sexta-feira, 9 de abril de 2021

DOCS. ESTADUNIDENSES

Antonio Carlos Egypto

 

É exasperante ver como nos dias de hoje grupos de pessoas criam as notícias que desejam, numa realidade paralela, e se utilizam dos recursos tecnológicos da Internet, das redes sociais, para desinformar e passar goela abaixo suas crenças.  E tantas pessoas as aceitam como fatos, ou verdades.  É um jogo de poder cruel, em que, via de regra, o irracionalismo vence o equilíbrio racional, o negacionismo e a ignorância se impõem à ciência, a barbárie sufoca o comportamento respeitoso e civilizado, o retrocesso barra o avanço.

O pior é que não é só aqui, no Brasil, que isso está acontecendo.  É em várias partes do mundo, como podemos constatar vendo dois documentários estadunidenses que estão sendo apresentados no festival É TUDO VERDADE 2021


Sob Total Controle
 

SOB TOTAL CONTROLE (Totally Under Control), dirigido por Alex Gibney, Ophelia Harutyunyan e Suzanne Hillinger, 123 minutos, trata do governo Donald Trump na pandemia.  Focaliza, principalmente, os primeiros meses do fracasso, ao que parece, calculado, intencional, mas também fruto de incompetência de gestão, na abordagem do covid-19, nos Estados Unidos de Trump.

 

O título do filme é a expressão do negacionismo do presidente: tudo sob total controle, quando a derrocada já estava visível, para quem quisesse enxergar.  E tome fake news, mentiras a rodo, não fazer nada bem feito e botar a culpa toda nos outros.  Principalmente, na imprensa e no governo chinês.  E tomar decisões que visavam, antes de mais nada, a tentar preparar o colchão para a reeleição que estava no horizonte.  Não é ridículo ver como, por aqui, se copia o que há de pior, com os mesmos métodos?

 

Conhecemos no que deu tudo isso por lá.  500 mil mortos, a invasão do Capitólio, estimulada por Trump por uma suposta fraude eleitoral, jamais comprovada, porque fantasiosa e pré-planejada.  Teve como consequência a derrota de Donald Trump e, felizmente, a retomada da política, em termos sérios e dignos por Joe Biden.  Teremos a mesma sorte?

 

Deixo essa pergunta no ar, porque outro documentário norte-americano nos mostra o que pode ser ainda pior, por incrível que pareça.


Mil Cortes
 

MIL CORTES  (A Thousand Cuts), dirigido por Ramone S. Diaz, 98 minutos, trata do governo das Filipinas de Rodrigo Duterte e da jornalista mais conhecida do país, Maria Ressa que, por combater o escandaloso uso das fake news, da manipulação de informações, acabou sentenciada e condenada, por “difamação cibernética”.  Ela, nascida em Manilla, mas de família de origem estadunidense, tinha um veículo independente e combativo, o rappler, que foi perseguido e chegava a ser citado nominalmente pelo presidente.  Antes, ela havia trabalhado na rede CNN.  Quando viajava, por sua atuação jornalística, frequentemente do aeroporto já ia para a prisão.

 

Jornalismo por lá é algo a ser eliminado, em tempos de Duterte.  A democracia já está naufragando mais do que o Titanic, mas a única política é uma delirante guerra às drogas.  Delirante, mas destruidora, e de um autoritarismo sem precedentes.

 

O filme mostra o presidente dizendo repetidamente que quem usar drogas ilícitas vai ser morto.  Não é só uma ameaça, está acontecendo e em larga escala, com cadáveres abandonados nas ruas.

 

Ao focalizar uma eleição legislativa em curso, o documentário mostra um candidato a senador que confessa que já matou alguns e mataria, sem dúvida, pelo presidente, drogados e traficantes. Foi o mais votado no pleito. Há quem aplauda a “limpeza” que essa política supostamente produziria, trazendo segurança às ruas.  Aliás, esse tal candidato pedia aplausos na campanha, apontando para os que não aplaudiram como sendo aqueles que se drogam.  Já chega, não é?

www.etudoverdade.com.br

 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

FUGA

Antonio Carlos Egypto

  



O filme de abertura do É TUDO VERDADE 2021, FUGA (Flee), de Jonas Poher Rasmussen, da Dinamarca, 90 minutos, é um documentário de animação que revela uma história pessoal dolorosa, em meio a um mundo conturbado e preconceituoso.  Utiliza-se de diferentes tipos de desenhos, mais concretos e realistas ou sugestivos esboços.  Vale-se, também, de vídeos de registros de situações, em imagem reduzida, como as antigas TVs.

