo, ação, e que flui muito bem nesse contexto claustrofóbico e de prazer.  O que é um grande mérito do diretor e também do elenco.  A concentração do espaço parece tê-los ajudado a se aprofundar em seus personagens e no convívio entre eles. 

 

Destaque para o jovem cearense Iago Xavier, que atua como veterano, com muita força em cena.  Do mesmo modo, a atriz, cearense também, Nataly Rocha tem grande presença e força dramática na narrativa.  Quem aparentemente encontraria mais dificuldade nessa história cearense seria Fábio Assunção, ator muito conhecido no Sudeste. Ele se complicou mesmo com algumas expressões do linguajar local, segundo seu próprio depoimento, mas está perfeitamente integrado em seu papel e no relacionamento com seus parceiros de cena, também com ótima atuação.

 

As vantagens de uma filmagem restrita a um local assim determinado são a otimização do tempo, a redução do custo e a abertura de muitas possibilidades de situações.  Um filme coral num motel pode ser uma boa ideia ou, possivelmente, uma ampliação ou continuidade dessa história.  Não estou propondo nenhum Motel Destino 2, até porque não sou entusiasta dessas ondas comerciais de continuação.  Mas nas mãos de Karim Aïnouz, quem sabe, pudesse sair muita coisa boa. Estou-me referindo a isso porque o próprio diretor expressou a satisfação que sentiu e a vontade de, talvez, fazer mais, já que encontrou um caminho muito favorável.  Veremos, então.

 

 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

O ÚLTIMO PUB

Antonio Carlos Egypto

 


O ÚLTIMO PUB (The Old Oak). Reino Unido, 2023.  Direção: Ken Loach.  Elenco: Dave Turner, Ebla Mari, Claire Rodgerson, Col Tait.  113 min.

 

A obra cinematográfica do diretor britânico Ken Loach é de uma consistência e coerência absolutas.  Seu talvez último filme, realizado no ano passado aos 87 anos de idade, é “O Último Pub”.  Baseado em roteiro de Paul Laverty, colaborador de Loach pelos últimos trinta anos, uma vez mais joga luzes na vida dos trabalhadores, dos excluídos, dos que são vítimas dos preconceitos.  Procurando sempre entender as razões econômicas e coletivas dos fatos.  Fazendo da forma mais simples possível um cinema complexo, porque a vida é complexa.  E ele não quer trapacear.  Muito menos a essa altura da sua existência.

 

“O Último Pub” vai a uma pequena cidade, que já foi muito próspera no passado, mas, com o fechamento das minas e das indústrias locais, produziu um êxodo e quem restou amarga uma decadência, falta de emprego e de perspectivas.  

 

Para cidades como essa, são levados os imigrantes, que fogem de condições de vida insuportáveis em seus países.  No presente caso, imigrantes sírios, fugindo da guerra que destruiu suas casas, seu trabalho, suas comidas, sua condição de vida.  Esses imigrantes pouco ou nada têm a oferecer, nem sequer dominam o idioma.  São, portanto, rejeitados, discriminados.

 

Ocorre que a população local tende a vê-los como os responsáveis pela sua decadência, esquecendo-se de todo o processo histórico-econômico que esvaziou essas cidades.  O estrangeiro é o culpado.  É simples.  Mas falso, muito falso.

 

É da vida dessas pessoas, as locais e os imigrantes, em convívio e conflito, que se alimenta a história desenvolvida pelo filme.

 


O dono do último pub, que resiste na cidade, no entanto, é capaz de se aproximar e quer ajudar esses sofridos sírios.  E se lembrando de um aforismo materno de que o fundamental é comer junto para viver bem, organiza refeições coletivas, reunindo os recursos dele e de todos, para que todos possam comer e existir de uma forma melhor.  Só que essa solidariedade à base da comida incomoda outros, que não aceitam que o pub tenha esse papel e quer os imigrantes longe dali.  Passando fome, não importa.

 

Ao mostrar todo esse processo e relacionamento, Ken Loach reafirma seu humanismo e sua crença na união dos trabalhadores e de todos que se sentem excluídos.  Mas, ao mesmo tempo, parece um pouco desanimado quanto ao êxito dessas lutas na atualidade. 

 

O momento mundial não é mesmo muito animador, com tanta opressão e tantas guerras.  Com o declínio do Estado de Bem-Estar Social na Europa, isso agudizou todo o problema dos imigrantes, hoje uma grande chaga não só no Reino Unido, mas na Europa toda e por aqui também, em escala menor.

 

Mais uma vez, o cineasta nos dá um belo filme político, dentro de uma narrativa dramática muito bem estruturada e trabalhando também com atores não profissionais, sírios que vivem ou viveram o drama que estão representando.  Algo que só solidifica e adensa a sinceridade e a verdade dos fatos.  Cinema da melhor qualidade. Se for mesmo o último filme dele, será uma pena.  O trabalho de Loach no Reino Unido tem uma grandeza que deixará uma lacuna, fará muita falta.

 

Quem não conhece a obra cinematográfica de Ken Loach e quiser ler minhas críticas a muitos dos filmes que ele fez, aqui no cinema com recheio, basta escrever o nome dele no campo de pesquisa, no formato web do blog, e terá muita coisa para ler.  Entre eles, os ótimos e mais recentes “Você Não Estava Aqui”, de 2019, e “Eu, Daniel Blake”, de 2016.  É uma obra maravilhosa, de um grande mestre do cinema.




 

terça-feira, 13 de agosto de 2024

O DIABO NA RUA NO MEIO DO REDEMUNHO

Antonio Carlos Egypto

 

 



O DIABO NA RUA NO MEIO DO REDEMUNHO.  Brasil, 2023.  Direção e roteiro: Bia Lessa.  Elenco: Caio Blat, Luiza Lemmertz, Luísa Arraes, Leonardo Miggiorin, Clara Lessa, José Maria Rodrigues.  121 min.

 

“O Diabo na Rua no Meio do Redemunho”, adotando esse título, o filme já mostra a que veio: produzir uma imersão na linguagem e no universo de Guimarães Rosa, a partir do seu Grande Sertão Veredas.

 

Uma vez mais, essa obra-prima da literatura brasileira é encarada pelo cinema, por meio do trabalho de Bia Lessa.  Trabalho que se iniciou no teatro, com ela mesma dirigindo esse elenco que está no filme.  E Caio Blat encarna novamente o jagunço Riobaldo, como fez na peça e no filme de Guel Arraes “Grande Sertão”, já comentado aqui no cinema com recheio.

 

A versão cinematográfica de Bia Lessa vale-se do texto de Guimarães Rosa, do seu universo original, destacando toda a dimensão que a profundidade da obra contém, fazendo-nos mergulhar naquela linguagem tão própria e marcante do sertão mineiro que ele recria. 

 

Ela o faz com grande inventividade, como se estivesse no palco, mas num imenso e vazio palco cinza, que será preenchido pelos atores e atrizes em atuações capazes de criar tanto a guerra quanto os pássaros, tanto a vida e o amor quanto a morte.  E contando com adereços cênicos encenar uma batalha de dois grupos em confronto, um rio ou um campo de morte.

 


É teatro da mais alta estirpe, muito bem captado pela técnica cinematográfica.  Bem distante do teatro filmado que, via de regra, resulta em produtos tediosos.  Mas é assumidamente teatro.  Isso nos mostra quanto uma concepção cênica pode se reinventar para se expressar por diferentes meios e linguagens.

 

A narrativa de Riobaldo frente a Deus e ao diabo, confundindo-se no amor a Diadorim e no sentido mutante do bem e do mal, ganha uma força imensa nessa adaptação ao cinema.  Uma força que se multiplica com a música intensa e marcante de Egberto Gismonti.

 

O filme é todo intensidade, emoção e reflexão.  Sua linguagem nos provoca pelas palavras e pelas imagens o tempo todo, do começo ao fim.  Mas é um desafio que nos engrandece, nos modifica para melhor, se nos dispusermos a entrar nesse universo fascinante de Guimarães Rosa, que Bia Lessa explora de forma tão criativa e competente.