 

O fato é que os recursos estão a serviço de uma narrativa que emociona, se indigna, mostra o quão difícil é lidar com a ausência de uma identidade que corresponde ao que a pessoa é ou sente, como é viver sem um lar e uma história pessoal que possa chamar de sua.

 

Essa história verdadeira nos é contada por meio de uma análise psicológica que traz da sombra os segredos de Amin, um refugiado afegão.  Ele retira do baú de memórias enterrado, desde os elementos femininos de sua personalidade na primeira infância até as tragédias familiares decorrentes da condição de refugiados, na infância e na adolescência, fugindo da opressão da guerra no Afeganistão.  Isso possibilita que o filme exponha o inacreditável das condições de fuga dos refugiados, que gastam o pouco que têm, arriscando a vida, novamente, em condições sub-humanas, para escapar da guerra. E, para poder concluir, uma impressionante viagem, com idas e retornos, que passa pela Rússia, e deixa para trás a família, até chegar à Dinamarca, desamparado, mas conseguindo, a partir daí, construir uma nova vida.

 



É na condição de intelectual, com pós-doc aos 36 anos de idade, que ele se submete à autodescoberta que o filme mostra.  O que inclui a questão da homossexualidade, absolutamente reprimida e negada no Afeganistão.  Lá, não consta que haja esse desejo.  Essa expressão da sexualidade é invisível, não existe nem a palavra que a designaria no idioma.  Na Escandinávia, a realidade é outra, dependerá de Amin encontrar um parceiro e uma vida em comum, desde que se disponha a isso.

 

O oprimido, mesmo quando vence na vida, incorpora ao inconsciente a vergonha, o medo e a culpa pelo que passou e precisou reprimir, para sobreviver.  Encontrar-se plenamente implica um processo penoso e altamente dolorido de resgate de imagens e sentimentos, de lembranças esquecidas, em busca de um futuro mais calmo. 

 

A FUGA, essa animação documental, dá conta de tudo isso em sua complexidade, sem simplificar, moralizar ou fazer proselitismo político de qualquer espécie.  Os fatos falam por si e pela boca do depoente e daquele que o escuta de fato e espera pelo tempo dele, com cuidado e paciência.

 

A utilização de desenhos alivia a carga pesada dessa vida, para o espectador, preserva os envolvidos e dá o necessário distanciamento, que permite reflexão de forma mais serena.  Em que pese tudo o que se conta.  Um belíssimo trabalho cinematográfico a ser conferido gratuitamente em www.etudoverdade.com.br, (pelos caminhos indicados no meu texto anterior), dia 08 de abril, dando início à maratona de documentários do É TUDO VERDADE 2021. 




segunda-feira, 5 de abril de 2021

É TUDO VERDADE 2021

Antonio Carlos Egypto

 



Um dos mais importantes festivais de cinema do país está apresentando sua 26ª. edição.  O festival de documentários É TUDO VERDADE 2021 acontece de 08 a 18 de abril inteiramente on line e gratuito.  E pode ser acessado em todo o Brasil.

 

Sua seleção, com alta qualidade artística, tanto nacional quanto internacional, evidentemente, mereceria ser vista na tela grande do cinema.  Infelizmente, esse prazer, como tantos outros, nos tem sido vedado pela pandemia.  É triste, mas é o possível, no momento.  Nada de negacionismo, nem de irresponsabilidade, numa hora dessas.  Mas garanto, nem que seja para ver na tela minúscula do celular, que vale a pena acompanhar o É TUDO VERDADE 2021, realização de Amir Labaki, com parceiros e apoiadores importantes, como o SESC, o Itaú Cultural, o Spcine, o Canal Brasil e as Secretarias de Cultura de São Paulo e do Ministério do Turismo.

 

Serão apresentados 69 filmes de 23 países, sendo 12 longas-metragens internacionais e 07, nacionais, além dos curtas-metragens em competição. Após a exibição de cada longa nacional está programado um debate virtual com os realizadores. Haverá, porém, muito mais. Uma mostra especial trata do centenário do grande documentarista francês Chris Marker (1921-2012), trazendo filmes dele, atividades paralelas e debates sobre o seu trabalho inovador.

 

Entre as programações especiais estão também as homenagens. Uma, ao trabalho do cineasta Ruy Guerra, que chega aos 90 anos, tem vários filmes na programação e participa do festival com uma master class.  Outra, ao compositor e intérprete Caetano Veloso, exibindo filmes que abordam sua trajetória musical, incluindo “Narciso em Férias”, sobre seu período no exílio com Gilberto Gil.