 

Após ter sido lançado em mostras e festivais nacionais e internacionais, entra no circuito cinematográfico a partir de São Paulo, agora em 15 de agosto de 2024, e vai em seguida receber lançamentos no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Luís, Salvador, Fortaleza e Porto Alegre, com exposições, debates e oficinas, com a participação da diretora e do elenco, em diferentes eventos pelo país.



sábado, 3 de agosto de 2024

CARTAS OBSCENAS E O MAL

Antonio Carlos Egypto

 


PEQUENAS CARTAS OBSCENAS (Wicked Little Letters).  Reino Unido, 2023.  Direção: Thea Sharrock.  Elenco: Olivia Colman, Jessie Buckley, Anjana Vasan, Timothy Spall.  101 min.

 

“Pequenas Cartas Obscenas” é uma comédia bem característica do humor inglês.  Focaliza uma pequena localidade litorânea nos anos 1920. Uma sociedade tradicional, conservadora, dominada pela visão religiosa do mundo. Ainda assim, há espaço para uma jovem mulher de hábitos mais livres e um linguajar chulo, que inclui palavrões no seu dia-a-dia.  Algo que incomoda a comunidade e que é mal tolerado.  Esse é o papel da jovem e talentosa atriz Jessie Buckley, a personagem Rose.  Já Olivia Colman, excelente e talentosa atriz já experiente, faz o papel central da trama, o de Edith.  Edith recebe cartas obscenas e injuriosas, curtas e incômodas, que abalam a ela e a seus pais.  Eles reclamam na polícia local e estão certos de que tal coisa se deve a Rose.  Mas a policial local Gladys, vivida pela jovem e muito boa atriz Anjana Vasan, não está convencida disso e resolve investigar, mesmo contrariando a orientação de seus superiores, homens.  O mistério será desvendado.  A história, inspirada em fatos reais, é tão estranha que parece uma ficção exagerada.  Reflete, no entanto, o que o ser humano que não está em paz consigo mesmo é capaz de fazer.  Além do belo elenco, que tem também o conhecido e notável ator Timothy Spall, o clima e os diálogos do filme valem a pena. É uma produção bem cuidada, clássica, sem inovações formais.  Acaba sendo um bom entretenimento, que respeita a inteligência do público.

 


O MAL NÃO EXISTE (Aku Wa Sonzai Shinai) é o novo filme de Ryusuke Hamaguchi, do Japão, que esteve na # 47 Mostra. Quem viu “Drive My Car”, um filme espetacular, e também “Roda do Destino”, sabe que se trata de um talento indiscutível de cineasta.  Daí ser imperativo conhecer seu novo filme. Só que “O Mal Não Existe” nos prega uma grande peça.  O filme é hermético, no sentido de incompreensível.  Não está nas imagens, nem nas falas, nem no inexistente nexo causal entre as sequências, o significado da obra. Cabe ao espectador desvendar a esfinge.  Enquanto isso, assiste-se a uma filmagem bonita, com belas locações, bons atores e tudo o mais. E vê-se muita maldade, ou intenções escusas, num filme que se chama “O Mal Não Existe” .  Como assim?  É só uma ironia ou ele seria uma representação, uma performance teatral? Ou ele está lá e a gente faz de conta que não vê? Poderíamos até fazer uma pesquisa sobre o que cada um achou que era, interpretou, complementou, inventou.  Quando algo não está claramente dado, a tendência é preenchermos as faltas com a nossa própria visão do mundo e das coisas.  Ou simplesmente abandonar o desafio e rejeitar o filme.  O problema é que ele é muito bem feito e está muito longe de ser uma bobagem qualquer.  106 minutos.

 

 

 

domingo, 28 de julho de 2024

3 MOSTRAS DE CINEMA

Antonio Carlos Egypto

 

Em São Paulo tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que se torna difícil escolher o que fazer.  E não é preciso muito dinheiro para isso, não.  Vou falar de três mostras importantes de cinema que ocorrem simultaneamente, com ingressos a preços ultra promocionais ou gratuitos.

 


Pela primeira vez, o cine Reag Belas Artes vai promover uma mini-mostra internacional de filmes de todas as partes do mundo.  Estão previstos 20 filmes de 20 diferentes países para o Festival Filmes Incríveis (FFI), que ocorre naquele cinema de 1º a 14 de agosto.  Já estão confirmados o Irã, Camboja, Geórgia, Costa Rica, Índia, Nepal, Arábia Saudita, Tunísia, Cuba, Macedônia do Norte, Romênia, Coreia do Sul, Polônia, Japão, França, Bélgica, Canadá, Estados Unidos e Brasil.  São filmes inéditos, escolhidos por características de produção que escapam ao padrão comercial e não necessariamente têm obtido grandes prêmios em festivais internacionais ou pertençam a diretores já consagrados.  Fazem parte daquele espírito cinéfilo de encontrar pepitas de ouro cinematográficas.  Já vi alguma coisa em cabines de imprensa.  Por exemplo, o filme indiano A NUVEM E O HOMEM, de 2021, que estabelece o vínculo surrealista entre os substantivos do título, valendo-se de uma inesperada abordagem realista, é, no mínimo, curioso.  CAFÉ TEERÃ, do Irã, 2023, mostra a vida e as desventuras pelas quais passa um cineasta impedido de filmar e que espera por uma sentença para passar anos na cadeia.  Enquanto isso, cuida de um café na cidade, homenageando cineastas, como Kieslowski, Woody Allen e Kiarostami, que dão nome e imagem às mesas do estabelecimento.  Em tempos de inteligência artificial e fake News, nada mais surpreende, nem mesmo um filme encontrado, supostamente de 1941, que conta uma história da guerra em Londres, por meio da descoberta, por duas irmãs, de equipamentos de comunicação que são capazes de captar emissões no futuro.  Isso é LOLA, do Reino Unido, 2022, em que se vê, por exemplo, Hitler desfilando em Londres.  Nem sei o que dizer.  Melhor recomendar o filme de Karim Aïnouz, MOTEL DESTINO, que concorreu em Cannes e que ainda não vi.  E o filme do grande diretor Rithy Panh, do Camboja, que é tiro certo na qualidade: o documentário ENCONTRO COM O DITADOR, 2024.  Sessões a R$10,00 e R$5,00, a meia.  Para quem dispõe de tempo, dá para ver dois ou três filmes no mesmo dia.

 


No Cinesesc, ocorre, de 31 de julho a 14 de agosto, a 2ª. edição da Mostra Amor ao Cinema, que traz três filmes inéditos importantes: o indiano A ÚLTIMA SESSÃO, de Pan Nalin, de 2022, COUPEZ! (Corta!) de Michel Hazanavicius, 2023, e principalmente FECHAR OS OLHOS, do diretor espanhol Victor Érice, um dos melhores da 47ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  O Festival, que focaliza o cinema como tema e fonte de amor, tem vários clássicos restaurados, cursos e debates abordando o cinema atual e, ainda, uma programação na plataforma Sesc Digital, streaming gratuito do Sescsp.  Os ingressos no Cinesesc custam R$10,00 e os cursos são gratuitos.  Mais informações e programação completa em sescsp.org.br/amoraocinema

 


Como se não bastasse, a 13ª. Mostra Ecofalante de Cinema, que discute a emergência climática, traz 122 filmes de 24 países sobre as questões ambientais e ocorre de 1º. a 14 de agosto, em diversos cinemas de São Paulo, em sessões totalmente gratuitas.  Os cinemas são o Reserva Cultural, o Bijou (Satyros Bijou), o Centro Cultural São Paulo e o circuito SpCine, em vários CEUs, pela cidade.  As questões urgentes do desarranjo climático que estamos vivendo estão em destaque nesse ciclo de filmes.  Veja a programação em www.ecofalante.org.br .

Que tal experimentar o dom da ubiquidade para ver tudo isso nesse período de 15 dias de agosto de 2024?