 

Esses filmes todos estão distribuídos em diversas plataformas.  Um modo de ter acesso a tudo isso é fazer um cadastro na plataforma Looke: www.looke.com.br para poder entrar no site www.etudoverdade.com.br e clicar em programação.  Os filmes serão assistidos no Spcine play, no Sesc Digital, na plataforma Itaú Cultural, no Youtube do É tudo verdade e no Canal Brasil, da TV paga.  Tem ainda o foco latino-americano em https://sescsp.org.br/etudoverdade.

 

Para quem ainda não conhece, recomendo mais uma vez o Spcine play e o Sesc Digital – Cinema: #emcasacomsesc, que, além deste festival, disponibilizam ótimos filmes ao longo do ano e mantêm um acervo constante de bom cinema.  E no caso do Sesc Digital, de outros produtos culturais também.  Tudo gratuito, basta se inscrever.

 

Nos próximos dias, estarei comentando por aqui alguns dos filmes em competição do É TUDO VERDADE 2021.  A oferta é apetitosa, muita coisa atraente e absolutamente atual vai ser exibida.  Tem filme que até já incorporou a covid-19 à sua realização.  Acabados de sair do forno.  Não dá para perder.

 

 

 

sexta-feira, 5 de março de 2021

LIBELU - ABAIXO A DITADURA

 Antonio Carlos Egypto




LIBELU – ABAIXO A DITADURA, com direção e roteiro de Diógenes Muniz, o vencedor da competição brasileira do festival de documentários É TUDO VERDADE  2020, realizado  on line,  é de fato um trabalho muito interessante e oportuno.

 

 O documentário reconstrói, por meio de registros, imagens de época e muitos depoimentos, a trajetória do grupo trotskista de resistência à ditadura militar, “Liberdade e Luta”, ou, como ficou conhecido, “Libelu”, que existiu de 1976 a 1985.

 

 De um lado, visto como radical, de outro, como da esquerda festiva, o grupo atuou nas ruas em passeatas e eventos, após a derrota da luta armada, quando o movimento estudantil se reorganizou, e foi responsável pela adoção pública do slogan “Abaixo a ditadura”, que até então não estava consagrado nas manifestações estudantis  .Ao mesmo tempo seus integrantes curtiam festas e eventos com destaque para o rock and roll. Numa época em que a esquerda estava muito bem representada pela MPB. Ou seja, a Libelu ia um tanto na contramão das tendências da época.

 



 É surpreendente observar alguns de seus antigos integrantes dando depoimentos hoje.  Radicais?  De esquerda?  Eduardo Giannetti da Fonseca, Demétrio Magnoli, Josimar Melo, Cleusa Turra, Laura Capriglione, Eugênio Bucci, Antônio Palocci, Reinaldo Azevedo, Paulo Moreira Leite, José Arbex.  Enfim, tem de tudo aí, não é não?  Muito bom esse resgate histórico.

 

Esse pessoal todo traz suas impressões, lembranças, reflexões daquele movimento e daquele período, inevitavelmente visitando a juventude idealista da qual fizeram parte. E enquanto relembram aquele passado encontram as motivações para as escolhas e caminhos tão diversos que vemos que eles tomaram. Podemos fazer comparações com o momento atual e nos surpreender com muitas semelhanças com os dias de hoje.

 

Esse filme estava com previsão de estreia nos cinemas para março de 2021. Em seguida será possível vê-lo em plataformas de streaming e mais para a frente nos canais de tv paga, primeiro o Canal Brasil e depois a Globo News.




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O MUNDO DE GLÓRIA

Antonio Carlos Egypto



 

O MUNDO DE GLÓRIA (Gloria Mundi).  França, 2019.  Direção e roteiro de Robert Guédiguian.  Com Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Anais Demoustier, Robinson Stévenin.  107 min.

 

 

Em “O Mundo de Glória”, a Glória do título é um bebê, cujo nascimento é mostrado no início do filme com grande beleza.  O mundo que a cerca é o dos despossuídos, que lutam bravamente para sobreviver em tempos tão difíceis, com a precarização do trabalho, o desemprego, os baixíssimos salários, a falta de contratos de trabalho que ofereçam as garantias mínimas para uma subsistência digna.

 

A partir da constatação dessa realidade, Robert Guédiguian constrói uma trama que envolve relações familiares complicadas, rivalidade entre irmãs, disputas pelo mesmo homem, machismo, brigas nos casais e abatimento de personagem masculino pela impotência diante das condições materiais da existência e a falta de perspectivas, prostituição, pequenos crimes, morte, prisão e retorno da prisão com seus limites e preconceitos.  E, também, os que se valem de uma pequena vantagem financeira para explorar os mais pobres, comprando e vendendo produtos usados, com alta margem de lucro.