 

terça-feira, 16 de julho de 2024

TRANSEXUAIS NO CINEMA

Antonio Carlos Egypto

 

A questão transexual adquiriu importância e relevância maior nos últimos tempos, com a derrocada de tabus e o reconhecimento do valor da diversidade, pela maioria das pessoas.  O cinema tem refletido muito isso, com filmes que destacam personagens trans na ficção e dando voz e vez às pessoas chamadas não-binárias no registro documental.  Três filmes, que estão em cartaz nos cinemas, têm a questão transexual no centro de suas narrativas. 

 


ORLANDO, MINHA BIOGRAFIA POLÍTICA (Orlando ma biographie politique), documentário francês, de 2023, dirigido pelo filósofo, ativista e escritor trans, Paul B. Preciado, que agora é também cineasta, homenageia o personagem Orlando, de Virginia Woolf, de 1928.  Esse romance teve o primeiro personagem mudando de sexo no meio da história.  Preciado apresenta no filme 26 pessoas trans ou não-binárias, de 8 a 70 anos de idade, que se apresentam como representando o papel de Orlando.  Na verdade, estão falando de si próprias, se dando a conhecer, atuando no cotidiano de suas vidas e interagindo com suas vivências, o que não deixa de ser representação.  O filme é um documentário, poético e visual, muito interessante de se ver e que consegue até mesmo esclarecer didaticamente aqueles que ainda não se situam direito nesses novos conceitos.  E o faz sem restringir. Ao contrário, amplia as perspectivas de compreensão social e política desse universo, digamos, queer.  Seria interessante que justamente as pessoas com mais dúvidas ou resistências fossem ver o filme, para entender melhor o que se passa nessa realidade ainda desafiadora para nós, para eles, para todos.  98 min.

 


CAMINHOS CRUZADOS (Crossing) é um filme da Georgia e Turquia, de 2023, dirigido pelo georgiano radicado na Suécia, Levan Akin (de “E Então Nós Dançamos”, 2019).  No elenco: Mzia Anabuli, Lucas Kankava, Deniz Dumanli.  105 min.  A narrativa do filme foca na figura da senhora Lia, que está em busca de sua sobrinha Tekla, que ela não vê há muito, mas que prometeu à irmã falecida, mãe de Tekla, resgatá-la e trazê-la de volta.  Para isso, tem de, partindo da Georgia, ir à vizinha Istambul, onde presumivelmente a sobrinha estaria.  Sem falar turco ou inglês, aceita a companhia de um jovem para ajudá-la.  Nessa viagem, vão ficando claras as coisas.  Tekla está ligada ao mundo transexual da cidade, o que tenderia a aproximá-la da prostituição e das drogas.  Mas nesse meio há também sucessos, como o da trans Evram, advogada e defensora dos direitos humanos, que vai colaborar nessa busca.  Enfim, trata-se de penetrar no submundo de Istambul, para conhecer a realidade dos transexuais, suas rejeições, sofrimentos, abandonos, transgressões e fantasias.  Ao mesmo tempo, Lia estabelece uma relação difícil com seu acompanhante, que poderia ser seu filho e que está bem necessitado de apoio e de afeto.  A jornada de Lia levará a uma compreensão mais profunda desse universo tão palpável e tão desconhecido da transição de gênero, ou da eliminação da necessidade dessa escolha.  Uma mensagem escrita na abertura do filme informa que em georgiano e em turco não existe uma palavra diferenciadora de gênero para pessoas.  Destaque para a trilha sonora com canções locais muito bonitas.

 