 

Como se vê, o filme se debruça sobre as questões da classe trabalhadora nos dias de hoje, sem, no entanto, vitimizá-la ou santificá-la. Cada um se vira como pode, ninguém é bonzinho, todos têm suas razões para agir como agem e ficando no clichê: em casa onde falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão.

 

A ausência de uma estabilidade laboral entre os que têm profissões modestas e parcos ganhos se torna uma tragédia diante da uberização atual.  Qualquer incidente, acidente, doença, assalto, desentendimento gerando briga, é capaz de produzir sérias consequências na vida deles.  Não há suporte, não há respaldo, o Estado está ausente.  A falsa promessa do empreendedorismo acaba por botar a pá de cal em muitos relacionamentos, famílias, crianças, vidas que ficam em suspensão, na dependência da sorte ou de uma solidariedade de classe, que costuma não vir.

 

Sem o mesmo brilho, mas na linha do trabalho do britânico Ken Loach, o diretor Robert Guédiguian nos ajuda a refletir sobre o que está acontecendo no mundo de hoje, com as pessoas mais vulneráveis, a partir do momento em que a sociedade do Bem-Estar Social do pós II Guerra Mundial implodiu na Europa.  Por aqui é um pouco pior, porque, a rigor, essa sociedade não chegou a existir.  Pelo menos, não em plenitude.

 



O envolvimento emocional com os personagens que “O Mundo de Glória” nos proporciona é importante.  Sentir é conhecer, praticar a empatia é compreender e o conjunto deles mostra um evidente contexto socioeconômico e cultural que preocupa.

 

Somos capazes de sofrer com suas agruras, rejeitar certas condutas, espantar-se com outras, dentro de algumas situações que estão no limite da existência humana.  Mesmo no contexto europeu, um pouco mais suave em relação às condições de vida e moradia do que o nosso.  Se já estava difícil lá e certamente piorou com a pandemia, imagine aqui.  O nosso governo de plantão está descobrindo milhões de invisíveis, que dependeram de um auxílio emergencial, de forma drástica e dramática, para não passar fome.  A que ponto chegamos!

 

O filme de Robert Guédiguian é competente na abordagem, na caracterização dos personagens, no desempenho do bom elenco, na dimensão social que nos mostra com clareza, na capacidade de nos fazer refletir sobre o que estamos vivendo nesse momento particularmente desafiante da história da humanidade.




quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

HONEYLAND

 Antonio Carlos Egypto




HONEYLAND.  Macedônia do Norte, 2019.  Direção e roteiro: Ljubomir Stefanov e Tamara Kotevska.  Documentário.  85 min.

 

Um documentário de grande beleza plástica, esse “Honeyland”.  Começa por panorâmicas e filmagens do alto de uma região isolada da Macedônia do Norte, onde vive Hadtidze, uma mulher de cerca de 50 anos, que cuida de uma colônia de abelhas e da mãe já idosa e doente.  Uma mulher forte e firme, que sabe o que faz e como se relacionar com a natureza e com os animais, especialmente as abelhas.

 

 Para preservar a produção e a natureza, ela divide sua coleta de mel meio a meio com as abelhas, 50% para cada lado.  A simples exposição dessa vida, desse povoado, dessa beleza natural, com uma fotografia primorosa, já valeria o filme.  E como.  Mas os três anos que foram consumidos em sua produção permitiram testemunhar a chegada de uma família de vizinhos, com muitos filhos, 150 cabeças de gado e muito ruído.  Além de uma disposição de produzir mais, que acabará pondo em risco o equilíbrio do lugar e da vida de Hadtidze.  Cada qual tentando viver à sua maneira, porém, descobrindo os limites possíveis.

 



 Conta-se essa história, claro, incluindo encenações, mas revelando algo muito palpável de uma vida real.  Não parece documentário, mas é.  E espetacular.  “Honeyland” concorreu ao Oscar de filme internacional, depois de haver vencido o Grande Prêmio do Júri em documentários, em Sundance.  É o primeiro filme da Macedônia do Norte que estamos vendo, já que, com esse nome, o país só passou a existir em 2019.  Consequência do litígio perdido frente à Grécia, que reivindicou o nome Macedônia para a região que pertence àquele país.

 

O filme, exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, foi muito apreciado e comentado entre os críticos e entre os cinéfilos. Chega agora aos cinemas. Em São Paulo em exibição no Cinesesc.




sábado, 20 de fevereiro de 2021

PRÊMIO ABRACCINE 2020

 

Resgate, cinema de mulheres e pautas urgentes se destacam no Prêmio Abraccine 2020

Em um ano atípico, marcado pela pandemia de Covid-19, com o fechamento das salas de exibição e o consequente adiamento de várias estreias, com o incremento das plataformas de streaming, o cinema demonstrou sua força e sua capacidade de reinvenção seja em formas de produção ou de distribuição. Em seu resultado, que apresentou filmes lançados em diversas plataformas, o Prêmio Abraccine 2020 é uma demonstração disso.

A diversidade de temas e linguagens também se fez mais presente. O resgate de um gênero, o cinema de mulheres e pautas urgentes foram os destaques do ano. Dirigido pelo veterano Geraldo Sarno, SERTÂNIA, foi o grande vencedor do PRÊMIO ABRACCINE DE MELHOR LONGA-METRAGEM BRASILEIRO. O filme conta a história de Antão em seu delírio de morte e é um retorno ao cangaço e ao sertão que marcaram o cinema brasileiro. 

O francês RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS, de Céline Sciamma, sobre o encontro de duas mulheres que descobrem a paixão, recebeu o PRÊMIO ABRACCINE DE MELHOR LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO.

Pela primeira vez, aconteceu um empate triplo no PRÊMIO DE ABRACCINE DE MELHOR CURTA-METRAGEM BRASILEIRO. Os três filmes são: INABITÁVEL, de Enock Carvalho e Matheus Farias, que traz uma abordagem fantástica futurista da temática trans; A MORTE BRANCA DO FEITICEIRO NEGRO, de Rodrigo Ribeiro, resgate experimental sobre a origem e a permanência do racismo; e REPÚBLICA, de Grace Passô, filme político produzido durante a pandemia.

Além dos premiados, a Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema elegeu também o seu TOP 10 de melhores filmes em cada uma das 3 categorias.

LONGA-METRAGEM BRASILEIRO
Vencedor: Sertânia, Geraldo Sarno

Completam o Top 10 em ordem alfabética
Aos Olhos de Ernesto, Ana Luísa Azevedo
Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, Bárbara Paz
Emicida: AmarElo – É Tudo Pra Ontem, Fred Ouro Preto
A Febre, Maya Da-Rin
Fim de Festa, Hilton Lacerda
Pacarrete, Allan Deberton
Sol Alegria, Tavinho Teixeira
Todos os Mortos, Marco Dutra e Caetano Gotardo
Vermelha, Getúlio Ribeiro

LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
Vencedor: Retrato de uma Jovem em Chamas, Céline Sciamma

Completam o Top 10 em ordem alfabética
Adoráveis Mulheres, Greta Gerwig
O Caso Richard Jewell, Clint Eastwood
O Farol, Robert Eggers
Hotel às Margens do Rio, Hong Sang-soo
Joias Brutas, Josh e Benny Safdie
Martin Eden, Pietro Marcello
Os Miseráveis, Ladj Ly
Nunca Raramente Às Vezes Sempre, Eliza Hittman
Você Não Estava Aqui, Ken Loach

MELHOR CURTA-METRAGEM BRASILEIRO
Vencedores:
Inabitável (PE), Matheus Farias e Enock Carvalho
A Morte Branca do Feiticeiro Negro (SC), Rodrigo Ribeiro
República (RJ), Grace Passô

Completam o Top 10 em ordem alfabética
O Barco e o Rio (AM), Bernardo Ale Abinader
Cinema Contemporâneo (PE), Felipe André Silva
Construção (RS), Leonardo da Rosa
Entre Nós e o Mundo (SP), Fabio Rodrigo
Extratos (SP), Sinai Sganzerla
O Que Há em Ti (SP), Carlos Adriano
Vaga Carne (RJ), Grace Passô e Ricardo Alves Jr.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

AMOR, ESTRANHO AMOR

Antonio Carlos Egypto

 




AMOR, ESTRANHO AMOR.  Brasil, 1982.  Direção e roteiro: Walter Hugo Khouri.  Com Tarcísio Meira, Vera Fisher, Marcelo Ribeiro, Xuxa Meneghel, Mauro Mendonça, Íris Bruzzi, Walter Forster.  120 min.

 

Um filme erótico-histórico, produção caprichada, realizada com grande elenco por um dos diretores brasileiros mais competentes da nossa cena cinematográfica: Walter Hugo Khouri (1929-2003).  Essa é uma boa e correta apresentação para “Amor, Estranho Amor”, que ficou tanto tempo sem poder ser exibido por força de decisões judiciais, que o impediram de ser visto no Brasil, a partir de ações impetradas pelos representantes de Xuxa Meneghel, que detinha os direitos de exibição.  Isso desde os anos 1980.  Somente agora o filme volta a ser exibido, pela TV, no Canal Brasil, em operadoras de TV por assinatura.