A FILHA DO PESCADOR (La estrategia del Mero) é um filme da Colômbia, de 2023, dirigido por Edgar De Luque Jácome, filmado na República Dominicana, que conta, além desses dois países, com Porto Rico e o Brasil, na produção e distribuição.  É o primeiro longa do diretor colombiano.  No elenco: Roamir Pineda, Nathalia Rincón, Henry Barrios, Jesús Romero, Modesto Lácen.  78 min.  Numa ilha isolada do mar do Caribe, numa aldeia, vive um pescador tarimbado na pesca submarina em mergulho livre.  Convive com as alterações do mar e com ele tem uma relação de amor e domínio em sua solidão.  Até que aparece na ilha seu filho Samuelito, uma mulher trans, renomeada de Priscila, que está fugindo de uma confusão em que se meteu e que resultou numa morte.  Ela e o pai pescador são água e vinho, ele a hostiliza e rejeita, do mesmo modo que ela não o aceita por conta do passado, das relações rompidas dele com a mãe.  Será preciso que o pescador adoeça e se torne vulnerável para que as relações possam tomar outras proporções e caminhos.  Assim como o mar, os relacionamentos e emoções são sujeitos a ondas, revoluções, tempestades, furacões.  O filme é um tanto esquemático, nessa evolução narrativa, falta um tempo de elaboração para que os fatos se processassem como acontece.  Algumas mudanças de atitude são bruscas e inconvincentes.  No entanto, o conjunto se sustenta e as filmagens no mar dão um toque de beleza à realidade dura da transexualidade num ambiente conservador, que o filme mostra com clareza.




sábado, 13 de julho de 2024

O SEQUESTRO DO PAPA

           

 Antonio Carlos Egypto

 


O SEQUESTRO DO PAPA (Rapito). Itália, 2023.  Direção: Marco Bellocchio.

Elenco: Paolo Pierobon, Fausto Russo Alesi, Barbara Ronchi, Enea Sala, Leonardo Maltese.  135 min.

 

Vamos começar pelo título em português: “O Sequestro do Papa”.  Ele sugere o quê?  Que o Papa, um Papa histórico, tenha sido sequestrado. Mas, e se o fato histórico, que deu origem ao filme, é sobre um Papa que atuou como sequestrador ou mandante de um sequestro?

 

O título original “Rapito” significa raptado ou sequestrado.  E a que se refere?  Ao menino judeu Edgardo Mortara, que vivia com sua família em Bolonha e que, em 1858, aos seis anos de idade, foi retirado de seus pais e passou a viver no Vaticano, sob a responsabilidade da Igreja Católica, em especial, do Papa Pio IX (1792-1878), que o tratava como se fosse seu pai.

 


O motivo para o sequestro da criança seria o fato de que uma empregada doméstica da família Mortara realizou o batismo do menino em uma situação de doença e risco real de morte, quando bebê, visando livrá-lo do limbo, sendo ela católica.  À revelia da família, naturalmente. A lei proibia aos não-cristãos educar uma criança cristã, definida assim pela condição de batizado. Ainda que quem a pretendesse educar fossem seus pais biológicos.

 

Uma situação vista hoje como esdrúxula e de um autoritarismo absurdo.  Até então o poder do Papa extrapolava o modelo religioso, realizando-se também como chefe de Estado, uma espécie de Rei com poderes absolutos.

Na época vigorava um reinado Papal que se opunha à unificação da Itália e a Roma como capital do novo país, o que ocorreu em 1870.  O Papa vivia em conflito com os maçons, que inclusive tentaram jogar o caixão com os restos mortais do pontífice no Rio Tigre.

 

A situação que gerou o Vaticano como Estado independente dentro da Itália só seria resolvida pelo modelo atual por Benito Mussolini, em meados do século XX.

 


Essa história real resgatada pelo filme do grande diretor Marco Bellocchio é forte, é um libelo contra o autoritarismo, numa sucessão de sequências de impacto e beleza que nos levam a refletir sobre um bom número de questões.

 

Ao tomar como referência a vida do menino sequestrado e de tudo o que se passa com ele ao longo do tempo, não deixa dúvidas sobre o caráter opressor, não importa de quem parta.  Também nos revela o papel da manipulação de corações e mentes, ainda que envelopados pela aparente bondade e doçura.