 

Polêmicas à parte, a trama do filme se desenrola a partir das memórias de um homem hoje poderoso, que morou somente alguns dias numa luxuosa mansão em que vivia sua mãe, uma prostituta que compartilhava com os políticos e outros figurões uma vida de luxo e submissão ao poder.  Esse homem, Hugo, papel de Walter Forster, descobriu a sexualidade aos 12 anos de idade nesse ambiente altamente erotizado, cercado pelo interesse de belas mulheres.  O papel de Hugo menino coube a Marcelo Ribeiro, que não seguiu carreira como ator, apesar de já ter trabalhado com Khouri em “Eros, o Deus do Amor”, no ano anterior.  Talvez por conta mesmo da polêmica que se seguiu a “Amor, Estranho Amor”.

 

As memórias de Hugo adulto, esse personagem que quase não fala no filme, remetem a algo muito intenso e muito forte, que marcou sua vida a ponto de ele preservar essa mansão, um patrimônio arquitetônico, e desejar transformá-la em um centro cultural, muitas décadas depois.  O bordel de luxo dando lugar a um acervo cultural.

 




Anna, papel de Vera Fisher, lindíssima, mas frágil como atriz, a mãe de Hugo, não era a dona do bordel, mas a figura mais importante do local pelo que representava para um grande político paulista, o dr. Osmar, em ótimo desempenho de Tarcísio Meira.  Íris Bruzzi, a Laura, era a dona do negócio.

As memórias remetem ao mês de novembro do ano de 1937, quando eclodiria o Estado Novo, de inspiração fascista, decretado por Getúlio Vargas.  Mas, no prostíbulo, as relações políticas se dão na base da dobradinha café com leite.  São Paulo e Minas tentavam se cacifar para vencer as próximas eleições, que acabariam não acontecendo.  Os personagens do dr. Osmar e do dr. Benício, político mineiro vivido por Mauro Mendonça, urdem uma aliança eleitoral em que uma bela e suposta virgem entrará como presente, moeda de troca na aliança. Aí é que entra Xuxa Meneghel, no papel de Tamara, o “presente”.  Além de servir ao político mineiro, a jovem se envolve na trama com o pré-adolescente Hugo em cenas eróticas e com direito a nudez de Xuxa.  Vamos lembrar que ele tinha apenas 12 anos.  Ela, não muito mais idade, 18 ou 19 anos, mas, obviamente, mais experiente e dona de si.

 

Quanto à nudez, todas as lindas mulheres do filme são mostradas nuas, numa beleza requintada, típica dos trabalhos de Walter Hugo Khouri, cuja inspiração maior sempre foi Ingmar Bergman.  Portanto, estamos diante do chamado filme de arte, que se diferencia da pornografia.  Não visa meramente à excitação do espectador, mas oferece a beleza feminina embalada pela reflexão histórico-política, fazendo uma equiparação muito interessante entre a vida no bordel e as articulações político-partidárias.  O sexo e o poder imbricados em conluio permanente.  E a corrupção entre eles, alimentando tudo.  Muito atual tudo isso, não?

 




Bem, mas por que o tabu, a proibição?  O filme foi lançado em 1982.  Apenas dois anos depois, Xuxa enveredaria para a função de apresentadora de programas infantis na TV e acabaria tornando-se a “rainha dos baixinhos”, na Globo.  Como essa rainha seria vista nua, em cenas eróticas, com um “baixinho” na cama?  Dá para entender a preocupação com a imagem da apresentadora naquele momento.  Mas não para aceitar o banimento de uma obra de arte que, na realidade, em nada compromete a pessoa ou a atriz em questão.

 

É uma pena que o moralismo tacanho vença certas batalhas, provocando retrocessos incompreensíveis.  A própria Xuxa recomenda hoje que se veja o filme, liberado para exibição em 2018.  Um pouco tarde, mas sempre é possível resgatar coisas.  No caso de “Amor, Estranho Amor”, o filme, sem dúvida, merece ser visto ainda hoje.  Tem muito a dizer.  E sua apreciação estética é gratificante.  Até porque a cópia veiculada pela TV está com muito boa qualidade.  O filme já foi exibido há poucos dias, mas fiquem atentos.  Em breve, será possível vê-lo novamente no Canal Brasil.

   


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

CINEMA...EM CASA (6)

Antonio Carlos Egypto

 

Tenho alternado meus dias atuais entre estar em São Paulo ou em Águas de São Pedro, uma vez que a pandemia não dá mesmo trégua.  Nem poderia, aliás.  Com tanto negacionismo, incompetência e falta de planejamento, o Brasil patina vacinando lentamente a sua população prioritária, ainda sem vacinas em quantidade suficiente para isso.  Vocês devem ter visto a divulgação de um estudo sério do Instituto Lowy, da Austrália, que comparou as ações do combate à pandemia de covid-19 em 98 países.  Já sabem em que lugar o Brasil ficou.  Não é brincadeira, em último.