 

Bellocchio se vale de um elenco de grande talento, que dá vida a personagens multifacetados, que não estão enquadrados na galeria dos bons ou dos maus.  São figuras mais complexas, reais.  A partir do próprio garoto estreante, Enea Sala, que faz muito bem o papel de Edgardo criança, o jovem Leonardo Maltese, como Edgardo adulto, o pai Momolo, interpretado por Fausto Russo Alesi, a mãe, Marianna, por Barbara Ronchi, e o Papa Pio IX, vivido por Paolo Pierobon. A reconstituição de época é muito boa e a beleza da cidade de Bolonha com a Basílica de São Petrônio e suas construções medievais se evidencia no filme.



terça-feira, 2 de julho de 2024

TESTAMENTO

                       

 Antonio Carlos Egypto





TESTAMENTO (Testament).  Canadá, 2023.  Direção e roteiro: Denys Arcand.  Elenco: Remy Girard, Sophie Lorain, Guylaine Tremblay, Caroline Néron, Robert Lepage.  115 min.

 

Denys Arcand, um dos mais importantes cineastas do Canadá, da região de Québec, foi sempre um diretor antenado com as questões da contemporaneidade.  Como atestam filmes como “Declínio do Império Americano”, de 1986, “Jesus de Montreal”, de 1989, e “Invasões Bárbaras”, de 2003.  Em “Testamento”, ele, aos 83 anos de idade, se debruça sobre o chamado campo do politicamente correto, da postura anticolonialista e das questões identitárias, totalmente relevantes e prevalentes no momento atual.

 

Não deixa de se referir aos extremos climáticos que tanto preocupam, mas o faz só ao final, na forma de blague.  Aliás, o filme todo se vale da piada, do comentário irônico e até do deboche.  Aí é que mora o perigo! 

 

Claro que os exageros são demonstrativos de que há algo a condenar por aí.  Exemplo no filme: um homem que faz muitos exercícios, alcança muitos quilômetros em maratonas na bicicleta, tem uma vida ultrassaudável, alimentação balanceada e tudo o mais, em torno dos 60 anos de idade.  Sua mulher critica os que não fazem como ele e acaba por se desesperar ao constatar que ele morre de morte súbita, ao chegar de uma dessas maratonas, em que exigia de si mesmo muito esforço.  OK.  Mas a prática de exercícios equilibrados e controlados, em qualquer idade, feita moderadamente é desejável.  Ou não?

 

Fazer piada depreciativa de quem já está vulnerável ou desprestigiado na escala social, objeto de preconceitos, discriminações e agressividade, se justifica?  Basta dizer que se as pessoas riem é porque é engraçado e tudo bem?  Atacar quem já está espezinhado pela palavra, pelo humor, pelo deboche, é engraçado por quê?  Revela o que está escondido, reprimido, escamoteado.  Aquilo que rejeitamos, inconscientemente, que não admitimos, não queremos ver.  Nesse sentido, dá até para invocar Freud em defesa do tal do politicamente correto.  Claro, regras e proibições são coisas chatas, incômodas, desagradáveis.  Mas, gostemos ou não, têm uma razão de ser.  Pelo menos até que possamos evoluir na compreensão e aceitação dos outros.  “Testamento” não tem essa preocupação crítica, que seria necessária, partindo de um cineasta com reconhecida lucidez política.


 



A questão mais explorada no filme é o ativismo político anticolonialista, que implica com um mural artístico de grande beleza que, supostamente, insulta as primeiras nações indígenas, os povos originários.  Diante do colonizador vestido com pompa e postura altiva estão indígenas seminus, com penas, etc..  Um pequeno grupo de ativistas, que nem são indígenas, conseguem gerar uma difusão pela mídia, que põe em risco a obra de arte.  E o que se vê é espantoso.  E ridículo.  Ninguém pode concordar.  Mas a postura colonialista merece ou não ser discutida?  Se não é essa a forma, qual seria?  E por aí vai.  

 

Estou chamando a atenção para um filme bem realizado, com um elenco excelente, a começar pelo protagonista, o ator Remy Girard, e também Sophie Lorain, intérpretes habituais do cinema de Arcand, e que funciona bem como comédia, de que o terreno é escorregadio.  É preciso cuidado para lidar com esses temas, porque eles têm um lado caricato, sim, mas são também relevantes e importantes para a sociedade contemporânea do século XXI.  Eu não gostei muito da abordagem do filme, ele ficou parcial e, em nome da ironia, simplificou as coisas.  É um pouco assim, mas não é bem assim.