 

Quanto ao cinema, abre com restrições, fecha, volta, com pouquíssimos espectadores. Tudo muito difícil, tanto para produtoras, distribuidores, exibidores, para todos os trabalhadores da área, como para o público.  O jeito é explorar o cinema em casa, cada um com os recursos que tiver.  Eu continuo gostando de curtir meus DVDs.

 




Nestes últimos dias no interior, explorei um box com 6 filmes da Versátil, chamado “Filmes de Tribunal”.  Uma espécie de subgênero dos filmes policiais ou de suspense, que se concentra na investigação de um caso, que costuma acabar formalmente no tribunal.  Com as acusações dos promotores, argumentação da defesa, depoimentos de testemunhas, o júri popular e a participação envolvida da plateia.

 

Dois dramas jurídicos magníficos, que são grandes clássicos que podem ser lembrados, são “12 Homens e uma Sentença”, dirigido por Sidney Lumet, em 1957, e “Testemunha de Acusação”, dirigido por Billy Wilder, também em 1957.

 

Nessa caixa de DVDs, lançada há alguns meses, o destaque vai para os filmes franceses, sendo dois dirigidos por André Cayatte (1909-1989): DOIS SÃO CULPADOS (La Glaive et la Balance), de 1963, e ATENTADO AO PUDOR (Le Risques du Métier), de 1967.  Cayatte foi advogado e cineasta, seu cinema, de muito boa qualidade, se prendia a explorar aspectos críticos da justiça, como a investigação, a coleta de depoimentos ou a pena de morte, por exemplo.  Percebe-se que são filmes de tese, feitos para difundir um conceito, uma ideia importante.  Esse aspecto merece reparos, assim como o modelo tradicional da trama.  Tanto que o advento da nouvelle vague, com sua abordagem do amor e da vida no cotidiano, com leveza e inovação narrativas, obscureceu esse tipo de cinema.

 

Vistos hoje, no entanto, podemos apreciar a qualidade da produção, os desempenhos de grandes atores e atrizes, as boas histórias que exploram.  Em DOIS SÃO CULPADOS, Anthony Perkins (de Psicose), Jean-Claude Brialy e Renato Salvatori têm ótimos desempenhos numa situação em que três suspeitos não podem ser os criminosos, mas dois deles provavelmente são.  E quando vier o impasse, o que fazer?

 

ATENTADO AO PUDOR trata do tema da acusação de abuso sexual na linha do que “A Caça”, do dinamarquês Thomas Vinterberg, desenvolveria com mais profundidade, mas só em 2012.  O filme flui muito bem, mas infelizmente acaba de forma idealizada, como o título original já sugere.  Um elenco de crianças muito bom e uma dupla de protagonistas de primeira sustentam bem o filme.  Destaque para o cantor e compositor (de Ne Me Quite Pas) Jacques Brel (1929-1978) contracenando com Emmanuelle Riva (1927-2017), a grande atriz de filmes como “Hiroshima, Mon Amour”, de Alain Resnais, (1959) e “Amor”, de Michael Haneke (2012).


 

A Verdade


Outro grande diretor francês pré nouvelle vague, Henri-Georges Clouzot (1907-1977), de filmes como “O Salário do Medo” (1953) e “As Diabólicas (1955), tem na caixa o filme A VERDADE (La Vérité), de 1960, protagonizado por Brigitte Bardot.  Aqui, mais do que a resolução do assassinato, discute-se onde está a verdade dos sentimentos e o moralismo da sociedade em relação às mulheres que ousavam se apresentar como donas de seus corpos e de seus desejos.

 

O CASO DOMINICI (L’Affaire Dominici), de 1973, de Claude Bernard Aubert (1930-2018), relata um caso real tão surpreendente desde o seu início, que foi reaberto e continua chocando pelas decisões jurídicas tomadas em cima de coisas incompreensíveis ou misteriosas.  O destaque aqui é o ator Jean Gabin (1904-1976), como protagonista, em um de seus últimos trabalhos. 

 

Dois filmes dos Estados Unidos estão presentes, também.  O mais antigo da caixa é O CRIME NÃO COMPENSA (Knock On Any Door), de 1949, protagonizado por Humphrey Bogart (1899-1957), dirigido por Nicholas Ray (1911-1979), de filmes como “Juventude Transviada” (1955) e “Johnny Guitar” (1954).  Aqui também há uma tese, a de que por trás dos crimes e delitos estão a pobreza, a falta de estrutura familiar, a desigualdade e a exclusão social.  Tudo piorou muito desde então.  Se essa consciência tivesse gerado políticas sociais relevantes em escala mundial, a história poderia ter sido outra.  Afinal, nem havíamos chegado aos anos 1950 e tudo já parecia claro.  Bata em qualquer porta e encontrará a mesma coisa por esta zona de exclusão, é o que diz o filme, já a partir de seu título original.

 



As gangues juvenis já estavam em evidência.  Delinquência e racismo são temas de JUVENTUDE SELVAGEM (The Young Savages), de 1961, dirigido por John Frankenheimer (1930-2002), protagonizado por Burt Lancaster (1913-1994).  A questão social em relevância, mais uma vez.

 

A escolha dos títulos de “Filmes de Tribunal” foi feliz na medida em que vai além dos meandros investigativos para jogar luz na sociedade e em seus problemas, além de questionar a famosa justiça, tão desejada, mas tão difícil de ser alcançada.




 

domingo, 3 de janeiro de 2021

AZNAVOUR POR CHARLES

Antonio Carlos Egypto

 




AZNAVOUR POR CHARLES (Le Regard de Charles).  França, 2019.  Direção de Marc di Domenico.  Documentário.  Voz de Romain Duris.  83 min.

 

 Charles Aznavour (1924-2018) é um dos maiores ícones da cultura francesa.  Cantor de enorme sucesso internacional, compositor (letrista) e ator de cinema, deixou sua marca indelével nas expressões culturais do século XX.

 

Entre suas canções famosas, basta lembrar algumas que todo mundo conhece (mesmo que não identifique pelo nome): La Bohème, She (Tous Les Visagens de l’Amour), For Me Formidable, Que C’Est Triste Venise, Hier Encore, Il Faut Savoir, The Old Fashioned Way (Les Plaisirs Démodés) estão entre as mais de mil músicas gravadas por ele, ao longo de 80 anos de uma brilhante carreira.

 

Trabalhou como ator de cinema, com diretores importantes, como François Truffaut, em “Atirem no Pianista” (1960), com Claude Chabrol, em “Vidas em Jogo” (1976) e em “Os Fantasmas do Chapeleiro” (1982), com Jean Cocteau, em “O Testamento de Orfeu” (1959), com Claude Lelouch, em “Viva La Vie!” (1984), com Volker Schlöndorff, em “O Tambor” (1979) e com Atom Egoyan, de origem armênia como ele, em “Ararat” (2002).  Foram mais de 60 filmes, que nele tudo foi vasto e grandioso.

 

O que podemos ver agora em “Aznavour Por Charles” é uma nova faceta do talento dele: as imagens que ele filmou ao longo da vida.  É dessa matéria prima que se nutre o documentário construído e editado por Marc di Domenico.

 





Em 1948, a maior cantora francesa de todos os tempos, Edith Piaf (1915-1963), deu a Charles Aznavour um presente que o encantou, uma câmera.  Ele começou a filmar e nunca mais parou.  Registrava o que via e lhe chamava a atenção nas viagens que fazia por todos os cantos.  Interessado nas pessoas, nos costumes, nos lugares e no que o envolvia profissionalmente.  Filmava também suas mulheres, claro.  Por vezes, até “dirigia” as filmagens que suas mulheres faziam dele.  Mas não buscava “selfies”, registrava o que via e lhe interessava no outro, como uma forma de se aproximar do que não conhecia.

 

Guardava esses rolos todos que acumulou ao longo do tempo junto com registros que outros faziam de suas apresentações na carreira musical e nos filmes de que participava.  Para tal, tinha um cômodo especial e secreto só para guardar tudo isso.

 

Percebendo que o final da vida estava próximo, já com mais de 90 anos, abriu seu tesouro ao cineasta Marc di Domenico, para que fizesse o “seu” filme, confiando em que ele saberia como utilizar todo aquele material para que não se perdesse para sempre.

 

Conhecemos, então, um pouco da vida e das imagens que Aznavour escolheu filmar, ao lado das imagens dele próprio, embaladas por sua música.  O acervo também continha cadernos de anotações e reflexões com muitos textos escritos por Aznavour, que foram a base da narração do filme, que conta a história do artista e de suas imagens filmadas pela voz do ator Romain Duris. Fascinante. 

 

O diário filmado de Aznavour se torna, assim, mais um legado da grande obra que marcou sua vida artística.  Imagens da câmera original de Piaf, que ele nunca abandonou, de Super 8, 16 mm, compõem esse painel do trabalho de “cineasta” de Charles Aznavour.  E revela uma sensibilidade e uma curiosidade humanas contundentes, em sua simplicidade.